terça-feira, 29 de novembro de 2011

Não passamos sem coletar lixo



Sinkin Soon - Norah Jones & J Walter Hawkes - A melhor apresentação de trombone que eu me lembro de ter visto. Barra até o Trombone Jones.

Andei o dia inteiro com o meu pré-molar no bolso da calça. Assim que ele foi retirado da minha boca, por volta das nove e trinta da manhã de hoje, sinalizei para a ajudante do dentista para guardar o dente para mim. O dentista estava suturando a minha boca por isso grunhi o recado e completei a frase com gestos.

_Acho que ele quer que você guarde o dente - disse o dentista.

_Ele quer isso? - disse a ajudante.

_Enrola numa gaze para ele levar - disse o dentista.

E quando ele terminou com os pontos eu expliquei que era a primeira vez que perdia um dente. Queria levar para mostrar para as crianças. Quem sabe não teria um efeito profilático?

_Vai por mim, não mostre para as crianças - disse o dentista.

_Por que não? - eu disse.

_É um exemplo negativo - ele disse.

E é verdade. Pais não devem dar exemplo negativo. Pega super-mal e é contra a lógica da paternidade. Agradeci pelo dente e voltei para casa.

Minhas semanas passam silenciosas. As terças-feiras são particularmente mudas. As crianças e a minha mulher ficam o dia inteiro fora, só voltam à noitinha. Fico o dia todo sem conversar com ninguém. Quando todos estão em casa, estou tão acostumado a ficar calado que minhas primeiras frases saem truncadas quando abro a boca. Na quarta e na quinta-feira, também passo praticamente o dia inteiro em silêncio. Às vezes escuto uma música para quebrar o muro. Mas é raro. Não gosto de ficar com o Ipod no ouvido quando estou trabalhando com madeira. Só consigo escutar rádio atrás do volante. Estou ficando cada vez mais cheio de manias.

No ano passado fui várias vezes ao dentista para cuidar do pré-molar que está no meu bolso. Investi nele um bocado de tempo e cobertura de seguro. Ele se foi rapidinho e sem cobertura. Nenhum lugar aceita o seguro dental que eu tenho. O seguro saúde também. Não é só o meu seguro. Os consultórios recusam praticamente todos os seguros. E é impressão minha ou já faz tempo que não vejo comercial de seguro saúde? Outro dia parei para ver telejornais e só tinha comercial de faculdade fajuta e banco oficial.

Hoje teve apagão na Esplanada, onze ministérios ficaram às escuras desde as quatro da tarde. A companhia de eletricidade confirmou que teve problemas em 3 de 4 ligações de energia. Estamos bem na capital federal. Bem às escuras. Ontem teve desfile de moda na Câmara Legislativa. Ninguém achou estranho. Ontem a Asa Norte ficou alagada. Ninguém achou estranho. Nada funciona direito, a polícia está em greve há mais de trinta dias. Ninguém acha estranho.

Olho na caixa de correio e vejo que os lixeiros investiram na arrecadação de Natal. Fizeram um cartão impresso em cores, caprichado, transcrevo a mensagem:

"Os nossos cordiais votos de Feliz Natal e de um Ano Novo repleto de realizações numa vida melhor, mais autêntica, mais cristã, vida de paz. Senhores Moradores já está chegando mais um Natal e nós coletores de lixo aqui da sua rua, estamos pedindo sua contribuição para nossa caixinha de Natal. Só entregue aos Garis no Caminhão. Atenção. Pergunte pelo nome: Arione - Fábio - Bambam - Manoel. NÃO PASSAMOS SEM COLETAR O LIXO. NÃO PEDIMOS CONTRIBUIÇÕES NA PARTE DA MANHÃ. O CAMINHÃO SEMPRE PASSA JUNTO COM OS COLETORES. NÃO TRABALHAMOS AOS DOMINGOS."

É assunto demais. É assunto demais. E a falta do meu dente dói.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Saudades do meu pré-molar



The Cactus Channel - Under the Birdcage

Voltou a chover o dia inteiro e isso parece acelerar o relógio. Amanhã farei a "remoção" de um pré-molar, vários dentistas disseram que é melhor desistir desse que de vez em quando dói. Fiquei triste quando me deram a notícia, mas parece que ficar banguela é a única solução. Depois tentarei um implante, mas só no ano que vem. Até lá vou falar com mais espaço, o que é bom.

Durante o dia fico na oficina improvisada. Estou fazendo duas mesas. Uma menor, com 90X50cm e 80 de altura. Se ficar legal, poderá servir de mini-bar. Caso fique ruim, usarei para deixar a lenha da lareira, que está lá fora, encharcando. A mesa maior, de 180 cm de comprimento por 90 cm de largura com 40 cm de altura, será usada como mesa de centro para a área externa. Isso, se ficar boa, é claro. Se ficar ruim, desmonto.

Por enquanto, a maior parte do trabalho é preparar as tábuas e ripas. Estou usando madeira do que já foi um telhado. É preciso limpar, tirar todos os pregos, cortar e depois lixar cada pedaço com cuidado. Nessa operação, fico imerso em uma nuvem de pó de madeira e verniz velho. Felizmente, uso um casaco grande, com gorro, e também uma máscara de pano. A chuva ajuda a diminuir a poeira, mas a água dificulta a limpeza da área depois do trabalho. Madeira não gosta muito de água.

Pequenos problemas também estão surgindo. Descobri nova infiltração num dos banheiros e surgiu uma goteira numa parede da sala. A infiltração foi provocada por uma telha quebrada. O problema é que é impossível subir no telhado com as telhas todas molhadas e frágeis. Tentarei tapar a goteira via sótão, mas só amanhã. Para consertar a goteira, será necessário pintar o teto e uma parede. As coisas se complicam. Muitas e muitas coisas para fazer. Do jeito que a coisa vai, só na metade do ano que vem será possível cuidar da parte de dentro da casa. Os cômodos só não são mais vazios porque têm eco. Mas a causa da goteira terá de ser consertada rapidamente. Será necessário colocar pelo menos uma nova calha num trecho do telhado.

Hoje encontrei mais um pássaro caído perto da piscina. Corri para pegá-lo antes que Rafa, o cãozinho shi-tsu da minha filha, o abocanhasse. Peguei o pássaro na mão com facilidade, parecia estar tonto. Deve ter batido na vidraça. Deixei ele se aquecer um pouco nas minhas mãos em concha. Depois soltei o bicho. Ele demorou um pouco, mas voou. Outro dia, um pássaro não teve tanta sorte. Deve ter quebrado uma asa. Rafa o atacou antes que eu pudesse intervir.

Dizem que é a rápida alteração na iluminação que deixa os pássaros confusos. Mesmo assim, estou pensando em comprar um adesivo com a foto de um gato para colocar na vidraça onde os pássaros sempre batem. Ganhei uma capa amarela, de chuva. Um rapaz que entrega brindes tocou a campainha e me perguntou se eu trabalhava aqui quando fui atender. Eu disse que trabalhava, é claro. Às vezes acho que estou involuindo, tem dias que me sinto um protozoário chafurdando em líquido primordial. Mas não há de ser nada.

Às vezes me pego pensando no assunto. Já sinto saudades do meu pré-molar.

domingo, 27 de novembro de 2011

O Rei da Ilha

Naquelas férias nós não iríamos viajar, como sempre fazíamos. Naquele ano, era preciso economizar. Por isso, nós nos concentramos na piscina do clube. Eu achei que as férias iam ser muito chatas, mas logo descobri que naquele ano a crise tinha sido forte para todos e que uma porção de meninos e meninas da quadra e da escola ficaria em Brasília. E o melhor: o clube era praticamente a única opção de diversão. Estavam quase todos lá, no clube.

A piscina infantil do Clube Unidade de Vizinhança Número 1, na entrequadra da 108/9 sul, tinha uma pequena plataforma retangular de azulejos. Era vazada. Uma das melhores brincadeiras era mergulhar e passar por debaixo da plataforma. Era difícil porque a passagem não era muito larga, era preciso passar de lado, de olhos abertos. E havia muito cloro naquela piscina. Em pouquíssimo tempo, todos nós ficávamos de olhos muito vermelhos. Mesmo assim, ficávamos horas na piscina, mergulhando e descansando sobre a plataforma.

Mas a principal e melhor brincadeira, era de Rei da Ilha. Os meninos e até algumas meninas brincavam horas de Rei da Ilha naquela plataforma. Eu era franzino e baixinho, mas também participava da guerra pela ilha. Em geral, meu reinado sobre a plataforma durava apenas alguns segundos. Quando triunfava, eu era rapidamente derrubado por alguém mais forte e pesado.

Havia um menino, no entanto, que ninguém conseguia derrubar. Era negro, grande, forte e pesado, muito pesado. Não consigo recordar seu nome. Bastava esse menino conseguir subir na plataforma para que ninguém mais conseguisse tirá-lo de lá. Ainda antes do final da primeira semana, nós desistimos de tentar derrubá-lo. Era impossível. O melhor que poderíamos fazer era tentar interceptá-lo antes que subisse na plataforma. Mas logo descobrimos, depois de muitos goles de água, que isso também era impossível. Era muito forte, aquele menino negro.

Então alguém teve a ideía de escolhermos um menino para ser o Rei da Ilha, com uma porção de outros meninos dentro dágua, protegendo a ilha das investidas do menino negro. Isso funcionou um pouco melhor, porque o menino na plataforma conseguia repelir com mais eficácia as tentativas de subida do menino negro. Mas isso não adiantava por muito tempo, porque o menino da plataforma acabava se cansando, e o menino negro conseguia subir e derrubá-lo com facilidade. E o que é pior, ele mantinha o infeliz ex-rei da plataforma sob a água por alguns segundos, o suficiente para se beber um bocado de água.

