quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Café da manhã



Elvis Presley - Trouble

No café da manhã, às vezes temos conversas esquisitas.

_Pai, você e a mamãe vão se separar?

_Não, filha. De onde você tirou isso?

_Eu só estava pensando.

_Mas o que foi que fez você perguntar?

_Nada não, pai.

_Sua mãe falou alguma coisa sobre isso?

_Não. Eu só estava pensando.

_Pensando em quê?

_Se vocês se separassem, você viria me visitar?

_Nós não vamos nos separar. Somos uma família unida, eu, você, sua mãe e seu irmão.

_E o Rafa, pai. Ele é um cachorro mas também faz parte da família.

_Certo, o Rafa também não vai se separar da gente.

_E a Beta, paiê.

_A Beta é um peixe, filha.

-E daí? Ela também vive com a gente.

_Tudo bem, a Beta também faz parte da família. Agora trate de comer a maçã e terminar o seu café.

_Pai?

-Diga.

_Quando você visitaria a gente?

_O certo é perguntar quando você nos visitaria.

_Pois é, quando?

_Isso não vai acontecer. Eu e sua mãe nos amamos.

_Mas e se, paiê? E se...?

_Tudo bem. Eu visitaria vocês às terças, quintas e sábados.

_Por quê?

_Porque acho melhor.

Exatamente nesse instante, minha mulher chega para tomar o café da manhã.

_Você acha melhor o quê? diz a minha mulher.

_Visitar as crianças. Prefiro visitar as crianças às terças, quintas e sábados.

_Ah, eles estão falando da separação. Já chegaram na parte da mesada? - ela disse.

_Ah, mãe, eu estava chegando lá.

_E depois ainda tem a parte dos passeios no shopping com sorvetes - disse a minha mulher.

_E o fim das broncas, pai.

_Acho melhor ficarmos juntos, senão todo mundo se esquece do Rafa.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Meu pai



Elvis dança Henry Mancini


Aprendi a fazer arroz com meu pai. É bem verdade que minha mãe é uma campeã da cozinha, mas foi o meu pai que me ensinou a fazer arroz. Isso aconteceu numa das vezes que fomos sozinhos, só eu e ele, para a antiga chácara da família, na beira do Rio Areias. Meu pai me mostrou como picar a cebola e fatiar o alho bem fino. Também mostrou como lavar o arroz numa peneira fina ou numa tampa de panela. E depois de me ensinou que o melhor é começar com uma fritada da cebola e do alho com azeite, manteiga ou óleo, até que estejam bem dourados. Na seqüência, adicionar pitadas de sal e o arroz pré-lavado, que deve refogar um pouquinho, com mexidas rápidas da colher para que nada fique colado ao fundo. Em seguida, água(não muita) e fogo médio. A panela deve ficar com a tampa por um bom tempo, até que você dê uma espiada e veja que existem pequenos furos por onde sai o vapor do arroz. Até esse ponto ainda é possível consertar algum erro, adicionar algum tempero, corrigir o sal. Depois, babau. Mas por enquanto, era de bom tom deixar a tampa pela metade, para que o arroz secasse no ponto certo. Para que ficasse bem solto, serviram a fritada rápida, a refogada e o óleo.

Ainda me lembro que esse dia foi um dos poucos que passamos juntos somente eu e meu pai, sem irmãos e mãe. Tínhamos passado algumas horas cavando e protegendo uma nascente, de onde captávamos água para o abastecimento da casa. Era uma estrutura meio artesanal, que utilizava um declive e a força de carneiros mecânicos para encher uma caixa dágua. A falta dágua encanada talvez fosse o motivo de estarmos sós, já que sem ela a casa ficava muito desconfortável para minha mãe e irmãs. Meu irmão mais velho estava em algum lugar em São Paulo, nessa época. O caseiro da chácara era idoso e vivia doente, de modo que eu era a única outra mão de obra masculina com que meu pai poderia contar para resolver o problema na captação da água. Foi um trabalho pesado, mas proveitoso. Conseguimos arrumar tudo até a hora do almoço, que meu pai havia prometido fazer.

