sábado, 24 de agosto de 2013

Quero ver Cuba lançar



Flamingokvintetten - Lazy River, 1964

Os médicos cubanos já começaram a chegar e dizem em alto e bom som que não estão aqui pela grana, mas por solidariedade. Para o governo, os médicos brasileiros não têm do que se queixar, afinal de contas foram abertas vagas de norte a sul do país. O governo ofereceu dez pilas para quem topasse e só uns poucos toparam. A turma da saúde disse que o governo não oferece condições dignas de trabalho, mas, tirante os parlamentares, que recebem ajuda de custo pra tudo, fora o mensalão, quem é que tem condições dignas de trabalho neste país?

Os cubanos chegaram e os médicos disseram que a turma é mal preparada e recomendaram não auxiliar os colegas com os tropeços que certamente acontecerão. A recomendação não pegou bem junto aos pacientes brasileiros, afinal de contas estamos acostumados com a solidariedade corporativa dos que juram com Hipócrates. Os médicos daqui que cometem erros crassos com os pacientes são quase sempre poupados pelos conselhos corporativos. Para o povo, é melhor ter um médico cubano num consultório montado numa saleta da prefeitura da cidade, do que não ter nenhum. É simples assim. Além disso, como todo mundo está careca de saber, no interior os médicos de qualquer nacionalidade, quando vêem que a coisa está preta, chamam a ambulância e mandam logo o sujeito para a capital. Raríssimas são as cidades que contam com hospitais e médicos eficientes. A regra geral é a ambulância. Com os cubanos, e a depender da disponibilidade de veículos, o máximo que pode acontecer é aumentar o trânsito de pacientes vindos do interior. As Santas Casas, como se sabe, durante muito tempo ajudaram a melhorar o quadro geral do sistema de saúde nacional, mas o governo deixou esses hospitais fenecerem, não renegociou dívidas, e a população perde uma alternativa de assistência a cada dia.

É aqui na cidade grande que o bicho pega, os cubanos estão livres dessa. As ambulâncias despejam a população desassistida às dezenas, todos os dias. E os hospitais públicos das capitais brasileiras estão aos cacos e pandarecos. É preciso ter estômago forte para uma visita a qualquer um deles. O governo, dizem no Facebook, tinha mesmo que fazer alguma coisa.

Ao que parece, o governo agiu a um custo muito alto e, mais uma vez, de olho somente no resultado eleitoral. Na campanha, em 2014, a motoqueira do planalto vai dizer que colocou médicos em milhares de cidades brasileiras que nunca tinham visto ninguém de jaleco branco. Se parar por aí, ninguém poderá dizer que faltou com a verdade. Mas como a mania de engrandecer o que é nanico parece arraigada, com certeza será instruída pelo marqueteiro a dizer uma pérola do tipo país com saúde é país sem doentes, ainda que os doentes estejam mortos.

Eu NÃO sei qual é a solução para o sistema de saúde do país. O governo brasileiro, se for mesmo pagar mais de 10 mil por cabeça cubana ao regime castrista, mostra que não quer saber de solução e topa torrar recursos públicos por um tampão precário. E além de pagar caro, o governo também se dispõe a aceitar que um intermediário receba o salário de cada médico cubano e só repasse um pegueno percentual a cada um. Acho que isso vindo de um governo trabalhista é, no mínino, desconcertante.

Os cubanos chegaram, eles são simpáticos e têm um discurso bonito e agradável. É provável que acreditem genuinamente que estão vindo nos ajudar, por solidariedade, assim como fizeram na Nicarágua e Venezuela. Isso não muda o fato de que não terão uma conta-corrente no BB igual a qualquer servidor público. Também não altera o fato de que não terão liberdade para atuar ou até mesmo passear fora das cidades onde viverão em células, junto com outros médicos e um controlador político. Também não altera o fato de que não poderão sair da célula sem permissão do controlador depois das 18 horas. E muito menos acesso a telefone, internet e correspondência. Eles NÃO vão resolver os gravíssimos problemas do sistema de saúde brasileiro. Talvez até contribuam para aumentá-los. E poderão decidir uma eleição a favor de um dos governos mais cabotinos que já tivemos.

Na minha opinião, as cidades devem receber os cubanos de braços abertos e cantando Guantanamera. Acho que, com um pouco de paciência e boa vontade, dá para libertar todo mundo.

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Elvis em Acapulco



Elvis - Fun in Acapulco

Uma vez comprei alguns DVDs do Elvis numa promoção de supermercado. Eu adorava ver os filmes do Elvis quando era menino e achei que as crianças também poderiam gostar. Outro dia fiz o teste com o Seresteiro de Acapulco. Assistimos somente eu e a minha filha, o menino preferiu ler uma revista em quadrinhos. Minha mulher tinha que ler mais uma tese de mestrado para uma banca. A menina adora musicais, então eu sabia que não haveria nenhum problema.

