quarta-feira, 31 de julho de 2013

terça-feira, 30 de julho de 2013

Sapatos

Usei botas ortopédicas durante uma porção de muitos anos. Era uma forma de tortura, é lógico, mas as mães não sabiam disso. E eu usava as tais botas. Eram brancas, as bandidas. Lembro de um modelo, especialmente incômodo, que tinha uma fivela no final do cano alto, Frankenstein aprovaria. Meus pés inchavam e doíam. Eu reclamava, mas os médicos diziam e as mães repetiam que aquilo era necessário para evitar um monte de outras coisas ruins. Eu não sabia quais eram as outras coisas ruins. Devia ser um terrorismo relacionado a escoliose, hérnia de disco ou coisa que o valha. Mas não importa. Na época das botas ortopédicas, eu queria liberdade. Eu odiava Ferrugem, o garoto propaganda dos calçados Ortopé. Minhas pragas rogadas, bem como de milhares de outras crianças torturadas, surtiram efeito. Ferrugem foi condenado a ser uma eterna criança obrigada a conviver com o refrão do seu comercial: Ortope, ortopé, tão bonitinho. Eu achava horrível, é claro. As botas, baixinho, franzino e míope com óculos de fundo de garrafa me transformavam num repugnante verme espacial mau humorado. Eu vivia irritado e a culpa era especialmente da bota. Como estava sempre irritado, eu vivia perdendo as estribeiras e apelava fácil. As primeiras vítimas estavam em casa. Eu chutava as pessoas na canela sob a menor provocação. Isso incluía adultos. Na época, alguns adultos também apelavam de volta, de vez em quando eu levava um cascudo ou um puxão de orelha só pra ver o que era bom pra tosse.

_Apelou pra bota! Apelou pra bota! - diziam os provocadores. Eu metia a canelada, sem dó.

Por isso fiquei feliz, muito feliz, quando parei de usar aquela droga odiosa de bota e ganhei um Conga. Sim, Conga é uma droga também, mas qualquer coisa é melhor do que uma bota ortopédica. Um adorava meu Conga azul. Sim, eu queria mesmo era um Kichute, mas o meu irmão tinha um, era só uma questão de esperar a minha vez. Essas coisas custavam caro. Um dia, o Kichute usado dele iria ser meu. O problema é que meu irmão tinha mania de jogar futebol todos os dias. E não fazia diferença, no gramado ou no cimento do futebol de salão, meu irmão usava o Kichute. Quando chegou a minha vez, o Kichute do meu irmão não valia uma gimba. Até os cardaços estavam rotos. Então ganhei outro Conga.

Tudo continuava numa boa, meu mau humor diminuía, a bota ortopédica era só uma lembrança, quando naquele ano eu mudei de escola. Putz. Novo uniforme. Uso obrigatório de sapatos. Quase chorei, foi uma lástima. Mas pelo menos eram sapatos pretos. Na primeira semana de aula, voltei a chutar canelas. Bastava calçar os sapatos para uma irritação maligna tomar conta dos meus pés e começasse a subir para minha cabeça, devagarinho. Na segunda-feira seguinte, dei início ao meu plano secreto para desgastar os sapatos o mais rapidamente possível. Ia para a escola a pé, era perto, e arrastava os pés o mais fortemente que podia. Eu calculava que bastaria uns 15 dias de pés arrastados para dar cabo daquele sapato. Mas na sexta-feira seguinte, o sapato Vulcabrás estava lá, firme e forte. Eu teria que incrementar o meu plano de desgaste sapatal.

Naquele mesmo dia, voltando da escola, já no elevador, decidi que iria incrementar o desgaste com chutes. E comecei naquele instante mesmo a dar chutes no elevador. Inclusive na porta sanfonada. Foi aí que prendi o pé e subi três andares arrastando o sapato numa posição impossível. Tive sorte de não quebrar nada. O couro do sapato foi lixado com toda força no espaço existente entre os andares. Nunca rezei tanto e tão forte quanto naqueles segundos em que arrastei o peito do meu pé direito por alguns andares. Para piorar, minha mãe me flagrou tentando disfarçar o sapato com graxa. Além de ficar de castigo, tive que usar o sapato preto recauchutado até o final daquele ano.

