segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Dengue, o último refúgio do Careca

Demoro uma semana de exames e umas trocentas e noventa mil horas de dores e incômodos para descobrir que sim, estou com dengue.

_Dengue? - perguntam meu vizinhos. Aos olhos deles, sou um sujeito que fica em casa fazendo barulho e gerando insetos para provocar doenças na vizinhança. Ou então um gerador de despesas extras, um sujeito que está sempre ocupado aparando a grama e cuidando do jardim para que eles saiam da letargia e também deixem suas casas mais bonitas.

_Não é hemorrágica. Ou pode ser, não sei. - eu disse, revirando os olhos para a vizinha da direita. Ela não gosta das minhas lixadeiras. Ela não gosta das serras elétricas. Ela reclama do barulho ensurdecedor do aspirador de pó. Ela uma vez disse que meu cachorro latia muito. Pô, Rafa, o Shit-tzu de estimação da minha filha é tão silencioso quanto um monge samurai gafanhoto. Secretamente, eu sei que essa vizinha torce para uma reviravolta do quadro-geral e eu sufoque em grave quadro de ebola. Por isso, alimento logo as falsas esperanças dela, que é para que não se transformem em desejos piores e mais sufocantes.

_Só vou ter certeza de que não é hemorrágica depois do teste do laço - eu digo, fazendo pose de sabichão wikipedia.

_Teste do laço?

_É um procedimento complexo de garroteamento do braço durante um grande período de tempo para a verificação da ocorrência de petéquias e outras formas de micro-manifestações hemorrágicas.

_Putz! - diz a vizinha. Eu jamais obteria esse efeito se dissesse que a enfermeira amarra seu braço por cinco minutos e verifica se fica alguma marca roxa. Não senhor, graças a Deus.

Então aqui estou eu, explicando para a vizinha passeando com o netinho porque estou nessa cadeira de plástico branco na frente de casa, observando os meninos descerem a rua de skate.

_Estou seguindo instruções médicas. Tenho que fazer repouso semi-absoluto. Só posso movimentar os olhos de um lado para outro, com velocidade relativa.

_E quando vai ficar bom? - pergunta a vizinha. Eu sei, eu sei. Lá no fundo ela deseja que apenas a franja da minha capa de Batman se recupere durante o meu último e mísero suspiro.

_O médico falou para que eu não me apressasse. Existem aspectos salutares pouco comentados sobre a dengue, um deles é a insônia com enxaqueca, com a qual, pelo que li nas bulas dos remédios prescritos pelo bom doutor, é possível usufruir de horas intensas de leitura e escrita.

_Ler e escrever? Eu pensei que dengue levava a pessoa a um estado geral de fadiga.

_Só quem não gosta de ler.

_E você gosta?

_Tento não gostar, mas é mais forte do que eu.

_Melhoras, então - ela disse. E eu percebo no fundo do olho o lampejo de uma praga arredondada vindo em minha direção. Mas,zás. Com um golpe de vista eu destrambelho aquela arenga e entro para tomar o genérico do voltaren. Sem voltaren não dá.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Sem dúvida nenhuma

Estamos voltando do último dia de aula na escola nova. As notícias no rádio falam da votação da LDO. Meu filho, de 11 anos, começa a fazer perguntas e eu acho melhor contar uma historinha:

_Era uma vez um país cheio de dívidas, com uma inflação galopante e uma terrível fama de caloteiro. Os governantes prometiam soluções para os problemas, mas ninguém de dentro e de fora acreditava. Era uma pasmaceira danada. Um dia, depois de mais um calote e até do confisco da poupança do povo, um governante jurou que ia mudar a situação. Ele disse que arrumaria tudo, que pagaria as dívidas, que as pessoas poderiam investir em seus empreendimentos, abrir lojas, postos de serviços, contratar gente, comprar coisas e até voltar a poupar. Mas como o povo e todo o resto do mundo acreditaria numa balela daquelas? O governante disse então que gastaria menos do que recebia em impostos e também que faria uma poupança extra, como sinal de que estava falando sério. E então o governante começou a mostrar que não era gastador e que estava conseguindo fazer a tal poupança extra. As pessoas viram e voltaram a acreditar em um governante e, pouco a pouco, começaram a deixar de ver aquela gente do governo como um bando de mandões corruptos que não ajudavam e às vezes cobravam muito caro para não atrapalhar. Isso durou mais de dez anos, com problemas aqui, problemas acolá, mas aí a coisa começou a ficar preta. O país agora estava com um governante que exigia ser chamado de governanta e todos os dias surgiam denúncias e escândalos de gente do governo envolvida em corrupção. Mas na propaganda da governante o país estava uma maravilha. A maioria do povo continuava a acreditar que tudo estava bem, que o governo e sua gente estavam contendo os gastos e continuavam a fazer a poupança extra. Mas aos poucos as pessoas foram descobrindo que não era bem assim. O país não estava indo bem em relação a muitos outros países. A cobrança de impostos da governante continuava a melhorar, o governo recebia cada vez mais dinheiro. O problema é que também estava gastando muito, muito mais do que recebia. E para piorar, no fim do ano se descobriu que a governante não tinha conseguido fazer poupança extra nenhuma e que tinha até aumentado em muito a dívida do governo. Só que ainda tinha mais coisa. Todos os dias apareciam notícias de que pessoas que trabalhavam para empresas do governo estavam prometendo devolver dinheiro que tinham recebido para não atrapalhar. Era dinheiro que não acabava mais, em contas no exterior. Como resultado da gastança extra e da corrupção, muitas pessoas começaram a duvidar do governo e...

_Pô, pai, eu só perguntei o que é superávit primário.

_É a poupança extra que o governo prometeu. É isso que o projeto de lei pretende acabar.

_Mas pai, se o governo não conseguiu poupar antes, não adianta prometer que vai poupar agora. Então é melhor acabar com a mentirada.

_O problema é que o novo ministro do governo que cuida dos gastos já havia prometido uma poupança extra para o ano que vem e uma outra poupança extra maior ainda para o ano seguinte.

_Hum. E em quem você vai acreditar? No ministro ou na governante?

_Por enquanto, estou em dúvida.

_Mas pai, o governante manda no ministro?

_Bom, acho que sim. Quem nomeia é o governante.

_Ué, se o governante não prometeu poupança extra, então não adianta o ministro prometer, não é?

_É.

_Então, qual é a dúvida?

Volto a ligar o rádio. Em seguida desligo. É o primeiro dia de férias. Tenho um monte de dúvidas para tirar.

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Dias melhores virão

Não ria. Mas descobri somente há muito pouco tempo um modo de saber com antecedência de 24 horas se vou ter um dia bom ou ruim. Essas coisas variam de pessoa para pessoa, mas não variam tanto assim. Num dia bom, todo mundo sabe, ninguém leva na cabeça ou é obrigado a engolir sapos. Isso quase não muda. E essa poderia ser uma ótima definição de "dia bom", mas sempre tem um masoquista ou outro que se amarra em resolver problemas ou em levar desaforo pra casa.

Eu não. Quero dizer, gosto de resolver um problema ou outro, mas detesto ser maltratado ou menosprezado. Sou do tipo comum. Dia bom, para mim, é o dia em que as coisas ruins não acontecem.

Sendo um supersticioso inveterado como sou, venho tentando há anos descobrir uma maneira de adivinhar se alguma coisa ruim acontecerá no dia seguinte. À primeira vista, isso pode parecer impossível, mas até ontem diziam o mesmo da previsão do tempo. Hoje, analisando com cuidado os dados históricos, fotos de satélites, pressão atmosférica, umidade relativa do ar, fases da lua, manchas solares, ventos e correntes marinhas, a previsão do tempo é um exercício científico quase infalível. Por isso,eu tenho certeza de que só é preciso decifrar os indicadores corretamente para saber se dias piores virão.

O mais difícil, aliás, foi descobrir quais são os indicadores de dissabores vindouros. Mais uma vez é preciso dizer que isso varia de pessoa para pessoa. Minha avó materna, por exemplo, era uma mulher que conseguia sentir o cheiro de problemas no ar.

_Isso não me cheira bem - ela dizia, quando seu instinto falava mais alto e exigia prudência de todos nós. Era uma conselheira e cozinheira de mão cheia. Vinha gente de cidades vizinhas pedir a opinião dela sobre as coisas. E se ela dizia que a coisa não cheirava bem, era melhor desistir daquilo. Ela tinha o nariz no lugar certo. Embora fosse quase surda do ouvido direito, o mesmo em que as pessoas sussurravam seus pedidos de opinião. Mesmo assim, para ela o futuro era uma coleção de aromas. Eu sou endefluxadíssimo. Não sinto cheiro de quase nada, e quando sinto, espirro.

Para mim, depois de muito pesquisar e de tanto observar e anotar as coisas, percebi que os dias bons acontecem sempre que abro a gaveta de talheres à noite, na cozinha, e vejo a colher de corujinha no topo da pilha de colheres. Sim, é isso mesmo. Não falha. Todos os dias bons acontecem quando a colher de prata, com uma corujinha gravada no cabo, está sobre a pilha de colheres na segunda gaveta do armário. Sim, eu já tentei manipular os dias bons. Já desci à noite e coloquei a colher no topo da pilha. Mas assim não funciona. É preciso que uma outra pessoa arrume a gaveta e a colher de coruja se torne, de maneira aleatória e sem intervenção minha, a primeira da pilha.

Essa colher tem uma história especial, é claro. É da minha mulher, que a usava quando criança para tomar sopa, papinha, gororoba de menina. Minha mulher diz que adorava a colherzinha, mas que ficou anos sem vê-la. Depois de alguns anos de casados, minha sogra um dia veio nos visitar e trouxe a colher, que encontrou no fundo de um baú com coisas velhas. Alguns meses depois nasceu o meu primeiro filho e a colher sempre foi a sua favorita, desde que começou a se alimentar. Minha filha, que nasceu um ano mais tarde, também adora a colher de corujinha.

Tem cerca de um ano que descobri a relação entre a colher de coruja e os dias bons. Minha primeira providência foi guardar a colher numa caixa de metal que uso como cofre, que tranco no armário do escritório. Fiquei com medo, confesso. Comecei a imaginar que se a colher sumisse, os dias bons também sumiriam.





sábado, 16 de agosto de 2014

Caminhando para a escola

Não teve jeito, na última quarta-feira fomos a pé para a escola. Quero dizer, eu fui a pé. Minha filha foi de bicicleta. Na última hora, eu me toquei que não teria a menor disposição para colocar uma bicicleta no bagageiro do carro por volta da uma da tarde, na hora da saída da escola. Também fiquei com preguiça de instalar o suporte para bicicleta, um emaranhado de ganchos, armação de metal e faixas reforçadas. Para simplificar, decidi seguir a minha filha a pé, com a condição de que ela me esperasse a cada vez que fosse atravessar uma rua. Fizemos o trajeto em 20 minutos.

Durante a caminhada eu não me cansava de pensar que tudo é metáfora, tudo é metáfora. Minha filha seguia à frente a uma velocidade pequena, sem fazer muita força. Ela se distanciava rapidamente na calçada. De vez em quando um pedestre desconhecido surgia no trajeto e eu apertava o passo, ansioso para estar ao lado dela, temeroso de que o pedestre se revelasse um perigoso zumbi devorador de menininhas felizes que adoram andar de bicicleta. Todo mundo anda tão sério, quase não se vê um sorriso de manhã. Ninguém respondeu ao Bom-Dia que eu e minha filha íamos distribuindo. Ela estava radiante e quando ela está assim, eu também me sinto radiante. As pessoas que passavam obviamente não tinham o menor interesse naquela banal aventura de um pai e uma filha. Um ou outro abanava a cabeça, uma empregada esbaforida riu dos meus esforços para alcançar a minha filha, num trechos mais perigosos do trajeto. Tropecei duas vezes, quase caí. Vi um passarinho morto no canto de uma calçada. Uns trezentos e cinquenta e nove cachorros latiram atrás das cercas-vivas das casas do bairro. Algum conhecido que não reconheci buzinou de dentro de um carro enorme, com vidro fumê. O céu azul pálido de Brasília e o amarelo forte do início da manhã no planalto central encheram os meus olhos.

_Cansou, paiê?

_Não, claro que não - eu disse.