O Seresteiro de Acapulco é um filme interessante. Elvis é um traumatizado trapezista de circo que fugiu dos EUA para o México. O rei do rock está com medo de altura desde que seu irmão escorregou dos seus braços e caiu do trapézio sem a proteção da rede. Mas isso você só fica sabendo no meio do filme. Até a explicação, tudo o que se sabe é que o rei fica meio zonzo quando fica em lugares altos. Ele começa o filme como marinheiro empregado num barco, onde é piloto, faz-tudo e babá de uma ninfeta. Na canção de abertura do filme, Elvis diz que não vê a hora de encontrar as doces senhoritas e beijá-las todas. Elvis joga a âncora do barco. A ninfeta(que tem cara de velha) faz um monte de insinuações e propostas para Elvis, que além recusar, chama a menina de moleca. Ela sai rebolando uma vingança. Um bote cheio de mariachis se aproxima. Os caras estão mamados e cantando a plenos pulmões as virtudes da birita e da amizade. Tentam entrar no barco. Elvis é bem compreensivo com os mariachis, mas pede silêncio. Os caras concordam, mas desde que depois ele os encontre num boteco em terra. O rei concorda. Mais tarde, na chegada a Acapulco ele encontra um menino órfão que diz ter primos espalhados por todos os lugares. O garoto é sabido, tem saída pra tudo e logo se torna guia e ajudante do cantor de Guadalajara. Mais tarde, o menino prodígio também será o conselheiro amoroso e o empresário do trapezista com vertigo. Agora, ele ajuda Elvis a encontrar o boteco com os mariachis, agora miraculosamente sóbrios e profissionais. Os caras são uns tremendos paus-dágua num bote, mas no boteco estão mais sóbrios e secos do que uma rolha. Nesta apresentação, Elvis mostra porque é o rei do rock. Sem ensaiar nem nada ele arrasa no boteco acompanhado pelos mariachis. Os apupos e aplausos são frenéticos. Eu e a minha filha também aplaudimos no sofá.


Elvis nem recuperou o fôlego direito e já tem uma fã incondicional. Na platéia do boteco, cercada de homens, uma improvável toureira (isso mesmo, uma mulher), que também é uma devoradora de homens, joga charme e faz um monte de insinuações cabulosas para o rei do rock. Ele acha natural, é claro. Todas as mulheres, de todos os filmes dele, dão em cima do Elvis numa boa, de sopetão. Elas simplesmente não conseguem resistir ao charme do topetudo. Elvis se prepara para engrenar uma segunda, mas dá uma olhadela no boteco e quem ele vê, lá no fundo, isso mesmo, a ninfeta. Putz! O rei põe a mão na cabeça e corre até a menina para lhe passar um sabão, onde já se viu, uma menina como ela num boteco daqueles? Mas antes que ele termine o sermão, o pai da garota já entrou de fininho e flagra os dois, ahá. Ele exige explicações e antes que Elvis diga Bossa Nova Baby, ele já perdeu o emprego e está em Acapulco, com uma mão na frente e outra atrás. Seu único amigo é um menino de dez anos. Pra encurtar a história, Elvis se torna salva-vidas de dia e cantor à noite nos hotéis de Acapulco. Num deles, conhece Ursula Andress, sai na porrada com outro salva-vidas e começa a namorar a toureira e Ursula ao mesmo tempo. Essa parte exigiu explicações para a minha filha.

_Ele não pode namorar duas ao mesmo tempo, né, paiê?

_É, quer dizer, depende, é muito difícil - eu disse.

_Eu ouvi! - disse a minha mulher, lá do escritório.

_Vou reformular - eu disse.

_Estou esperando - disse a minha mulher.

_O Elvis sabe que não é certo namorar duas ao mesmo tempo.

_Então por quê ele faz isso?

_Deve ser por causa do trauma do trapézio. Ele ficou abalado e muito carente desde o acidente - eu disse.

_Ficou razoável - disse a minha mulher.

_E por quê todas as mulheres querem namorar o Elvis? - disse a menina.

_Não sei, filha. Mas acho que tem a ver com gostar de dançar e cantar.

_Paiê, no seu tempo você gostava de dançar e cantar?

_É, no meu tempo, eu gostava, mas não tinha muito jeito com essas duas coisas.

_Coitada da mamãe.

_Ela sofreu muito.

_Eu ouvi!


quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Estratégia simples



Groove Armada - My Friend

Ao levar as crianças para a natação, vejo o carro parado na frente de casa. Os quatro vidros fumês com uma fresta de três dedos aberta. Carro popular, 1.0, desleixado. Deixo as crianças, passo no caixa eletrônico e volto para pagar ao jardineiro. O carro ainda parado em frente à minha casa. Passo devagar, dou uma espiada criteriosa. Um rapaz dorme, com um dos pés descalços sobre o volante. Usa barba, não deve ter mais que vinte anos. Não parece haver mais ninguém no carro. Pago a diária ao jardineiro que estava pronto para sair. Eram apenas quatro e meia, mas não adianta estrilar, todos os bons diaristas vão embora antes das cinco. Acompanho o jardineiro até o portão, ainda conversando sobre o serviço do dia, o rapaz ainda está dentro do carro. Acordou com o barulho do portão de ferro, é a chance de fazer algumas perguntas.

_Pois não, você está me esperando?

_Não, não - ele diz.

_É que você está parado aqui, na frente da minha casa. Posso ajudar em alguma coisa? - eu disse.

_Não - ele disse. Ele fala sem aumentar a abertura do vidro das janelas, bastante irritado com as minhas perguntas.

_Você está esperando alguém no vizinho? - eu pergunto, apontando para a casa em frente. Já aconteceu várias vezes na semana passada e nesta. Acho que o vizinho da frente está vendendo a casa, ele até mandou lavar a calçada de pedra pirinópolis. Ficou bem bacana.

_É, é - ele concorda, visivelmente contrariado, só para encerrar a conversa. Como se eu fosse incapaz de perceber, o Mané!

