sábado, 29 de junho de 2013

Festa Junina na escola



A Voz do Povo - Manifestação no Congresso Nacional


Hoje tem festa junina na escola. Preparando os caipiras...

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Bobo da corte



Wildebeest from Birdbox Studio

Todo mundo sabe que Hamlet segura o crânio de Yorick na peça de Shakespeare. Yorick é o Bobo da Corte. Eu nunca assisti a uma apresentação da peça. Já vi algumas versões para o cinema, nenhuma muito instigante. Aprendi pelo Google que a famosa cena em que Hamlet recita o "Ser ou não ser" acontece antes, na primeira cena do terceiro ato. No cinema, acho que já vi alguém levantando um crânio e declamar o "To be or not to be", mas talvez tenha sido numa comédia. De qualquer modo, se você vir algum Hamlet erguer o crânio de Yorick e recitar o "That´s the question" pode vaiar que é caco. Shakespeare não escreveu muita coisa que hoje é atribuída a ele. Não, não é como aquelas crônicas sobre bundas que também são atribuídas ao Jabor e ao Veríssimo. Os estudiosos trataram de documentar tudo o que foi escrito por Shakespeare e hoje são capazes de dizer com certeza que Yorick era mesmo o bobo da corte e que isso é tudo o que se sabe sobre ele. Mas sabemos muito mais sobre os bobos. Sabe-se que começaram a surgir nas cortes européias depois do fim das Cruzadas. Os bobos eram famosos e desempenhavam importante função: eram os sujeitos que diziam o que o povo gostaria de dizer para o rei e para a corte. Mas também eram os sujeitos que debochavam da sociedade para o rei, além de servirem de cavalinho para príncipes regentes. Por isso mesmo, apesar de famosos, os bobos não eram benquistos por ninguém.

Dizem que os bobos deixaram de existir no final do século XVII. Mas é mentira. Aqui, mesmo depois do fim do Império, da velha, da nova, e da novíssima República, sempre tivemos bobos da corte. Já tivemos inclusive presidentes fanfarrões que acumulavam os dois cargos. O problema é que nós nos cansamos de ouvir as suas bobagens.

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Conectado



The Specials - Nelson Mandela

R.I.P. Nelson Mandela

Vivemos um tempo onde é possível ficar conectado o tempo todo, sem grandes custos. Há quem acredite que este é o alvorecer de uma nova era, que estamos muito perto de realizar maravilhas, desde que estejamos com o coração preparado para surfar na rede de forma adequada e aproveitar todas as potencialidades. É uma maneira de ver as coisas. Recuando no tempo, esse devia ser o espírito dos marinheiros na época do descobrimento, embora se saiba que a maioria era engajada a força e os motins só eram contidos à custa de muitas chibatadas. As oportunidades e as possibilidades são mesmo fantásticas e as pessoas que têm a capacidade de sonhar esse sonho podem e devem fazê-lo. Cada um faz mesmo o que pode. Eu reconheço que sou propenso a ter baixas expectativas em relação a tudo, então me reservo o direito de exercitar um pouco do meu pessimismo.

O grande problema de estar sempre conectado é também a grande vantagem de estar sempre conectado. Alguém sempre poderá estar em contato com você e vice-versa. O que acontece comigo é que muitas vezes não estou com muita vontade de estar conectado. Então eu simplesmente saio da frente do computador e vou fazer outra coisa. Por me considerar um sujeito comum e bem capaz de ser confundido com qualquer mané que anda por aí, também acredito que o que acontece comigo pode acontecer com qualquer um. Ou seja, que a maioria de nós, manés, às vezes fica de s. cheio de estar algumas horas na frente do computador. As duas últimas semanas, por exemplo, me exauriram. Sim, foi fantástico acompanhar remotamente e em tempo real as dezenas de manifestações que aconteceram nas cidades brasileiras. Do Oiapoque ao Chuí, todo mundo deu um jeito de pegar um pincel atômico e sair para as ruas, reclamando e expressando pacificamente o seu protesto contra o que está errado no país. Eu também fiz isso, pode acreditar. Eu fui para as ruas de Brasília com um cartaz para protestar contra o fim da nota de um real. Na verdade, minha idéia inicial era protestar contra o fim da moeda de vinte centavos, mas tive receio de não ser bem compreendido. Muita gente estava dizendo o tempo todo que não era só por vinte centavos, então fiquei com vergonha de dizer que não, para mim era mesmo por vinte centavos. Então resolvi aumentar o cacife e lutar pela volta da nota de um real. Peguei pincel atômico e uma cartolina, desenhei uma nota de um real e escrevi embaixo:

_Pela volta da nota de um real!!

Ao chegar na Esplanada dos Ministérios percebi rapidamente que aquela não era a minha praia. Pra começar, o meu celular é peba e não chega nem perto do modelo básico das pessoas na multidão. Além disso, minha careca chamava mais atenção do que o meu cartaz.

_E aí, Véi, que protesto é esse? - perguntou um skinhead assim que me aproximei do espelho dágua do Congresso.

_Quero a volta das notas de um, ué - eu disse.

_E pra quê?

_Detesto carregar moedas - eu disse.

Pensei que ele fosse jogar água em mim, ou coisa pior, mas preferiu jogar uma bola num policial. Pois é, havia dezenas de bolas de futebol em frente ao Congresso, não me pergunte o motivo. Dito isto, fiz o que todo manifestante pacífico faz: fiquei andando de um lado para outro com o meu cartaz para encontrar a minha turma, torcendo para não ser assaltado. O problema é que o meu celular peba estava sem bateria, eu não encontraria ninguém na multidão nem se usasse um detector de conhecidos. Sou de outra geração. Logo depois começou um tumulto, bombas de gás, spray de pimenta e eu resolvi encerrar a minha carreira de manifestante. Procure por mim nas fotos das multidões. Eu estava lá. Meninos, eu vi. Meu próximo cartaz será contra aquele uniforme vermelho do goleiro Júlio César.

