segunda-feira, 31 de março de 2008

Bicicleta na vertical II



Na entrada da escola, uma dezena de pais, bicicletas, velocípedes, skates e patinetes se aglomeravam no portão. De repente, são engolidos por fagocitose e desaparecem em segundos.
_Pai, eu não vou entrar – ele fala, categórico.
_Pode ir tranqüilo que eu volto daqui a pouco, com sua bicicleta arrumada.
E aí nós nos atiramos noutro bolo de gente e entramos na escola.
Na frente da sala do mais velho, tinha até uma bicicleta imitando a vassoura voadora do Harry Potter. Esse povo alternativo é muito massa. Contei dezesseis bicicletas. As bicicletas da sala da menina estão todas do lado de dentro. São 13 bicicletas azuis e uma cor-de-rosa. Com a dela, são quinze bicicletas. Só duas meninas na sala. Aos três anos de idade e tendo lições diárias de sobrevivência na selva. Somando tudo, dava pelo menos cem bicicletas. Em suma, não havia a menor possibilidade de deixar meu garoto de fora daquela confusão. É, tenho de confessar que essa traição me passou pela cabeça.
Menino e menina entregues. Tratei de voltar pra casa rapidinho. Eu tinha duas tarefas urgentes. Primeiro achar a rodinha que havia sumido. E em segundo lugar, arrumar o parafuso espanado da rodinha. Cheguei em casa e a Rose, a mulher que eu colocaria na Casa Civil, já havia encontrado a rodinha. Então só faltava arrumar o parafuso espanado. Procurei na casa inteira, e não havia nenhum parafuso que servisse. Coloquei daquelas fitas de pvc, que se usa em vazamento de mangueira de gás, em volta do parafuso. Pareceu firme. Reforcei com uma amarração de arame com alicate. Achei que daria para agüentar. Depois descobri que só resistiu por uns cinco minutos de uso, mas alguém da escola consertou com um parafuso de verdade. Ficou bom mesmo. Voei para a escola.
Consegui chegar antes do recreio. No portão, encontro uma mãe, também carregando uma bicicleta.
_Esqueceu da bicicleta também? Hoje foi o dia, né? – ela sorri, solidária.
_É essa correria, né? Lavar, passar, manicure, olhar menino... dá uma canseira na gente!
Ela me olha como se eu tivesse hanseníase e se afasta.
O meu filho assiste a minha chegada pela janela da sala. Um sorriso enorme vira um grito de alegria. E quando ele sai correndo da sala para me abraçar eu morro de medo dele tropeçar. Eu acho que a vida seria muito mais bonita se alguém ligasse uma trilha sonora nesses instantes, se pusesse a música adequada para tocar no momento certo. Mesmo assim, foi muito melhor que abraço de pai e filho em cinema, cena que sempre me emociona até as lágrimas. E depois disso eu voltei para casa.
Mais tarde, quando eu fui pegar os dois, eu perguntei qual tinha sido a melhor coisa daquele dia. Eu sempre pergunto isso.
_Foi “fora”, com as bicicletas – diz a menina. E ela conta como se divertiu com a bicicleta, sua única companheira de sala e os outros meninos. Ela caiu, me mostrou o machucado na mão esquerda. E disse que chorou. Mas também riu e ficou alegre. Acho que ficou mais tempo alegre do que triste. E ficou em ação, em movimento.
E eu estou muito curioso e insisto com o menino.
_E o que foi melhor hoje para você, filho?
_Foi “dentro”. Caiu o dente da Camila e ela deixou eu segurar – diz o menino.
Eu sei, eu sei. É sempre alguma coisa que não podemos sequer imaginar.

domingo, 30 de março de 2008

Bicicleta na vertical I



Às sextas-feiras na escola alternativa das crianças, do horário do recreio em diante, eles fazem uma coisa chamada “Vertical”. Todas as crianças, de dois a seis anos de idade, de todas as salas, participam da mesma brincadeira. Eles chamam a brincadeira de atividade. Tem culinária. Tem teatro. Tem festa a fantasia. Tem circuito. Tem pique esconde invertido. Pique esconde invertido?
_É, pai. Todo mundo procura, menos um, que fica escondido – o mais velho me explica.
Imaginei a escola inteira contando até vinte para que eu me escondesse. E depois, todo mundo correndo, em todas as direções para me encontrar. Eu, lá em cima da árvore, feito o tio maluco do Fellini em “Amarcord”. Parecia divertido.
_E circuito, como é?
_Tem as flechas no caminho e você vai seguindo. É massa.
_É da hora, pai – a menina concorda.
Anteontem foi dia de levar bicicleta para a vertical. Poderia ter levado um velocípede modernoso, o velotrol, e a bicicleta. Mas eu resolvi levar duas bicicletas. Uma é cor-de-rosa e a outra é de super-herói. De manhã é uma confusão danada até estarmos prontos para sair. Mamar, escovar, limpar, lavar, vestir, comer, beber, fazer xixi, etc. Na hora de sair, descubro que a rodinha da bicicleta do homem-aranha não está onde deveria estar.
_Cadê a outra rodinha? Você viu?
_Não – respondem os dois, ao mesmo tempo.
_E você consegue andar só com uma rodinha, filho?
Ele nega. Mesmo assim, na minha frente experimenta um pouco e quase cai na segunda pedalada.
_Deve estar em algum lugar. Mas agora não dá tempo de procurar. Na volta eu acho. Eu arrumo a bicicleta e levo antes do recreio, antes de começar a vertical.
_Não, sem a bicicleta eu não vou.
_Filho, agora não dá tempo nem de conversar. Vamos nessa!
E a contragosto, ele apanha a mochila e me segue. Faz um beiço enorme. Franze a testa. Cruza os braços. E a irmã provoca um pouco, só para me bajular e deixar claro que com ela está tudo bem.
_Pai, ele está pondo língua.
_É feio por a língua, filho.
_Pai, ela é dedo-duro.
_É feio ser dedo-duro, filha.
_Pai, ele me bateu.
_ Não pode! Bater no mais fraco é covardia. Pede desculpas.
_Desculpas.
E aí vem um minuto de pausa. Sinal de cérebro funcionando e de que vem pergunta. O que será que será?
_Pai, pode bater no que tem força igual?
_Po... ahn, aí depende – eu me embolo todo nas piores horas.
_Não, seu bobo, quem tem força igual nem briga, né pai? – a salvação vem de um juízo de três anos.
_É melhor não brigar. Nem com mais forte, nem com mais fraco. O melhor é conversar – tento retomar o controle.
E conto a história do menino que vivia apanhando do fortão da escola. Até o dia em que ele aprendeu qual era o ponto fraco do menino fortão. E era o dedão do pé. E quando o fortão chegava perto para bater, o menino pisava, com toda a força, no dedão do pé do menino fortão. E depois disso, o menino mais fraco nunca mais apanhou do fortão. Na verdade, depois disso, o menino mais fraco começou a pisar no dedão do outro todos os dias. E aí o pai desse menino mais fraco foi processado, pois o pai do menino com o dedão inchado era advogado. Os dois pais se enfrentaram no tribunal. De um lado, a torcida do pai menino fortão. Todo mundo malhado, musculoso, fazendo “uh, tererê”! E do outro, a torcida do pai do menino fraquinho. Todo mundo calmo, escutando música, lendo livro. Aí o menino fraquinho grita: “Aê rapaziada da geral! Comuéquié?” E os livros voam e os caras do bem levantam com o canto de guerra dos anhangueras: “É pique, é pique, é pic, é pic, é pic, é hora, é hora, é hora, rá, TIM, bum, MAIS fraco, MAIS fraco”. E aí, graças ao merchandising bem feito, o menino mais fraco só teve que pagar uma multa.
Eu sei, as minhas histórias para crianças estão mais para boi dormir. Mas com isso consegui enrolar os meninos até chegar na escola.
(Continua)

sábado, 29 de março de 2008

Telefonemas aloprados




O Lula conversa com o Bush por telefone:
_Alô, Bush?
_Hello, Lula?
_Ó, meu filho, resolve sua crise aí, ô Bush. Nós estamos crescendo e vocês não podem atrapalhar não. Viu?
_What?
_E Bush, se quiser salvar banco e multiplicar pães é só falar comigo. Tá bom?
_W...?
_Companheiro, cê não fala português? Man-oel, Mari-a, Jô-a-quim. É fácil.

E agora as histórias de dossiês voltaram. Coisa de invejoso. Tem sempre uns caras que adoram os dossiês dos outros. Mas agora tem mulheres no meio. Erenice e Dilma. Erenice é um nome bonito para quem troca o r pelo l. Ou pra quem não gosta do B.
E a Dilma? A Dilma já era apontada para 2010. Se você quiser perder o cargo nesse governo é só ser apontado para 2010. Aí te apontam o olho da rua.

A D.Dilma ligou para a D. Ruth:
_Alô? Dona Ruth? Ó, não tem dossiê não, viu?
_Ah, tá bom, muita gentileza da sua parte.
_Aproveitando a ligação, onde é que cê fazia seus óculos? Os meus são horríveis.

Aí a Erenice liga para a Dilma:
_Descobriram as minhas digitais no dossiê. E agora?
_Que dossiê, Erê? Acabei de dizer para a D. Ruth que não tem dossiê.
_É..? Bom, na papelada. Acharam as minhas digitais na papelada. E agora?
_Ué, tinha foto também?
_Dona Dilma, o que é que faço?
_Diz que é banco de dados, oras.
_Já disse, mas não funcionou.
_Então mostra. Senta no banco. Joga um dadinho. Mandou fazer os óculos?

Aí a Dilma liga para o Lula:
_Lula, aqui é a Dilma.
_ Quem é Lula? Quem é você, companheira? Aliás, quem sou eu? Onde estou? Marisa, onde estão os meus óculos? De quem é essa garrafa? Quem será Marisa?
_Lula, você é o presidente, companheiro. E a oposição está me detonando.
_Eu sei, eu sei. A oposição fica destilando ódio, destilando ódio...
_Está difícil resistir, companheiro.
_Pois é, logo agora que eu parei com os destilados.

Aí Lula liga para Deus.
_Alô, Deus?
Tu,tu,tu,tu.
_Marisa, desliga o telefone, mulher de Deus...