Mas é mentira, é claro. Suei um bocado, inclusive na sola dos pés enfiados na bota nova e confortável que ganhei de presente no Dia dos Pais. Depois que a minha filha entrou na escola, voltar sozinho para casa montado na bicicleta com cestinho branco não teve a menor graça.

quarta-feira, 30 de julho de 2014

De bicicleta para a escola

Minha filha e minha mulher agora vão de bicicleta para a escola, que fica a três quadras de distância. As duas estão bem animadas com a façanha. O percurso é cheio de subidas e descidas, mas o tempo está mais frio e a umidade não parece tão baixa no início da manhã. Elas estão nessa desde a semana passada, orgulhosas de se exercitarem. Eu fico com uma ponta de inveja, mas não muita. Saio mais cedo para levar o meu filho na outra escola, meia hora distante a 80 km por hora, com vista para a gigantesca bandeira nacional e o lago Paranoá. Hoje seria o meu primeiro dia de bicicleta para a escola, já que na quarta-feira invertemos as posições e é a minha mulher quem leva o menino para a escola distante. Confesso que fiquei grilado com a perspectiva de pedalar durante a manhã, mas deixei tudo pronto. Calibrei os pneus das duas bicicletas. Acertei trancas, chaves e cadeados. Preparei sucos para o trajeto, só para o caso de ter um ataque de sede. Coloquei uns biscoitos e bolachas na minha mochila, para o caso de um ataque de fome. Preparei o kit conserto(chave de roda, remendos, cola), deixei tudo à mão. Ia me esquecendo do capacete, até pensei em desistir por falta de equipamento de segurança essencial, mas bastou uma olhada para minha filha para desistir da opção de desistir.

Hoje de manhã minha mulher e meu filho saíram correndo para o automóvel e eu fiquei esperando a menina para o café da manhã. Conferi a lista de equipamentos, os itens de segurança(acrescentei uma joelheira e luvas), a matula e os cadeados e correntes. Tudo certo.

_Cadê o coala? - disse a minha filha, assim que chegou para o café.

_O quê? Esse aí na sua mão não é um coala? - eu disse apontando para um bichinho de pelúcia cinza que a menina segurava com carinho.

_Esse é o filhote. Preciso do coala-pai, o coala grande, paiê! Eu preciso levar. Hoje tem gincana de matemática e o coala é o mascote da minha equipe. Eu prometi levar, você não sabia?

_Na verdade, não. O coala-pai é aquele que tem um colete preto, de chapéu marrom?

_Esse mesmo, você sabe onde ele está? - ela disse.

_Vou procurar.

Subi as escadas até o quartinho onde ficam os brinquedos e os bichos de pelúcia. Há uma grande quantidade deles aqui em casa. Temos espécies ameaçadas de extinção, personagens de quadrinhos, super-heróis, insetos gigantes, madeleines, emílias, anjos e seres de todas as cores e formas. Procurei por todo canto, mas nada do coala. Minha filha chegou para me ajudar na procura e terminamos de revirar tudo.

_Nada de coala. E não podemos demorar mais ou vou chegar atrasada - disse a minha filha.

_Filha, vamos ter que ir de carro, acho que não vai dar tempo de ir de bicicleta - eu disse.

_Tudo bem, vamos de carro - ela disse.

E exatamente nesse instante, encontramos o coala no único lugar onde ainda não havíamos procurado.

_Acho que esse bicho não queria ir de bicicleta para a escola - eu disse.

_Tudo bem, paiê. Todo mundo sabe que os pais dos coalas são preguiçosos - disse minha filha.

No caminho, descobri que a gincana termina nesta sexta-feira. Vou ter que pensar em outra coisa até a próxima semana.





quarta-feira, 25 de junho de 2014

Universo paralelo

_Nesse universo paralelo, eu digo para a minha filha, as feias é que eram bonitas. Todo mundo era lindão, corpo sarado, ninguém tinha celulite, ruga, nariz torto, orelhão de abano. Só os feios. Eles é que apareciam nas capas de revistas, nos comerciais de televisão, nos out-doors, nas filipetas e nos banners dos anúncios na internet. Elas, as feiosas horrorosas, venciam os concursos de feiúra e viravam estrelas de cinema, lançavam penteados, roupas e perfumes da moda. As mulheres mais feias do mundo faziam muito sucesso, os homens se matavam por causa delas, guerras heróicas eram travadas. E as mulheres lindas e belas de todo o planeta queriam ser como elas, as feiosas mais feias do mundo. Pagavam fortunas para os cirurgiões plásticos enfeiarem elas um pouquinho, entortar um nariz, aumentar uma orelha, faziam dietas incríveis para ganhar peso e conquistar algum tipo de flacidez, ficavam meses sem fazer exercícios, na maior preguiça e sedentarismo do mundo. Era incrível. Mas todo mundo queria ser feio desde pequeno. E não era fácil ser feio. Primeiro porque ninguém perdoava a feiúra alheia.

_Fulana nasceu com o bumbum virado pra lua! Ela é feia, rica e feliz - diziam as invejosas.

_E o marido também é horroroso! - dizia a invejosa mais invejosa de todas.



_Pai, paiê! - disse a minha filha, interrompendo a minha história da feiúra.

_Pode falar - eu disse.

_Pai, eu estou com sono. E já sou grande. Não precisa mais de história para dormir.

_Nesse universo paralelo, os filhos é que contavam histórias para os pais...

terça-feira, 10 de junho de 2014

Sem alarde

O fim-de-semana foi agitado. As escolas anteciparam as festas juninas por causa da Copa das Copas e assim ficamos com duas festas no mesmo sábado. Desde que o crime de quadrilha foi praticamente abolido pelo Supremo Tribunal Federal, tenho achado esse costume junino de dançar vestido de caipira meio chato. Mas na primeira escola em que paramos, ainda no período da manhã, um grupo profissional me fez mudar de idéia. Tudo por causa do gordinho. A quadrilha foi anunciada sobre o palco elevado e os dançarinos se posicionaram para a dança. As moças de vestido rodado de chita e tranças, os homens de camisas quadriculadas, calças com remendos falsos e chapéus de palha, alguns com barbas de verdade e um ou outro imberbe com cavanhaque pintado. Era uma quadrilha super-agitada. Os jecas juninos eram todos atléticos e ágeis. Menos o gordinho, é claro. Ele estava numa empolgação danada atrás da barriga, mas já na introdução dava para perceber que ele não daria conta de manter o pique.

_Aposto uma pamonha que o gordinho vai pedir tempo e sair no meio da quadrilha - eu disse para a minha mulher.

_A pamonha não está com uma cara muito boa - disse ela.

_Então vale um yakisoba - eu disse, apontando para o letreiro de uma barraca.

_Fechado.

As coisas estão tão mudadas que a gente nem estranha yakisoba em festa junina. A quadrilha continuou em velocidade. Eu não estava acreditando. O gordinho estava no ritmo da galera, de onde eu estava dava para ver o sujeito suando, mas ele não perdia o embalo e parecia acompanhar a parceira com desenvoltura. Putz, eu pensei. Não é que o gordinho manda bem?! Pula a fogueira iaiá, pula a fogueira iôiô, e o gordinho firme. Eu estava pronto a reconhecer a derrota e bancar o yakisoba quando mudei um pouco de lugar. Tive uma surpresa.

_O gordinho está trapaceando! - eu disse bem alto para a minha mulher. Do meu novo lugar, dava para ver que o sujeito só acompanhava a dança com os braços, as pernas ficavam paradas enquanto o resto da turma pulava e sapateava.

Na sequência da festa junina, levamos um dos filhos para uma festa de aniversário e seguimos para casa. Eu deveria ter aproveitado para tirar um cochilo, mas estava com algumas pendências no escritório para resolver. No meio da tarde escuto um grande estrondo, parecido com a batida de uma porta de vidro que tenho em casa. Corri assustado para lá, mas estava tudo normal, sem problemas. Na minha paranóia, verifiquei as janelas e todo o perímetro da casa e já estava dando tudo por encerrado quando observei uma estranha mancha no janelão da varanda. Era grande e redonda, parecia uma marca deixada por uma bola de futebol. A Copa quase me custou uma vidraça, eu pensei. Decidi procurar a bola, mas ao invés disso encontrei um pombo enorme caído no chão. Era grande mesmo, dos butelos, e por isso mentalmente eu já estava chamando a criatura de Chester.

_E aí, Chester? Vamos, rapaz, levanta daí e bata as asonas. O Rafa vai te pegar! Sai daí, depressa!

Tive que bancar o herói do pombo, pulando na frente do Rafa e salvando a ave no último segundo. O Rafa é perito em finalizar aves que trombam no janelão. Deixei o pombo numa caixa de papelão, apoiado em papel jornal e isopor. Ele estava grogue, mas não parecia muito comprometido, sustentava a cabeça e de vez em quando ensaiava uma tentativa de bater as asas. Eu havia trancado o Rafa dentro de casa e, portanto, todo o quintal estava livre para o pombo.

_Chester, my boy, fique à vontade. Voe quando quiser - eu disse, com grandes esperanças de que o bicho realmente se recuperasse do pancadão e fugisse.

Houve um tempo em que eu achava que era importante chamar a atenção das crianças para essas coisas. Lagarta esquisita. Planta brotando. Passarinho ferido. Galho quebrado. Pombo se recuperando. Eu achava que era meu papel de pai estar presente e procurar transformar qualquer coisa prosaica numa lição positiva, num alento esperançoso, numa epifania educativa sobre a importância de estar atento a tudo o que nos acontece, de celebrar o encanto de viver. Mas isso passou. Agora prefiro viver sem alarde.

No domingo, fui verificar e encontrei o pombo numa posição esquisita, com os olhos brancos e virados, petrificado. Chester não aguentou, coitado. Eu fechei a caixa de sapatos e coloquei no saco preto de plástico. Fiquei contente por não ter chamado as crianças para ver o Chester e criar falsas esperanças.



sexta-feira, 6 de junho de 2014

Vazamento

Vazamento sob a pia do lavabo, na segunda-feira.

_É o rabicho - disse o meu lado bombeiro hidráulico.

Eu mesmo troquei o rabicho, é claro. Por 13 pratas. Testei e tudo funcionou maravilhosamente. Nenhuma gota após 12 horas.

_É campeão, é campeão - eu pensei.

Na terça-feira, novo vazamento sob a pia. Revejo o conserto.

_É o joelho do encanamento - disse o meu lado bombeiro hidráulico.

Quase o mandei plantar batatas. Apliquei silicone (10 pratas + ou -), aguardei 24 horas para secagem e vulcanização. Quarta-feira com o lavabo a pleno funcionamento e perfeitamente seco.

_É campeão, é campeão - eu comemorava.

Na quinta-feira, a parede oposta à pia do lavabo amanheceu molhada. Vazamento interno.

_Vou ter que quebrar a parede e trocar o cano, provavelmente é uma fissura atrás do joelho do encanamento - eu ouvi o idiota do meu lado bombeiro gaguejar. Resolvi ignorá-lo e procurar ajuda profissional.

Esperei até o início da tarde a chegada do bombeiro hidráulico para orçamento. A minha torcida, felizmente, também aguardou a facada em silêncio.

Os caras do socorro bombeiro chegaram às três horas. Estavam sujos pacas.

_A gente estava bem perto daqui - disse o que parecia ser o líder.

_Perto daqui - disse o que parecia ser o liderado.

Hesitei em deixar a dupla entrar em casa com aquelas roupas e calçados imundos. Mas segui a recomendação de amigos, não banquei o importante que abre as portas do castelo. Ao contrário, fiz a minha cara de humilde, chamei de senhor, conforme me ensinaram. Eu saco muito dessas técnicas de apresentação de orçamento hidráulico. Os caras, em geral, usam a velha tática de "good cop, bad cop". Um salga o preço, o outro sopra descontos. No final, mesmo que você ganhe muitos descontos, estará pagando um preço pra lá de salgado. Por isso eu gosto de usar a minha velha tática de "dividir para conquistar".

Olhei para o sujeito mais velho e disse que era coisa rápida, talvez fosse melhor que o ajudante esperasse do lado de fora.

_Ajudante? - disse o bombeiro mais velho.

_É. Seu auxiliar pode ficar no carro, não precisa de dois para fazer um orçamento, certo?

_É o meu sócio.

_É uma sociedade 50/50?

_Bem, na verdade...

_Quem é que manda, afinal?

_Bom, pra falar a verdade...

_Aqui em casa manda a minha mulher, rá,rá. Um entra, o outro espera do lado de fora. Quem vai entrar?

_Nesse caso, eu vou - disse o sujeito mais velho.

Eu me apresentei, estendi a mão. Ele esfregou a mão na roupa suja antes de apertar a minha.

_Tomaz.

_Seu Tomaz, o vazamento é no lavabo...

O bombeiro hidráulico olhou de relance para o lavabo enquanto eu descrevia o problema. Depois entrou, examinou o rabicho, o silicone, balançou a cabeça, fez tsc-tsc-tsc e balançou a cabeça de novo. Eu podia sentir o meu rosto vermelho. Acho que se eu não estivesse ali o bombeiro teria cuspido de lado. Levantou-se sem dizer nada e foi se dirigindo para a porta de casa. Parecia muito concentrado calculando o custo do material, deduzindo os IOFs, o IRPJ, o IRPF, o Simples, o Complexo, o ICMS, o imposto sobre os combustíveis, a taxa extra da luz, a TJLP e o monte de juros do cheque especial.

