segunda-feira, 30 de junho de 2008

A maldição do rotavírus mutante




Ele atacou novamente. E começou no sábado. O maldito rotavírus mutante que está derrubando metade da humanidade desta cidade abalou a Rose no sábado, pouco antes do almoço. Nós estávamos tranqüilamente no final do planejamento da “tarde inteira sem dizer não” quando olhamos para a nossa cozinheira-lavadeira-passadeira-governanta-babá e doceira. A Rose estava branca. E suava. E depois corria para o banheiro.

Eu sabia o que era. As duas crianças já haviam sido atacadas, durante as duas últimas semanas. Eu já havia sido atacado, durante a semana. A Patroa já havia sido atacada, na semana anterior. E agora o rotavírus partia para cima da Rose. O sintoma menos escatológico desse maldito vírus é o enjôo. Ele provocou efeitos tão funestos em mim que eu considerei a possibilidade de usar uma fralda geriátrica. Mas eu não gosto de roupa íntima com adesivo.

Assim, no sábado nós dispensamos a Rose e fomos ao cinema com a trupe, conforme escrevi ontem. No domingo, nós abusamos dos avós. Ficamos, ou melhor, eu fiquei na maior mordomia explícita na casa dos pais da Patroa, observando os pobres sexagenários a correr atrás das crianças. É tão bonito isso, de ser um espectador da interação entre diferentes gerações, que eu não quis interferir. E para melhorar ainda mais a minha mordomia (aqui me tens de regresso) uma das irmãs da Patroa se ofereceu para levar a dupla dinâmica na exposição do Darwin.

Obrigado, eu pensei, obrigado, obrigado. Quase soltei foguetes. Rezei orações silenciosas em agradecimento. Ou seja, passei um dia inteiro numa boa total, só vendo filme, futebol e coisas interessantes na TV.

Obviamente, fui terrivelmente castigado nesta segunda-feira, onde o tédio e a preguiça de trabalhar estavam estampadas em todos os rostos no trabalho. Para animar a moçada, eu tentei contar uma piada.

Aquela, do mineirinho que passa o dia na beira do rio, vendo um cearense pescar. O mineirinho calado, calado, só coçando bicho de pé e mascando aqueles fiapos brancos, de raiz de graminha. No final da tarde, enjoado daquilo, o cearense resolve provocar.

_E aí, mineirinho, sabe pescar?
_Vixe, tenho paciência não...

Obviamente, ninguém sequer esboçou um sorriso. E eu me senti ridículo, ridículo.

A pior coisa de se contar uma piada não é ninguém rir. A pior é todo mundo continuar como se nada tivesse acontecido. E foi isso que aconteceu. Eu me senti um tradutor de sânscrito, alguém com uma língua morta dentro da boca sem ninguém interessado nisso.

Vou virar, vou virar, vou virar. Eu me virei para a minha tela de computador e trabalhei o dia inteiro, sem tentar ser engraçado. O lado bom, tem sempre um lado bom, é que o trabalho rendeu à beça.
Estou na torcida para a Rose ficar boa logo.

domingo, 29 de junho de 2008

Kung Fu Panda e o Esplendor do Amor




Eu e a Patroa fomos assistir “Kung Fu Panda” com as duas crianças e mais duas sobrinhas. É genial! Shopping lotado. Cinema cheio de menino, pipoca em tudo o que é lugar. Fomos super-preparados para encarar tudo no maior zen-budismo-super-astral. Ou seja, fomos com o compromisso de não falar “não” para as crianças por uma tarde, só para ver como é que é, pelo menos uma vez na vida. E foi o maior barato! Os meninos adoraram, o cinema vibrou, dei umas boas risadas, foi divertido.

O grande Walt deduziu há muito tempo que somos todos uns patos crédulos. Desde então, sua empresa nos arranca um troco todos os anos por conta de histórias maravilhosas que amamos e nossos filhos também. Há quem veja o filme como uma fisgada esperta da Disney numa espécie de espectador “padrão” de cinema, o cidadão 3G: “gordo, grosso e gonorante”. É uma maneira simplista de ver a coisa. Eu, por exemplo, não sou muito gordo. Agora, se você reduzir a coisa para espectador padrão F2G, sendo “F” de “flácido” ou “flatulento”, eu acho que essa crítica faz o maior sentido.

E embora faça sentido, não tira nenhum dos méritos do filme. O principal, e isso pouca gente nota, é que a simplicidade do roteiro serve para enfatizar a preocupação com a construção narrativa de cada cena. Já faz tempo que a animação deixou de ser só desenho animado. Cada plano é construído com detalhes narrativos extraordinários, com o requinte de câmaras circundantes de montanha russa infinita. As imagens são tão envolventes, que se você não estiver sentado, é tombo na certa. Eu adorei e vibrei com toda a manada 3G e a horda de greemlins do cinema.

As crianças puderam assistir um filme inteiro sem ninguém bancar a torre de controle, numa boa. Compramos as maiores pipocas, os refrigerantes, foram satisfeitas todas as vontades. Eles se sentaram e assistiram ao filme com o melhor dos comportamentos dos seres humanos. Mas na saída alguma coisa desandou. Meu filho e uma sobrinha resolveram aplicar todos os golpes de kung fu que viram no telão. Para receber os golpes, eles escolheram o stand up big pôster do Panda, uma gigantesco display de papelão na entrada do cinema. Fiel à minha palavra, eu falei suavemente para as crianças:

_Crianças, meditemos. Largai de dar porrada no Panda. Parai, desisti, sil vous plait, de chutar e socar esse papelão. Comportai! Arretez!

Por um segundo, as crianças pareceram atender ao meu apelo. Os socos se tornaram hesitantes. Os ponta-pés menos cheios de pontas e bicudas. Mas em apenas um milésimo de nanosegundo eles tornaram a cobrir o display de pancada. Paciente, insisti.

_Pombinhos! O pobre Panda não agüenta mais. Parai. Stop. Olhai os Beatles e os Rolling Stones...

Mas ao perceber que a coisa não funcionava, berrei.

_Vamos parar! Chega!!- no que fui prontamente obedecido por eles e por metade do shopping. Fui olhado, visto e apontado como um pai careca e histérico. E por conta disso, tratei de me mandar, rapidinho. A Patroa nem viu nada, tinha ido ao banheiro.

_Nossa! Quem estava berrando? – ela perguntou, assim que me viu.
_Um maluco, meu bem. Os seguranças tiveram que usar spray nos olhos do caboclo. O cara surtou.

Depois eu fiquei pensando. Não tem romance nesse filme de animação. Houve uma época em que era obrigatório ter uma cena de romance nos filmes, mesmo nos desenhos animados. Era o momento que eu rotulava de Esplendor do Amor. Tinha beijo, pegar na mão, coração flutuando. Agora não tem mais nada disso. Uma pena. Acalma as crianças e os adultos.

sábado, 28 de junho de 2008

Literatura contra a fome



O terceiro e último discurso do Orhan Pamuk em A Maleta do Meu Pai é, talvez, o mais instigante do livro. Eu não sei como é com você, mas eu adoro ler escritores que fazem as idéias pipocarem na cabeça da gente. E pipocar é a imagem exata.

Quando eu era menino e alguém falava que uma pessoa tinha imaginação fértil eu imediatamente imaginava uma árvore nascendo da cabeça de uma pessoa, os livros, as músicas e os desenhos pulando da cabeça daquela pessoa, começando a dançar, a fazer cinema. Era uma imagem meio recorrente.

Depois, ao ouvir que uma pessoa tinha imaginação fértil, eu deixei de pensar na tal pessoa. Isso começou a significar o efeito que aquela pessoa tinha sobre a minha cabeça. Então imaginação fértil começou a significar alguém vindo cavoucar a minha careca, adubar o meu cérebro, colocar sementes, jogar uma aguinha por cima, com regador, e fazer uma planta germinar. É lógico que depois a planta crescia mais rápido que o pé de feijão mágico, mas era uma viagem assim, meio lisérgica.

O micro-ondas mudou tudo. E a pipoca de micro-ondas completou a mudança. Hoje, para mim, imaginação fértil é como aquele saquinho de pipocas que a gente coloca com cuidado no prato giratório, este lado para cima, e aperta três minutos na potência máxima. Ler um escritor fértil provoca esse mesmo efeito, as idéias começam a pipocar dentro da minha cabeça e de repente eu me sinto um pouco estufado. Até a minha temperatura aumenta.

É, às vezes eu me sinto meio febril ao ler um livro bom demais, como se estivesse hipnotizado pelos parágrafos, flutuando entre idéias intangíveis. “Tiger, tiger”, um livro de ficção científica de Alfred Bester, de 1956, foi um livro que me deixou assim aos dezoito anos, aos 25, aos 30, aos 35 e no mês passado.

Como você pode notar, eu gosto muito de reler livros de tempos em tempos e às vezes nem leio o livro todo, só umas partes que eu sei que são muito boas. Quer um exemplo? “O Mundo Segundo Garp”. Eu gosto de reler inteiro, mas volta e meia eu me pego relendo só a “Pensão Grillpazer”, um conto maluco que o John Irving inventou de enfiar no meio do livro. O grande problema é que eu demoro a encontrar o livro. E como eu jamais sublinho, marco ou estrago de alguma forma a página de um livro, a demora aumenta ainda mais. E às vezes, como eu escrevi ontem, a necessidade do remédio é bem urgente, o que me deixa irritado.

Foi por isso que eu pensei que as editoras deveriam começar a vender livro por metro, em papel comestível, ou por parágrafos, não sei. É um nicho de mercado biliardário. É que nem música, às vezes você não está a fim do disco inteiro, você só gosta de uma música e olhe lá. Pode parecer cruel com o artista, eu sei, mas até os anos vinte, trinta, quarenta, sei lá, era assim. As pessoas compravam uma música, uma partitura. E pronto. Todo mundo ficava super-feliz. E agora está ficando assim de novo, com o ITune.

Já imaginou você chegar na livraria e falar assim:
_Ó, me dá aí uns trinta centímetros de Drummond, por favor.
_Só isso? Mas aí não dá nem um “E agora José?” inteiro – diria o vendedor.
_Na verdade, estou meio enjoado de Drummond. Me dá aí um metro de Bandeira.
_Poesia Para a Vida Inteira?
_Não, é só para uns dez minutos de felicidade e paz na terra.
_Com um metro você vai ficar numa boa o dia inteiro. Quer que embrulhe?
_Não, não, eu já vou ler agora.
_Bom apetite.

sexta-feira, 27 de junho de 2008

Literatura como remédio



Eu estava lendo o terceiro e último discurso de “A Maleta do Meu Pai”, um livrinho do Orhan Pamuk. Ele é turco, esse Orhan. E antes de virar escritor, ele quis ser pintor. Tentou pintar quadros e viver como pintor até os 22 anos de idade. Depois viu que não dava pé. Aí tentou ser escritor. Quando completou 30 anos tentando ser escritor, alguém da Academia Sueca ligou para ele e falou que naquele ano de 2006 ele tinha sido escolhido para receber o Prêmio Nobel de Literatura em reconhecimento pelos 30 anos de literatura e bons serviços prestados.

_Bacana, estou mesmo com umas prestações atrasadas e o prêmio vem bem a calhar – disse o Orhan.
_Ótimo, então vai preparando um discurso aí, que a entrega do prêmio é daqui a uma semana – disse o sujeito que faz os cheques do Nobel.
_E vocês vão mandar um carro me pegar aqui em Istambul?
_Carro? Não, mandaremos uma passagem de avião.
_Executivo ou econômica?

É lógico que esse é um diálogo fictício. Na verdade, como todo bom escritor, o Orhan perguntou ao cara dos cheques se ele não poderia adiantar uns trocados, no que foi negado.

Então o Orhan fez o discurso título do livrinho. Que é bem bacana. A certa altura do terceiro e último discurso ele afirma que “a literatura é remédio”. Achei interessante a frase. Apesar de fora do contexto, ela é bastante aplicável a um monte de situações da minha vida, em que estive doente. E ela é bastante aplicável ao resto de situações da minha vida, em que não estive doente, mas também não podia me considerar muito são.