Fico conversando com o jardineiro, planejando o serviço da próxima semana, até que o sujeito no carro se irrite e resolva se mandar. Então eu agradeço ao jardineiro e ele também vai embora.



quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Elmore Leonard



Kings Of Leon - Black Thumbnail

Elmore Leonard está morto. Tenho alguns livros dele em casa que são muito divertidos e interessantes. Era considerado um mestre dos diálogos.

_O quê?

Elmore Leonard era considerado um mestre da arte de dialogar.

_Como? Não entendi. Poderia repetir?

EL escrevia diálogos como se realmente estivesse conversando com o leitor, dentro da cabeça da gente.

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Sono atrasado



Arctic Monkeys - 505

Coloquei persianas nas janelas do escritório. Adiei essa tarefa por muito tempo, sem motivo nenhum. Estou quase sem madeira nenhuma, mas hoje cortei e montei o que será uma grande bandeja para o últimos dos carrinhos-bar que montei. Tem 80 cm de comprimento e ficará na parte de baixo do carrinho. Reorganizei a minha oficina. Ela funciona numa garagem, com apenas uma parede, onde coloquei diversas prateleiras e armários. A falta de paredes faz com que uma corrente de vento encanado jogue muita poeira dentro da oficina, todos os dias. Por isso, achei melhor reorganizar os armários de modo a colocar todas as ferramentas a salvo do pó. Ganhei um portão de madeira de presente de um vizinho, que trocou o antigo por um portão metálico motorizado. Instalei o portão no lado interno da oficina. O arranjo diminuiu a força do vento encanado, mas ainda não é o suficiente. Estou com o sono atrasado de novo.

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Ao Ministro Joaquim Barbosa



The Kooks - Naive

Prezado Ministro,
eu me amarro em ver as suas brigas com os bivaques subservientes aos criminosos condenados. Pelas minhas contas, o senhor está vencendo por pontos, agora não é hora de amaciar para os adversários. Desça a porrada! Os inimigos da justiça, os criminosos que roubaram dinheiro público para comprar apoio político não podem ficar impunes. Pau neles! Cadeia! Prisão sem regalias! Os homens e mulheres que meteram a mão na cumbuca, que deitaram na sopa e na mamata achando que escapariam com a mentira do caixa dois merecem ficar atrás das grades. Os ministros que ficarem de lero-lero embromês devem levar puxão de orelha em público. Os que sacarem textos quilométricos "improvisados" de dentro das togas devem ser levados aos beliscões pelos bedéis para o banheiro do STF e apanhar no bumbum. Quem fizer citação de jurista alemão merece ficar de castigo em pé, olhando para a parede. Já se falou tudo o que havia para se falar e todos nós cansamos de ouvir teses desaforadas. Os brasileiros de todas as cores estão cansados de esperar o fim deste julgamento, que só pode ter a condenação dos já condenados como resultado. Solte os perdigotos, Ministro! A sua indignação é também a minha indignação e a de todas as pessoas de bem deste país. Só haverá justiça se todas as penas já decididas forem mantidas. Dê trinta segundos para cada ministro dizer sim ou não e acabe com isso. Cadeia para os criminosos! Força, JB! Catatuia!

domingo, 18 de agosto de 2013

Sibipiruna



Empire Of The Sun - Alive

Caminhamos. Eu e meu pai caminhamos juntos no final da tarde de domingo. Rafa também foi com a gente. Subimos a rua sem pressa, comentando as coisas que víamos pelo caminho. Apreciamos a beleza das casas. O esforço honesto que todos nós fazemos para dar uma boa aparência para as casas onde moramos.

Meu pai observa que uma das paredes da minha casa está com a pintura bem ruim.

_Fizeram um buraco numa das paredes, durante a reforma. Alguém simplesmente espatifou uma das paredes, de dentro pra fora, no banheiro do quarto do meu filho. Não entendi como aconteceu até hoje. E, naturalmente, eu só descobri depois que já havia mandado todo mundo da reforma embora. Nem se preocuparam em disfarçar muito. Taparam o buraco pela parte de dentro e deixaram no cimento puro, pelo lado de fora. Ninguém se deu ao trabalho de pintar por cima. Mas neste ano eu vou dar um jeito de pintar - eu disse.

Com o passar do tempo, começo a perceber que agora fico encompridando as conversas, quaisquer que sejam elas. Antigamente eu era mais calado, com certeza. Talvez eu prefira ser mais calado. Quem fala muito dá bom dia a cavalo, diz o ditado. Em seguida, vimos a faixa de aluga-se numa das casas bonitas da rua.

_Parece que não conseguem alugar essa casa. E essa outra, desde que eu me mudei está com a construção parada. Será que nunca vão terminar? - eu disse.

_Logo que eu me mudei eu passeava muito com o Rafa. No velho apê eu fazia isso todos os dias, bem cedo, antes de levar as crianças para a escola. Aqui eu continuei com o passeio tradicional, mas acabei desistindo por causa dos outros cachorros. Subir a rua era o mesmo que acordar a rua inteira. A cachorrada se acabava de latir. Acabei enjoando da barulhada e parei de andar com o Rafa. Ele é provocador. Sabe que está protegido pela cerca e enfrenta qualquer cachorro, late sem parar - eu disse.