quinta-feira, 27 de março de 2008

O craque de botas



Eu usava botas ortopédicas para os meus pés chatos. E como eu era muito franzino, era enfezado e vingativo. As botas me deixavam de mau humor. A mínima contrariedade era respondida a pontapés.
_Apelou para a bota! Apelou pra bota! – meu irmão e minhas irmãs diziam, em coro.
E eu apelava mesmo.
Na época, todos os meninos do Brasil respiravam futebol. E meu irmão, dois anos mais velho, era um craque do futebol. Eu, naturalmente, queria ser como o meu irmão. Mas com os óculos e as botas ortopédicas, isso era meio difícil.
Eu era enfezado, vingativo, míope e cabeça dura. Eu achava que meu irmão jogava bem por causa de umas chuteiras pretas, de lona e travas de borracha pretas, chamadas Ki-chute. Eu achava que a velocidade, os dribles curtos e desconcertantes, os chutes precisos e até os gols de cabeça do meu irmão só eram possíveis por causa daquelas Ki-chute. E eu queria muito ter um par daquelas chuteiras mágicas.
Meu pai bem que tentou. Ele era juiz numa cidadezinha no interior. As mercadorias só apareciam de vez em quando, naquele fim de mundo. Eram vendidas em caminhões que enfrentavam arremedos de estradas daqueles cafundós. Os caminhões levavam de tudo. Geladeiras a querosene, lampiões a gás, fogões, bicicletas... qualquer coisa, inclusive sapatos e chuteiras Ki-chute. E no dia em que o caminhão chegou, meu pai disputou a última chuteira disponível do caminhão. Quatro números a mais do que o tamanho ridículo que eu usava. Só serviam nos pés do meu irmão. E mesmo assim, ele usava um meião grosso para aquilo não escorregar dos pés. Os cordões enormes, trançados feito uma sandália grega, completavam a garantia de que o Ki-chute não deslizaria para fora, no primeiro chute. Era uma proeza alguém conseguir jogar bola com uma chuteira tão folgada. E era um milagre jogar bola tão bem quanto meu irmão com um treco daqueles nos pés. Mas eu era o pior cego. Não queria ver.
Aquela foi a última chuteira do caminhão. Ninguém sabia quando outro caminhão iria aparecer. Meu pai, que também sempre agiu como perfeito juiz com os filhos, com a parcimônia equânime e igualitária de suas atenções, só conseguiu um único par de tênis para mim. Era uma conga. Azul marinho. Tamanho 30. Nunca esqueci. Fiz ceninha quando ganhei. Joguei a conga longe. Eu também queria uma Ki-chute. As explicações não me satisfizeram. Ameacei sair de casa. Minha mãe achou graça. Eu tinha uns sete anos. Fiquei sentado num monte de terra na frente da casa. Meia hora depois eu voltei para casa.
_Ué, você não ia sair de casa? – zombou a minha mãe.
_Fiquei com sede. Mas já vou embora. – e tornei a sair.
Mais meia hora e entro de novo.
_Pede desculpas pro seu pai e corre para o banho.
Fiz como mandado. Mas continuei com a história das chuteiras mágicas na cabeça. E meu irmão brilhava nos gramados. Jogava até em time de gente maior. Driblava, driblava, armava jogadas incríveis, passava a bola com maestria e segurança. Era um craque. E quando marcava gol, fazia como o Pelé, um soco preciso no ar.
Eu era míope e invejoso. E tinha umas congas para jogar bola. Mas um dia, eu apelei e fui jogar de botas ortopédicas. Naquele dia, eu corri como o vento. E chutei canelas como um criminoso de guerra. Mas o mais importante é que eu chutei mais forte do que nunca e marquei três gols de fora da área. Até o meu irmão me elogiou. Eu, de repente, amava aquelas botas ortopédicas mágicas. Eu nunca mais iria me queixar delas. No dia seguinte, eu jogaria novamente com as botas. Eu iria me tornar o novo rei do futebol. Cheguei em casa, radiante, eufórico, mais leve que o ar. E assim que abri a porta do quarto, meu pai disse:
_Chega de botas! Adivinha quem ganhou uma Ki-chute nova?

O Careca acorrentado



Estou seminu, acorrentado a uma rocha no alto de uma montanha. As costas coladas na pedra. As mãos amarradas atrás das costas. Os pés presos a estacas separadas. É uma posição cansativa e dolorosa. Tenho que flexionar as pernas, jogar o peso sobre os joelhos. Se não fizer isso, vou acabar partido ao meio. Não consigo ver nada direito. Meus olhos estão embaçados, quase cegos. Gotas de suor aumentam o ardor e a cegueira. Sinto uma dor atroz no lado direito, nas costelas. Sinto o cheiro de fezes e urina. Tenho medo de olhar. Posso sentir o sangue escorrer quente e pegajoso pela barriga, pelas pernas. Sem ver, sei que o chão está empapado de sangue.

Ouço o ruído nauseante das moscas varejeiras. Já não me importo muito com elas. Sigo com os olhos um brilho verde metálico. Penso, com horror, que a coisa balançando à esquerda é o meu intestino. Mas não consigo querer ver nada. Aí, de repente, venço o medo de ver e olho. E grito.

Para ele, é um chamado. Mais um. Ele vem, o abutre, para recomeçar o seu trabalho. Bica com fúria o buraco entre as costelas. Sinto dor, mas o horror é maior. E o horror vem das penas, molhadas com meu sangue. As pontas das penas que esvoaçam por todos os lados. Que espanam o sangue vermelho das minhas veias. As penas que espalham a minha hemorragia. Tenho horror do cheiro dessas penas. E depois que devora o que resta do fígado ele finge que parte. Mas é só um vôo curto, para pegar novo impulso. Depois de mergulhar novamente, o bico parte uma costela, a menor. É estranho agora, pois não sinto dor. Mas ainda tenho medo. E enjôo. Como se pode ter enjôo sem estômago?

E o horror também vem dos olhos. De ver os olhos do abutre, um de cada vez. Ele me espia e se alimenta também do meu medo de ver. Ele bica onde antes ficava o fígado. E depois vira a cabeça de lado. E me examina com um olho. Então bica de novo. Vira a cabeça do outro lado. E me observa com o outro olho.

Na verdade, agora é como se escavasse em outra pessoa. O abutre parou. Sinto uma grande massa pegajosa escorrer entre as minhas pernas. Tenho nojo do meu próprio fígado dilacerado? Não. Não sinto nada. Sei que ele me observa. Mas ainda não tenho coragem de olhar para o abutre. Quando o faço, parece que vejo um sorriso em seu bico ensangüentado. É estranho. Os olhos amarelos do monstro irradiam felicidade. E eu desisti de mim mesmo. Estou estranhamente em paz.

No dia seguinte, eu grito de alegria quando ouço o bater de suas asas.

É, nunca mais misturo Kafka, Campari, Grappa e Steinhegger antes de dormir.

quarta-feira, 26 de março de 2008

Os pássaros e o trenó de Orson Welles



Li em algum lugar que está em gestação um remake do filme “Os Pássaros“,de 1963, de Alfred Hitchcock. A nova versão terá Naomi Watts no papel que foi de Tippi Hedren, a mocinha aparentemente fútil que chega a Bodega Bay para perseguir o solteirão Mitch Brenner (Rod Taylor), quando é inexplicavelmente atacada por uma gaivota.
Inexplicavelmente.
Morri de medo quando vi “Os pássaros” pela primeira vez. Na segunda vez, também morri de medo e levei um tapão. Na terceira, idem e só saí do cinema porque chamaram o corpo de bombeiros.
Tenho medo até hoje. Aliás, depois que vi o filme do Hitchcock eu nunca mais olhei para uma galinha do mesmo jeito. Nem me lembro de como eu olhava antes, mas depois do filme, eu olho com respeito. O mesmo vale para pardais, pombos e outras aves. Observo com o maior respeito. Nem mafiosos teriam tanto respeito da minha parte. Mantenho uma distância segura. Não sou daqueles seres humanos metidos, que acham que não vão levar bicada só porque sabem usar uma calculadora feita na China, com mão-de-obra semi-escravizada. Não. Eu nem mesmo dou o dedo para passarinho bicar. Não. Comigo não. Eu fico longe. Evito até contato visual. No máximo, assobio em acompanhamento, à distância. Isso, se o pássaro for do tipo que canta. Assim, “só danço samba, só danço samba, vaivaivaivaivai...” Se for do tipo que fica calado, na dele, eu faço companhia, longe da gaiola. Nesse caso, nem assobio. Eu também não gosto de gaiolas. Nem de loucas. Nem de gaiola de loucas. Mas eu sou educado.
_Bon giorno, Don Vito Corleone – eu cumprimento o pombo na janela.
_Bom giorno, Don Michael Corleone – eu cumprimento o pardal na janela.
E os passarinhos nem precisam gorjear em resposta.
Mas eu me perco. Digressões, digressões, diria Salinger.
“Os pássaros”! É um filmaço! Tem cenas cuidadosamente construídas, é uma aula de direção, inventou efeitos especiais, blá, blá, blá. Mas o mais interessante do filme é que ninguém consegue ter uma mesma opinião sobre os motivos que levam os pássaros a atacar as pessoas. É um mistério. E isso não alivia em nada a tensão. Acho que isso é que provoca a tensão. Os pássaros podem atacar qualquer um, em qualquer lugar, num momento qualquer. Eles nem precisam de motivo. Eles são pássaros, caramba! Eles são seres que não usam as pequenas cabeças e cérebros do mesmo jeito que nós. Não. Eles só pensam em comer, beber e botar ovo. Eles costumam fazer o que o gato enterra sobre nossas cabeças. Eles são terríveis, os pássaros.

Na primeira vez que eu vi, eu achei que os pássaros estavam com fome. Mas, na verdade, eu é que estava com fome. Eu tinha levado um bolo de uma moça e ido a um Festival Hitchcock à noite, sem jantar. Fiquei com tanto medo que derrubei a pipoca que eu tinha comprado. Aí pensei melhor e achei que a fome era outra, de ordem sexual, como quase tudo em Hitchcock. Mas era uma interpretação tão cerebral e com o pé na realidade que resolvi deixar de lado.

Na segunda vez, eu entrei no cinema com uma namorada. Achei que ela e os pássaros obviamente tinham preferido Psicose, o filme anterior de Hitchcock. Até porque em Psicose tinha uma cena sensacional de chuveiro. E aqui, a melhor cena era de uma cabine telefônica, onde não dá para ver nem o decote de ninguém. E a namorada me deu um chutaço depois do cinema.

Na terceira, eu achei que tinha ido com uma galera. Mas acordei sozinho, com os pássaros já mais calmos, taciturnos, vigiando as pessoas dentro da casa. E aí, depois que o filme acabou, tive que ser retirado à força do cinema por um time de lanterninhas. Eu queria ficar dentro do cinema, que era escuro e seguro. Eu queria ficar dentro de um lugar sem janelas, onde os pássaros não pudessem me perseguir. Eu queria a minha mãe. Eu queria não ter experimentado daquele chá! E, aos poucos, com minha camisa de mangas compridas, muito compridas, voltei para a realidade.

A revolta misteriosa dos pássaros contra os seres humanos, em Bodega Bay, estava condenada a ser um mistério eterno! Mas eu li hoje essa notícia e ofereço aqui e agora, o verdadeiro significado do filme, o Rosebud para entender “Os Pássaros”. Sim, porque aconteceu de verdade. E nem é preciso ter penas. Basta o primeiro fazer, para que os outros comecem a imitar. E, se já começou, vai acontecer ainda mais. E eu ainda nem falei da gripe aviária. Atchim! Socorro!

terça-feira, 25 de março de 2008

Humildade na montanha dos gorilas



Aprendi muito sobre humildade com aquele filme “Na montanha com os gorilas”, com a Sigourney Weaver. Mas antes desse filme, foi um professor de educação física da escola, chamado Sidão, que me ensinou os fundamentos da humildade.

O professor Sid era um ruivo alto e fortão, que gostava de mandar em caras pouco afeitos a fazer ginástica, como eu e um monte de gente. Ele separava a turma em dois grupos. Os que tinham potencial para atleta e os que não poderiam passar da condição de auxiliares técnicos ou torcedores animados. Eu e alguns outros preenchíamos todos os requisitos da última categoria, mas ainda poderíamos ser um pouco mais animado se nos esforçássemos um pouco. Para isso, o Sidão achava que eu, o Joka, o Rodrigão e o Cabeça tínhamos que ser mais humildes. E por isso, ele fazia discursos dignos do Fidel Castro sobre a humildade e as virtudes de oferecer a outra face.

Eu até acreditava no Sidão. Mas, com meu irmão mais velho, eu já tinha tido alguma experiência em oferecer a outra face. Levei cada tapão! E sempre doeu pacas. Por isso, embora de coração eu acreditasse que o Sidão tinha razão, as minhas duas bochechas não queriam saber de palmatória. Mesmo assim, com sua vocação para instrutor da SS, o Sidão não esmorecia. Tenho de tirar o chapéu. O cara era um sádico profissional.

O Sidão achava, por exemplo, que se eu fizesse flexões de braço toda vez que ele mandasse eu seria um excelente torcedor. Acabei concordando, humildemente, com ele. Eu estava cansado de manter a minha opinião própria sobre detestar jogar basquete e handebol. E além disso, eu estava cansado de fazer flexões de braço. Então, quando chegava a hora da aula de educação física eu já preparava um sorriso ambivalente e tratava de obedecer o Sidão. E até ria das piadas dele. Há, he, há, há. Era uma risada bem sem graça e adequada para aquele mala. Com hipocrisia e pretensa humildade, eu consegui sobreviver sem dores musculares. (Sidão, se você algum dia ler isso aqui, saiba que apesar de detestar cada segundo daquelas suas palestras educativas sobre humildade, salvei os pneus do seu Maverick. É fui eu que não deixei que o Rodrigão, o Joka e o Cabeça furassem os quatro pneus. Depois os quatro pneus apareceram furados, mas não tive nada a ver com aquilo)

Depois eu vi o filme dos gorilas. E aí aprendi muito, mas muito mais sobre humildade. Aprendi que a respiração é super-importante se você quiser demonstrar que está sendo humilde de verdade. Ééééé. Não pode fungar. Não pode olhar no olho, diretamente. Não pode rosnar. Não pode grunhir. Não pode bater no peito. Não pode soltar pelo. Não pode comer piolho do outro. Não pode um monte de coisas.