Eu não sou médico, nem nada, mas vivo prescrevendo algumas páginas para mim mesmo. Acho até que nem tenho mais cura na minha mania doentia de enxergar defeito num monte de coisas. Por isso, mesmo que em doses homeopáticas diárias, eu leio umas coisinhas para ver se recupero a saúde da minha alma.

Voltaire, por exemplo, é um clássico que eu sempre procuro ler quando tenho meus ataques de “metido a besta”. Voltaire é ótimo para dar piparote em nariz levantado e fazer a gente espirrar com mais humildade. Balzac eu sempre leio quando estou com “raivite”. Dostoiévsky é um remédio milagroso para todas as angústias, para as dores profundas e difíceis de localizar. Júlio Verne é igual a Biotônico, deixa você mais emocionado, na ponta dos cascos. Machado de Assis é um anti-depressivo sutil. Edgar Rice Burroughs é uma injeção de “imaginação” na veia. E por aí vai.

Tem gente que tem farmacinha em casa. Eu também. Só que é na minha estante.

Como prevenir é o melhor remédio, eu procuro ler um pouco, todos os dias. É tão bom quanto vitamina. Só que eu gosto de coisas mais fortes que "Pílulas de Sabedoria".

E você? Se fosse remédio, o seu autor favorito seria o quê?

quinta-feira, 26 de junho de 2008

Traz colchão pra mim




Algumas histórias costumam nos acompanhar o resto da vida. De alguma forma elas se tornam emblemáticas, como se virassem uma espécie de retrato da gente, com legenda e tudo. Enquanto história emblemática, ela é capaz de revelar, em poucas palavras, toda a nossa personalidade, nossos pontos fortes e fracos, os cacoetes e obsessões.

Tem gente que tem história triste. Tem gente que tem história alegre. Tem gente que tem história dramática. Tem gente que é gente boa, mas mente. Tem gente que tem história ridícula. Eu sou desses últimos.

Na casa dos meus pais, junto aos meus irmãos, todo mundo tem a mesma história emblemática sobre o Careca na cabeça. Todos se lembram e gostam de contar, para minha vergonha, sobre o dia em que subi num pé de goiaba junto com os muitos primos e primas, e não consegui descer. Como a chuva estava chegando e prometia ser forte, eu me desesperei e comecei a berrar para que colocassem colchões no chão.

_Traz colchão pra mim! Traz colchão pra mim!

E não me lembro se trouxeram mesmo os colchões e nem se fizeram uma pilha de espuma para que eu pulasse. Não lembro. Mas lembro de me agarrar ao tronco da árvore com força, as unhas se enterrando na casca da goiabeira. Lembro de sentir medo de cair e de chorar, minhas lágrimas ajudando a tornar o galho mais escorregadio. Lembro de sentir aquele cheiro forte de terra e chuva e de goiabas verdes, maduras e muito maduras. Lembro do ruído forte do vento, do barulho de pancada na lata que a chuva fazia no telhado de um galinheiro. Lembro de ver as galinhas encolhidas, coitadas, dentro do galinheiro, do alto do pé de goiaba.

E lembro de que eu só subi naquela goiabeira uma única outra vez, anos e anos depois. Acho que não existe mais nem o cotoco daquela árvore magnífica. Sei que até hoje não gosto muito de goiaba, é apenas a décima na minha lista de frutas preferidas, como eu escrevi aqui mesmo, no dia 19 de junho. E eu até colocaria tamarindo no lugar de goiaba, mas é cada vez mais difícil (e caro) encontrar tamarindo.

Nos supermercados, eles colocam tamarindo junto com nêsperas, tâmaras e damasco importado de Damasco, a cidade que Lawrence da Arábia conquistou depois de atravessar o deserto.

O que me traz de volta à história emblemática. Por mais que eu me envergonhe, acho realmente que essa é uma história que traz a minha careca legendada em prosa e verso. Sou eu mesmo que me penduro no último ramo da árvore porque vi uma goiaba de dar água na boca. Esse sou bem eu, um cara com um olho maior do que a barriga. E sou eu mesmo que me enrolo todo e depois quase entro em desespero para me desenroscar.

Eu me sinto especialmente enrolado quando alguém me coloca pra cima, me elogia de coração aberto, como alguns de vocês fizeram hoje por causa da história do livro do meu filho. É verdade, eu não sei lidar com elogio. Eu agradeço, de coração, mas acho que fica faltando alguma coisa. Eu me sinto o rei da goiabeira escorreguenta, e, ao mesmo tempo, fico olhando para todo lado, vigiando pra ver se vem chuva, se eu vou escorregar.

Viu? Acho que a tal história da goiabeira é mesmo emblemática. Eu começo a divagar, vou subindo, subindo, subindo, e só quando estou lá em cima, quando é tarde demais, é que eu começo a pensar numa saída, num jeito de descer sem me machucar. Mas quase sempre é tarde demais e eu tenho que pedir socorro.

_Traz colchão pra mim! Traz colchão pra mim!

quarta-feira, 25 de junho de 2008

O lançamento do livro do meu filho



Meu filho de cinco anos estará lançando nesta quinta-feira, durante aula na escola alternativa, o seu primeiro livro. A publicação, de um único exemplar, totalmente artesanal, terá suas primeiras histórias, alguns rabiscos, dezenas de fotos e desenhos, um texto dos pais e sua assinatura.

A Patroa estará presente à cerimônia de lançamento, prevista para ter início às onze horas da manhã. Haverá salgadinhos e sucos para os pais presentes. Eu tenho uma reunião importante no horário estabelecido e será impossível comparecer. Penso em mandar um telegrama falado, com os meus cumprimentos ao autor. Mas desde já eu sinto que estarei perdendo um super-evento.

Tenho certeza de que todos vocês que acessam o Caminho do Careca estão morrendo de curiosidade. Por isso, pedi permissão ao meu filho para reproduzir aqui o trecho menos importante da sua publicação, o texto que eu e a Patroa produzimos. Ele disse que tudo bem, que não tinha a menor importância. Eu acho que não tem mesmo. E só lamento o fato de não manter mais em segredo (de polichinelo, como tudo na Internet) o primeiro nome do meu filho.

O texto, a pedido da professora, explica porque nós escolhemos o nome do meu filho.

“João
Bem antes de você nascer, filho, nós escolhemos o seu nome. Sempre foi João. Quando pintamos o quarto de branco e armamos as prateleiras. Quando ganhamos o berço. Quando rodamos a cidade para escolher a primeira roupa de cama. O primeiro pano de boca.

Você já era João quando ainda era do tamanho de um astronauta miudinho, flutuando no espaço de uma barriga, preso por uma linha de cordão. Você já era João quando era só um coração batendo com um fio de coluna e olhos grandes, fechados, na barriga da sua mãe. Era João quando chutava essa barriga do lado de dentro E também quando esprimia o pé numa costela da sua mãe. E fazia ela sentir cócegas e seu pai sentir um arrepio no coração.

Depois, quando nasceu e cuidamos do seu umbigo, João mudou de universo, era astronauta na terra, cercado de dedos. Foi João que foi dito no cartório, com o orgulho de pai de primeiro filho, ao lado do avô, felizardo de muitos netos.

Nós sempre tivemos certeza de que era João porque o seu nome é forte, curto e simples. João é o nome do abençoado por Deus. Do discípulo amado. É o nome do rei que não tinha terras. Do pastor do deserto. É o nome do cantor que imaginou um mundo de paz. É o nome do menino que trocou uma vaca por um pé de feijão. De outro menino que se perdeu na floresta porque marcou o caminho com bolinhas de pão.

João é o nome do avô da sua mãe, é o nome do avô do seu pai. João é nome de herói, de atleta do pulo, de campeão. E também é nome de gente comum, que acorda cedo e vai à luta. De quem faz pão, de quem faz poesia, de quem planta, de quem ensina os outros a ler e a escrever. João é nome de gente boa e humilde. É exemplo de fé na vida, de quem não se deixa abater.

João faz massa de cimento e põe o cimento entre os tijolos, se o João for pedreiro. João faz o trem apitar, se for maquinista. João faz gol de cabeça, se for artilheiro. João solta o trapézio no ar, se for trapezista. João faz pintura no ar, se o João for arteiro. E o João faz e fará coisas lindas, se for cuidadoso.

Nós escolhemos o nome João porque esse nome é bonito. Parece um nome falado por um sino gigante. E também porque o João de quem gostamos de lembrar é sempre do bem. E se um nome for um caminho, o caminho do nome do João é de gente honesta, que não tem medo do trabalho, que faz o que é bom e que é feliz.

E você, João, é o irmão adorado da sua irmã. O filho querido do seu pai e da sua mãe. É o menino que nós amamos com todo o nosso coração.

João. Só podia ser João. Só João.”

terça-feira, 24 de junho de 2008

A tribo dos homens-peixes



Na beira da praia, eu ia com os dois, de mãos dadas, perto de onde as menores ondas quebravam. Eu gostava de fazer isso com solenidade, como se fôssemos enfrentar juntos os exércitos dos oceanos, as tribos dos homens-peixes e seus tridentes. Éramos apenas três contra o mar e os agentes mergulhadores das profundezas malignas e infinitas. Quando estávamos em lugar seguro, eu me sentava na areia, as ondas quebrando a dois ou três metros da ponta dos meus pés. Os dois também se sentavam. Eu era o comandante supremo dos doidos náufragos, com meu calção de banho verde escuro. Os dois eram os almirantes malucos dos sete mares. Um de calção laranja e a outra de monoquíni amarelo.

_Fiiiiiirrrrmmmeeeeees! Reforçar a bujarrrona! Içar a contra-vela! Virar leme a estibordo – eu dizia, como um pirata antes de dar a ordem de atirar com os canhões, como o armeiro devia dizer para os grumetes, fazendo força para manter a chama para a mecha do pavio acesa.

_Fiiiiirrrmmmeeeeesss! Preparar a vela mestra! Cortar âncora! Lançar remos! – eu repetia, e quase podia sentir a excitação crescer no peito das minhas duas crianças. O fio de energia elétrica percorrendo a coluna, depois de nascer na ponta do dedão do pé de cada um.

_ Fiiiiirrrmmmeeeeesss! Apontar para o fígado do comandante! Fiiiiirrrmmmeeeeesss! – eu dizia, pela última vez, enquanto uma pequena marola enchia os calções de areia e fazia cócegas na planta dos pés.

_ Fuuuujaaaaaaaaaamm!Salvem suas vidas! – eu gritava, feito o último dos mais insanos marinheiros, antes de me virar e sair em carreira desabalada pela areia.

E como os dois voavam e riam, correndo e caindo, os joelhos arranhados na areia. Ninguém sentia dor nem nada. Era uma alegria pura e envolvente, a de brincar na beira da praia, sem pensar em obrigação nenhuma. Então pulávamos numa piscina formada pelo mar, onde vimos um pequeno polvo e duas lesmas marinhas muito bonitas.

_Nossa! É um polvo de verdade – eles disseram.

E num instante apareceu um pescador tisnado pelo sol com um sorriso branco, branco, de propaganda de dentifrício. E com um ferrinho torto ele cutucou a pedra onde o polvo estava escondido. Rápido,o pescador agachou e puxou com força o polvo, que se enroscou em sua mão, indefeso. Não sei como o pescador fez, mas o bicho afrouxou o aperto no instante seguinte e foi para dentro de uma redinha fina. Era apenas um entre muitos polvos do início de uma única manhã de janeiro e de pesca nos recifes daquela praia, lá em Lauro de Freitas, na Bahia. Acho que ninguém come lesma marinha, pois o pescador não ligou a mínima para elas.