Além do arroz, meu pai também fez bife acebolado com muita pimenta do reino e sal, ovo frito e feijão. Apanhamos pimenta de um pé que havia nos fundos da casa, bem perto da cozinha. Era uma pimenta comprida como a malagueta, mas amarela. Vinha da Amazônia e ardia de fazer lágrimas nos olhos. Também havia na horta tomates pequenos e alfaces. Dividimos ali uma cerveja e tivemos um senhor banquete. Não deixamos sobrar nada, nem mesmo a rapa da panela de arroz, que é especialmente deliciosa quando se está faminto e cansado do trabalho braçal. Depois acendi um cigarro (ele já havia parado de fumar muitos anos antes) e tomamos café.

Não faço idéia sobre o que conversamos antes, durante ou depois do almoço. Nessa época, eu era um selvagem arrogante, que achava que sabia tudo e sem muito respeito até mesmo a quem devia muito. E eu devo principalmente a meu pai. Lembro de observar seus movimentos com a faca, o cuidado com que tirava a casca da cebola, com que descascava o alho. Antes, deixara a torneira aberta, a água corrente protege os olhos dos sumos que fazem a gente chorar.

No filme que brinco de fazer com a minha memória, não há música nesta cena, só uma luz forte que parece brotar da parede da cozinha e amarelar um pouco a imagem do meu pai. Ele está ali, de óculos com uma armação pesada, a camisa de mangas curtas, os dois botões de cima abertos, sua calça jeans de pescaria e botinas. Ele me explica como posso fazer o arroz, mas não consigo ouvir direito o que ele diz, talvez não esteja prestando mesmo atenção. Sou o contrário do meu pai em minhas negações e queixas. No entanto, é ali, naquele instante, a primeira vez que me dou conta de que jamais poderei prescindir da sua companhia. E essa certeza me atinge como um raio.

Meu pai completa hoje 80 anos. E agradeço a Deus o privilégio de estarmos próximos, como pai e filho devem ser.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Nonsense na Casa Branca




Elvis Presley What'd I Say Viva Las Vegas

Depois da participação de Michelle Obama na cerimônia do Oscar, tive certeza que o mundo inteiro está de cabeça para baixo, ou de lado, não importa. As coisas definitivamente estão fora do lugar e vivemos a Era do Nonsense, onde qualquer explicação que se queira dar para uma tremenda mancada e mistura indevida é perfeitamente aceitável e cola. Por isso, alinhavei abaixo dez breves anúncios vindouros em antecipação à espetacularização da política e à politização do espetáculo definitivas que se avizinham:

1 – Dilmma anuncia que a entrega dos Jabutis de 2013 a 2016 será feita sem intermediários para Chico Buarque.

2 – A mulher de Filipão anuncia a escalação dos ministros de Estado, mas desde já avisa que Mantegão e Gilba Carvalho continuam onde estão.

3 – Uma das mulheres de Renann anuncia a vencedora do Miss Bumbum 2013 e ratifica que o dinheiro do prêmio vem da criação de vacas próprias do marido, que tem uma coleção de recibos forjados em casa.

4 – Camilla Pittanga anuncia o veto presidencial a três mil vetos encalhados no Congresso e estrela a campanha anual para o crescimento do Pibinho.

5 – A mulher de Zédirceu anuncia que o marido está sendo perseguido por um mensalão e pelo menos um caixa dois, mas pode ser mais de um.

6 – A mulher de Annderson Silva anuncia que a inflação está sob controle batendo no tatame e procura acalmar investidores externos.

7 – A mulher de Pedro Bilal anuncia que vai participar do BBB14 e que o marido vai para o paredão.

8 – Ótima Bernardes, mulher de Bonnner, anuncia o fim da banda cambial no seu programa, pena que ninguém assiste.

9 – Uma das namoradas de Ah-écio Neves anuncia que o senador está em algum lugar no Rio de Janeiro e que vai dizer alguma coisa muito importante algum dia, só não se sabe quando.

10 – D.Marilsa, a mulher de Lulla, anuncia a escolha de um poste iluminado para o Vaticano.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

As nulas possibilidades



Paul McCartney (ft. Joe Walsh & Diana Krall) - My Valentine

Algumas músicas têm o poder de me deixar convencido de que os bons sentimentos existem de verdade e que eu mesmo tenho muitos deles. Esse tipo de música daí de cima, por exemplo, me dá a sensação de que bons sentimentos são poderosos, possuem uma força transformadora pacífica, benéfica e contagiante.

Mas não é nada disso, é claro.