Era uma prática dissuasiva muito eficaz. Em breve, ninguém mais queria ser o rei provisório e o Rei da Ilha tomou conta da plataforma. E então ninguém mais queria brincar de Rei da Ilha. Mas para esse menino, não fazia mais diferença. Quando ele estava na plataforma, ela era dele e somente dele. Ninguém mais poderia se deitar ali. Não adiantava você gritar que não estava brincando, que só queria descansar um pouco. O Rei da Ilha era ele, e pronto.

Ninguém mais se arriscava a mergulhar e passar debaixo da plataforma. Um de nós foi pego fazendo isso pelo Rei da Ilha e obrigado a engolir um monte de goles de água com cloro.

_Vocês não me enganam, fingindo que só querem passar debaixo da plataforma. Ninguém vai me tirar daqui - ele disse.

Uma das crianças chamou os pais e isso piorou a situação. Primeiro porque era contra as regras chamar os pais para resolver encrencas de crianças, isso todo mundo sabia, não precisava falar. E segundo, porque o Rei da Ilha disse aos pais do menino que tinha o direito de estar ali. Ele havia topado a brincadeira e não havia machucado ninguém. E também disse que se os pais do menino quisessem, era só entrar na piscina e tentar derrubá-lo da plataforma. Juntou gente à beça para assistir o embate. O pai desse menino cagueta entrou na piscina e nadou até a plataforma. Subiu e foi derrubado em dois segundos pelo Rei da Ilha.

Depois disso, não houve mais desafios. Todos os dias, o Rei da Ilha nadava até a plataforma e tomava conta do lugar. Acabamos enjoando da piscina. Aquele menino havia tirado toda a graça das duas brincadeiras. De longe, nós olhávamos e ele estava lá, estirado na plataforma, a piscina vazia de gente ao seu redor.

Um dia, fora do clube, eu o vi no supermercado. Estava com o pai, um gigante negro, muito forte e também muito, muito pesado. Eu acompanhava minha mãe empurrando o carrinho, sempre fazia isso. Durante as compras, prestei muita atenção por onde andava para não encontrarmos o Rei da Ilha. Isso deixou a minha mãe irritada, porque eu às vezes mudava o trajeto repentinamente para não encontrar a dupla. Apesar dos meus esforços, acabamos nos encontrando nos caixas. Um de frente para o outro. Para minha surpresa, o Rei da Ilha acenou para mim. Eu não respondi. Minha mãe viu aquilo e ficou irritada.

_Não seja mal-educado. Cumprimente o seu amigo - ela disse.

_Não é meu amigo, mãe. É só um cara do clube - eu disse.

Então eu fiz um aceno contido com a mão esquerda e trinquei os dentes. O Rei da Ilha também trincou os dentes. Seu pai olhou para nós e fez um cumprimento de cabeça, com sorriso.

Depois disso, todas as vezes em que eu me aproximava da piscina, o Rei da Ilha acenava para mim. Eu me sentia na obrigação de responder. Os outros meninos notaram e começaram a falar que eu deveria convencer o meu amigo a abandonar a plataforma. As férias estavam acabando e não era justo que a piscina ficasse só para ele. Eu dizia que não era amigo do Rei da Ilha, mas os meninos não acreditavam. Um dia me envolvi numa briga com outro menino porque me irritei com aquela história de ser amigo do Rei. As férias terminaram pouco depois e nunca mais ouvimos falar no Rei da Ilha. Por algum motivo, a história daquele menino teimoso, que venceu todos os garotos unidos e até um dos pais, permaneceu na minha memória.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

O manequim daqui de casa



Iggy Pop - Beside You

Sobre a minha mesa, no escritório, eu tenho o monitor, o modem, um apontador grande, um grampeador velho, que eu afanei de um antigo trabalho, um monte de revistas que os meninos largaram e o manequim daqui de casa. É daqueles de madeira, para desenho. Veio de brinde no primeiro fascículo de uma coleção que prometia me ensinar a desenhar. Eu não acreditei, é claro. Eu sou burro e velho demais para aprender coisas que uma criança consegue fazer de olhos fechados. Comprei o primeiro fascículo porque vinha o manequim de brinde.

Desde que cheguei em casa com o manequim os meninos cismam com ele. Minha filha quer desenhar um rosto no boneco. Eu não deixo, é claro. Por vingança, ela coloca o manequim em posições de balé. Os braços em arco, os pés em pliê, a cabeça levemente inclinada como se estivesse fazendo par com outra bailarina em O Lago dos Cisnes. Finjo que não noto.

Meu filho também implica com o manequim. Quer que eu tire o suporte, para que ele seja mais um entre os bonecos que possui e lute contra Max Still, dinossauros e outros bichos.

_Filho, eu não tenho contra uma luta, mas nada de tirar o manequim do suporte - eu digo.

E é lógico que, por vingança, meu filho vive colocando o manequim em posições de luta. A predileta é aquela pose do karatê kid, com o manequim se equilibrando na ponta do pé, a outra perna em suspenso, dolorida, mas pronto para desferir o golpe certeiro no queixo do adversário, igualzinho ao Anderson Silva ou o Steven Seagall, ou os dois, sei lá.

Às vezes as crianças mexem no manequim ao mesmo tempo, dá para perceber, porque as poses de luta ficam meio esquizofrênicas, como se o manequim fosse um Bruce Lee que usasse tutu.

Agora à noite, por exemplo, o manequim está com um braço levantado e o outro caído, a perna direita esticada parece dar um chute de trivela e a outra perna está dobrada de um jeito impossível, com o joelho totalmente voltado para baixo e o pé apontando para cima.

Logo que comprei o manequim, eu gostava de deixá-lo reto, de pé, quando o encontrava nas poses esquisitas, elaboradas pelas crianças. Agora eu fico examinando as poses esquisitas e tentando adivinhar quem fez o quê. É lógico que não consigo.

O estranho é que nunca usei o manequim para fazer um desenho. Ficou mais como enfeite de mesa. Uma vez achei que havia alguma simbologia misteriosa envolvendo este boneco, como se ele fosse um Rosebud ou alguma coisa. Mas depois desencanei. As coisas só podem ser o que acreditamos que são.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

O Careca sente a dor que deveras dente

Hoje eu corri pelo meu dente. Começou ainda pela manhã. Uma dorzinha aqui e ali, mal consegui terminar o café da manhã. Levei as crianças na escola e lembrei que era dia de reunião de apresentação da próxima série do meu filho. Putz! Eu não poderia faltar. Também lembrei que era o penúltimo dia do prazo para renovação de matrícula com desconto na mensalidade. Gente, eu preciso de todos os descontos que eu puder arrumar, então preparei a papelada com dor de dente e tudo.

É lógico que estava de mau-humor. Se existissem apenas três coisas que deixassem o ser humano de mau-humor, uma seria dor-de-dente, a outra seria dor-de-dente e a terceira seria uma puta dor-de-dente. E essa doía. Nem fiz festa de 3 minutos de rock´n´roll com as crianças dentro do carro. Botei notícia, que elas detestam. Quando você tem dor de dente, há um momento em que você sente o desejo de compartilhar dor ou inflingir dor em outro ser, não precisa ser humano. É muito importante manter a calma nessa hora e respirar fundo. Por isso, liguei o rádio para desanuviar.

_Pô, paiê, coloca música - disse a minha princesa de sete anos de idade.

_Não, hoje eu quero saber se mais um ministro vai rodar - eu disse.

E no mesmo instante eu descobri que tem mais um perigando. A dor de dente aumentava e eu imaginava corruptos e corruptores sentados na cadeira de um dentista sádico e debochado. Eu mesmo.

_Rá, toma esse motorzinho aqui, seu corrupto!! E olha o jato de ar água gelada nesse pré-molar furado, seu corruptor de uma figa!! - eu delirava no volante.

_Pai, já chegamos, tem reunião na minha sala, não se esqueça - disse o meu filho.

E eu desci correndo pois enquanto eu fantasiava flagelos dentais para os subtraidores dos cofres públicos o tempo voou. Cheguei na reunião e já estavam passando slides. Reunião de escola, gente, tem sempre um monte de slides. E é tudo muito bacana e bonito, tem vezes que até colocam música durante a projeção. Eu gosto, de verdade, mas não quando estou com dor de dente. Minha vontade era de infligir dor, provocar dor, causar dor, qualquer coisa, menos sentir dor. Ao mesmo tempo, eu me sentia humilde, muito humilde, porque a dor de dente tem isso, faz a gente se sentir bem coitado, ai, ai, ai, olhando pro céu à espera de aspirina e tylenol.

Durou uma hora. Eu já estava quase subindo pelas paredes e saí da sala feito louco para aplacar a fúria da dor do meu dente. Consegui fazer isso por acaso, no bebedouro, enchendo a boca de água. Milagre! Bastava um pouco de água fria para fazer a dor ir embora. Uau! Era o primeiro momento sem dor do dia e conseguira isso com apenas um pouco de água. Ai! Mas bastava engolir a água que a dor lancinante voltava. Enchi a boca de água e fui fazer a matrícula com desconto. Tem coisas que é melhor a gente não deixar para o dia de amanhã.

Deixei um borrachudo na escola e já ia saindo quando a moça da secretaria disse:

_Por obséquio, será que o senhor não se incomodaria de passar um pouquinho, se não for muito incômodo, é claro, no departamento financeiro?

_Oglub - eu disse, tentando evitar engolir a água, mas não teve jeito.