No caminho para a farmácia, Rafa latiu para todos os cachorros que vimos. Na rua de cima, um dos moradores mandou cortar a cerca de ficus. Os troncos e galhos foram cuidadosamente organizados no gramado. A madeira foi cortada com cuidado, dava para ver que não vai virar lenha. Quando chegamos à farmácia, fiquei do lado de fora, com o Rafa. O cartaz com a foto do rapaz de 22 anos que desapareceu há uma semana estava afixado em vários lugares. Debaixo da foto os familiares avisam que o moço toma remédios controlados. Não há nada na foto que indique que o rapaz usa remédios controlados, eu penso. Por que será que buscamos explicação para as coisas que nos afligem examinando cuidadosamente os nossos rostos? Ainda estou olhando para o cartaz quando meu pai saiu da farmácia.

No caminho de volta, para fugir um pouco do barulho dos cachorros, fomos pela calçada do outro lado da rua, mais perto de onde estão os troncos de ficus.

_Certamente será aproveitada para alguma coisa. Para quê serve a madeira de ficus? É madeira boa? - disse meu pai.

Eu não sei dizer. Digo que acredito que sim. Parece bem resistente. De repente, percebo que não sei nada sobre madeira nenhuma, que sei muito pouco sobre qualquer coisa. Vejo a lua enorme, ainda nem escureceu mas ela já está bem cintilante. Logo à frente, majestosa, está a grande sibipiruna, a maior árvore da redondeza. Ficamos observando a árvore um pouco, antes de seguirmos caminho.

_Essa árvore tem as raízes muito superficiais. Não resistem a ventos fortes - disse meu pai.

E é verdade. No ano em que eu me mudei uma outra grande sibipiruna que havia ali mesmo, próxima daquela, havia tombado depois de uma tempestade. Foi uma caminhada tranquila, sem incidentes, um dos melhores passeios dos últimos domingos.








_

sábado, 17 de agosto de 2013

Ela agora faz café



Serge Gainsbourg - Black trombone

Ainda ontem, se você me perguntasse, eu diria que neste sábado acordaria tarde, bem tarde. Mas não foi isso que aconteceu. Às sete da manhã escutei o barulho da porta e os passos de criança tomando cuidado para não fazer barulho na escada. Fui checar e não deu outra, minha filha já estava de pé. Escutei ela brincando com Rafa, o cãozinho shi-tsu que ganhou no aniversário de cinco anos. Ela vai fazer nove em setembro. Perguntei se estava tudo bem e ela disse que sim, e que só fez barulho porque tinha tropeçado na escada. Fui trocar de roupa e dez minutos depois eu desci para encontrar a menina orgulhosa de si mesma, tinha acabado de fazer o café sozinha. É lógico que fiquei orgulhoso também. Algumas crianças compõem sinfonias com idade mais tenra. Cantam, dançam, sapateiam. Outras são prodígios da matemática. Uns pouquíssimos sortudos descobrem novas estrelas. Minha filha acorda cedo e faz café. Dez a zero para ela.

_Nossa, você conseguiu arrumar tudo rapidinho, parabéns! - eu disse.

_E agora que eu fiz o café, eu não preciso comer fruta, certo? - disse minha filha.

_Ué, em geral as pessoas fazem as coisas para ganhar outras. Você fez o café para NÃO comer frutas?

_É, paiê, não quero comer frutas aos sábados. Por isso é que eu fiz o café!

_Tudo bem, mas no próximo sábado vai ter que comer fruta.

_A não ser que eu faça o café, não é?

_Você quer fazer café todos os sábados?

_Não, paiê, eu só não quero comer fruta no café, em nenhum sábado.

_Hum, muito esperta. Mas isso terá que passar por debate interno. Só poderá ser autorizado se a moção for aprovada por unanimidade.

_Traduz?!

_Eu e a sua mãe vamos ter que conversar e se nós dois estivermos de acordo, você não vai mais precisar comer frutas aos sábados.

_Mas isso é que vocês sempre fazem.

_É um método que vem dando certo, as boas práticas são assim mesmo.

Foi um ótimo café da manhã. Eu e minha mulher decidimos analisar o assunto com mais cautela, talvez toda essa conversa esteja esquecida no próximo sábado. Pouco depois eu corri para o quintal e apanhei alguns limões para disfarçar um pouco o vazio da fruteira.





quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Tudo está no seu lugar



Audioslave - Doesn't Remind Me

Depois de anos juntando badulaques e guardando partes quebradas de coisas que um dia eu iria consertar, decidi jogar a tranqueirada fora. Não foi fácil, acredite, mas consegui. Joguei toneladas de pedaços de coisas que algum dia tiveram alguma serventia e esperavam a benevolência de um pingo de cola rápida. Juntei tocos de lápis, um pequeno balde cheio de pontas de giz de cera, massinhas endurecidas, papéis e contas ilegíveis, pastas elásticas sem elástico, cacos, clipes, pregos, parafusos, borrachas velhas, e todos aqueles papéis com rabiscos e frases anotadas para alguma coisa que um dia eu iria escrever. Também rasguei e joguei fora bilhetes trocados com minha mulher, recomendações e listas de compras, cartões de aniversário, recados, lembretes e uma carta para o papai noel que minha filha escreveu com seis anos de idade. Encontrei fotos, chaveiros, uma grande coleção de apontadores de escola, cinco compassos, réguas lascadas e esquadros de acrílico com as pontas quebradas. O dia passou rapidamente no escritório. Cada coisa jogada no lixo despertava lembranças e estimulava devaneios e mais devaneios. Na metade do dia, o ganho de espaço era visível. Então resolvi desentocar as coisas dos fundos dos armários, fui buscar as tralhas que estavam provisoriamente colocadas em outras áreas e em pouco tempo, todo o espaço conquistado já estava ocupado novamente. Agora à noite, não se notava diferença alguma.