_E aí, Seu Tomaz? - eu disse, visualizando cifrões voando da minha conta bancária.

_Vou ter que falar com o Geraldo - ele disse.

_E quem é o Geraldo? - eu disse.

_O Geraldo está lá fora - ele disse. Putz, lembrei de Arquivo X, na hora.

Acompanhei o Seu Tomaz até o carro. Os dois confabularam em voz baixinha, não deu pra ouvir patavina. De repente olharam os dois para mim, com risinhos no canto da boca. Acho que foi na parte do silicone. Então o Seu Tomaz tomou o lugar no carro e Geraldo veio até a porta.

_E aí, Seu Geraldo?

_Vou ter que entrar pra ver - disse o outro bombeiro hidráulico.

Apertamos as mãos depois que as esfregamos na camisa. A cena foi bem parecida. Descrevi o problema, Geraldo fez hum-hum, entrou no lavabo, olhou o rabicho, balançou a cabeça, fez tsc-tsc-tsc e perguntou quem tinha feito aquilo.

_Foi um bombeiro amador daqui perto - eu disse.

_E você pagou por isso? - disse o Seu Geraldo.

Eu não disse nada. Decidi que era hora de recuperar a ofensiva.

_E aí, e o serviço? Qual é o orçamento?

_Preciso ver com o Tomaz.

Até o Rafa estava achando aquela história comprida demais. O cachorro de estimação da minha filha não nos seguiu pelas escadas, desta vez. Ficou deitado como um tapete ao lado da porta do lavabo.

Lá fora, Tomaz e Geraldo cochicharam e riram mais um pouco da minha tentativa de remendo. Balançaram a cabeça em sintonia e concordância. Tomaz se aproximou, solenemente.

_Fica em trezentos.

_Como?

_Trezentos. Mas isso é só a mão-de-obra, sem o material e sem o serviço de alvenaria. Só mexemos com a parte hidráulica - disse Tomaz.

_Trezentos - eu disse, me lembrando do filme, os espartanos rachando os persas na porrada.

_Podemos indicar um excelente pedreiro - disse Geraldo.

_Muito obrigado, então - eu disse, fechando o portão.

_Podemos agendar pra quando? - disse Tomaz.

_Eu ligo pra vocês - eu disse. Mas tenho certeza de que não vou ligar.








quarta-feira, 4 de junho de 2014

Copa do Mundo

Existem os caras que sabem todas as escalações das seleções brasileiras. Titulares e reservas. Alguns sabem os placares das partidas. O nome do roupeiro e do massagista. Sabem o nome das namoradas dos craques de cada período. Sabem o que fizeram antes dos jogos. E também comentam as escapadelas noturnas das concentrações. Lembram o que os técnicos diziam para os poderosos de então, contam as brigas que aconteceram, as mandingas e espertezas dos nossos melhores jogadores.

Esses caras têm na memória, com a riqueza dos detalhes ditados pela mais profunda paixão, todos os lances decisivos, os chutes na trave, as defesas magníficas que implicaram em trágicas derrotas ou em estupendas vitórias. Essas pessoas sabem o saldo de gols, o número de faltas, as substituições, a ordem em que os pênaltis foram cobrados. Também têm na ponta-da-língua a lista dos lances que deveriam ter sido anulados, os erros crassos cometidos por árbitros e bandeirinhas, as traições amaldiçoadas das seleções que venderam os resultados, que entregaram os pontos, e que foram brutalmente agredidas por seus patrícios.

Muitos e muitos têm conhecimento enciclopédico sobre os países que participam do mundial. Os caras sabem os hinos, reconhecem as bandeiras, os uniformes, as comidas típicas, os trajes, e os craques das seleções adversárias. Sabem escalar as equipes. Recitam com rapidez os nomes dos times de cada atleta, exibem um vasto conhecimento geopolítico e futebolístico.

Para muitos dos meus amigos, o futebol é a nossa mais extraordinária peça de resistência cultural. É por meio dele que conseguimos preservar o nosso sentimento de identidade. É a alegria nacional. Nada nos irmana com tanto fervor quanto o delírio de assistir a uma partida de futebol da seleção brasileira, de ver um gol impossível, feito por um herói que driblou não somente os adversários em campo, mas a miséria, a ignorância, a opressão e os danados dos gringos.

Talvez seja verdade.

Mas comigo talvez não funcione mais. Meu conhecimento de futebol da seleção anda meio esmorecido, eu sei, confesso que não sei escalar a equipe sem a ajuda do google. Minha ignorância é tanta que nem consigo entrar naquela conversa sobre a convocação do Henrique. Quem diabos é Henrique? E por quê aquele outro, sei-lá-quem, não foi convocado? Onde jogam? O Ramirez é titular? Não sei. Sei que o técnico é o Filipão, que eu acho chato e mandão por gostar de bancar o paizão e de ficar na beirada do gramado, berrando. Sinto vergonha alheia de ver o cara berrando, fazer o quê? Tem gente que gosta, acha que aquilo estimula, sei lá. Eu acho um porre. Além disso, em pleno século XXI, poderiam usar alguma coisa mais tecnológica para mandar os recados, uma placa eletrônica, uma palmilha com mensagens em braile para os artelhos, uma caneleira inteligente.

Mesmo assim, seja como for, eu sinceramente espero ainda não estar imune e que a febre coletiva também me contagie. Se isso acontecer, com certeza saberei dizer o nome dos atletas sem recorrer à Internet.

segunda-feira, 19 de maio de 2014

O terreno pantanoso dos nefelibatas

É uma coisa meio cíclica. Tenho me sentido sem-graça pra caramba e, ao mesmo tempo, tenho achado tudo um bocado chato. O mundo não mudou de repente, então cheguei à conclusão de que o problema é comigo e por isso resolvi algumas coisas. A principal é ficar o máximo de tempo possível distante de uma tela de vídeo.

Aproveitei a estiagem de vídeo e chuva para remodelar a oficina de carpintaria, reorganizando absolutamente tudo. Agora estou usando o quarto de hóspedes como serraria, o que exigiu a reconstrução de mesas para a serra de esquadria e a nova serra de bancada de 10 polegadas. A antiga oficina agora é área de montagem, ainda um pouco atravancada por três enormes pranchas de eucalipto, que ganhei de um grande amigo, que pretendo transformar numa mesa rústica. Ainda não tenho ideia de como fazer para unir as três pranchas. Talvez tenha que usar pinos ou fazer uns chanfros mais elaborados. Vou ter que pesquisar.

Antes de liberar espaço no quarto de hóspedes, tive que preparar o sótão para receber a imensa quantidade de tranqueira que já havíamos acumulado nos armários. As soluções foram simples, mas tomaram bastante tempo.

Os projetos também são fáceis e pequenos. O princípio básico é começar e terminar no mesmo dia. Parece banal, mas a rotina diária, o mero transporte das crianças, uma pane no meu velho telefone peba e uma série de consultas médicas andaram complicando as coisas. Para aumentar os tropeços, tive algumas despesas extras com a recuperação de aparelhos avariados em função do último apagão. Nada sufocante, mas atrapalhou a contenção de despesas.

A frase título vem de uma brincadeira que eu costumava fazer com Humberto, meu amigo canalha. Trabalhamos juntos durante anos na mesma emissora. Para passar o tempo, todos os dias inventávamos uma frase para ser encaixada durante o resto do período de trabalho, nas pausas para o cigarro e o café. A brincadeira terminou com a frase sugerida pelo Humberto: o terreno pantanoso dos nefelibatas. Nunca consegui encaixar isso em conversa alguma.

domingo, 4 de maio de 2014

Ô de casa

Rafa é o cãozinho shi-tzu que minha filha ganhou de aniversário de 5 anos. Ele agora está com quatro anos. Ele passa o dia inteiro ao meu lado, se eu deixar. E geralmente eu deixo. Gosto da companhia do Rafa. Ele é silencioso na maior parte do tempo. E quando ele está cheio de ficar ao meu lado, ele simplesmente se levanta e vai se deitar em outro lugar.

Nesses quatro anos de convivência aprendi algumas coisas sobre o Rafa. Sou um péssimo observador de cachorros e não posso dizer que aprendi muito. O essencial é que o Rafa não gosta de nada que altere a rotina. Ele gosta de receber um biscoito e de encontrar a tijela de ração cheia pela manhã, além de água pura. Ele late insuportavelmente se não receber o biscoito. E também torra a paciência se a tijela não for lavada com capricho antes de receber a porção de ração. É preciso abrir a porta para que ele vá para o quintal antes das sete. Atrasos não são tolerados, o Rafa não espera para fazer o número um e o número dois.

No almoço o Rafa fica na dele. Ele está com saudades das crianças e por volta de uma da tarde ele estará de prontidão no topo da escada, de preferência com um brinquedo na boca, aguardando a chegada da minha filha e, depois, do meu filho. É preciso brincar um pouco com ele antes de almoçar. As crianças sabem que o Rafa adora meias e por isso unem o útil ao agradável. Elas chegam da escola e atiram os calçados em qualquer lugar, com as meias dentro. O cachorro só amplia a bagunça. No início dessa mania de meias, as crianças ficaram com uma coleção de pares sem par. Para acabar com o problema decidimos comprar apenas meias brancas. As meias continuam sumindo, mas ninguém repara nos pares improvisados.

À tarde, o cachorro faz praticamente o que fez durante a manhã. Deita-se ao meu lado ou tira um cochilo em algum canto da casa. Como o interfone está quebrado, ele agora não late quando alguma visita bate palmas lá fora. É bem bucólico esse negócio de ficar sem campainha e interfone. É bem legal escutar palmas e a pessoa dizer "ô de casa". O Rafa também gosta porque não se irrita com o barulho. Ele também possui os ouvidos melhores que os meus, e sempre me chama a atenção quando eu não escuto as pessoas chamando lá fora.

Falando em ouvidos, uma das coisas que eu observo no Rafa é a "hora da coçada na orelha". Isso acontece umas duas ou três vezes por dia. Por algum motivo que desconheço e tenho preguiça de procurar saber, o Rafa às vezes é acometido de uma coceira violenta nos ouvidos que o leva a esfregar a cabeça freneticamente no chão. Às vezes, eu ajudo. Mas o Rafa é autossuficiente, ele gosta mesmo é de atravessar a sala com uma das orelhas colada ao chão. Ele faz isso até o ataque de coceira passar ou ficar cansado, o que vier primeiro.

À noite o ritual da alimentação se repete. Biscoito, água e tijela limpa com ração. O Rafa acredita que um dos lados do sofá é propriedade exclusiva dele. Ele não é exigente quanto à programação da TV, desde que o seu lugar no sofá esteja garantido.

É muito raro o Rafa reclamar de alguma coisa. Em geral, ele reclama apenas quando alguém o deixa o portãozinho da escada fechada, impedindo que ele fique fingindo ser um tapete perto de um de nós. Quando isso acontece, ele faz um choramingo parecido com o rangido que a geladeira daqui de casa faz. Esse barulho infernal é muito semelhante a um gemido prolongado e pode ser até um pouco assustador. Às vezes também tenho a impressão de que o Rafa e a geladeira estão conversando. A máquina transmite vibrações gélidas que fazem o cachorro se lamentar em voz alta, sei lá. Outras vezes, quando é bem tarde e todos já estão dormindo, tenho a impressão de ouvir o Rafa e vou até a cozinha, preocupado. Mas é só o barulho da geladeira.

quinta-feira, 1 de maio de 2014

Fragmentação e potpourri

Esse meu amigo me conta que inventou um jeito novo de ver filmes.

_É a fragmento-sessão, que eu simplifiquei para fragmentação. Numa sessão de cinema convencional você fica sentado uma hora e meia, ou mais, e acompanha uma narrativa com início, meio e fim. A fragmentação é diferente. Você fica pulando de cena para cena, na ordem que você escolher, durante o tempo que você quiser. Mas é bem mais interessante quando as cenas escolhidas não duram mais que dois ou três minutos - disse meu amigo.

_Parece um pouco confuso - eu disse.

_É confuso mesmo. Mas é assim que estou revendo os filmes que eu mais gosto. Vou para o YouTube, digito o nome de um filme que eu me amarro e fico pescando as melhores cenas selecionadas por milhares de pessoas em todo mundo.

_Não sente vontade de ver o filme inteiro? - eu disse.

_Sinto, é claro. Mas passa logo. O que eu gosto mesmo é de curtir as cenas na ordem que eu mesmo escolho, ditada pela memória afetiva do filme.

_Não entendi.

_Vamos supor que eu queira ver cenas de ... sei lá, diz aí um filme que você gosta.

_Cães de aluguel, do Tarantino.

_Esse eu não lembro direito. Fala um outro.

_Brazil, o filme.

_Boa. Mas também não lembro xongas desse aí.

_É melhor você mesmo escolher o filme.

