quinta-feira, 31 de julho de 2008

Meu fiéis leitores sumidos




Um dos leitores mais fiéis deste blog é o Mwho. Sei que ele é de Brasília, suspeito até quem ele seja, mas não tenho certeza. E não sou de afrontar ninguém. Hoje em dia, eu digo. Antigamente eu era um cara muito afrontador, mas acho que perdi o pique. Sou meio péba em afrontação, hoje em dia.

Pois o Mwho era um comentarista assíduo que, de repente, sumiu. Então, eu resolvi verificar o que aconteceu. Felizmente, eu tenho tão poucos leitores que eu vou atrás deles na rede, quando acho que eles desistiram de mim. Alguns desses leitores, como o Mwho, também têm blog, o que facilita um bocado essa busca de paradeiro eletrônico. Fui lá no Esfarelando (http://www.esfarelando.blogspot.com/) e descobri que o Mwho está na Argentina, se esbaldando em tango, vinho e Buenos Aires. Acha tudo bonito. Até cemitério achou lindo. Está elogiando o futebol argentino, comprou um santinho do Maradona e está todo cheio de “don’t cry for me”. Um horror.

Pô, Mwho, qualé a tua, rapá? Brasileiro, pra valer, tem que ir lá no balcão da varanda da Casa Rosada e gritar “PENTACAMPEÃO, BRASIL – SIL - SIL”. E depois ainda colocar la derriere em cima do balcão e berrar “EU, EU, EU, O BOCA SI F ....” só para eliminar a possibilidade de algum mal-entendido. Ou eliminar a chance de não ser eliminado. Algo assim.

Do mesmo modo que o Mwho, também sinto falta de comentaristas das antigas, de quando eu era uma alma gentil e despretensiosa do mundo blogueiro. Hoje sou a capa do Batman pernóstico e envaidecido que vos fala. Sinto falta, por exemplo, da Maria. Desconfio que a Maria é a Maria Eugênia, a ilustradora genial dos livros infantis que meus filhos adoram. Mas não tenho certeza. Vivo indo lá no blog dela, mas faz tempo que ela não atualiza.

Pô, Maria, dê notícias!

Também tenho saudades da fotógrafa e palhaça de hospital, a Mawa, que tem uma língua ferina e mordaz, um texto perspicaz e tocante, além de uma lente arguta. Faz tempo que ela não deixa comentário. Então outro dia eu visitei o blog dela e descobri que ela está em Cuba, tirando um monte de fotos. Acho as fotos dela muito legais, mas não tenho o menor saco para Cuba lançar. Quer dizer, tirante o trocadilho, aquela ilha já deu o que tinha que dar.

Pô, Mawa, vê se aparece!

Outra pessoa sumida é a Uai. Gosto muito dos comentários dela, que são de uma sinceridade e entusiasmo a toda prova. A Uai, além de cozinheira de mão-cheia, dizem as boas línguas que é doceira de dar inveja na Dona Benta e Tia Anastácia. Pois a Uai sumiu. Deve estar numa fazenda lá no interior de Minas, ou então foi curtir uma praia, que nem o trem mineiro é de ferro!

Pô, Uai, volta logo!

E cadê aquelas meninas Redatoras? A Elisa e a Valéria. Elas escrevem textos bem legais e vivo indo lá no http://redatorasdemerda.blogspot.com/ . Teve um tempo que elas também passavam por aqui, mas acho que a qualidade dos meus textos despencou com o tempo reduzido para a escrita.

Pô, Meninas, escrevam mais, escrevam sempre!
Eu também gosto e curto ler blog. Só não dá para surfar muito agora.

Por último, um recado para quem não sumiu:

Pô, vê se não some.

quarta-feira, 30 de julho de 2008

A minha opinião sobre tudo



Eu não gosto de deixar pergunta sem resposta. É um péssimo hábito, porque as pessoas imaginam que eu sou um cara metido a saber de tudo. Isso também é verdade, mas é apenas um fato derivado da mania de responder a tudo, mesmo que não esteja certo. Sou incapaz de deixar alguma coisa em branco. É um vício, eu admito. Tento me policiar porque isso poderá me meter em alguma encrenca.

Hum, isso está confuso. Vou tentar explicar. De alguma maneira, na minha mente ficou introjetado que se alguém me faz uma pergunta é necessário responder, mesmo que eu não saiba a resposta. E a resposta não pode ser “eu não sei”. Porque é muito desagradável para quem pergunta, já que se deu ao trabalho de perguntar para você, ouvir que perguntou a um total ignorante no assunto. Ora, se aquela pessoa perguntou alguma coisa para você, então é sinal de que você emitiu sinais inequívocos de que saberia responder perguntas sobre o assunto. Ou, de alguma maneira, a pessoa intuiu que você haveria de ser o esclarecedor de dúvidas individual e portátil dela, portanto você deve responder alguma coisa que preste. Está me acompanhando?

Pois então. Outro dia me perguntaram se eu sabia se valia a pena aplicar em ações nesse momento. Foi o Mr. Flowers, um cara lá no cúbi (cubículo é uma palavra grande demais para um lugar tão pequeno) que me perguntou. Eu falei assim:

_Vou virar. Vou virar. Vou virar – e todo mundo se encolheu para que eu pudesse virar a cadeira e conversar com o colega, frente a frente. Quer dizer, meio de lado. Lá é muito apertado.

Eu olhei para o Mr. Flowers e percebi que ele realmente achava que eu sabia alguma coisa sobre o mercado financeiro e também sobre a melhor maneira de acumular capital. Como alguém consegue imaginar coisas assim olhando para a minha careca? Eu não faço a menor idéia. Eu tenho uma aparência bem péba, pareço alguém que perdeu tudo na bolsa, inclusive a bolsa e os cabelos. Não sei como alguém tem coragem de perguntar sobre como ganhar dinheiro para mim. Eu não sei ganhar dinheiro. Eu tenho que trabalhar para isso. Quem sabe ganhar dinheiro tem um monte de gente trabalhando para ele. Aprendi isso vendo a Lista de Schindler.

Mas não poderia decepcionar o sujeito com um simples “não sei”. E também não poderia ficar em silêncio, como o sábio sufi. Afinal de contas, tenho uma auto-imagem a zelar. Portanto, minha caríssima Kombi de leitores, “jo" arqueei minhas sobrancelhas como só os especialistas da CVM conseguem arquear e tasquei a resposta.

_Existem sempre bons momentos para investir em ações. E há probabilidade de que este seja um deles, embora o mercado venha apresentando sinais de mudanças e instabilidades. Nesses momentos de grande tensão é prudente aguardar e arriscado assumir compromissos que carreguem alguma margem para dúvidas. Em outras palavras, eu aguardaria o momento propício para investir com grande segurança e retorno de dividendos. Assim mesmo, somente se eu soubesse que aquele instante realmente seria adequado para a obtenção inequívoca de bons lucros. Como a volatilidade no mercado financeiro é muito grande, certamente o melhor, sem dúvida alguma, é estar seguro de que essa é mesmo uma idéia da qual você não irá se arrepender.

_Aham – disse o meu colega de cúbi, o Mr. Flowers. E eu avisei que ia virar de volta e virei. Fiquei encarando a tela de computador à minha frente. Prestei a maior atenção aos ruídos. O Mr. Flowers e os outros dois à minha volta ainda estavam, audivelmente, prendendo a respiração.
_Você também manja de enriquecimento de urânio? – perguntou o Mr. Flowers.

terça-feira, 29 de julho de 2008

Os pais ficam com os pébas



O Dia dos Pais está chegando e eu resolvi fazer uma lista de coisas que eu quero ganhar. Resolvi fazer isso para facilitar a vida dos outros. Eu gosto muito de facilitar as coisas para os outros, especialmente quando o beneficiado, em última instância, soy jo.Na verdade, ao invés de lista, resolvi fazer uma tabela, com três colunas. De um lado, eu ponho o nome da pessoa. E na outra coluna, eu coloco o presente que eu quero ganhar daquela pessoa. Na última coluna, eu coloco um presente que eu acho a cara daquela pessoa, uma coisa que eu tenho certeza de que ela gostaria muito de receber de presente. Essas tabelas são legais se são "esquecidas" em locais estratégicos da casa, para que sejam encontradas "por acaso".

Obviamente, a tabela começa com os nomes dos meus filhos. Do menino, eu gostaria de ganhar um monte de beijo e abraço. Da menina, eu gostaria de ganhar um monte de abraço e beijo. É a mais pura verdade. Não tem a menor demagogia. Adoro ganhar beijo e abraço de presente das crianças.

Na coluna dos presentes que eles gostariam de receber, eu escrevo boneco do Mutano e Poly. Em Mutano eu coloco um asterisco, porque meu filhote muda muito de idéia. A cada semana, a inicial do nome do boneco predileto coincide com as letras do alfabeto. E também com alguns números. Em Poly, eu coloco dois asteriscos, porque minha filha também troca muito de pensamento e amanhã pode ser que ela queira um cavalinho com rabo de arco-íris. Ela oscila muito entre cavalinhos e bonequinhas Poly.

Começa então a parte complicada da tabela. Em Patroa, eu coloco Meias. Aí eu risco e coloco Gravata. Aí eu penso melhor e escrevo Abraço e Beijo de Língua(French Kiss). Na coluna de presentes a dar, eu coloco Jóias e desenho uma carinha sorrindo. Rá!Rá! É brincadeira, claro. Se eu tivesse grana para jóias eu estaria aplicando minha fortuna em obturações dentais, ou em coisas menos voláteis, como o supermercado. Mas aqui estou eu, tentando a sorte na mega-sena.

Não tem mais ninguém para dar presente para mim. É engraçado, porque mãe ganha presente de tudo quanto é lado da paróquia. Mas pai não tem a mesma sorte. A gente só ganha um, se ganhar, da companheira. E nem dos meninos a gente ganha nada, porque em agosto as escolas estão recomeçando as aulas e não dá tempo para preparar cartãozinho de coração, ensaiar jogral, declamar poesia e aquela coiserada toda que as mães recebem.

Aliás, é até sacanagem comparar dia dos pais com dia das mães. Mãe ganha flor na rua, de sujeitos que nunca viu. E todo mundo acha legal. Agora nunca vi um pai ganhar flor, de mocinhas vestidas de biquíni, no meio da rua. E nem precisava ser de biquíni. Podia ser de mini-saia. Nunca vi. Eu acharia muito singelo ganhar flores de mocinhas na rua, de mocinhas na padaria, de mulheres guapas nos shoppings. Guardaria essas flores com o maior carinho, juro. Ou talvez escondesse, para a Patroa não ficar com muita raiva.

Bom, o que acontece é que os pais ficam com aquelas coisinhas pébas, improvisadas. Pébas, para quem não sabe, é um adjetivo que significa chulé, chué, chinfrim ou modesto. E não adianta o comércio investir na publicidade. Pais não alavancam o setor igual às mães. Pais, no máximo, garantem um troco. Aliás, não sei se você já reparou, mas assim que acaba o dia dos pais, uma hora antes da virada, já começam as propagandas do Dia das Crianças. Com Mãe é diferente. A rebarba do comércio dura umas quatro semanas, só para troca de mercadorias. Presente de pai? Você tem 24 horas pra trocar, contando do domingo. E invariavelmente, se você ganhou alguma coisa trocável, aquele conjunto do Boticário era de uma promoção que “já acabou, moço, se quiser outro tem que inteirar a diferença”. E a diferença é o dobro do preço do treco que você ganhou.

Mas isso é raro de acontecer. Isso, que eu digo, é ganhar uma coisa trocável. Em geral a coisa péba é de um improviso total e irrecorrível. Eu mesmo cansei de dar cinzeiro, carteira, pulseira, cartão e uma porção de coisas pébas para o meu pai. Coitado. E ele fazia cara boa, atrás do bigode. Uma vez fiz um treco feio pra dedéu com um pedaço de couro e dei para o meu pai. Disse que era pra ele levar para o escritório. Eu deveria era ter levado uma surra. Mas ele me deu um abraço que eu nunca esqueci, de tão bom. Até hoje, quando quero lembrar de abraço bom eu lembro daquele presente péba que eu fiz.