segunda-feira, 24 de junho de 2013

No domingo, fui ao enterro 2



Young the Giant - My Body

Descobri um banco desocupado e esperei. Pessoas de todas as idades também esperavam do lado de fora, havia uma sombra agradável e a ventania era contida pelos grandes eucaliptos próximos. Ninguém conversava sobre as manifestações de rua das últimas semanas, que haviam sacudido as grandes e médias cidades do país. O assunto também não era a Copa. As pessoas conversavam apenas sobre a trivialidade de suas vidas, os assuntos pequenos das existências humildes. Quem morreu, quem está doente, as mulheres que engravidaram, fulano que foi assaltado, beltrano que foi preso, o medo dos filhos se envolverem com drogas e marginais, o sofrimento nas filas dos hospitais, como estão se virando para pagar as contas, como fulano fez para se dar bem. Meus primos chegaram da cidade do interior direto para o enterro. Fazem parte da ala de gigantes da família, o mais baixo tem 1,94 m, o que tornou muito fácil distingui-los no meio da multidão num cemitério. As moças com as roupas inadequadas se aproximaram, as esposas dos primos estavam atentas. Outra garrafa de coca-cola apareceu numa sacola plástica, talvez fosse a mesma que já vira antes. No velório, as orações tradicionais começaram, os cantos tristes que sempre são ouvidos nos enterros se repetiram. Desde que me entendo por gente é desse jeito. Os parentes perguntaram sobre outros parentes, as noticias familiares, uma resignação nos olhos e nos gestos. Depois, novamente tristeza, as pessoas homenagearam a falecida com declarações breves e muito emocionadas. Em seguida, os primos se aproximam, em busca de notícias mais detalhadas sobre os parentes. Há uma enorme curiosidade sobre a vida na capital, o que andamos fazendo? Leio nos olhos deles as perguntas importantes que não são feitas: será que estão perdendo realmente alguma coisa? A vida pacata que levam é melhor ou pior do que a minha? Dou a entender que não é melhor nem pior, estamos todos no mesmo barco. Aqui ou no interior do Tocantins, no centro das grandes cidades ou na periferia dos pequenos vilarejos estamos à mercê da nossa própria sorte, sob o olhar indiferente de quem tem alguma migalha de poder. Ou talvez seja de desprezo, esse olhar. Eles me examinam de alto a baixo, minha calça jeans com pequenas manchas de tinta verde na altura do joelho, a camisa branca puída nos punhos e no colarinho, os tênis encardidos e cobertos de poeira. Não sou exemplo de sucesso, tenho uma vida tão monótona quanto a deles e a de todos os outros que nos cercam. E nem toda essa comunhão de infortúnios nos irmana. Minha mãe me convida para ir embora, ainda faltam algumas horas para o enterro, mas estamos cansados. As despedidas dos primos são arrastadas. São feitas promessas de encontros em ocasiões mais festivas, praticamente só nos encontramos em enterros. Desejamos boa sorte uns aos outros. É sincero, tudo isso, mas sabemos que não será assim. Quando vou buscar o carro, eu observo com mais atenção a estreita rua do cemitério. Existem grandes cupinzeiros, mato e grama alta, cavalos pastam e galinhas aparecem aqui e ali. Há uma grande cruz de concreto armado no fim da rua, que se bifurca para formar uma elipse. Já no carro, faço a elipse e me dirijo para a saída. Pensando bem, não há muito o que aprender no desalento. No retorno para Brasília, escutei o rádio para ter certeza de que não haveria nenhuma manifestação popular no trajeto.

domingo, 23 de junho de 2013

No domingo, fui ao enterro 1


Nunca ouvi falar de estudo sociológico em cemitério, mas se eu fosse sociólogo eu começaria uma tese sobre a realidade brasileira examinando com lupa a maneira como nos despedimos dos nossos mortos. Hoje acompanhei minha mãe ao enterro da tia de uns primos meus, três irmãos que vivem no interior do Tocantins. A mulher morreu após complicações decorrentes de uma hemodiálise feita dois dias antes do falecimento. As pessoas têm poucas informações, ninguém sabe direito o que aconteceu, mas todos se queixam de que o sofrimento foi muito grande. Mas essa notícia só tive depois, eu me atropelo. Meus primos ainda não haviam chegado ao velório e eu fiquei perambulando pelo cemitério. Não é uma coisa que me agrada muito, mas eram umas três e meia da tarde e outros três enterros estavam acontecendo. Como não havia lugar para estacionar, deixei minha mãe onde se realizam os velórios e tratei de encontrar um lugar seguro para deixar o carro. A faixa estreita do cemitério de Sobradinho estava ainda mais estreita porque havia carros estacionados dos dois lados. Estacionei longe e fui perambulando pelos enterros, para encontrar minha mãe. No enterro mais próximo de onde estacionei, no meio da terra vermelha, a cova aberta com muita poeira o caixão estava sendo baixado, com a ajuda de cordas. As pessoas estavam em prantos e muito tristes. Havia crianças com chinelos, moças com blusas tomara-que-caia e calças apertadas - uma delas com uma garrafa de coca-cola numa sacola plástica, um pastor com sapatos sujos de terra e roupa preta bem desgastada. Grandes coroas de flores, parecidas com cocares indígenas com uma faixa de rainha de escola de samba, estavam próximas ao caixão. Não havia ninguém com a roupa de domingo, por assim dizer. Usar a roupa de domingo em meio àquela poeira, o gramado ressecado e sem vida, os túmulos descuidados e sem manutenção do cemitério seria um risco desnecessário. Uma ventania súbita reforçou o meu palpite, me cobrindo de pó vermelho. Descido o caixão, dois sujeitos pobre e desleixadamente uniformizados puxaram as cordas. Rapidamente as pessoas se dispersaram, pois a ventania aumentava. No velório seguinte, ainda sem ter encontrado a minha mãe, uma grande multidão se aglomerava numa salinha minúscula, onde só cabia o caixão e algumas pessoas em pé. As poucas cadeiras disponíveis, enfileiradas em duas paredes, estavam tomadas por velhinhas com uma aparência muito cansada. No terceiro e último velório, também cheio de gente, encontrei minha mãe que me apresentou a parentes distantes. Meus primos ainda não haviam chegado. A pequena sala de velório estava repleta de pessoas. Como nos outros dois enterros, não havia ninguém com a roupa da domingo.

Descobri um banco na sombra e (continua)

sexta-feira, 21 de junho de 2013

The Who - Young Man Blues



The Who - Young Man Blues

O latifúndio eleitoral




O latifúndio eleitoral

A insatisfação virou bagunça e quebra-quebra, não é isso que todo mundo quer. As pessoas querem levar a vida em paz, sem violência e em segurança. As pessoas querem a normalidade. As reivindicações da multidão são legítimas, mas nem todas são inquestionáveis. A abolição de tarifas e taxas cobradas pelo governo, por exemplo, são absurdas e impraticáveis, mas são repetidas com veemência pelas pessoas identificadas como líderes do Movimento Passe Livre. Eles também dizem querer o fim do latifúndio rural, são contra o que chamam de latifúndio urbano. Âhn? Bom, eu sou contra o latifúndio eleitoral.