_ Fiiiiiirrrrmmmeeeeees! – eu disse alguns minutos depois, quando voltamos a brincar de marinheiros do bem contra o perverso General Mar. Ficamos aquela manhã e todas as outras a brincar horas e horas de enfrentar e fugir das ondas. Não nos cansamos de repetir, nem mesmo quando estávamos cansados. E vimos as lesmas marinhas, amarelas, com bolinhas pretas, quase todos os dias.

E olhando para as fotos parece que já faz muito tempo que tudo aconteceu. Mas foram apenas seis meses, nem isso.

_ Fiiiiiirrrrmmmeeeeees!

Compreender o que é simples exige simplicidade? Ou exige apenas despojamento? Não sei. Às vezes eu acho que precisamos ver umas coisas intricadas só para apreciar a beleza do que é simples. Outras vezes eu acho que é só resistir o quanto puder e depois voltar a enfrentar tudo de novo, com um enorme sorriso no rosto. Resistir e sorrir. Para todos, inclusive o carrasco. E toda a tribo dos homens-peixes.Mas quem consegue viver como numa brincadeira de criança?

segunda-feira, 23 de junho de 2008

Sobre o lugar de escrever



Escritor não consegue escrever em qualquer lugar, tem que se habituar. Testar a escrita em lugares diferentes. Achar o melhor canto. E quando ele encontrar o melhor lugar, ele vai demorar a pegar o melhor jeito. Essas mandingas demoram a ser criadas.

Mark Twain, por exemplo, demorou a descobrir que gostava de escrever deitado. De preferência, dentro de um barco, descendo o Rio Mississipi. Dizem que Mark Twain era tão acostumado a escrever deitado que passava semanas deitado no beliche. Ele teria escrito “As Aventuras de Tom Sawyer” em apenas três meses, mas teve uma cãibra no pescoço que o impediu de terminar tudo rapidinho. Felizmente, foi durante a cãibra que ele teve a idéia de escrever “As Aventuras de Huckleberry Finn” e inventar, em 1876, a interminável mania americana de continuações infindáveis que iriam desembocar em Rambo 4. Mas, antes de tudo, Twain foi só um repórter que excursionou pela Europa fazendo piadas sobre os europeus. Numa breve passagem pela França, sob a monarquia constitucionalista de Napoleão III, ele diria: "Se você falar a verdade, não precisará se lembrar de nada."

Tolstoi era outro que gostava de escrever deitado. E ele só não terminou de escrever “Guerra e Paz” deitado de barriga na cama por causa da barba. Era uma barba grande e branca, que o Tolstoi tinha que jogar para trás dos ombros quando escrevia. A barba do Tolstoi crescia muito, muito depressa. A barba ficou tão grande que ele tinha que ficar em pé para jogá-la atrás das costas.

Como Tolstoi era um pouco corcunda, a barba não parava atrás das costas. E toda hora ele tinha que levantar e jogar a barba para trás. Cada página escrita custava um dia de trabalho e pelo menos umas cinqüenta jogadas de barba para trás.

Em 1865, quando o Leon já tinha escrito umas duzentas páginas, durante o inverno russo ele teve uma cãibra no joelho ao jogar a barba para trás. A barba e o general inverno o deixaram estatelado no chão do quarto onde escrevia. Foi assim que imaginou a famosa cena onde Andrei Bolkonski(?), caído no chão depois de ter sido ferido no campo de batalha, vê Napoleão montado no cavalo branco passar bem pertinho. E o Bolkonski(?) e o Tolstoi e até o Khutuzov eram fãs do Napoleão. Depois disso, Tolstoi passou a escrever deitado de costas sobre a barba. Isso acabou com as dores nas costas. Mas em compensação, Tolstoi ficou o resto da vida com manchas de tinta no rosto. Os braços também pesavam muito, coitado.

Outro cara que só escrevia deitado era o Samuel Dashiell Hammett. Ele era dipsomaníaco, que é um jeito elegante de chamar os outros de pau-dágua. O Hammett gostava muito de uísque e a Lílian Hellman sabia o motivo. O Hammett tem uma história super-trágica. Durante a primeira guerra mundial o criador de “Continental Op” se alistou no exército dos Estados Unidos e serviu no batalhão de ambulâncias. Ele acabou pegando a gripe espanhola. Hospitalizado, ele conheceu uma enfermeira chamada Josephine, com quem se casou e teve duas filhas.

Logo que a segunda filha, também chamada Josephine, nasceu, em 1926, a mãe foi aconselhada a morar longe dele, pois a gripe havia evoluído para tuberculose. É lógico que o cara começou a beber feito um louco. E quatro anos depois ele escreveu “O Falcão Maltês”. E o melhor dele, “A chave de vidro”, nasceu no ano seguinte. Hammett era um sujeito com um estranho senso de humor. Um cara venerado grandes escritores, como Paul Auster. E amado pela Lílian Hellman. Essa mulher tinha o inferno no nome, mas era uma legal. Durante muito tempo eu pensei que Lilian tinha alguma coisa a ver com aquela maionese. Mas é só coincidência. Como é coincidência o fato de Josephine ser o nome da famosa amante de Napoleão.

Gosto muito de pensar sobre escrever de verdade. E aí outro dia eu tropecei num dos meus livros de cabeceira, dos tempos em que eu também achava que poderia escrever livros com as mãos atrás das costas. Era “Trópico de Câncer”, publicado em 1931 pelo Henry Miller e proibido por trinta anos nos EUA. A minha edição é da Nova Cultural Ltda, de 1987, tradução de Aydano Arruda. Publicação chinfrim, com papel amarelado, uma capa mixuruca e apelativa, que eu comprei num sebo por uma merreca. Mas o livro é genial, como quase tudo do Henry Miller. De cara ele sapeca uma epígrafe de Ralph Waldo Emerson: “Estes romances cederão lugar, pouco a pouco, a diários ou autobiografias – livros cativantes, desde que um homem saiba escolher, entre o que chama de suas experiências, aquilo que é realmente sua experiência e saiba registrar verdadeiramente a verdade.”

Eu escrevo em qualquer lugar. Mas na maior parte das vezes, eu enrolo. Prefiro escrever sentado, mas deitado eu também dou conta. E com qualquer coisa. Lápis, cotoco de lápis. Caneta. Caneta tinteiro. O que rabiscar. Mas ultimamente eu leio o que rabisco com minha Signo Uniball 0.7 no bloquinho de notas. Depois escrevo com o teclado, no blog. Demoro pacas. Sou só um escrevinhador. Ainda preciso aprender muito sobre escolher.

domingo, 22 de junho de 2008

Festa junina na escola alternativa



Sábado teve festa junina na escola alternativa das crianças. Confesso que estou um pouco decepcionado com a escola alternativa. Acho que ela está muito enquadrada, está muito burocrática, pouco alternativa. Acho que os professores perderam o entusiasmo, estão acomodados e a coisa está correndo frouxa demais. Acho que está faltando formação, proposta pedagógica e vontade de criar uma coisa diferente. De ensinar de uma forma diferente. Também está faltando vontade de comemorar e festejar toda essa coisa.

Além disso, eu continuo não perdendo oportunidades de tentar pular fora de qualquer situação que implique em sair de uma rotina. Rotinas são difíceis de implantar e eu preciso seguir uma, senão paro de fazer as coisas que eu acho que tenho que fazer. O post de ontem, por exemplo, é um exemplo de quebra de rotina dupla. Fomos à festa junina e à noite assistimos um vídeo. O texto ficou incompleto e meio sem sentido, o que deverá me obrigar a voltar ao tema, qualquer dia desses.

Mesmo achando que a escola precisa melhorar, ou até por isso, eu e a Patroa fomos à festa. Aliás, não havia a menor possibilidade de não ir à festa. As crianças estavam no maior gás. Acordaram cedíssimo. E já queriam se fantasiar antes mesmo do café da manhã. Saímos cedo e num instante resolvemos a fantasia de caipirinha da minha filha. Só faltava trançar o cabelo, colocar um chapéu e pintar sardinhas nas bochechas.

_Agora, num instante a gente arruma o nosso caubói – disse a Patroa.
_Ué, não era caipira? – indaguei. Sempre quis usar indaguei em post.
_Caubói. Ele quer caubói.
_Então é só fazer caipira com sotaque.
_Não, tem que ter no mínimo um coldre e cinto de caubói.

Tudo que não é bem conceituado é de difícil execução. Portanto, para o meu filho foi mais difícil. Lá pela hora do almoço, a Patroa e a irmã dela pregaram “remendos” na calça jeans e na camisa. Arrumaram um lenço vermelho legal. Ainda faltava um chapéu, um cinto com fivelão, um coldre de caubói e uma estrela de xerife. O plano era passar numa dessas lojas de badulaques a R$ 1,99 e levar um conjuntinho. Perfeito.

Almoçamos num restaurante super-legal a comida que o filho do imperador também comeu. Depois eu conto.

Depois do almoço corremos para concluir o plano perfeito numa loja R1,99. Passamos em três lojas de R$1,99 e não encontramos. O número de caubóis aumenta surpreendentemente em época de festa junina. Precisávamos de um cinto que funcionasse. A Patroa comprou uma espécie de broche para o que deveria ser o fivelão do cinto de caubói do filhote. E improvisou um elástico preto para servir de cinto. O papai aqui ficou de grudar o fivelão no falso cinto.

De volta à casa, finalizamos os preparativos imediatamente. A Rose, a cozinheira-quituteira-governanta e faxineira lá de casa já havia feito dois bolos de fubá e trocentas pipocas. A Patroa cuidou da princesinha. Eu cuidei do príncipe caubói. Mas não dava certo. O fivelão improvisado não parava no lugar. Aquilo já estava irritando o meu campeão. Não tenho nada contra improviso, mas a coisa tem que dar certo. Senão é só insistência com o mico. Aí eu lembrei do meu cinto velho. Com a minha super-tesoura eu encurtei o cinto na medida do filhote. Com uma chave “fílipis” eu fiz o furo na medida certa. Ficou super-legal o improviso. O filhote se amarrou. A partir daí, as coisas começaram a acontecer tudo em sincronismo perfeito e conseguimos chegar à escola rapidinho. As crianças estavam tão relaxadas que dormiram um pouco no caminho.

A festa foi bacana. As crianças se divertiram e conseguimos conversar com alguns adultos. Todos também decepcionados com os rumos da escola. Todos achando que há uma agressividade exagerada no ar. A única coisa chata foram alguns fogos de artifício levados por alguns pais. Meu filho correu o tempo todo na festa com pinta de vencedor. E o cinto brilhava na cintura. Ele estava se sentido orgulhoso e importante. E eu e a Patroa estávamos bem orgulhosos dele e da princesinha. E eu descobri um monte de meninos-fãs que se dizem namorados dela. É lógico que eu quase morri de ciúmes.

sábado, 21 de junho de 2008

O lugar vago da frase certa

Eu estava lendo um livro do Rubem Fonseca. Num dos contos ele diz alguma coisa sobre apagar as coisas que você escreve. Sobre não deixar registros. Sobre não escrever.

Acho que não consigo. E também não tenho muita certeza de que é isso mesmo. De que esse é o estágio desejável. Nem mesmo tenho certeza de que existe um estágio desejável. Mas estou embolando tudo, vou tentar começar do início.

Eu ouvi falar de uma coisa chamada processualismo. É um tipo de arte onde o resultado final é o que menos importa. O importante é o processo intricado que o artista inventa para fazer o objeto artístico. O Youtube está cheio de artista assim. O cara pega uma caixa de papelão e desenha uma silhueta de uma cabeça com capacete em cartolina. Depois cola pedras e objetos de metal na silhueta. Coloca pó de metal somente na silhueta, onde seria o capacete. Enche as laterais de areia. Cola tudo. Passa fita adesiva. Depois fita crepe.