É fogo. Os pebas ficam para nós. Mas um pai não se deixa abalar por causa disso. Falando sério, a única coisa que abala a gente, de verdade, é não ganhar o abraço e o beijo dos filhos. Por isso, a parte mais fácil da tabela fica por último. O vovô já sabe o que vai ganhar. Depois daqueles montes de presentes pébas, só dou abraço e beijo no meu pai, no dia dos pais. Coisa que ele nem pode trocar.

segunda-feira, 28 de julho de 2008

A última palavra



Eu conheço o Cabeça desde que ele tinha 12 anos. Então, a gente tem um certa intimidade pra sacanear um ao outro. Verbalmente, é claro!

O Cabeça e a esposa dele estiveram no Peru. Ele gostou do artesanato local, mas só até perceber que todos os lugares vendem as mesmas coisas. Parece o Nordeste turístico. No Nordeste tem esculturinhas em barro, xadrez em barro, com lampião e cangaceiro. Vasinho. Camisa de algodão cru. Renda, bordado e rede. E depois você começa a ver tudo igual, só que em outro lugar. No Peru, é a mesma coisa. Pisco, gorrinho de lhama, bolsa de lhama, pisco, aquelas porcariazinhas que os caras vendem com cara triste, de fazer dó, “hecho a mano”. E de repente, começa tudo de novo. Custa uma merreca em soles, ou sólis, ou solzinho. Mas é difícil achar um troço diferente.

_Lembrei de você, Careca. Quase trouxe um artesanato típico.
_Pôxa, não precisava.
_Eu sei. Tanto não precisava que não trouxe. Só pensei em trazer.
_A lembrança é o mais importante.
_A lembrança é o c...
_É mesmo. E o que você ia trazer?
_Um falo esculpido, tipicamente inca, ou maia. Um autêntico Peru de pedra.
_Eu só aceitaria se viesse com a inscrição: Estive no Peru e lembrei de você!
_Rá, rá, rá!
_Ou podia ter mandado um cartão: “Escrevo aqui, sentado no colosso de Machu Pichu, vide verso ...
_Isso me lembra aquela música, “Quando voa o condor”...
_ “E a gente voa atrás”...
_Meninos, chega! – gritam as Patroas.

Acontece que o Cabeça voltou impressionado com a beleza e a magia do Machu Pichu.

_Mas e aí, Cabeça, gostou de verdade do Peru?
_Vai começar a sacanagem.
_Quiéisso? Pergunta inocente.
_Gostei, quer um pra você?
_Ah, qualé Big Head, é só uma pergunta normal.
_Normal é o c... seu Careca!
_Pô, Cabeça, você é um cara inteligente. Deixa de ser ressabiado. Só fiz uma pergunta corriqueira. Gostou do Peru?
_Tá legal. Gostei. Gostei muito. Foi incrível.
_E o dono? Foi carinhoso?

Não façam isso em casa, por favor.

domingo, 27 de julho de 2008

Leishmaniose no lago norte

Dois belos cães que a minha irmã criava no quintal de casa tiveram que ser sacrificados há coisa de dois meses. Ficamos chocados. Mas não teve jeito. Os dois estavam com leishmaniose.

Trata-se de uma doença infecciosa, que também pode provocar lesões cutâneas, inclusive em humanos. Para os cães, não existe cura, pois existe uma chance muito grande de reincidência. Os veterinários sempre recomendam o sacrifício. Para os seres humanos, a leishmaniose representa um risco significativo, pois essa enfermidade é transmitida por mosquitos que carregam protozoários parasitas das células fagocitárias nos mamíferos. Ou seja, esses protozoários atacam as células que fazem a defesa das outras células.

Desse modo, foi preciso sacrificar os bichos e também dedetizar muito bem a casa, para evitar a possibilidade de novos mosquitos voltarem a picar mamíferos da residência. Minha irmã avisou os vizinhos, acionou a Zoonoses, cumpriu o seu papel de cidadã. Outros animais da casa e os humanos também fizeram exames para verificar a possibilidade de novas vítimas. Aliás, a Zoonoses mandou gente para coletar amostras de sangue de todos os animais da rua dela e de ruas próximas. Mas os resultados não saem.

Para aumentar a insegurança, após conversar com outras pessoas, ficamos sabendo que a Zoonoses possui uma fila com cerca de mil e quinhentos cães para serem abatidos. Tentei, mas não consegui confirmar essa informação. Essa bicharada toda estaria com a doença.

Por isso, eu agora vou para o espelho, dou dois tapinhas nas bochechas e digo:

_Jo no soy um perro no!

sábado, 26 de julho de 2008

O sorriso do gato



Acordei ontem com uma idéia noventa por cento Keri Smith. Alguma coisa como aprender o que uma criança ensinar para mim, ou descobrir, de verdade, uma coisa nova com uma criança. Isso vive acontecendo, mas em geral não presto atenção, ou não me dou ao trabalho de dizer que aprendi isso com o meu filho, ou com a minha filha. Talvez isso seja, lá no fundo, um reflexo do ranço e desdém para com as pessoas que nos ensinam coisas. A verdade é que nós (no sentido de todo mundo) não valorizamos quem transmite conhecimento, não damos o menor valor a quem divide a pelota, a quem é professor de verdade.

Então passei o dia prestando uma atenção danada nas crianças para ver se aprendia alguma coisa. Fiquei observando o meu filho, de cinco anos, e cheguei a anotar frases que ele disse a respeito de coisas à toa. Mas nada. Prestei uma atenção calculada na minha filha, de três anos, mas também não obtive muito êxito. Ela é cheia de observações super-mega-sérias e ponderadas, mas que não chegam a carregar uma tonelada de sabedoria sufi. E ontem parece que os dois passaram o dia sem frases brilhantes, sem nada de extraordinário. Eu me senti um aluno traído. Pôxa! Justo quando eu prestei a maior atenção, não acontece nada!

Aí fui dormir. De madrugada, depois de uma cotovelada escandalosa da Patroa, fui ajudar a minha filha a ir ao banheiro. Eu estava naquele estado meio zumbi, com um olho semi-aberto e outro semi—fechado, insistindo em procurar focar o meu cérebro. Não consegui encontrar os meus óculos e dei uma topada com o Drummond na quina do corredor. Todo poeta, ainda que seja o meu dedão do pé esquerdo, não vê a hora de aparecer. A topada acendeu uma luz dolorida atrás da minha cabeça. Assim, já desperto e com dor, pude auxiliar melhor a minha princesa a fazer suas necessidades.

Ela tem um extraordinário bom humor e gosta muito de conversar. Mesmo de madrugada. Enquanto eu esperava, ela começou o processo de me atropelar com perguntas seguidas, sem esperar pelas respostas. Ela gosta muito dessa brincadeira, que procurar confundir o outro com a velocidade das perguntas.
_Pai, você tá dormindo?
_Pai, você tá com sono?
_Pai, você tá sonhando?
_Pai, você faz uma mamadeira?
_Pai, você está com fome?
_Pai, você deixa eu assistir TV?

E então eu respondi:
_Não.
_Sim.
_Não.
_Vou fazer.
_Não.
_Não, está muito tarde, não é hora de assistir TV e nem de conversar.
_Tá bom, paiê, eu também estou com sono.
E depois que eu fiz a mamadeira, ela pediu que eu ficasse mais um pouco com ela, só enquanto ela tomava a mamadeira. E enquanto ela tomou a mamadeira, ela ficou beliscando o meu cotovelo, de leve.

Mesmo no escuro, quando eu cobri seus pés com o cobertor, pude ver que ela dormia sorrindo. Acho que o pulo do gato é intransmissível, intransferível e imprestável se for ensinado. E minha filha, quando dorme, tem o sorriso de quem tem o pulo do gato.

sexta-feira, 25 de julho de 2008

Coisas bestas sem o menor sentido



Ao mesmo tempo em que eu procuro me concentrar nas coisas banais para tirar algum proveito maior dos afazeres cotidianos, eu também me pego fazendo coisas bestas sem o menor sentido. Por exemplo, descobri outro dia que eu faço caretas para o espelho antes e depois de escovar. São caretas caprichadas, de verdade, com a língua para fora, olho arregalado, dá pra ver aquele sino da garganta. Aí pratico um pouco de portunhol. "Basta ponar la lengua para fuera"! Não tem o menor sentido fazer caretas sozinho, no banheiro, mas faço. Agora o portunhol faz o maior sentido. Todo mundo diz que o portunhol é "la lengua del futulo". Talvez as caretas sirvam para espantar alguma coisa. O sono. Ou o meu portunhol.

Outra coisa esquisita é a minha mania de checar portas. É normal uma pessoa verificar se fechou mesmo a porta do carro, se trancou de verdade a porta de casa. Mas eu faço isso pelo menos umas três vezes seguidas. Se eu estou sozinho e já estou na porta do carro e me bater a dúvida sobre a porta de casa, só vou sossegar se subir para checar. Às vezes o que me salva é que estou voltando para checar a porta de casa, mas aí volto para verificar se eu havia mesmo fechado a porta do carro. Aí eu olho para o relógio, falo “que se dane” e me mando, senão chego atrasado.

Besteira também é a minha mania de emendar clips. E eu nem sabia que eu tinha essa mania. Foi uma pessoa lá do cúbi (é pequeno demais para se chamar de cubículo) que me alertou para essa mania. Acontece que eu não consigo chegar perto de um monte de clips sem, insconscientemente, começar a emendar os clips. Faço cadeias de clips quilométricas e nem percebo. Mas os outros caras ficam putos. Toda hora que precisam de um clips, puxam uma fila gigantesca, que são obrigados a desmontar. Perde-se um tempo danado com isso. Então, agora fico me policiando para não emendar clips. Dos outros. Que ninguém é de ferro. Os meus clips, eu vivo emendando.

Depois eu me lembrei que já obtive algum avanço com os clips. Teve uma época, mais longínqua, em que eu retorcia os clips, fazendo pequenas esculturas: homenzinhos, mulherzinhas, dinossaurinhos, pterodáctilos, a nave espacial de Luke Skywalker, a ponta da orelha do Spock, coisas assim. Aí parei com isso no dia em que espetei o dedão numa tentativa de entortar um clip. Sangrou um bocado. Doeu à beça. E eu desisti de um futuro grandioso na escultura de clips.

Superei os clips porque eu fiz que nem a pauta brasileira de importações. Substituí. Troquei os clips pelas esculturas em papel de balinha. Depois substituí o papel de balinha pelo papel do post-it, aproveitando a parte que é mais grossa por causa da cola. Depois substituí o post-it pelo papel de balinha, num verdadeiro retorno ao expressionismo mais original da minha arte de esculpir em papel. Aí minha mulher fez um Tsuru (Grou) com papel de origami para dar de presente a alguém. Quando uma pessoa está doente, é costume oferecer mil dobraduras de Grou para que ela se restabeleça o quanto antes. Nesse dia, só um Grou já foi capaz de me restabelecer. Eu me curei de achar que sabia alguma coisa de escultura. E eu me convenci do meu amadorismo rudimentar. Parti para outra.

Foi assim, graças a coisas bestas e sem o menor sentido, que um dia eu resolvi que faria um blog. Agora, com licença que eu vou checar se eu tranquei a porta de casa. Mas, primeiro, preciso checar a porta da geladeira. "Puertas!"

quinta-feira, 24 de julho de 2008

Uma memória no meu ouvido

Eu aprendi a mergulhar quando tinha uns cinco anos de idade. Dentro d’água, meu pai me pegava por debaixo dos braços e me atirava perto, numa beirada de rio. Eu batia os pés no fundo e subia rápido, feliz da vida. Era a brincadeira preferida junto com os meus irmãos. Às vezes não conseguia bater o pé no fundo e isso me dava um desespero danado. Eu me sacudia todo dentro da água e quando achava que não ia conseguir, a mão salvadora do meu pai de repente aparecia do nada para me salvar. Ou meu irmão me ajudava. Ou minha irmã me ajudava. Havia sempre alguém a quem recorrer. Eu não me sentia inseguro.

A água do rio é turva e escura na minha lembrança. Eu não conseguia enxergar nada direito. Mas eu uso óculos para miopia desde os seis ou sete anos, não lembro quando comecei. E comecei com grau forte. Talvez eu já fosse míope naqueles mergulhos de rio, quando aprendi a nadar.