Músicas assim só nos deixam sem guarda, desprotegidos contra golpes abaixo da linha de cintura, com o coração apertado e dificuldade de respirar. Nesse estado deplorável, eu fico mais suscetível a acreditar em eternidades, o que é uma tolice. Sempre que penso em possibilidades e devaneio sem preocupações, geralmente sou derrubado com facilidade, antes mesmo de ter recuperado o fôlego.

Não faz muito sentido, eu sei, mas essas músicas também me transmitem um sentimento de coragem e bravura de um tipo mais nobre, embora um pouco quixotesco. Nesse estado de ânimo, fico convencido de que, mais do que beleza, há um significado intangível e transcendental no auto-sacrifício, na contrição e no estoicismo. Embora seja inútil resistir.

Em algum momento, no entanto, músicas assim, enquanto me fazem lembrar de coisas belas e tristes, ao mesmo tempo parecem conferir um brilho leve e açucarado às coisas do passado. O futuro, então, parece novamente estar repleto de possibilidades.

Você sabe que não é nada disso.

As possibilidades são nulas, estamos todos condenados. Por sua vez, o passado é imutável como naquela aventura do Superpateta, não há açúcar que modifique.

É um erro, eu sei, eu deveria me envergonhar. Mas adoro músicas assim.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

As coisas erradas

Sempre procurava ler os comentários em qualquer notícia que me chamava a atenção na Internet. Eles estão sempre lá, os comentaristas que apoiam o governo incondicionalmente. Caso a notícia apresente um número desfavorável, um comentarista dirá que já houve um avanço considerável durante esta administração, outro dirá que pela primeira vez o problema é encarado de frente, pra valer, um terceiro dirá que tudo era pior durante outros governos. Este último escreverá coisas como Fora FULANO, Abaixo BELTRANO e um monte de palavras de ordem aleatórias. Um desses três também dirá que o pessimismo reinante contribui para dificultar a solução para o problema. Um outro dará um enfoque internacional ao assunto, pretexto para falar de imperialismo e dominação. Outro dirá que... não importa. Comecei a me cansar dos comentaristas. Hoje procuro me concentrar em alguns articulistas. Acredito que as vozes inteligentes e os comentários lúcidos voltarão a se apresentar. Todos nós aprendemos cedo o que é certo e o que é errado. Acho que estamos cansados de coisas erradas.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Yoani Sánchez


Ninguém pode ser maltratado por querer mais liberdade.
Ninguém pode ter o cabelo puxado por desejar melhores condições de vida.
As pessoas que desejam a liberdade de opinião não deveriam ser xingadas, elas devem ser respeitadas porque a liberdade de opinião é uma coisa boa. Juntamente com o direito de ir e vir, a liberdade de opinião deveria estar assegurado nas constituições e nos corações das pessoas de todos os países do mundo. Não me lembro de ter visto uma pessoa de tão bons propósitos e sentimentos ser recebida com tanta agressividade por brasileiros. Eu me senti imensamente envergonhado.

O blog da jornalista cubana Yoani Sánchez pode ser lido aqui.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Adeus, Filé!



Bizarre Love Triangle by New Order

Filé, o hamster do meu filho, morreu no sábado, por volta das onze da manhã. Acho que contei que ele havia ganhado o hamster num sorteio na escola, no final do ano passado. O hamster da sala, que se chamava Juscelino mas que por ser fêmea teve o nome trocado para Sara, teve vários filhotes em outubro ou novembro. Infelizmente, por descuido de alguém, os filhotes não foram separados a tempo de Sara, que devorou quase todos. O sobrevivente foi sorteado entre as crianças da sala e Sara ficou com a professora.

_Só sobrou o menorzinho, que quase nem tinha pelos, pai. Ele parecia um pedacinho de carne. E por isso eu o chamei de Filé - disse o meu filho, orgulhoso, no dia em que trouxe para casa o novo bicho de estimação.

Soube depois que o nome também foi uma forma bem-humorada que a classe inteira arrumou para superar a terrível constatação do canibalismo infanticida dos roedores.