É metáfora, claro. O latifúndio eleitoral, para mim, está representado em parte do Congresso Nacional que não soube expurgar seus malfeitores e promover a limpeza necessária após os sucessivos e graves escândalos de corrupção e flagrantes desvios éticos denunciados na imprensa. Parlamentares julgados e condenados, fiados em filigranas jurídicas, ainda transitam despudoradamente pelos corredores e gabinetes das casas legislativas. Continuam lá porque pouquíssimos dos seus pares tiveram a coragem de protestar e lutar contra o retorno de gente sem compromisso com a ética, com a honestidade e com o bem-estar da população. A omissão da maioria os igualou aos bandidos.

O latifúndio eleitoral também está expresso na supremacia dos interesses corporativos. Sem nenhuma vergonha, há quem se considere mexido quando se mexe com bandido. O que há em comum entre os mequetrefes é a preservação dos mandatos, é a perpetuação no poder, a manutenção de regalias, o legislar sobre o legislado, o trabalho inócuo e inútil. Ao invés do bem-comum, o que se observa na maioria dos representantes de meia-tijela é a luta pelo privilégio de não fazer nada, ter todas as contas pagas e ainda conseguir algum extra para os apaniguados.

Depois do quebra-quebra, alguém tem que limpar a bagunça e tirar o lixo e os detritos da rua. A polícia e o sistema judiciário precisam iniciar o processo de responsabilização dos vândalos que promoveram as destruições e provocaram os prejuízos. As autoridades devem exercer a autoridade, com correção e firmeza. Os profissionais de imprensa precisam apontar o vândalo como vândalo e também reconhecer o PM que impede a destruição e o vandalismo como uma pessoa que está cumprindo a sua obrigação. Claro, as responsabilidades por excessos devem apuradas e os culpados, depois do devido processo, efetivamente punidos.

No mundo da política, não é diferente. Na minha opinião, os representantes do povo precisam mostrar que respeito é bom e eles gostam. Eles precisam promover uma limpeza geral e punir os seus infratores, ao invés de franquear-lhes o comando das suas principais comissões e do próprio parlamento. Caso o processo de depuração não tenha início antes das próximas eleições, receio que o povo volte a ocupar as ruas e a insatisfação ganhe contornos ainda mais violentos e alheios à representatividade. O sistema deve ser repensado. É necessário uma reforma política que a Lei da Ficha Limpa e a readmissão de condenados pelo STF não conseguiram barrar. Além de picaretas, ainda existem malfeitores com anel de doutor nas casas legislativas do país. Acho que é melhor que essa reforma seja desencadeada pelos representantes eleitos legitimamente pelo povo.

E o que mais? Bom, tem ainda o latifúndio administrativo.

quinta-feira, 20 de junho de 2013

É necessário fazer a reforma política



The Sopranos - Are You In The Mafia?

Hoje, dia 20 de junho de 2013, manifestações foram marcadas pelas redes sociais em mais de 60 grandes e médias cidades brasileiras. Em diversas, os militantes partidários da situação foram convocados pelos sites oficiais a usar vermelho e levar bandeiras para as ruas. As autoridades reforçaram as forças de segurança, com efetivos gigantescos. O não confronto era uma impossibilidade. Desde as quatro da tarde, as emissoras de TV estavam a postos. Era apenas uma questão de tempo. Todos conhecem a Lei de Murphy: se o pior pode acontecer, o pior vai acontecer. E aconteceu. As manifestações de hoje foram marcadas pela violência, destruição e vandalismo.

Em Brasília, a multidão fez um visível esforço para cercar o Palácio do Planalto e para invadir o Congresso Nacional. Como não conseguiu, a horda se voltou contra o Palácio do Itamaraty. Ali, divididos em grandes massas sobre duas passarelas em cima do espelho dágua, os manifestantes deixaram de ser pessoas pacíficas em protesto para se tornar vândalos. Os bagunceiros de uma das passarelas conseguiram romper a linha de policiais, atacaram e quebraram as vidraças do Palácio. Alguns invadiram o Itamaraty e voltaram correndo. Nesse momento, assistindo a cena pela Internet, tive como certa a invasão e depredação de um dos mais belos palácios de Brasília.

Na outra passarela, os vândalos quebravam os vidros e tocavam fogo em cortinas da parte de dentro. Policiais conseguiram repelir os vândalos mais exaltados com spray de pimenta e extintores de incêndio. Naquele instante, na outra passarela, seis PMs surgiram disparando jatos de extintores contra a multidão invasora. Conseguiram fazer a horda recuar sem violência até metade da passarela, antes que os reforços chegassem. Foram os heróis efêmeros de um dia trágico.

Depois disso, o festival de ocorrências tristes e criminosos foi amplificado e o país degringolou. Saques, violência, fogaréus, incêndios, depredações, excessos, correrias, bagunça e confusão. Ás onze da noite, à custa de dezenas de bombas de gás lacrimogênio, a polícia conseguiu dispersar a multidão no gramado em frente ao Congresso Nacional. O clima é de apreensão e de perplexidade.

Há um clima de revolta. É querer tapar o sol com a peneira não imaginar que protestos podem descambar para a violência, ou que multidões sem líderes e movidas pela insatisfação e descontentamento se manifestarão com bom-humor e estoicismo, como atores dentro de um comercial descolado. É ainda mais ingênuo imaginar que uma turma que repudia qualquer tipo de representante esteja querendo que alguém se apresente para representá-la. Essa mesma turma também é a primeira a reclamar a supressão de toda e qualquer cobrança de taxa, a começar da passagem de ônibus. Ou seja, é uma turma que deseja, como se fosse possível, que o Estado ofereça todos os serviços.

Estamos vivendo um impasse. Ele está sendo colocado nas ruas, sem que nenhuma das atuais lideranças políticas consiga interpretá-lo corretamente, sem uma resposta adequada das autoridades. Mas o que está sendo apresentado não é um mistério. A continuar assim, além dos insatisfeitos nas ruas, a classe política corre o risco de também perder a representatividade dos que ficaram em casa ou apenas se mobilizaram pela Internet, caso continuem a se negar a realizar a necessária reforma política. Ou, nas palavras da moçada, é preciso acabar com o latifúndio eleitoral. A nossa crise é com a forma como está sendo feita a nossa representação. Da maneira como está, com os políticos tão distantes dos anseios do povo e com seus esquemas e conchavos corporativos, com a corrupção e a impunidade, a maioria dos políticos não nos representa.

quarta-feira, 19 de junho de 2013

James Gandolfini is dead



Latasha Lee - Stood Up

Morreu o ator James Gandolfini, que interpretava o papel principal da série "The Sopranos", produzida de 1999 a 2007 pela HBO. Gandolfini incorporava Anthony Soprano, o mafioso que se torna chefão da família. Só assisti a um episódio da série por insistência de uma pessoa que vive no Butão, sim, aquele país onde o rei instituiu a felicidade como meta. Não me lembro mais do nome desse sujeito, sei que ainda tenho um cartão dele em algum lugar da pilha de cartões das pessoas que, tenho certeza, nunca mais verei novamente pelo resto da minha vida. Era um funcionário público, esse sujeito, uma dos caras mais bem-humorados que conheci. O filho estudava na Índia porque seu pai se considerava um cosmopolita e achava as escolas do país uma porcaria. Eu rabiscava no papel, durante um congresso internacional chatérrimo, quando o butanês puxou conversa, dizendo que o meu desenho parecia o porco que aparece no clip de introdução da Família Soprano. O inglês desse cara era muito bom, mas eu disse que não tinha a menor idéia do que ele estava falando. Saímos do auditório para almoçar e o butanês passou umas duas horas me falando sobre como era sensacional a série que mostrava a família mafiosa. Voltei para o Brasil e esqueci a conversa.