Na beira do rio, existe o mito de que se você engolir um peixinho vivo, você aprende a nadar. Eu lembro de ter tentado engolir uns filhotes de piau. Lembro de ter sonhado que havia engolido um peixe e que havia me transformado num menino peixe, meus olhos gigantes de peixe enxergando o mundo debaixo d’água. Lembro de ter vencido o nojo e de ter chupado uns ovos de tartaruga numa praia de rio, junto com um bando de outros meninos. Um deles, muito sabido, tinha até levado um saleiro. Lembro de ter passado mal.

Lembro da vez que a minha mãe levou uma ferroada de arraia de fogo. Lembro de que foi um índio que fez um corte fundo na batata da perna da minha mãe. E não sei se eu lembro ou se fantasio que ele, esse índio xavante, chupou o sangue e cuspiu no rio. Talvez seja fantasia, pois esse índio tem a mesma cara do índio que eu imagino do “Último dos Moicanos”, desde muito tempo antes do livro do F. Cooper ter virado filme com o Daniel Day Lewis.

Lembro de muitas coisas de quando eu tinha cinco anos de idade. E às vezes meu pai se surpreende com essas lembranças. E depois eu penso que talvez nem lembre de tanta coisa assim, de ter presenciado. Mas tenho uma boa memória de ouvido, de visto e de leitura. Lembro de coisas que outras pessoas me contaram baixinho, cochichando. O que também não é vantagem nenhuma. Eu esqueço de perguntas importantes que acabei de fazer para pessoas com que preciso falar.

Lembrei disso outro dia, na piscina, quando fazia a mesma coisa com os meus filhos e sobrinhos. Eu os atirava, um a um, na parte mais funda da piscina. Os meninos adoraram. Minha princesa não gostou muito. Não pediu para repetir. Meu filho adora essa brincadeira. Eu não vejo problema, desde que ele esteja de bóia ou colete. Ele aprendeu a mergulhar numa piscina rasa, abaixando a cabeça e jogando os pés para trás. E já está na aula de natação desde o início do ano.

Sempre fico admirado com o quanto ele é mais destemido do que eu jamais fui. Mas por outro lado, isso talvez seja só falta de juízo, comum a todo menino.

Ou talvez esteja na hora de engolir um peixe vivo.

quarta-feira, 23 de julho de 2008

A cafeteira fiel



Eu não sou epicurista. Mas sempre ouvi que devemos buscar o prazer de fazer o que fazemos nas menores coisas, especialmente nas atividades do dia-a-dia, que não costumamos valorizar. Com isso na cabeça, tenho buscado extrair o máximo de prazer possível de tarefas como por a mesa do café-da-manhã, fazer mamadeiras e aprontar as crianças.

Se você for me visitar de manhã, vai levar um susto ao olhar para a mesa. É uma espécie de mesa Frankenstein. Raramente uso uma toalha. Coloco primeiro os retângulos de jogo americano sobre a mesa de madeira. A Patroa comprou uns novos, outro dia, de palitos de madeira costurados, com um pano de forro por baixo. São só quatro, então tenho que pegar pelo menos dois de outros jogos americanos. Em geral, acabo pegando panos de jogos diferentes. E a mesa acaba com quatro retângulos de uma cor e mais dois retângulos, cada um de uma cor bem esdrúxula, como laranja e verde.

Estilistas torceriam o nariz para essa combinação horrorosa de cores e texturas sobre a mesa. Mas eu olho com os meus olhos de sono. E acho legal à beça.

Aprendi a curtir a colocação das coisas na mesa. Em dois dos quatro retângulos iguais eu coloco duas chávenas com pires e pratos. Nos outros dois retângulos desse mesmo jogo, para as crianças, coloco um pratinho de plástico colorido( um amarelo e outro laranja) e um copo com alça larga. Um dos copos é florido. O outro traz um monte de macacos desenhados. Em cada um dos retângulos restantes eu distribuo o que sempre vai à mesa. A mantegueira, a faca de manteiga, o açúcar, as colheres, a faca de pão, o pão, o café e a jarra de leite.

Gosto muito da jarra de leite. É branca, igual àquela que aparece num quadro do Vermeer. A cafeteira é razoável. Ela também é branca e bem pequena, nos acompanha desde o casamento. Durante os cinco anos em que fomos somente um casal ela segurou a onda, com uma pequena falha. Quando você a usa, sempre escorre uma gota de café do bico largo, por mais cuidado que você tome. Sempre foi assim, mas é uma cafeteira fiel, está conosco há muito tempo, não vamos desistir tão fácil.

Procuro variar as coisas de comer, no café da manhã. E às vezes eu me enrolo um pouco e nem chego a fazer alguma coisa para comer. Ou então a Patroa faz. Mas, em geral, gosto de pão-de-forma sem casca, manteiga, presunto e queijo. Pode ser um sanduíche quente ou frio. Não existe regra. E uma fruta. Maçã pequena, ou meia maçã. Banana. A mexirica que tiver. E às vezes nem pego uma fruta. E tem também as vezes em que eu saio correndo, depois de engolir uma xícara rápida de café.

Enquanto preparo as coisas para o café-da-manhã, eu também faço as mamadeiras e fico com as crianças. É bem legal. Até bem pouco tempo, eu gostava de deixar as mamadeiras no jeito, só faltando adicionar água, para fazê-las rapidamente no período da manhã. Deixava quase tudo pronto à noite, antes de dormir. É um bom método, mas você não curte a mamadeira. Descobri que o melhor é fazer tudo ao mesmo tempo. Preparar a cafeteira enquanto a água da mamadeira esquenta no micro-ondas. Chacoalhar a mamadeira depois de por a mesa, rapidinho. E escovar os dentes da minha princesa logo depois dela tomar a mamadeira, abraçada comigo, no sofá.

Por último, depois de escovados e finalizados os números um e dois do banheiro, trocar de roupa nas crianças. O menino, de cinco anos, praticamente já se veste sozinho. E a menina, três anos de idade e maravilhosa, sempre inventa um jeito de complicar o que é simples. Ela sempre acha que a roupa que eu escolho não é a que ela quer. Por outro lado, ela não escolhe roupa nenhuma se eu não escolher primeiro. Então aprendi a fingir que a roupa que eu quero que ela escolha não é a que eu quero, mas a que ela quer. Dá trabalho, mas funciona.

A questão com o meu filho não é a roupa, mas o calçado. Eu falo para ele se calçar e naturalmente ele diz “é claro!” e vai fazer outra coisa importante, como verificar se o boneco do Ben 10 resiste a umas pancadas do boneco do Batman. Ainda não consegui aprender uma maneira de fazer com que ele esteja calçado e pronto para sair rapidamente. Mas assim que conseguir, escreverei um guia detalhado em duzentas páginas que certamente me transformará num autor de best-seller milionário e guru de celebridades.

Ou seja, para curtir tudo como tudo deve ser curtido, tenho que acordar mais cedo. E como essa é a penúltima semana de férias das crianças, acordar mais cedo é um pouco incongruente. Mesmo assim, acordo. E por isso, estou ficando com sono cada vez mais cedo. Felizmente, tenho a minha fiel cafeteira.

terça-feira, 22 de julho de 2008

Momentos congelados indo pro trabalho

É raro acontecer alguma coisa diferente no caminho para o trabalho. Ou talvez sempre aconteça alguma coisa, mas na maioria das vezes eu estou de caraminholas e acabo não reparando em nada. Hoje, por mero acaso, reparei.

Enquanto o sinal estava fechado eu olhei para um terreno que existe no caminho, por causa de uma bela árvore do cerrado. Era uma daquelas árvores todas retorcidas, com poucas folhas. Essas árvores ficam vermelhas de poeira nessa época do ano. E porque era uma bela manhã de sol, a árvore estava vermelha e dourada. E logo acima dela, havia um gavião, batendo as asas com força para ficar parado no ar.

É raro acontecer desses momentos em que alguns segundos parecem se encompridar. Daqueles em que a gente usaria câmera lenta, se a vida da gente fosse cinema. Pois eu usei uma câmera lenta de cabeça, vendo aquele gavião. Para mim, não foram apenas alguns segundos que aquele pássaro pareceu ficar parado, mas minutos. E de repente, ele mergulhou, um par de garras esticadas para baixo, um raio de penas flamejantes. E eu despertei daquele transe.

Tentei lembrar de outras vezes em que esses “momentos congelados” aconteceram. Não consegui lembrar de nenhum e já estava parado em outro semáforo. Olhei para o lado e, à minha direita, uma caminhonete preta, enorme, impedia qualquer visão lateral. De repente, o vidro se abre e uma loura bonita me chama a atenção.

_Moço, moço, posso falar com você?
_Mas é claro!
_Olha, eu não costumo fazer isso, mas é que eu sou psíquica, sabe? Eu vejo coisas...
_Eu também, eu vejo que o sinal vai abrir!
_Me liga no meu celular, eu tenho uma coisa muito importante para lhe dizer – ela disse e mostrou um número anotado num papel, em letra caprichada. Senti um arrepio percorrer a minha espinha.
_Moça, eu não tenho a menor vontade de saber o que é – eu disse, e fechei o vidro.

O sinal abriu e eu deixei aquela caminhonete se afastar. E meu coração dava pulos dentro do meu peito. Senti um medo danado. E enquanto a caminhonete se afastava eu fiquei tentando imaginar em quantas pessoas aquela loura e o motorista impossível de ver já haviam aplicado esse golpe da coisa importante, do não costumo fazer isso, de anote o meu celular.

Depois é que eu me toquei. O gavião deve ter pegado um rato ou um outro bicho qualquer.

segunda-feira, 21 de julho de 2008

Por dentro da bola do Niemeyer



Eu ontem não consegui escrever e postar. Eu até que escrevi. Mas achei que uma porção de palavras não constituía um post. Só consegui escrever pouco mais que a frase do título acima. Então preferi deixar passar o domingo em branco. É que ontem acabamos indo ver a fantástica exposição dos 100 anos da imigração japonesa, lá na bola do Niemeyer, na Esplanada. Chamamos o filhote, mas ele preferiu brincar com os primos. Então fomos só eu, minha filha, a Patroa, o pai da Patroa - que é nissei (como não sabe?) e uma sobrinha. É uma magnífica exposição. Objetos lindos, espadas, capacetes, palanquins, gravuras, utensílios, escrivaninhas, biombos e muitas e muitas armaduras.

Foi a primeira vez que eu entrei naquela bola.

O interior da bola do Niemeyer é interessante, você se sente como um espermatozóide sem cauda. Mas do lado de fora havia um rabo de mentira. Entramos numa fila gigantesca. Tudo que é de graça tem fila grande, já reparou? Mas eu estava tão interessado na exposição que superei a minha aversão por filas. Minha filhota também estava muito interessada. Mas bastou entrarmos para que ela quisesse sair para beber água.

E assim que eu entrei na bola, eu me senti um verme esquimó num iglu gigantesco. Se eu não estivesse com casaco, teria batido os dentes. A bola do Niemeyer, por dentro, faz você se sentir do tamanho de um cisco no olho. E o carpete amarronzado do círculo interior do piso, faz você imaginar que bate o pé na retina do gigante adormecido do Planalto Central. É o olho do seu país que se abre ali, debaixo dos seus pés. E basta olhar para cima, para a grande abóbada branca e fechada do teto, para imaginar que você está pequenino, atado ao chão, preso naquela esfera gigantesca, nas fantasias uterinas de Niemeyer.

Fiquei assim, muito tempo, bestificado por estar na barriga da baleia, no meio de mais um delírio estético de um arquiteto que plantou as coisas mais malucas do mundo no meio da terra brasilis. Do outro lado da rua, em oposição à bola, fica a pirâmide do sol, o zigurate inacabado do Teatro Nacional. Um trapézio com escamas, aquele teatro. A bola fica ao lado da Catedral, que para mim parece a coroa de espinhos do martírio, embora muitos apostem que são os dedos crispados de mãos erguidas em prece. E em seguida, vem a Esplanada e suas caixas retangulares. Parecem os CIEPs, que vieram muitos anos depois, mas com as janelas quadradas.