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Bela viola e pão bolorento



Count Basie Orchestra - The Kid From Red Bank

Na hora do almoço, as crianças andam falando muito de beleza, de quem é feio e de quem não fede e nem cheira. Eu sou sempre paranóico com essas conversas, morro de medo das crianças se fixarem no que é acessório e se tornarem frívolas e superficiais, como eu. Então, como também sou controlador e metido a sabichão, entro logo na conversa.

_Tem um ditado que diz que beleza não põe mesa. É para lembrar as pessoas que é preciso ser bonito por dentro e por fora.

_Ah, paiê, dá um tempo! - diz a minha filha.

_Mas isso é importante - eu disse.

_Tudo bem, mas você já disse antes: por fora, bela viola, por dentro, pão bolorento.

_Caramba, é isso mesmo. Eu já contei pra vocês?

_Umas duzentas vezes, pai - disse o meu filho.

_É que eu gosto dessa história.

_Mas não precisa contar de novo, né? - disse a minha filha.

_É uma história legal, acho que foi feita para...

_Eu sei, paiê, beleza não é tudo - disse a menina.

_E nem é importante. Ser inteligente, atencioso, responsável...

_Pai, nós já sabemos!

Contei a eles uma versão bem resumida de Dorian Gray. Para eles, Dorian é um menino que possui uma foto mágica no ipod. Eu sei, é apelar com um clássico, mas acho que exagerei nos detalhes e hoje eles têm aversão à minha versão.

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Morre um gato



Arctic Monkeys - Old yellow bricks

Foi uma luta fazer as crianças irem para a escola. Todo mundo queria continuar dormindo, inclusive eu. Às seis da manhã ainda está um bocado escuro, mas em dez minutos tudo fica bem claro, com um friozinho gostoso. Tive que ir para a padaria comprar manteiga, pão, café e nescau. Eu deveria ir à pé, mas fiquei com preguiça e fui de carro mesmo. Ao entrar na garagem, vejo uma dupla de gatos, um siamês bege de cabeça preta e um angorá cinza escuro, com listas pretas finas. As crianças já haviam me avisado de que uma gata havia ganhado uma ninhada no jardim da frente de casa. Só fiquei surpreso com o tamanho da angorá, parecia um lince. Os bichos sumiram quando abri o portão de ferro.

Ao voltar do supermercado, não vi nem sinal dos gatos.

Lá pelas dez horas, a professora da minha filha liga no meu celular. Minha menina reclama de dor de cabeça continuamente. Achei melhor ir buscá-la. Na ida para a escola, vejo na calçada, na metade da minha rua, o gato siamês. Ele parece tomar sol, se espreguiçando todo. Na escola encontro primeiramente o meu filho, no recreio, com os colegas. Ele se assusta com a minha presença e eu digo que vou levar a irmã para casa. Dou um beijo em sua cabeça e os colegas ficam zoando com ele. Encontro a minha filha na biblioteca. Ela ainda reclama de dor de cabeça, mas não tem sinal de febre. Voltamos para casa. Na descida da minha rua eu mostro o gato siamês de cabeça preta para a minha filha. Passo bem devagar. Ele parece tremer sob sol. Minha filha dorme poucos minutos depois de chegarmos em casa. Quando abri o portão, a enorme gata angorá saltou para o gramado do jardim de casa. O fim de semana foi cheio de atividades, minha filha precisa repousar. Ela só vai acordar pouco antes do almoço.

Minha mulher chega com o meu filho da escola. Durante o almoço ela comenta que viu o gato siamês tomando sol na calçada.

_Você viu a angorá cinza? - eu perguntei.

_Não.

-É um bicho gigantesco.

Durante o almoço, todos estamos bem e Rafa, o cãozinho shi-tsu também está feliz. Ele fica debaixo da mesa, tentando arrancar as meias das crianças. Depois de algum tempo dispara para o quintal e começa a latir, sem parar.

_Se o Rafa for mexer com aquela gata angorá ele vai se machucar feio - eu disse.

Minha mulher vai até o quintal conferir a situação. Mas ao que parece, Rafa estava latindo para algum outro gato. Não aconteceu muita coisa depois disso. Mas às três da tarde alguém toca o interfone.

_Aqui é o Joel. Sou o seu vizinho de rua, moro na primeira casa. Você tem um gato?

_Não. Nós temos um cachorro, serve? - eu disse.

_Não, é que tem um gato morto na rua, parece que alguém atropelou ele.

_Você atropelou um gato? - eu disse.

_Não, alguém atropelou um gato, ele está no meio da rua.

_Você quer ajuda para tirar ele da rua?

_Não, só estou procurando o dono do gato.

_Aqui não tem gato, só tem cachorro - eu disse.

_Sei. Mas você também tem um gato cinza grande no jardim, não é mesmo?

_Não, essa gata cinza enorme não é minha. Ela só escolheu o meu jardim para fazer a ninhada.

_Tudo bem, tudo bem. Tem certeza de que não tem mais nenhum gato? - disse Joel.

_Tenta o vizinho. Meu cachorro estava latindo para o gato dele na hora do almoço - eu disse.

_Já falei com o vizinho. Ele disse que não tem gato. Foi ele que me disse que viu dois gatos na sua casa, hoje de manhã.

_É, os gatos vivem por aqui, mas não são meus - eu disse.