Eu agora me dirigia ao departamento financeiro, a dor de dente já começava a avançar para o meu ouvido. Infligir dor. Alicatão. Urutau. A outra moça do departamento financeiro começou a falar em débitos antigos. Minha dor-de-dente começou a sussurrar em sânscrito pré-cambriano no meu ouvido. Eu pensava naqueles instrumentos utilizados pelos inquisidores da Idade Média. Será que vendem essas coisas pela Internet? A moça girou a tela do computador e me mostrou o débito.

_Aham, mas moça, a pendência é a mensalidade de dezembro. Ainda estamos em novembro - eu disse.

Ela ficou vermelha. Disse que o sistema era novo. Ela mesma era nova na atividade. Ela é professora, tinha sido remanejada para a atividade, que era muito difícil, e que o sistema também tinha muitos problemas e que eu já era a vigésima pessoa que encontrava erros no sistema.

_Moça, não está errado. O sistema está correto - eu disse.

_Mas o senhor mesmo disse que não está pendente - ela disse.

_Sim, meu dente, digo, não, não estou pendente - eu disse.

_Sim ou não, o senhor se decida - ela disse.

_...

Bom, isso se prolongou por mais alguns minutos. Saí da escola com as matrículas renovadas às nove e meia. Pra encurtar a história, fui atendido na emergência às quatro e meia da tarde. O Instituto em que fui atendido não aceitava o meu convênio. Por 119 reais e 12 centavos, o sujeito que me atendeu disse que um dos meus dentes será demitido. Ele também me receitou um monte de antibióticos e analgésicos. Fiquei legal, mas agora estou morto de sono. Bye.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

The Godfather e Bonasera



Nesses dias estou acordando mais cedo. Pensei que era outro sintoma de depressão, mas depois percebi que era o livro. Agora acordo todos os dias meia hora mais cedo para ler "O Poderoso Chefão", de Mário Puzo, em inglês. A diferença é enorme, não fica só no título. Toda tradução é uma traição, já diziam os sábios e o lugar-comum. Mas convenhamos, quem sairia de casa para ver um filme chamado "O Padrinho". Eu também não acordaria mais cedo para isso. Mas o faço para "The Godfather". Soa bem mais imponente em inglês, claro, colocam o nome do Todo-Poderoso na capa e lá dentro, Mário Puzo ensina qualquer contador de histórias a rezar a missa. Que livro!

Sim, vi os filmes várias vezes, e acreditava que o filme derivava do talento de Coppola, do grande cineasta e dos grandes atores do elenco. Papo furado. O livro é puro filme. Está tudo ali, escrito de uma maneira tão simples e genial que Coppola só precisava gritar Ação. Ainda estou no início, mas já me arrependi por anos e anos terem se passado sem que eu tivesse aberto esse livro no original.

Vivo lendo sobre comparações bizarras, pessoas que dizem detestar um livro e adorar o filme, ou o contrário, dizem que adoram o livro e detestam o filme. Mas pouco se ouve falar dos filmes que são muito bons e dos livros que também são muito bons. Cada coisa é uma coisa, é lógico, quem quiser que compare maçã com banana, eu não entro nessa. O que importa é que a minha lista de filmes excelentes e livros idem está aumentando, veja só:

LISTA DE LIVROS BONSPRACARAI E FILMES IDEM

1 - Moby Dick

2 - Laranja Mecânica

3 - A Fogueira das Vaidades

4 - O Nome da Rosa

5 - O Estranho no Ninho

6 - À Espera de um milagre (The Green Mile)

7 - Carrie, a Estranha

8 - O Senhor das Moscas (Lord of The Flies)

9 - Relíquia Macabra (O Falcão Maltês)

10 - O Talentoso Ripley

11 - O Amigo Americano

12 - A Ilha do Tesouro

13 - Os Cães de Baskerville

14 - Os 3 Mosqueteiros

15 - O Poderoso Chefão


É uma lista pequena, por enquanto, porque a minha memória abandonou a F1 muito antes do Barrichello e hoje só faz exibições breves, em curto-circuitos pequenos. Também não coloquei aí os filmes que vieram de grandes Graphic Novels e nem as que surgiram de excelentes contos/short stories. Sim, ainda falta muita coisa, mas quem tem tempo para pensar quando você está no início de "The Godfather", justo na hora em que Don Corleone chama o filho Santino para observá-lo numa conversa com Amerigo Bonasera, o agente funerário? É só agora que irei ler no livro, o diálogo daí de cima.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Cantar de galo é mania nacional

No Recife, como bem disse o Samarone Lima(dica do Paulo Bono), tem rei para tudo quanto é lado. Na Bahia, nem se fala.

No Goiás, tem o "Não-sei-o-quê de Ouro", que é uma variação de Rei da Cocada Preta, ouro é coisa de realeza, você sabe. Basta uma pequena volta por uma cidade goiana para encontrar o Garfo de Ouro, o Frango de Ouro, a Oficina de Ouro, a Costureira de Ouro, a Linha de Ouro, o Martelinho de Ouro e a Bezerra de Ouro do Joaquim Roriz. É ouro que não acaba mais.

Aqui, no Distrito Federal, o povo é mais comedido na realeza ou a falsidade impera e a onda é o "Não-sei-o-quê Dourado". Já vi placa de Faisão Dourado, Dragão Dourado, Tesoura Dourada, Padaria Pão Dourado, Academia Dourada, Funilaria Dourada, Buteco Dourado e a Lanchonete do Dourado, que fica no Cruzeiro e que, mesmo com preposição, também vou considerar.

Em Minas, tudo é Estrada Real. O Hotel Real, a Viola Real, o Bagual Real, a Perua Real, o Pão-de-Queijo Real, a Cachaça Real, a Vagaba Real, o Queijo Real, o Pastel Real, a Rapadura Real, o Caldo de Cana Real e o Bicho de Pé Real. É uma realeza sem fim. Só o Aécio não cai na real e não percebe que nunca conseguirá ser presidente.

Em outras partes do país, o adjetivo varia, mas a intenção é a mesma. Nós, brasileiros, temos um orgulho danado do nosso modesto terreiro e nos achamos o ó-do-borogodó, o pingo no í do pinguím, o mafagafo dos mafagafinhos. Eu também, eu também, preciso me apressar logo em dizer, antes que você pense que eu sou um renegador do berço esplêndido.

Não senhor, não senhor. Também faço coro na hora do hino, canto de pé, mão no coração, pago meus impostos em parcelas, aquelas coisas. Mas convenhamos, há exageros e senões na nossa mania de cantar de galo. E ela é mais explícita na forma de contar vantagem a toda hora, quando enchemos o peito e dizemos com a maior cara dura que uma coisa daqui, do Brasil, é a melhor do mundo.

Sim, nunca antes neste país nós nos jactamos tanto de coisas à tôa ou para as quais não existem termos de comparação. Não faz muito tempo, li em algum lugar que uma pesquisa mostrou que somos o povo mais feliz do mundo. Não tenho a menor idéia de como foi feita essa pesquisa, mas lembro de ter discutido o tema num buteco com um argentino que queria me provar que o resultado tinha favorecido, na verdade, os nossos hermanos.

_Que dices? Estás loco, abreu? - eu disse, em perfeito portunhol - basta ponhar la língua en la puenta dos dentes.

_Nosotros somos los felices! - disse o gringo, batizado de Diego em homenagem a outro pretenso mejor del mundo.

_Dieguito, o país do tango no puede ser o mas feliz, o riso não combina com as milongas - eu disse.

Não lembro mais dos argumentos de Diego, porque o primeiro começava com "hijo de" o que me obrigou a desperdiçar o meu chopp antes que o garçom entrasse para desapartar a porradaria e ficasse do meu lado, é claro.

_Sai fuera, gringo, nosotros é que suemos los mejores del mundo - disse o garçom, num portunhol bem melhor que o meu.

_Boludos, boludos - gritou Dieguito, a hacer gestos obscenos com la mano de Dios.

Sim, para nós, brasileiros, tudo é questão de ser ou não ser o melhor e o maior do mundo. E não apenas no futebol. Nós somos os melhores do mundo em matéria de Gisele Bundchen, por exemplo. É um espectro bem amplo. Isso vai da produção de soja até a exploração de petróleo em águas profundas.

De cabeça dá para dizer que nós temos a melhor música bossa nova, o samba mais bonito, o carnaval de escola de samba mais caro do planeta, a jabuticaba maior e mais doce, a jaca(que dispensa outros adjetivos), o jabuti em cima da árvore e os jabutis do Chico, a maior usina hidrelétrica, o governador mais ongnelo, o sexto e mais cara-de-pau dos ministros, estamos lá em cima no ranking dos mais corruptos(a gente chega lá), os juros mais altos do mundo, a presidente mais presidenta, as ongs mais fajutas do mundo e a maior e mais completa bandalheira de que qualquer um já tenha tido notícia. Não, você não tem noção, é coisa de doido. E ainda assim, na maior cara dura, cantamos de galo. Dieguito tem razão, somos uns boludos.

domingo, 20 de novembro de 2011

O Careca desanima um pouco



Johnny Cash - God's Gonna Cut You Down

Não sou nenhum presidente, longe disso, mas ando chorando com facilidade. Minha mulher, nas vezes que ficou, sabia que o choro fácil era um sinal de gravidez. Naqueles tempos, até os comerciais de pasta de dente faziam com que ela desatasse um choro de soluços, parecido com caminhão velho freando ladeira abaixo. Era de dar dó.

Ando do mesmo jeito, torço para não estar grávido. Tudo me emociona, é patético. Olho para a janela, o verde da rua, a chuva forte que deixou tudo limpo e mais bonito me emocionam. É um horror. Só pode ser sintoma de alguma coisa grave.