segunda-feira, 29 de julho de 2013

As coisas terríveis que aconteceram na minha infância

Nunca aconteceu nada demais, vou logo avisando. Talvez tivesse sido melhor chamá-los de terríveis não-acontecimentos. Um dos primeiros foi o dia em que a cidade inteira procurou por mim. Nós morávamos numa cidadezinha de dez mil habitantes na beira do Rio Araguaia, onde meu pai foi juiz. Ele adorava pescar e possuía uma grande lanterna vermelha para as pescarias. Para poupar as pilhas, ele deixava a lanterna numa gaveta e as pilhas em outra. Eu sabia todos os esconderijos. E também achava a lanterna imensa. Tinha quatro ou seis pilhas médias, não me lembro direito. Mas sei que eu precisava fazer muita força para fechar a lanterna. Pois naquele dia minha mãe procurou por mim pela casa inteira e não me encontrou. Só achou a lanterna vermelha sobre a minha cama. Minha mãe vivia dizendo para ficarmos longe do rio, era um pesadelo para ela. Minha mãe procurou nos vizinhos e nada. E logo todos os vizinhos e vizinhas da rua inteira e das outras ruas saíram para me procurar. A notícia de que um dos filhos do juiz estava sumido e poderia estar no rio ou até se afogado correu pela cidade como se fosse rastilho de pólvora. Num instante, toda a cidade foi vasculhar a beirada do rio para ver se me achavam. Três horas de busca e nada, minha mãe estava aos prantos, meu pai já tinha abandonado o expediente no fórum, a polícia já pretendia começar a ouvir os suspeitos de sempre. Foi quando um vizinho, o velho Seu Dôdô, chamou a minha mãe e segredou alguma coisa no ouvido dela. Minha mãe saiu correndo para casa e não deu outra, lá estava eu debaixo da cama, escondido e com medo de levar uma bronca. Seu Dôdô sabia das coisas.

_Criança quando faz arte, se esconde debaixo da cama - ele disse para a minha mãe. Eu havia desmontado a lanterna e não conseguia fechá-la. Achei que havia quebrado a geringonça quando a mola do fundo voou longe.

Um ano depois, eu devia ter seis ou cinco anos, nós já estávamos morando em outra cidade. Minha mãe dava um duro danado. No interior, tudo era muito mais difícil. Mas havia segurança. As pessoas não tinham muito medo do que poderia acontecer. Eu também não, é claro. Por isso, minha mãe não estranhou muito quando não conseguiu me encontrar naquela manhã. Era uma outra cidade, não estava na margem do rio e nós morávamos bem ao lado da igreja. O que poderia acontecer? Bom, eu sumi de novo. Mas desta vez não houve multidão nem correria. Um dos vizinhos do final da rua ( e era uma rua bem comprida) veio correndo avisar minha mãe que havia me visto.

_E onde ele está? Onde? - disse a minha mãe.

Mas eu mesmo respondi que já havia voltado. Eu havia pedido uma carona para o leiteiro, que passava pela manhã em frente a todas as casas. Ele deu a volta no quarteirão e me deixou na porta de casa.

E depois teve o dia em que eu prendi o pé na porta sanfonada do elevador.

domingo, 28 de julho de 2013

As crianças preferem as férias

Ontem os dois foram dormir tarde. Acordaram às sete. No último dia de férias, todos os segundo são preciosos. Havia uma visível ansiedade para brincar o máximo possível.

_Vocês já escovaram os dentes? - perguntei logo que acordei.

_Daqui a pouco, pai. Estou lendo esse livro.

_É, paiê, daqui a pouco a gente escova. Estou brincando com as bonecas.

Não adiantava insistir, eu já sabia, não é a primeira vez que as férias das crianças acabam. Todas as coisas foram postergadas até o limite máximo. Todas as chances de brincar foram aproveitadas. Fomos almoçar na casa dos avós e a farra com os primos também se estendeu. Depois do lanche que valeu um jantar, no retorno pra casa, parecia que todo mundo estava voltando da casa dos avós, foi uma verdadeira procissão de fim de férias. Meu filho estava tão exausto que dormiu no carro. A menina também estava cansada, mas insistia em tagarelar sem parar, contando as histórias das festas e amigas.

_Ao chegar em casa, banho e escovar os dentes - eu disse.

_Mas paiê, nós já escovamos - disse a menina.

_Já perdeu a validade.

Na hora de dormir, uma última tentativa de postergar o descanso.

_Paiê, não consigo achar o cavalo de pelúcia.

_Você tirou ele de casa? Pois então, não se preocupe. Ele deve estar em algum lugar daqui de casa, talvez aqui mesmo neste quarto.