Um dia estava passeando no shopping quando vi no telão de uma loja uma cena que mostrava um porco na fachada de um prédio. Era igual ao porco que vivo rabiscando. Entrei na loja e descobri que o vídeo em exibição era parte do pacote promocional com as três primeiras temporadas da série. Lembrei imediatamente da conversa com o butanês e decidi levar o pacote. Desde o primeiro episódio fui fisgado pela série onde Gandolfini brilhou. Na pele de Tony Soprano, Gandolfini podia ser mau, cruel, bondoso, violento, estúpido, genial, grosso, galante, romântico, qualquer coisa. E o mais incrível: era impossível não achar o cara simpático e, algumas vezes, torcer para que seus planos dessem certo. Gandolfini conseguia fazer isso sem nenhum esforço. R.I.P. James Gandolfini.

terça-feira, 18 de junho de 2013

Educação Moral e Cívica



Jorge Ben - Brother

Ontem, eu e a minha mulher ficamos assistindo as manifestações e protestos na televisão. As crianças ficaram curiosas e se sentaram com a gente. Daí a pouco começaram as perguntas.

_Pai, o que essa gente está fazendo?

_As multidões estão protestando, filho. Elas estão contra o aumento da passagem de ônibus em São Paulo, no Rio de Janeiro e em Belo Horizonte, além de outras cidades. Aqui em Brasília, por exemplo, a multidão protesta porque está apoiando os protestos contra o preço das passagens de outras cidades - eu disse.

_Explica direito. Não é só isso. As pessoas estão insatisfeitas com os gastos feitos em estádios de futebol e com a situação ruim dos hospitais, das escolas e com a falta de segurança pública. Elas estão contra tudo o que está errado no país - disse a minha mulher.

_Eu ia chegar lá. O problema é que é muita coisa errada, falta até fôlego. Numa democracia, as pessoas têm o direito de se manifestar pacificamente, ou seja, sem quebra-quebra, sem vandalismo, sem botar fogo em nada, respeitando o direito de ir e vir das outras pessoas - eu disse.

_Ou seja, se as pessoas se comportarem bem, elas podem se manifestar - disse a minha filha.

_É, pode-se dizer que sim - eu disse. E imediatamente começou a soar aquela campainha de alarme interno, que todo mundo tem.

_Quer dizer que se eu me comportar bem, eu posso protestar - disse o meu filho.

Minha campainha interna dobrou de volume. Quando meu filho repete uma frase da irmã é sinal de que ele percebeu uma daquelas fissuras que podem provocar um abalo sísmico no planeta.

_Também é preciso um bom motivo. Ninguém fica protestando por qualquer coisa. As pessoas protestam quando não estão aguentando mais uma situação, quando as coisas começam a ficar insuportáveis. Aí então, as autoridades se vêem obrigadas a tomar algum tipo de providência - eu disse. E agora a minha campainha interna de alarme já estava no volume máximo, era quase uma sirene.

_Então, pai, eu queria fazer um protesto - disse o meu filho.

_Eu também, eu também - disse a minha filha.

Minha mulher me olhou com aquele olhar de governador para prefeito. Tudo bem, eu pensei, eu vou ter que me virar com a guarda municipal.

_Um de cada vez - eu disse.

_Pai, eu já não suporto mais ir pra escola. Então eu protesto - disse o meu filho.

_Pai, eu também não aguento mais a escola. E também cansei de sopa. Protesto duplo - disse a minha filha.

_Muito bem, são protestos legítimos. A insatisfação com a escola e a sopa de vocês dois é visível e, além disso, vocês fizeram os protestos de uma maneira bem civilizada, parabéns - eu disse.

_E agora? - disseram os dois.

_E agora o quê?

_O que você vai fazer? Qual vai ser a providência? - disse o meu filho.

_Nenhuma.

_Mas pai, você mesmo disse que as autoridades se sentem obrigadas a tomar algum tipo de providência. E, depois da mamãe, você é a autoridade aqui em casa - disse o meu filho.

Deixei passar a ironia antes de encerrar a conversa.

_Acontece que nós estamos numa família, e as famílias não são democracias, elas são governadas pelos pais. Ia ser engraçado se você votassem num pai - eu disse.

_Se eu pudesse votar, eu votaria para deixar de ir para a escola - disse a meu filho.

_Eu votaria contra a sopa - disse a minha filha.

_Nem adianta pensar nisso. Pai é cargo vitalício - eu disse.






segunda-feira, 17 de junho de 2013

Umbabarauma no kabuletê



Umbabarauma

Estamos de volta à tonga da mironga do kabuletê. Ninguém sabe o que está acontecendo direito. Há uma insatisfação sendo expressa nas ruas desde o início da semana passada. De uma maneira geral os protestos são pacíficos, mas excessos são cometidos do lado dos manifestantes e da polícia. Em Brasília, não existem porta-vozes, não se identificam lideranças. Ao contrário, a multidão recusa a tutela dos núcleos partidários e empunha diferentes bandeiras: passa pela solidariedade aos manifestantes de outras capitais contra os aumentos de passagens, percorre o repúdio aos gastos bilionários em estádios em detrimento de saúde e educação, e termina contra a PEC 37, que torna a investigação criminal um monopólio exclusivo da polícia civil, o que na prática tira o poder de investigação do Ministério Público, e joga no lixo os atos investigatórios da Receita Federal, do TCU, da CGU, do INSS, da Secretaria de Inspeção do Trabalho, do COAF, do CADE e da SDE, da ANP, do Banco Central, da Receita Federal, do IBAMA, e da Defensoria Pública. Claro, todas essas bandeiras são boas bandeiras e merecem, cada uma, uma bela e pacífica passeata. Mas e depois? Não tenho a menor idéia.