Depois que você vê o filme é que percebe porque a humildade é tão importante. A mensagem é bem clara. Se você for humilde o bastante poderá ficar sozinho numa montanha cheia de gorilas, fugindo de caçadores.

segunda-feira, 24 de março de 2008

Heróis da TV




_Careca, a TV está lá embaixo, corre!
E eu fui, atrás do Jô. Eu devia ter uns dez anos. Nunca esqueci. Era uma reportagem sobre os bueiros da cidade. As tampas de metal estavam sumindo. Misteriosamente, essas tampas estavam aparecendo às toneladas nos ferro-velhos, nas oficinas. E os bueiros continuavam sem tampas. E as pessoas começavam a cair nos bueiros. Eu sabia. No dia anterior, uma vizinha havia caído e quase quebrado a perna.
O Jô, menino da minha idade, já estava do lado da repórter. Um sorriso maior e mais largo que o próprio pescoço. E a repórter já estava dirigindo o Jô, montando a cena.
_Você olha para o buraco e aponta, mas sem rir.
E o Jô olhava para o buraco e ria, descontrolado.
A repórter teve uma outra idéia. Mandou o câmara entrar dentro do bueiro. Uma operação complicada à beça. A câmara era enorme. Depois de algum esforço, tudo pronto para filmar. O Jô coloca a cabeça dentro do buraco. Tira a cabeça. Sempre rindo.
A repórter acha que tem pouca cabeça. E me chama para também fazer a mais coisa. Eu e o Jô olhando para a câmara dentro do bueiro. Ficamos ali um bom tempo. Olhando e fazendo caretas. Aí ficou bom. E o câmara saiu do buraco.
E depois a repórter fez perguntas, muitas perguntas.
Eu gaguejei respostas breves. S-S-S-im. N-N-Não.
O Jô deu respostas seguras, completas, em frases inteiras.
_Um caminhão quase quebrou o eixo aqui, ontem. A roda entrou inteira. Precisou esvaziar o pneu para sair. E a vizinha, a Dona Neuma, ainda está no hospital. Minha mãe disse que ela quase partiu o fêmur. Isso aqui é um perigo! E minha bola de futebol também já era...
Os olhos da repórter brilhavam, entusiasmados. O Jô era uma alegria contagiante.
Comigo os mesmos olhos murcharam.
_N-N-ão.
Eu não conseguia articular nada. A repórter desistiu de mim. Olhou para o relógio e fez sinal para o câmara. Foram embora em cinco minutos.
Ao meio-dia, todo mundo em casa estava na frente da televisão. Quase no final do telejornal, apareceu a reportagem. A repórter entrevistou um monte de gente, filmou uma porção de buracos. De repente aparece o Jô. E todos em casa aumentaram a torcida. O próximo só poderia ser eu. E o Jô fala dos caminhões, da vizinha, do perigo e da bola de futebol. Cadê eu? Nada. Mais gente falando. Outros meninos, outros adultos. E aí acaba a reportagem. Decepção geral. Eu não falei que ia aparecer? Cadê eu? Meus irmãos estavam me vaiando quando de repente, sob os letreiros do jornal aparecem as duas cabeças, a minha e a do Jô, olhando para dentro do bueiro. E as vaias se transformaram em vivas e gritaria geral de alegria. E enquanto apareceu letreiro, eu e o Jô aparecemos na tela da TV, rindo feito bobos. E sob nossos olhos de crianças, olhando para a tela de TV, estava a minha família e eu. Nunca estivemos tão juntos quanto naquele tempo.
No dia seguinte, o buraco estava com tampa nova colocada.
E durante mais ou menos uma semana, eu e o Jô fomos os heróis da criançada e até dos adultos da vizinhança.

Quem iria fazer reportagem sobre tampa de bueiro hoje em dia?

sábado, 22 de março de 2008

O Dia Nacional do Sinal de Dedo




Nós, brasileiros, somos excessivamente pacatos. Somos reverentes demais. Somos humildes demais. Temos lombrigas demais. E caímos em tudo quanto é conto do vigário. É demais. É verdade. E tudo isso resulta da ausência, no calendário de feriados nacionais, do Dia Nacional do Sinal de Dedo.

Nesse dia, por lei, a todo brasileiro deveria ser facultado o gesto de sinalizar com o dedo médio para uma autoridade do governo, sem responsabilização criminal pela afronta. E além de fazer sinal com o dedo, o brasileiro poderia, nesse dia, xingar a pretensa autoridade, a mãe dele, os filhos, os netos, a parentada e a escumalha que o acompanha. E também, nesse dia de feriado nacional, o brasileiro e a brasileira poderiam sinalizar com o dedo médio para qualquer mala que tivesse o desplante de impedir que ele curtisse, em paz e com civilidade, o seu feriado.

Pensando bem, tudo isso pode acontecer no sábado de aleluia mesmo. Dá licença que eu vou malhar um Judas...

E foi por isso que eu atrasei o post de hoje.

sexta-feira, 21 de março de 2008

Confesso que eu ri




Essas coisas ainda são novidade. Mas daqui a algum tempo nós estaremos recebendo os chamados de luto dos amigos blogueiros de quem gostávamos. Os blogs estarão de tarja preta, com ícones a meio pau. Flores eletrônicas despencarão do topo das telas de cristal líquido. Trompetes tocarão acordes fúnebres quando fizermos scroll down. Quando alguém quiser mandar um e-mail, receberá mensagem de destino não encontrado. Triste. Triste.
Portanto, tema mais do que adequado para ser tratado aqui, em plena quinta-feira da Semana Santa.
Depois de algum tempo, vamos acabar nos esquecendo e voltando para os blogs de que gostávamos. Serão páginas frias, desatualizadas. No máximo, terão comentários congelados no tempo, lembranças de dias mais animados, quando ainda acreditávamos numa ciber-sinergia. Um mito bobo que entusiasmou as crianças da era do PC. Quando ainda tínhamos uma esperança obscura em relação aos contatos na rede. Como se fosse possível fazer amigos sem comida, copos, discos e livros por perto. Quando ainda sonhávamos com coisas boas nascendo da troca de mensagens, de impressões rápidas em posts sinceros. E depois de algum tempo, os bloggers da vida nos mandarão convites para participarmos, on-line, do enterro de um blog. E vai ser aquele blog simplérrimo que no início, quando ainda éramos jovens e comunistas, achávamos o máximo. Mas que depois vimos que não tinha um mínimo de sofisticação e nem era tão atualizado assim. E, de longe, nós enviaremos sinais de pontuação para uma rápida cremação em tempo real. Diante de nossos olhos, pixels irão se esfarelar e crepitarão em algoritmos de 64 e 128 bits.
Pensando bem, vai ser um barato.

Quando eu era menino, ninguém podia rir na Semana Santa. Quem risse, tinha de ir confessar. Eu sempre acabava tendo de ir confessar. Eu lembro que eu procurava me concentrar para não rir. E ficava pensando nisso, muito concentrado. Mas aí o feitiço virava contra o feiticeiro. Eu terminava rindo à toa, com risadas prolongadas, feito um possesso. Minha mãe ficava muito irritada. E me mandava ir confessar.
Hoje penso que isso devia ser até divertido para aquele padre. Ver um menino confessar que havia pecado porque havia soltado umas risadas. E aí recontar a piada para o padre. Ele sempre pedia. Coisas bobas. O que é que o vendedor mais preguiçoso do mundo vende na porta da Igreja? Amendoim. Porque ele espera o povo lá dentro falar amém para ele falar doim. Outra? Cristo resolve voltar para a Terra vestido de médico. Entra de jaleco no hospital e já começa atendendo um aleijado na cadeira de rodas. O cara começa a contar o que está sentindo e Cristo o interrompe. LEVANTA E ANDA. O aleijado levanta e sai do consultório empurrando a cadeira de rodas. O próximo da fila pergunta e aí como foi com o doutor novo? Igualzim aos outros... nem examina a gente e já vai mandando embora.
Mais uma? Um sujeito entra num restaurante com um avestruz e pede uma salada, fritas e guaraná. O avestruz diz que quer a mesma coisa. Depois da refeição, o garçom pergunta como foi que ele arrumou aquele avestruz.. E o cara: um dia eu encontrei uma lâmpada com um gênio, e eu pedi para ter sempre ao meu lado alguém com bunda grande e pernas compridas, que sempre concordasse comigo...
Coisas bestas, eu sei, mas que me enchiam de remorso.
Por trás da treliça, tenho certeza, um dia escutei o padre, Frei Domingos, prender o riso. Depois disso, nunca mais me confessei.

quinta-feira, 20 de março de 2008

Para deturpar a bandeirinha



O Careca é um caçador cruel de frases ignóbeis. Tece diálogos vis tal qual uma aranha enrola suas vítimas.
_ Volpi. O pintor das bandeirinhas é o Volpi.
_Tá bom, Cabeça, é o Volpi. Mas eu não estou falando de bandeirinha de São João. É da bandeirinha, de escanteio, impedimento...
_Ah , bandeira.
_Não, mas aí parece o poeta.
_Auxiliar de árbitro.
_Isso. Pois aquela bandeirinha...
_Ana Paula da Silva Oliveira, nascida em São Paulo-SP, 26 de maio de 1978, um metro e setenta e três, sessenta quilos muitíssimo bem distribuídos. A morena que eu queria para apitar uma pelada com prorrogação.
_ ??
_Foi a coisa mais inocente que me ocorreu. Qualquer outra coisa você ia deturpar e colocar no seu blog.
_Deturpar, eu?
_É, não faz cara de indignado não. Ultimamente você coloca todas as conversas da gente no blog. E deturpa tudo.
_Pô, Cabeça. Você é um cara antenado. É uma porta de ligação para as atualidades do mundo. Conversando com você eu capto logo o que há de interessante no planeta. Dou uma peneirada e, se der tempo, eu coloco no blog.
_Tá vendo. Admite que deturpa.
_Não admito nada. É que você me atalhou e eu até já esqueci o que eu ia falar.
_Bandeirinha. Ana Paula...
_Isso. Pois a Ana Paula está sem namorado.
_E o quico, Careca?
_Bom, ela anunciou isso no blog dela, tipo procurando candidatos e o editor de esportes da Folha colocou na coluna dele.
_Sim?
_Aí eu estava pensando em ir lá para deixar uma mensagem. Sabe, bolar umas frases meio Genival Lacerda, cheias de duplo sentido, no melhor estilo Ele e Ela. Lembra da Ele e Ela?
_ Ir lá no blog dela?
_Claro que é no blog, né, Cabeça.
_E o que você ia dizer? No meio de tanto marmanjo se candidatando, tinha que ser uma frase dez. Tinha que ser uma coisa de arrepiar.
_Ana, quero balançar você na minha rede.
_Nááá. Tem um quê de Wando e ela não é juíza, é auxiliar.
_Ah é! Então faz melhor.
_ Ana, minha bandeira já está levantada.
_Cabeça, a sutileza não é o seu forte. Merecia uma bandeirada nos cornos.
_É, mas você não disse nada que prestasse. E você só será sutil quando porrinha for esporte olímpico.
_E essa: Salve lindo pendão da esperança...
_É. Boa. Mas foi sorte.
....
_Tá vendo, Careca! Eu sei o que é metáfora!!
De vez em quando, a aranha se enrosca na própria teia.