_Branca-de-neve e os 7 anões. Conhece?

_Você tem uma memória afetiva com Branca-de-neve?

_Quem não tem? E ao invés de começar com aquela história de espelho meu, caçador, fuga, anões e etc, eu já vou logo para a melhor parte.

_A transformação de rainha má em bruxa?

_Isso. E depois o banho no Zangado.

_Não lembrava dessa cena.

_Lembra do Dunga engolindo um sabão?

_Claro. Lembro até do outro Dunga, o da seleção, que vivia querendo passar sabão.

_Pois então, o sabão é para lavar o Zangado.

_Entendi. Achei bacana essa fragmentação, mas prefiro ver ou rever os filmes inteiros - eu disse.

_Eu já não tenho paciência. Vou aos pedaços.

_Mas só os que você acha bons, não é? Não sei, há gosto pra tudo. Tem gente que gosta de potpourri. Eu não gosto, apesar de gostar da palavra. Sabia que é uma palavra que vem das guerras napoleônicas? Significa "vaso podre". Os espanhóis misturavam pétalas de flores, rosas, hortelã, menta, canela e cascas de limão e laranja numa vasilha e deixavam fermentar, ou transformavam em sachês.

_Taxi Driver. Já viu Taxi Driver? - disse meu amigo. Mas eu preferi mudar de assunto.

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Os preços malucos daqui

O último apagão levou o interfone e o Apple TV. O primeiro ganhei de presente, tinha câmera de vídeo em preto e branco e funcionou muito bem durante uns 3 anos. O Apple TV também foi presente de Natal, acho que ainda está na garantia. Seja como for, já desisti do interfone. O conserto custa mais de dois terços de um aparelho novo, com tela colorida. O interfone que pifou era preto e branco, já não fabricam mais. O valor do aparelho que o técnico tenta me empurrar é equivalente ao preço de uma TV de alta definição de 32 polegadas, ou o mesmo que duas onças mais um salário mínimo.

Estamos de volta aos tempos dos preços malucos para produtos e serviços. As pessoas simplesmente falam o primeiro valor que lhes dá na telha. Se colar, colou. Outros tipos te examinam de alto a baixo e quase dá para perceber os estalidos da máquina registradora dos caras, os olhos brilhando de vontade de te depenar. É cansativo.

quarta-feira, 23 de abril de 2014

A idade do Careca

Muitas pessoas acreditam que depois de um certo tempo, não importa quantos anos você faça, a sua idade interior é a que conta. Alguns felizardos com esse raciocínio se gabam de ter uma idade próxima dos trinta anos, ou seja, nem muito jovem e inexperiente e nem velho e cansado de dar com a cara na parede. Eu costumava pensar da mesma maneira. Eu achava que tinha estacionado por volta dos 33, 34 anos, era essa a idade da minha auto-imagem. Eu acreditava. Que burrice.

Antes dos 35, eu acreditava que uma série de conquistas ainda estavam alinhadas à minha frente, eu só precisaria esticar o braço com um pouco mais de vontade para alcançar tudo e agarrar o que achasse melhor. Não que eu ainda não tivesse experimentado fracassos e desacertos. Não, senhor. Não, senhora. Eu já tinha sido feito de bobo, traído, chutado, enganado e menosprezado várias e várias vezes antes de chegar a essa tenra idade. Também tinha conseguido uns sucessos bestas, uma consolação ali, outra acolá. Mesmo assim eu me achava. Mesmo assim eu fazia a conta nos dedos e acreditava que os bônus sobrepujavam os ônus, os reveses e as porradas. O mundo estava logo após a soleira, eu só precisava apertar o passo para entrar na classe executiva, acelerar um pouco e colar na primeira classe, pertinho da porta da cabine do piloto e de olho no decote da aeromoça.

Então, outro dia eu fiquei examinando umas fotos antigas que colocaram no Facebook, do tempo da faculdade. Ali estava eu, com cara de menino, uns óculos redondos de imitação de aro de tartaruga. Tenho eles até hoje, não jogo fora nem garrafa de Gatorade. Tentei entrar na minha cabeça de antigamente e consegui, sem muito esforço. Eu era um lunático sonhador. Um maluco sortudo que conseguiu sobreviver a excessos com cigarros e birita, um pouco covarde, arrogante e muito, muito limitado. Naqueles dias, eu acreditava que minhas chances eram reduzidas no mundo competitivo e cada vez mais agressivo que eu avistava. Eu teria que andar com o bumbum encostado na parede e pensar muito antes de cada passo no campo minado. Com um pouco de sorte eu poderia conquistar algumas coisas, mas elas seriam bem efêmeras. Seria bom manter a cabeça e o tom de voz mais baixo e aproveitar todas as oportunidades que surgissem, porque seriam as únicas. Tudo o que eu deixasse passar, babau, nunca mais veria. Espere aí, eu disse. Esse sou eu até hoje!

quarta-feira, 16 de abril de 2014

Inglória

A minha existência é uma luta inglória para conseguir salvar a minha identidade de forças esmagadoras. É sério? Não, claro que não. Mas achei essa frase do balacobaco na orelha do livro "No Sufoco", de Chuck Palahniuk. Que nunca li, por sinal. Estou arrumando a estante dos livros não lidos no escritório. Isso nunca é fácil porque interrompo a arrumação o tempo inteiro para folhear livros que não li, livros que já li e gostei, livros que li e não gostei mas que agora começam a se mostrar interessantes, livros que li pela metade e que releio algumas partes, livros que definitivamente não voltarei a ler, livros que amo intensamente e que sempre me capturam e livros que esqueci que eu tinha. Esse do Chuck cai no último caso.

Não me lembrava de tê-lo comprado. Deve ter sido na esteira do entusiasmo da leitura do genial "Clube da Luta". A capa mostra um desenho anatômico dos músculos do corpo humano. A orelha do livro não é muito inspiradora, mas essa frase salta aos olhos. Já fui um sujeito muito mais pretensioso do que sou hoje, mas nem naqueles hiperbólicos dias conseguiria bolar uma frase tão gloriosamente empolada de empáfia. É preciso um mínimo de talento e autoconsciência para se cometer o pecado da soberba. Não existe arrogância sem que haja também um excesso de benevolência na auto-avaliação, um erro crasso de julgamento, uma indulgência permissiva com as nossas enormes limitações. Por outro lado, nem sempre a humildade é sinal de um rigoroso exercício de caráter e moral, de um disciplinado e inteligente trabalho do cérebro e do reconhecimento de que é sempre possível aprender alguma coisa. Não. Às vezes a humildade é só uma expressão resignada de nossa incapacidade de ação.

Folheando o livro descubro que algumas páginas estão coladas. Isso me chateia profundamente. Verifico novamente e percebo que não é o velho problema das páginas que não foram recortadas direito. Foi algo mais sério. O livro foi molhado em algum momento de sua história e pelo menos quatro páginas ficaram irremediavelmente coladas. Agora, portanto, acabo de descobrir que sou o proprietário há vários anos de um livro que não li e que, se algum dia tiver a intenção de lê-lo será melhor garantir que as páginas 245, 246, 247 e 248 estejam descoladas.

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Mudança significativa

Eu me entedio rapidamente. Para algumas coisas, não preciso mais do que dois ou três minutos para fugir acelerado. Faço tudo para não sucumbir ao mais tenebroso tédio. Declarações oficiais de autoridades públicas me entediam profundamente. Esse fenômeno se intensificou nos últimos dez anos. Em alguns casos, o fulano poderoso já me enche de tédio ao abrir a boca, nem é preciso dizer alguma coisa.

_Defenderei... - diz a pessoa e já estou bocejando.

_Nunca antes...- e estou dobrando a esquina, procurando um lugar onde possa beber café, guaraná e fanta, qualquer coisa para não escutar uma lenga-lenga soporífera.

Um bom amigo me disse recentemente que parou de assistir telejornal há muitos anos.

_Assisti regularmente durante uns vinte anos. Nada mudou de forma significativa. E depois eu perdi a esperança de toda e qualquer esperança de mudança significativa - ele disse.

Eu não concordo com esse ponto de vista , mas respeito. A vida é curta. O caminho que escolhemos para gastar nosso tempo define a nossa filosofia e modela o nosso estado de espírito. Algumas pessoas não querem continuar a investir tempo em programas destinados a documentar o nosso fracasso social, político e econômico. Outros não querem dedicar preciosos minutos ouvindo uma arenga de amenidades e mentiras sobre o nosso infindável progresso rumo ao primeiro mundo, enquanto amarga o pesadelo de um engarrafamento monstro. Eu entendo. E também achei a frase ótima, deveria estar nos aeroportos e nas placas de fronteira, como se fosse uma paródia de Dante Alighieri: vós que aqui entrais, abandonai qualquer esperança de mudança significativa.

Não que eu assista telejornal. Parei de fazer isso há muito tempo, mas não sou um radical puritano anti-telejornal. Se por acaso estou na frente da TV na hora de um telejornal, o que raramente acontece, assisto numa boa. Depois fico com raiva, porque o telejornal parece novela ruim, já vimos tudo isso acontecer antes. Sem tanta intensidade, é verdade, mas não há esperança de mudança significativa à vista. Não, senhor.

Por isso é que eu tenho fé no poder do esquecimento.



quarta-feira, 9 de abril de 2014

A semana inteira

A Democracia apanhou a semana inteira. Leva surra todos os dias. Pobre Democracia. Onde está a classe média? Onde estão os defensores das minorias? Onde estão as feministas? Onde estão os gays? Onde estão os amigos dos índios? Onde estão os defensores dos direitos humanos? Onde estão os caras que sabem de cor a lei de proteção dos animais? Chamem os bombeiros, ajudem!

Eu queria ver todos eles agora, ao lado da pobrezinha da Democracia, coitada, que apanha todos os dias sem que ninguém a proteja. Bom , tem uns caras que tentam, mas a maioria esmagadora não deixa eles nem chegarem perto da Democracia. De joelhos, ela implora aos homens de bem para que as leis sejam respeitadas, para que não seja oprimida. Mas até mesmo os caras de toga estão virando as suas costas, dizem que alguns querem se vingar de maus-tratos passados, derrotas acadêmicas, recalques reprimidos. Outros são caras-de-pau, mal conseguem esconder o apreço que possuem pela Tirania. Não se cansam da bajulação, dos rapapés e salamaleques para os poderosos e injustos. Eles têm os olhos insanos, esses caras. Fingem não perceber que estão a permitir que a Democracia seja ferida de morte todos os dias, a semana inteira.

E hoje eu vi, nem consigo escrever direito com tanta coisa acontecendo, que mais uma semana dessas e a Democracia não aguenta, vai falecer.

segunda-feira, 7 de abril de 2014

Bernini e Ceschiatti

Gosto muito de esculturas. Minha fascinação por estátuas começou ainda menino, olhando para os anjos de Ceschiatti pendurados em cabos de aço, fazendo rapel sem as mãos, direto do teto da Catedral de Brasília sobre a minha cabeça. São lindos e impressionantes, assim como os profetas do lado de fora. Ah, os profetas. Todo mundo que passou um pedaço da infância em Brasília tem uma foto ao pé de algum profeta, pendurado num dedo gigantesco, sentado sobre pés de bronze verde escuro. E todo mundo tem ainda uma foto em frente à cópia da Pietá, de Michelangelo, em exposição permanente também na Catedral. Todas as vezes que vou lá acabo com torcicolo, de tanto esticar o pescoço para ver os anjos, de tanto forçar a vista para engolir os detalhes da Pietá com os olhos. Também eu insisto com as crianças para que façam poses perto dos profetas e lá vão eles se encostar numa das estátuas gigantes. Desde pequeno, portanto, escultores para mim eram dois: Michelangelo e Ceschiatti.

Isso só durou até o dia em que vi uma fotografia do Davi, de Bernini. O magnífico Davi de Michelangelo é uma estátua perfeita do herói em repouso. O Davi de Bernini é o herói no exato momento em que morde o lábio e ajeita a pedra na funda, com o corpo a ponto de romper a tensão que o fará acertar a testa do gigante Golias. Michelangelo é um mestre, um colosso. Mas Bernini fez o mármore se metamorfosear em árvore, folha, pena, escama, carne, água, pele e no êxtase de Santa Teresa. Bernini foi até onde ninguém mais será capaz de ir. Ele extrapolou todos os limites e alcançou a total maestria.

Agora estou procurando uma boa biografia ilustrada de Bernini e não encontro boas referências de nenhuma. O escultor e arquiteto responsável pela praça da basílica de São Pedro, com suas colunas e estátuas, não tem uma biografia consolidada, pairam muitas dúvidas sobre diversos aspectos de sua vida. De qualquer maneira, não existe questionamento sobre a sua arte. Era um escultor genial, que trabalhava em ritmo frenético, com uma produtividade fenomenal.