Uma das coisas que chama a atenção é que no início da semana passada as autoridades condenavam ou ignoravam os protestos. Hoje, na hora dos telejornais as autoridades disseram que os protestos eram legítimos, até mesmo Ré-não Calheiros.

Mas em pouco tempo, a coisa degringolou. Às dez e meia leio a notícia de que 200 manifestantes invadiram a chapelaria do Congresso Nacional e estapearam algumas autoridades, entre elas o diretor-geral da Câmara. Às onze, a Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro e a sede do governo estadual de São Paulo também haviam sido cercadas. À meia-noite, pelo menos em Brasília, a manifestação tinha acabado e não se via mais nenhum manifestante em frente ao Congresso. Será que foi fogo de palha?

domingo, 16 de junho de 2013

Os suspeitos de sempre



The Walkmen - We Can't Be Beat

Vi as imagens diversas vezes na manhã deste domingo. Foram divulgadas pela TV, momentos antes da festa de abertura da Copa das Confederações. O vídeo está na internet, não dura mais que um minuto e meio. O manifestante corre em ziguezague pelo gramado e um policial surge do lado oposto, montado numa moto. O manifestante tenta fugir da moto, mas é atropelado pelo policial. Ele se levanta e o policial prossegue em seu encalço até jogar a moto outra vez sobre o manifestante. Ele desaba no chão e é cercado por vários policiais e imobilizado. Em seguida as imagens mostram outro manifestante sendo perseguido por vários policiais. A câmera acompanha a nova fuga. O manifestante diminui a velocidade ao se aproximar de torcedores e é contido por vários policiais e imobilizado. Um simpatizante tenta chamar a atenção dos policiais, estourando o que parece uma garrafa dágua. Uma penca de policiais também o cerca, e uma nova moto surge para derrubá-lo. As duas pessoas são levadas para o camburão. Uma dupla agita os braços em protesto ao lado do camburão, mas recua. Pedestres perambulam pela cena. Uma mulher parece confusa andando por ali, de mão dada com uma criança.

Acho um tremendo programa de índio sair de casa para protestar, mas toda e qualquer pessoa tem o direito de se manifestar de forma livre e civilizada. Excessos e abusos devem ser investigados e punidos. Os manifestantes que foram detidos devem passar pelo devido processo legal e, caso seja provada sua culpa, sofrerem as penalidades cabíveis. Do mesmo modo, os policiais que cometeram excessos, devem passar pelo devido processo legal e, caso seja provada sua culpa, sofrer as penalidades cabíveis. Liberdade não é passar a mão na cabeça nem de manifestante maluco e nem muito menos de policial aloprado. Atropelamento de manifestante não é procedimento policial adequado. Nem mesmo Dirty Harry utilizava essa abordagem junto a criminosos condenados. O que chama a atenção é que o episódio foi filmado e existem provas concretas para a abertura de processo judicial contra indivíduos da corporação da PM. As pessoas atropeladas têm esse direito. Se levado adiante, o processo poderá resultar em pagamento de indenização do Estado aos manifestantes. É assim que funciona o Estado de Direito. Existem etapas e processos a serem percorridos. É chato e pode ser moroso. As tiranias é que têm solução imediata para tudo. Entretanto, caso os processos ocorram, eu, cidadão, terei sido triplamente vilipendiado: uma vez pela administração pública que resolveu gastar uma fortuna num estádio que custou 1,8 bilhão de reais e que neste ano não será usado em nenhuma outra competição; uma segunda vez pelo despreparo de uma polícia que quase sempre abusa da força e violência em qualquer situação, seja ela um ajuntamento de manés ou uma revolta na prisão; e por último, mas não menos importante, pelo pagamento de indenizações que não deveriam ser necessárias se os antecedentes mencionados não tivessem sido cometidos.

Quem se arrisca a sair de casa para ser atingido por uma bala de borracha? Quem se arrisca a sair de casa para cheirar gás lacrimogêneo? A levar spray de pimenta nos olhos? São as pessoas que não têm nada a perder ou as pessoas que acham que já basta, não podem perder mais nada? Talvez sejam as mesmas pessoas. Seres humanos. Ninguém pode ser atropelado por um policial por gritar que o dinheiro dos impostos deveria ser gasto em saúde e educação. E o extraordinário é que isso não nos escandalize. Onde estão aquelas figuras sempre prontas a defender os direitos humanos? Onde estão as tradicionais entidades que sempre posaram de defensoras do cidadão contra os abusos e excessos das autoridades? Onde estão os representantes eleitos?


sábado, 15 de junho de 2013

Ônibus errado



Larry David - Bald with Waitress

_ De graça, até ônibus errado - dizia o meu amigo Mauro, nos meus tempos de estudante do segundo grau.

Ônibus de graça parece ter sido o pretexto para manifestações enormes em São Paulo no decorrer da última semana. Mas não acredito nisso. Alguém tem sempre que pagar a conta, nada sai de graça, aprendemos desde cedo. Os manifestantes também sabem. A verdade, em geral, é mais simples. É a disputa política. A conversa fiada da juventude que sonha, do revival da insatisfação social nos moldes de 68, é tudo balela. Prefiro acreditar que as pessoas começaram a se dar conta de que muito dinheiro já foi gasto no que é acessório e não no que é importante. Que finalmente as pessoas perceberam que os investimentos foram feitos em coisas erradas e na hora errada, que mais uma janela de oportunidades se fechou, sem que conseguíssemos sair da periferia do mundo. Que os governos gastaram os tubos em estádios, que as obras de mobilidade urbana ficaram para depois ou foram esquecidas e que o legado dos mega-eventos esportivos é uma esperança apenas entre muito crédulos. Mas não é possível ser muito otimista. A maioria ainda se ufana ou não consegue ligar lé-com-cré, como querem fazer crer os resultados das pesquisas de opinião.