E depois tem os palácios, o Itamaraty mergulhado num charco pantanoso, as sereias cabeludas e um meteoro flutuam ali, entre vitórias-régias. Em frente, o Ministério da Justiça, com falsas cachoeiras, também envolto num espelho d`água. Em seguida, o Congresso, com o simbolismo do prato, do pão e de dois palitos, também mergulhados na água, antes da praça. E na Praça, de um lado, o Planalto e do outro a Justiça, com a estátua cega à frente. Hoje, o Planalto também tem um fosso de água, idéia do Collor. E o Congresso, por obra de ACM, tem espelho também à frente. É água para chafurdar à vontade.

Acho que Niemeyer nunca amou essa terra, esse cerrado. Se amou uma terra, amou o Rio, talvez Minas. Mas JK era tão gente boa que nem conseguiu perceber a ironia cortante, o desprezo incontido de Oscar pela abóboda gigantesca dos céus de Brasília. Esse horror à luz natural, que projetou uma cidade de espaços amplos e esparsos, que nos faz pequeninos, formigas envergonhadas, que precisam a todo instante se enterrar em buracos abertos no meio do planalto, se entranhar em recôncavos escuros de concreto.

Mas essas formigas adoram os canteiros e os gramados que afrontam esse sol. Aos poucos, vamos fazendo sombra, recheando de árvores os espaços abertos. Um dia, vamos conseguir preencher de abóbadas verdes o que é esparso.

Mas vai demorar. Ao sair da bola do Niemeyer procuramos um banco. Existem poucos. São retângulos de concreto grudados no chão. Duros. Desconfortáveis. Não há sombra na praça. Se chover, você não encontra abrigo. Não existe nenhum lugar por perto para tomar um café. O sanitário fica no lugar mais inacessível, no mais longínquo túnel do interior da bola. E por isso, o estacionamento cheira a urina. E lá do lado de fora, ambulantes bruxuleam no lugar, aos pés dos monumentos e dos espelhos dágua, outras bolas. Caramba! A Esplanada inteira é assim. É uma aula de geometria. É um lugar para formigas apressadas. Entre lá, corra ali, saia depressa com o seu carro ou o sol te torra. Fico imaginando o Oscar, com uma lente de aumento, fritando formigas numa maquete dessa cidade. E eu amo essa cidade. Mas pô, Oscar, que raiva você tem das formigas!

sábado, 19 de julho de 2008

Um pequenino ensaio sobre poesia



A M.J. fez um comentário e deixou um endereço de blog de poesia. Isso me fez pensar um pouco.

Eu sempre achei que poesia era uma coisa meio triste e bacana, que a gente poderia colocar do lado do bibelô, numa prateleira da sala. Tinha que ser como um pequeno busto grego de mármore, uma cabeça. Não muito pequena e nem muito delicada, mas pronta para se colocar num lugar onde todo mundo pudesse ver, onde os adultos pudessem alcançar. Se desse vontade, você poderia muito bem tirar os olhos da TV, da tela de LCD e pegar aquela cabeça de pedra, para olhar à vontade. E daria para sentir o peso de cada verso, se você parasse e olhasse aquele verso de poesia com lupa.

Mas eu estava enganado, é claro.

Poesia não é só bibelô. E as crianças também gostam de poesia. Aliás, uma boa parte das melhores poesias que eu já li, eu li quando era criança, quando eu ainda estava aprendendo a ritmar frases, a fazer a entonação certa para as perguntas. Eu gostava de Bandeira, de Drummond, de Vinícius. E todos eles eram velhinhos.

E talvez por isso eu, quando criança, tenha imaginado os poetas como um bando de velhinhos que ficavam escrevendo coisas bonitinhas, para os netinhos e as outras criancinhas, tão pequenininhas. Eu via a minha Vó e me perguntava se ela não escrevia uns versinhos, escondido, feito a Cora Coralina. Besta, né? Mas a velhice de Olavo Bilac e de Monteiro Lobato me fazem crer que essa impressão não está muito longe da verdade.

Li em algum lugar que Bilac acordava bem cedo e ia todos os dias para o escritório, escrever. Numa bela manhã, um amigo o surpreendeu na escrivaninha. Escrevia para os netos. E dizia que só vivia para isso, naqueles últimos anos. Bilac. Bilac foi o cara que premiou uma menina de 9 anos que se tornaria a maior poetisa brasileira. Ele incentivou Cecília Meirelles a escrever. Bilac foi o cara que fez os versos do Hino à Bandeira, o mais belo dos hinos nacionais. O hino favorito de todas as crianças que o aprendem.

Lobato foi o cara do Sítio, da boneca de pano. Não me lembro de ter lido versos de Lobato, mas ele fez um livro/ biografia legal de Castro Alves. E por causa do Castro Alves eu comecei a ler poesia. E tem o Sítio, que é poesia em prosa. Lobato, ele também, teve uma época que só escrevia para as crianças. Mas eu me perco.

Depois de procurar em muitos livros o verdadeiro sentido da poesia, eu li os versos de Manuel de Barros. Ele disse, muito simplesmente, que “poesia é tudo aquilo que pode ser disputado num concurso de cuspe à distância”. E com esse bom humor, um pouco de malícia e um sentimento emanado de prazer, Barros moldou a minha noção de poesia ao seu nome e aos seus versos.

Hoje, leio pouca poesia. Falta referência. Meus indicadores de livros não indicam muita poesia. Quem era bom nisso era o Velho Tom. O Feijó. E o Helinho. Mas já li muita. Eu até quis ser poeta, num tempo longínquo. Mas aí fiquei “unbeliever”. Teve uma época em que fiquei tão descrente de poesia que eu achava que os poetas eram sujeitos preguiçosos, que não gostavam de escrever frases inteiras. Por isso, ficavam apenas fatiando frases e inventando parágrafos desnecessários. Para mim, a maioria dos poetas, eram sujeitos que escreviam uma frase mal dividida e queriam receber por uma lauda inteira. Nem preciso dizer o quanto eu estava próximo da verdade.

A maior parte dos sujeitos que se dizem poetas são apenas preguiçosos. Não me entenda mal. Existem alguns bons poetas preguiçosos. E também existem uns poucos que lutam para escrever uns versinhos curtos, curtos. Esses podem ser bons. Mas, em geral, é muito difícil encontrar um bom poeta. E não existe nenhuma fórmula ou caminho infalível para se encontrar a boa poesia. E o pior: às vezes você acha um determinado poeta um tremendo charlatão e depois se descobre recitando um verso desprezado do mesmo sujeito. Ou seja, é uma bagunça. Por isso, a melhor maneira de organizar uma estante de poesia é obedecer a ordem alfabética, por nome de autor. E uma estante de poemas é muito mais difícil de organizar, já que poemas são janelas abertas e uma brisa suave. Mas é preciso ressaltar que isso não está de acordo com o que é preconizado por Manuel de Barros. Poesia é sempre outra coisa, bela de doer, que a gente quase consegue alcançar, mas que é inexprimível e intocável. É como a tensão superficial de um copo d’água.

Hino à Bandeira
Olavo Bilac

Salve, lindo pendão da esperança,
Salve, símbolo augusto da paz.
Tua nobre presença à lembrança
A grandeza da Pátria nos traz.

Recebe o afeto que se encerra
Em nosso peito juvenil
Querido símbolo da terra,
Da amada terra do Brasil!

Em teu seio formoso retratas
Este céu de puríssimo azul,
A verdura sem par destas matas
E o esplendor do Cruzeiro do Sul.

Contemplando o teu vulto sagrado
Compreendemos o nosso dever,
E o Brasil por seus filhos amado,
Poderoso e feliz há de ser.

Sobre a imensa Nação brasileira
Nos momentos de festa ou de dor,
Paira sempre, sagrada bandeira
Pavilhão da justiça e do amor.

Sempre fico triste com o Hino a Bandeira. É a maior poesia bibelô que existe.

Pessoal, continuo à espera de sugestões de bandas novas legais.

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Meninas lindas de manhã bem cedo



Hoje de manhã, minha filha de 3 anos estava toda carinhosa comigo. Mostrou orgulhosa a mamadeira, tinha tomado tudo. E alguns minutos antes tinha recusado a mamadeira e a minha presença. Tudo porque eu tinha os braços cobertos pela camisa de mangas compridas. Ela disse que queria a mãe, que a deixa mamar no colo e não usa camisas que impedem mexer no cotovelo. Ela gosta de mamar e mexer no cotovelo de quem a abraça. E com uma camisa de manga comprida tapando, não tem graça mexer no cotovelo.

É fato que meninas são diferentes. É bom que o sejam. O mundo seria muito chato se os assuntos se resumissem a futebol, carros e cerveja. As meninas, pelo simples fato de existirem, já trazem uma variedade enorme de assuntos com elas. Falam pelos cotovelos. Falam pelos cotovelos. Falam pelos cotovelos. Como falam. E como é difícil entender as meninas. E como elas são adoráveis.

Há muito tempo tenho essa dificuldade em entender meninas. Ela não é derivada somente do fato de eu ser homem. Quero dizer, isso não é só um fato decorrente da óbvia dicotomia masculino/feminino. Meninas são realmente difíceis de se entender. É fato que elas complicam o que é simples. É fato que possuem uma estranha maneira de conectar causas e efeitos. É fato que elas possuem uma lógica enviesada, em que a distância mais curta entre dois pontos é uma curva reta, um absurdo qualquer. É uma maravilha.

Posso falar de cadeira. Sou um observador de meninas desde a mais tenra infância. Tenho duas irmãs. Uma quatro anos mais velha e outra quatro anos mais nova. Nunca entendi o comportamento de nenhuma das duas. E, sobretudo, jamais consegui vislumbrar os motivos que levam as meninas a mudar de humor tão rapidamente. Acho lindo. De verdade.

É uma coisa impressionante, essa mudança de humor nas meninas. Ela obedece a estranhos eflúvios matinais ou vespertinos. Está regulada pela ondulação dos cabelos, pela inflexão de uma voz. Meninas passam da euforia à letargia em segundos. E sabem fazer beicinho com muito mais eficiência que os garotinhos. Meninas adoram valorizar uma ferida. Se você procurar um lugar sem uma mancha roxa na perna do meu filho, provavelmente não encontrará. Ele vive dando topada em alguma coisa, bate a perna em tudo quanto é lugar. E nem liga. A menina é o contrário. Pele imaculada. Um minúsculo micro-ponto que parece uma casquinhazinha de ferida é motivo para lágrimas ardentes e desesperadas. E tudo some num passe de mágica, depois de um sopro suave, de brisa leve. Meninas são fantásticas.

É bem verdade que as meninas são mais calmas, quietas e organizadas que os meninos. Mas quando enjoam e embirram, são piores que três ou quatro meninos endiabrados amarrados a gatos brigões. Meninas são guerreiras cruéis, quando guerreiam. Talvez por isso sejam descritas de maneira tão perversa pelos gregos. E troianos.

Minha menina é meio difícil de entender. Mas ela tem bastante paciência comigo e me explica as coisas, quando eu peço. E é nessas horas que eu adoro olhar para o sorriso bonito e os olhos brilhantes, orgulhosos de me explicar as coisas. Ela é bem didática, com seus três anos. Transmite muita segurança. Sobretudo, percebo nela uma estranha força benigna, uma extraordinária emanação que parece se enroscar nas minhas entranhas, atravessar os meus átomos e reverberar nas minhas moléculas. É uma urgência de fazer o bem, um poder irresistível que vai me movimentar para obter o melhor de mim. Minha menina é meu liquidificador de vontades, tenho que ter muito cuidado para evitar que ela obtenha uma dominação completa e inexorável. Embora a Patroa jure que isso já não seja mais possível. Talvez não seja mesmo.

quinta-feira, 17 de julho de 2008

Sono demais



Eu sempre tenho um tubo de cola branco ao alcance da mão, quando estou em casa. Eu colo coisa à beça. Carrinhos, bonecas e páginas e páginas das revistas, álbuns e livretos que os meninos estragam, sem querer. Para emendar páginas, a melhor coisa é usar um papel de seda ou mesmo uma tira de papel higiênico. Pegue um pouco de cola branca, misture com um tico de água e vá passando a cola nas tiras, com um pincel. Depois aplique a tira, com cuidado. Num instante todas as páginas estão remendadas. A vantagem desse método é que a emenda é bem transparente e com o passar do tempo fica bem sutil, quase invisível.