Também não encontrei uma boa biografia sobre Ceschiatti. Depois de uma busca na internet eu li uma história da Vera Brant que falava um pouco sobre Ceschiatti, o gênio que os pais inicialmente pensaram que fosse retardado.


sexta-feira, 4 de abril de 2014

Pássaros - republicação

(Texto publicado neste blog em novembro de 2007)

Eu nunca gostei de caçar. Nada. Nem passarinho. Mas uma vez saí com meu irmão e dois primos para caçar passarinho. Fomos para a periferia da cidade onde nascemos, em Goiás. Ainda existiam alguns pedaços de mato. E ainda existiam pequenas fazendas em volta da cidade. Andamos um bocado e escolhemos alvos diversos no caminho. Calangos, romãs, goiabas, latas, garrafas, mamão, uma porção de coisas. Só sei que gastamos um chumbo danado. Quase no final, só havia um chumbinho para cada um.

Aí nós chegamos numa fazendinha muito legal, com uma bela cerca de arame coberta de maracujás. Além da cerca, havia um enorme quintal coberto de palha de arroz. No centro, uma única árvore, uma mangueira. Nessa árvore, milhares de pássaros se amontoavam.
Ficamos bem quietos e vimos algumas dezenas deles mergulhar na palha de arroz. Um pequeno movimento e flop! Os pássaros voltavam para a árvore. E depois de um breve silêncio, a algazarra que os bichos faziam poderia ser ouvida a um quilômetro de distância. Aliás, foi por isso que encontramos a fazendinha.

Aí meu irmão, que era o mais velho, disse que não ia atirar. Disse que atirar em tantos bichos de uma vez era covardia. Disse que era melhor deixar os passarinhos vivos e contentes. Disse que o covarde que atirasse não tinha chance de errar. Disse que o covarde que atirasse podia esquecer que era amigo dele. E disse para irmos embora.

Mas os primos queriam pelo menos atirar. Eu também. Ivo foi o primeiro, mirando sem capricho em um pássaro no chão, quase ao pé da mangueira. Um alvo fácil. Facílimo.Pum. Passou perto, mas só o que fez foi provocar uma ligeira debandada de pássaros. Ivo era o melhor atirador do grupo. Era óbvio que havia errado de propósito.

Continuávamos escondidos e quietos. Logo os bichos voltaram. Foi a vez do Carlaile. Acho que também mirou com preguiça, num passarinho no chão. Alvo próximo e fácil. Errou. Carlaile, quando queria, atirava melhor do que meu irmão, que era o segundo melhor atirador do grupo. Nova debandada. Nova espera em silêncio. E era a minha vez.

Olhei para o meu irmão. Ele voltou a dizer que atirar naqueles bichos era covardia. E também voltou a dizer que o covarde que atirasse naqueles passarinhos podia esquecer que era amigo dele. Olhei para os primos. E sem dizer nada, apontei com cuidado para o centro da mangueira. A mira daquela espingarda de chumbo era meio torta, você tinha que dar um pequeno desconto para a direita. O gatilho era leve. Bastava um puxão do indicador. Mirei e mirei. Podia sentir os olhos do meu irmão queimando a minha nuca. No final, fechei os olhos e atirei. Pum!

Abri os olhos e vi um pássaro cair da árvore. Centenas deles voaram imediatamente para outro lugar. No silêncio que se seguiu, só o que eu conseguia escutar era o bater de asas do pássaro que eu havia acertado. O bicho se debatia sobre a palha de arroz. O barulho era o mesmo de uma borboleta batendo as asas perto do seu ouvido.

_Mas por quê você fez isso? – gritou o meu irmão.

E a verdade é que eu não sabia. Ainda não.

_Agora vai lá e pega o passarinho – ordenou.

Eu obedeci. Quando peguei o pardal, sua cabeça pendia mole, já não havia movimento nenhum.

Meu irmão ficou o resto da semana sem falar comigo. Nunca mais caçamos nada.

Mas até hoje, quando olho para o meu irmão, percebo em seu olhar uma tristeza, um senão, como se eu tivesse acabado de matar um passarinho.

quinta-feira, 3 de abril de 2014

O nebulímico estupor bajulatório

De acordo com um velho ditado, reunião de mais de três é comício. Isso é uma grande verdade. Só que agora não existe reunião de mais de três sem que haja pelo menos um ativista. Falta um tempão para a eleição, mas está difícil até conversar potoca na frente da escola sem que apareça um ou mais militantes prontos para ensaiar uma argumentação pró-governista, uma esculhambação da imprensa, ou uma ironia com a nossa combalida oposição, que de tão pequena e frágil, a gente, com dó, chama de oposicinha.

Desta vez eu estava numa boa ouvindo outros pais a reclamar da infra-estrutura, do transporte público, da falta de segurança, dos hospitais, da inflação, da roubalheira e da corrupção, que está demais - ninguém merece, quando chegou a pessoa ativista. Reconhecer uma pessoa dessas é mole. Ela entra no meio da conversa já pautada, com os argumentos recém-adquiridos na ponta da língua, em geral já devidamente redigidos por uma das milhares de penas de aluguel do babaovismo que impera nesta e em outras cidades. Em Brasília, o nível do puxa-saquismo é bem mais elevado do que em outras cidades, o que atrapalha um pouco as percepções. Aqui as tendências são mais complicadas e, como em qualquer corte e centro de poder, o alto teor de cinismo dos interlocutores prejudica uma interlocução franca. No popular, aqui todo mundo está acostumado a encostar o bumbum na parede e tirar da reta. Numa cidade administrativa, onde a maior parte das pessoas trabalha para o governo federal ou para o governo local, dizer amém para as autoridades é muitas vezes condição de sobrevivência. Seja como for, a ativista militante chegou para arrebentar.

_Vocês viram aquela avaliação sobre o aprendizado de matemática? - disse a militante. E passou a defender com unhas e dentes as nossas crianças. De acordo com ela, nossos querubins foram extremamente mal avaliadas no último match internacional de raciocínio lógico e matemático.

_As perguntas falam de MP3, de bilhete de metrô, de ticket de trens, de horários de ônibus. Ora, as nossas crianças não vivem essa realidade, não sabem lidar com isso. Foi por isso que não souberam responder as perguntas.

Eu e os outros pais não-alinhados apenas nos olhamos. O não-alinhamento, como todo mundo sabe, consiste em não ficar ao lado do que é repulsivo e ofensivo ao bom-senso e aos bons costumes nos dias de hoje. Há também quem seja mais tolerante e flexível, aceitando como não-alinhado todo aquele que não concorde em ficar de quatro e babar a cada bobagem dita pela infinidade de bacanas que ocupam posições de poder espalhadas na gigantesca máquina inoperante e sanguessuga da nossa burocracia. Mas eu não sou desses. O não-alinhado é qualquer pessoa que desconfie que está sendo enganado ou que pode vir a ser enganado pelos bacanas poderosos e também pelos coitados presumidos, que são tão enganadores quanto os poderosos. Ou seja, o nível de paranóia entre os não-alinhados é bem elevado, mas é bem melhor do que o nebulímico estupor bajulatório em que se encontra uma porção de gente.

Nós nos olhamos e deixamos o ativista militante falar. Eles são incansáveis e irredutíveis quando encontram alguma resistência, mas se calam rapidinho quando ninguém abre o bico. Provavelmente iríamos ficar em silêncio mais tempo, mas felizmente o ônibus chegou com as crianças e toda aquela coisa sem sentido foi esquecida rapidamente.

terça-feira, 1 de abril de 2014

Não existe fada dos dentes

Estávamos conversando como sempre fazemos durante o jantar. Todo mundo falando ao mesmo tempo e com pressa para contar a história primeiro. De alguma maneira, alguém sempre consegue prevalecer e em geral todos protagonizam uma fala pelo menos uma vez, mas é sempre uma algazarra. Já tentei impor alguma ordem na balbúrdia, mas isso foi interpretado como abuso da autoridade paterna, então não me meto a besta de querer ordenar a coisa. Trato de esperar um pouco para encaixar a minha voz numa das pausas para respiração de alguém e também eu contar a minha história. O que eu sei é que já haviam sido repassados pelo menos três assuntos, sendo o principal deles a queixa do meu filho quanto à acusação infundada, feita por mim, de que estaria trancado no banheiro fingindo tomar banho enquanto jogava video-game com o Ipad.

_Não é verdade! - ele disse. Eu estava fazendo o número dois e aproveitei o tempo livre para jogar um pouquinho.

_Por quê você sempre arruma um jeito de falar de número dois na hora da refeição? - disse a minha mulher.

_E por quê o chuveiro estava ligado? - eu disse.

_Eu tinha acabado de terminar de jogar e ligado o chuveiro - ele disse.

_Não colou - eu disse.

_É preciso acreditar no que ele está dizendo - disse a minha mulher.

_É, paiê, é preciso acreditar - disse a minha filha.

_Viu? - disse o meu filho.

_Por quê eu estou sempre em minoria total e absoluta? - eu disse, mas ninguém ouviu.

Eles agora falavam sobre o que tinha acontecido na escola e fora de casa. E meu filho contava que outro dente-de-leite tinha finalmente caído. Foi o pretexto para uma nova balbúrdia com uma disputa de assuntos e temas correlatos, com todo mundo aumentando o tom de voz e querendo falar mais do que o vizinho. Mas bem no meio, de repente, exatamente quando o alarido tinha chegado ao ápice, veio o silêncio.

_O quê? - disse a minha filha.

_Não existe Fada dos Dentes, filha - disse a minha mulher.

_Como assim? - disse a menina.

_Não existe Papai-Noel, não existe Coelhinho da Páscoa e não existe Fada dos Dentes, filha. Você sabe disso. Já conversamos. E você tem nove anos - disse a minha mulher.

Subitamente eu tive certeza absoluta de que se eu tivesse dito a mesma coisa trinta segundos antes eu teria levado pelo menos uns cinco chutes na canela e um beliscão. No mínimo. Mas agora minha mulher olhava para mim como quem busca solidariedade, eu não poderia deixá-la na mão. Mas confesso que curti durante alguns segundos ver aquele ar de "putz, dei mancada" no rosto de outra pessoa. Em geral, as mancadas são todas minhas.

_Fantasma, assombração, mula sem-cabeça, saci, nada disso existe, filha. Papai Noel não existe, mas existe o Espírito de Natal, que é acreditar e ter esperança de que as coisas boas aconteçam. Quando acontecem, as coisas boas são transformadoras e maravilhosas, deixam as ruins no chinelo - eu disse.

Ela parou de choramingar por um instante e depois voltou.

_O Coelhinho também não existe, mas o Espírito da Páscoa está aí, está bem próximo. Eu aprendi que Páscoa significa passagem. A origem da palavra está ligada à história da fuga dos judeus escravizados do Egito, que passaram pelo meio do Mar Vermelho nessa época do ano. Então, para os judeus, a Páscoa significa a passagem para a liberdade, para um tempo de felicidade. Para os cristãos, a Páscoa é a ressurreição de Cristo, é o renascimento da esperança de uma vida melhor...

_E onde entra o chocolate? - disse o meu filho.


_Os judeus faziam chocolate no Egito? - disse a minha filha.


_Não, sua boba, os judeus comiam coelhos, eu vi na TV - disse o meu filho.


_Eles comiam coelhos de chocolate? - disse a menina.

Em alguns segundos eu levaria mais um chute na canela.

domingo, 30 de março de 2014

Cinco minutinhos

Deixamos a mesa do café-da-manhã arrumada. É uma estratégia que garante dois ou três minutos que podem fazer a diferença entre chegar na hora ou muito atrasado na escola do meu filho mais velho. Em geral, eu e minha mulher dividimos essa tarefa. Quem arruma a mesa do jantar fica automaticamente livre de arrumar a mesa do café-da-manhã. Mas não há rigidez. Eu às vezes arrumo as duas mesas. O importante é que os cinco minutos do período da manhã estejam garantidos.

Os físicos sabem muito bem que no período da manhã o tempo passa mais rápido, a velocidade da luz é atravessada pelo sono, a preguiça deixa a gente em câmera lenta e com os olhos embaçados. Só mesmo uma bela caneca de café quente e cheiroso para fazer com que sangue volte a correr no ritmo do mundo novamente. E sem uma fatia de pão tostado no forninho elétrico, crocante e quente, com manteiga dourada e deliciosamente derretida por cima, não é possível recuperar o dom da fala e abandonar de vez o irresistível planeta da complacência sonífera.

Com meu filho também não é muito diferente. Ele fica em silêncio inquebrantável por longos minutos até a primeira dentada na maçã ou pera. Só depois é que se anima. E é então que aqueles cinco minutos conquistados na noite anterior se mostram tão fundamentais, porque é possível encontrar tempo entre as mastigadas para dizer como será o dia, fazer o check-list do material diário e planejar a logística do leva-e-traz com a minha mulher.