Corro para a Internet e procuro doenças relacionadas ao choro fácil. Existem muitas. Vão da bipolar até esclerose múltipla, passando logicamente por depressão e demência. Céus! Estou perdido, eu penso. Como não sou nenhuma celebridade, não posso ser bipolar. A esclerose múltípla é uma possibilidade, mas a doença pseudobulbar se caracteriza por episódios de riso e choro descontrolados e a verdade é que não tenho o riso frouxo. Minha última gargalhada deve ter acontecido há um mês. Risco essa. Aí vem depressão na sequência, mas não estou a fim de pensar nisso e passo logo para demência. Olha os 10 principais sintomas aí abaixo:

Déficit de memória
Dificuldades de executar tarefas domésticas
Problema com o vocabulário
Desorientação no tempo e espaço
Incapacidade de julgar situações
Problemas com o raciocínio abstrato
Colocar objetos em lugares equivocados
Alterações de humor de comportamento
Alterações de personalidade
Perda da iniciativa – passividade

Deu positivo para todos, menos para "dificuldades de executar tarefas domésticas". Não acho difícil. Só tenho um pouco de preguiça. Também não tenho muitos problemas com o vocabulário, mas às vezes consulto o dicionário. Acho legal. Agora desorientação no tempo e espaço é comigo mesmo, tenho tido muita sensação de deja vu, especialmente quando abro os jornais ou vejo as notícias da política. O que me leva ao outro sintoma, o que fala da incapacidade de julgar situações. Acho que estou com isso porque julgava a situação gravíssima, mas devo estar enganado porque o ministro tal continua ministro e coisa e tal. Não ando colocando nada fora do lugar, mas acho que algumas pessoas deveriam estar atrás das grades. Essas decepções acumuladas têm provocado alterações no meu humor de comportamento. Antes eu acreditava que providências seriam tomadas, hoje já não acredito mais. Também mudei um pouco a minha personalidade, passando de pouco cético para muito cético quanto à possibilidade de alguma melhora no curto, no médio e no longo prazo. Estamos ferrados e vai durar um tempão, é o que penso. Tudo isso, é lógico, é de desanimar qualquer cristão, ainda mais eu, que sempre gostei de ficar na minha. Então desanimo. Um pouco.

AIN'T NO GRAVE




AIN'T NO GRAVE (Can Hold My Body Down) Johnny Cash

sábado, 19 de novembro de 2011

Últimas jabuticabas



30 Seconds to Mars - Bad Romance

Fez um calor danado durante o dia e à noite choveu. Ainda chuvisca enquanto escrevo. Houve um picote na energia por volta das oito horas da noite, que desligou todos os aparelhos elétricos da casa. Fiquei com medo de uma nova queda de energia e demorei a vir para a frente do computador. Ler aquele livro de conversas entre Sábato e Borges não foi uma boa idéia, meu complexo de vira-latas tomou conta do pedaço. O calor também desanima, acho.

Rafa, o cãozinho shi-tsu da minha filha, está deitado aos meus pés. Os trovões e relâmpagos o deixam muito assustado. Quando não tenho nenhuma idéia, faço a memória dos dias, você já sabe.

Estou para concluir uma mesinha de apoio para a área da cozinha. Trabalhei durante a semana no corte e preparação da estrutura em madeira. Usei uns pilarzinhos quadrados de um telhado que havia na casa dos meus pais. Ficou bem sólida e firme. Mas ao invés de usar um tampo em MDF, um retalho que comprei por dez reais, resolvi usar uns caibros do tal telhado. Com isso, tive que voltar para a serra para cortar mais madeira e depois lixar tudo.

Ontem fiquei o dia quase todo aprontando essa mesinha, mas na última hora, lembrei que precisava colher as jabuticabas antes que todas fossem ao chão. Fiquei quase duas horas colhendo frutas e me empanturrando. Foram cinco litros de jabuticabas, escolhidas a dedo. Hoje, não quis mais saber de jabuticabas e nem de mesinha.

Mas ainda precisava proteger os decks de madeira que construí antes do feriado. Usei uma tinta/verniz sparlack à base de água. Para não sujar o chão, forrei tudo com jornal. Em um deles, a manchete destacava a não demissão de mais um ministro flagrado em mentiras e malfeitos. Caramba, só agora estou me lembrando que a chuva deve ter encharcado os jornais e os decks, que só tinham sido pintados de um lado. Com certeza o chuvaréu derrubou as últimas jabuticabas do pé.

Amanhã terei um domingo de bastante trabalho de limpeza. Tenho que concluir os decks e também a mesinha. Se ficar bonita, quem sabe não tiro uma foto e coloco no blog?

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Culpado



Queens Of The Stone Age - Make It Wit Chu

Há dois anos tive um problema com os olhos. Os microcanais das glândulas que lubrificam meus olhos ficaram entupidos e por causa disso fiquei sem enxergar direito por uma semana. Agora o fenômeno se repete. Meu olho direito está inchado e vejo tudo embaçado com ele. O olho esquerdo está ok, por enquanto, mas está coçando. O outro olho começou a ficar ruim depois de coçar. Da última vez, usei uma pomada, mas lembro que o melhor a fazer era lavar os olhos com água morna.

Fico pensando se as jabuticabas não teriam potencializado o problema. Ou terá sido o Borges? Tenho mania de achar culpado para tudo.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Jabuticabas só até sexta, no máximo



Cochemea Gastelum - Arrows Theme

Descendo aquela ladeira enorme que passa em frente ao Parque da Água Mineral, eu vejo os cartazes das pessoas vendendo piquis, jabuticabas, mangas, abacaxis e morangos. Resolvo parar no sujeito que vende jabuticabas, porque estou com um problema de logística em casa: as jabuticabas do meu quintal estão caindo e se estragando mais depressa do que eu consigo colher e consumir. E olha que estamos comendo jabuticabas a rodo. E também já distribuímos para os parentes e amigos que, coitados, não têm pés de jabuticabas em casa.

Eu paro quase em frente ao sujeito que vende jabuticabas. Tem uma cara comum, se veste de um jeito comum, o cara é bem comum. Tudo bem, isso não é descrição que se faça, mas realmente não há nada para ser dito desse sujeito que vende jabuticabas. A não ser que eu mencione a camiseta, onde se lê "alguém que me ama trouxe essa camisa do Ceará". Eu não fiz nenhum comentário, é claro.

_Ô do Ceará, será que você poderia me ajudar?

_Pode falar, chefia.

_Eu tenho um pé de jabuticaba em casa e está carregado, é uma beleza. Mas o problema é que as jabuticabas estão todas amadurecendo ao mesmo tempo. Todos os dias o chão amanhece coberto de jabuticabas. E cai jabuticaba o dia inteiro. Eu queria saber como é que vocês fazem para colher a jabuticaba dos galhos mais altos, sem derrubar as jabuticabas que ainda estão verdes dos galhos mais baixos.

O sujeito me olhou como se eu fosse o sexto ministro de estado flagrado na mentira.

_Ué, é pra isso que tem menino, vice. Os meus meninos é que apanham as jabuticabas para mim. Vai querer levar a jabuticaba?

_Não, muito obrigado.

As coisas mais óbvias do mundo às vezes me escapam. Mas hoje as crianças não passaram a tarde em casa, então eu mesmo tive que colher as jabuticabas com a ajuda de uma escada. Colhi três baldes de cinco litros em duas horas de trabalho. Só parei para o jantar. Também fiz uma nova limpeza em torno da árvore, recolhendo os frutos que caíram. Acho que as frutas duram no máximo até sexta-feira.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Epifania



King Charles - Bam Bam

Houve uma época em que sonhava que escrevia livros. Lembro de ver páginas e páginas datilografadas, quando ainda datilografava. Para os meus olhos dentro do sonho, eram coisas do balacobaco. Eu nunca conseguia me lembrar do estava escrito exatamente, apenas guardava a sensação de estar desvendando mistérios profundos e de suma importância para a minha vida. Ao despertar, por vezes podia jurar que ainda sentia o sabor desse conhecimento, mas quando achava papel e lápis, tudo já se fora. Então corria para o chuveiro e procurava resgatar pedaços de páginas, mas nada surgia.

Por algum tempo, quando ainda acreditava nos olhos do sonho, eu mantive um caderno de notas e caneta ao lado da cama, prontos para uma anotação rápida. Mas o estratagema nunca funcionou. Estando devidamente preparado para anotações, ou não sonhava com as páginas ou tudo desaparecia ao abrir os olhos. Uma vez despertei durante a noite e anotei frases febrilmente, com as luzes apagadas, certo de que desta vez havia triunfado. Mas no dia seguinte, os garranchos eram incompreensíveis e o pouco que consegui entender não fazia o menor sentido ou era insignificante.

Então parei de acreditar nesses sonhos de escrever o livro dos sonhos. Misteriosamente, os sonhos se intensificaram. Eu agora escrevia o dobro ou o triplo de páginas enquanto dormia. Minha produção sonhadora era tão magnífica que às vezes, na velocidade estupefaciante e maluca do tempo dos sonhos, eu escrevia livros inteiros e suas continuações. Sim, eram dezenas e dezenas de páginas, histórias e estórias encadeadas, com revelações a rodo, metáforas estupendas, parágrafos inspirados, uma beleza. Quando acordava, nesse tempo, eu corria para ler os livros de verdade que eu guardava no banheiro e aquelas páginas reais ajudavam a me manter no clima de sonho e revelação. Eu me sentia o máximo. E às vezes, até acreditava que tinha escrito alguma coisa de verdade, que estava em alguma gaveta, em pastas azuis cuidadosamente protegidas.