quarta-feira, 19 de março de 2008

Não Tibet com o Dalai Lama




Eu fico observando os outros quando paro nos semáforos. Faço isso discretamente. Uso os espelhos, para não deixar ninguém assustado. Conforme observou, bem antes de mim, o grande Jacques Tati, quase todo motorista enfia o dedo no nariz assim que para no semáforo. Por isso, eu conto até trinta antes de começar a observar os outros. Com o dedo no nariz, é claro.
Em geral começo minha observação pelo retrovisor. Dou uma esquadrinhada no motorista que está atrás de mim. Depois faço o mesmo usando os espelhos laterais. Por último, dou umas espiadas de lado. Essas espiadas de lado são difíceis de fazer porque eu tenho muito torcicolo de manhã, sabe? Então eu fico ali, de pescoço duro, disfarçando que não estou bisbilhotando o motorista do lado, quando na verdade estou. É super difícil. Às vezes, o meu pescoço está tão duro que só dá para espiar se eu virar o tronco junto. Ou então, eu viro só os olhos. E isso é meio grotesco. Quero dizer, eu mesmo nunca me vi fazendo isso. Mas de vez em quando algum motorista leva um susto e eu percebo.
Estou ali, meditando no semáforo, observando o ser humano com moderação. Sou um egoísta, é verdade. Mas gostaria de dividir com vocês, ó meus leitores, o tipo de coisa que eu penso nesses momentos de intensa meditação. Para isso, escolhi o que aconteceu hoje, por volta das oito e trinta, no semáforo em frente ao Palácio, sentido rodoviária. O parágrafo seguinte é uma tentativa canhestra de transcrever um pouco da agitação cerebral que ocorre quando para no sinal vermelho.
“Olhe aquele cara ali, meu Deus, será que eu vou ficar velho e feio assim? Valei-me! Esse maníaco do fusca quer estourar os tímpanos de todo mundo! Estou enjoado. É de passar mal! Cadê o Engov de ouvido? E eu não posso andar armado. E que nhacanhaca é essa que ele está ouvindo? Ivete Sangralo! Je-sus! E esse taxista, tá olhando o quê? Deviam cobrar mais imposto de taxista. Mas fazem o contrário. Esses caras rodam mais que todo mundo, mas pagam menos. Mesma coisa de caminhão. E deviam cobrar mais imposto de quem tem carro velho. Daquele fusca ali, por exemplo. E deviam cobrar mais imposto de carro feio. Olha só, solta mais óleo que pastel de rodoviária. Deviam cobrar mais imposto de quem gosta de música ruim. Deviam cobrar mais imposto de gente feia também. E o que é aquele ovo colorido de vermelho? É seu reflexo, anta! Aliás, você deve ser o único careca do mundo que tem caspa! Ai caramba, tem um alternativo na faixa de pedestre. É um coroa de chapéu. Mexicano. Será o Velho Tom? Não. O Véi fugiu? Ele não tem memória. Mas tem uma coleção legal de flash-backs! Ih! Vai chutar o fusca da Ivete! Chutou! Bem na hora que o sinal abriu! Boa! Vou me mandar antes que sobre pra mim. Rá, rá.”
E o quê diabos isso tem a ver com o Dalai Lama?
Bom, eu também sou a favor da não-violência. Eu também sou de paz. Eu também quero que os caras do bem continuem a tentar subir no Everest, na cordilheira do Himalaia. E eu também torço para que os monges e o pessoal do Tibet consigam viver em paz. Mas tudo na vida tem limite, né? Se não desse, queria que chutassem o equilíbrio pra escanteio e cobrissem os chinas de porrada, no melhor estilo Kung Fu. E se não fosse pelo meu torcicolo, eu até entraria nessa briga. Mas, assim como você, eu apoio a luta dos tibetanos diariamente, torcendo com os meus olhos. Até no semáforo.
E o título está escrito em Fanho, porque estou muito gribadu.

terça-feira, 18 de março de 2008

O banco que derreteu



Eu abri o jornal ontem e vi que um banco engoliu outro nos EUA a preço de banana. Li também que o Banco Central deles jogou um transatlântico de dinheiro dentro desse banco, o Bear Stearns, para que os correntistas não ficassem de mãos abanando. E vai jogar mais. Mesmo assim, quem tinha ações do Bear Stearns perdeu tudo. Tinha 85 anos, esse banco. Há um ano valia, por baixo, 20 bilhões de dólares. No domingo, foi vendido por US$ 236 milhões. Era o quinto maior banco de investimentos dos EUA, com 14 mil funcionários. Tem agências no mundo inteiro, inclusive uma em São Paulo. Em janeiro de 2007, uma ação do Bear Stearns valia R$ 171 dólares. Ontem, cada ação foi comprada por apenas 2 dólares. O que aconteceu? Não sei. Não entendo patavina de dinheiro e de banco. Mas para milhares de norte-americanos, ontem foi 11 de setembro, de novo.

Eu entrei em http://www.bearstearns.com/ para ver como era. Os caras parecem normais. Comecei pela foto do presidente do conselho de diretores do banco. Coroa, boa aparência, sólido, cabelos brancos. Ele afirma que o principal ativo do Bear Stearns é o “nosso pessoal”. “É o trabalho duro e a dedicação dessa galera que garante resultados para os nossos clientes e lucros para os acionistas”, diz Jayme E. Cayne. Imediatamente me lembrei do técnico de futebol. “Nós ganhamos, o adversário empatou, aqueles vi...s perderam”. Procurei um nome parecido com nome de brasileiro, mas não encontrei nenhum. Ufa! Talvez não apareça nenhum brazuca envolvido nessa.

Aí achei um artigo no The Wall Street Journal. Ele informava que Mr. Cayne estava numa boa, participando de um campeonato de bridge. Mr. Cayne não havia dado nenhuma declaração ao The Wall Street Journal nem a ninguém da imprensa. No espaço de comentários do artigo, aposentados lamentavam a perda das economias de toda a vida. O artigo dizia que o banco cometeu erros grosseiros de comunicação que o levaram a sofrer uma corrida. Na quinta e na sexta-feira passada, os clientes do banco sacaram tudo o que conseguiram.

Nós vimos esse filme de banco derreter uma porção de vezes no Brasil. E é um horror quando acontece. Quem sobrevive fica azedo até a morte.

Dizem que a crise vai piorar. Os especialistas começam a descer do muro. As cassandras despertaram. Os economistas estão tão perplexos quanto eu. Como é que 20 bilhões de dólares e 85 anos de confiança desaparecem no ar, de repente? Experts vaticinam que não foi só um erro de comunicação. O Bear Stearns cheira a boi de piranha de uma recessão que vai cobrar um preço maior. Caldo de galinha, cautela. Desde que eu me entendo por ser humano o fantasma da crise ronda a humanidade. Será que é agora?

Por via das dúvidas, ontem eu chequei os meus investimentos. Só para tranqüilizar vocês, verifiquei duas vezes e não tenho nenhuma ação do Bear Stearns. Aliás, não tenho ação nenhuma. E também chequei as minhas contas bancárias. Só tenho uma operante, a conjunta. É, é no Brasil. Tá no cheque especial.

segunda-feira, 17 de março de 2008

Mercedez na manhã de letras




Sábado teve manhã de letras na escola alternativa dos meninos. Foi super legal. Manhã de letras é o dia de doar livros infantis para a escola. Eu, a Patroa e as crianças fizemos questão de comparecer em bloco. Livro é coisa importante.
E o povo alternativo é sempre muito legal de se observar. Eu estava no meio de um devaneio sobre o padrão das tatuagens do povo alternativo quando passou uma senhora. Estilo Janis Joplin estivadora, mesmo sorriso, mesmo cabelo, pescoço de Mike Tyson, voz de sargento.
_Ôu, ôu, me ajuda ali, por favor?
_Mas é claro, minha senhoura.
Ela arrebanhou mais dois marmanjos e fomos seguindo a figura.
_O que foi, Careca? – perguntou um sujeito, tatuado até o pescoço, na maior intimidade.
_Sei não, só tou seguindo a senhoura para uma ajuda.
_Ah. Vou tumbém – o povo alternativo é solidário pra dedéu.
_Rapêize, fiz um estrago no carro. Olha só – disse a nossa Summertime.
No estacionamento, uma Mercedes Benz estava com um risco gigantesco atravessando uma porta e terminando num contêiner de material de construção. Nós quatro, especialmente o tatuado, quase choramos. É triste ver uma máquina bonita ser estragada dessa forma. O acidente era fruto de uma barbeiragem tão grande que é até difícil de explicar. A senhoura havia simplesmente raspado a lateral do carro na quina do contêiner até enfiar. Não tinha jeito de dar ré ou ir para frente. Qualquer uma dessas alternativas resultaria em um rasgão estraçalhado da porta. Coisa que nenhum funileiro é capaz de consertar. Sem dizer uma palavra, nós quatro, os heróis, empurramos o carro para o lado e desfisgamos a Mercedez. O tatuado, que quase não tinha feito força, falou para a nossa Janis.
_Dona, o que é que a senhora vai dizer para o seguro?
_Ué, tem que dizer alguma coisa?
_É que barbeiragem o seguro não costuma pagar – disse o tatuado.
A Janis fuzilou o cara com os olhos.
_Está escrito em letras pequenas, bem miudinhas – ele disse, para arrefecer os ânimos. Nada como um diminutivo para ajudar a apaziguar o ser humano.
Mas a Janis não quis nem saber. Esculachou o tatuado. Xingou o rapaz em português, inglês e alemão.
_Dona, diz que um raio caiu de lado e acertou a porta – tentei ajudar.
_Dona, diz que a Mercedez foi vítima do Bin Lado – tentou outro cara.
_Olha Dona, a franquia cobre essa barbeirada, pode ficar tranqüila – disse um sujeito com pinta de advogado.
_Não, senhora. Diz a verdade. Diz que um contêiner atropelou a Mercedez. – fechou o tatuado.
E eu voltei para a manhã de letras. Ultimamente, evito confusão.

sábado, 15 de março de 2008

Um peixe fora dágua



Devia haver um manual para ensinar a levar os meninos na natação. Eu estou precisando. É duas vezes por semana, no meio da tarde. É perto do apê, mas não dá para ir a pé. Meia hora antes, a Rose, a santa que trabalha aqui em casa, já deixou quase tudo pronto. Mochila, toalha, chinelos, roupões e crianças vestidas com sunga e maiô. Só preciso colocar a touca em cada um, antes de empurrá-los para a piscina. O problema todo não é na ida. É na volta.

No primeiro dia da aula de natação eu fiquei meio melindrado. Um batalhão de mães se aglomerava na entrada da piscina. Cada mãe segurava a mão de um futuro campeão olímpico. Eu era o único homem. As mulheres me olhavam como se eu fosse um alienígena. Mas estava com vantagem. Eu segurava as mãos de dois futuros campeões olímpicos. Um menino e uma menina. Mas logo depois de entrar, percebi que a minha vantagem inicial impunha um problema de logística fenomenal. Enquanto eu colocava a touca em um o outro ameaçava disparar para a piscina. Se eu ajeitava a sunga do outro, o um já estava pulando, sem medo, sem bóia e sem saber nadar na piscina.

_Socorro! Acode! – disparei para a borda da piscina. Mas nem precisava, porque um dos professores já estava dentro d`água exatamente para segurar os meninos mais afoitos.

Com um dentro d`água, eu pensei, agora vai ficar mais fácil. Voltei para a menina enfrentando o olhar de piedade das mamães e de alguns futuros campeões.

_Está tudo sob controle, correu tudo como o combinado – eu disse, piscando um olho. Mas até um menino miudinho, de óculos, desconfiou que eu estava disfarçando terror e incompetência.

As mamães rapidamente aprontaram e despacharam os filhos e as filhas, de forma organizada, para a piscina. Meu campeão, de quatro anos, tentava convencer o professor de natação que era capaz de atravessar a piscina correndo em cima da água. Igual ao Menino Incrível. E eu fiquei ali, ajeitando a touca da minha filha de 3 anos. Poxa, que coisa difícil. Ela estava de Maria Chiquinha. E aqui fica um recado para os pais e as mães. Não deixe a sua filha fazer Maria Chiquinha antes da aula de natação. É um horror. Você vai demorar dez minutos para desfazer aquela maçaroca e sua filha vai pisar no seu dedão inflamado até alguém ter pena e vir em socorro. Touca na cabeça, a menina dispara para o lava-pés e finalmente chega até a piscina. Mergulha de ponta. Já penso nas medalhas olímpicas.