A coisa fica pesada à beça. Aí ele leva para tirar raio x. Quando ele sai do raio x ele destrói a peça, a marretadas. Varre o lixo e joga na lixeira. A única coisa que sobrou é o raio X. E até que fica legal, aquela silhueta de pessoa com capacete. E então o cara tira um xerox do Raio X. Pega uma tesoura e recorta o Raio X. Tudo o que sobrou daquele objeto é uma xerox. Então o cara pega o papel, dobra, põe no envelope e diz que vai mandar para um sujeito chamado Ali, que mora em Timbuctu, no meio do deserto africano.

_Ali, quando você receber isso, queime! – é a única coisa que está escrita.

Não sou processualista, sou muito preguiçoso e pouco metódico para isso. Mas gosto de fazer o que eu chamo de exercícios de poesia. O exercício consiste, principalmente, em riscar coisas.

Risque a melhor coisa que você escreveu no dia. Apague. Abandone o que você considera precioso na melhor história que você acha que precisa contar em versos. Depois comece tudo de novo, sem aquela frase. É assim que se consegue o lugar vago da frase certa. Por mais que você apague, ela continuará a brilhar na sua mente. E embora ela não tenha sido registrada, escrita, ela estará lá, impressa entre outras linhas, brilhando na sua mente, como a casca dourada de uma mexirica muito doce.

É extraordinário. É como a frase sobre os amputados, que dizem sentir dor na perna que já perderam. Como é possível sentir o que não está ali? É só fazendo o exercício que se percebe que é possível. Mas o Rubem Fonseca é diferente. Ele ampliou o estágio do exercício. Ele sugere que exista alguém que faça isso com a vida. Como um verso do Manoel Bandeira que eu li há muito tempo.

sexta-feira, 20 de junho de 2008

Amor em chamas



Os dois estão um pouco bravos comigo. Passei os últimos dez minutos falando com eles sobre a importância de cumprir horários. Será um pouco cedo explicar isso para um menino de cinco e uma menina de três anos? Não sei, com certeza. Mas uma hora eles terão que aprender. Então, eu prefiro que seja agora e que eu mesmo seja o professor.

Temos que sair de casa exatamente às sete horas e trinta minutos. Do contrário, pegaremos um trânsito tão lento que provocará um atraso de dez minutos no horário de entrada da escola alternativa. Então, para estabelecer a paz, eu pergunto se eles querem escutar música.

_Rock´n´roll! – eles gritam.

E eu procuro aquele disco especial que eu montei só com MP3.

_Queremos rock´n´roll! Queremos rock´n´roll! - eles estão impacientes.

E aí eu encontro o disco. Aproveito o sinal vermelho e, de olho no retrovisor, anuncio a plenos pulmões:


_Senhoras e senhores, agora, com vocês, o grande, o único, o inimitável, o fantástico e absolutamente magnífico REI DO ROCK´N´ROLL, ELVIIIIIIS PREEESLEEEYYY...

E enquanto “Burning Love” toca a todo volume e quase arrebenta os meus tímpanos e os dos meus belos filhos eu quase posso ver toda a animosidade se dissipando, fugindo pelas frestas do automóvel.

O tempo com os dois agora está bem reduzido. Essa é a parte desagradável de voltar a trabalhar fora de casa. Eles estão mais grudentos em mim, quando estou por perto. À noite, eles se revezam em ver quem desperta mais cuidados em mim. Não há empate absoluto, mas eu procuro equilibrar as atenções.

E quando acaba a música com o Rei, a minha princesinha pergunta:

_Pai, põe a Rainha do Rock´n´roll?
_Rainha? Er... só um instante.

Por sorte, eu estou com um CD da Joss Stone no carro.

_Senhoras e senhores, agora, com vocês, a grande, a única, a maravilhosa, a belíssima, a charmosa e absolutamente magnífica RAINHA DO BLUES, DA BALADA E DO ROCK´N´ROLL, JOOOOOOOOSSSSS STOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOONE!

E enquanto uma versão de “At Last” toca num volume bem agradável eu olho pelo retrovisor e vejo os dois de olhos fechados, acompanhando a melodia, embalados pela canção.

(Eles curtem muito MPB. Ela adora a música Três Letrinhas, da Marisa Monte. E ele vibra com todas do Tim Maia.)

quinta-feira, 19 de junho de 2008

Três listas achadas e uma nova



Eu continuo com a minha mania de listas. Eu faço lista de tudo. E vou guardando as listas nas gavetas. Eu coloco datas nas listas, que é para servir de referência.

Outro dia achei uma lista de 1997.

Era a lista que eu fiz no dia 2 de fevereiro de 1997, um domingo. Era a lista das dez frutas que eu adoro, por ordem de preferência: Laranja; Mexirica; Manga; Caju; Maçã; Banana ouro; Abacate; Uvas Thompson; Pêra; e Goiaba.

Uma lista muito boa que eu considero perfeitamente válida até hoje. Não, minto. Talvez, se eu fizesse a lista hoje, eu acrescentasse Mamão e Ameixa, em décimo primeiro e décimo segundo, respectivamente.

Depois revirei uma gaveta e lá estava outra lista, com a data de 11 de outubro de 2002, uma sexta-feira. Leopoldo, Leonardo, Leocádio, Leonora, Leôncio, Leon, Leorício, Leopardo, Leomauro e Léo.

Dez nomes com Leo. Não consegui descobri porque diabos fiz essa lista.

Pensei. Eu gosto de pensar sem fazer nada. Eu só fico parado, estático, fitando o nada. Parecendo bobo. Quem me vê pensando acha que eu tenho algum problema de coordenação. Eu às vezes acho que eu tenho mesmo.

Pensei. Pensei que fosse uma lista para escolher nomes de personagens, mas lembrei que desisti de escrever ficção ainda antes do ano 2000.

Pensei. Depois lembrei que eu trabalhei com um cara chamado Léo. Era um cara legal.

Aí espremi a memória mais um pouco e lembrei que a lista havia sido feita às vésperas do casamento do Léo. Foram dez tentativas de nomes para colocar no cartão do presente de casamento. Acabei escrevendo só Léo mesmo.

Só lembrei disso porque havia uma lista de coisas grudadas na lista de Léos. Era uma lista sem data e incompleta, com apenas nove itens: Rádio-relógio; Micro-ondas; Telefone sem fio; Ventilador; Pratos; Panelas; Talheres; Copos e Aparelho de fondue. É lógico que eu aproveitei para desovar um Aparelho de Fondue. E deve ter sido por isso que eu só escrevi nove itens. Parei no item que eu tinha certeza que vingaria.

Acho que eu escrevi aqui que nós (a Patroa e o Careca) ganhamos tantos desses aparelhos quando casamos que ficamos conhecidos durante anos como o “Casal Fondue”. Era o presente que sempre dávamos para o pessoal que casava. Fizemos tantos repasses de aparelhos que até nós enjoamos.

Aí começamos a dar kits de banheiro. Esses kits têm muitas vantagens, veja só. São baratos. São bonitos. São limpos e fáceis de limpar. Não enferrujam, podem ser molhados à vontade. São duráveis. Ninguém nunca dá kits de banheiro, então não tem problema de repetição. O casal sempre usa o kit de banheiro. O casal sempre vai lembrar que foi você que deu aquele presente. Todo mundo usa o banheiro todo dia, então você sempre será lembrado. E, se por um acaso muito grande, o casal recém-casado não gostar do kit-banheiro, ele sempre poderá repassar. E hoje é quinta-feira, 19 de junho de 2008.

quarta-feira, 18 de junho de 2008

E o mundo emburreceu, de novo



Eu me impressiono facilmente. Então eu fiquei muito impressionado quando a China parou em respeito aos mortos do último grande terremoto, há um mês. Acho que é um sinal de inteligência parar para pensar.

Mas imediatamente me lembrei dos filmes da Alemanha nazista.

Quando vejo uma massa enorme de pessoas se comportando direitinho, coreografadas, eu lembro dos filmes da Leni Riefenstahl e do seu reverso, aqueles filmes da MGM de nado sincronizado.

Vi as fotos. Milhares de motoristas param e saem dos carros. Todos abaixam a cabeça. Contritos. Fiquei impressionado. Pareciam sinceros, condoídos mesmo, com sentimento de nação ferida. Não era uma demonstração de força e orgulho. Era uma demonstração massiva de contrição.

Aí hoje fiquei sabendo que a União Européia vai prender imigrante ilegal. Faltará cadeia, é lógico.

Há 100 anos, as Américas recebiam os refugiados das guerras, da fome, da falta de trabalho e de oportunidades. Hoje mesmo o filho do imperador japonês veio ao Brasil em comemoração a esse fato.

De vez em quando parece que o mundo emburrece.

E como daqui a pouco tem jogo do Brasil, eu também vou parar. Vou ficar por aqui mesmo.

terça-feira, 17 de junho de 2008

O metrô que nunca existiu



O engraçadinho do cúbi (é pequeno demais para se chamar cubículo) viajou e as horas estão mais modorrentas no trabalho. Como já deixei de ser novidade, as pessoas já não fazem mais cerimônia comigo. Sou só aquele cara que chegou no início do mês. E já passamos da metade do mês. Então já sou quase uma velharia no cúbi. Mas ainda estou construindo uma rotina. Acho que sou um pouco lento.

Eu e os colegas de cúbi estamos conversando menos, de costas uns para os outros. Estamos cada vez mais concentrados no trabalho. Acho que os caras relaxaram, já viram que eu não represento um perigo para seus empregos. Isso é muito bom.

Quando você chega com a caixa de badulaques de entrar no emprego geralmente as pessoas se assustam. Novidades e mudanças representam ameaças ao ambiente constituído, ao habitat do “homo burocraticus”. Então eu trato logo de parecer o que eu sou, um cara comum e inofensivo que precisa tratar os dentes. Conto aquelas piadas velhas. O botão vermelho do banheiro do avião. A piada do velhinho que troca de namorada no asilo, ele prefere a que tem Parkinson. A piada do argentino, da loura bonitona, da peso-pesado e do brasileiro, no vagão de trem. Exalo senso comum. Bocejo na frente da tela. Dou risada e bato na perna com a palma da mão. Sou eu mesmo, um pouco mais devagar.

E em pouco mais de uma semana os caras me olham com familiaridade. Uns poucos deixaram de me observar, cuidadosos, e agora assumem aquele ar de quem tem mais cabelo do que o vizinho. Aquele jeitão de quem acha que vai chover mais na sua horta. E num instante já tem quem olha para mim por cima dos óculos, com um sorrisinho no canto da boca. É a vida. A fauna humana se distribui, com a variedade de sempre, em todos os lugares.

Fico por fora de alguns assuntos. Não consigo falar de televisão, por exemplo. Há anos que só vejo filmes e um ou outro telejornal. Mesmo assim procuro ser o mais sincero possível em todas as respostas que dou. Ainda fazem um bocado de perguntas. Mas já não prestam muita atenção nas respostas. Perceberam que eu não sou terrível. Que não vou dar rasteira.

Já esgotei as combinações possíveis da máquina de café. Definitivamente, o capuccino é sensacional. Mantenho as quatro doses diárias de café, duas no matutino e duas no vespertino. Duas das doses, as últimas de cada período, são de capuccino com chocolate. A máquina está sujeita a pequenas falhas, o que exige um pouco de atenção para obter o café desejado. De vez em quando, o copo bege entala e a máquina joga café, leite, açúcar, chocolate e palito de misturar no ralinho. Na primeira vez que isso aconteceu comigo, confesso, fiquei em pânico. Detesto desperdício. Um dos caras mais antigos foi solidário e me ensinou o macete: é só puxar o copo rápido e colocar no círculo do ralinho.

O defeito da máquina, não sei o motivo, me fez lembrar de um trote que sofri quando era calouro da universidade. Alguém inventou que havia um metrô que passava no subterrâneo do campus. Era um metrô-bala que fazia a ligação do campus com a biblioteca e o centro olímpico. E o idiota aqui comprou tíquetes para uma semana de metrô. Lembro de descer as escadas e ficar olhando para a pista sob o Minhocão, como é chamado o prédio da universidade. Fiquei dez minutos esperando, até que passou uma Kombi. Era dirigida pelo Juarez, que depois fui saber que era o técnico do laboratório de fotografia do Departamento de Comunicação.