Tão misteriosamente quanto surgiram, meus sonhos de escrever páginas e páginas de livros desapareceram. Não achei estranho porque agora também sonho menos sobre qualquer coisa. Os raros sonhos que aparecem trato a pão-de-ló, com o melhor dos meus instintos preservacionistas, mas nem isso faz com que me lembre deles. Mesmo assim, às vezes acordo e olho para o criado mudo e vejo se por acaso não anotei alguma coisa numa folha qualquer. É uma esperança boba, eu sei, mas é inevitável.

Outras vezes, não é sempre, é só de vez em quando, eu me pego a procurar as misteriosas pastas azuis em algum armário. Isso é menos frequente, mas por outro lado é mais sério. Estão por aqui, em algum lugar.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Marcha contra a corrupa



Marlena Shaw - California Soul

Amanhã tem marcha contra a corrupa. Começa às dez horas, em frente ao Museu Nacional.

domingo, 13 de novembro de 2011

Eu me enrolo



Arctic Monkeys - Love Is A Laserquest

Ainda estou lendo o livro de conversas entre Sábato e Borges. Em determinado momento, Sábato diz a Borges que existem escritores para escritores, e que Borges é um deles. Borges fica surpreso.

Jorge Luis Borges nunca esteve entre meus escritores prediletos. Sempre o achei rebuscado e empolado demais, super literário. Mas lendo esses diálogos fiquei surpreso de encontrar crítica idêntica feita por Borges e Sábato a outros escritores. Os dois rejeitam os escritos cheio de aforismos e rebuscamentos, e ambos falam que existe um limite para o "literário", o estilo, ou o esnobismo da arte de escrever.

Borges, em outro trecho, também diz que não gosta das obras super-explicativas, de trechos de livros de Wells, por exemplo, que procura descrever mecanismos de geringonças das suas fantasias. Acham que existe um limite e que os diversos autores criticados muitas vezes escorregaram e o ultrapassaram. E então, os dois falam do Quixote e da grandiosidade da obra de Cervantes.

-.-

É extraordinário como os dias estão passando de forma tão rápida e acelerada. Basta encontrar um livro que me desperta algum interesse e as horas voam. Ao mesmo tempo, o tempo de reflexão rareia, faço coisas às pressas. Tenho de fazer um esforço enorme para me focar em poucas atividades.

Preciso manter as coisas como são: com início, meio e fim. A próxima semana promete.

sábado, 12 de novembro de 2011

O Inspetor de Galinhas e a lógica irrefutável



Amy Winehouse - Love is a Losing Game


Em 1946, Jorge Luis Borges(1899-1986) foi destituído pelos peronistas do cargo que ocupava na Biblioteca de Almagro, em Buenos Aires, e "promovido" a Inspetor de Galinhas e Ovos em feiras públicas. Obviamente, recusou a humilhação. Nos anos seguintes, os peronistas colocaram sua mãe e também sua irmã na cadeia. Eram seus olhos que aprisionavam.

As biografias de Borges dizem que ele era classe média. Mas viveu até os 70 anos num apartamento pequenino com a mãe. Dormia na sala. Só foi ter um quarto próprio após a morte da mãe. Em 1981, Mario Vargas Llosa foi visitá-lo e ficou emocionado com a modéstia dos aposentos do colega, descrevendo-o como uma cela estreita, com uma cama tão frágil "que parece de criança".

Reencontrei na minha estante um livro de conversas entre Jorge Luís Borges e Ernesto Sábato, organizado por Orlando Barone e publicado pela ed. Globo. É o registro gravado dos encontros dos escritores em 1974, depois de mais de vinte anos que os dois não se falavam. Por divergências políticas. Foi o diálogo que me chamou a atenção para esses detalhes biográficos. O trecho principal é este:

BORGES: Veja que me deram esse posto para me humilhar e eu renunciei no mesmo dia. Lembro que perguntei a um amigo meu por que, havendo 40 empregados na biblioteca, mandavam embora a mim, que era escritor. Ele me perguntou se eu não estivera com os aliados durante a guerra. Respondi que sim. "E então o que o senhor quer?", ele me disse. Percebi que essa lógica era irrefutável.

Sim, vivemos tempos de lógica irrefutável.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Jabuticabas no quintal

Na terça-feira eu passei debaixo do pé de jabuticabas no meu quintal e todas estavam absolutamente verdes. Cheguei a imaginar que as frutas só ficariam boas no final deste mês ou no início de dezembro. Mas hoje uma grande quantidade de frutas estava no chão. Quem percebeu que já era hora de apanhar as jabuticabas foi a minha mulher. De longe ela notou que debaixo da árvore já estava preto de tanta jabuticaba.

Então decidimos inventar uma estratégia de colheita, para aproveitar o máximo possível de frutas. Primeiro, catamos as jabuticabas que pudemos do chão. Selecionamos as frutas pelo tamanho e também pelo brilho. Gastei quase uma hora apanhando as pretinhas que estavam no chão. Enchi duas bacias, das médias. Em seguida, tratei de usar o rastelo para deixar o círculo debaixo da árvore o mais limpo possível. Nesse processo, foi inevitável pisar em dezenas de jabuticabas que ainda estavam no chão e não aproveitei. Era uma sensação curiosa, parecia com andar sobre uma espécie de plástico bolha silencioso.

A limpeza durou ainda mais tempo, porque fui atirado para o tempo da minha infância, quando em todos os quintais havia pés de jabuticabas. Enquanto passava o rastelo meticulosamente no círculo abaixo da copa da fruteira, eu me lembrava das frutas de antigamente, todas enormes e suculentas. Atacávamos as árvores em bandos de meninos, primos e amigos, todos gulosos e vorazes adoradores de jabuticabas. Não havia ninguém que não gostava. Bom, tinha uma prima que não participava daquela festança debaixo das jabuticabeiras, mas ela explicava que tinha medo de vespa. E jabuticaba sempre atraía muita vespa. Aqui não achei nenhuma, ainda bem. Devorei um monte de jabuticabas. Tem gente que engole o caroço, mas eu não faço isso. Tem gente que não come a casca, e eu adoro a casca.

Depois da limpeza, minha mulher teve a idéia de estender vários panos no chão, bem próximo do tronco da árvore. Na metade da tarde, sol e chuva, casamento de viúva no quintal. Colhi mais uma bacia de jabuticabas só com as frutas que caíram com o chuvisco. Depois fiz mais uma limpeza e aumentamos a área coberta com folhas de jornal abertas, presas com pedras ao chão. O ideal seria estender uma rede sob a toda a copa da árvore para colher mais frutos. Quem sabe não faço uma coisa assim?

Agora, estou com uma grande quantidade de jabuticabas lavadas e prontas para comer. Talvez eu separe um monte e coloque no congelador. Lembro que as jabuticabas congeladas são ótimas para dias quentes e também que o gelo não altera muito o sabor.

Sim, é muito bom ter um pé de jabuticabas no quintal.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Recibo de propina não vale

Vamos ver se eu entendi.

O Sujeito é diretor da agência que libera os alvarás de funcionamento de laboratórios.

Um dia esse Sujeito recebe um depósito de cinco mil reais de um Fulano, funcionário de laboratório, que era seu Amigão.

Por coincidência, naquele mesmo dia, o alvará é assinado e liberado.

O Fulano depositou a grana em 2008 e, por gostar loucamente de colecionar recibos de depósitos, guardou aquele com carinho.

Fulano e Sujeito eram super-amigos, assim ó, de um pedir emprestado para o outro sem papel nem nada. Podia ser cinco ou cinquenta mil. Não fazia diferença. Mas Brasília é uma cidade fria, e cada um foi cuidar da sua vida.

Um dia desses, Fulano estava olhando a sua coleção de recibos de depósitos bancários quando viu aquele, de 2008, quando seu ex-amigo ainda era diretor de assinar alvará.

Um súbito acesso de memória o fez se lembrar de que os cinco mil eram propina, bola, ganja, jabá, bufunfa, ou mônei não contabilizado, cash direto para o Sujeito. E também que além dos cinco mil, pagou outros 45 mil para que o tal alvará fosse assinado, rubricado, selado e publicado.

Por causa do recibo, o Sujeito não tem como negar que recebeu o dinheiro.

Então, o Sujeito que recebeu o depósito de cinco mil confirma que recebeu mesmo aquela grana, mas que era apenas a quitação de uma dívida dos tempos em que o Fulano era seu Amigão.

O Fulano, que era um Amigão mas hoje não é mais, diz em seguida que foi procurado por parlamentares obtusos que lhe ofereceram rios de dinheiro para contar aquela história.

O Sujeito solta foguetes e faz um mega-festão numa churrascaria e diz que tudo não passa de uma armação da oposiçãozinha.

-.-

Pois é, a criatividade dos achacados é impressionante, mas nem mesmo recibo de propina é aceito como evidência pela Câmara do Detrito Federal.

Nossos dirigentes são incomparáveis. Um deles quer que a felicidade seja um direito constitucional. Tem fama de gostar de educação, mas sob sua gestão as escolas ficaram 169 dias paradas num único ano letivo. Um outro caiu por causa de uma bezerra que valia o peso em ouro, desde que financiado pelo banco estatal. Um terceiro chegou a ser preso e perdeu o mandato depois de ter sido filmado pegando um pacotão de dinheiro de propina.

O atual por enquanto nega tudo. Só admite que é mão aberta e empresta dinheiro às pencas para os amigos, sem papel, sem documento, por favor, é tudo no fio da barba e do bigode. Do jeito que está, se aparecer um filme dele recebendo sacolas de dinheiro numa garagem, não há motivo para alarme. Será algum outro amigão quitando uma dívida, é claro.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Minha casa é o meu castelo



Don't Stop Me Now" - Queen


Durante os séculos 12 e 13 existiram cerca de 180 torres na cidade de Bolonha, na Itália. A altura variava entre 30 e 110 metros. Os historiadores não sabem dizer porque foram construídas tantas torres. A hipótese mais aceita é a de que muitas famílias ricas resolveram construir as torres por uma questão de segurança. Eram tempos bicudos, aqueles. Uma torre de 60 metros, de acordo com os especialistas, demorava de 3 a dez anos para ser construída.