Eu e Filé coexistimos pacificamente durante a sua curta permanência. Eu raramente o via, para falar a verdade. Mas eu o escutava todas as noites, se exercitando sem parar na rodinha de plástico da sua gaiola. Eu ajudava meu filho a lavar a gaiola de vez em quando, mas jamais havia segurado o hamster na minha palma da mão até o último sábado. Nesse dia, meu filho me contou aos prantos que o ratinho estava morrendo e que a gente precisava fazer alguma coisa para salvá-lo. Pensei logo que o grande problema de correr com os bichos para o veterinário é que as consultas são pagas à vista. Além disso, li em algum lugar que o hamster não tem uma vida muito longa, então tratei de buscar um tom de voz para tentar preparar o meu filho para o pior.

_Talvez ele só esteja com frio ou fome - eu disse, pegando o hamster com cuidado. Estava moribundo, abria a boca em espasmos, respirava com dificuldade.

Havia uma atividade na escola, então minha mulher saiu com as crianças enquanto eu examinava o hamster.

_Será que ele vai ficar bom? - disse o meu filho com esperança, antes de ir para a escola.

_Filho, os roedores não têm uma vida muito longa. Talvez o Filé não resista - eu disse.

Ele saiu aos prantos. Minha mulher me olhou daquele jeito, como se eu tivesse quebrado louça do casamento. Minha filha saiu animada com a atividade na escola. Fiquei observando o Filé, na palma da minha mão. Parecia um pequeno gorro. Mal dava para perceber que respirava. Ainda menino, tive alguns bichos de estimação, principalmente cachorros. Mas não perdi nenhum bicho de estimação durante a minha infância ou até mesmo a adolescência. Os bicho sempre se foram de outra forma.Os dois primeiros cachorros que tive se chamavam Laica e Ianque. Eram dois filas, enormes, que talvez não fossem tão grandes assim, mas que eram gigantes na minha visão de criança. Quando nos mudamos para uma cidadezinha ainda menor do que a que vivíamos, os cães foram doados a pessoas diferentes. Soube que morreram anos depois. Quando nos mudamos para Brasília, os bichos de estimação estavam vetados pelas sucessivas convenções de condomínios. Mesmo assim, minha irmã conseguiu criar um galo durante alguns meses. Não sei mais como minha mãe se livrou do galo.

Procurei uma caixinha de papel para guardar o Filé. Ele coube com folga numa velha caixa de cartões de visita. Quando meu filho chegou da escola ele pediu para ver se o Filé estava bem e chorou muito quando disse que o hamster estava morto. Abri a caixinha para mostrar o hamster e meu filho tocou em suas costas com o dedo, num último carinho.

Talvez haja alguma maneira de usar o que aconteceu como uma lição de vida, ou de respeito às pessoas, bichos e coisas que amamos. No sábado e no domingo conversamos várias vezes sobre o Filé e sua morte e me esforcei sinceramente para fazer dessa situação um aprendizado, uma preparação para a celebração da vida. Talvez eu o tenha consolado de alguma maneira.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

O Careca em mais um yackshaving



Elvis Presley and Ann Margret - The Lady Loves Me

Ainda estou me adaptando a 2013. Já me acostumei a acordar cedo novamente para a rotina do leva-e-traz da escola das crianças. Continuo com raiva do horário de verão. Já atualizei todas as dezenas de programas e aplicativos que o computador avisou que eu precisava atualizar. E também já fiz uma lista de coisas novas que preciso baixar e aprender a usar. Já comecei a planejar o pagamento dos impostos. Arrumei todas as notas fiscais, pedi o desconto no IPVA, comecei a preparar o terreno para escrever a melhor história curta que eu já escrevi. Mas ainda estou me adaptando. As coisas de casa e da família são as mais instigantes, ainda que algumas sejam bem maçantes.

Tive um aviso de que preciso ir urgente ao dentista, igual à música de João Bosco. Mas não tenho alma de artista. Um salário fixo, com férias regulares, mesmo sem plano de saúde bastaria para comprar, com folga, os meus anseios de liberdade e os meus sonhos de igualdade e fraternidade. Mas estou sem ofertas, continuo em casa. Às vezes, para espairecer, fico bisbilhotando os amigos no Facebook. Não vejo um monte deles há anos, mas graças á Internet posso xeretá-los à vontade. Muitos deles viajaram para passar o Carnaval em lugares paradisíacos, que, para mim, é qualquer lugar longe de batuque, Ivete e ziriguidum. Outros fizeram exatamente o contrário, correram para o meio da folia, do batuque, com Ivete e ziriguidum. Os dois lados fizeram questão de documentar suas opções para passar o Carnaval. Fechei, como já disse, com o time da calmaria. E da bisbilhotagem.