_Mas paiê, eu não consigo dormir sem o cavalinho - ela disse, fingindo choramingar. Fiz uma rápida procura pelo quarto e encontrei o bicho de pelúcia, no meio de um monte de bichos de pelúcia.

_É este?

_Valeu, paiê. Agora eu posso dormir sossegada - disse a menina.

Meu filho também acabou enrolando um pouco. Desceu, foi pegar um pouco dágua. Depois voltou e se enrolou no cobertor, está fazendo frio em Brasília.

_Pai, quando você era criança, qual você achava melhor, férias ou escola? - disse o menino.

_Hum, isso é peguinha? Parece pergunta com peguinha.

_Não, pai, é sério. Qual você preferia: férias ou escola?

_Férias.

_Eu também. Mas pai, eu pensei que você ia falar que preferia escola, só para me fazer sentir melhor.

_Tudo bem, eu preferia a escola. Está se sentindo melhor?

_Não. Eu sei que você preferia as férias. A verdade é que as crianças preferem as férias. Os adultos é que preferem a escola. Acho que é tudo porque nas férias as crianças podem dormir mais tarde e acordar na hora que quiser. E nas aulas as crianças têm que dormir e acordar muito cedo.

_Não se você estudar à tarde. Aí você não precisa acordar tão cedo. Mas em compensação, você fica com muito sono depois do almoço - eu disse.

_Eu prefiro escola de manhã. Também sinto muito sono depois do almoço.

Os dois dormiram rapidamente.



quinta-feira, 25 de julho de 2013

Nos últimos dias



El que persevera...

Voltei para a oficina nos últimos dias. Repintei o baú que fiz na semana atrasada de preto por fora e branco por dentro, consertei finalmente o pé da velha mesa de jantar e lixei e envernizei duas grandes mesas baixas com gavetas que meu irmão me deu. As mesas, cada uma com 1,80 m, foram colocadas na sala o que exigiu uma nova arrumação geral. Uma coisa leva a outra, foi por causa delas que me senti na obrigação de consertar o pé da velha mesa de jantar.

Foi a primeira mesa que compramos, assim que nos mudamos para o velho apê. É extensível. Isso significa que ela abre no meio e duas metades correm sobre uma moldura retangular. As junções desse tipo de mesa são bem boladas, com as quinas dos retângulos sendo fechadas por dentro por pequenos blocos de madeira, formando um triângulo. Cada uma dessas hipotenusas dos triângulos são atravessadas por dois grandes parafusos de latão amarelo que são rosqueados às pernas da mesa. A armação de madeira é dura, escura e pesada. As pernas são de pinus. A mesa ficou desconjuntada de tanto ser empurrada de um lado para outro. Isso forçou tanto a armação de madeira que um dos lados se esfacelou. A mesa só ficava de pé por causa de um remendo capenga que fiz ainda no velho apê, com um pouco de cola de pvc, parafusos e uma cantoneira. O remendo era horrível, mas funcionou durante uns oito anos. Com um pouco de boa vontade era possível não perceber que havia alguma coisa de muito errada com aquela mesa.

O conserto demorou mais do que eu pensei, mas ficou razoável. Só vou precisar de duas pinceladas de tinta preta para esconder os dois parafusos extras que usei para fixar a hipotenusa defeituosa. Conmo estava com o bicho carpinteiro, tratei de esvaziar e limpar toda a oficina novamente. A melhor coisa do trabalho com madeira é a possibilidade de devanear durante algumas horas. Depois fica bem mais fácil tirar o que está na cabeça e passar para o papel.

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Será que vai chover?