A maioria das torres ruiu ou foi derrubada bem antes do século XX. Hoje ainda existem 21 torres em Bolonha, as mais famosas são Garisenda(48 m) e Asinelli(97m), que ficam bem próximas uma da outra. Dante cita as Duas Torres na Divina Comédia e é assim que elas são chamadas nos guias turísticos. As duas são inclinadas. A cidade também possui quatro grandes portões fortificados.

Meu sogro tem uma casa de dois andares numa cidade satélite. Os vizinhos tinham casas da mesma altura. Subitamente, começaram a fazer reformas. O vizinho da direita fez tudo bem rápido. Botou a casa abaixo e levantou outra, de quatro andares. O vizinho da esquerda ainda não conseguiu acabar a obra. Fez uma super-reforma. Agora tem 3 andares. A casa do meu sogro parece bem mais modesta, esprimida e baixinha entre os vizinhos.

_O senhor vai mandar subir mais um andar? - eu disse.

_Não. Já tem muita escada aqui em casa. Além disso, dois quartos estão vazios, estamos com espaço de sobra - ele disse.

Meu cunhado mora numa casa térrea, no Cruzeiro. Os vizinhos também foram atingidos pela síndrome bolonhesa. Rapidamente ampliaram as casas em dois andares. O fenômeno se esparramou para as casas da frente. Todos reformaram e ampliaram as casas. A casa do meu cunhado agora parece menor, baixinha.

_Vai reformar? - eu disse.

_Não, a casa já é bem grande, não precisa - disse o meu cunhado.

E é verdade. A casa é bem confortável, não precisa de nenhum andar extra. A não ser que se queira alugar quartos.

No ano passado, nessa época do ano, eu dava início à reforma da casa onde eu moro. Felizmente, tudo acabou bem. Ainda faltam algumas coisinhas, mas agora o ritmo é outro. Estou me sentindo muito bem. Passei quatro horas na oficina e terminei um carrinho auxiliar para a churrasqueira. Na última hora, pintei a madeira de preto. Talvez eu seja como os bolonheses, construindo e fazendo as coisas sem saber direito o motivo, mas com disciplina, engenho e método.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

O honesto

Conta a lenda que a presidente mandou fazer uma pesquisa entre os 349 ministros para ver se havia algum honesto. A primeira pesquisa custou uma fortuna e não deu certo, porque o encarregado dispensou a licitação e contratou uma ONG amiga para cuidar do assunto. A ONG era especializada em ministrar cursos para manutenção de geladeiras no pólo sul e por isso subcontratou uma empresa especialista em palavras cruzadas para cuidar da elaboração da pesquisa.

Assim que o questionário ficou pronto, os diretores da ONG visitaram os ministros um a um para aplicar a pesquisa e vender o gabarito com as respostas. A presidente desconfiou que havia alguma coisa errada porque um ministro de bigodes, que ela não suporta, ligou para perguntar como se soletra honesto.

_Agá, ó...

_Mas o agá ainda não caiu? - disse o ministro.

_Não, sua anta, quem caiu foi o Pallhófi, o Jubim e outros que eu não me lembro agora - disse a presidente.

_E qual é a resposta para "quantos CPFs você pode ter?"

_Um, ué.

_Só isso! Mas é muito pouco.

O ministro ainda tentou encompridar a conversa, mas a presidente disse que precisava ler um livro de receitas culinárias e mandou o bigodudo passear.

No dia seguinte, saiu o resultado da primeira pesquisa sobre a honestidade do ministério, com 350 ministros considerados honestíssimos. O ministro de bigodes disse que a pesquisa mostrou que ele era o mais honesto dos honestos com agá. Os diretores da ONG depois disseram que venderam o gabarito duas vezes para o ministro de bigodes.

A segunda pesquisa foi realizada apenas um mês depois da primeira e coincidiu com a queda de mais um ministro por denúncias de corrupção. A presidente desconfiou do resultado, porque desta vez 351 ministros foram considerados honestíssimos com estrelinha e SS parabéns. Desta vez, o ministro de bigodes comprou três gabaritos e disse que a honestidade dele estava progredindo mais e mais a cada dia. Por causa disso, talvez até precisasse de mais um CPF.

Depois disso, usando os gastos secretos do cartão da presidência, fizeram uma pesquisa séria e isenta com os 349 ministros. O ministro de bigodes quis trocar uns dois ou três dossiês falso pelo gabarito, mas não conseguiu. Por fim, a presidente descobriu entre seus ministros um que não tinha nenhuma denúncia de falcatrua. Era um ministro tímido, discreto, e ninguém nunca tinha ouvido falar de nenhum malfeito desse sujeito. Ele não era suspeito de nada. Ele não matava nem uma mosca. Ele não fazia festinhas em motéis e pagava com dinheiro de gabinete. Ele não comprava tapioca a crédito. Ele não estava cercado de otários. Ele não pegava grana em garagem. Ele não vendia emendas. Ele não favorecia amigos. Ele não aparecia em vídeo abraçando mentirosos. Ele não desviava dinheiro de merenda. Ele não conveniava cursos fajutos. Ele era não para tudo de ruim e desonesto.

A presidente ficou muito feliz com a descoberta. E chamou logo o secretário geral para uma reunião.

_Gil, apenas um ministro honesto. Eu queria todos iguais.

No dia seguinte, o ministro honesto foi demitido, é claro.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Correr faz mal à saúde






Jimi Hendrix - Crosstown traffic


_Miler, Charles Miler - ele disse.

Estava estirado no chão. A perna esquerda dobrada numa posição impossível. O braço direito também. Tentou se mexer.

_Por favor, não tente se mexer, é melhor ficar imóvel até a ambulância chegar - eu disse.

Vi Charles Miler esparramado no chão hoje, por volta das sete e meia, logo depois que deixei as crianças na escola. Um carro bloqueava metade da pista e havia ligado o pisca alerta. Talvez eu tivesse passado direto e apenas feito aquela cara de solidariedade fajuta quando a gente vê um acidente. Mas o pouco que tinha visto de Miler era muito parecido com um vizinho. Na dúvida, resolvi parar um pouco mais à frente e ver no que eu poderia ajudar. Voltei correndo até onde estava o atropelado. Muitas pessoas estavam paradas em volta, sem ação, olhando de olhos arregalados a vítima no chão. Quando estava a quatro passos, tive certeza de que não era o meu vizinho. Mas aí já era tarde demais para não me envolver.

O motorista que havia bloqueado a pista gritou para mim que já havia chamado a ambulância, que eu não precisava me preocupar. Só então entendi que todas as pessoas ali pensavam que era parente da vítima, porque tinha corrido até Charles Miler. Resolvi ser útil e me aproximei bem do atropelado. As roupas estavam um pouco sujas de vermelho. A cabeça tinha uma marca quase redonda de sangue. Ele mexia o braço direito, devia estar sentindo uma dor maluca. Foi quando eu perguntei o nome dele.

_O senhor foi atropelado, seu Miler. A ambulância já foi chamada. Mora aqui perto? Tem alguém em casa para a gente avisar?

_Não, minha mulher está em São Paulo. Não tem ninguém em casa.

_Em São Paulo? Talvez fosse melhor ligar para alguém aqui em Brasília. Tem alguém que a gente possa chamar?

Um sujeito estóico. Nenhuma reclamação. Nem mesmo uma careta de dor.

_Tenho dois filhos aqui - ele disse.

_Me diga um telefone, por favor.

Nessa hora ele fez um esforço grande, mas não conseguiu se lembrar de nenhum número. Tentou apalpar o bolso da calça. Mas disse para si mesmo que não havia trazido nada. Estava correndo. Era apenas a corrida matinal de todos os dias, antes de ir para o trabalho.

_Não adianta, não consigo lembrar - ele disse.

_O senhor se lembra do número da sua mulher?

Ele disse o número rapidamente. Quando a mulher atendeu eu disse que era um vizinho, morador do mesmo bairro. E também avisei que as notícias não eram boas.

_É sobre o seu marido. Ele foi atropelado, estou do lado dele, no meio da rua. A ambulância está a caminho. Ele está consciente e pediu para avisar a senhora. Também vou precisar do telefone do seu filho.

_Atropelado? Posso falar com ele? - ela disse.

Passei o celular para Miler. Só então vi a quantidade de sangue que havia no asfalto. Evitei olhar para a perna e o braço. Fraturas expostas não são coisas agradáveis de se ver. Miler mantinha a fleuma.

_Sim, sou eu. Não estou bem, não. Está feia a situação. Muito ruim. Estou quebrado, no chão. Diz o telefone dos meninos para ele. Eu não consigo lembrar.

Agora a mulher de Miler estava muito nervosa e também não conseguia se lembrar dos telefones. Começou a dizer um número mas mudou de idéia na metade. Eu me embolei com o teclado. Um outro sujeito apareceu ao meu lado com um celular.

_Vai ditando os números - ele disse.

A mulher de Miler queria me dizer outro número, mas eu disse que um só bastava. Também quis saber para onde o estavam levando. Mas a ambulância ainda não havia chegado. Eu disse que ela deveria ligar para os bombeiros depois. Agradeci ao outro sujeito que estendeu o telefone.

_Estou sem crédito, senão eu ligava - ele disse.