_Sei. Acredito. Bom, se você não se importar, eu vou jogar aquele gato num saco de lixo. Mas se você preferir, eu posso trazer ele aqui. Tem gente que enterra o bicho de estimação no quintal.

_O quê? Escuta, o gato não é meu, ouviu?

_Sei. O vizinho disse que viu você passar devagarinho hoje de manhã, bem onde eu encontrei o gato morto.

_Putz! Passei de suposto dono de gato a suspeito de ser um atropelador de felinos - eu disse.

_O quê?

_Olha, Joel, faz o que você quiser com o gato. Eu não ligo a mínima - eu disse.

_Insensível - pensei ter ouvido Joel.

Pela câmera do interfone vi que ele fez uma careta.

Às três e meia, quando fui levar as crianças para a aula de inglês, subi a rua bem devagar. Havia um saco plástico preto no mesmo lugar onde havia visto aquele siamês de cabeça preta. Nunca acontece nada na minha rua.





domingo, 11 de agosto de 2013

Dia dos pais



Carmen Souza - Song for my father

Ele tem quase dois anos de idade e naturalmente é o centro das atenções. É uma responsabilidade que ele encara sem medo. Todos nós observamos a mãe brincar com o menino.

_Que barulho que a onça faz?- pergunta a mãe.

_Grauuurrr - ruge o menino.

_E como faz a galinha?

_Có, có, có - ele diz. E bate palmas, orgulhoso de si mesmo.

_E como faz o porco?

_Oinc, oinc, oinc - fala o menino. E agora todos nós aplaudimos.

_E como faz o tatu?

_Iiic, iiic, iiicc - diz o menino.

_Peraí, que barulho é esse? Iiic? Que diabo é isso? Tudo bem que depois do Fuleco os tatus nunca mais foram os mesmos, mas iic? Não. Não podemos aceitar iic - eu disse.

_Não, não, iicc é bem bonitinho. Para mim está valendo - diz o meu irmão.

_Estou com o Careca, acho que iic não fica muito bem em tatu. Aliás, acho que tatu nem emite sons. É no máximo um ruído fanho - diz minha irmã.

_Barulho fanho? Mas onde é que vocês estão com a cabeça? Tatu não faz barulho. É um bicho mudo - diz o meu pai.

_Não, senhor. Não, senhora. Os tatus emitem sons. Há registros incontroversos... - diz o meu cunhado.

_Está certo, está certo, nós vamos reformular o barulho do tatu, não é, bebê? - diz a mãe do menino.

Depois nós conversamos sobre o tempo, os problemas crônicos de sempre, o mensalão, e a possibilidade de que afinal de contas tudo acabe em pizza. De repente, estamos todos novamente prestando atenção na criança, que está aprendendo a contar.

_Um, dois, e o que vem depois do dois?

_Um.

_Três. Depois do dois vem o três - explica a mãe, mostrando os dedos para o menino, brincando com os dedinhos.

_E quanto é três menos dois? - pergunta o pai.

_Um - diz o menino.

_Muito beeeem - berra o pai, batendo palmas e fazendo a maior algazarra.

_E quanto é um vezes um?

_Um.

_Muito beeeeeeemmmmm - berra de novo e levanta o menino, que grita de alegria.

_E quanto é vinte e sete menos vinte e seis?

_Um.

_Maravilha! Genial! - comemorou o pai do menino.

Todos nós aplaudimos, é claro.


sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Churrasco a domicílio



The Black Crowes - Feelin' Alright

Perto de casa, no gramado da pista, bem fácil de ver, colocaram uma dessas faixas com cores berrantes: churrasco a domicílio. Embaixo colocaram o número de um telefone celular. Não é muito grande, mas é impossível não ver. Logo à frente, pendurado num galho da sibipiruna, uma tabuleta anuncia os serviços de um jardineiro. Depois do balão, no latão pintado cuidadosamente pregado nas estacas da cerca, alguém avisa que faz poda e remove entulho. Mas é a faixa do churrasco a domicílio que não me sai da cabeça. É ela que me faz lembrar.

Uma vez um amigo no trabalho avisou que estava precisando aumentar a renda per capita da sua capita e que a partir daquele final de semana começaria o negócio de churrasco a domicílio. O nome fictício dele é Godinho. Ele é gaúcho, está na casa dos quarenta, tem dois filhos, uma mulher desempregada e um monte de papagaios.

_Quiéisso, Godinho? Vai fazer churrasco pros outros? - se espantou o chefe. O chefe era alcoólatra. Todo mundo sabia, mas todo mundo fingia que não sabia que ele guardava uma garrafa de uísque na primeira gaveta do armário. O chefe fazia serão até ficar balão e um dia dormiu na mesa.

_Eu gosto de fazer churrasco - disse o Godinho.

_E alguém gosta do churrasco que você faz? - eu disse.

_Ninguém nunca reclamou - disse o Godinho.

_É um slogan e tanto. Churrasco do Godinho, ninguém nunca reclamou - disse o chefe.

_Os mortos não reclamam - eu disse.

_Pô, eu sabia que não devia ter contado pra vocês. Bando de azarões - disse o Godinho.

_Não leva a mal, Godinho, mas gaúcho não sabe fazer churrasco - disse o chefe.

_Como é? - disse o Godinho. Eu fiquei na minha. O chefe gostava de provocar os outros, especialmente depois de uns goles escondidos.