Foi graças à mais pura bisbilhotagem que acabei descobrindo que um dos meus ídolos, o escritor Tibor Fischer, escreveu um livro em 2011 sobre a Guerra de Tróia(Crushed Mexican Spiders). Putz! Onde é que ele estava com a cabeça? Cavuco mais um pouco na internet e descubro que um resenhista editou uma entrevista de Tibor Fischer em que ele diz um monte de coisas interessantes sobre o livro. Mas ele diz coisas ainda mais interessantes sobre coisas que não escreveu. Em certo momento, Tibor diz que alguns escritores dizem que não gostam muito de ler, mas que esse não era absolutamente o seu caso. Ele disse que gosta muito de ler e que geralmente sai de casa, em Londres, carregando um livro para ler durante os longos trajetos de metrô ou ônibus que costuma fazer. Tibor então fala que muitos escritores acreditam que é possível escrever sobre qualquer coisa e realmente fazem isso muito bem, embora isso não seja suficiente. Para se escrever, diz Tibor Fischer, é preciso escolher muito bem sobre o que se quer escrever. Uma narrativa sobre a ida ao supermercado, por exemplo, ainda que muito bem escrita, dificilmente seria capaz de entretê-lo durante um trajeto de 40 minutos do metrô. Bacana, eu pensei, isso é puro Tibor. Ele diz para ninguém fazer o que ele vive fazendo, que é escrever sobre nada como se fosse sobre qualquer outra coisa.

Alguns minutos depois eu estou, não me pergunte como cheguei até lá, vendo on-line o filme "O Homem do Braço de Ouro", de Otto Preminger, estrelado por Frank Sinatra. Frank faz o papel de um baterista/jogador que volta da guerra viciado em drogas. Kim Novak faz o papel da mulher que o apóia em seus esforços para se livrar do vício, em Chicago. Não sei o motivo, mas fico pensando que esse é o papel que custou a cabeça do cavalo ao diretor de cinema em "O Poderoso Chefão". E então eu volto a Tibor Fischer, mas antes que eu comece a pensar em mais enredos confusos, na sucessão do Papa, naquele quadro profético de Francis Bacon sobre o fim dos tempos, eu encontro o vídeo acima, em que Elvis Presley canta para Ann Margret enquanto ela desfila em maiôs bem comportados. Ainda há esperança, eu penso, ainda há esperança. Mas Tibor Fischer tem toda razão, é claro. É preciso pensar naqueles quarenta minutos de imersão total e completa, em que seja possível encaixar uma canção, uma tirada engraçada, um ato de insanidade, a iluminação de um ato de bondade e um ponto final.

sábado, 9 de fevereiro de 2013

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Carnaval




The CONNECTION - "Seven Nights To Rock"

Há quem goste de carnaval. Conheço um monte de gente que faz de tudo para ficar no meio da folia e acha o maior barato ficar sem camisa ou com pouca roupa, de braços levantados e pulando feito doido no meio de uma multidão. Confesso que essa parte maluca também me atrai, de verdade, mas eu me canso rapidamente, então nunca consegui curtir muito pular no meio da galera. Tenho essa coisa de não gostar de encostar em gente suada, também. Pode ser um problema, eu sei. Tem gente que não liga a mínima. Encosta numa boa. Eu não. Também não suporto ficar pulando de braço pra cima. É frescura, eu sei. Ou trauma educativo. Minha mãe sempre detestou que eu ficasse sem camisa em casa e jamais me estimulou a ficar pulando com os braços pra cima. Ela até hoje vê as cenas do carnaval na TV e reclama:

_Mas que falta de educação! E aposto que o desodorante desse povo está tudo vencido, que horror! - ela sempre diz.

Acho que ela tem um pouco de razão. Não tenho muita certeza sobre o cheiro, porque tal qual a raposa daquela fábula contada por Monteiro Lobato, sempre ando endefluxadíssimo, quase não consigo sentir cheiros. Mas tem gente que curte e respeito isso.