Disquei o número do filho de Miler. Atendeu ao segundo toque, com voz irritada.

_Quem é?

_É um vizinho. Seu pai foi atropelado. A ambulância está a caminho. Fale com ele.

Miler recuperou a fleuma totalmente.

_Sim. Fui. Estou com a perna e o braço quebrados. Também bati a cabeça - ele disse e me devolveu o telefone ao ouvir o barulho da ambulância.

_A ambulância está chegando. Daqui para frente é com os bombeiros e os paramédicos. Ligue para os bombeiros - eu disse.

A viatura da polícia chegou junto com os bombeiros. Os policiais estavam conversando com uma mulher aos prantos, que percebi ser a autora do atropelamento. Era de meia idade e não estava com roupa de trabalho. Usava moletom. Talvez voltasse da ginástica. No meio da rua, um dos tênis de Miller parecia colocar a língua de fora.
Olhei para trâs, mas não o vi. Os bombeiros e paramédicos fizeram um círculo de capas pretas e brancas em volta dele.

Caminhei até o meu carro. Só então percebi que um pouco mais à frente estava estacionado o carro do atropelamento. Faltava o espelho retrovisor do lado do passageiro. Daquele lado, a lataria estava um pouco amassada e o vidro do passageiro dianteiro estava trincado. Isso explicava o espelho retrovisor que eu havia visto no chão e a marca redonda de sangue na testa de Miler. Talvez o espelho retrovisor direito tivesse pegado no seu braço, com violência. O impacto o fez bater a testa no vidro do passageiro. Miler deve ter continuado o parafuso e caído com muita força no asfalto. O forte impacto provocou as fraturas do braço e da perna.

Ao chegar em casa, encontro o meu vizinho, que é mesmo bastante parecido com Miler. Contei o ocorrido rapidamente e meu vizinho falou que conhece o atropelado. E depois saiu para a sua corrida matinal.

Eu passei o dia com a vítima do atropelamento na cabeça. E basta fechar os olhos para que eu veja seu rosto ensanguentado e sua aparente tranqüilidade. Não consegui fazer muita coisa na oficina. O atropelado tomou conta dos meus pensamentos. Pensei, por exemplo, na forma como aquele velho conseguiu se manter firme e sem lamúrias mesmo espatifado no asfalto. Pensei em como ele pareceu ficar mais firme e resoluto quando falou com o filho no telefone. Pensei na maneira como conversou com a mulher, pedindo ajuda sem pedir, exortando firmeza e determinação. Pensei também no instante em que o vi olhando para mim pela primeira vez, ainda em dúvida se poderia confiar e me passar o telefone da sua mulher. Pensei também na motorista que o havia atropelado, uma dona-de-casa que saía cedo de casa. Para onde iria com tanta pressa? Ao supermercado? Ao amante? À missa? Comprar cigarros? Será que ficaria insegura para dirigir?

Tentei fazer piada de tudo, que é a melhor coisa para o esquecimento. Portanto, me imaginei contando essa história para o Cabeça.

-Big head, correr faz mal à saúde - eu diria, no início da história do dia em que fiz umas ligações celulares para uma pessoa atropelada.

Mas eu conheço o Cabeça. Do jeito que ele é, ele ouviria tudo na maior atenção, e depois diria que eu comecei a história da maneira errada.

_O certo é "atropelamento faz mal à saúde" - ele diria.

domingo, 6 de novembro de 2011

A música que meu filho mais escuta



The Beatles - Roll Over Beethoven (with Jimmy Nicol)

Existe uma grande competição para a venda de botijões de gás onde eu moro. De meia em meia hora, passa um daqueles carrinhos chineses ou indianos, carregado de botijões. Nesses carrinhos o lugar do motorista é bem apertado, os caras têm que andar de cabeça baixa. Uma das empresas, eu já reparei, parece selecionar os motoristas pelo tipo físico. Todos parecem jóqueis halterofilistas. Eu ia escrever nanicos mas ando muito politicamente correto.

Hoje, por exemplo, eu estava folheando aquela revista que sempre traz notícias que derrubam ministros e parei no anúncio dos três homens azuis. Sempre achei os homens smurfs patéticos, toda aquela tinta deve dar um trabalhão para tirar. Na foto, o primeiro aparece com olhos esbugalhados, o segundo parece que levou uma dedada, e o terceiro está olhando para o segundo como se ainda estivesse lhe aplicando uma. Eu ia fazer um comentário sobre a foto com a minha mulher, mas a onda politicamente correta me conteve.

Eu também ia fazer um comentário sobre o novo escândalo no ministério e a provável nova demissão, mas preferi ficar calado. Não gosto de parecer boca de sapo. Acho chato dizer "eu já cantei essa pedra" e também não gosto de ouvir. Isso é só para quem tem vocação de Cassandra.

A competição pela venda de gás por estas bandas possui vários denominadores em comum, além do transporte em carrinho estrangeiro. O preço é bem parecido, varia entre 50 centavos e um real. É preciso conferir se o botijão está mesmo com o lacre de segurança intacto. Ninguém nunca tem troco. E todas as empresas usam a mesma musiquinha para anunciar o gás: "Pour Elise", de Beethoven.

No início pensei que era apenas a empresa que usa os jóqueis do gás. Depois de algum tempo morando aqui me dei conta de que todas as empresas usam a mesma música. E é batata, todas as vezes que precisei trocar o botijão aproveitei a passagem do carrinho. Dá pra ouvir de longe o pianinho. Nas duas primeiras foram os jóqueis e nas vezes seguintes foram motoristas com o pescoço torto. Todas as vezes paguei o mesmo preço, porque os jóqueis e os motoristas não tinham moedas. Numa das vezes, o jóquei me mostrou que eu não tinha percebido o lacre violado. Ele disse que não haveria problema em trocar o botijão. E também disse que se eu quisesse ficar com o botijão com o lacre violado o preço ficava pela metade. Eu preferi pagar o preço por um botijão inteiro, lacrado. E depois disso examino todos os botijões que chegam aqui em casa.

_Pai, como chama aquela música dos carrinhos de gás?

_Pour Elise, de Ludwig von Beethoven. Por quê?

_É que na escola querem saber qual é a música que eu mais escuto. É essa música, pai. A dos carrinhos de gás. Toca todo dia, umas três ou quatro vezes.

A resposta impressionou a professora de música. E amanhã, na hora em que um caminhãozinho de gás passar, quem sabe um outro ministro não terá caído?

sábado, 5 de novembro de 2011

Aprendendo com Clint Eastwood

Sei que vocês que me lêem são pessoas inteligentes e maduras, que não enfrentam os dilemas bestas e as angústias pequeninas que me afligem e vivem recheando os pixels desse modesto blog. Sei, por exemplo, que vocês não ficam preocupados com o presente de aniversário da pessoa amada. Eu fico, é um problema anual, chego a ficar com insônia. Fico pensando em coisas diferentes, em novidades da atualidade e sempre me enrolo todo.

Vai chegando o aniversário da minha mulher e eu corro para a banca de revistas. Isso é importante. Dica de um filme que vi do Clint Eastwood. O Clint diz numa cena que aprendeu tudo sobre as mulheres lendo revistas femininas. Eu também. O problema é que eu tenho uma memória muito ruim. Todo ano preciso ler de novo.

Tenho sempre uma sensação de assombro quase pornográfico ao abrir e folhear as revistas femininas. Muitas delas tratam de abrir generoso espaço para intensos debates sobre a discussão da relação. Outras me dão a impressão de que nem mesmo as revistas masculinas que se dedicam a exibir closes de mulheres depiladas conseguem falar tanto de sexo. É sério. Essas revistas femininas não têm, por exemplo, uma sessão de esportes. Nem de política. E nem de rock. Elas só querem saber daquilo.

Ou então é preconceito meu, não sei. A verdade é que não me sinto muito confortável com essas revistas. Tenho a impressão de estar escutando conversas na antesala do ginecologista. As manchetes são de tirar o chapéu. "Ser traída foi a melhor coisa que já me aconteceu" -dizia um artigo de uma revista nas bancas. Ela dividia a capa com a mesma mensagem subliminar invertida: "Homens melhoram depois de um pé na bunda". Putz. Clint não tinha falado disso.

Eu me imagino conversando com o Clint.

_Pô, Clint! Que dica mais furada. Essas revistas são a mais pura sacanagem.

_What?

_Essas revistas femininas, Clint. São da pesada. Sexo, sexo e mais sexo.

_Forget the articles, asshole, just look at the photographs - diz o Clint.

Tem razão, o Clint. As melhores dicas para presentes estão nas fotos. E quase sempre nos pés. Desta vez vou me arriscar. E se não der certo, ponho a culpa no Clint.

Fernando Mendes - Não vou mudar (1973)



Fernando Mendes - Não vou mudar (1973)

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

A felicidade é um sorvete



The Offspring - The Kids Aren't Alright

Ontem colhi pepinos da horta. O meu pé de limão china é um prodígio, está sempre carregado. Tivemos framboesas, pintangas e o pé de jabuticabas está carregado. As frutas estarão boas em dezembro, vai ser uma maravilha. Hoje também me servi de mangas, laranjas e cajus, no quintal de um vizinho. Vi um pé de sapotis cheio, não sou muito fã da fruta. Mas amanhã vou colher alguns para levar ao meu sogro, que adora.

O feriado encurtou as atividades da semana, parece que tudo passou mais rápido. Faltou luz a manhã inteira e também no início da tarde, estourou um transformador no início da rua. Conversando com os vizinhos, organizamos uma blitz de reclamações na companhia de luz, alternando ligações de diferentes telefones. Mesmo assim, o conserto só foi providenciado às três e meia. Ainda bem, já estava correndo para comprar gelo e sal para salvar as coisas congeladas do freezer.