Estou sozinho, agora. Todas as mães estão concentradas do lado de fora, onde os pais devem ficar. Um funcionário vem me escoltar para o lado de fora. Ali tem um janelão envidraçado cheio de marcas de nariz, com vinte cabeças de mães grudadas, vigiando os querubins. Reprimo a minha vontade de também grudar o nariz no vidro. Mesmo porque já não cabe mais ninguém. Então eu finjo que nem ligo e fico ali, em pé. Cheiro o ar, afino o ouvido, presto atenção e escuto gritos, inclusive dos meus filhos. Mas são gritos de prazer, de uma alegria formidável que um dia eu também já tive. São os berros de uma energia infinita. São expressões do prazer inocente de viver e brincar numa piscina com um monte de outros meninos e meninas...

_Quer sair da frente, por favor?

E eu deixo o armário de dois metros passar com os garrafões de água para os filtros. Por pouco ele não esmaga o que resta do meu dedão inflamado. A torcida feminina assiste aquela bagunça, irmanada, do janelão. Mas sou um peixe fora dágua. Eu apenas salivo, sentidos alertas, e agarro uma revista qualquer para fingir que estou fazendo alguma coisa. Uma hora depois ainda finjo que leio.

Aí começa a parte onde o manual poderia ajudar com conselhos úteis, práticos e edificantes. Os meninos não querem sair da piscina. E os horários são rígidos. Porque outras crianças estão loucas para entrar. Dois batalhões de mães, um entrante e um sainte, se aglomeram no funil da entrada, e o janelão fica ainda mais coberto de narizes. A crianças que estão do lado de fora, seguram toalhas pequenas no pescoço, fazem posição de corrida. Começa uma torcida para a outra turma sair rápido. Vaiam, apupam. Corinho. Fica um batalhão compacto de mulheres, algumas seguram as crianças entrantes. Mais olhares de espanto para o único homem alienígena por ali, pajem de crianças.

De repente, é tudo muito rápido. As crianças saíram da piscina e correram para o vestiário. A nova leva de campeões pendura roupões e toalhas e já faz fila para entrar na piscina. E onde estão os meus dois? Cada um com seu roupão a me esperar pacientemente do lado de fora. O príncipe e a princesa.
_Vamos paiê, estou com fome!

Eu ia ficar muito satisfeito se esse livro me ensinasse a não ter vergonha de ficar ali, junto com as outras mães, sem medo de ser tiete. Eu também quero babar no vidro, gritar e torcer para as minhas crias. Mas, por enquanto, finjo que só estou vigiando.

sexta-feira, 14 de março de 2008

Se o penhor dessa igualdade



A verdade às vezes dói. Mas é a verdade. Nós, os brazucas, somos piores que os gaúchos em termos de bairrismo. Estamos sempre querendo estar na crista da onda. Nós somos metidos, principalmente onde não somos chamados. Adoramos dizer que somos amigos do rei. “Lá tenho a mulher que quero, na cama que escolherei”, como o Bandeira era sabido!! Nós somos furões. Entrões. Saidões.Temos que estar em todas.
Isso não é exagero. Lembram do atentado às torres gêmeas? No dia 12 de setembro, no mundo inteiro, ninguém sabia ao certo o número de mortos. As manchetes foram horrendas: Atentado derruba torres – Milhares morrem, Terrorismo atinge New York, Vítimas passam de dez mil...EUA sofrem atentado – Terror mata 6 mil...
Em Porto Alegre, a Zero Hora proclamou: Dois gaúchos mortos no Atentado às Torres Gêmeas. A contagem oficial dos mortos só foi divulgada três ou quatro semanas depois do ataque terrorista. Mas os gaúchos já sabiam, exatamente, quantos deles tinham morrido. E não estou criticando os gaúchos, é mera constatação. Aliás, dizem que, por estar mais ao sul, os gaúchos são brasileiros decantados. No dia treze, cada Estado do sul, sudeste e centro-oeste procurou manchetear um número aproximado dos seus mortos. No Nordeste, não. Eles procuraram fazer uma soma conjunta, para evitar discriminação. Você sabe, eles atuam em bloco que é para garantir mais recursos de emendas.
Nós somos uns narcisistas servis. É exagero? Não. Ontem eu estava tranqüilo, lendo o jornal na Internet, quando vi a manchete: Uol – Últimas Notícias - 13/03/2008 - 17h58 - Cafetina brasileira foi quem delatou o governador de Nova York no escândalo de prostituição (http://noticias.uol.com.br/ultnot/2008/03/13/ult23u1472.jhtm) . À noite, a Folha aliviou um pouco o tom. A moça já não era mais uma delatora, mas colaboradora da investigação. (13/03/2008 - 21h16 - Cafetina brasileira contribuiu com investigação que derrubou governador de NY ). Hoje, ainda não conferi as manchetes, mas a moça não deve ser mais cafetina. Já deve ter passado para empresária do sexo. Empreendedora em relações íntimas. No sábado, aparecerá o anúncio de que a moça está sendo sondada para posar nua numa revista masculina. Se fizer isso mesmo, daqui a uns meses poderá ganhar programa na TV. Dirigido ao público adolescente, é claro. E se ela não posar nua, talvez abrace uma religião... Nós assistimos essa sacanagem há anos. E alguém deve estar gostando, senão já tinham passado para outra.
Nós, homens e mulheres brazucas, temos que estar em todas. Já viu cerimônia do Oscar? Um apresentador vai descobrir um brasileiro que ajudou a esticar o tapete vermelho para a cerimônia. Ou o brasileiro que dirigiu a limusine de um ator.Mas vai achar um brasileiro. Copa do Mundo? Se não tem a seleção na final, o juiz, o bandeira, um técnico, um gandula terá de ser brasileiro, ou filho de brasileiros naturalizado no estrangeiro, e nossos corações e mentes estarão com ele. Teve uma final sem seleção onde não tínhamos achado nenhum brazuca, mas alguém lembrou que a bola, a bola era fabricada no Brasil. E a TV correu para a fábrica.
Mas eu digo isso com orgulho. Porque nós, brasileiros e gaúchos, brazucas, também somos os caras legais que você encontra em qualquer lugar do mundo. Pode puxar conversa, nós não vamos deixar você falando sozinho. E quando a gente oferece ajuda, can I help you, nós estamos sendo sinceros. É pra valer. E, pode observar, nós temos um sorriso bacana e um jeito alegre e divertido. Homens e mulheres. Não, não é malandragem. Não estamos a fim de enganar ninguém. E é por isso que gostamos de ir para o estrangeiro vestindo a nossa bandeira. Não é só para que você, que é gringo, veja as nossas cores. É para você, que também é brasileiro, veja a gente e saiba, de longe, onde encontrar a rapaziada e se sentir em casa. Brasil, sil, sil!
Caramba! E o 07 de setembro está longe!

quinta-feira, 13 de março de 2008

A vingança de Julio Iglesias



Recebi um monte de e-mails, quase 8, de pessoas condenando ou aplaudindo o texto de ontem. Tá bom, a maioria absoluta foi contra. Contra o texto, contra as piadas, contra as gracinhas, contra a Espanha, contra o Brasil, contra a PF, contra os perros e contra os meus exageros. Mas recebi dois e-mails de suporte explícito. Os dois eram do Velho Tom. Ele mandou duas vezes a mesma mensagem em código: “Careca, você rtou. Achei a história pacas. sei de quem é a zabumba, tamb é deste seu amigo.”. Que eu interpretei e traduzi livremente como uma mensagem de apoio incondicional do meu velho amigo. “Careca, você acertou. Achei a história boa pacas. sei de quem é a zabumba,
também é deste seu amigo.” Só pode ser. Valeu Velho.

Ninguém disse uma palavra contra o Real Madri. D.Quixote também foi unânime.
E Banderas? Esse foi dividido. Algumas mulheres adoraram saber que ele não é americano e tem sangue latino(Jurei mentiras e sigo...). Outras eram fãs do ator desde o primeiro filme e ficaram surpresas por eu pensar que ele era americano. Rá, rá. Eu sabia que ele era espanhol, de nascença. Mas esqueci. Depois comecei a pensar que o sotaque dele era problema de dicção.

Os homens não ligaram a mínima para o Banderas. Embora uns dois ou três tenham dito que ele, como ator, daria um bom toureiro. Achei esses comentários muito preconceituosos. Acho que ele é bom e deveria parar enquanto pode, antes que algum touro o atinja nos países de Almodóvar.

Agora, o grosso de comentários foi sobre o Júlio Iglesias. E isso nem tava no texto, tava nos comentários. Com meu impressionante castelhano “léngua-pala-fuera” fiz os mais crédulos crerem que eu quebraria minha coleção de elepês do Júlio Iglesias. Jamás, jamás. Non passarón. Como disse um famoso presidente, pura bravata. Acontece que não encontro a minha coleção de elepês. E eu tinha bem uns vinte. E se não os acho, não há como destruí-los. Rá,rá.

A nova geração que me lê, desatenta com seu Ipod, ei, presta atenção, não sabe quem é Júlio Iglesias. Pois o Iglê, como era chamado carinhosamente por muitos, foi o grande responsável pela trilha sonora de amassos e xamegos nas pistas de dança. Não que eu tenha sido um pé-de-valsa. Teve uma época, que durou muito pouco graças aos céus, que eu era chamado de bói-parede. As meninas ficavam de um lado. Eu e os outros caras do outro, encostados na parede, criando coragem para atravessar a sala e chamar para dançar. Aí tocava o Júlio Iglesias. As meninas se alvoroçavam. Os caras e eu criávamos coragem. Era aproveitar aquela lenta ou só dali a meia hora para um amasso. Nunca entendi nem uma vírgula do que ele falava. Para mim, Iglê significava música de 5 minutos para dançar agarrado e devagar. Depois descobri que isso era geral. Eu e a torcida do Flamengo não entendíamos xongas do que o Iglê cantava. Mas a gente achava o amasso bom demais.

Pois é, de vingança não tem nada. Aliás, eu só mencionei o Júlio Iglesias por causa de um amigo meu, que é mexicano, o Juan. Depois da Franka, o Juan é o maior fã do Júlio Iglesias que existe no planeta. E o Juan disse que se eu fosse mesmo para Madri ele também iria junto. Ele é da turma do deixa disso. É maluco, mas é gente boa, o Juan. Conforme recomendação médica, para não contrariar, perguntei o que ele faria para ajudar a apaziguar os ânimos.
_Colocaria um disco do Iglesias numa radiola, lá no aeroporto. Democraticamente. Para guardas e passageiros escucharem. Todo mundo ia dançar. Pelo menos as lentas.
_Juan, tu es maricon? Hay fumado? Estás loco de la cabeza!!– eu disse a ele.


E o Velho Tom escreveu de novo. Ele estava com problemas no teclado. A mensagem era “Careca, você surtou. Achei a história ruim pacas. Não sei de quem é a zabumba,
o tamborim é deste seu amigo.”