_Metrô?! Mas é claro! Fica firme aí que daqui a pouco ele passa! – ele falou.

E eu, crédulo, esperei mais vinte minutos pelo metrô que nunca existiu.

Durante todo o período da universidade, o Juarez sempre fez a mesma piada comigo. Ele sempre me oferecia tíquetes para o metrô.

segunda-feira, 16 de junho de 2008

A mulher do vilão



Outro dia eu e o meu filho mais velho, de cinco anos, estávamos vendo um desenho do Batman contra o Coringa. Muito legal, o desenho. E lá, de repente, aparece uma mocinha vestida de colombina com uma máscara de Zorro.

_Cacilda! – eu disse, espantado.
_Essa é a namorada do Coringa – esclareceu o meu filho. Ele sabe tudo de desenho animado.

E era mesmo a namorada do Coringa. Sou do tempo em que os vilões não tinham namoradas. Os vilões invejavam a namorada dos heróis. Acho que era uma regra. O vilão não tinha direito a ter mulher. Então ele roubava a dos outros. Como o palhaço daquela música. Para não ficar na mão, um vilão como o Brutus, perseguia a beldade do Popeye. E muito embora a Olívia Palito não representasse nenhum ideal de beleza, ela não queria ser mulher de bandido.

Nenhuma queria. A Margarida, do Donald e do Gastão, o pato mais sortudo do mundo. A Lois Lane do Superman, disputada pelo Lex Luthor. A Diana, do Fantasma, por um dos vilões maníacos por mulheres sem umbigo. E todo o resto. Homem-aranha e a mocinha de nome impronunciável. Era assim com o Tarzan. Toda a selva queria a Jane, a inglesa que gostava de ficar de tanga. Mas a Jane só queria um sujeito, o bom e decente Rei dos Gorilas e Macacos, o único e apenas ele, o herói do grito mais esquisito da selva, o Tarzan. Nessa época herói nem tinha filho. Era tudo sobrinho ou órfão adotado pelo herói.

Foi por isso que teve uma época em que os heróis começaram a se casar, para gerar os heroizinhos que herdariam a Terra. Lembro do casamento do Fantasma. E também do Homem-Aranha. Depois o Capitão América morreu. O Hulk ficou inteligente. Aí os roteiristas de quadrinhos embirutaram. O Homem-Aranha tinha um clone, que não era um clone, que era mesmo um clone e tudo não passava de uma grande tramóia. A coisa ficou tão confusa que eles tiveram que matar um monte de personagens em hecatombes e guerras fantásticas. Ficou tão ruim e chato que eu, um colecionador fanático de quadrinhos e gibis, parei de prestar atenção. Interrompi coleções de anos a fio. Desisti de tentar alcançar o fio da meada.

Mas até onde me lembro, a regra ainda era a mesma. Vilão não tinha namorada. No máximo, tinha uma vilã como parceira de maldades. Por isso, eu prestei atenção, mas não consegui descobrir o nome da namorada do Coringa, o palhaço do mau.

Aí remexi a memória e lembrei da Mulher-gato da série da TV. Aquela que tinha POU, SOC, TUM. Aquela Mulher-Gato era totalmente do mau e era maravilhosa. Acho que foi ali que a coisa começou a degringolar. Foi quando a gente viu, na TV, que se a mulher má podia se apaixonar pela Força do Bem, que era o Batman, porque não o contrário? E as mulheres de bem começaram a se apaixonar pelos malvados. E logo em seguida, Louis Lane se apaixonou por Lex Luthor.

Acho que as coisas são um pouco diferentes hoje em dia. Os vilões dos desenhos, das séries de heróis, têm namoradas. Algumas até bem bonitas. Ainda que de vez em quando elas se transformem em víboras.

domingo, 15 de junho de 2008

Filme do Shyamalan é bom mesmo



Conseguimos de novo. Eu e a Patroa fomos ao cinema, aproveitando uma janela da tarde sem as crianças. Nem planejamos nada e na frente do cinema do shopping ainda não sabíamos que iríamos assistir “Fim dos tempos”, do Shyamalan. Era o “Fim” ou aquele novo filme do Hulk. A Patroa me deu a opção de escolher. Eu escolhi o “Fim”.

Logo que entramos no cinema aconteceu uma coisa esquisita. Eu geralmente me acostumo rápido à mudança de luz, do claro para o escuro, mas neste sábado algum circuito dos meus olhos parece ter falhado. De modo que eu estava atrás da Patroa e de repente estava no breu total, sem enxergar absolutamente nada, nadica de nada. Ela fez uma curva abrupta e se sentou, falando comigo. Eu também fiz a curva e dei uma topada na orelha de um pobre coitado, que reclamou. Eu pedi desculpas, é lógico. Mas ainda não enxergava nada quando sentei. Foi rápido, tudo isso. E o sujeito da frente aceitou as desculpas.

Depois tudo voltou ao normal. Não se preocupe. Como o filme do Shyamalan é de suspense, não vou contar nada do que acontece. Só vou falar sobre as minhas impressões de como ele consegue construir as cenas mais arrepiantes do cinema atual. Hum! Pretensioso à beça!

O filme é bom mesmo. E confesso que se eu tivesse lido a baboseira que estão grudando nele, de que é um filme “ecológico”, eu teria simplesmente ido assistir ao Hulk. Sem ver o gigante verde, só pelo trailler, dá pra saber que o herói dos quadrinhos vai dar porrada e arrebentar. E com “ecológico” na cabeça, eu não teria conseguido embarcar na onda do Shyamalan como se deve (comme il faut). Ele mesmo, o Shyamalan, deve ter sacado de que o bla-blá-blá “ecológico” era um saco e o rótulo poderia espantar os fãs do suspense do telão. Talvez por isso, o Shyamalan tenha produzido uma das mais hilariantes cenas do filme, fazendo o Mark Whalberg contracenar com uma planta numa falsa biblioteca, numa falsa casa. É genial.

Como em dezenas de filmes produzidos em Hollywood, Bollywood e Japão, o “Fim dos Tempos” começa a partir da premissa de que o mundo vai acabar daqui a pouco, é só uma questão de horas, no máximo alguns dias. Ninguém entende direito como a coisa vai acontecer, mas vai. E acontece o tempo inteiro. O mundo está se acabando na frente dos olhos de um grupo formado por um casal sem filhos, um pai e uma menina. E eles querem sobreviver.

A Patroa gritou em pelo menos quatro cenas, junto com o cinema. Eu não grito. Eu sou do tipo que se assusta calado. Eu fiquei suado, de suor frio, coluna arrepiada. Fiquei com vontade de sair correndo, mas grudado na cadeira. É o suspense puro. O Shyamalan é mestre em deixar você pendurado no que vai acontecer dali a segundos. E você pode até adivinhar o que vai acontecer, mas mesmo assim ele vai conseguir provocar uma enorme surpresa em você. Acho que é pela maneira que ele mostra a coisa. A câmara flutua de jeito diferente. Faz um balé, às vezes. Parece fremir com o vento.

Shyamalan é um novo clássico. Quando todos estivermos em nossas cadeiras de rodas, tomando sol, nós vamos poder dizer aos netinhos que vimos os filmes desse gênio quando ainda havia camada de ozônio.

Só quando eu cheguei em casa que vi as marcas de unhas da Patroa no meu braço. Ela fica com medo e eu é que me lasco. Estou todo lanhado. E ela ainda disse que não gostou do filme. Para ela, o melhor do Shyamalan ainda é “Sinais”.

sábado, 14 de junho de 2008

Como nasce gente em junho



Quase todos os sábados, nós almoçamos juntos. Eu, o Cabeça, a Maira e a Patroa. É um bom hábito arraigado. Fazemos isso há vários anos. Colocamos a conversa em dia, falamos dos amigos ausentes, dos amigos presentes, do que acontece de bom na cidade e no País. Também falamos do que acontece de ruim, mas em geral não alongamos nisso que é para não estragar o sábado. Existe uma série de assuntos recorrentes. Futebol(pouco, eu não entendo mais nada de futebol), fórmula um, capa de revista, política, economia, bolsa de valores(até parece!), cultura afro-nipo-brasileira, aquários, televisão, TV a cabo, moça do tempo, pôster central de revista, música, cinema e livros. E bobagem. Muita bobagem. Depois falamos sério. E aí cansamos e voltamos a falar muita, muita bobagem. É divertido.

Mas também é cultural. O Cabeça me diz quais os livros que ele recomenda para a semana e eu procuro tomar nota, mentalmente ou com o bloquinho que eu sempre carrego. Ele já me deu umas dicas preciosas. O Cabeça é uma máquina de ler livros. Sabe tudo. Não é como eu, que só vou a livrarias de vez em quando. Faço isso por razões meramente econômicas, não quero assumir dívidas impagáveis. O Cabeça é assíduo. Acompanha lançamentos, assina edições especiais ilustradas e autografadas. Para você ter uma idéia, o Cabeça tem uma primeira edição em espanhol do Don Quixote com ilustrações do Gustave Dorè. Foi presente do avô dele, outro apaixonado por livros. O Don Quixote é tão bonito, pesado, imponente e maravilhoso que possuirá, em breve, um móvel só para ele, na biblioteca. Ah, é, isso é importante. O Cabeça tem uma biblioteca em casa. É diferente da personagem do Elias Canetti em Auto-de-Fé, não tem tanto livro. Mas é uma boa biblioteca.

E além de ser meu guru de livros, o Cabeça também é o meu guru de música. A maior parte do rock´n´roll que eu escuto eu ouvi primeiro na casa dele ou foi dica direta dele. Dos outros gêneros ele não manja muito, mas se for rock, o Cabeça já ouviu e tem opinião formada.

Também trocamos muitas impressões sobre os filmes que assistimos. Ele gosta de filmes que sejam malucos e divertidos, com muita ação, tiros, máquinas velozes, enredo envolvente, nudez feminina, closes de pés e uma boa música. Eu, por minha vez, gosto de filmes que tenham muita ação, tiros, enredo envolvente, uma boa música, máquinas velozes, nudez feminina frontal e traseiral e que sejam malucos e divertidos. Então eu procuro ouvir as dicas de filmes e vídeos que ele recomenda.

Mas hoje foi diferente. Era aniversário de uma amiga das crianças, a Ana Beatriz. E a festa seria no horário do almoço. Então eu nem liguei para o Cabeça, achei que não ia rolar o almoço tradicional. Demoramos uma eternidade para sair de casa e quando deu meio-dia nós ainda estávamos procurando uma vaga para deixar o carro. Demos sorte de achar uma vaga em frente a uma churrascaria argentina. Aí andamos um pouquinho e chegamos naquela casa de festas.

_Pai, essa é a Casa da Ana Beatriz? – perguntou o meu filho.
_Não, filho. Isso é uma loja de festas – respondi, inocente.
_ A Ana Beatriz mora numa loja de festas? – perguntou o sabido.
_Não. Ela comemora na loja de festas – fiz a escada.
_Ela come e mora na loja de festas? – encerrou ele. Céus, eu criei um trocadilhista.

Pois então, eu e a Patroa estávamos naquela loja de festa de criança quando o Cabeça ligou para combinar o lugar de almoçar. Fiquei branco, juro. Pasmo.
_Careca, o que foi? – perguntou a Patroa.
_Caramba, a probabilidade disso acontecer é muito pequena, mas aconteceu.
_O que foi? O que foi?
_O Cabeça combinou de almoçar na churrascaria argentina da esquina, aquela do estacionamento.

E quando o Cabeça chegou, eu contei da coincidência para ele. Falei da minha surpresa, da minha estupefação e pasmaceira em função da coincidência.