Uma vez só esquecemos de deixar tudo preparado. Não foi bom. Tivemos que fazer tudo corrido pela manhã e nem deu tempo de conversar direito. Mas o principal problema foi o check-list. Sem ele, não é preciso dizer, esquecemos as coisas mais triviais e paradoxalmente fundamentais para o dia-a-dia. Fica evidente que é preciso usar o tempo da melhor maneira possível e aproveitar ao máximo todas as janelas em que estamos juntos para apreciar as boas coisas. Ou só para estarmos juntos.

quinta-feira, 27 de março de 2014

Os efeitos do cinema no cotidiano

Choveu hoje o dia inteiro, o que me deixa um pouco desanimado. Especialmente porque surgiu uma goteira no telhado e essa umidade toda impede qualquer tipo de conserto. A nova goteira apareceu no último sábado, quando choveu a cântaros e a mudos silenciosos. A água se infiltrou em algum lugar na base da chaminé da churrasqueira e desceu para o forro, na copa. Felizmente o gesso do forro trincou e a água não se acumulou, desceu para o balcão da cozinha. A Rose percebeu e eu pude posicionar alguns baldes estratégicos sobre o balcão. Não ficou bonito, mas conteve o problema. Por enquanto, com as telhas Monte Carmelo encharcadas, não há o que fazer. Tenho que esperar um dia de estiagem, com sol a pino para secar bem as telhas e tentar vedar o telhado.

Em dias tão chuvosos assim, até o Rafa fica meio brocochô. Para espantar a pasmaceira, dedico dez minutos extras da manhã ao cachorro. Ele gosta de buscar coisas, então fico atirando o osso de borracha em várias direções. Rafa busca da primeira vez com grande animação. Na segunda vez já é possível ver que a brincadeira não está mais tão empolgante. E na terceira vez Rafa pega o osso de borracha e me esnoba, indo se refugiar debaixo da mesa. Eu só o convenço a sair usando um palito de osso. Ele adora. Depois passo cinco minutos alisando o Rafa. Li em algum lugar que os cães adoram isso e nós, humanos também. A mesma reportagem dizia que coçar o cachorro também contribui para a melhoria da saúde do cachorro e do humano coçador.

O tempo voa quando estamos nos divertindo, todo mundo sabe. Daí a um instante já é hora de pegar as crianças. No trajeto até a escola, tudo molhado e monótono. Escuto as notícias e sou transportado no tempo. Há quanto tempo nossos problemas são os mesmos? Há quanto tempo ouvimos a cantilena dos poderosos que propõem as mesmas soluções, sem nunca cumprir as metas estabelecidas? Agora é pior, sem dúvida nenhuma. Minhas esperanças são mais reticentes e abaladas.

Não importa. Agora estamos eu e meu filho no carro, voltando para o almoço em casa. Ele me conta as aventuras e desventuras do seu cotidiano, as provas que ainda acontecerão, os resultados das que já fez. Quando chegamos, começamos com a nova mania de aplicar efeitos do cinema no cotidiano. O predileto é a câmara lenta.

_Anda, saia logo do carro, menino!

_Pai! É a câmera lenta – diz ele. Ela adora usar o efeito quando eu demonstro estar com pressa de alguma coisa.

E por alguns minutos ele finge andar em câmera lenta até a porta de casa. Eu espero pacientemente que ele se aproxime. Quando ele finalmente chega ao meu lado, eu também entro na brincadeira. Demorei tanto a abrir a porta que o menino não esconde o bocejo.

terça-feira, 25 de março de 2014

O único com furo no meio


A proverbial inventividade de nossos marketeiros é velha conhecida e reconhecida até por Cannes, em numerosos festivais publicitários. Nossos campeões foram lá muitas vezes e saíram carregados de prêmios. Mas nossos historiadores sempre souberam dourar a pílula melhor do que qualquer um. Aqui é o país do maior isso, maior aquilo, tão bem incorporado na cultura de Itu, no interior paulista. Nós sempre fomos muito bons em auto-elogio desconectado da realidade. Nossas projeções e expectativas são auto-referenciais.

Prova disso é que uma das melhores peças publicitárias de que ouvi falar costumava ser atribuída a Luiz Carlos Bresser Pereira, na época em que trabalhava numa das agências do ramo. Rezava a lenda, lida em artigo de jornal, que Bresser recebeu a dura tarefa de fazer um comercial sobre uma pastilha colorida redonda, com formato de bóia de navio. O produto tinha o gosto tão bom quanto o do Drops, a grande pastilha que dominava o mercado da época. O domínio era tão absoluto que a denominação da marca já havia metonimicamente se confundido com o nome, como gilete para lâmina de barbear. Além de um concorrente exemplar, a pastilha-bóia tinha um problema de peso. Quase do mesmo tamanho que o drops, o formato de bóia a deixava mais leve que a concorrente. Bresser teria que convencer as crianças de que comprar menos pastilha era melhor. Mole pra ele. Dizem os brazucófilos historiadores da publicidade que Bresser não demorou nem dez minutos para matar a charada. Tascou logo o slogan: o único com furo.

Lenda, pura lenda. O slogan, se foi mesmo “bolado” por Bresser, era um plágio internacional. O produto era uma imitação das pastilhas bóia salva-vidas “Life Savers”, criadas nos EUA em 1912, inicialmente dirigidas ao combate do bafo-de-onça dos fumantes e bebuns com o slogan “For that stormy breath”. Depois, quando os caras perceberam que eram as crianças que estavam chupando as pastilhas(e fumando escondidas) dos pais, que pagavam caro por elas, inventaram o slogan chupado pelos brazucas: “The only with the hole”. Lenda, ou não, a historieta é ilustrativa das táticas de marketing ainda largamente empregadas no meio empresarial e político. Não só vendemos gato por lebre, como as campanhas se especializaram em vender menos por mais, o defeito como virtude.

Aqui em Brasília, nesta semana fomos assolados por uma gigantesca campanha de um programa de combate ao assédio sexual no transporte público. O governo local desovou um sem-número de peças publicitárias destinada a combater o encoxamento e estupro no transporte público. O problema é relevante, é óbvio que ninguém quer violência, estupros e bolinação desavergonhada e safadeza, com violência ou não, dentro dos ônibus e metrôs ou em qualquer lugar. Mas sem a superlotação e espremeção de gente no aperto de lata de sardinha dos coletivos e a presença dos seguranças, os predadores não agiriam. A super-concentração de pessoas boviniza a galera, desumaniza e deixa todos indiferentes e incapazes ao que se passa no centímetro quadrado apertado ao seu lado. A ausência de policiais, de efetivos repressores do crime, faz o resto. A propaganda oficial, no entanto, dá a entender que agora as mulheres estão protegidas. Será mesmo? De qualquer modo, a superlotação continua e não se tem notícia de nenhum programa para melhorar o transporte público da capital do país. Nem para deixar ruas e estações mais seguras.


Outra campanha que me chamou a atenção foi a de vacinação de meninas contra o HPV. A disparidade de faixas de público-alvo me deixou curioso. No Distrito Federal está sendo estimulada a vacinação de meninas de nove a 13 anos de idade. Em outros estados, a vacinação tem foco na faixa etária de 11 a 13 anos. Por quê começar tão cedo com as crianças daqui? A explicação oficial é de que nos próximos anos, a vacinação será feita na mesma faixa de 9 a 13 anos em todo o país. Não é o que está escrito no material explicativo distribuído nas escolas. O texto afirma que a campanha é dirigida para as crianças de 11 a 13 anos. Na Internet, as pessoas se mostram apreensivas quanto à possibilidade de ocorrência de efeitos colaterais e outros problemas relacionados à vacina. Outras pessoas afirmam que a eficácia da vacina é bem discutível e que a aplicação não elimina a necessidade de buscar acompanhamento médico especializado anualmente para as meninas. Ou seja, na prática, a vacina é uma medida preventiva, profilática, que não imuniza a criança contra o HPV. É diferente, portanto, de uma vacinação que imuniza contra a horrorosa poliomielite, e das tríplices, que nos protegem contra tétano, difteria, coqueluche, sarampo, rubéola e caxumba. Tomamos todas essas e estamos livres dessas coisas, não é mesmo? Pois com a vacina do HPV não é bem assim. Ela está mais para a linha de vacinas anuais contra a gripe, que eu não tomo desde que fiquei muito gripado na seqüência. O problema existe e é sério, milhares de mulheres sofrem com o câncer do colo de útero, que mata e esteriliza. Mas, vacinadas ou não, todas devem ir ao ginecologista pelo menos uma vez ao ano e é isso que faz a diferença. Enquanto isso, as meninas continuam expostas a uma erotização precoce e a uma permissividade excessiva, como furinhos na pastilha de uma pretensa imunização.

Comece a reparar. Talvez você esteja apenas sendo convencido a comprar menos pastilha porque ela tem um furinho no meio.

segunda-feira, 24 de março de 2014

Outra tarde de devaneios

Meia hora praticamente parado num engarrafamento sem motivo. Eu poderia estar lendo um dos maravilhosos artigos de Coetzee sobre literatura e escritores. Como não trouxe o livro, fico tentando me lembrar dos melhores trechos do artigo que li ainda cedo. Aos poucos, retomo o velho hábito de ler logo que acordo, para manter a mente focada logo cedo. Pode parecer meio besta, mas eu preciso ler artigos, se pretendo ler artigos. Preciso ler livros, se estou escrevendo livros. E preciso ler logo cedo para não ficar perdido em devaneios e planos mirabolantes o resto do dia. Com algumas pessoas, funciona com a leitura dos jornais ou com a leitura da imprensa na internet. Comigo, depois de muitas experimentações, descobri que o melhor efeito foco é obtido com um livro.

Nesse artigo que estou tentando lembrar, Coetzee fala sobre Italo Svevo. É um pseudônimo, o nome verdadeiro é Aaron qualquer coisa(dá um google, aí). Ele é natural de Trieste e durante algum tempo morou na Inglaterra como representante de uma empresa especializada num produto do balocobaco. A empresa era dona da patente de um líquido que impedia o crescimento de cracas nos cascos dos navios. E a Inglaterra estava cheia de navios. Italo Svevo se esbaldava. E precisava de um professor de inglês para melhorar as suas correspondências comerciais. Contratou um professor chamado James Joyce. Nunca consegui ler um livro inteiro do irlandês. Ulysses é um volume começado várias vezes, mas jamais concluído. A tradução inventiva para o português(creio que é de um dos irmãos Campos) conseguiu transformar o que já era uma chatice num troço gloriosamente chatíssimo. Já atolei tantas vezes que desisti. Esse não pego mais.

Por outro lado, releio Moby Dick e Os Miseráveis de vez em quando. Mantenho "O Idiota" ao alcance das mãos, um dia pretendo reler. Quando dou por mim, estou no final do engarrafamento, devaneando leituras que desejo fazer.

Em outro artigo, Coetzee fala sobre o truque de Robert Walser para atingir um estado de transe sonambúlico que ele considerava necessário e fundamental para a escrita. Walser inventou uma estenografia caligráfica peculiar que lhe permitia entrar em modo de escrever. Tento me lembrar das palavras exatas, mas não consigo. É o artigo mais trágico do livro até agora. No dia de Natal de 1956, Walser foi encontrado morto de frio nas proximidades de um hospital para doentes mentais na Suíça. Seus olhos estavam abertos. A polícia tirou uma foto do cadáver com os olhos arregalados e depois disso as reimpressões dos livros de Walser passaram a ostentar a foto dos olhos abertos do cadáver. Isso foi feito até 1973 e só parou depois de um artigo de Elias Canetti deplorando o uso da foto do morto na contracapa e nas orelhas de suas publicações.

Quando percebo, estou estacionando o carro e já é hora de fazer todas as outras coisas.

quinta-feira, 20 de março de 2014

O disco que destruí

Contei aqui o dia em que comprei um disco dos Rolling Stones. Aí fiquei pensando que isso bem que daria uma boa série de crônicas, desde que eu não fosse o único a escrevê-las. Acontece que todo mundo tem um disco de que gosta muito e sabe exatamente como foi que ele começou a fazer parte da sua vida. O Cabeça, por exemplo, teria pelo menos umas dez boas histórias sobre as centenas de discos de vinil que mantém em sua casa. Meu amigo Mário Salimon, que também é músico, com certeza teria um monte de textos sensacionais sobre cada um dos vinis que guarda com carinho em sua casa. Rodrigão, um outro amigo que é baixista, poderia falar não somente dos discos, mas da sua preciosa coleção de fitas cassete, que eu pedia emprestado e copiava fazendo malabarismos tecnológicos em casa. Outros amigos, como o Velho Tom, Marcelino e Márcio, que são conhecedores de música clássica e veneram Bach, Mozart, Beethoven e Chopin também poderiam contribuir. Para minha mulher, eu poderia pedir que contasse como ficamos mais de dois anos escutando o CD Universo ao Meu Redor, da Marisa Monte, sem enjoar. Até hoje é um dos preferidos, junto com The Atomic Mr. Basie, o CD que eu usava para embalar o sono das crianças, no balanço da rede da varanda do velho apê. Mas depois desanimei de pedir texto para os amigos, eu sou meio fogo de palha quando se trata de pedir alguma coisa a alguém.