Julie London - Cry Me A River

A rua onde eu moro é um bocado monótona, o que eu acho ótimo. Não acontece nada, então eu fico imaginando o que eu quiser. Às vezes, por causa da minha imaginação, fico pensando que a minha rua é um dos lugares mais movimentados do mundo. E não é nada disso, é claro. A primeira casa da rua, por exemplo, é uma das mais tranquilas do lugar. Lá nunca acontece nada, a não ser o estouro do transformador, que fica no alto de um poste, na quina da cerca da primeira casa. Como o transformador é visivelmente inadequado, está sempre estourando. Na época das chuvas, o transformador estoura pelo uma vez por semana, é possível escutar o barulho lá da minha casa, quase no fim da rua. Quando a energia cai, eu e outros vizinhos vamos para o portão. Às vezes os vizinhos perguntam sobre futebol, falam da volta da inflação, falam sobre os políticos que deviam ser mandados para a cadeia. Eu faço meio que sim, balançando com a cabeça, mas não muito. Não é bom discordar dos vizinhos. Também não é bom concordar com os vizinhos, tem muito vizinho que joga um verde, só para ver se você está do lado deles e depois fica falando mal pelas costas. Ou então isso é imaginação minha, tem muita gente boa nesse mundo. Mas também tem muita gente má, isso é bem sabido, o melhor é ter cuidado. Por isso eu prefiro fazer como os ingleses, fico falando do tempo. Amanhã vai chover. Não vai. Amanhã vai fazer sol, essas coisas. Isso não compromete ninguém e ninguém acerta mesmo, então vale qualquer coisa. Outro dia mesmo caiu um chuvisco numa época em que nunca chove por essas bandas. Vai saber, como? Mas o estranho foi mesmo hoje, porque começou a ventar igual acontece antes de chuva. Ventou e chegou a ficar meio nublado de tanta poeira no céu, mas não havia nenhuma nuvem. Foi esquisito. E logo em seguida o transformador estourou e a rua inteira ficou sem luz. Fui para o portão, é claro. E daí a pouco a minha vizinha, uma senhora dos seus 60 e muitos, se aproximou.

_Agora nem precisa chover e o transformador estoura, né? - disse a vizinha.

_É. Parecia mesmo que ia chover, enganou até o transformador - eu disse.

_Para mim, isso é coisa lá da casa 1 - ela disse, observando a minha reação.

_Será? - eu disse, fingindo que meus óculos precisavam de uma limpeza naquele instante.

_Acho que ele usa uma máquina que sobrecarrega o transformador e provoca o estouro. O que você acha?

_Eu acho que isso pode fazer sentido. Mas eu posso estar enganado - eu disse.

_Você é de Minas? - ela disse.

_Sou de bem perto. Será que vão consertar logo? - eu disse. E a conversa continuou por mais alguns minutos, mas tenho certeza de que não disse nada comprometedor. Todo cuidado é pouco. Para mim, a vizinha está certa. O vizinho da casa 1 tem um jeitão meio suspeito. Na minha imaginação, acho que ele está fabricando alguma coisa.

_Será que chover? - diz a vizinha.

_Acho que não. Agora só vamos ver chuva depois de setembro - eu disse.

_Mas posso estar enganado - completei. Minha rua é um bocado monótona.

terça-feira, 23 de julho de 2013

No dentista, mais uma vez



Tame Impala - "Elephant"

Estamos neste consultório odontológico, onde vim com as crianças para tirar novas chapas radiológicas. Acho que esqueci de contar que mandei o último dentista às favas porque ele sempre dizia que tudo estava normal e que não poderia fazer uma estimativa sobre o final do tratamento ortodôntico. Dentistas, médicos, advogados, sociólogos, economistas, psicólogos e toda a turma com canudo na mão é bem corporativista, ninguém critica o trabalho do colega. O novo dentista também não disse nada, só estranhou que as crianças ainda estivessem com os mesmo aparelhos com que iniciaram o tratamento, há quase dois anos.

_Talvez tenha sido um engano. O palato das crianças se modifica rapidamente. Os aparelhos servem, no máximo, por oito meses. Depois disso elas sempre estarão se queixando de dores e incômodos. E o pior, como o aparelho não serve mais na boca, ele pode provocar ferimentos e facilitar a ocorrência de infecções - disse o novo dentista.

Quando soube disso, senti vontade de chutar um hidrante. Depois, quando me lembrava das queixas das crianças, sentia vontade de chutar dois hidrantes. De qualquer modo, ali estávamos nós tentando resolver os problemas que acreditávamos que estavam sendo enfrentados anteriormente, quando eu não percebia que estávamos sendo apenas enrolados. Novas radiografias para o novo tratamento.

Eu não estou com o plástico do convênio, levo apenas os números do plano dental, que imprimi do e-mail que a minha mulher me mandou. Mais uma vez, as atendentes me olham com aquele ar de superioridade dedicado a quem não tem o plano dental no próprio nome. Finjo que não percebo a empáfia. Mas um pedaço de e-mail não impõe muito respeito no mundo dos cartões plásticos dos planos de saúde. A atendente desconfia de mim, por algum motivo. Talvez sejam os meus tênis, um All-Star cano longo. Ninguém leva muito a sério um adulto baixinho com um All-star cano longo. Ela me faz perguntas chaves sobre as crianças.