_Não é demais, Cabeça?
_Nossa! Demais! Como nasce gente em junho!

sexta-feira, 13 de junho de 2008

O desapontamento paterno



Quando eu cheguei à escola alternativa dos meninos, havia três meninos e três meninas me esperando. E eu só tenho um de cada. Achei superlegal descobrir que os meus dois filhos são campeões de popularidade, mas não cabem seis crianças no banco de trás do carro. Só cabem quatro. E assim mesmo, bem acochambrado. E, além disso, eu só estava sabendo da combinação de duas crianças a mais para o almoço. A Rose é uma excelente cozinheira-babá-animadora-de-crianças, mas se eu chegasse com seis crianças para almoçar, no improviso, acho que ela teria um chilique. Então, olimpicamente, eu esperei que as crianças se acalmassem e conversei com o meu filho.

_Filhote, o que nós já combinamos antes? Nós já combinamos que não dá para combinar ir para a casa de amigos na hora de ir embora. Tem que ter, no mínimo, um dia de antecedência. O papai e a mamãe têm que conversar com o papai e a mamãe do amigo, para ver se não há nenhum problema. Os pais do seu amigo podem ter combinado médico. Podem ter combinado visitar a vovó. Podem ter combinado ir ao zoológico com os primos. Podem ter combinado ir ao cinema, com o vizinho. Podem ter combinado um zilhão de coisas.

_É, pai, mas... – ele ensaia uma justificativa, que eu tenho que atalhar.

_ Nós vamos atrapalhar a combinação dos outros, é? – eu digo, metido a educado.

_Poxa, pai, deixa eu falar! – eu não sei onde eles aprendem a falar essas coisas.

_Deixo. Mas antes nós vamos ver se todo mundo pode e quer mesmo ir lá pra casa, tá bom?

E, após rápida votação, o número de crianças que quer mesmo ir lá pra casa continua o mesmo e por pouco não aumenta em mais um. Foi sorte que o alternativo puxou o menino de lado e lembrou a ele da aula de natação. E hoje é sexta, eu pensei. Nem tem a desculpa da aula de natação. Eu estava num mato sem cachorro. Seis crianças dispostas a ir lá para casa. Não havia remédio. Eu teria que esperar os pais alternativos chegarem para ver se eles deixavam as crianças ir comigo.

Isso não está escrito em lugar nenhum. Mas o Código de Ética dos Pais dos Meninos e Meninas da Escola Alternativa é bem claro quanto a ir almoçar na casa dos outros: o ser humano recebente não recusa almoço para ninguém. Quem diz “não” é o pai da criança que quer ir. Ou então você dá uma desculpa para o pai do menino e livra a sua cara e a dele. Mas você não vai desapontar o filho do colega. Isso é trabalho de pai. Desapontamento é conosco mesmo.

Então eu abri a toalha de lanchar da minha filha para sentar e ver as crianças brincar. Os pais alternativos demoram muito a buscar as crianças. Principalmente às sextas-feiras. Trinta minutos depois disso, o pai de uma das crianças extras chegou. Ele lamentou, mas já havia combinado com a mãe do filho que levaria o menino com ele, para o final de semana. Tem muito pai alternativo separado, não sei a explicação. Mais dez minutos e chegou o último pai extra. Mesma coisa. Já havia combinado de pegar a menina e levar para ficar com a enteada e mais a filha da atual companheira. As filhas gostam muito de brincar juntas. Ou seja, os caras tiveram pena de mim.

Então, com quatro crianças apertadas dentro do carro, eu fui feliz para casa. E ninguém se machucou.

quinta-feira, 12 de junho de 2008

O Careca, no estacionamento



Uma das minhas primeiras adaptações ao novo emprego foi o lugar de estacionar. Esta cidade começou a ficar apertada de repente e agora é difícil estacionar na maioria dos lugares. E onde eu trabalho, no edifício inteligente de frente para o shopping, só tem garagem para os VIPs. Os Little Important People - LIPs, como eu, têm que se arranjar como puderem.

Ser LIP tem vantagens e desvantagens. A maior vantagem é que ninguém pede nada, nem informação, a um LIP. A principal desvantagem é que ninguém liga a mínima para você, nem o sinal de trânsito. Desse modo, o risco de morrer atropelado é enorme. Bem como o risco de alguém jogar lixo em você, no meio da rua. Nunca aconteceu comigo, mas já vi.

VIP vive recebendo brinde. A única coisa que um LIP ganha é buzinada. VIPs são ovacionados. LIPs são empurrados para a sarjeta. Espremidos, apertados, conduzidos e obrigados a andar depressa, o tempo todo. Enquanto os VIPs pensam em músicas da Madonna, nós, LIPs, ficamos com “ôôôôô, vida de gado”, do Zé Ramalho, na cabeça.

E é verdade, mesmo, eita povo feliz!

Eu ando na rua e vejo o povo dar risada. Coisa esquisita. Ou é felicidade natural do povo, ou a coisa é comigo. Sempre acho que minha calça rasgou, que tem gente que acha engraçado careca de terno. Só pode ser. Depois desencano. Ser LIP é ser feliz. O Zé Ramalho está certo.

Você sabe que é LIP quando a turma do estacionamento deixa você passar numa boa, sem exposição de dramas pessoais. Você sabe que pelo menos parece VIP se os mesmos caras exibem receitas médicas, chapas e tragédias de saúde à espera de uns trocados.

No primeiro dia, no estacionamento em frente ao shopping, a turma achou que eu era VIP. Deve ter sido por causa do terno bem limpinho e dos sapatos super engraxados, reluzentes. Dava para ver a minha careca brilhando no sapato. Quase fizeram fila para apresentar atestados, carimbos e selos de inaptidões e aposentadorias precoces especiais. Eu passei que nem um paxá, levantando a mão e abençoando todos aqueles pecadores com o sinal da cruz.

_Tô sem grana, moçada! Não tenho nem para um café, galera! Estou aceitando vale-refeição, meu chapa!

Então, é assim. Para garantir o estacionamento no shopping, eu chego cedo. Não é esforço nenhum, pois o trabalho fica perto da escola alternativa das crianças. E agora a turma do estacionamento já me conhece. Ninguém me chama mais de “dotô”. É careca pra lá, careca pra cá. Com o maior respeito.

_Aê Careca, pode arrumar o carro, por favor. Desse jeito vai atrapalhar – falou hoje um cara com pinta de dono da rua, do estacionamento e de uma 9 mm mocozada em algum lugar por ali.
_Como é?
_Seja bonzinho, volta lá e estaciona direito, chefia. No macio, falou?
_Mas é claro. Era só falar com educação. Já estou indo.

Amanhã vou ter que procurar outro lugar. Coisa mais LIP.

quarta-feira, 11 de junho de 2008

A Cuca vem pegar



São pouco mais de onze horas da noite e o pai de um colega de sala do meu filho acaba de sair daqui de casa. É um dos melhores amigos do meu filho na escola alternativa. É o aliado de todas as horas. O outro cara da dupla, o parceiro de combinação das pequenas patifarias de criança. O chapa. Pois esse menino, depois de duas semanas de ensaio, decidiu que hoje viria passar a noite. Dormir aqui em casa. Mas não conseguiu. Ficou preocupado, com saudades dos pais, começou a ameaçar ter enjôo, a querer vomitar. E eu e Patroa jogamos a toalha. Telefonamos para os pais.

Depois de uma maratona de quase dez horas de brincadeiras ininterruptas, o menino não adormeceu. A Rose, a babá-encanadora-lavadeira-governanta daqui de casa, foi embora com um ar evidente de estafa. Mas o menino não conseguiu relaxar. Meu filho e minha filha já estavam ressonando e o colega de escola ali, na cama improvisada, firme, de olho arregalado.

Nessas horas, uma das coisas essenciais é não sugerir nada para a criança. Você quer que ela durma ali e a estadia seja um sucesso. Principalmente porque você já está de pijama e morrendo de sono. Também é importante para o seu filho que os amigos dele se sintam seguros e confortáveis na sua casa. Isso amplia a auto-confiança e o amor próprio. Isso é importante à beça. E acho que era isso que estava escrito num manual de criar filhos, que eu li há muito tempo. O manual chamava “A Arte de Ser Pai”, ou “Ser pai é uma arte”. Não lembro, mas tinha arte no meio. O que geralmente significa que o livro é de um amador. Quando deveria ser exatamente o contrário.

Eu e a Patroa procuramos diversificar os assuntos. Falar de coisas da escola. Das coisas do pátio da escola. Das coisas da sala da escola. Mas acabamos ficando sem assunto com esse menino. Ele sentou na cama e disse que estava com saudades.

_Acho que eu vou vomitar – ele disse.

Vomitar é terrível. Crianças detestam vomitar. Aquilo fica grudado na memória delas, junto com o gosto ruim na garganta. Passa o gosto ruim, mas elas ainda lembram do que fica na memória. E ainda por cima, alguém precisa limpar. Por isso, nós decidimos, com uma rápida troca de olhares, que o melhor era não insistir com o perigo. E capitulamos.

Eu sei, você deve estar pensando que na sua época de criança você nunca nem dormiu na casa de um colega de escola. Eu também não. Nem a Patroa. No máximo, dormi na casa de primos. Mas os tempos mudaram. E o meu filho já dormiu na casa de alguns colegas. E no dia seguinte, quando o vi na escola, ele estava bem orgulhoso da façanha. Da amostra de coragem e independência. Ele olhava de igual para igual os meninos que já haviam dormido na casa dos amigos. Acho que é só para isso que serve.

Não. Também serve para a gente ficar super-preocupado, como o pai do menino que veio aqui em casa.

_Está tudo bem? Aconteceu alguma coisa? Precisa de algo? Sim? Ok? Tudo bem? – perguntou o pai do menino, assim que atendeu.

E foi difícil deixá-lo tranqüilo. Como foi difícil me tranqüilizar, quando eu tive que ir buscar o meu filho de madrugada, alguns meses atrás. Mas quando o colega do meu filho se despediu, já dentro do elevador, eu lembrei que para o meu filho, triste mesmo foi aquele dia seguinte.

terça-feira, 10 de junho de 2008

Edifício meio burrinho



O prédio onde eu trabalho tem catracas inteligentes. É uma inteligência meio burrinha. Eu tenho de usar um cartão magnético no pescoço para acionar a catraca. Esse cartão deve ser colocado próximo a umas caixas de metal, que acendem umas luzinhas verdes ou vermelhas. Aí as caixas emitem um apito, pííí. Então é só empurrar a catraca e entrar.

_É um prédio inteligente – me disse, no primeiro dia de trabalho, o chefe de segurança do edifício.

_Ah, é. E quanto é dois mais dois? Hein? Hein? – eu perguntei para as paredes, para uma caixa de metal, logo no primeiro dia de trabalho.

O chefe de segurança me olhou como se eu fosse um babaca. E eu olhei para a caixa de metal como se ela fosse uma caixa de metal babaca. Detesto caixas babacas. Também detesto segurança babaca. Só para deixar isso bem claro, eu perguntei de novo:

_Quanto é dois mais dois? Hein? Hein? E você aí, nada de assoprar – eu disse, olhando para o chefe de segurança. Ele me olhou de volta como se eu fosse um idiota quatro vezes babaca. Ou então ele é estrábico. Talvez ele seja mesmo estrábico. Ou então não consegue tirar os olhos do próprio nariz. Tem gente que ama muito o próprio nariz. É narizístico, ao invés, de narcisista. Eu, por exemplo, gosto muito do meu nariz. Mas eu também sou um pouco estrábico.

Depois fui apresentado ao elevador. É bem bonito, o elevador. Muito educado. Muito eficiente. Muito espelho, aço escovado. Botões bonitos. Modernosos. Mas você tem que ser bem rápido. Você chama o elevador para descer e ele vem rapidinho. Você deve entrar depressa e apertar logo o andar para que ele desça. Caso contrário, como ele é um elevador muito inteligente e esperto, se alguém lá de cima chamar o elevador ele irá para cima. Aí ele não atenderá aos apertos de botão para descer. Coisa de elevador intelectual. Se ele começar a subir, ele nem sequer acenderá a luz dos andares para descer depois. Trata-se de um elevador esnobe.