Antes do jogo da seleção brasileira neste sábado, algumas dezenas de pessoas foram reprimidas com violência, com o uso de tropas de choque, cavalaria e bombas de gás lacrimogênio. Helicópteros sobrevoavam a área onde os manifestantes estavam concentrados. A fumaça das bombas chegou a incomodar os torcedores que já haviam entrado no Mané Garrincha. Locutores recomendaram aos presentes que evitassem esfregar os olhos. Ao ver algumas fotos e imagens do ocorrido na internet fiquei pensando se um dia terei coragem de levar meus filhos a um jogo de futebol num estádio, sem me preocupar com segurança, bala perdida, spray de pimenta e bombas de gás. Mas a cada ano adio o projeto, e não apenas pelos preços proibitivos já praticados, mas simplesmente pelo receio de ser ferido ou simplesmente desrespeitado. Não deveria ser assim no país do futebol. Mas é.



sexta-feira, 14 de junho de 2013

Tecnicalidades



Curb your enthusiasm - Naturally a magician

Meu filho é alérgico a alguma coisa que o deixa com os olhos coçando e o nariz entupido e escorrendo. Já fizemos uma coleção de consultas médicas, com suspensão de produtos variados, do leite à lã. A medicina progrediu uma barbaridade, mas no que se refere a alergia, os mistérios ainda são muitos. O lado bom é que ele não apresentou sintomas muito graves e que acredita-se que as alergias dele desaparecerão com o tempo, naturalmente. De qualquer forma, estamos sempre procurando o que provoca reações alérgicas no meu filho. Exercemos um controle rigoroso contra poeira, mofo, pó, e produtos que tenham algum aromatizante. Nos últimos tempos, acho que ele acabou desenvolvendo uma alergia aos pelos do Rafa, o cachorrinho shi-tsu. Rafa é preguiçoso e passa horas deitado no sofá, onde as crianças também gostam de passar horas vendo TV, que fica na parte da casa que é mais escura e úmida. Mas os sintomas dos últimos dias podem ter sido desencadeados pela piora do tempo, os dias estão mais frios, especialmente as madrugadas, e meu filho tem o sono agitado, vive espalhando os cobertores pelo chão. Também suspeitamos que o fato de andar quase sempre descalço e com pouco agasalho também contribua para o nariz entupido. Repito então, as mesmas recomendações que minha mãe me fazia.

_Não fique com os pés no chão frio. Fique calçado! - eu digo, várias vezes a intervalos regulares de meia hora.

_Sim, está certo - ele responde. Com dez anos de idade, ele sabe que a melhor maneira de se livrar de um incômodo é concordar rapidamente com a pessoa que está incomodando sem fazer nada do que ela esteja dizendo. É batata. De longe posso ouví-lo fungando e chupando o nariz.

_Você está calçado? - eu pergunto, ainda de longe.

_Não.

_Se eu chegar aí e você estiver descalço, o video-game estará suspenso por um mês. Tem certeza de que está calçado?

_Só um instante, pai.

E como eu não quero deixá-lo de castigo, só vou vê-lo depois que já dei tempo mais do que suficiente para que ele encontre um par de chinelos.

_Mas você continua descalço - eu digo, logo que o vejo.

_Não, pai, estou de meias. Tecnicamente não estou com os pés no chão frio.

_Tecnicamente?

_É, pai. Existe uma camada de tecido entre os meus pés e o chão. Tecnicamente não estou descalço.

_Mas está com os pés gelados e o nariz escorrendo.

_Não, pai, o meu nariz não está escorrendo, está só entupido. É diferente.

_Tem razão, é diferente.

_Então eu não estou um mês de castigo, certo?

_Não, tecnicamente, não. Só está com acesso proibido às telas de vídeo durante quatro semanas.

Depois fiquei pensando que ele pode ser alérgico a telas de vídeo.





quinta-feira, 13 de junho de 2013

Blog, Koulechov e Facebook



Larry David: the palestinian chicken

A liberdade de falar sobre tudo, com civilidade e cortesia, mas sem prescindir da ironia, da galhofa ou da piada chula quando quisesse, foram os princípios norteadores da criação deste blog. O Caminho do Careca foi feito para que eu escrevesse o que me desse na telha, sem amarras, com o máximo de liberdade e com o mínimo de danos infringidos aos outros. É muito difícil escrever se você pensar em como o seu texto será recebido, no que os outros vão pensar. É impossível, se você quiser agradar todo mundo. Alguém sempre estará pronto a atirar uma torta na sua cara. É estatística pura, é o ponto fora da curva. Para diminuir ainda mais as chances de que isso acontecesse no mundo real, resolvi usar o pseudônimo de Careca. Não é anonimato. Com um mínimo de cliques na Internet é possível descobrir a minha identidade, telefone, endereço e o cardápio de onde almocei no último sábado.

Aqui, evito usar os nomes verdadeiros de parentes e amigos e faço menções veladas às pessoas queridas, desse modo acredito estar de algum modo evitando uma exposição indevida ou algum tipo de constrangimento. Em geral, faço galhofa comigo mesmo, sou o meu próprio palhaço das reações a estereótipos, gafes e situações cotidianas. Algumas vezes posso ter sido negligente com essa regra interna. Mas quase sempre procurei rir de mim mesmo. Mas como disse antes, alguém sempre poderá se considerar indevidamente exposto ou constrangido, com maior ou menor razão.

Com o passar do tempo, meu humor variou do bom ao ruim e do péssimo ao ótimo, e depois tudo de novo. Por óbvio, o número de leitores é proporcional ao bom humor. Textos alegres e descontraídos recebem mais comentários positivos. Textos baixo astral não são clicados, embora promovam uma avalanche de e-mails de produtos que prometem aumentar o tamanho da minha masculinidade(improve your manhood!) e aumentar a minha satisfação com o sexo oposto, com o mesmo sexo e com objetos que remetem a um ou outro. Os robôs cibernéticos funcionam muito bem. Algumas poucas vezes recebi xingamentos por e-mail e o que pareceu uma ameaça(Eu sei onde você mora). Sempre apaguei os xingamentos e publiquei no blog, durante aquele dia em que me senti ameaçado, a minha resposta: Estou à sua espera. Apareça. Desde então, mantenho um taco de beisebol ao alcance, só para o caso.

Não posso estar sempre de excelente humor, embora as boas fases realmente existam. Nos últimos meses tenho escrito pouco no blog e algumas vezes cogitei em voltar aqui apenas semanalmente. Por hábito, prossigo. Paralelamente, estou dando pitacos no Facebook, onde não uso pseudônimo e algumas pessoas sabem que ainda estou trilhando o Caminho do Careca. Faço como sempre fiz neste blog, com civilidade e sem desqualificações e ataques pessoais, isso é de mau gosto e trai um péssimo humor.

Mesmo assim, tenho sido seguidamente chamado de racista, sexista, retrógrado, direitista, extremista, radical religioso(!), chauvinista e outros delicados rótulos e xingamentos no Facebook. É uma peninha, eu sei, mas deixe-me prosseguir. Na maior parte das vezes, quando não são pessoas conhecidas, não me dou ao trabalho de responder. Quando são pessoas próximas, ainda que distantes, trato de responder à altura(sem desqualificações pessoais, é claro) ainda isso me custe uma amizade ou um bloqueio singelo. Isso já aconteceu e não lamento. Não é a isso que eu quero chegar.