Tem a coisa da birita, também. As pessoas são muito tolerantes com a bebida no carnaval. Eu também sou, mas o meu fígado não é mais o mesmo então já não consigo acompanhar esse bloco. E todo mundo sabe que se você é o único que não está biritando, a festa não é a mesma coisa. Além disso, as leis também estão mais rígidas. Muito embora a fiscalização seja a mesma, não me atrevo a correr o risco de ser preso depois de tomar um copo e ser apanhado numa blitz. Também não me animo a deixar o carro longe do lugar onde é possível acompanhar a multidão. Com a sorte que eu tenho, na volta encontrarei o carro com o vidro quebrado, posso apostar. Hoje em dia as coisas também estão complicadas na hora de decidir a fantasia. Em outros carnavais, sempre havia uma partida de futebol com todo mundo vestido de mulher, só de farra. Mas hoje isso é muito politicamente incorreto ou tem gente cheia de razão para fazer uma leitura equivocada da brincadeira. Se você veste a cabeleira do Zezé, está arriscado a levar uma surra do grupo GLS, por se passar por gay, dos fascistas, por estar vestido como um gay, e dos gays que não gostarem da sua maquiagem ou do seu jeito debochado.

Tem ainda o problema da música. Eu gosto de ouvir música alto, não acho ruim, embora os meus tímpanos já não sejam os mesmos. Som alto demais acaba me deixando irritado. Também tenho enorme dificuldade para entender o significado de qualquer música de carnaval. Acho bacana, curto o ritmo, a parada da bateria, mas entendo pouco.

Por último tem a combinação de tudo: povo suado, pular de braço levantado durante horas, multidão, birita e bebuns, fantasia e música alta distorcida rompendo o tímpano. Me desculpe, mas não consigo encarar.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Me desculpe, garoto



Gary Clark Jr. - "Please Come Home" - G. Clark tocou em 2012 com Eric Clapton.

Depois de falar meia hora sobre responsabilidade e compromisso, e também de impor um castigo ao nosso filho, descobrimos hoje o aparelho ortodôntico que ele usa. Estava enrolado num guardanapo de papel dentro de uma bolsa.

_Ufa, escapei de boa! - ele disse, quando lhe contei que o aparelho não estava perdido.

Eu lhe disse que o castigo estava suspenso, até segunda ordem. E então eu lhe pedi desculpas.

Quando ele me abraçou e disse que estava tudo bem, eu realmente me senti perdoado.

Eu não aceito! - Artigo de Roberto Damatta é leitura obrigatória

Eu não aceito!

Roberto Damatta - O Estado de S.Paulo
Quando o hígido Michel Temer vira poeta e Renan Calheiros - acusado pela Procuradoria Geral da República de peculato, falsidade ideológica e uso de documento falso - é apossado (com voto secreto - o voto da covardia) na Presidência do Senado Federal no posto número 3 da sucessão republicana e entra no papel dando uma aula de ética e com apoio do PSDB, um lado meu pergunta ao outro se não estaria na hora de sumir do Brasil.

Se não seria o momento de pegar o meu chapéu e deixar de escrever, abandonar o ensino das antropologias, desistir do trabalho honesto, beber fel, tornar-me um descrente, aloprar-me, abandonar a academia (de ginástica, é claro), deixar-me tomar pela depressão, desistir de sonhar, aniquilar-me, andar de joelhos, dar um tiro no pé, filiar-me a uma seita de suicidas, mijar sentado, avagabundar-me, virar puxa-saco, fazer da mentira a minha voz; e - eis o sentimento mais triste - deixar de amar, de imaginar, de ambicionar e de acreditar. Abandonar-me a esse apavorante cinismo profissional que toma conta do País - esse inimigo da inocência -, porque minha cota de ingenuidade tem sido destroçada por esses eventos. Eu não posso aceitar viver num país que legaliza a ilegalidade, tornando-a um valor. Eu não posso aceitar um conluio de engravatados que vivem como barões à custa do meu árduo trabalho.

"A ética não é um objetivo em si mesmo. O objetivo em si mesmo é o Brasil, é o interesse nacional. A ética é obrigação de todos nós e é dever deste Senado", professa Renan Calheiros, na sua preleção de po(s)se.

Para ele, a ética, o Brasil, o dever, o interesse e as obrigações são coisas externas. Algo como a gravata italiana que chega de fora para dentro e pode ou não ser usada. Façamos uma lei que torne todo mundo ético e, pronto!, resolvemos o problema da cena política brasileira - esse teatro de calhordices.