Também tenho sempre um tubinho de cola super bonder. Uso muito para emendar os aviões, carros, motos, bonecos, barcos e a infinidade de coisas que quebram nessa casa. Também tenho montes de pilhas, carregadores, lanternas, lupas, durepóxi, prateleiras, ferramentas, parafusadeiras elétricas, chaves de fenda, elásticos e mosquetões. E é incrível como sempre preciso desse monte de coisas, que aparentemente não servem para nada.

Caneta hidrocor e lápis de cor também tem de montão, aqui em casa. E papel. As crianças podem desenhar a hora que quiserem, desde que seja no papel. O sofá está precisando de uma recauchutagem e as paredes estão gritando por uma tinta nova, mas, mesmo assim, não permitimos que as paredes sejam riscadas. Nem de leve. Só é permitido usar o papel e muito de vez em quando liberamos um tecido para as tintas da criançada.

Eu e a Patroa só discordamos quanto às massinhas. Eu detesto massinha. Quero dizer, eu adoro massa de modelar. E gosto de ver as crianças brincar com elas. É interessante, massinha. O problema é a sujeirada depois da brincadeira. A massinha não é fácil de varrer, não é fácil de limpar. Ela gruda. Rola e gruda nos cantos. E depois seca, granula e esfarela. É um horror. Você anda pela casa e sai grudando massinha seca na sola do pé. Detesto. Mas a Patroa se amarra.

Fazer o quê?

Eu juro para vocês que eu planejava finalizar o texto esclarecendo a metáfora. Falaria do que é possível emendar e do que já havia emendado na minha vida, com remendos tão sutis que quase nem me lembro mais deles. Também falaria das coisas da minha vida que eu julgava não terem servido para nada, mas que agora têm se mostrado extremamente úteis.
Também falaria das novas reformas que ainda preciso fazer, para ampliar meus horizontes, recauchutar minhas expectativas. E por último falaria do que ainda detesto e de como faço para conviver com isso.

Mas não dá. Estou com muito sono. Além disso, é muita pretensão, não é não?

quarta-feira, 16 de julho de 2008

De volta a Keri Smith



Quando eu me sinto completamente sem inspiração, eu enrolo um pouco, assobio e depois corro para a Keri Smith. Ô mulher genial! Eu aprendi há muito tempo que se você não sabe fazer uma coisa, o melhor é procurar alguém que sabe. E a Keri sabe fazer uma coisa muito bem: inspirar a gente. Acho ela um tremendo guru. E uma vez até tentei deixar um comentário num dos blogs dela, mas, estranhamente, não consegui. Não funcionou. Depois achei foi bom, é melhor não quebrar esse encanto.

Descobri a Keri por pura sorte. Fiz uma busca de alguma coisa no São Google e cliquei num link para uma ilustração dela. Foi um mero acaso. E eu nem gostei muito da ilustração, mas quando eu já estava zarpando fora li uma única frase que a moça escreveu e fui fisgado. Era um trecho de 100 idéias. As sugestões dela me fizeram pensar em coisas bacanas, que fizeram com que eu me sentisse bem apenas por ser humano.

Hoje eu entrei num dos blogs estranhos que a Keri participa, indica ou põe link. Chama-se “Learning to love you more”. O blog propõe ao visitante 63 tarefas (assignments) diferentes, que podem vir a fazer de você uma pessoa mais amável. São coisas bem interessantes, que só podem ter partido do coração de alguém que gosta de pensar em coisas ternas, amigáveis. Isso é muito importante hoje em dia, pois parece que estamos sendo o tempo todo bombardeados com slogans do tipo “seja violento”, “não confie em ninguém”, “brigue agora”,”paranóia já”, “morda a mão que te alimenta” e “joga pedra na Geni”. O blog traz o relato e fotografias de pessoas que cumpriram algumas tarefas. Traz também as fotos de uma exposição da família que cumpriu todas as tarefas. Todas. O projeto “Learning to...” está em andamento desde 2002 e mais de cinco mil pessoas já entraram nessa brincadeira.

A tarefa número dois (Assignement # 2) é um barato: Faça uma gravação com os vizinhos. Sua tarefa é ir de porta em porta e pedir para quatro vizinhos cantar uma música, ou tocar uma música. Você terá de gravar essas músicas e fotografar os vizinhos, identificando quem é quem. Cumprida a tarefa, envie para o blog. Super bacana. Fiquei imaginando se eu conseguiria cumprir essa tarefa. Acho que sim. Tenho bons vizinhos. E com pelo menos quatro deles eu não teria o menor constrangimento de pedir para gravar uma música. Acho que alguns dos vizinhos poderiam me olhar como se eu fosse um daqueles negócios que o gato esconde, mas nunca tive medo disso. Tá. Mas não tenho coragem de fazer.

Outra tarefa que me chamou a atenção foi a de número 62: Faça uma placa educativa. A tarefa consiste em você fazer uma placa com uma informação básica e simples e colocá-la em lugar público e bem visível. Como exemplo, o blog traz “Como por a mesa”, um cartaz que ensina o ser humano a fazer exatamente isso: colocar os talheres e pratos na mesa. Pensei em fazer um monte de placas: “Como dobrar camisas”, “Como amarrar os sapatos”, “Como fazer um barco de papel”, “Como costurar um botão”, “Como dar banho num bebê” , “Como dar um beijo esquimó”, “Como fritar um ovo”... Só coisa legal.

Aí quase me decidi por esse daí de cima, da ilustração do soro caseiro. Pretendia fazer bem grande e colar num ponto de ônibus. Mas os problemas começaram a surgir. Não existe uma receita única. A fórmula tem pequenas variações, as proporções nem sempre são de um para três. Alguns usam uma pitada de sal e duas de açúcar para um copo. Outros usam a mesma medida para um litro. Por conta disso, pensei que se colocasse o cartaz poderia ser multado por poluir a cidade. Poderia ser acusado de propagar uma fórmula errada. Poderia ser fotografado e levado à execração pública por estimular a automedicação. Poderia ser acusado de prática ilegal de bruxaria. Poderia me ferrar. Ou seja, o slogan “Fique na sua” venceu. Então, pretendo fazer um diagrama de como engraxar os sapatos. É menos complicado.

Não vou ser exaustivo quanto ao blog. Sinceramente, acho que vale a pena visitar. Confira aí em http://www.learningtoloveyoumore.com/.

Ah, e continuo recebendo sugestões para a Rádio Careca. Por favor, indique uma banda legal. De preferência, coisa de 2006 pra cá.

terça-feira, 15 de julho de 2008

Brianstorm



Os meninos estão de férias da escola alternativa. Isso permite que eu escute música em volume infinitamente maior do que o usual logo de manhã, bem cedo. Não senhor. Não senhora. Eu fecho os vidros do carro e curto o meu rock sozinho, só que alto. Não sou de molestar ouvidos alheios. E o som alto me ajuda a acordar e ficar esperto rapidamente.

Não sou um radical do som alto. Só acho que existem tipos de músicas feitas para se escutar alto. Ópera, por exemplo. Escutar ópera baixo é como pegar um lugar ruim no teatro. Você não vê e não escuta nada. Bossa nova, em outro exemplo, é música feita para escutar meio baixo, da altura do banquinho e do violão. E é música social, boa para se escutar acompanhado ou com alguém conhecido por perto, para se puxar conversa depois que o cara acaba de cantar. Tem que ser depois, senão o João Gilberto taca o sapato em cima. Agora rock, gente, rock é pauleira na cabeça. Boa para escutar no carro, berrando sozinho. Para ouvir rock e entender alguma coisa tem que ser alto.

E eu procuro escutar coisas novas. Eu gosto um bocado das velharias que eu escuto, mas às vezes torra o saco ficar pensando só em Beatles, Rolling Stones, Led Zeppelin, o Peso, e os outros carinhas. Também gosto de escutar os berradores novos. E curto um bocado o Artic Monkeys, o Queens Of The Stone Age, o My Chemical Romance, o Portishead, Radiohead, Supergrass e outras bandas que nem são mais tão novas assim. E nem são mais tão rock assim.

É verdade que mudei de fonte. Antes eu escutava os grupos novos no rádio. Hoje, a programação é tão ruim que nem me dou ao trabalho de ficar procurando rádio. Procuro na Internet. No You Tube. Faço uma busca de vídeos de gols de futebol. Os caras que montam coletâneas de gols sempre escolhem músicas legais. E os meninos que montam clips com cenas de filmes e vídeo games também. Esses clips nem sempre ultrapassam a marca de dez mil visitas. Às vezes não chegam a cinco mil. Mas dá para ver que o sujeito teve um trabalho enorme para editar aquilo tudo só para escutar a música que adora muitas vezes.

E outras vezes eu não procuro nada. A música legal simplesmente me encontra, como se soubesse que eu precisava escutar alguma coisa daquele jeito, naquele instante. E aí eu coloco na minha lista de músicas buscáveis no Limewire. O Artic Monkeys, por exemplo, me pegou no meio da rua. Eu estava ali, feito besta no sinal vermelho. Do lado, para um maluco com o som na maior altura.

_Que som é esse? – eu berrei para o maluco.

_Hã? Artic Monkeys! – ele berrou de volta.

E eu encontrei a música que entitula o post. Taquei ela aí, na Rádio Careca. Aliás, vou trocar as 45 músicas na próxima semana, que essas já estão muito batidas. Quem tiver sugestões, é só mandar.

segunda-feira, 14 de julho de 2008

“Drummond”



Teve uma época em que eu vivia dando topada com o meu dedão do pé esquerdo. Tou! Era o meu dedão, batendo numa pedra, quicando numa quina. Aliás, meu dedão era muito bom de quina. Nunca foi muito bonito esse dedão, mas sempre teve um ar meio distraído, desligado de mim. Tenho quase certeza de que meu dedão esquerdo, se tivesse nascido sozinho, seria um poeta. Daqueles, de versos esparsos, de rimas impensáveis, meio chegado a absurdos. Ou então seria açougueiro. Meu dedão do pé não é muito chegado a sutilezas. Se pudesse, seria aquele dedo que se colocaria nas feridas. Mala.

Um dia, desses sem sol e sem nuvens, que mesmo assim são nevoentos e embaçados, eu tropecei numa pedra, indo para a biblioteca da universidade. Era a única pedra numa calçada que devia ter pelo menos uns novecentos metros de comprimento. Aliás, era a única pedra que havia num raio de dois quilômetros. Como não poderia deixar de ser, meu dedão fez questão de não perder essa oportunidade única e “Tou!”, mandou-lhe uma topada! Desde aquele dia, eu chamo o meu dedão de “Drummond”.

Doía à beça, essa expertise do “Drummond”, essa habilidade de encontrar pedra doída para topar. Meu dedão era tão bom em autoflagelação que uma vez eu até perdi uma unha do pé. Fiquei um mês andando só com um sapato, o dedão de chinelo, protegido sob uma espécie de capa protetora, que não podia tocar no local da unha. Foi um mês terrível, cheio de agulhadas no dedão. Quantos anos eu tinha? Não lembro mais. Mas seguramente eu não tinha vinte anos. Eu era um jovem meio maluco, sem unha no dedão do pé, com raiva do mundo. Cara, como eu tinha raiva! Nem sei mais porque eu era tão enfezado e impaciente. Ainda bem que isso mudou. Um por cento. Talvez dois por cento. Mas mudou. Hoje já não dou tanta topada. E não perco unha do pé já tem pelo menos dez anos.

É verdade que tenho que usar diversos artifícios para impedir o “Drummond” de se machucar todo. Faço isso porque eu amo o “Drummond” como se ele fosse parte de mim mesmo. É a mais pura verdade. Embora eu saiba que o “Drummond” não ligue a mínima para o Careca que vos fala. Ele pensa que tem vida própria, desatrelada do meu pé, com sua unha encravada ordinária e exclusiva. E, por causa dessa unha encravada, às vezes, eu confesso, gostaria mesmo que ele se desatrelasse. Mas não dá para ser egoísta com o seu próprio dedão. Tenho que ser sábio e deixar ele se acomodar. As unhas passam, como diz aquele velho ditado ãhn, nórdico. Mas... eu me enrolo.