E então pensei em contar a história do único disco que destruí. Eu não sou destruidor. Gosto de escrever e desenhar, assobio muito. Estou mais para um consumidor voraz de músicas e livros com pequenas ânsias de criatividade, do que para destruidor. Mesmo assim destruí um disco. Foi a trilha sonora de Dancin´Days, a velha novela da Globo. Minha irmã tinha ganhado esse disco, que escutamos muito, mas muito mesmo. Eu gostava. Mas de repente eu tinha 13 anos e todo mundo com quem eu andava da escola era rockeiro. Os caras da quadra eram rockeiros. Meu irmão era rockeiro. Minha mãe não se importava com o barulho. E meu pai, como todos os pais, detestava música alta. Nada disso foi capaz de me transformar num destruidor de discos. Mas uma conversa banal foi.

Um dia, o Cabeça me perguntou à queima-roupa se eu gostava de discoteca.

_Eu? Não, claro que não! - eu disse.

_Deixa disso, que eu sei! Você tem a maior cara de quem gosta de discoteca - ele disse.

_Vá abocanhar uma maçaneta gorda! Eu detesto discoteca, meia soquete, Dona Summer, Bee Gees, dançar que nem o John Travolta - eu disse.

_Dançar? Rockeiro não dança, ô Mané! Rockeiro pula! Confessa que tu és o maior "fever night" da paróquia!

_Eu sou heavy metal, xará! Lá em casa não entra discoteca. Se entrar, eu risco o disco inteirinho.

_Lá em casa eu nem me dou a esse trabalho de riscar. Eu jogo pela janela! - disse o Cabeça.

_Eu também. Eu também - eu disse.

_Ah, é? Ah, é? E como o disco faz quando se atira ele pela janela?

Silêncio. Silêncio total de quem é pego na mentira e está completamente sem alternativa para enrolar o outro ser humano. Silêncio absoluto.

_Não sabe? - ele disse.

_É que por enquanto ainda estou na fase de arranhar. Depois vou jogar pela janela.

_E qual disco você está arranhando?

_Dancin´Days.

_Tu estás a arranhar Dancin´Days? E vai jogar pela janela? Não acredito em você, cara. Você é um travolteca "stayn´alive"! Some daqui!

Foi por isso que depois que eu cheguei em casa eu terminei de arranhar o disco. Em seguida, depois de verificar que não havia ninguém na rua, eu peguei o disco e o atirei sem capa pela janela, como se fosse um disco-voador. Para minha surpresa, ao invés de flutuar em linha reta por alguns instantes, o disco mergulhou na vertical e se espatifou no asfalto. Tive sorte de não acertar ninguém e nenhum carro. Devolvi a capa do disco para a estante, onde três dezenas de discos se amontoavam em capas trocadas ou permaneciam envoltos apenas na capa plástica. No dia seguinte, quando contei como o disco fez uma curva rápida e se espatifou sobre a calçada, o Cabeça fez um gesto de não-entendimento, deu uma risada e depois me disse que eu era um dos caras mais malucos que ele conhecia.


quarta-feira, 19 de março de 2014

Republicando - Bicicleta na Vertical II

(Continuação do texto publicado neste blog em março de 2008)
Na entrada da escola, uma dezena de pais, bicicletas, velocípedes, skates e patinetes se aglomeravam no portão. De repente, são engolidos por fagocitose e desaparecem em segundos.

_Pai, eu não vou entrar – ele fala, categórico.

_Pode ir tranqüilo que eu volto daqui a pouco, com sua bicicleta arrumada.

E aí nós nos atiramos noutro bolo de gente e entramos na escola.

Na frente da sala do mais velho, tinha até uma bicicleta imitando a vassoura voadora do Harry Potter. Esse povo alternativo é muito massa. Contei dezesseis bicicletas. As bicicletas da sala da menina estão todas do lado de dentro. São 13 bicicletas azuis e uma cor-de-rosa. Com a dela, são quinze bicicletas. Só duas meninas na sala. Aos três anos de idade e tendo lições diárias de sobrevivência na selva. Somando tudo, dava pelo menos cem bicicletas. Em suma, não havia a menor possibilidade de deixar meu garoto de fora daquela confusão. É, tenho de confessar que essa traição me passou pela cabeça.

Menino e menina entregues. Tratei de voltar pra casa rapidinho. Eu tinha duas tarefas urgentes. Primeiro achar a rodinha que havia sumido. E em segundo lugar, arrumar o parafuso espanado da rodinha. Cheguei em casa e a Rose, a mulher que eu colocaria na Casa Civil, já havia encontrado a rodinha. Então só faltava arrumar o parafuso espanado. Procurei na casa inteira, e não havia nenhum parafuso que servisse. Coloquei daquelas fitas de pvc, que se usa em vazamento de mangueira de gás, em volta do parafuso. Pareceu firme. Reforcei com uma amarração de arame com alicate. Achei que daria para agüentar. Depois descobri que só resistiu por uns cinco minutos de uso, mas alguém da escola consertou com um parafuso de verdade. Ficou bom mesmo. Voei para a escola.

Consegui chegar antes do recreio. No portão, encontro uma mãe, também carregando uma bicicleta.

_Esqueceu da bicicleta também? Hoje foi o dia, né? – ela sorri, solidária.

_É essa correria, né? Lavar, passar, manicure, olhar menino... dá uma canseira na gente!

Ela me olha como se eu tivesse hanseníase e se afasta.

O meu filho assiste a minha chegada pela janela da sala. Um sorriso enorme vira um grito de alegria. E quando ele sai correndo da sala para me abraçar eu morro de medo dele tropeçar. Eu acho que a vida seria muito mais bonita se alguém ligasse uma trilha sonora nesses instantes, se pusesse a música adequada para tocar no momento certo. Mesmo assim, foi muito melhor que abraço de pai e filho em cinema, cena que sempre me emociona até as lágrimas. E depois disso eu voltei para casa.

Mais tarde, quando eu fui pegar os dois, eu perguntei qual tinha sido a melhor coisa daquele dia. Eu sempre pergunto isso.
_Foi “fora”, com as bicicletas – diz a menina. E ela conta como se divertiu com a bicicleta, sua única companheira de sala e os outros meninos. Ela caiu, me mostrou o machucado na mão esquerda. E disse que chorou. Mas também riu e ficou alegre. Acho que ficou mais tempo alegre do que triste. E ficou em ação, em movimento.

E eu estou muito curioso e insisto com o menino.

_E o que foi melhor hoje para você, filho?

_Foi “dentro”. Caiu o dente da Camila e ela me deixou segurar. Era um dentão! – diz o menino.

Eu sei, eu sei. O maravilhoso é sempre alguma coisa que não podemos sequer imaginar.

terça-feira, 18 de março de 2014

Republicando Bicicleta na Vertical I

(Publiquei o texto abaixo neste blog em março de 2008)

Às sextas-feiras na escola alternativa das crianças, do horário do recreio em diante, eles fazem uma coisa chamada “Vertical”. Todas as crianças, de dois a seis anos de idade, de todas as salas, participam da mesma brincadeira. Eles chamam a brincadeira de atividade. Tem culinária. Tem teatro. Tem festa a fantasia. Tem circuito. Tem pique esconde invertido. Pique esconde invertido?
_É, pai. Todo mundo procura, menos um, que fica escondido – o mais velho me explica.
Imaginei a escola inteira contando até vinte para que eu me escondesse. E depois, todo mundo correndo, em todas as direções para me encontrar. Eu, lá em cima da árvore, feito o tio maluco do Fellini em “Amarcord”. Parecia divertido.
_E circuito, como é?
_Tem as flechas no caminho e você vai seguindo. É massa.
_É da hora, pai – a menina concorda.
Anteontem foi dia de levar bicicleta para a vertical. Poderia ter levado um velocípede modernoso, o velotrol, e a bicicleta. Mas eu resolvi levar duas bicicletas. Uma é cor-de-rosa e a outra é de super-herói. De manhã é uma confusão danada até estarmos prontos para sair. Mamar, escovar, limpar, lavar, vestir, comer, beber, fazer xixi, etc. Na hora de sair, descubro que a rodinha da bicicleta do homem-aranha não está onde deveria estar.
_Cadê a outra rodinha? Você viu?
_Não – respondem os dois, ao mesmo tempo.
_E você consegue andar só com uma rodinha, filho?
Ele nega. Mesmo assim, na minha frente experimenta um pouco e quase cai na segunda pedalada.
_Deve estar em algum lugar. Mas agora não dá tempo de procurar. Na volta eu acho. Eu arrumo a bicicleta e levo antes do recreio, antes de começar a vertical.
_Não, sem a bicicleta eu não vou.
_Filho, agora não dá tempo nem de conversar. Vamos nessa!
E a contragosto, ele apanha a mochila e me segue. Faz um beiço enorme. Franze a testa. Cruza os braços. E a irmã provoca um pouco, só para me bajular e deixar claro que com ela está tudo bem.
_Pai, ele está pondo língua.
_É feio por a língua, filho.
_Pai, ela é dedo-duro.
_É feio ser dedo-duro, filha.
_Pai, ele me bateu.
_ Não pode! Bater no mais fraco é covardia. Pede desculpas.
_Desculpas.
E aí vem um minuto de pausa. Sinal de cérebro funcionando e de que vem pergunta. O que será que será?
_Pai, pode bater no que tem força igual?
_Po... ahn, aí depende – eu me embolo todo nas piores horas.
_Não, seu bobo, quem tem força igual nem briga, né pai? – a salvação vem de um juízo de três anos.
_É melhor não brigar. Nem com mais forte, nem com mais fraco. O melhor é conversar – tento retomar o controle.
E conto a história do menino que vivia apanhando do fortão da escola. Até o dia em que ele aprendeu qual era o ponto fraco do menino fortão. E era o dedão do pé. E quando o fortão chegava perto para bater, o menino pisava, com toda a força, no dedão do pé do menino fortão. E depois disso, o menino mais fraco nunca mais apanhou do fortão. Na verdade, depois disso, o menino mais fraco começou a pisar no dedão do outro todos os dias. E aí o pai desse menino mais fraco foi processado, pois o pai do menino com o dedão inchado era advogado. Os dois pais se enfrentaram no tribunal. De um lado, a torcida do pai menino fortão. Todo mundo malhado, musculoso, fazendo “uh, tererê”! E do outro, a torcida do pai do menino fraquinho. Todo mundo calmo, escutando música, lendo livro. Aí o menino fraquinho grita: “Aê rapaziada da geral! Comuéquié?” E os livros voam e os caras do bem levantam com o canto de guerra dos anhangueras: “É pique, é pique, é pic, é pic, é pic, é hora, é hora, é hora, rá, TIM, bum, MAIS fraco, MAIS fraco”. E aí, graças ao merchandising bem feito, o menino mais fraco só teve que pagar uma multa.
Eu sei, as minhas histórias para crianças estão mais para boi dormir. Mas com isso consegui enrolar os meninos até chegar na escola.

domingo, 16 de março de 2014

Ilha

Nenhum homem é uma ilha. Isso é fato conhecido desde antes de Robinson Crusoé ter sido inventado por Daniel Defoe. Mesmo na ficção, o náufrago ficou um bom tempo sozinho numa ilha do Atlântico, mas depois encontrou Sexta-feira, um índio que se torna seu amigo depois de ter sido salvo dos canibais a tiros de bacamarte. Quando li o livro, ainda menino, eu imaginava que Sexta-feira também fosse canibal. Naquele tempo eu acreditava, como todo mundo, que a gratidão vence qualquer costume primitivo. Além disso, havia o bacamarte.

Uma vez vi uma versão de Robinson Crusoe em que o verdadeiro herói é Sexta-Feira. Era um musical. Foi chato pacas, não lembro de quase nada. Depois li em algum lugar que Defoe se baseou numa história verídica de um marinheiro inglês que, depois de liderar um motim, desembarcou de um navio e viveu sozinho numa ilha do Pacífico, em águas do Chile. O marinheiro esperava que outros amotinados o seguissem, mas ninguém topou a empreitada. O sujeito viveu mais de 4 anos em solidão na ilha. Não havia nenhum dia da semana com ele. Só algumas cabras. Um dia foi resgatado e voltou a viver na Inglaterra.

Outra vez vi uma versão da história em que o náufrago era o Tom Hanks. Acho que tiveram problemas com o orçamento e não tinha nenhum índio, só uma bola de basquete. Numa das melhores cenas, Hanks faz um lance de três pontos ao perder a bola para um tubarão. A bola era tão expressiva que concorreu ao Oscar de melhor coadjuvante naquele ano.

