Mostrando postagens com marcador Banderas. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Banderas. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Um diretor de cinema para minha vida

É só uma hipótese. Vamos dizer que, um dia, alguém resolvesse fazer um filme sobre a minha vida. Em se tratando de filme nacional, tudo é possível. Já filmaram coisas piores, e, além disso, tenho certeza de que um filme sobre a minha vida seria tão ou mais inteligível quanto “Terra em Transe” ou “O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro”.

Se bem que esses dois filmes não valem. Qualquer filme é tão ou mais inteligível que as obras-primas de Gláuber Rocha, aquele gênio espertalhão. Gláuber foi o cineasta que inventou o “cinema-nau-fragô” de resenha comentada. (Tem um monte de “wave”, “new wave” mas ninguém fala da “wrong wave”, “onda errada”, “bola fora”, “bad surf” e estilos furados inventados na mesma época)

Não importa. Para o bom espectador do estilo “onda má-perversa-destruidora” do Gláuber, você tem que ler a entrevista do diretor, o roteiro do diretor, os comentários sobre cada plano do filme feito pelo diretor e também acompanhar a vida e a obra do diretor para entender o que diabos ele está falando. É lógico que mesmo fazendo tudo isso, você jamais conseguirá entender patavina, porque o Gláuber era mais chegado num hermetismo que o próprio Hermeto Paschoal, que é albino, gênio, toca todos os instrumentos da orquestra e mais uns porquinhos.

Pois então. Do que é que eu estava falando mesmo? Ah, sim. Do filme da minha vida. Bom, se eu pudesse escolher diretor eu escolheria o Gláuber ou o Jabor. Nenhum dos dois gosta de uma narrativa linear e minha vida é uma barafunda complicada, um novelo de lã de lhama bagunçado por animais silvestres. Mas, como nenhum dos dois gênios brasileiros está na ativa, tentaria os estrangeiros.

Minha primeira opção seria Martin Scorcese. O cara é bom de épico. E minha vida, sem sombra de dúvida, daria um filme épico. Cecil B. de Mille faria um novo Crepúsculo com os meus crepúsculos. Minha vida é um quadrúpede iluminado, igual ao que ofereceram para os troianos. Além disso, minha memória das coisas é em preto-e-branco, estou sempre acima do meu peso ideal e já quebraram o meu nariz com um soco.

Mas Robert de Niro já está um pouco velho, então Di Caprio teria que raspar a cabeça para o papel-título.

Se Scorcese estivesse muito ocupado, tentaria Almodóvar. Sim, porque minha vida às vezes parece uma tragicomédia novelesca e nonsense, bem brega. Caso Almodóvar não quisesse filmar novamente com Antonio Banderas – que teria que raspar a cabeça , haveria ainda mais uma alternativa: o inigualável Robert Rodrigues.

Rodrigues é um super-diretor de efeitos especiais canhestros, uma coisa de que a minha vida está cheia. Quero dizer, o último porre com efeitos especiais que eu tomei foi no aniversário do Cabeça. Na ocasião, os efeitos capricharam nos roncos canhestros. Tanto que a Patroa me mandou dormir na sala, no que obedeci, é claro, que eu não sou besta. Onde eu estava? Pois sim, em Robert Rodrigues.

Seria uma ótima opção, Robert Rodrigues. Até porque ele transita bem pelos mais diferentes gêneros do cinema. Huummm! Vou reconstruir a frase. Rodrigues é capaz de filmar com a mesma competência o trágico, o cômico, o romântico, o épico e o besteirol mais rasteiro de que já se teve notícia. Ou seja, a história da minha vida. Mas George Clooney teria que raspar a cabeça, é claro!

quarta-feira, 12 de março de 2008

Dos filhos deste solo


Naturalmente, quando eu soube que conterrâneos e patriotas foram barrados na Espanha, comecei a arrumar as malas. Quando a Patroa chegou, eu já estava com tudo pronto. Só faltava um sobretudo. Lá faz frio nessa época do ano.
_Benhê, cê viu o sobretudo?
_Está um calor de rachar mamona, ô Careca. Pra quê sobretudo?
_Em Madri está o maior gelo. Além disso, o meu passaporte ainda deve estar dentro dele.
_Madri, passaporte? Está delirando?
_Mas amor, estão humilhando os brasileiros na Europa. Estan a nos jamar de perros. Jô nô lo puedo aceptar, puerra! Não posso aceitar isso assim não. Preciso ir lá, dar uma força.
_Você conhece alguém que foi deportado? – perguntou, séria, a Patroa.
_Não, mas é tudo brasileiro, é tudo ouviramdú. Jô pongo la léngua pala fuera e hablo como Romário. Mi espagnol es perfecto..
_O quê é ouviramdú?
_ “Ouviram do Ipiranga”. Escucharam a lo Ipiranga.
_Para de enrolar a língua! E você vai dar uma força como, ô Careca?
_Já tenho tudo planejado. Estou levando tamborim, cavaco, pandeiro, cuíca...
_E você sabe tocar isso?
_Não, mas todo brasileiro que vai para o estrangeiro sabe. Nunca viu Copa do Mundo?
_ Então você vai lá entregar instrumentos de samba para os conterrâneos?
_Samba, forró, pagode, bossa nova, o psicodelismo da fase Racional do Tim Maia... o som que pintar. Mas vamos começar com “Um Táxi pra Estação Lunar”. Quando eu encontrar a rapaziada o repertório já estará todo definido.
_E quem garante que eles vão querer te deportar, Careca?
_É brincadeira, né? Mas estou levando uma garrafa de cachaça para garantir. E limão. Vai ser uma deportação de primeira. Eu e os patrícios jamais nos esqueceremos. Por supuesto.
_Carequinha, meu amor, deixa disso, vai. Pensa nas crianças.
_Mas é nelas que eu estou pensando. Isso é o sagrado direito de entrar no país dos outros na marra.Você barraria alguém por querer trabalhar ilegalmente em outro país? Ou só porque quer ganhar em Euro por vender o corpinho? Claro, mas barraria com educação. Não pode ser assim, com brutalidade. Tem que pedir, por favor, dê o fora. Sivuplê, some daqui.
_Careca, pensa bem...
_ Estou me esforçando. E as malas já estão prontas. Jô nô soy um perro, non....
_Quando as crianças crescerem, elas vão querer conhecer o Museu da Rainha Sofia, o Museu do Prado... o San Tiago Bernabéu ... E deportado não pode voltar.
...
_Pelo Templo do Real Madri, Patroa! Você tem razão. Mas não vou deixar pra lá. Em retaliação, vou esconder o meu D.Quixote e ficar um mês sem comer paella.
_E eu vou trancar os vídeos do Almodóvar no armário.
_E eu só vou usar tênis, nada de sapatos e nem de sapateiro... De quem será esse pandeiro? E essa cuíca? Amoooor, você lembra de quem é essa zabumba?

_Careca, por que você gosta tanto de uma polêmica?
_Polêmica, polenta frita, polenguinho ... todo mundo gosta. Hum, esse filme “Ata-me” é bom mesmo, hein?!

_Ué, o Banderas não é americano? No próximo Zorro, eu vou torcer para o Sargento Garcia...Ólé, Sargento, olé.

Frase do dia