Eu uso sapatos de bico quadrado, retos, um número a mais. É mais confortável e impede o sujeito aqui de andar depressa. Ando longe de parede. Fujo de quinas. Não pulo amarelinha. Não chuto bola. Quando vejo pedra, mudo de calçada. Não fico balançando o pé. Não fico sacudindo a perna. Aliás, tenho a maior agonia de ver gente sacudindo a perna, balançando o pé. Eu procuro ficar quieto. E no cúbi (é pequeno demais para se chamar cubículo) não dá para ficar chacoalhando. Aqui em casa, então, procuro ficar ainda mais quieto que é para não enviar estímulos enganosos para as crianças.

Mas o “Drummond” é o contrário, às vezes é tão pirracento que parece o inverso daquele poeta mineiro. Ele fica se coçando para entrar numa bagunça. Emitindo falsos sinais alertas de chuva. Mas eu não acredito nele, nunca ouvi falar de dedão meteorologista. Quem sabe de chuva é o meu joelho ruim, o direito.

Fico pensando se eu não deveria ter batizado o dedão com outro nome. Talvez Rimbaud, ou Mallarmé.Bandeira. Mário Quintana. Ou poderia ter batizado com nome de poetisa. Existem algumas poetisas tão boas que o meu dedão ficaria orgulhoso de levar o nome. Hilda Hilst. Cecília Meirelles. Já imaginou? Podia ser poeta vivo, também. Mas o último poeta vivo que eu curti foi o Renato Russo. E, pô, depois que o Renato Russo morreu, minha geração perdeu a voz. Ficou sem graça, dolorida, feito o meu dedão do pé.

domingo, 13 de julho de 2008

Para ler os russos



Todo mundo sabe que literatura não serve para nada, portanto serve para tudo. Eu, por exemplo, aprendi muita coisa com os livros. Com Balzac, por exemplo. Em “As ilusões perdidas”, eu aprendi, entre milhares de detalhes super-importantes, que muitas pessoas conseguem identificar claramente a classe social e até o caráter de uma pessoa pelos sapatos que estamos usando. Desde que eu li as agruras e desventuras de Lucien de Rubempré, eu presto uma atenção danada aos meus sapatos. Procuro mantê-los sempre limpos, com a esperança de que isso seja uma espécie de reflexo do meu próprio caráter.

Eu mesmo tenho a idéia de ser um cara limpo, no sentido da higiene pessoal e também moral. Acho que isso, de alguma forma, é transmitido para a sola dos meus pés, é que molda o meu jeito de andar. Se eu estou bem comigo mesmo, eu piso mais leve. Se eu estou mal, meus passos perdem um pouco a coordenação, fico mais trôpego. Mas só hoje é que tenho a clareza de espírito para descobrir uma conexão entre o meu equilíbrio mental e moral com a linha reta das minhas caminhadas, com a profundidade da minha pegada na terra molhada.

E entre as coisas que eu penso agora surgem coisas como “putz, se eu tivesse essa conversa fiada quando tinha vinte anos eu teria feito chover muito na minha horta”. Mas eu perco o fio da meada. Isso vem acontecendo muito ultimamente. Começo a escrever uma coisa, outra me atalha e aí fico com a outra coisa. A culpa disso é a redução do tempo para escrever. Tenho que mandar bala sem ficar voltando atrás, senão o tempo acaba. E amanhã é dia. Então não dá para vacilar e ficar sem postar, elocubrando muito.

Agora, por exemplo, eu começo pelo título, que é uma maneira de segurar o tema e ficar toureando ele. E, antes, o título era a última coisa. Pois o título é “Para ler os russos”. E com isso eu quero contar dos macetes que eu aprendi por conta própria para ler os autores russos, com todos aqueles nomes compridos e difíceis de lembrar. Quando eu li os Karamazov, por exemplo, eu fiz uma ficha com os nomes dos personagens, que usava de marcador. Toda hora aparecia um personagem novo e eu anotava na ficha, como se fosse RG e CPF, só que era o nome, o apelido, a relação com o personagem principal e a página de entrada.

Foi com uma fichinha parecida que eu li “Guerra e Paz”. Lembro que a minha ficha ficou anos e anos dentro do livro. Para mim, aqueles nomes haviam se tornado quase familiares, parecia uma lista de pessoas que eu estava convidando para uma festa. E com as Ilusões Perdidas também fiz a mesma coisa. Era nome francês pra dedéu, não dava para lembrar de tudo. A ficha me ajudou pacas.

E até hoje faço isso. Eu entro em reunião e anoto. Fulano, baixinho, carrancudo, barrigudo, bigode, mais ou menos 45, sapato sem cordão e sujo, mó mala. Beltrano, alto, sorridente, boa pinta, 30, espertalhão, sapato de cordão, meia sola, venderia a própria mãe. Fulana, profissional, sino de bronze, malvada, cruel, demolidora, 33, tirana, cuidado!! Sicrano, feio, triste, honesto, gordo, mocassim, 35, pode ser o fiador que eu procuro. E assim vai. Às vezes, eu erro feio com essas listas. Mas na maior parte das vezes, eu acerto na mosca.

sábado, 12 de julho de 2008

Rinocerontes estouvados



Eu moro num prédio com 48 apartamentos. Mas ao todo somos apenas 46 vizinhos uns dos outros. Um apartamento está sempre vago. E um dos moradores é tão chato que parece que vive sozinho no edifício. Desconfio que ele não é um ser humano, mas um dos caras que os alienígenas enviaram para nos estudar antes da dominação e invasão final. É um cara que me olha como se eu fosse um rato de laboratório. Nunca o vi sorrir. Tem a expressão facial de uma placa de aço. Transmite a simpatia de uma enguia. Então eu tomei a liberdade de deixar aquela mala fora da conta.

É um prédio relativamente velho nesse bairro que ainda é novo, nessa cidade que ainda é tão nova. Deve ter uns doze anos, esse prédio. Estava sendo construído pela Encol, que tinha feito um acordo com uma cooperativa de trabalhadores autônomos. Aí a Encol quebrou. E a cooperativa falou para os trabalhadores se virarem. E um grupo desses caras resolveu meter os peitos e terminar a obra. Eu cheguei bem depois dessa confusão toda. Moro aqui tem uns seis anos.

É um prédio bacana, tem seis andares. Eu moro no terceiro. Aqui tem playground, jardim bem cuidado. Mas o isolamento acústico deve ter sido planejado pelo engenheiro de som do Pink Floyd. É totalmente psicodélico. Eu escuto sons que parecem ter sido emitidos pelo vizinho de cima, mas que são do morador do primeiro andar da outra ponta do bloco. A tubulação de ventilação, no banheiro, provoca alucinação auditiva. Você pensa que está escutando o cara do sexto andar, debaixo do chuveiro. Ele canta “Pare de tomar a pílula”, com ênfase no refrão, mas é o vizinho de frente que é fã do Odair José.

Outro dia eu abri a porta do elevador bem rápido, para flagrar o vizinho do quinto andar com o poodle, no elevador social. Eu não ligo muito para as regras sobre uso do elevador social e de serviço, mas tenho a tendência de considerar um abuso e até ofensa pessoal descer com um cachorro pelo elevador social. A não ser que o dono carregue o cachorro no colo. Quando você carrega o bicho a coisa muda de figura. É como uma pasta de couro. Ou um casaco de couro. Ou de peles. Tá contigo. Eu nem ligo. Mesmo se for um pastor alemão. Pôs no colo, é que nem bagagem de mão em avião, pode entrar que a casa, digo, o elevador, é seu.

Apesar da minha implicância com o ambiente acústico pop-psicodélico do meu prédio, não sou de me queixar dos sons e barulhos dos outros. Eu tenho duas crianças em casa e embora elas sejam super comportadas, sei que o vizinho de baixo deve imaginar que somos uma família de rinocerontes estouvados. Às vezes eu também acho a mesma coisa. Hoje, por exemplo, eu me peguei imitando um sapo junto com o meu filho. Ele estava a pular, de um lado para outro e imitou, com perfeição, o salto de um sapo. Achei muito legal. Comecei a imitar o meu garoto e naturalmente alguma coisa travou e fiquei parecido com a letra “W” durante alguns minutos. Não foram muitos. Talvez 15 minutos. Mas devo confessar que eu já começava a entrar em pânico e a perder o fôlego. Por sorte, num dos saltos o meu filho esbarrou em mim e desse modo, estatelado no chão, eu pude retomar a minha forma original de letra “b”, minúscula, com duas pernas finas.

Tudo isso deve ter feito muito barulho, mas ninguém veio reclamar. Acho que a engenharia psicodélica de som deve ter feito as pessoas pensarem que o barulho vinha de outro lugar. Tomara que tenham pensado que veio do apê do alienígena.

sexta-feira, 11 de julho de 2008

Leitor de banheiro



Estou sempre com dois livros no banheiro. De vez em quando, a Rose, que é a cozinheira-passadeira-arrumadeira-governanta-faxineira daqui de casa, tira os livros do banheiro e põe em algum outro lugar.

Eu achava que era Saci, mas o último Saci morreu aprisionado pelo Pedrinho, do Lobato. Além disso, eu demoro uns dez meses para voltar a encontrar os livros. E o único Saci bom de esconder coisas aqui em casa é a Rose. Como ela acumula uma série de postos-chave, eu não posso nem pensar em fazer uma pequena observação em voz calma, pausada, ponderada e sensata para a Rose.

Ao invés disso, eu alterei levemente o meu bom hábito de ter dois livros no banheiro. Continuo a ter dois livros, mas finos. Assim, como a Rose só esconde os livros depois de uma semana, dá tempo de ler os dois livros, se eu me esforçar um pouco. E eu me esforço.

Essa semana, por exemplo, ao invés de dois livros eu deixei apenas um, Recordação da Casa dos Mortos, do grande, único, tranqüilo e infalível como Bruce Lee, ele mesmo, o Dostoievski.

É extraordinário o desapreço pelos clássicos que algumas pessoas tentam passar para nós, enquanto somos apenas estudantes. Dostoievski é um desses casos. Machado de Assis é outro. Li esses dois cedo demais, aos quinze anos, achei sem graça e chato. Só começou a ficar legal depois que eu entrei na universidade. Mas ainda assim era meio pesado.

Aí, um dia, li Crime e Castigo e aquilo não saía da minha cabeça. Depois li Esaú e Jacó e aquele era música para os meus ouvidos. Depois li Os Irmãos Karamazov e eu descobri um mundo inteiro de coisas novas e magníficas. Aí li Dom Casmurro e curti de montão. E depois fui ler os caras que adoravam esses caras, Machado e Dostoievski.

Eu, se fosse professor, um dia ia gostar de falar sobre os clássicos para os alunos, e falaria assim: ó, esses aí não são livros para criancinhas, isso é livro para gente apaixonada por livros, para gente que ama o que os outros escrevem, para quem se deslumbra com castelos, reinos, subterrâneos e esgotos construídos com palavras. Quem quiser ler esses livros clássicos, tem que abandonar preconceitos e mergulhar de cabeça. Tem que ficar pronto para ficar pendurado, de ponta-cabeça, na beirada de um precipício, olhando lá embaixo os jacarés e crocodilos prontos para devorar a sua alma.

Sim, meus amigos, minha Kombi de leitores atentos, meu Fiat 147 de leitores assíduos. Sim. Essa semana, apesar dos meus esforços, não consegui terminar o “Recordações”. E a Rose guardou o “Recordações”. E eu não encontro o livro em lugar nenhum. Neste sábado, portanto, vou contrariar um pouco a regra número um. Vou negociar com a Rose um prazo mais elástico para esconder os livros. Acho que duas semanas está de bom tamanho.

quinta-feira, 10 de julho de 2008

“Pida” e embromação



Eu demorei muito a descobrir o que é “pida”. Antes de você colocar no Google e fazer uma busca, desde já aviso que essa é uma palavra que faz parte do vocabulário exclusivo da Família Careca. Foi uma palavra que o meu filho inventou, quando tinha uns três anos. “Pida” foi também uma das primeiras palavras que a minha filha aprendeu a falar. Entre os dois, o significado dessa combinação de quatro letras jamais foi um mistério. Para mim e para a Patroa, foi preciso um esforço hercúleo para descobrir.