_Qual é a data de nascimento da menina? - ela pergunta, de repente.

Eu respondo. Lembro do dia como se fosse hoje. Da alegria de ser abençoado com uma menina, de como desfilei com ela enrolada feito um pacotinho no corredor do hospital, só até saleta com uma grande vidraça onde eu a exibi para meus pais e irmãos.

_O plano dental não cobre o molde. Vai pagar à parte?

_Não. Só vamos fazer as radiografias - eu disse.

_Mas aqui está marcado o quadradinho do molde - disse a atendente. Ela exibe o pedido assinado pelo dentista, o quadradinho do molde com um "x".

_Os moldes já foram feitos. Eles só irão fazer as radiografias - eu disse.

_Tem certeza? Não acha melhor conferir com a titular do plano? - ela disse.

_Com a minha esposa? Você quer que eu incomode a minha mulher no trabalho? A essa hora? - eu disse, só pra provocar.

_Tudo bem, se não estiver certo, você pode voltar qualquer dia, né? - ela disse. E bingo, a atendente virou o placar novamente.

Quando eu estava sentado, à espera do chamado, a atendente me perguntou de surpresa, quando estava atendendo outra pessoa.

_E o menino, qual é a data de nascimento do menino? - ela disse.

Eu respondi. É a data mais fácil do mundo. Foi o dia em que eu comecei a renascer. A atendente pareceu desapontada. Aparentemente eu não era alguém tentando fraudar o plano dental, conseguindo duas radiografias de graça para duas crianças. Esse tipo de coisa deve ocorrer todos os dias, eu imagino.








domingo, 21 de julho de 2013

Nomes



Bonobo - The Keeper

Estamos no café da manhã na padaria. Aos domingos, acordamos tarde e vamos tomar café da manhã fora. Às vezes vamos a pé, de bicicleta ou de skate. Mas na maioria das vezes vamos mesmo é de carro. Especialmente se levarmos Rafa, o cãozinho shi-tsu da minha filha. Nem ele e nem eu estamos muito preparados para longas caminhadas. De modo que estamos na padaria e já fizemos o pedido de sempre: três mistos com ovos, um misto sem ovo, dois cafés da casa com leite e quatro sucos de laranja. Enquanto esperamos os pedidos chegarem, as crianças brincam de fazer perguntas. É uma brincadeira recente, com regras simples. Uma pessoa faz uma pergunta a outra, que também deve responder com outra pergunta. Perde quem disser uma frase com "Não sei" ou se esquecer de fazer uma pergunta no final da resposta. Não sei porquê começo a pensar em Meldrum e Crump, os nomes dos oficiais superiores de Anthony Burgess durante a II Guerra, em Gibraltar. Como vingança contra as mesquinharias dos oficiais, Burgess sempre atribuiu esses nomes aos seus personagens menores mais detestáveis.

Fico pensando em quais seriam os nomes mais detestáveis dos personagens da minha vida. Não aparecem muitos nomes. Acho que tenho um problema de memória para as pessoas que detesto, ou eu as esqueço rapidamente. Será que eu deveria reservar os nomes mais legais, os nomes das pessoas boas que tive a sorte de encontrar em minha vida, para os bons personagens?

Os pedidos chegaram nessa hora, enquanto ainda estou decidindo o que fazer.

sábado, 20 de julho de 2013

Filmes no sofá



The Walkmen: Orange Sunday

Assistimos a Piratas do Caribe no sofá, todos juntos, eu, minha mulher e as duas crianças. Rafa também estava, é claro. O pequeno shi-tsu foi levado peludo para o banho semanal no pet shop, mas voltou tosado. Os caras da loja ligaram pedindo autorização para cortar o pelo do cachorrinho de estimação. De acordo com o sujeito do pet shop, Rafa estava com o pelo todo encaroçado por causa de uma roupa com que resolvemos vesti-lo. Na verdade, foi burrice minha, achei que o Rafa estava sentindo frio de madrugada, porque eu estou sentindo frio de madrugada. A roupa deveria ser um benefício, mas acabou se transformando num pesadelo para o Rafa, que perdeu todo o pelo, até os bigodes. Com o pelo bem curtinho, Rafa ficou parecendo um pug.

_Por quê tosaram os bigodes? - perguntou a minha mulher.

_Não tenho a menor idéia. Li em algum lugar que não tem problema. Os gatos é que ficam desorientados sem os bigodes. Além disso, o Rafa, com ou sem bigodes, é um desorientado - eu disse.