De quem será essa zabumba?

quarta-feira, 12 de março de 2008

Dos filhos deste solo


Naturalmente, quando eu soube que conterrâneos e patriotas foram barrados na Espanha, comecei a arrumar as malas. Quando a Patroa chegou, eu já estava com tudo pronto. Só faltava um sobretudo. Lá faz frio nessa época do ano.
_Benhê, cê viu o sobretudo?
_Está um calor de rachar mamona, ô Careca. Pra quê sobretudo?
_Em Madri está o maior gelo. Além disso, o meu passaporte ainda deve estar dentro dele.
_Madri, passaporte? Está delirando?
_Mas amor, estão humilhando os brasileiros na Europa. Estan a nos jamar de perros. Jô nô lo puedo aceptar, puerra! Não posso aceitar isso assim não. Preciso ir lá, dar uma força.
_Você conhece alguém que foi deportado? – perguntou, séria, a Patroa.
_Não, mas é tudo brasileiro, é tudo ouviramdú. Jô pongo la léngua pala fuera e hablo como Romário. Mi espagnol es perfecto..
_O quê é ouviramdú?
_ “Ouviram do Ipiranga”. Escucharam a lo Ipiranga.
_Para de enrolar a língua! E você vai dar uma força como, ô Careca?
_Já tenho tudo planejado. Estou levando tamborim, cavaco, pandeiro, cuíca...
_E você sabe tocar isso?
_Não, mas todo brasileiro que vai para o estrangeiro sabe. Nunca viu Copa do Mundo?
_ Então você vai lá entregar instrumentos de samba para os conterrâneos?
_Samba, forró, pagode, bossa nova, o psicodelismo da fase Racional do Tim Maia... o som que pintar. Mas vamos começar com “Um Táxi pra Estação Lunar”. Quando eu encontrar a rapaziada o repertório já estará todo definido.
_E quem garante que eles vão querer te deportar, Careca?
_É brincadeira, né? Mas estou levando uma garrafa de cachaça para garantir. E limão. Vai ser uma deportação de primeira. Eu e os patrícios jamais nos esqueceremos. Por supuesto.
_Carequinha, meu amor, deixa disso, vai. Pensa nas crianças.
_Mas é nelas que eu estou pensando. Isso é o sagrado direito de entrar no país dos outros na marra.Você barraria alguém por querer trabalhar ilegalmente em outro país? Ou só porque quer ganhar em Euro por vender o corpinho? Claro, mas barraria com educação. Não pode ser assim, com brutalidade. Tem que pedir, por favor, dê o fora. Sivuplê, some daqui.
_Careca, pensa bem...
_ Estou me esforçando. E as malas já estão prontas. Jô nô soy um perro, non....
_Quando as crianças crescerem, elas vão querer conhecer o Museu da Rainha Sofia, o Museu do Prado... o San Tiago Bernabéu ... E deportado não pode voltar.
...
_Pelo Templo do Real Madri, Patroa! Você tem razão. Mas não vou deixar pra lá. Em retaliação, vou esconder o meu D.Quixote e ficar um mês sem comer paella.
_E eu vou trancar os vídeos do Almodóvar no armário.
_E eu só vou usar tênis, nada de sapatos e nem de sapateiro... De quem será esse pandeiro? E essa cuíca? Amoooor, você lembra de quem é essa zabumba?

_Careca, por que você gosta tanto de uma polêmica?
_Polêmica, polenta frita, polenguinho ... todo mundo gosta. Hum, esse filme “Ata-me” é bom mesmo, hein?!

_Ué, o Banderas não é americano? No próximo Zorro, eu vou torcer para o Sargento Garcia...Ólé, Sargento, olé.

terça-feira, 11 de março de 2008

Viva o duplipensar



Ainda é cedo para falar, afinal as eleições de lá serão em novembro, mesmo assim eu apostei com o Cabeça que os vencedores não serão os democratas. Mesmo porque já vi esse filme por aqui. Os caras que você pensava que eram os mocinhos são os vilões. E os corruptos vencem o tempo inteiro, bem antes do filme acabar. É triste.
Alguém se lembra do que é “duplipensar”? É da novela do George Orwell (1984). Na minha memória canhestra é o exercício diário de pensar a coisa certa e a que o Grande Irmão quer ao mesmo tempo. Dois e dois são cinco. Não se aplica apenas a quem vive sob regimes totalitários. Você pensa em agir como se o Grande Irmão estivesse certo, não faz a burrice que ele diz para você fazer, embora sinceramente acredite que esteja fazendo. E você admira o Grande Irmão por isso.
Vou desenhar um exemplo.
Tipo assim. O Fidel diz que vai sair, que agora quer descansar e quem manda agora é o Raul. Aham. Todo mundo acredita, escuta os discursos do Raul e aumenta o número de botes cubanos abatidos rumo à Flórida.
Outro exemplo?
Um político diz que é preciso meter a mão na coprofilia para entender de política e de projetos como o da transposição de um rio. Você é bombeiro hidráulico e não concorda com isso. Vive com a mão naquilo e nunca foi nem candidato a vereador. E também acha que o projeto de transposição é que deveria ir para o ralo. Mesmo assim votaria no político porque ele tem uma mulher bonita.
Não entendeu? Quer outro exemplo?
Tem uma fila enorme de pessoas na frente do cinema. Aí você vê um conhecido antigo, um sujeito que você detesta, bem pertinho do caixa. E pede para ele comprar dois ingressos para você. Ele faz cara de nojo, mas compra. E você corre para levar para a namorada. E só quando você se livra da multidão é que lembra que o sujeito é o ex-namorado dela, e que é por isso que você detesta aquele cara. E quando você consegue encontrar a namorada ela já está de mãos dadas com o ex. E ela dá tchauzinho antes de entrar no cinema com o sujeito. Mas você dá risada, porque o filme é Rambo IV e não vale nem fila furada.
Tá bom, esse não valeu.
Mais um?
A solução para o problema de transporte na cidade é investir no transporte público. Alguém passa com o carrão a 150 km/h na poça que existe em frente ao ponto-de-ônibus e molha todo mundo.Você também quer um carrão daqueles.
De novo?
Educação, saúde e segurança só melhoram com boas políticas públicas. Essas políticas pressupõem um mínimo de raciocínio e bom senso. E você votaria no Obama, ou na Hilary se fosse americano. Mas, da última vez, você não teve bom senso quando votou em quem não tinha um mínimo de raciocínio.
Mais um, outra vez?
Alguém aproveita as férias para um check-up. O médico chega e diz pro sujeito que ele só tem mais uma semana de vida. Ele vibra, pula de alegria e diz que nunca mais vai trabalhar.

Ou seja, o duplipensar permite assobiar e chupar cana ao mesmo tempo e tudo continuar por isso mesmo. Duplipensar é trair o próprio pensamento e se achar fiel a ele. É difícil. Mas nós aqui estamos meio viciados em duplipensar. Pensando bem, viva o duplipensar!!
Lá nos EUA vai dar republicano, de novo.

segunda-feira, 10 de março de 2008

Manteiga derretida



O Humberto é um apresentador de jornal da TV. Super gente fina e louco. Um e oitenta e nove, já foi boa pinta, mas pensa que ainda é até hoje. A TV ficava perto da rodoviária, o lugar mais movimentado da cidade. Toda vez que estávamos na calçada, a fumar um cigarro fora do estúdio, o Humberto, com sua aparência de bem sucedido, era abordado pelos pedintes de plantão. Geralmente acontecia na volta da ida ao carrinho de salgados e caldo de cana.
_Moço, vê um troco?
O Humberto parava e olhava para mim.
_Tô vendo. Esse careca aqui foi trocado na enfermaria – ele dizia, só pra me sacanear.
_Moço, um trocado?
_Comigo é só autógrafo. Pede dinheiro pro Careca. Ele é que tem grana – dizia, sério, o Humberto.
_Moço, ranja um dinheirim?
_Carecas não ranjam. Careca é ponto de referência. Vira no Careca. À direita do Careca. E comigo não tem grana. Mas se quiser um salgado é só falar aqui com o Júnior – eu dizia, conduzindo o indivíduo até o dono da carrocinha de salgados. Era fantástica a quantidade de comida que o Júnior vendia em troca de umas moedas.
_Mas eu não quero comida, quero um trocado.
_E mendigo escolhe? – atropelava o Humberto.
_Você tem que estudar mendicância, rapaz. Tá pensando o quê? Cheguei, pedi e ganhei? – ele emendava.
_Não, não é assim mais não. Agora tem que ter objetivo definido. Metas a alcançar. E depois, o sindicato não aceita qualquer um não. Mendigo, nessa cidade, tem que ter um mínimo de profissionalismo – arrematava o Humberto.
Esse tratamento tinha uma razão de ser. O Humberto achava que alguém tinha que treinar aqueles sujeitos para que fossem capazes de suportar os mais cruéis e truculentos do que nós. Estávamos todos apavorados na cidade que tinha acabado de queimar um índio mendigo, “só de brincadeira”.
E embora não exista uma maneira de se preparar alguém contra a truculência, o Humberto se considerava um testador de pedintes. Ele sinceramente acreditava que poderia aumentar as chances de sobrevivência de qualquer um. Se o cara se saísse bem ao pedir dinheiro para ele, estava aprovado como mendigo, ganhava pastel, caldo de cana, tapinha nas costas. Se não fosse aprovado, eu é que pagava.
Às vezes, só de olhar para o mendigo o Humberto desistia:
_Careca, paga um salgado pra ele – dizia, sem esconder o desagrado.
Às vezes, a conversa ganhava um rumo triste:
_Mendigo tem que estar preparado para agüentar desaforo, rapaz. Tem gente nesse mundo que faz xixi na cabeça dos outros. Tem que ser forte, não pode ser assim não – ensinava o Humberto.
E é lógico que alguns, os mais humildes, não entendiam nada.
_Não ganhou diploma, né? – eu falava pro cara.
_Que diploma, Seu Careca?
Mas na maior parte das vezes eu estava ali para segurar a onda do Humberto:
_Liga não, esse cara é louco. Pega lá um pastel. Ô Júnior, dá um combinado aqui pro rapaz. Amanhã eu acerto.
Se os mendigos fossem lâmpadas, o Humberto seria uma espécie de soquete ambulante. Ele era capaz de dizer quem ia demorar na rua e quem ia se mandar rapidinho. E ele dava conselhos aos pedintes.
_Mendigo de verdade, não fica parado na mesma rua. A solidariedade da segunda é a raiva da terça. Tem que variar. Mendigo não dorme no ponto. Fica esperto – explicava ele.
_Moço, dá...?
_Não, você não fala “dá” de jeito nenhum. Tem que ser “arruma”, “me vê”, “arranja”... de preferência, comendo pedaços das palavras. “Ruma, mvê, ranja”. E nada de falar “ajuda”. Ninguém ajuda ninguém. Nem “auxílio”. Quem “auxilia” não tem trocado, nunca. Auxílio é coisa de igreja. Aqui é rua, é calçada. Careca, paga um pastel pro rapaz – doutrinava o Humberto.
E ele procurava manter o ambiente competitivo.
_Ôpa, opa, opa, opa... Você de novo? Tem que dar chance para os outros, ô cara. Não pode ser você todo dia. Se mendigo não for bacana com mendigo, quem vai ser? O guarda? Não, não pode ser assim, não. Careca, paga um combo pra ele.
Desse modo, havia um relativo rodízio de mendigos. Mas também havia os contumazes. Os mendigos que não largavam o pé, que passavam semanas, às vezes até o mês inteiro por ali. Esses, o Humberto adivinhava com uma olhadela.
_Você quer dinheiro pra quê? É pra encher a cara?
_É pra comprar comida.
_Então não dou. Careca, um combinado para esse mala.
O mendigo ficava ali, atônito. Mas depois, não sei como, os caras tinham um estalo e sacavam.
_Moço, rúmaum troco?
_Excelente pronúncia! Muito bem! Troco pra quê?
_É pra comprar pinga.
_Tome aqui, infeliz. Está estragando o fígado que poderia vender.
E o cara saía feliz da vida, como se tivesse enganado um trapaceiro.
Ou então:
_Moço, rúmamueda?
_Bela dicção!Moeda pra quê?
_É prum picado.
_Toma e compra um estoura-peito.
Era um sorriso que ainda vejo nas fotos de aprovados em vestibular.
Uma vez eu disse para o Humberto que ele, no fundo, era manteiga derretida.
_Careca, você não entende de nada! Ô Júnior, rúmumpastéuprelaqui!