Durante uns três meses, os dois falaram de “Pida” prá lá, “Pida” prá cá. E como havia muito mais coisas para pensar, eu geralmente me esquecia de perguntar o que era “Pida”. Ou quando perguntava, não prestava atenção na resposta. Às vezes a gente pergunta as coisas para os meninos só por perguntar, não guarda as respostas direito. Ou a coisa entra por um ouvido e sai pelo outro. A cabeça tem preguiça de segurar as palavras e colar significado.

Estou enrolando um bocado, eu sei. Descobri que boa parte do prazer de ler vem da arte de enrolar. Da divagação, como diz o Dostoievsky. Da digressão, como diz o Salinger. Eu, que sou só um blogueiro, chamo de “embroma”, corruptela de “embromation”.

Existem milhares de pessoas que passam a vida na maior “embroma”, sem fazer nada de significativo. Pessoas como eu. E invariavelmente somos nós, os “embromadores”, os irresponsáveis pelas coisas boas da vida. É. Não escrevi errado não. Nós somos irresponsáveis. Um bom embromador nunca é responsável por nada. Mas eu perco o fio e a meada.

Pois um dia, não me lembro exatamente quando, o meu filho me perguntou porque a gente não tinha “Pida”. Achei que ele estava fanho, com o nariz entupido. Como o árabe que apresenta as cinco filhas: Esta é Velha, esta é Feia, esta é Bela, esta é Linda e Estefânia! Mas não. Ele falava sério.

_“Pida”, pai! Eu queria ter uma “Pida”! – ele insistiu.

_Eu também, meu filho. Eu também queria ter uma “Pida” novinha, brilhante – ensaiei, procurando ganhar tempo e mais pistas.

_E grande. Eu queria uma “Pida” bem grande! – ele disse, medindo uma distância da cabeça.

_É, quanto maior, melhor a “Pida” é! E o vovô e a vovó? Será que eles também gostariam de ter “Pida”? – arrisquei.

_Mas é claro!- ele sorriu, feliz por eu estar compreendendo.

_E todo mundo com “Pida” pode correr à vontade! – eu arrisquei, de novo.

_Não, pai. A “Pida” é pra nadar – ele disse, decepcionado.

_Igual à tartaruga? – perguntei, satisfeito com a pista.

_Igual ao tubarão! – ele arrematou, colocando a mão sobre a cabeça.

“Pida” é a barbatana do tubarão. Aquele triângulo assustador que aparece em cima da água, antes do ataque. Ele é um predador, esse meu filho. E quando entramos na piscina, ele sempre finge que tem uma “Pida”.

quarta-feira, 9 de julho de 2008

Tucunaré assado com batatas



Marido serve para pouca coisa. Mas uma dessas coisas é socorrer a sua patroa. Para mim, essa é uma regra de ouro. Eu socorro a Patroa quando o carro pifa. Como aconteceu hoje. Era meio dia e quinze, a Patroa liga e lá está ela, na frente da escola alternativa, no meio do poeirão, com o carro pifado. Saí correndo para ajudar.

Nessas horas não adianta seguro. Não adianta o cartão de crédito, não adianta nada. Se você estiver por perto, largue tudo e faça você mesmo que é mais rápido. E era hora do almoço. Cheguei em quinze minutos. E lá estava ela, conforme eu havia imaginado. No meio do poeirão, com a dupla dinâmica nas cadeirinhas do banco de trás. Tentei empurrar o carro, mas tava um peso danado. Duas professoras me ajudaram a empurrar. Aí a Patroa puxou o freio de mão e eu assumi. Fiz pegar de tranco na ré.

Vrum. Vrum. Um minuto e trinta e sete segundos cravados de operação salva Patroa. Agradeci as professorinhas e me mandei atrás do carro da minha esposa. Conseguimos chegar em casa rapidinho e tratamos logo de almoçar. Hoje, a Rose, nossa cozinheira-governanta-babá-lavadeira-passadeira, fez tucunaré assado com farofa e batatas no almoço.

Ficou muito bom. E os filhotes amaram. Eu comi à beça. E é preciso contar aqui de onde veio esse tucunaré.

Na sexta-feira passada, meu pai, meu irmão e dois sobrinhos foram pescar em Serra da Mesa. Fica a quatro horas dessa cidade.Voltaram no domingo à noite, com duas caixas enormes, cheias de peixes. Piranhas, piaus, tucunarés e bicudas. Os sobrinhos, meninos menores de dez anos, presentearam os primos, meus filhos, com um tucunaré e um piau. Hoje comemos o tucunaré. O piau será o próximo, talvez na sexta-feira.

É raro comermos peixe assado em casa. Geralmente é uma posta frita, um filé de merluza, coisa que é mais rápida. Mas hoje a Rose caprichou. Ao final da refeição, as crianças estavam felizes e saltitantes. Comer peixe parece que deixa todo mundo bem humorado. Eu quase aplaudi a Rose. Devia ter aplaudido, todo mundo adora um elogio.

O tucunaré é um peixe voraz de água-doce. Ele adora isca viva. Antigamente, quando eu era um menino da beira do rio Araguaia, a melhor maneira de pescar o tucunaré era com uma coisa chamada “colher”, usada com uma boa vara equipada com molinete. A colher era um anzol com uma parte larga metálica, parecida com uma concha de colher. A isca era presa no anzol. A colher era lançada na água, o mais longe possível. Você então recolhia a colher rapidamente. A colher iria brilhar um bocado, dentro dágua, atuando como um perfeito chamariz para o tucunaré. O peixe viria com tudo para cima da colher e geralmente abocanhava o anzol inteiro.

Hoje já não se usa mais colher. As iscas americanas predominam. Mas o meu pai e meu irmão são tradicionalistas. Encheram os isopores usando vara, molinete e pedaços de piranha como isca.

O tucunaré tem uma bola preta na barbatana do rabo. É para confundir os predadores e as presas. É uma camuflagem esperta. Dentro da água, não se sabe se o rabo é cabeça ou se a cabeça é o rabo. Nunca se sabe se ele está indo para frente ou para trás.
Às vezes eu acho que eu tenho síndrome de tucunaré.

terça-feira, 8 de julho de 2008

Meu ídolo escritor



Eu tinha dezessete anos quando vi o grande escritor que admirava. Foi na Universidade. O grande escritor era Ignácio de Loyola Brandão. Eu era fã de carteirinha e camiseta do Loyola. Eu era tão fã dele que uma vez comprei uma camiseta com uma foto do cara e da capa do livro dele, Zero. Sério. Eu tinha visto o anúncio da camiseta numa coletânea de cartuns do Henfil, publicadas no Pasquim. Ou era a editora Pasquim. Não sei mais. Tinha Pasquim no meio, isso eu lembro. Eu recortei um anúncio e pedi o livro e a camiseta. Foi a minha primeira e última compra pelo sistema de reembolso postal. Não é que eu tenha alguma coisa contra, é só que esta foi a única compra que fiz nesse sistema. Não sei a razão.

Num certo dia, eu vi um cartazete anunciando a chegada do Loyola na Universidade. Caramba! Eu fiquei super-entusiasmado. Eu finalmente iria falar com o meu grande ídolo. Com o gênio que eu admirava. Com o cara que conseguia traduzir as angústias que eu ainda nem sentia direito, mas que sabia que um dia sentiria. No cartaz, estava escrito que o escritor viria no dia tal, na sala tal, na hora tal, para conversar sobre o seu novo livro e sobre os já publicados. Caramba! Eu me preparei todo.

E no dia tal, na sala tal, uma hora antes da hora tal eu já estava na sala, na primeira fila, de frente para a carteira modesta onde o Loyola sentaria. Eu estava com a minha camiseta. Eu estava com o meu exemplar do Zero pronto para receber uma dedicatória. Eu estava com uma caneta azul Bic, zerada, pronta para escrever o autógrafo. Eu estava com um conto datilografado dentro de um envelope. Eu estava com uma lista de perguntas para fazer ao Loyola. Eu estava mais ansioso que uma tiete. E eu queria ver se, com um pouco de sorte, o Loyola não poderia me dar uma opinião sobre aquele conto que eu carregava ali, meio escondido.

O povo foi ajuntando. As meninas que faziam Letras chegaram e ocuparam as duas primeiras fileiras. Elas estavam ali, firmes, algumas com seus exemplares de livros para autógrafos. Todas com os olhos brilhantes, de admiradoras fervorosas, de leitoras compulsivas, de admiradoras selvagens. E quase todas me olhavam como se eu não tivesse o direito de estar ali, junto com a tietagem. Junto com as moças que amavam a literatura nacional e o escritor nacional. Especialmente aquele escritor, que tinha livro proibido, era um gênio e todas as mulheres adoravam.

Tentei puxar conversa, mas as moças não queriam papo. Então fiquei só ali, olhando para nada, relendo trechos curtos do livro. Até que o Ignácio Loyola Brandão chegou. Veio acompanhado de umas professoras, umas fãs na cola. Ele entrou na sala, cumprimentou as meninas, as fãs, as fãnzocas e até aquele imbecil com uma camiseta com a cara dele, na primeira fila. O imbecil era eu, que fiquei sorrindo, ansioso, amarrotando o envelope com o meu conto.

O Loyola começou por arrastar a cadeira mais para o lado de lá, onde só haviam mulheres. Lógico. Quem ficaria de frente para um otário de camiseta, quando poderia ficar de frente para as moçoilas bonitas, românticas, suspirosas e resfolegantes do lado de lá? Eu também arrastaria a cadeira, talvez até para mais longe. Talvez até pisasse no pé daquele sujeito meio careca antes de arrastar a cadeira. Quem sabe? Pois o Loyola fez exatamente isso. Só faltou pisar no pé.

O Loyola falou, falou, falou e encantou a todos nós. Eu suava, na primeira fila. Meu coração batendo alto, na palma da mão, onde eu segurava o envelope com o meu conto. E aí o Loyola abriu para perguntas. E então ele começou a me ignorar ostensivamente. Eu lenvantava a mão, educado. E nada. Fazia psiu, bem educado. E nada. Balançava a mão. E nada. O Ignácio era pior que garçom. Olhava para mim com a indiferença de um coletor de impostos e ignorava os meus apelos para perguntas. Ele só ficava de atenção com as meninas, as moças fãzocas gaguejantes e suspiradouras. Eu começava a ficar impaciente.

_Você aí, com a camiseta do Zero. Pode falar – autorizou o Loyola.

E me deu a gagueira. Aquela gagueira básica, de não rimar lé com cré. E me deu um ataque de branco e estupidez. Eu nem sabia onde estava. Fiquei mais nervoso que uma mula. E quando eu terminei de perguntar o Loyola olhou para mim e disse:

_Pô, mas que pergunta mais imbecil!

Nem peguei o autógrafo. Lembro de ter rasgado o envelope, com o conto dentro, inédito e não lido. Só voltei a ser fã do Loyola, que é um grande escritor, uns dez anos depois daquilo.

segunda-feira, 7 de julho de 2008

Quiabos e a capa do Batman



Alguns anos de cotoveladas nas costelas me ajudaram a ter um sono leve. Depois de anos prestando atenção na respiração dos pequenos e levando algumas pancadas nos costados, tenho ouvido de tuberculoso em relação às crianças. Costumo levantar ao menor ruído estranho. Mas ontem à noite eu levantei com relativa lentidão durante uma crise de asma do meu filho mais velho, de cinco anos. A Patroa disse que já estava apelando para a eletrocução com afogamento quando eu finalmente abri os olhos e percebi que ela precisava de ajuda.

Meu menino estava tossindo horrores e buscava ar com ansiedade e desespero, igualzinho a mim, quando também tinha os meus acessos asmáticos. É difícil manter a calma nessas horas, mas é a única coisa certa a fazer. Se você entrar na onda de ansiedade, todo mundo piora. Então eu tratei de ficar calmo. Eram apenas duas e meia da manhã. Haveria uma longa madrugada para nós dois. Havia alguma coisa errada com o nebulizador e aqueles trezentos quilos de sono estavam me impedindo de ver o que era. Só consegui focar depois de uns dez minutos. Aí vi que era só um excesso de água.