A ética não é a lei. A lei está escrita no bronze ou no papel, mas a ética está inscrita na consciência ou no coração - quando há coração... Por isso, ela não precisa de denúncias de jornais, nem de sermões, nem de demagogia, nem da polícia! A lei precisa da polícia, o moralismo religioso carece dos santarrões e as normas, de fiscais. A ética, porém, requer o senso de limites que obriga à mais dura das coragens: a de dizer não a si mesmo e, no caso deste Brasil impaludado de lulopetisto, a de negar o favor absurdo ou criminoso à namorada, ao compadre, ao companheiro, ao irmão, ao amigo.

(...)
Articula-se objetivamente, com uma desfaçatez alarmante, uma crise entre poderes exatamente pela mais absoluta falta de ética, esse espírito de limite ausente dos donos do poder neste Brasil de conchavos vergonhosos e inaceitáveis. Você, leitor pode aceitar e até considerar normal. Eu não aceito!

Leia a íntegra aqui.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

O aparelho sumiu



Jesse Baylin - The Wind

Meu filho perdeu o aparelho móvel que usa para a correção dos dentes. Procuramos em todos os lugares, mas hoje, depois de tudo revirar, jogamos a toalha. O aparelho está em lugar incerto e não sabido, ninguém viu. Por conta disso, fiz um sermão de meia hora sobre as responsabilidades de cada um, especialmente no que se refere ao cuidado com os apetrechos bucais ortodônticos. Em seguida, depois de confabular com a minha mulher, decidimos estabelecer a restrição extra de uma semana nos videogames, que poderá ser acrescida de mais três semanas caso outras demonstrações de descaso e desleixo venham a se repetir. Também restringimos as saídas para as casas dos amigos pelo resto do mês. Estamos em plena vigência do "Mês Sem VideoGame" aqui em casa, o que sem dúvida contribui para o baixo impacto das medidas socio-corretivas estabelecidas. Sim, eu confesso que me lembrei de umas chineladas que recebi por muito menos quando tinha a idade dele, mas que diabos, estamos no século 21 e somente os bárbaros ainda acreditam na eficiência e eficácia dos castigos físicos.


segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Murrinha



ACϟDC - Back In Black

Uma das coisas que procuro admirar em algumas pessoas é a despreocupação com que deixam transparecer sua verdadeira personalidade. Eu sou um idiota contrito, que quase sempre fica calado resmungando e remoendo decepções e rancores. Mas esses caras que eu quero admirar, não. Eles não ligam a mínima para o que outras pessoas possam estar pensando sobre suas opiniões e comportamentos. Deve haver algum episódio do Seinfeld que trata disso, mas posso estar errado, eu não assisti a todos os episódios. Seja como for, se isso aqui fosse a introdução de um daqueles episódios, se o Careca que vos fala estivesse na frente da cortina vermelha, usando gravata borboleta, ele estaria começando a explicar porque, no fundo, no fundo, sempre achou que os canalhas e os sujeitos toscos se divertem mais e são mais brutalmente felizes que os sujeitos bem educados e inofensivos que seguem as regras.

É lógico que todas as vezes que tentei ser mais tosco, fazendo o que esses sujeitos fazem, sempre me dei mal. Logo que a regra da faixa de pedestre passou a vigorar em Brasília, por exemplo, passei a evitar as pistas que passavam na frente de alguma escola. Se fosse o primeiro veículo antes da faixa, invariavelmente acabava interrompendo o tráfego até que o último pedestre deixasse a calçada. Uma vez tentei me aproveitar de um breve intervalo no fluxo de pedestres para avançar a faixa, mas acabei levando vaia e um dos estudantes chegou a passar andando sobre o capô. Devo dizer em minha defesa que no momento em que avancei, depois de esperar pacientemente e sob uma chuva de buzinas de outros motoristas, não havia nenhum pedestre sobre a faixa. Havia apenas um garoto de uns dez anos, que pisava sobre a faixa e depois mudava de idéia, tirando o pé do lugar, num vai-e-vem, só para me irritar. Achei que aquilo estava fora das regras mas o guarda que me multou não estava interessado em explicações e atenuantes. Algum tempo antes, ou depois, já não sei com certeza, resolvi avançar o sinal em cima de uma garota que tinha sido a namorada de um conhecido. Mas aparentemente o sujeito não tinha sido comunicado do fim do relacionamento pela mocinha e por isso, quando ele nos surpreendeu em pleno amasso dentro do carro, fui levado a socar seu punho com os meus dentes e nariz até que eu mesmo sangrasse bastante. Devo dizer que isso doeu pacas.