domingo, 9 de março de 2008

Olho por dente, dente por olho




Fiquei chateado com a história do menino de oito anos que desistiu de cursar direito na Unip. Tá certo. Existem pais que expõem os próprios filhos a situações vexatórias. Existem cursos fajutos. Existem faculdades fuleiras que aceitam qualquer um que pague a mensalidade. E existem instituições que entregam diplomas que não servem nem para segurar a moldura. É preciso moralizar e coisa e tal.
Mas nada disso tem importância para aquele menino. Ele foi sincero em todas as etapas. Fez inscrição, estudou, passou, comemorou e até vestiu terno para foto. Foi prodígio na própria cabeça por alguns dias, talvez semanas. E depois barraram o menino na porta da escola, digo, da faculdade. Disseram para o pequeno gênio que tudo não passava de um engano. Ele não era gênio. O curso e a faculdade é que não prestavam. Coisa de doido. Quando tudo poderia ter sido muito diferente.
Imagino ele chegando em casa, voltando da faculdade, naquele dia. Desce do carro do pai, que o acompanhou para uma manhã de glória virada em fracasso. Dá de frente com o Juca, o menino do vizinho, que é a cara do Bart Simpson.
_Esse terno. Fezes ou primeira comunhão? – pergunta o Juca.
_Nenhum dos dois. Eles me barraram na faculdade. E você? Por quê não foi para a aula? – pergunta o herói.
_ Tou cum diarréia.
_Comeu sabão de novo? Ou vai alegar inocência?
_ Comi sabão. O que vai fazer agora?
_Entrar com uma petição para requerer a minha maioridade antecipada. Depois vou processar meus pais por exposição traumática, tortura psicológica, paternidade irresponsável, perdas e danos... tanta coisa. Mas de imediato dá para bloquear bens e confiscar passaportes.
_ Podemos brincar amanhã? – pergunta o Juca.
_Não vai dar. Tenho uma pilha de processos pra ler...
Não. Eu estava torcendo de verdade para aquele menino. Queria que no meio do curso ele pedisse transferência para a USP e fosse admitido. Queria que ele concluísse o curso e tivesse se tornado um campeão da justiça. Queria que ele, que nem o menino-prodígio Bob Fischer, inventasse o blitz-direito. Mas acho que não estamos preparados para mitos. Na verdade, não temos o menor saco para mitos, ainda mais mitos mirins. E não temos saco para posts EMOs, franjas e franjolas.
Ou talvez tudo tenha acontecido de uma forma diferente e melhor.
_Esse terno...Fezes ou primeira comunhão? – pergunta o Juca.
_Fezes. Vamos brincar?
_Ué, você não tinha faculdade?
_ Aquilo não é para mim não. É coisa dos meus pais. E você não tinha escola?
_Comi sabão de novo. E o que vai fazer agora?
_Estou pensando em algo mais criativo e dinâmico. Artes, teatro, cinema. Por outro lado, o direito é uma opção de carreira sólida, de futuro...
_Se quiser comer sabão, pode me chamar lá em casa – despede-se o Juca.

sábado, 8 de março de 2008

It´s a Man´s Man´s World – The Day After




(Eu já escrevi sobre o Velho Tom aqui? Acho que sim. O Velho Tom é poeta, maestro, compositor e professor. É super competente. Já publicou diversos livros de poesia. Gravou um monte de cds de música clássica. Vendeu milhares de exemplares. Conseguiu a façanha de ficar rico e viver de direitos autorais no Brasil... Brincadeira, é lógico)
Eu e o Velho Tom estamos na floricultura.
_Acho que todo dia devia ser Dia Internacional da Mulher.
_Eu sei, tá bom, Velho Tom.
_É sério. O que seria de nós homens se não fossem as mulheres?
_É verdade, Véio.
_As mulheres é que alegram, colorem e enchem esse mundo de paz e amor.
_Colorem?!
_As mulheres são demais, Careca!
_Tem mulher à beça.
_As mulheres é que me fazem levantar todos os dias.
_Lá em casa também. Acordam cedinho...
_As mulheres é que me fazem acreditar na humanidade. Mulher é o sal da terra.
_Cuidado com sal...
_Mulher é o bicho!
_E com raiva, então? Sai de perto!
_Mulher...
_Não, Véio. Pensando bem, esquece a mensagem. Vou entregar as flores sem cartão mesmo...
_ Pô! Logo agora que eu quase encontro as palavras...
_Velho, não é encontro, não tem cinema e nem motel. Ainda mais com palavras. Eu só queria uma coisa legal para colocar no cartão. E tu és poeta, pô. Custava arranjar um verso.
_Ando meio enferrujado, eu nem sinto os meus pés no chão...
_Plágio não.
_É, né? Eu é que falo de James Brown, de Matilda. Que idéia mais besta...
_É coisa de rádio, Velho Tom. Todo mundo dedica a música pra alguém e pra moça que anota as dedicatórias. Lembra da Xuxa. Beijo pro papai, pra mamãe e pra você, Xuxa. Mesma coisa.
_É, mas na TV está ali, você vê a coisa toda. No rádio, não. Fica o recado no ar, cheio de subjacências. Não foi à toa que a Patroa ficou fula de raiva com você, Careca.
_Subjacências?
_Bonita, né? Gosto muito dessa palavra. É de um verso do meu livro “O último dos pirilampos sou eu”. Corre, ó, donzela, esquece das subjacências e deixe que eu penetre as reentrâncias, qual onda sacudindo o ...
_Sutil como Wando. Lembra um pedaço de Moraes Moreira também.
_São influências perenes na minha opus. Pode usar esse verso que é infalível. Mas cuidado, ele desperta emoções violentas.
_Santo é o Senhor!
...
_Flores?! Champagne! Nem vem que não tem.Vai levar isso pra Matilda, vai.
_Tem um cartão, amor. Lê aí...
...

_Careca, o Velho Tom conseguiu mesmo vender algum livro?
_Milhares. Os versos dele despertam emoções violentas, provocam alvoroços, pipocam erisipelas, geram revoluções.
_Acho que eu não entendo nada de poesia.
_Mentira!Tu és um soneto! Vamos fazer mais uma metáfora com estribilho rimado...
...
E o dia amanheceu, em paz.

sexta-feira, 7 de março de 2008

This is a man’s man’s world




Pode parecer, mas não é provocação. Essa é a música que eu mandei tocar hoje no rádio, em homenagem ao Dia Internacional da Mulher. Eu avisei para a Patroa que às 10 em ponto ligasse o rádio e ouvisse a surpresa. A moça do rádio perguntou qual era a minha mensagem. Eu disse:
_O Careca dedica essa canção para a esposa, para a filha e todas as mulheres e meninas do mundo.
_Careca? Escreve com K? – perguntou ela.
_Cá? Não, é com C, de casa – respondi, educado.
_Ah, Careca. Bonita a sua mensagem, viu. Original, né? - irônica, irônica.
_Pensei muito para fazer essa dedicatória. Gastei uma resma só de rascunhos. Mas ficou boa, né? Singela, mas profunda, né? – eu concordei. Havia alguma coisa me escapando.
_Vai entrar no ar a partir das dez – disse a moça.
Aí me deu o estalo.
_E como é o seu nome, heim?
_Matilda – ela disse, agora com uma voz mais simpática.
_Matilda é um belo nome. Olha Matilda, eu queria que a minha mensagem fosse assim:
“O Careca dedica essa canção para a esposa, para a filha, para a Matilda e todas as mulheres e meninas do mundo.” Que tal?
_Ficou bem melhor.

As mulheres vão ouvir milhares de músicas no Dia Internacional da Mulher, mas acho que só essa, do James Brown, fala das mulheres e das meninas.

A versão de This is a man’s man’s world de 19 de agosto de 1974 do disco homônimo de Renée Geyer (http://www.youtube.com/watch?v=N10B1cy-V7g ) é a preferida dessa semana da minha filha de três anos. Essa música foi a número 1 do ano de 1966 e se tornou um emblema dos shows de James Brown desde aquela época.
É considerada a número 123 entre as 500 melhores de todos os tempos no ranking da revista Rolling Stone. A número um da lista (http://www.rollingstone.com/news/coverstory/500songs ) é Like a Rolling Stone de Bob Dylan. Mas dessa minha filha não gosta.
Do Bob Dylan, como eu, ela prefere Slow Train Coming (é a música de 6 minutos que toca ao fundo desse excelente slide show em http://www.youtube.com/watch?v=6WODPuUo7sw ). O Bob Dylan, você sabe, nunca cantou uma música do mesmo jeito. Compare com http://www.youtube.com/watch?v=qgSnczPPfaQ , de 4 minutos, e entenda o que estou falando.
Você pode querer conhecer também a versão This is a man’s man’s world da Christina Aguillera(http://www.youtube.com/watch?v=rh2Yxp6q2h0 ) que é muito legal. A Aguillera tem um vozeirão danado de bom. Mas, para mim, a versão dela, apesar da sua força de intérprete e da belíssima voz, perde em emoção para a da Natacha Atlas (http://www.youtube.com/watch?v=dh7GTClKBQo ). Só achei essa no UTube, mas a gravação do disco Something Dangerous é um arraso. Aliás, sou fã da Natacha desde que tomei uma vodka homônima e escutei a voz dela saindo de um walkman. É lógico que a versão do James Brown (http://www.youtube.com/watch?v=PgVLCzt81dw) é legal. Mas ele também fez as suas besteiras em James Brown e Pavarotti (http://www.youtube.com/watch?v=VCIyzNISw1Q ). Há quem prefira uma versão gravada pela Cher, mas eu me recusei a procurar essa.

A letra é super simples:
This is a man's world, this is a man's world
But it wouldn't be nothing, nothing without a woman OR A GIRL
You see, man made the cars to take us over the road
Man made the trains, to carry heavy loads
Man made electric light, to take us out of the dark
Man made the boat for the water, like Noah made the ark
This is a man's, a man's, a man's world
But it wouldn't be nothing, nothing without a woman or a girl
Man thinks about a little baby girls and a baby boys
Man makes then happy, 'cause man makes them toys
And after man has made everything, everything he can
You know that man makes money to buy from other man
This is a man's world
But it wouldn't be nothing, nothing without a woman or a girl
He's lost in the wilderness
He's lost in bitterness


E na wikipedia tem mais informação em http://en.wikipedia.org/wiki/It's_a_Man's_Man's_Man's_World_(song) .


Eu sei, eu sei. A Patroa vai chegar em casa e vai querer explicações sobre essa tal de Matilda. Mas eu tenho outra surpresa preparada.