_Gaúcho acha que fazer churrasco é só esquentar uma carne no fogo vestido de bombacha e chupando uma cuia. Quem gosta de carne crua levemente tostada é japonês. Churrasco bom é parrilada argentina, feita por um hermano - disse o chefe.

_Nunca ouvi tanta besteira junta - disse Godinho.

Eu fiquei na minha, de novo. O Godinho e o chefe viviam se provocando, um torrando o saco do outro. Até que um apelasse e a coisa saísse do bairrismo para a ofensa pessoal pura e simples. Depois disso ficavam uma semana sem se falar. Aí o Godinho, que era subordinado, aparecia com uma garrafa de uísque e os dois celebravam a paz com um copinho, depois do expediente, ali mesmo na sala. Em dois anos de trabalho naquela repartição com a dupla, eu já havia visto a cena várias vezes.

_Então vamos ouvir a opinião do Careca. Você acha que os gaúchos sabem fazer churrasco? - o chefe disse.

_Deve haver alguns que sabem. Mas duvido que o Godinho saiba - eu disse.

_Epa, meu churrasco já ganhou até prêmio, fique o senhor sabendo - disse o Godinho.

_In memoriam? - eu disse.

_Menção póstuma? - disse o chefe.

_Menção póstuma? Isso não existe - disse o Godinho.

_Seu churrasco também não deve ser deste mundo - disse o chefe.

_Vocês vão ver. Vou ganhar tanto dinheiro extra que vou conseguir liquidar todos os meus papagaios só com churrasco.

_Churrasco bom é churrasco goiano - eu disse.

Na semana seguinte não tivemos notícia sobre os resultados alcançados pelo churrasqueiro. O chefe ainda tentou puxar o assunto, mas o Godinho saiu da sala batendo os pés e só voltou uma hora depois.
Todas as vezes em que um de nós tentava puxar o assunto a reação era a mesma: saída furiosa da sala com batidas de pés e ausência prolongada. Depois de algumas repetições, nem eu, nem o chefe e nem o Godinho nunca mais mencionamos a atividade extra de churrasqueiro na repartição. Mas no dia em que eu saí daquele emprego, numa hora em que o chefe não estava, eu juntei coragem e perguntei para o Godinho o que tinha acontecido.

_Não dei sorte. Doze pessoas foram parar no hospital. Foi a maionese da dona-da-casa, mas puseram a culpa no meu churrasco. Notícia ruim é pior que fogo de palha, quase fui linchado. Tive que desistir de fazer churrasco e ainda fiquei várias semanas pagando as prestações do equipamento e das faixas. Agora não posso nem ver faixa de churrasco que tenho vontade de chorar.







quarta-feira, 7 de agosto de 2013

A lógica da ocupação de mesas na lanchonete



Sarah Blasko - Amazing Things

_A verdade, minha filha, é que homem nenhum presta - disse a mulher, em voz meio exaltada, naquela mesinha da lanchonete.

Eu tinha acabado de entrar, um pouco para comer alguma coisa e mais para passar o tempo. Meu plano era só fazer hora enquanto esperava as crianças saírem da aula de inglês. Fiquei curioso, é claro. Apurei os ouvidos, fingindo prestar atenção no cardápio. Não parecia ser uma conversa entre mãe e filha. Se fossem amigas, a diferença de idade era bem grande. A mais velha agora havia reduzido o tom de voz, falava aos cochichos, como quem dá conselhos. A outra, que não era bonita e nem feia, devorava um sanduíche com ferocidade e balançava a cabeça concordando. Pedi um x-salada.

A lanchonete estava praticamente vazia, além das duas mulheres que maldiziam os homens, havia apenas duas outras mesas ocupadas. Por instinto, peguei uma mesa equidistante das mesas ocupadas. Por isso fiquei pensando em qual seria a lógica da ocupação de espaços vazios numa lanchonete. Uma outra pessoa chegou e se sentou a duas mesas de mim e a duas mesas das mulheres que cochichavam sobre os homens. Talvez eu estivesse certo em alguma coisa.

A pessoa que acabara de chegar era um homem alto, de óculos escuros. Falava ao telefone celular. Quer dizer, algumas pessoas falam ao telefone e outras berram. Este cara berrava muito. Entendi que era vendedor. De carros ou de seguros de carros. Parecia instruir uma outra pessoa, talvez uma mulher, do outro lado da linha. As duas amigas que achavam que homem nenhum presta tinham parado de conversar e examinavam o homem com celular. Eu tamborilava os dedos sobre a mesa, havia esquecido de pegar o caderno de desenhos. Além de uma ótima oportunidade para desenhar, o caderno de desenhos também concentra a minha atenção nos desenhos, paro de prestar atenção nos outros.

Outra pessoa chegou e se sentou quase à minha frente. Talvez eu não estivesse certo sobre nada. Minha teoria não era tão boa assim. Foi bem nessa hora que chegou o x-salada.

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Marte



Arctic Monkeys - Do I Wanna Know?

Mais de 78 mil pessoas se inscreveram num processo seletivo para participar de um projeto que pretende colonizar o planeta Marte, em 2022. Acredita-se que as pessoas selecionadas irão em missão sem retorno. O objetivo é criar uma estação base no planeta vermelho para que missões subsequentes encontrem melhores condições de vida por lá.