_E aí, não vai perguntar nada para o elevador? – perguntou o chefe de segurança.
_Esse elevador é muito acadêmico. Pra fazer pergunta a ele tem que ter, no mínimo, uma pós-graduação – eu disse ao sujeito.

Nem deu tempo do chefe de segurança responder. O elevador é muito rápido. Ele me acompanhou até a sala onde eu iria trabalhar o meu primeiro dia de trabalho e apontou para outra caixinha de metal.

_É só passar o crachá perto da caixa que a porta abre. Aqui não usamos chaves. Todas as portas do edifício são eletrônicas, são inteligentes.
_Obrigado. Deixa eu aproveitar e fazer uma pergunta. O senhor sempre acompanha todas as pessoas que começam a trabalhar aqui?
_Não, senhor. Eu só acompanho as que gritam com as caixas de metal.

Inteligente, aquele chefe de segurança. Estrábico, mas muito inteligente. E quando eu entrei na sala onde eu trabalho, eu senti que vou adorar trabalhar nesse edifício. Embora ele seja meio burrinho, tadinho.

segunda-feira, 9 de junho de 2008

Almoço com as estrelas



Eu não gosto de comer em lanchonete e nem em restaurante. Eu gosto mesmo é de comer em casa, vendo as crianças. Eu e a Patroa estamos casados há mais de dez anos e o meu filho mais velho só tem cinco anos. Ou seja, tivemos cinco anos de casamento para desaprender o que é almoçar em casa, o que é tomar café da manhã, o que é horário de jantar. De fugir dos horários em que todo mundo come, bebe e dorme. Ficamos nessa bagunça um tempão, só curtindo a liberdade permissiva de mandar nos horários ao bel prazer.

É muito bom só precisar cuidar do seu horário. Ele é seu. Não é de ninguém mais. E você pode atrasar o almoço, um pouco. Você pode adiantar o jantar, um pouco. E pode até ficar sem almoçar ou jantar. Quem liga pra isso? É o seu horário, não é? Então eu comia muito sanduíche. E nem eu e nem a Patroa ligávamos a mínima para a esqualidez da nossa geladeira. Só tinha queijinho, cerveja, salame, provolone e parmesão. Coisas para um sanduba rápido, ingredientes para fondue e aperitivos rápidos. Ou seja, as coisas essenciais para quem não gosta de cozinhar e não come em casa.

Mas depois de cinco anos, tudo mudou. À medida que a gravidez da Patroa ia crescendo, nós começamos a encher a geladeira de provisões. E, junto com a geladeira, nós começamos a querer mudar de hábitos. A fazer compras de verdade, ao invés do supermercado de supérfluos dos jovens casais. Acabou-se o fandangos e o cheetos. Nós trocamos as fritas, pelas batatas, arroz, feijão, verduras, legumes, macarrão, ovos e carnes. E, de vez em quando, eu aparecia em casa, para o almoço.

Quando nasceu o primogênito, eu ainda enrolei um pouco. Não disciplinei os meus próprios horários, embora o bebê e a Patroa tivessem hora para tudo. Só havia um horário sagrado: dar banho no bebê. Do primeiro dia de vida, vigiando o umbigo, até os seis meses de idade, só eu que dei banho no primogênito. Depois, quando a princesa nasceu um ano e meio depois, nós dois, eu e a Patroa, achamos que era hora de disciplinar os horários. Combinamos de almoçar sempre em casa. Combinamos de observar a mastigação das crianças. De supervisionar a escovação.

Mas não cumprimos o combinado. Eu sempre tinha um compromisso na hora do almoço. Também dei banho na menina, mas não com a mesma exclusividade do menino. E, além disso, havia um monte de além dissos. O trânsito. A preguiça. O comodismo. A facilidade de almoçar na própria mesa de trabalho. A reunião que começaria sempre às duas horas da tarde, em ponto. A alimentação das crianças, que ainda era muito líquida. Os dentes das crianças, que ainda eram poucos e fáceis de limpar. Os dois, que ainda eram dois bebês. Os horários deles, que já estavam dentro dos horários, certinhos. E havia eu, que não queria complicações. Então nós postergamos a história de almoçar todos os dias em casa. Afinal de contas, é muito difícil conversar com bebês durante o almoço. E, principalmente, é muito difícil ficar limpo almoçando com bebês.

Enquanto isso, eu lia os artigos de especialistas nas revistas especializadas em criação. De peixes. De cães. De coelhos. De canários. E lá eles também ressaltavam o quanto as refeições são importantes para o desenvolvimento dos nadadores, dos corredores, dos voadores, dos bípedes, dos quadrúpedes, dos crustáceos, dos vegetais e de nós, seres humanos. Essas revistas especializadas são muito boas para tudo e não perdem a validade nas bancas de revistas. Pode reparar. Aí, no ano passado, os dois entraram na escola alternativa. E nós tivemos que reaprender tudo rapidinho. Café-da-manhã, almoço e jantar. Como deve ser.

As revistas especializadas, os especialistas em crianças, os psicólogos, os professores, os tribalistas, os alquimistas, os avós, as tias, os cupinchas e o porteiro do meu prédio sabem que é importante almoçar em casa. Muito embora os taxistas sejam absolutamente contrários ao almoço em casa. Taxista gosta é de ficar bodando na hora do almoço.

Depois que eu fiquei “disponível”, ficou bem mais fácil eu almoçar em casa todos os dias e olhar as crianças. E eu olhei. Às vezes, até cansar. Mas, no final, fiquei apaixonado pelos dois, pela maneira de cada um à mesa. Meu filho, por exemplo, é bem agitado. Ele senta. Cruza a perna sentado, que nem índio. Eu digo para sentar direito, mas às vezes eu me canso da minha própria insistência. Ele gosta de ficar com dois bonecos, um de cada lado do prato. E geralmente os dois bonecos vão lutar até a morte, com muitas onomatopéias, até que eu me irrite e comece a dar comida para ele, na boca. Minha filha, em outro e último exemplo, é parecida. A diferença é que as bonecas não lutam, mas cantam e dançam. É uma beleza. E cada refeição demora pelo menos uma hora, da primeira à última colherada.

Tudo isso é para dizer que hoje não almocei em casa. Foi esquisito e solitário à beça. Amanhã vou ver se almoço com as crianças.

sábado, 7 de junho de 2008

Papo de cubículo



No meu cubículo, que eu chamo de cúbi por falta de espaço, nós conversamos de costas um para o outro. É muito engraçado conversar de costas para os outros, mas a falta de espaço nos obriga a isso. Quando eu viro a cadeira eu tenho de avisar.

_Vou virar, vou virar, vou virar.

Aí giro. Se todos nós girarmos as cadeiras ao mesmo tempo tenho certeza de que alguém sairá seriamente ferido. É complicado. Por isso, nós preferimos conversar olhando, cada um, para o seu monitor de vídeo. Todo mundo fica com pelo menos três janelas de programas rodando ao mesmo tempo, sendo uma de notícias. E toda hora a gente vê uma notícia que vale a pena comentar com os outros.

_Puxa vida, num só vôo de brasileiros voltando de Portugal foram apreendidos 260 quilos de presuntos e salaminhos – eu digo.
_Nossa! Ninguém gosta de mortadela? – diz o engraçadinho.
_Eu gosto muito do Pata Negra – comenta o Terceiro (ele é obcecado com o número 3).
_Prefiro aquele outro, que o bicho só come avelã, como é o nome? – diz o engraçadinho.
_Eu estou de dieta – encerra o último. O cara sempre quer ter a última palavra.

Mortadela é muito bom, eu penso. Aí eu continuo o meu teléco, teléco, teléco. E os outros caras continuam tléc,tléc,tléc, bem mais rápidos do que eu.

_Rapaz, inventaram um pano de roupa que depila as pessoas – informa o engraçadinho.
_Preciso de um chapéu com esse tecido – eu digo, de brincadeira.
_Será que vão usar isso em meia calça? – fala o Terceiro.
_Cruz credo! Se fizerem uma cueca com esse pano eu passo a usar saia – diz o último.

Aposto que sim, eu penso. E continuo o meu teléco, teléco, teléco. E os outros caras continuam tléc,tléc,tléc, rapidinho.

_Sábado tem classificatória de F1. O Massa vai arrasar no Canadá, domingo – diz o último.
_O Felipe roda muito – diz o engraçadinho.
_Vai ser campeão – eu digo, compenetrado em outra coisa.
_Roda antes de acabar. Esse ano é do Rámilton. Esse ano é do Obama – diz o Terceiro.
_O Rámilton é pé frio que nem o Abana. Os dois vão morrer na praia – diz o último.
_O Massa vai ser campeão – eu digo, de novo.
_Só se for campeão moral. Esse ano é do Rámilton. Esse ano é do Rámilton – repete, pela terceira vez, o Terceiro.
_O Rámilton só ganha se a Ferrari sacanear o Massa – diz o último.

É, o Massa é craque, eu penso. Teléco, teléco, teléco. Tléc,tléc,tléc, rapidinho.

_Vou virar, vou virar, vou virar. Vou levantar, vou levantar, vou levantar.
_Pô Careca, você não para quieto – diz o engraçadinho.
_Desculpa aí, pessoal. Mas está na hora do capuccino.
_Traz um pra mim? – pede o engraçadinho.
_Você quer sem cuspe? Ou dietético?
_Pode deixar que eu mesmo pego.
_Eu tô brincando. Pode deixar que eu trago.
_Traz o dietético, então.

Saliva deve ser dietética, eu penso. Trabalhar é divertido.

sexta-feira, 6 de junho de 2008

Eu voltei



Durante um ano eu fiquei em casa todos os dias. E estive à disposição dos dois enquanto estive em casa. Nunca brinquei tanto em toda a minha vida. E acho que os dois também nunca tinham brincado tanto.

Em um ano eu nunca duvidei tanto de mim mesmo. E estive tão perdido no que eu sou, que achei que fosse me perder para sempre. Estive mesmo à beira de um abismo, que eu vi dentro de mim. E fora também. E acho que nenhum de vocês tem a menor noção de como este blog me ajudou a costurar de volta os pedaços de mim. De como o mais curto dos comentários foi importante para que eu encontrasse o fio da meada, para que eu voltasse a escrever com ações, muito mais do que palavras, a minha própria vida. De como alguns de vocês ajudaram a minha refazenda, inflando o meu ego, achando graça das minhas sem-gracezas.

Nessa semana tudo mudou. Eu voltei à rotina de oito horas de trabalho diário. Às vezes mais. Voltei a almoçar correndo. Voltei a exigir um pique acelerado de mim mesmo. Voltei a me irritar com a lentidão do trânsito, com a falta de estacionamentos. Voltei a dar nó em gravata, a engraxar meus sapatos pretos.

Tenho que fazer a barba mais vezes. Tenho que isso, tenho que aquilo.

Agora estou cheio de imperativos, não são mais possibilidades e alternativas. Voltei a ter um monte de certezas.

Também voltei a engolir sapos. A ter que ter opinião formada. A não demonstrar hesitação. Voltei a ter e demonstrar confiança no que faço. A planejar passo a passo, a construir estratégias, perseguir metas, buscar resultados. E isso é bom.

E hoje quando eu cheguei do trabalho, os dois disseram que estavam com saudades de mim. E me abraçaram.

Eu voltei. Sou eu mesmo de novo.
Eu queria bem que fosse simples assim. Mas não é.

Alguma coisa impede a minha língua.
Estou bem diferente. Mais cético. Menos cínico.

E continuo o caminho do Careca.

quinta-feira, 5 de junho de 2008

Reunião é um parto



Eu já havia me esquecido da quantidade enorme de reuniões que são realizadas nos ambientes de trabalho. É uma coisa de louco.

Todos os dias, quando eu estou começando a ficar embalado no meu teléco, teléco, teléco o telefone toca.