O ponto é que muitas vezes as pessoas que me ofendem são muito boas em enxergar o efeito Kulechov no que lhes interessa, mas péssimas em percebê-lo no que se refere ao seu interlocutor. Como todo mundo sabe ao clicar no Google, nos princípios do cinema, Koulechov montou um experimento simples de associação de imagens. Ele exibiu três seqüências: rosto de ator, sopa; rosto de ator, caixão com criança dentro; e rosto de ator, mulher em divã. Pediu aos espectadores que fizessem comentários sobre a interpretação do ator. Na primeira seqüência, a platéia enxergou fome, na segunda, pesar, e na última, desejo. Logicamente, o ator não interpretou coisa nenhuma, ficou apenas parado em frente à câmera para ser filmado.

O experimento é a base da criação da linguagem cinematográfica. Os espectadores, por conta própria, vão criar um tecido narrativo para unir as seqüências de imagens, atribuindo-lhes significados por mera associação de idéias, sem muita reflexão. De uma maneira um pouco mais sofisticada, os ativistas e guerrilheiros culturais que pululam nas redes sociais usam e abusam do efeito Kulechov contra aqueles que consideram seus adversários. É como naquela velha piada do “Você tem aquário em casa? Não? Então você é gay”.

Não importa o que você diz. Os ativistas e guerrilheiros culturais não querem saber de argumentos. O negócio deles é a desqualificação pessoal sumária. Antes que você perceba, e sem motivo, a militante feminista o estará chamando de serviçal da ignorância, sequaz do machismo, chauvinista praticante, retrógrado e aliado do conservadorismo religioso. Ou ignorante, que é tudo isso. É um método muito internalizado e comum até mesmo em inocentes e despreocupados simpatizantes de causas de grupos minoritários.

As ofensas ocorrem principalmente quando discordo de alguns posicionamentos relacionados à conquista de privilégios para grupos minoritários que se identificam de acordo com abstrações de classe, raça, gênero, inclinação sexual e religião, tudo em detrimento dos direitos fundamentais da menor das minorias, o indivíduo. Nunca é demais lembrar que é no indivíduo e na noção de dignidade da pessoa humana que se baseiam a Declaração Universal dos Direitos Humanos e os ideais de Liberdade, Igualdade e Fraternidade. Nessas ocasiões, raramente aparece alguém para perguntar, ei, quem é que vai pagar essa conta? Ei, se esse grupo conseguir seus objetivos, quais minorias dentro desses segmentos sofrerão as conseqüências, como fica o indivíduo? Os direitos iguais para homens e mulheres serão preservados? Todos continuarão a ser iguais perante a lei, ou essa diferença é temporária?

Nestes comentários, acadêmicos, escritores, blogueiros, jornalistas, donas-de-casa, ciclistas e simpatizantes das minorias muitas vezes se apressam a endossar argumentos, mitos e palavras-de-ordem dos ativistas e militantes de algumas causas. Muitas são perfeitamente contraditórias, mas, mesmo assim, conseguem simpatias de grupos que condenam pelo menos uma delas. No Facebook, exemplos de apoios a causas conflitantes, que conseguem congregar opositores intrínsecos existem aos borbotões. Um dos mais clássicos é a liberação das drogas e o combate ao fumo. O maconheiro(ah, já existe uma proposta que condena o uso deste substantivo) ativista condena o cigarro com filtro mas é chegado numa palha. Lembrá-lo da possibilidade de estar ocorrendo uma esquizofrenia pode lhe custar ouvir uns palavrões.

Existem discrepâncias e contradições ainda mais bizarras nos comentários do Facebook. Já vi de tudo. O anti-clerical que deseja uma Igreja moderna. O artista bacana e libertário que prega o fim das religiões. O acadêmico que se acostumou a recorrer ao argumento de autoridade. O defensor de direitos humanos que torce para que o índio infanticida e homicida continue a ser tutelado, sem responsabilidade penal. O abortista que é contra a pena de morte. O anti-abortista que é a favor da pena de morte. O ciclista que deseja o respeito dos motoristas mas não vê problemas em bicicletar embriagado e drogado. O gayzista promíscuo que move montanhas para se casar no civil. A prostituta que considera vender o corpo uma atividade digna e feliz. A socióloga que não se incomoda em ser confundida com uma prostituta, desde que isso não configure uma agressão. O anarquista que prega o fim do Estado e que acha ótimo o assistencialismo do bolsa família. O ecologista que adora milho e quer o fim dos transgênicos. É no forévis, como dizia Mussum. É mesmo.

Claro, os pontos fora da curva sempre existirão. E também não sou nenhum santo, carrego minhas contradições e idiossincrasias. Por isso não considero extraordinário ser acusado de propensões e simpatias inexistentes até mesmo por amigos e pessoas que me conhecem de longa data. É o efeito Kulechov. As pessoas fazem associações. Ponto. Algumas são pertinentes, mas a maioria não é. Uma coisa não implica, necessariamente, na outra. Por exemplo: não sou gayzista, mas também não sou anti-gay. O que não me impede de apontar a existência de uma corrente ativa gayzista que pode ter ou não ter razão em um monte de temas, mas nunca terá, assim como qualquer grupo, razão a priori. Acho a mutilação sexual de bebês mulheres africanas por motivos religiosos uma coisa abominável, mas não consigo abominar a circuncisão de bebês judeus do sexo masculino. Acho ridículo se falar em preservação de culturas autóctones para índios escutando músicas nos Ipods e celulares. Em liberação de drogas onde se vende crack na esquina. Em extinguir zoológicos e ir para um churrasco. E por aí vai.

Não sou autoridade em nenhum tema e defendo a liberdade de opinião, com os limites já previstos na lei. Não faço o tipo do “você sabe com quem está falando?” Mais fácil rir de mim mesmo e me colocar em dúvida. Por último, evito dizer que desta água não beberei. Ninguém é de ferro, até mesmo pessoas excelentes podem acabar cometendo alguma ofensa em público e depois pedir desculpas em privado.

terça-feira, 11 de junho de 2013

Minha namorada



Une plume, un équilibre, une vie

Sou um chato. E estou piorando, sei disso. Mas a minha namorada ainda gosta de estar comigo e tem paciência em ouvir minhas histórias confusas. Ela é uma das poucas pessoas que ri das minhas piadas. São bem velhinhas, as minhas piadas. Quase todas recicladas, diga-se de passagem. Onde havia um japonês eu troco por um papagaio, onde havia um português eu coloco um macaco, misturo tudo, tiro a floresta, coloco o barco. Fica meio sem pé nem cabeça, mas ela ri, solidária. Minha namorada tem o sorriso mais bonito do mundo, a risada mais gostosa.

Ela é bonita, minha namorada. Lembro até hoje da primeira vez que a vi, o cabelo mais curto, a mão estendida, muito prazer, uma alegria genuína e radiante iluminando seus olhos. Que mulher mais bonita, eu pensei. Também cheguei a pensar que jamais me daria bola. Mal sabia eu que apenas 28 meses depois do dia em que fomos apresentados nós estaríamos dando o nosso primeiro beijo.