Rose, a universitária-babá-cozinheira-faxineira daqui de casa, faltou porque é época de provas e trabalhos acadêmicos. Fomos almoçar no shopping porque já estou com vergonha de filar rango na minha mãe. As crianças pediram sorvete e cada uma ganhou uma casquinha de baunilha do MacDonalds. Eu também ganhei.

"A felicidade é um gelato" - diz o melhor slogan do mundo, para um dos melhores sorvetes que já experimentei, o Diletto. É sim. A felicidade é um sorvete, colher uma fruta no pé, água fresca, uma cerveja Stella Artois long neck bem gelada, pão com manteiga com sal tostado no forninho elétrico. É sim. É sim. Também é olhar para frente, o passado é uma invenção triste que, com sorte, esquecemos.

Às vezes acho que acordei de um pesadelo, me sinto em estado de graça, em pura epifania por vislumbrar um caminho diferente daquilo em que eu estava lançado. E não é bem assim, não solucionei nenhum quebra-cabeça, minha vida é uma incognita, um salto no escuro. Ainda assim me rejubilo.

Em outros instantes, sinto calafrios e um medo terrível do que ainda não veio, de tudo o que não controlo. É uma paúra imensa, de bater o queixo e arrancar os cabelos do peito. Nessas horas lamento tudo de que desisti, as coisas para as quais eu disse não. Ah, me arrependo, mas para algumas coisas não há volta possível.

Depois do almoço fomos passear na livraria. Não posso entrar em livrarias porque tenho compulsão por livros, tenho que me vigiar para não comprar alguma coisa. Achei um livro que não conhecia da Patrícia Highsmith. É ambientado no México. Fiquei curioso, mas não comprei. Escondi atrás de um best-seller do Scott Turow. Depois encontrei uma nova edição de Com o Diabo no Corpo, o famoso livro que Raymnond Radiguet começou a escrever com 16 anos. Tive que me segurar. Mas seria pura gula. O bom é ler esse livro com a mesma idade de Radiguet. Escondi atrás de uma continuação de "O Poderoso Chefão". Eu nem sabia que existia.

Consegui. Eu pensei. Consegui. Vou sair da livraria sem comprar nada. Nada. E a galera grita, é, cam-pe-ão, é, cam-pe-ão.

Ah. Poxa. Só um livrinho, vai. Um pequeno. Papel jornal. Bem chinfrim. Não custa quase nada. É mais barato que o macarrão do almoço.

Tá bom. Tudo bem. Mas é a última vez.

A felicidade é um livro de bolso. The Godfather - Mário Puzo.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Os pés da máquina de lavar roupa - uma nova tentativa



Outro dia, enquanto trocava os pés da máquina de lavar, me peguei conversando com a minha mulher sobre a luva de Michael Jackson. Ele usava uma luva, lembra? Não era um par de luvas. Era uma única luva, na mão direita. Era branca com lantejoulas prateadas.

_Eu não entendo aquela luva - eu disse para a minha mulher.

_Que luva? Ficou louco? - ela disse.

_Aquela luva prateada do Michael Jackson. Por quê ele usava aquilo? Qual era o significado oculto?

_Essa máquina de lavar está pesada. Quer ir mais depressa?

_Inclinada assim nem precisa fazer força, é só equilibrar. Mas amor, você não acha estranho?

_Estranho é você. Se a máquina escorregar ela vai cair em cima da sua mão - ela disse.

_Não. Não vai escorregar. A luva única é que é estranha. Por quê ele usava só uma? Qual era o motivo dele usar na mão direita? - eu disse.

_Vai ver ele era canhoto. Anda logo com isso. Já estou ficando com cãibras - ela disse.

_Esses pés antigos estão enferrujados. Não está sendo fácil. Talvez se eu pegar umas luvas, a coisa melhore.

_Nada disso, foi você que inventou essa troca de pés, é melhor ir mais rápido - ela disse.

_Consegui, agora só falta um - eu disse.

_Ótimo, com três pés na máquina você consegue trocar o último sozinho. Fui - ela disse.

_Tudo bem, tudo bem. Esse último nem está enferrujado. Pode deixar que eu me viro - eu disse.

E o último foi mesmo bem fácil, consegui desatarrachar e substituir pelo novo pé emborrachado em cinco minutos.

_Amor, talvez ele se sentisse mais seguro com a luva. Era tipo o cobertor daquele amigo pianista do Charlie Brown - eu disse para a minha mulher, na cozinha.

_Do que você está falando? - ela disse.

_Da luva do Michael. Vai ver era igual a um amuleto, um tênis da sorte, as meias do sucesso. Sabia que tem jogador de futebol que sempre entra em campo com a mesma cueca?

_O que eu fiz para merecer isso? - ela disse.

Eu fingi que não ouvi e prestei atenção no barulho da máquina de lavar roupa. Talvez os novos pés aguentem alguns meses.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Os mortos e os pés da máquina de lavar



"How You Like Me Now," The Heavy - dica do Gravetos e Berlotas.

Dificilmente haverá um tema mais desinteressante do que "os pés da máquina de lavar". Mas hoje passei cerca de duas horas do dia por conta disso. Depois fui comprar uma tinta anti-ferrugem para as tampas dos bueiros daqui de casa. A loja de bricolagem estava lotada. Mais tempo perdido em filas. Quando cheguei em casa vi que era a hora da tão adiada troca das tomadas da lavadora e da secadora. O eletricista colocou daquelas tomadas novas. O problema é que existem tomadas 10A e 20A. As máquinas pesadas são todas com plug 20A. E é lógico que o eletricista colocou todas as quatro tomadas erradas. Para usar a lavadora eu tinha que usar três adaptadores. Duas horas depois o quadro de tomadas estava quase bom. Mas não sobrou tempo para muita coisa. Perdi o dia para os pés da máquina de lavar.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

O tio que fugiu da guerra



The Beatles - Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band

Meu pai usa bigode. Nele fica bem. Em mim, não. Eu já tentei, fico parecendo uma caricatura. Mas no meu pai fica legal, ele fica com um ar de autoridade, senhorial, parece que aumenta a importância dele. Mesmo para mim, o bigode do meu pai parece conferir a ele alguma coisa extra e intangível, transmite uma segurança, uma identidade inequívoca, parece ampliar o que é admirável.

O bigode do meu pai é totalmente branco, assim como os cabelos. As sobrancelhas também são brancas. Pensando bem, isso me ocorreu agora e é até engraçado, se ele usasse barba longa e deixasse os cabelos finos crescerem, ficaria um senhor Papai Noel. O único senão é que meu pai é magro. Então seria preciso uma barriga falsa, um enchimento de algodão, para dar a impressão correta. Não, não funcionaria. Esqueça isso.

Minha mãe gosta muito de contar a história de quando o meu pai tirou o bigode. Foi há muito tempo, eu devia ter uns cinco, seis anos. Até então, eu nunca havia visto o meu pai sem bigode. Na época, não sei se é lembrança daquele tempo ou a memória recente de fotos que vivo manuseando, meu pai tinha um belo bigode preto. Usava óculos de tartaruga quadrados, terno quadriculado. Tinha cheiro de alfazema. Na época, todos nós tínhamos cheiro de alfazema, era o perfume predileto da minha mãe e único que existia em casa. Ele também só usava o relógio Orient com pulseira articulada de metal. O mostrador não tinha números, só um pequeno traço de metal em quatro pontos. Um dia meu pai me explicou que o relógio funcionava porque tinha um monte de rubis dentro. E os rubis eram muito, muito valiosos. Por causa desse relógio, eu achava que nós éramos ricos.

Meu pai usava um par de sapatos marrons que eu e meu irmão vivíamos querendo engraxar(quem engraxasse ganhava uma moeda). Por causa desse par de sapatos e pela expectativa de ganhar uma moeda, nós vigiávamos a chegada do meu pai. Era uma espera séria e abnegada. Nem eu nem meu irmão brincávamos depois das seis da tarde para vigiar a porta. O rádio sempre ligado tocava a hora do Angelus. Às vezes tocava uma Ave Maria lírica, clássica. No dia seguinte, colocavam Ave Maria do Morro, que também é muito bonita.

Nesse dia, meu pai demorou a chegar. Tinha ido ao barbeiro, mas nem eu e nem meu irmão sabíamos disso. Com o atraso, meu irmão se cansou e a porta ficou sendo vigiada só por mim. Era a minha chance de ganhar uma moeda por engraxar os sapatos. Os minutos se arrastaram longamente, as Ave Marias acabaram e a rádio voltou a programação normal. Eu esperava, firme. Perto da Voz do Brasil, a campanhia toca e eu corro para atender. É meu pai, estava sem bigode e tocara a campanhia para nos surpreender com a nova aparência. E deu certo, eu não o reconheço sem bigode. Na verdade, estou um pouco assustado.

_Quem é o senhor? - eu pergunto ao meu pai.

_Não está me reconhecendo? Sou seu tio que fugiu da guerra - disse meu pai.

Então eu fico apavorado mesmo, porque o homem tem a voz igual à do meu pai e está falando de uma guerra que eu não sabia que estava acontecendo.

_Vem cá, dá um abraço no seu tio - disse o meu pai.

Aí me desespero e trato de correr aos berros para dentro, porque não vou dar abraço em tio nenhum, por nada deste mundo.

Minha mãe conta que ela precisou me dar uns dois copos com água e açúcar para me acalmar. Ás vezes eu acho que me acalmei sozinho, porque fiquei pensando nos sapatos daquele tio, e em como eles eram parecidos com os do meu pai. De qualquer forma, meu pai nunca mais tirou o bigode.

Frase do dia


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