quinta-feira, 6 de março de 2008

A falência do economista amador




Fiz uma pesquisa no blog e descobri que falo um bocado em dinheiro. É falta de grana pra lá, falta de dinheiro aqui, il manque dárgent ici, e por aí vai. Talvez, quando falte alguma coisa, a gente acabe por falar muito dela. Seria uma tentativa de suprir uma lacuna com palavras, uma espécie de eutanásia lingüística da saudade. Mas não funciona, é lógico. É como tentar matar shmoos.
O assunto é tão freqüente que outro dia um dos meus três leitores (eram quatro, mas a M.J. deve estar viajando) perguntou se eu era economista. Mais especificamente, ela perguntou se eu era um economista chamado Cláudio Didjei.
Respondi assim:
_ Márcia, infelizmente não sou economista (mas quero ser milionário). Meu nome não é Cláudio. E pensei que Didjéi não fosse nome, mas profissão. Agora, se eu fosse economista e me chamasse Cláudio Didjéi, certamente estaria no BACEN animando festinhas como "D.J. Careca - juro alto e lucro embaixo".
Aí fiquei pensando se eu não poderia ser um economista amador. Pensa bem. Os economistas são pessoas que entram na faculdade pensando em aprender tudo sobre economia e com isso ganhar rios de dinheiro. Eles estudam pra caramba. E aprendem tudo o que poderiam sobre economia. Aí saem da faculdade e percebem que o governo de plantão está fazendo tudo ao contrário do que deveria. E que só não falimos por milagre e graças à informalidade. Tudo o que aprenderam está de cabeça para baixo. Isso pira o ser humano. Mesmo que ele já seja um economista pirado. Oras, se um economista pirado pode dar palpites sobre a sua grana, eu também posso.
Então, ontem eu lembrei de um jeito de ganhar uns trocados. Vesti um terno, uma camisa, uma gravata, uma cueca, meias, coloquei as minhas botinas pretas e fui para o shopping com a minha pasta 007. Bom, acho que fiz isso numa ordem diferente. No shopping, sentei numa cadeira bonita, de frente para uma das lojas mais caras, perto do restaurante. Coloquei um papel impresso “ECONOMISTA AMADOR” em cima duma mesinha que tem lá e fiquei esperando o povaréu fazer perguntas. Depois de dez minutos, o povão passava e ninguém tinha perguntado nada. Comecei a ficar angustiado, aí lembrei da pasta 007. Abri a pasta, com cuidado, como se tivesse uma cobra dentro. Enfiei a mão dentro da pasta. Fui tateando dentro, olhando para cima, mordendo a língua de lado. Mexi dentro da pasta um pouco. Barulho de chocalho. Arregalei os olhos. Mexi com mais cuidado. Língua de lado. Novo barulho. Quando olhei, já havia uma multidão em volta. Tirei a mão e fechei a pasta, rápido. O povo fez “óóóóóóóóóóóóó”.
Com a pasta no colo, apontei para um sujeito de branco, com um estetoscópio no pescoço.
_Ei, o senhor é médico, não é? – eu disse, com minha bela voz de barítono.
_Como é possível? – ele perguntou, incrédulo.
O povo fez “óóóóóóóóóóóóó”.
_Adivinhei por causa do Rolex. A outra opção era Pai de Santo. Mas aposto cem real como você já perdeu dinheiro com apostas – pisquei o olho.
_É, já perdi! É incrível! – e o povo fez “óóóóóóóóóóóóó”.
_E aposto mais cem real como você paga restaurante com cheque de cliente. Tá bom ou quer mais? – e o povo fez “óóóóóóóóóóóóó”.
_ Tá bom! Eu pago! – e o povo fez “óóóóóóóóóóóóó”.
_ Paga duzentinhos aí, então – eu disse estendendo a mão.
Ele pagou e o povo fez “óóóóóóóóóóóóó”. O médico foi embora, apressado.
_Alguém mais quer me dar dinheiro? – eu falei, rangendo os dentes.
O povaréu começou a debandar. Eu coloquei a grana que o médico me passou dentro da pasta 007 e me mandei, rapidinho.
À noite, a Patroa quis saber aonde eu tinha ido de terno e gravata.
Eu expliquei, sem entrar em detalhes, que eu fui encontrar o Cabeça no shopping onde ele almoça e cobrar uma aposta antiga. O Cabeça gosta de roupa de grife. Eu sou meio largado, mas fico bem de terno. E eu tinha apostado com ele que eu, becado e com uma pasta 007, era capaz de juntar uma multidão no shopping. Cem mangos. Mais cem se o povo fizesse “óóóóóóóó”.

quarta-feira, 5 de março de 2008

Clique aqui e me ajude a conhecer Paris




Uma das melhores coisas da vida é viajar. Mas não pode ser o tempo todo, a trabalho. Viajar numa boa, para não fazer nada, sem preocupação com grana, com tempo e bagagem. E também não é bom ir para muitos lugares nessa viagem. O melhor é ficar pelo menos uma semana num lugar só. Num hotel simples, mas que seja perto de tudo. Para andar a pé, passear um pouco em volta. Nada longe. Mas se quiser ir longe, que seja de fácil acesso com o metrô ou o táxi. Assim, só para desanuviar a cabeça.
Eu queria viajar assim para Nova York, Paris, Amsterdam, Londres, Praga e Berlim. Parece muito, mas se fosse pouco eu não perderia tempo pensando nisso. Mas, se tivesse que reduzir a lista para uma cidade, queria ir para Paris, conhecer melhor aquela cidade. Ficar de bobeira por ali. Ver francesas desfilando alta costura e roupa de gente nas ruas. Tomar um café. Comer um croissant. Tomar uma taça de vinho. Queijo. Procurar o restaurante onde filmaram aquele filme, Ratatuí. E depois entrar no MacDonald´s. Pedir um Lê Big Mac, que nem o Travolta diz que fez, em Pulp Fiction.
Mas dólar não dá em abacateiro. Mesmo sendo verde.
Então pensei na minha Kombi de leitores. Vocês valem ouro, ouro puro.
A idéia é bem simples, se quem quiser pode copiar.
Vou pedir para meu amigo Rodrigão fazer um site para eu ganhar dinheiro.
O site vai ter um botão verde no meio da página para clicar. Só isso. Quem clica estará, automaticamente, enviando 99 centavos de dólar para a minha conta bancária.
É lógico que isso pressupõe a existência de um ou vários patrocinadores. Eles é que bancarão todas as despesas com a viagem e as minhas mordomias. Cada patrocinador estará sendo visto pela minha Kombi de leitores a cada clic. Isso porque depois de cada clic aparecerá uma mensagem de agradecimentos do patrocinador, assim:
_Obrigado por ajudar a mandar o Careca para Bagdá. Nós, da(o) (aqui entra o nome dos Patrocinadores) também queremos que ele se exploda.
Sacaram? O site diz que vai me mandar para Bagdá, os patrocinadores acreditam nisso, os eventuais visitantes únicos também pensarão que estarão me mandando para a Catatuia. Mas não, meus fiéis leitores, eu estarei de malas prontas para a Cidade Luz. Estarei contando cada centavinho enviado, convertendo em Euro e pensando nos croissants.
E eu já tenho uma lista de potenciais patrocinadores.
Seu Manoel – o Seu Manoel é dono da padaria aqui perto de casa.
Seu Joaquim – o Seu Joaquim é o dono do açougue aqui perto de casa.
Seu Alfredo – o Seu Alfredo é o dono da mercearia aqui perto de casa.
Dona Maria – a Dona Maria é a dona da outra padaria aqui perto de casa.
Seu Liu – o Seu Liu é o dono do verdurão aqui perto de casa.
Seu Han – o Seu Han é o dono do outro verdurão aqui perto de casa.
... E tem pelo menos outros 40 empreendedores portugueses, coreanos, japoneses, italianos e gringos radicados no Brasil que apoiarão esse projeto. Até o gerente do meu banco, que é um cosmopolita natural da profissão mais antiga do mundo, vai apoiar o projeto...

Não vai dar, pessoal. A Patroa disse que não adianta nem eu querer, que sozinho eu não vou. E que se tiver que ir alguém sozinho para Paris, que seja ela, que ela se sacrifica. Eu achei isso muito nobre da parte dela. Ela disse também que alguém precisa ficar com as crianças.
Rodrigão, pode esquecer o projeto.
E o pior é que eu demorei um tempão para desenhar o lay-out. É o botão verde reproduzido acima. Bonito, né?

terça-feira, 4 de março de 2008

Um campeão de auto-ajuda




Tive um pesadelo horroroso outro dia. Eu estava sentado numa bela cadeira. E havia uma bela mesa de madeira. E havia uma porção de livros. Eu deveria estar, mas não estava feliz. Eu gosto de livros. Procuro estar cercado de livros. Mas no pesadelo eu não estava feliz. E eram livros a rodo. Mas eram livros de auto-ajuda.
Os títulos eram horrorosos.
“Como aumentar o seu poder de fogo”, dizia um.
“Arrebente a boca do balão”, dizia outro.
“Abra as asas para o sucesso”, vaticinava um terceiro.
“Faça amigos, faça inimigos e venda para todos”, afirmava um quarto.
Estava a ponto de gritar quando percebi que era um pesadelo.
Acordei. Abri os olhos devagar. Eu agora estava numa biblioteca. Livros para todos os lados. No sonho, eu pensava estar dentro de Auto-de-Fé(Elias Canetti). E essa parte foi muito legal. Mas eu não lembro de quase nada. E isso é chato à beça. Só lembro de pesadelos. Dos sonhos, que são bons, quase patavina.
Mas isso me deu a idéia de listar os títulos de livros de auto-ajuda que deveriam constar da cabeceira dos aflitos. Nenhum deles foi escrito ainda, mas quem quiser pode usar os títulos. Veja abaixo:
“Contente-se com pouco ou quase nada”- um guia para quem ganha salário mínimo.
“Viva feliz com migalhas”, uma variação do tema acima.
“A alegria de penhorar” – aprenda a se livrar das dívidas com a mercearia.
“Curta o banho de sol” – para conviver com os colegas de cela.
“Cucaracha feliz” - para quem já desistiu daqui e foi tentar a sorte na América.
“Muamba pra todo mundo” – freqüente a tríplice fronteira com um sorriso no rosto e pacotes de cigarro debaixo dos braços.
“Sacode a poeira” – um guia para a limpar a casa, a cabeça e levantar o astral.
“Carro, espuma e sucesso” – um guia para lavar o carro e vencer no mundo dos lava-jatos.
“Tire a mão da minha lingüiça: um guia para CEO's com déficits de atenção”.

Calma, calma. Sem alvoroço. Eu sei que esse último aí despertou o seu interesse. É um livro de verdade. E não é de auto-ajuda. Ouvi falar desse livro em http://selvabrasilis.blogspot.com/ . Mas veja uma resenha decente sobre ele em : http://www.osviralata.com.br/01prosa/01_tireamao.html .

Pode ir lá que é legal.

segunda-feira, 3 de março de 2008

Coleções inesquecíveis




Teve uma época que eu gostava de tomar vinho. E eu bebia numa boa, sem me meter a conhecedor. E sem fins reprodutivos. E eu juntava as rolhas das garrafas. Quando casei com a Patroa, trouxe a minha coleção de rolhas de garrafas comigo. Éramos inseparáveis.
_Quê qué isso, Careca?
_São lembranças doces e amargas dos momentos essenciais da minha vida – eu disse, com um suspiro.
_Para mim parece um monte de rolha velha. Você lavou essa porcaria? – cortou a Patroa.
_Claro. Um dia elas serão muito úteis.
_Úteis é o caramba! Isso não serve nem para jogar no lixo.
Se a minha veia poética fosse uma carótida, a Patroa já teria provocado uma hemorragia fatal há muitos anos.
Um dia cheguei em casa e não vi a minha coleção de rolhas de garrafas de vinho.
_Você viu, bem? Estava bem aqui, do lado da orquídea?
_Viu o quê?
_A minha coleção.
_A mamãe veio visitar a gente, pediu uma rolha e eu dei para ela.
_E o que fez com as outras?
_Bom, não sei, ela só estava precisando de uma, então eu pedi para ela jogar o resto fora.
_E ela jogou na lixeira, benhê?
_Não, ela jogou direto num caminhão de lixo que estava passando na hora.
_Muito, muito gentil da parte dela.
_Mamãe é su-per-le-gal.
_Não te disse que as rolhas seriam úteis? Quer dizer, pelo menos uma delas foi.
_Ela ligou agora. Não serviu na garrafa. A mamãe teve que jogar fora.

Aí eu entrei numa fase esportiva. Fazia exercícios como Frei Tuck e tomava Gatorade. Na época eles tinham uma garrafa legal, bonita, toda trabalhada. Eu achava bacana à beça. E comecei a juntar.
_Pô, Careca, porque você está juntando isso?
_São lembranças de dias suados e de esforços fantásticos – eu disse, fungando o nariz.
_É um monte de garrafa feia.
_ É um modo de ver as coisas. Mas um dia elas serão muito úteis.
_Útéis é o caramba! Essa nhaca não serve nem para reciclar!
Se eu tivesse mesmo uma veia de atleta, a Patroa já teria infartado ela.
Um dia cheguei em casa e não vi a minha coleção de garrafas de Gatorade.
_Você viu, benhê? Tava bem aqui, perto sua coleção de orquídeas.
_A mamãe veio visitar a gente, pediu uma garrafa e eu dei para ela.
_Acho que já tivemos uma conversa parecida. E o que fez com as outras?
_Pois é, quando fui pegar uma, tropecei e esbarrei nas outras 158 garrafas. Caíram todas no chão e quebraram. Tinha caco em tudo que é lugar!
_E você machucou, amor?
_Não, mas minha mãe teve um corte no dedinho!
_Eu sabia que iam servir para alguma coisa.

Aí, um dia a Patroa chegou em casa e não viu a coleção de orquídeas...

Frase do dia


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