_Quer namorar comigo? - eu dizia.

_Não - ela respondia, sem me levar a sério.

_Quer namorar comigo? - eu dizia, e não havia passado nem uma semana.

_Não - ela respondia do mesmo jeito.

_Ah, namora comigo, vai? - eu disse um dia, depois de perguntar pela ducentésima trigésima nona vez.

_Sim - ela disse.

_O quê? - eu disse.

_Sim, eu quero.

_Tem certeza? Agora? - eu disse.

_Agora.

_Não quer pensar um pouco? Isso é importante. Não há motivo para uma decisão precipitada.

_Vem cá, seu...

Pois é, fui pego de surpresa e mesmo assim, nós nos beijamos. Nunca esqueci. Acho importante.

Eu amo a minha namorada e isso me faz muito bem. Ela às vezes reclama que eu digo isso muito pouco. É uma das suas menores queixas e tenho que dar o braço a torcer, eu deveria dizer que a amo mais vezes, talvez mesmo todos os dias. Não existe nenhum impedimento quanto a isso, a não ser o fato de achar declaração de amor uma coisa meio melosa demais, meio clichê. Mas até isso minha namorada releva. Seja como for, não há motivo pra pressa. Só se passaram 19 anos, esse namoro está apenas começando.

sábado, 8 de junho de 2013

Pedra, Papel, Tesoura, Lagarto e Spock



Nina Becker & Marcelo Callado - 12 - Marco Zero

Estou no escritório, ouvindo as crianças a brincar:

_Pedra, Papel, Tesoura, Lagarto e Spock! - dizem.

_Lagarto!

_Tesoura, ganhei!

_Pedra, Papel, Tesoura, Lagarto e Spock!

Lagarto? Spock?

_Meninos, o Lagarto ganha do Spock?

_É.

_E o Spock ganha de quem?

_Da Tesoura!

_E quem é Spock?

_É um cachorro marrom que repete o que você fala.

_E quem ganha quando é o Lagarto e a Pedra?

_Eles empatam. Spock e Pedra também dá empate.

_Ficou complicado - eu disse.

_É melhor assim, paiê.

_E como é o gesto do Spock?- eu pergunto.

A menina abre os dedos da mão igual ao Spock de Jornada nas Estrelas.

_E como é o Lagarto?

A menina faz um bico com os dedos da mão. Depois tentei brincar de Pedra, Papel, Tesoura, Lagarto e Spock com as crianças, mas sou ruim para abrir os dedos da mão igual ao Spock. Perdi muitas vezes.


domingo, 2 de junho de 2013

Pontos de vista




Brasil 2 x 2 Inglaterra

Marque com um X o texto que foi escrito pelo seguidor do partido da situação:

( )Reinauguração do estádio - caramba, que reinauguração empolgante daquele que é o estádio mais famoso do país, cuja reforma custou quase dois bilhões de reais ou um bilhão de dólares. Foi sensacional ver o público em êxtase, vibrando de emoção com a sensacional apresentação da Banda do Corpo de Fuzileiros Navais tocando o Hino Nacional e o God Save the Queen. Quem esperava uma festa xoxa, sem graça como um picolé de xuxu, ficou de queixo caído. Foi, sem dúvida nenhuma, emocionante a festa de inauguração da mais famosa arena futebolística nacional.

( )Jogo - Um amistoso protocolar, sem brilho e empolgação. Ninguém parece estar feliz nesse time. Até Filipão está carrancudo e brigão com repórter, parece o Dunga, aquele chato resmungão. Aliás, esse também é o estilo Dilma, que parece ter se disseminado pelo país. Toda hora aparece alguém dando bronquinha, batendo o pezinho, teimando em repetir erros. Filipão é tão ruim de chinfra que tirou Fred e Paulinho do jogo assim que fizeram os gols. A substituição já estava prevista, disseram os comentaristas. Pois é, e se tivesse feito como previsto, nenhum dos dois teria feito gol. Os jogadores já sabem como funciona: marque um gol e corra para o banco.


Adivinha quem é baixinha, gordinha e dentuça, adora um vestido vermelho, tem um amiguinho que fala "elado" e vive dando bronca e querendo bater nos outros? Errou quem disse que era a Mônica.

sábado, 1 de junho de 2013

Liberdade



Cássia Eller - Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band

A liberdade de criar riqueza é o único meio para eliminar a pobreza.

A riqueza tem causas, mas a pobreza não.

A pobreza é o que resulta da falta de produção de riqueza, enquanto a riqueza não é o que resulta da falta de produção de pobreza.

Ou seja, pobres não ficam ricos se acabarem com quem produz riqueza. Da mesma maneira, o infeliz não se torna feliz com a extinção dos comediantes. O doente não se cura com o fim dos saudáveis. O injusto não se torna equanime com a perseguição aos juízes.

Pobres só ficam menos pobres se, de alguma maneira, produzirem algo que tenha valor. E para produzir qualquer coisa, a liberdade é essencial.

Pontapés no Facebook



Hitchcock Demonstrates Montage

Esta lição de montagem aprendi há muito tempo, lendo um livro numa biblioteca. Uma porção das melhores lições que tive, tive sozinho. Sempre achei que é assim que se aprende, pensando com a própria cabeça. Professor e método são importantes, é claro, porque são essenciais para as indicações do mapa, para o pontapé gentil no seu traseiro para que deixe de ser vagabundo e volte para o caminho táctil e tortuoso, quase sempre difícil, da autodescoberta. Hoje, como ontem, com maior ou menor facilidade, temos acesso a milhares de informações que nos atingem de todos os lados. Entretanto, informação não é conhecimento. Separar joio do trigo requer muita atenção e discernimento. Deveria ter pontapé no Facebook.

Mas talvez seja interessante olhar o vídeo acima também como uma espécie de mapa da mina para ver o próprio Hitchcock. Ele sempre esteve preocupado com a ambiguidade. Em Pacto Sinistro, O Homem Errado, Um Corpo Que Cai, Psicose e Intriga Internacional há sempre alguém que finge ser o que não é, uma pessoa que guarda um segredo sinistro, um duplo. Hitchcock é vaidoso, ou não apareceria pelo menos em uma única cena em todos os seus filmes. E ele exemplifica a sua idéia central de montagem usando a si mesmo como personagem. Coisa que Kulechov desdenharia. Talvez Hitch esteja brincando com os biógrafos: ele é mesmo o velho devasso ou o velho simpático? A resposta é simples: no cinema, Hitchcock é o que a montagem sugere que seja.

Frase do dia


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