_É reunião? Agora? Imediatamente? Mas é claro, estou subindo. Chego em dois minutos. Talvez três. Não, vou demorar pelo menos dez minutos. É. Preciso passar no banheiro e o elevador demora pacas. Tá bom? Ótimo. Daqui a pouco eu chego aí.

Aí eu aviso. Vou levantar, vou levantar, vou levantar. E levanto e saio correndo até o elevador. Aí eu paro. E volto até a máquina de café. Aperto o botão de capuccino puro. E volto correndo até o meu um quarto de cúbi (é pequeno demais para se chamar cubículo). Sempre esqueço alguma coisa importante para as reuniões. O lado bom é que eu também sempre lembro que eu me esqueci. E aí tenho que correr atrás de papel impresso. Dá tempo. Eu acho o papel. Passo na máquina. Pego o capuccino e vou para o elevador. É muito bom tomar capuccino no elevador.

Hoje tive reuniões o dia inteiro. Terminava uma, começava outra. Eu me amarro em reunião. Mas só em reunião pequena e curta. Tem que durar meia hora, com no máximo dez pessoas. Mais de três é comício para quem é de Minas Gerais. Eu não sou, mas concordo em parte com o raciocínio. Particularmente, acho oito um bom número. Nove também. A partir de dez participantes já tem que ter prisma na mesa. Senão eu não lembro os nomes.

Já melhorei a memória para participantes de reuniões. Antigamente eu não passava de sete, que é número de mentiroso e também a quantidade de anões que assediavam a Branca de Neve. Zangado, Mestre, Feliz, Soneca, Atchim, Dengoso e o técnico da Seleção Brasileira. É bem verdade que o Dunga nunca teve nada com a Branca, mas jogou com o Branco em alguma ocasião.

Estou enrolando, eu sei. É que hoje teve reunião demais. Nem consigo mais pensar. Vou tentar prosseguir.

As reuniões são realizadas com algum objetivo na cabeça de quem convoca a reunião. Se você convocou uma reunião, a melhor maneira de começar é explicar o objetivo da reunião. Se você foi chamado a uma reunião, a melhor coisa que você tem a fazer é entrar mudo e sair calado. Não demonstre interesse em nada, a não ser que você queira pegar um monte de coisa para fazer. Não encare ninguém. Demonstre enorme interesse em observar o conteúdo do seu copo. Olhe com atenção para a xícara de café. Mas não faça barulho com a colher. Seja infantil. Misture o café e arremate a mistura com a colher na boca. Faça boca de “delícia” e solte um “aahh” depois de tomar café. Ninguém nunca vai te entregar uma tarefa extra se você começar a girar a cadeira numa reunião. Mas talvez você perca o emprego.

Se você convocar uma reunião, faça exposições simples e diretas. E também faça perguntas diretas, sem embromação. Mas se perguntarem alguma coisa para você, responda assim: “Não tenho uma opinião formada sobre isso”. É desconcertante. É uma embromação de primeira. E parece que você realmente vai perder tempo pensando naquilo que a outra pessoa disse. Mas não vai. Rá. Rá. Você vai só parecer que vai se dar ao trabalho de analisar o assunto. Chamo isso de Teoria do Medalhão de Reunião, com o perdão de Machado de Assis.

Se, ao final da reunião, o seu chefe pedir para você ficar mais um pouco, isso é mau sinal. Você não deve ficar despreocupado. Você não deve ficar calmo. Na verdade, o melhor a fazer é entrar em pânico total e absoluto. Simule um acidente de trabalho com um grampeador e um tira clipes. Acione o extintor de incêndio. Se nada disso evitar o pior, que é perder a hora de almoço, ou sair mais tarde, apele para o velho truque do telefone celular. Comece a cantarolar “Hoje é festa lá no meu apê”, imitando um sintetizador moogie e saque o celular, rapidamente. Aí fale assim:
_Amor? Rompeu a bolsa? Agüente firme! Respire fundo! Muita calma nessa hora. Muita calma! Muita calma! Estou correndo praí! – e vá saindo rapidamente, sem fazer contato visual. Gire o corpo e suma para o elevador. Quando estiver no corredor você começa a gritar:
_Toalhas! Toalhas limpas! Água quente! Toalhas e água quente!

quarta-feira, 4 de junho de 2008

Cubículos



O ser humano quer ser abelha. Esses bichinhos trabalham, trabalham, trabalham. O ser humano, em geral, zumbe. O ser humano inveja profundamente as abelhas. Quer dizer, o ser humano que manda. Esses caras querem que todos os seres humanos parem de bater as asinhas por aí e trabalhem. Para eles, é lógico. Tudo é diferente para o ser humano que manda. Ele quer agitação, movimento, produção. O ser humano que manda é o mesmo que cobra resultados. É por isso que o ser humano inventou o cubículo e decidiu que é bom trabalhar em cubículo, igual às abelhas.

Eu já vi alguns documentários sobre colméias. As abelhas operárias preenchendo o seu hexágono com o mel das flores. É uma beleza. O meu um quarto de cubículo não é muito bonito. É virado para dentro. Mas é a parte que me cabe de um latifúndio de cubículos na empresa. Eu acho lindo. Tenho espaço de sobra. Eu só preciso avisar aos outros que vou girar a cadeira. É uma medida de segurança, o aviso. É como a seta no trânsito. Vou virar, vou virar, vou virar. Aí viro. Também é preciso avisar que vou levantar. Vou levantar, vou levantar, vou levantar. Aí levanto.

Até agora ainda não acertei ninguém. Mas já derrubei um monte de coisas. O engraçadinho do cubículo já tentou colocar um apelido em mim. Todo cubículo de mais de um tem um engraçadinho. Quando o cubículo é bem grande e só tem uma pessoa, essa tal pessoa não é engraçadinha. Ela manda nas abelhinhas. Basta pouco para o engraçadinho do cubículo criar intimidade. No meu caso, o pouco foi o fato de ser careca e míope. Nós somos muito apelidáveis, os carecas e míopes. Não vou dizer o apelido que o cara inventou. Espero que não pegue.

Para chegar até o meu cubículo eu preciso passar por uma porção de cubículos. Na sala multifacetada de quadriláteros e hexágonos cubículos onde eu trabalho, existem pelo menos 36 nichos de trabalho. É muita gente. E se você prestar atenção, é possível escutar a moça que trabalha lá na entrada brigar com a empregada pelo telefone. É gente pacas. E alguém, lá no meio, viu uma notícia sobre implante de cabelo e está comentando, bem alto. Finjo que não é comigo. Vou tomar um café curto.

Logo antes de chegar ao meu cubículo, perto do corredor que tem a impressora coletiva, existe um cubículo só de mulheres. Elas usam o telefone o tempo todo. Acho que há uma disputa para ver quem fala e ri mais alto. Se eu fosse juiz dessa pendenga, eu racharia o prêmio entre as seis.

Meu cubículo não é hexagonal, é um quadrilátero. Meus três colegas de cubículo são superativos. Eles teclam o tempo inteiro. Teléc, teléc, teléc. Então eu tento acompanhar o ritmo. Também fico telecando, telecando, telecando. Mas eles são bem melhores nisso do que eu. Eles quase não fazem pausa. E falam ao telefone enquanto teclam. Eu não gosto de fazer isso porque fico de pescoço torto, não falo direito e misturo o que eu falo com o que escrevo. Eu, volta e meia, pauso, pauso e pauso. Aí eu fico lendo a papelada que eu tenho que ler. Eu leio, leio, leio. E depois eu fico dizendo para mim mesmo: entende, entende, entende. E estou conseguindo, conseguindo, conseguindo.

Mas o impossível acontece. Uma abelha entra zumbindo na sala climatizada, hermeticamente fechada. E a minha concentração desaparece por alguns minutos. Aí eu digo: vou levantar, vou levantar, vou levantar. E levanto e me preparo para outro café curto. Ou seja, o trabalho é legal e super-divertido. E tem muitas reuniões.

terça-feira, 3 de junho de 2008

Capuccino com chocolate



Máquinas sempre me deslumbraram. Tenho um fascínio enorme por engenhocas e geringonças. É um deslumbramento que vem de longe, de muito tempo. Acho que começou com a máquina de escrever do meu pai. Ele a comprou, usada, lá pelos anos 50. Todos nós a usamos furiosamente em trabalhos escolares e universitários até meados da década de oitenta. A engenhoca é de 1943. Assim como o meu pai, eu desenvolvi um relacionamento emocional com essa máquina de escrever. Tenho enorme carinho por ela. Foi com ela que desenvolvi a vontade e a disciplina de escrever sempre, não importa o que aconteça.

Eu gostava do barulho da máquina. Gostava do modo de avançar as linhas, uma pancada leve numa manivela, que fazia o cilindro girar. Eu usava sempre um papel carbono, em quase tudo o que escrevia. Guardava cópias das cartas. Dos contos. Dos discursos exaltados. Das análises “brilhantes”.

Depois, quando eu estava me achando escritor, meu pai chegou em casa com uma máquina nova, uma Olivetti portátil, que hoje também guardo em casa. Foi um dos presentes mais emocionantes que já ganhei. As duas máquinas estão, lado a lado, na estante da sala. Viraram dois bibelôs manuseáveis. As crianças ficam teclando para se divertir. É o contrário de escrever como punição. E elas nem se preocupam em colocar papel nas máquinas. Se bem que eu acho que nunca mostrei como funcionam as máquinas. As fitas de tinta estão ressecadas. Os discos nem giram direito. De vez em quando, eu destravo as teclas, passo um pano para tirar o excesso de poeira. Uma vez eu até comprei um limpa-tipos, para uma limpeza mais radical. Mas acabei nem fazendo a tal limpeza.

Toda essa embromação é para dizer que demorou um dia para que eu ficasse operacional, com telefone, pc e mesa.

Assim que cheguei ao novo local de trabalho fiquei observando as máquinas e engenhocas. Para começar, ganhei um crachá eletrônico, que permite o acesso aos elevadores e a uma série de portas em diferentes andares, mas não a todos. Meu crachá não é do tipo A. Acho que é tipo B ou C. Pelo que eu reparei, há uma pequena marca colorida que indica se você é alguém para tirar o chapéu ou só um mané como eu. Essa distinção também vale para a Intranet e a Internet. Como as coisas demoravam, eu observei as impressoras, os fax, as copiadoras, as tudo-em-uma, os telefones sem identificadores de chamada. Tudo simples e funcional. O grande filtro com água. A copa, com um pequeno micro-ondas. Observei tudo. Até encontrar com a super-máquina especial demais xuxu-beleza.

A máquina fica no canto de um cubículo, perto da entrada dos banheiros. É maravilhosa. Toda em cinza, com uma cúpula em acrílico transparente. Dá para ver os perfeitos e inteiros grãos torrados de café. Oferece oito opções, bem servidas num copinho especial, com plástico mais grosso, que não deixa queimar os dedos. Estou experimentando duas opções por período. Meu preferido é um cappucino com chocolate.

Com aquele copo de café quentinho na mão, eu me sinto superimportante. Também tenho sido bem tratado.

Divido um “cubi”(é pequeno demais para se chamar cubículo) com outras três pessoas. Tenho direito a um quadrado de estante e a um armário pequeno com três gavetas e chave. Estou de costas para a pequena janela, que dá para um shopping e muitas avenidas. Uma mensagem de boas-vindas na Intranet assegura a todos que estou naquele andar provisoriamente. Daqui a algum tempo, acho que vou subir mais três andares. Se eu subir quatro andares estarei junto com os bambambans. Mas isso é muito pouco provável. Estão arrumando um espaço especial para aquele careca, dizem os caras da informática. Torço para que seja um cubículo maior, com todas as letras, com uma janela só para mim. Isso também é pouco provável. Não importa. Acho que ficaria contente até com uma cadeira debaixo de uma escada com goteiras.

Estou feliz feito pinto no lixo. Talvez eu possa até tomar três capuccinos por período, se eu começar a usar as escadas, ao invés do elevador. Não. Está bom assim.

Frase do dia


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