Tudo isso é para dizer que, assim como os homens, nenhuma cozinha é uma ilha. Veja o Cabeça, por exemplo. Ele agora tem uma no apartamento dele. É grande, bonita e deixaria Robinson Crusoe de queixo caído. Eu fiquei, embora fosse Sábado. Acho que até mesmo Tom Hanks , o quase náufrago espacial de Apolo 13, o náufrago mental de Forrest Gump, e o corajoso navegador seqüestrado de Capitão Philips gostaria daquela ilha.

quinta-feira, 13 de março de 2014

Disco X Rock - 1978

Um dos primeiros discos que eu comprei foi Some Girls, dos Rolling Stones. Fui de ônibus até a Discodil do Conjunto Nacional, o maior shopping de Brasília no final dos anos setenta. A Discodil era a melhor discoteca do centro da cidade. Lembro que fiquei com medo de que o dinheiro economizado da mesada não desse conta do recado, então fiz o máximo que pude para garantir os possíveis centavos faltantes. Comecei pela passagem de ônibus. Havia uma regra nos ônibus da cidade. A criança que passasse debaixo da roleta não precisava pagar a passagem. Pouco tempo depois esse costume seria abolido e as roletas dos ônibus passariam a ser chamadas de borboletas, por conta da enorme asa que passaria a ser incorporada a cada barra. Sim, sou mais velho do que a asa de borboleta das roletas dos ônibus. Mas naqueles dias eu ainda tinha uns 13 anos e o tamanho de uma criança de onze anos.

Eu achava que os meus óculos ajudavam a diminuir a minha idade, mas o trocador do ônibus achava o contrário. Depois que eu me arrastei por debaixo da roleta ele me disse que eu deveria pagar a passagem porque tinha cara de mais de dez anos. Era verdade e portanto, eu paguei. Reparei também que ele não colocou o dinheiro em caixa e nem girou a roleta. Simplesmente embolsou a grana na maior cara dura.

_O que foi? - ele me disse.

Eu não disse nada, é lógico. E tratei de ir para um dos primeiros bancos do ônibus. Para meu azar, era um Grande Circular, que fazia as asas sul e norte do Plano Piloto. Ou seja, se tivesse pegado um Asa Sul, eu desceria no mesmo ponto de ônibus e pagaria metade da passagem. Ao invés de poupar, eu havia possivelmente comprometido a minha compra de disco. No caminho eu pensava em maneiras de negociar o preço do disco, embora isso fosse realmente impossível. Na minha percepção, os vendedores de discos eram criaturas gananciosas e absurdamente emproadas, que se mostravam irritadiços e absolutamente impacientes com meninos e meninas, especialmente com os meninos como eu, que não pareciam ser grandes o suficiente para carregar dinheiro.

Quando desci na plataforma superior da rodoviária do Plano Piloto, de frente para a Esplanada dos Ministérios, eu passei rapidamente pelos vendedores ambulantes e mendigos que ajudavam a entupir as calçadas. Quando entrei na Discodil eu já sabia exatamente qual era o disco que eu queria, mas fiz questão de levar um monte de discos para uma das 4 cabines individuais, com fone e toca-discos, que a loja colocava à disposição dos fregueses. Eu adorava aquela discoteca. E naquele dia do ano da graça de 1978, eu já havia passado por lá várias vezes para olhar os discos quentes que chegavam. E eram muitos. Eu ouvi a trilha de Saturday Night Fever e de Grease. Ouvi Who are You - The Who, The Album - ABBA, News of the World - Queen, e a versão ao vivo de Last Dance no álbum duplo Live and More, da Donna Summer. Também escutei coisas do balacobaco como Get Off do Fox, You're In My Heart - Rod Stuart, Wonderful Tonight - Eric Clapton, It's a Heartache - Bonnie Tyler , Sweet Talkin' Woman - Eletric Light Orchestra e More than a Feeling - Boston, Psycho Killer - Talking Heads e Follow You, Follow Me do Gênesis. É lógico que eu não tinha dinheiro para tudo. Dava para um disco e, contando as moedas e voltando para casa a pé, conseguiria comprar uma fita cassete original da gravadora.

Eu vivia um embate profundo na época. Discoteca ou Rock? O disco Some Girls seria a minha solução temporária para a dúvida. Os roqueiros torciam o nariz para Miss You, mas gostavam do resto. Eu gostava de Miss You e também gostava das outras, para mim é um dos melhores discos dos Stones até hoje. Mas os dois grupos começavam a se mostrar incompatíveis. Em breve, com uma rápida olhadela seria possível distinguir com precisão quem andava com os rockeiros e quem era da turma da discoteca. Os adolescentes que se achavam feios, escrotos, fedidos, burros, incapazes de arrumar uma garota, deslocados e desajustados rapidamente se alinharam com a rebeldia sem causa do rock. E em alguns meses, lá estava eu, junto com todos eles.

quarta-feira, 12 de março de 2014

Um pires

Eu gostaria de ser diferente. Sempre vejo um monte de gente falando que faria tudo igual, que não se arrepende e coisa e tal, e que não importa, que faria tudo exatamente como fizera antes. Eu não. Eu vacilei um bocado. Em algumas ocasiões, fui arrogante. Em outras, fui humilde. Se pudesse voltar talvez tivesse invertido as coisas. Seria humilde na arrogância e arrogante nos períodos em acho que dei mancada sendo humilde. Ou talvez substituísse tudo só pela arrogância permanente. Tenho quase certeza de que descartaria a opção da humildade. Tive menos problemas sendo arrogante.

A verdade é que a humildade traz muitos problemas. E dor nas costas. Não é fácil ser humilde. Não tem o menor glamour, é chinfrim pacas. E mesmo assim fui ensinado a acreditar que o humilde, só por ser humilde, será de alguma maneira recompensado no final. O grande problema é que ninguém nunca poderá saber quando será o final. E se for amanhã? Ou daqui a 10 minutos?

Fiquei prestando atenção nos últimos cinco minutos e posso garantir que se o fim estivesse realmente acontecendo, eu não me sentiria muito recompensado. Por outro lado, é verdade também que não tenho sido muito humilde, o que justifica a pouca recompensa, não é mesmo?

Babacas arrogantes, em geral, são mais felizes. Repara. Numa boa. Você não vê babaca em crise. Se vir, seria uma babaquice sua, não é mesmo? É impossível dizer “olha lá, o babaca está em crise”, se você não for um babaca! Não, crise e babacas não andam juntos. Até porque se sentir o máximo é o que faz do babaca, um tremendo babaca. E um babaca quando reconhece um outro, não perde tempo com babaquice.

Por outro lado, todo arrogante é um babaca. Mas por incrível que pareça, nem todo babaca é arrogante. Existe uma infinidade de subtipos de babacas. Mas o último e mais surpreendente de todos é o babaca humilde. Existem babacas tão humildes, humílimos mesmo, que chegam a despertar na gente um pouco de piedade. Eu mesmo conheço um monte de caras que chegam a dar pena, de tão babacas. Você não? Ah, coitado.

Tudo isso é pra dizer que uma das coisas em que gostaria de ser diferente é quanto à minha superficialidade. Eu gostaria de ser mais profundo e intenso. Mas depois de tanto tempo eu já percebi que sou superficial e frívolo. Dou um valor exagerado às aparências e chamo isso de senso estético acentuado.

Aqui estou eu. Profundo como um pires.

terça-feira, 11 de março de 2014

Ameixas

É agora que as ameixas estão mais gostosas. É na segunda semana de março que as ameixas chegam do jeito que eu mais gosto, doces mas com um traço ácido bem no final da mordida. Também é agora que não estão nem macias e suculentas demais e nem esponjosas e insípidas. Estão perfeitas, cada naco tem a consistência e o sabor que despertam boas sensações e lembranças.

Sempre comi ameixas. Quando criança, havia de dois tipos. Aquela amarela, de pele bem fina e aveludada, com umas sementes marrons gomadas por dentro. No quintal da casa da minha avó materna cansei de subir nos pés de ameixas e passar horas no meio da árvore, comendo até me cansar. Ou até ser atingido por uma mamona ou manga verde atirada por um primo ciumento de ameixa. Eu era miúdo e leve, ninguém mais conseguia subir nas árvores sem quebrar galhos e estragar as fruteiras que minha avó tanto gostava. Quando me cansava, descia com um cacho ou dois, não mais, para repetir tudo no dia seguinte, exaurindo árvore por árvore. A outra ameixa era a preta, tirada da lata, seca ou em calda, presente nos pudins, no olho-de-sogra, na farofa com passas, no recheio caprichado de alguns peixes, nos bolos e no frango assado de domingos bem especiais.

Agora os supermercados oferecem aquela mesma ameixa só que fresca, in natura, importadas ou nacionais. Prefiro as que se parecem com uma bola pequena. Algumas vezes estão grandes demais, ficam parecendo aquelas bolas de maçaneta. Dessas eu não compro, quase sempre estão com a casca dura e enegrecida, se estragam rapidamente por dentro, embora ainda conservem uma relativa boa aparência externa. As minhas preferidas estão com a casca vermelho escuro, quase amarronzada, mas com trechos de um vermelho vivo brilhante. Examino cada uma com cuidado antes da compra. Não podem estar amassadas, pois não duram mais que dois dias se estiverem machucadas.

Gosto de deixar as ameixas na bandeja de frutas, junto com as maçãs vermelhas, peras e bananas. Todas as vezes digo para mim mesmo que vou tirar uma foto para depois desenhar uma natureza morta, mas sempre esqueço de pegar a máquina. Quando dou por mim, lá estou eu com duas ameixas frescas e bem lavadas, olhando para o quintal. O gramado está bem aparado, a primavera da pérgula está repleta de flores e até o paredão de hera está bem cuidado. Está na hora de começar um novo projeto.

P.S.: Ultimamente a internet tem caído todas as noites, perto da hora em que termino o texto (que escrevo on-line) para postagem. As quedas me obrigam a retomar o hábito de escrever o texto em planilha para depois fazer o copy/paste. O grande problema é que não consigo simplesmente copiar e colar, fico remexendo o texto e isso muitas vezes torna tudo ininteligível.

sábado, 8 de março de 2014

A Arma Zeta 08 de março - FIM

Estou observando a margem do lago desta cidade. Vejo tudo de uma residência particular, confortavelmente instalado numa cadeira de fibra trançada. É uma propriedade grande, mas sem luxos. À frente, um gramado bem cuidado e um píer pequeno, com postes de luz e tartarugas de sinalização. É um belo local a qualquer hora do dia, mas é singularmente belo à noite.

Vindo do lado direito, surge um pescador com um molinete. Houve uma época em que era muito comum aparecer alguém com caniços e tarrafas. Agora só aparecem sujeitos com molinetes reluzentes, máquinas high-tech que não conseguem operar corretamente. Os caras lançam iscas a dois metros com um equipamento projetado para lançamentos de 20 a 25 metros. Se ele soltasse a linha e atirasse o anzol iscado com a mão obteria uma distância muito maior. O pescador está adernando para a direita, tropeça, pragueja gesticulando e cai sentado sobre o fio d´água, o que me leva a concluir que está chapado.

Ainda adernando, o pescador encontra um grande pedaço de isopor. Desta distância não consigo descobrir que tipo de isopor é aquele, mas parece ser grande o bastante para alguém subir em cima. É o que o pescador pretende fazer. Ele espetou o molinete numa extremidade e procura um jeito de se acomodar sentado sobre o isopor. Começa a ficar engraçado. É impossível ficar sobre o bloco sem que a coisa vire. O pescador já levou dois tombos mas ainda insiste. A vara de pesca continua espetada, por milagre.

O sujeito não vai desistir agora. Ele decidiu se abraçar ao isopor, como se fosse uma prancha de surf. Começa a se movimentar para uma área mais profunda do lago e perde o pé, já não tem apoio. A situação instável fica perigosa, ele está uns 50 metros da margem. A vara se inclina e é puxada repentinamente. O pescador afunda sob o isopor. Quando emerge, a vara se foi. O sujeito se agarra desesperado ao isopor e começa a bater os pés. Ele vai conseguir. Vai sobreviver. Ou não.

Caleb mira cuidadosamente e dispara a arma Zeta. Tudo o que consigo perceber é um pequeno círculo de ondas que se dispersa rapidamente. O pescador continua a bater os pés.
No acordo que fizemos, famílias à parte, cada um usa a arma Zeta como quiser, sem a interferência do outro. Caleb também concordou em responder todas as minhas perguntas, desde que eu só fizesse uma única pergunta por dia. Ele só conseguiu acertar o pescador depois de nove disparos. Não parece preocupado. Tem todo o tempo do mundo para melhorar a mira. E eu tenho um monte de perguntas para serem respondidas.

FIM

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