São dois exemplos singelos, mas que ilustram uma grande e breve lição aprendida: se eu pisasse no acelerador, seja na faixa ou com as garotas, eu sempre acabaria pagando caro.

Eu deveria encontrar neste parágrafo uma boa maneira de voltar a falar sobre o Seinfeld, mas já está tarde e não estou conseguindo, acredite. De qualquer forma, na minha opinião, Jerry era um obsessivo-compulsivo, sempre muito certinho, bem comportado e conformado com suas regras e códigos. Kramer, o meu favorito, estava à beira da esquizofrenia, com o seu comportamento esquisito e suas tiradas estranhas, era impossível saber o que ele pensava e o que iria fazer. Eliane, com sua auto-imagem borrada e suas variações de humor, sempre querendo se moldar ao parceiro do momento, era uma borderline completa, com total instabilidade comportamental. E George? Bom, deixei George por último porque uma grande amiga me acha muito parecido com ele, não só por causa da careca e dos óculos, mas principalmente por causa da paranóia aguda, das suspeitas irracionais e da proverbial incapacidade de confiar nos outros. Minha e do George.

E aqui eu deveria fazer mais uma pequena digressão para falar do meu amigo Murrinha e de uma conversa que tivemos durante o aniversário de um amigo, no último final de semana. Em primeiro lugar, dissemos que Murrinha é o apelido mais sensacionalmente aplicado na pessoa que conhecemos por Murrinha. Em alguma outra pessoa, isso poderia até parecer ofensivo, mas no caso dele, não. É, no mínimo, apropriado. Estou cansado de ouvir apelidos colocados para ressaltar alguma característica física ou temperamental das pessoas. Mas no Murrinha, o apelido é uma luva milimetricamente ajustada à sua personalidade e caráter, coisa difícil de acontecer com apelidos e seres humanos.

Passamos então a declamar algumas das muitas e famosas histórias do Murrinha, que além de não ter papas-na-língua e possuir um temperamento um pouco tosco, de alguma maneira consegue atrair mulheres belas e interessantes. Aqui eu deveria escrever sobre as mulheres bonitas que já vi em companhia do Murrinha, mas estou cansado e sem paciência para falar disso. Bom, talvez amanhã eu volte ao assunto.


sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Colando o imã



ACϟDC - Whole Lotta Rosie

Depois de trocar umas vinte telhas da casa eu achei que tinha finalmente resolvido todo o problema de infiltração no teto da sala, mas não foi bem assim. Hoje choveu o dia inteiro, novamente, e a infiltração voltou a aparecer. Sem a violência de antes, coisa pouca, mas ainda assim um belo estrago na pintura. Talvez seja apenas a água acumulada na laje, que foi se concentrando e finalmente gotejou. De fato, não vi mais nenhuma poça sob o telhado, então o pequeno gotejamento pode mesmo ser da água infiltrada acumulada, que sempre encontra uma saída.

Essas pequenas coisas não me incomodam mais. Aprendi a mexer com a massa acrílica, lixa e tinta de parede. Num instante deixo tudo como novo. Mas antes é preciso que a parede e a laje estejam secas e que não haja nenhuma goteira no telhado. Agora, enquanto escrevo, volta a chover forte.

Passei o dia com as apostilas e no final da tarde resolvi limpar toda a área da churrasqueira. Deixei tudo pronto num instante. Madeira não gosta de água e por isso não me atrevo a começar um projeto novo debaixo de chuva. Fez sol durante umas duas horas no meio da tarde. As crianças aproveitaram para cair na piscina.

Encontrei um imã enquanto limpava a churrasqueira. Era de um pequeno alto falante. Tentei aproveitá=lo para o quadro de avisos do escritório, onde ficam penduradas as contas do mês, fotos e desenhos das crianças. Coloquei o troço no torno e, é claro, o imã se espatifou. Sempre fiquei impressionado com imãs. Ao quebrá-los, os lados que antes eram conexos passam imediatamente a se repelir. O interessante é que ao se passar cola superbonder e forçar os pólos que se repelem, eles voltam a se unir sem problemas.






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