Após uma sessão de inalação com os medicamentos apropriados, não foi esta a primeira crise de asma do meu filho, combinei com a Patroa de voltar a dormir. Ela manteve o plantão até umas três e meia. Às seis horas, meu filho já estava de pé. Ele melhorou um pouco, mas não havia condições de ir para a escola. Acertamos a estratégia para o dia e funcionou. Agora já estamos com uma consulta marcada no alergista. É difícil.

Uma das suspeitas do médico é que o meu filho seja alérgico a quiabo. Eu nunca entendi bem como isso começou, mas o meu filho adora quiabo. Frito ou cozido, meio babento, não importa. Ele se amarra em quiabo. Ele também adorava leite, como eu, mas o alergista proibiu. Então eu quase sumi com o leite de casa e passamos a consumir leite de soja. Passamos não. Ele passou. Não suporto leite de soja. Com isso, diminuí o consumo de leite para pouco mais de meio litro por dia. Isso, para mim, é super baixo. Eu sempre tomava um litro de leite por dia. Mas um dia o médico disse que leite poderia ser a causa das crises do meu filhote.

Depois do leite, o médico experimentou o milho, o grão-de-bico e a ervilha. Agora o médico quer testar o quiabo. Parece perseguição. Eram exatamente as coisas prediletas do menino. Eu me lembro dos minhas experiências de menino, para descobrir as minhas alergias. Abacaxi, tenho aftas cavernosas, mas nada fatal. Morangos, me dá coceira, mas nada escabroso. Camarões, não sendo sete barbas, tá limpo. Abelha, algumas ferroadas e não sei não, a coisa fica feia. Aí, um dia, todas essas coisas sumiram. Hoje sou bonzinho, bonzinho.

Mas agora estou só a capa do Batman. Começo a não fazer sentido.

Mas não parece maldade? É difícil um menino gostar de brócolis, de jiló e de quiabo. O meu filho adora. Aí vem o alergista cortar o barato. Na próxima consulta, vou mentir. Vou dizer que o meu filho não come quiabo nem amarrado, nem a peia. Aposto como o alergista vai recomendar refeições ricas em quiabos.

domingo, 6 de julho de 2008

Carmem, de Prosper Merimée



Eu comprei quadrinhos durante muitos anos. Era um bom comprador, assíduo em banca. E sempre busquei o quadrinho nacional. Era uma época boa, da revista Circo, da Chiclete com Banana, da Rê Bordosa, Los Três Amigos. Tinha Luiz Ge, Glauco, Laerte e Angeli arrebentando na virtuosidade, cada qual sendo mais criativo que o outro. Correndo por fora, vinha o Gonzalez com o Níquel Náusea numa revista excelente, e a Mad nacional.

Tinha também os álbuns dos desenhistas de fora, as graphic novels, “Batman, o Cavaleiro das Trevas”, “Ronin”, “Watchmen”, “Maus”, os clássicos do Will Eisner, os prodígios europeus, com destaque para a turma da Metal Hurlant, com Moebius(Incal), Manara, Pichard e os super-clássicos Tintim, do Hergé, Asterix, do Goscinny. Dezenas, dezenas de revistas. E eu comprava. Torrei grana pacas com revistinhas. E ainda tenho muitas revistas. Embaladas em plástico, bom estado de conservação. Algumas em estado de banca. Outras no mesmo estado que eu encontrei na banca. Eu comprava muita revista usada. Eu conhecia três bancas que lidavam com as usadas. E, pelo menos uma vez por semestre, eu passava nas três.

Lembrei dessas coisas hoje à tarde, na casa dos meus pais. Minha antiga estante, na parte de baixo, ainda está com alguns pacotes de revistas que resistiram ao tempo. Estavam lá as revistas “Animal” e “Grandes Coleções Animal”, as “Aventura e Ficção”, um monte de revistas nacionais que tiveram dois ou três números, as especiais de fotonovelas do Casseta e Planeta, as primeiras edições do Lobo Solitário, ainda nas versões da Cedibra e da Sampa. Um lote grande de revistas do Tex. Um monte de coisa velha, embalada em plástico.

Eu era um colecionador metido a sério. Criava caso à toa por conta de capa estragada, entrega atrasada. Achava um absurdo o modo como o consumidor de quadrinhos era tratado. Algumas revistas simplesmente desapareciam depois de três números. Algumas só escapavam ao lançamento do número inaugural, depois até a editora sumia.

Li, inteira, uma versão de Pichard para “Carmem”, de Prosper Merimée. E me lembrei que havia comprado a versão em quadrinhos depois de ter lido o livro e também de ler uma graphic novel dele, chamada “Blanche Epiphanie”. Fiquei apaixonado pelo jeito simples desse cara, que nasceu em 1920 e morreu em 2003, desenhar tudo de forma tão marcante. Fiquei espantado com a capacidade do Pichard em compactar a história da cigana de Don José. Então, depois de uns 15 anos sem abrir aquela revista, fiquei maravilhado, novamente, com o Pichard e com a Carmem.

Aí me lembrei que eu havia conseguido comprar, depois de muito procurar em sebos, alguns outros álbuns do Pichard. Procurei em caixas velhas. Coisas empoeiradas. Mas não consegui encontrar nenhum. Em compensação, estava espirrando feito louco.

Quando desisti de caçar mais revistas, no meio de umas pastas velhas, de desenhos embolorados, encontrei um Pato Donald meio amarrotado, de 1982. Nem tive coragem de abrir.

sábado, 5 de julho de 2008

Tudo para o Beleléu

Nós estamos brincando de uma brincadeira nova. Ninguém nunca jamais brincou de alguma coisa assim. Eu, a Patroa, meu filho, minha filha e um sobrinho, afilhado. Eu estou com uma raquete de frescobol, meu filho está com uma bola azul de frescobol, meu sobrinho tem uma bóia de piscina, daquelas de braço e minha filha tem uma capa de raquete de frescobol. Ela está do lado da Patroa, que está com um apito na mão.

_Agora, pai, corre e bate a bola – diz a menina.

Ela é a dona da brincadeira e sabe todas as regras. Embora eu tenha a impressão de que ela esteja inventando as regras agora. Mas isso ela não admite.

_Corre, pai! – ela é mandona, igual à mãe.

Eu corro, mas o meu menino é muito rápido e tem muito fôlego. Não alcanço de jeito nenhum. Com cinco anos, ele já me põe no chinelo. Não. Ele se cansa depressa. Eu peço a bola azul e bato nela, com a raquete.

_Bola má, bola má, comporta direito!
_Não, pai. É pra bater na bola pra mim.
_Então, pega aí.

E enquanto a bola azul quica e rola suavemente pelo gramado, nós ficamos parados, à espera das instruções da menina.

_Joga a bóia, joga a bóia – ela grita para o primo.

E o menino obedece. Mas sem sucesso. A pequena bóia de braço fica a um passo de distância da bola azul.

_Ah, vamos ter que fazer tudo outra vez! – ela diz, com um pouco de desânimo.

_Como chama esse jogo? – pergunta a Patroa.

_Beleléu – ela responde. Ela tem as respostas na ponta da língua. Não vacila.

_E pra que serve o apito? – pergunta a Patroa.

_Ué, é pra apitar! – responde a menina.

_E o que significa? – eu pergunta, tentando ajudar.

_Que foi falta, oras – ela explica, com evidente desprezo para mim, que faz perguntas sobre o que é óbvio.

_Tempo! Tempo!Tempo! – exclama o meu filho, as mãos desenhando um “T”, como ele já viu na TV.
_O que foi? – questiona a dona da brincadeira.

_Preciso ir ao banheiro – informa o irmão.

_Eu também! – diz o meu sobrinho.

_Eu também! – diz a Patroa.

_Eu também! – diz a dona da brincadeira.

E depois, quando todo mundo voltou eu havia escondido a bola azul, a bóia, a raquete, o apito e a capa da raquete.

_Foi tudo pro Beleléu! – eu expliquei E fui ao banheiro.

sexta-feira, 4 de julho de 2008

Para não dizer que não falei de elevadores



Os cinco elevadores do edifício meio burrinho onde eu trabalho me odeiam. Eu já disse aqui que é preciso um diploma de pós-graduação para andar sem problemas naquelas máquinas. Mas não é só isso. Trata-se de conquistar o respeito e o apreço, coisa que só os bons modos, uma gravata combinando com o blazer e sapatos limpos não dão conta.

Os elevadores são bem bonitos. Aço escovado em tom grafite. Espelho grande, a partir da meia altura, em plano americano. A luz do teto é toda trabalhada, em quadradinhos e furos super bem transados. Você se sente um superstar quando entra num dos elevadores. Mas a coisa tem vida própria. Se você não apertar o botão do andar desejado, bem depressa, ele começará a definir o trajeto sozinho, para cima ou para baixo. Em geral, é o contrário do que você deseja. Para mim, é lógico que ele adivinha o que você quer fazer e vai na direção contrária. Coisa tinhosa.

Assim, se você estiver no quinto andar e quiser ir para o oitavo, ele irá para o terceiro subsolo. No terceiro subsolo, como você sabe que é impossível ir mais embaixo, você estará literalmente no fundo do poço e apertará o botão do oitavo andar. Então o elevador irá pingando, do terceiro subsolo para o segundo subsolo, depois para o primeiro, para o térreo, para o primeiro andar e assim por diante, até o sétimo. Mas aí o elevador pulará o oitavo e irá direto até o décimo sétimo andar, em alta velocidade. E lá, o elevador ficará parado e não responderá aos comandos. Não vai adiantar você ficar apertando os botões. O elevador vai ignorar você e os apertos dos seus dedos. E quando você desistir, e colocar um pé fora do elevador, alguma luz irá piscar no painel de botões. Você voltará a colocar o pé dentro do elevador. E a luz sumirá. Você voltará a apertar botões. E nada. Pô! Aí você sairá do elevador e a porta se fechará com estrondo, quase prendendo as costas do seu blazer. Zut!

E depois de dez minutos no décimo sétimo andar, um dos elevadores voltará. Não será jamais aquele primeiro elevador que enganou você. Será um outro, meio desavisado, que terá passado por ali por acaso. Entre rápido. Se você vacilar, vai demorar uma meia hora até outro elevador passar por ali. O décimo sétimo é o topo, não tem jeito de ir acima. Você volta a apertar o botão do oitavo andar e fecha os olhos.

Rá! Não pense que isso acontece só porque o Careca aqui é um pastel de elevador. Não senhor. Não senhora. A crueldade dos cinco elevadores é generalizada, e a desse elevador que eu estou falando, o mais do canto, à direita de quem olha para a estátua no térreo, a crueldade dele é com todo mundo, não é só comigo. E acontece também que a Voz desse elevador também ajuda a confusão. Você está no terceiro andar, o elevador lotado para no segundo andar. A Voz anuncia, profissional:
_Térreo!

Quatro sujeitos saltam depressa do elevador. Nós, os sobreviventes dos andares, nos entreolhamos. Os sujeitos que saltaram param e percebem que estão no segundo andar. Mas é tarde demais, as portas já se fecharam e descemos todos, apreensivos.

_Primeiro andar! – anuncia a Voz do Elevador.

Ninguém desce. Só uma loura bonitona. Quando eu olho para a parede em frente e vejo que aquele é o térreo, as portas batem. Quase perco minha gravata. E agora estamos todos no terceiro subsolo, invejando a esperteza da loura.

_Décimo sétimo andar! – afirma, categórica, a Voz do Elevador.

Eu desço do elevador, no terceiro subsolo. Eu desisto, por enquanto. Cansei desse elevador. Cansei dessa brincadeira, de fingir que está em andar diferente. De porta bater em gravata. Vou de escada. Subo mais de quatrocentos degraus. E lá fora já é noite, bate um vento frio, frio.

Haverá um dia, tenho certeza, que os elevadores sairão em diagonal, cruzarão andares inteiros e aparecerão na sala, de repente, piscando seus botões de emergência. Mas enquanto isso, eu tenho que aprender um jeito de ser mais esperto do que o elevador espertinho do prédio meio burrinho onde eu trabalho.

Frase do dia


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