Já sonhei muito com o planeta Marte. Além de Tarzan, Edgar Rice Burroughs escreveu as sensacionais aventuras de John Carter no Planeta Marte. No início dos anos 70, eu li essas aventuras quadrinizadas a cores em revistas da editora Ebal. Metade da revista contava as histórias do Tarzan e a outra metade narrava as peripécias de John Carter. Os estúdios Disney adaptaram o John Carter para o cinema, mas alguma coisa não deu certo, tudo ficou muito confuso e apressado demais, o filme foi um fracasso retumbante. Eu mesmo não gostei. Quando alguma coisa dá certo, é fácil encontrar os motivos que levaram ao sucesso: foi a excelente direção, foi o ator, foram os dotes artísticos da heroína, foram os efeitos especiais, o enredo sensacional, a matéria-prima excelente, o trabalho de equipe, etc. O fracasso também é facilmente explicável: foi a direção sofrível, foi o ator, foram os poucos dotes artísticos da heroína, foram os efeitos especiais medíocres, o enredo analfabeto, a péssima matéria-prima, o pavoroso trabalho de equipe, etc. Seja como for, eu sonhei muito com o planeta Marte por causa das aventuras narradas pelo escritor que também inventou o homem-macaco.





sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Sofá usado

Minha noção de grandeza está atrapalhada, já não é mais a mesma. Havia um cartaz antigo que recomendava a todo mundo "Pensar Bem,Pensar Grande". Eu me esforçava de verdade, mas é preciso reconhecer que eu só conseguia "Pensar Mais ou Menos, Pensar Médio". Mas agora, comigo, cada vez mais as coisas funcionam ao contrário, então eu me pego "Pensando mínimo, Pensando Pequeno" com grande frequência. Nesta semana, por exemplo, no caminho de volta pra casa eu vi esse conteiner cheio de entulho até a tampa e no topo de tudo havia dois sofás de couro amarelo. Passei devagar, olhando os sofás com cobiça. Não é nada, não é nada, de repente eu poderia reformar os dois sofás e zapt, móveis renovados para a casa. O couro estava ruim, mas a armação parecia boa. O único grande porém é que o conteiner estava na mesma rua em que eu moro, fiquei sem-graça de ir examinar lixo de vizinho. Pensei em reformar sofás a manhã inteiro. Teve uma hora em que eu quase fui até lá a pé, para checar os sofás em detalhe.

Na hora do almoço, minha mulher comentou comigo.

_Você viu os sofás? - ela disse.

Eu fingi desinteresse, é claro.

_Que sofás?

_Os sofás no conteiner, é claro. É óbvio que nenhum caminhão-caçamba vai levar o conteiner com o sofá em cima. Eles não aceitariam nunca. E o caminhão de lixo também não aceita. O dono vai ter que desmontar o sofá para jogar fora...

_Ah, você está falando dos sofás de couro amarelo no conteiner daqui da rua. Vi sim. Mas que nada, alguém vai passar lá e pegar os sofás, pode apostar - eu disse.

_Você não está pensando em fazer isso, está?

_Eu? De jeito nenhum. Nunquinha. Alguém, que eu digo, é uma outra pessoa, não é necessariamente eu. E além disso, quando alguém se desfaz de um sofá é porque ele deve estar com caruncho, ou com formiga, cupim, uma praga qualquer. Senão é jogar dinheiro fora. A armação deve estar quebrada, só pode.

_Pareceu bastante bom para mim - disse a minha mulher.

_Você parou o carro para olhar? Não acredito.

_Não cheguei a parar. Eu passei bem devagar e olhei com cuidado. Pareceu muito bom, acho que uma recapeada deixaria tudo nos trinques.

_Vai por mim, deve ter bicho. Sofá empesteado ninguém aguenta. Tem que colocar fora de casa e queimar - eu disse.

_Parecia sofá de grife, coisa assinada do Sérgio Bernardes, de arquiteto das antigas.

_Sério? Acho que depois vou lá dar uma olhada.

_

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Onde está o Carequildo?

Lendo nos sites dos jornais a história do Amarildo, fiquei preocupado. É bem verdade que dificilmente uma patrulha da polícia baixa por essas bandas, mas no Brasil, essas coisas podem acontecer com qualquer um, então é melhor prevenir. Eu, por exemplo, quase não saio de casa. Não é que tenha medo de me perder, é que falta motivo para sair. Agora, com a história do Amarildo, posso até dizer que é comportamento preventivo.

Descobri que gosto de ficar em casa, raramente me sinto entediado. Aliás, acho que o tédio é uma invenção inglesa igual ao fog da literatura. O famoso nevoeiro de Londres nunca foi tão espesso quanto afirmava Dickens, Conan Doyle e um monte de outros. Mas não existe nada tão perfeito quando uma névoa de se cortar com faca para se criar um clima de mistério. Seja como for, não sinto tédio. Ao contrário, sinto uma compulsão para fazer dezenas de coisas ao mesmo tempo e tenho a estranha sensação de que estou sempre perdendo tempo. Aliás, essa é uma sensação permanente dos últimos dois anos. Convivo com a sensação de que o tempo passa inexoravelmente e rapidamente. Na semana passada, por exemplo, tive a nítida sensação de que todos os relógios estavam acelerados. Meus filhos concordaram comigo. Mas talvez tenham feito isso porque estávamos na última semana de férias escolares.

Mesmo assim, de vez em quando tenho a impressão que estou desparecendo aos poucos, igual ao Michael J. Fox em De Volta para o Futuro. Então vou até o espelho só para ter certeza de que é só impressão minha. Quase sempre é, mas em pelo menos duas ocasiões tive certeza de eu não estava apenas fora de foco.

Frase do dia


Ocorreu um erro neste gadget