_Por quê você autorizou? Ele está muito feinho, coitado - ela disse.

_Beleza não põe mesa. Além disso, o cara do pet-shop disse que o pelo encaroçado vira uma tortura para o cachorro, que fica estressado de tanto se coçar. Ele recomendou fortemente que fosse feita uma tosa - eu disse.

_Fortemente? - disse a minha mulher.

_É jargão de pet-shop. Se ele tivesse recomendado fracamente talvez eu tivesse deixado pra lá. Mas quando o cara diz "for-te-men-te" o assunto fica bem profissional, quase veterinário. Por isso eu preferi não arriscar - eu disse.

Depois disso, decidimos jantar. Fiz hamburguer. Saí para comprar comida para o Rafa e sorvetes de sobremesa. Então, finalmente estava tudo pronto para assistir ao filme. Houve uma pequena polêmica sobre qual filme assistir, invoquei a minha autoridade de pai e acabei decidindo pelo velho e bom Piratas do Caribe(2003), o filme que originou a série. Diversão garantida para toda família e uma trilha sonora instigante, uma peça clássica que tocam sempre no Natal, em Gramado. As crianças sabem os diálogos de cor, mas eu e a minha mulher ficamos um tempão sem ver esse filme. Ninguém resiste a um filme de pirata. E ainda havia sorvete.

Uma vez vi uma reportagem de TV que mostrava Johnny Deep atendendo a uma carta de fã-mirim na Inglaterra, onde se filmava uma sequência de Piratas do Caribe. Era uma menina de uma escola infantil que pedia a ajuda de Jack Sparrow para realizar um motim e tomar conta da escola. Deep resolveu atender ao pedido da menina e os amotinados, dezenas e dezenas de pirralhos chefiados por uma menina gordinha de óculos grossos, de 5 ou 6 anos de idade, tomaram o comando da escola. Naquele dia, eles aprisionaram professores e beberam sucos e comeram quantos sanduíches quiseram, na hora em que quiseram. Depois disso, Deep recebeu toneladas de cartas e crianças e adolescentes com planos mais ousados, mas o ator concordou com o seu agente e achou melhor parar com aquilo.

Não me lembro quando paramos de assistir aos filmes juntos, quando morava com meus pais e irmãos. Foi provavelmente em algum momento da adolescência. Aqui em casa, ainda cabemos todos juntos no velho sofá, que nos acompanha desde o velho apê. Com apenas poucos minutos de filme, os sorvetes já haviam acabado e Rafa veio se juntar a nós. Em pouco tempo, todos perceberam que coçar o pelo curto do Rafa era bem diferente e talvez mais gostoso do que coçar o Rafa com o pelo comprido. Pelo menos ninguém espirrava. As crianças diziam as melhores frases nas cenas mais impactantes e nos divertimos em torcer para quem sabíamos que iria ganhar: Jack, Jack Sparrow. No final, as crianças recitaram os diálogos com a mesma entonação dos dubladores.

sexta-feira, 19 de julho de 2013

Dois bancos para a mesa de almoço



Latasha Lee & The BlackTies- Sad Mood

Eu nunca havia me preocupado com móveis até mudarmos para uma casa. Quando morávamos no velho apartamento, os espaços eram bem limitados, qualquer pequeno excesso era um estorvo. No dia seguinte à mudança, quando todas as caixas de papelão tinham sido esvaziadas e todos os móveis estavam onde deveriam estar, percebi que não tínhamos quase nada. A sala estava completamente vazia. O escritório possuía somente a minha velha estante e a velha mesa do computador. Felizmente, os quartos das crianças estavam com móveis novos e adequados. Por algum tempo foi ótimo andar pela casa vazia, as crianças adoravam levar os colchões para a sala e fingir que acampavam. Usávamos mesas e cadeiras de plástico emprestadas. A novidade da mudança combinava com um certo vazio.

Um dia, enquanto andava no shopping, vi uma mesa de madeira grande numa oferta relâmpago. Era pegar, em suaves prestações, ou largar. Eu aproveitei a chance mas assim que cheguei em casa me arrependi. Não tínhamos cadeiras. As de plástico eram muito baixas e inadequadas. Só poderíamos usar a mesa se tivéssemos dois grandes bancos. Isso é bem típico do que acontece comigo. Tomo decisões que são irreversíveis e depois tento correr atrás do prejuízo. Todo mundo sabe que as lojas não aceitam devolução de mercadoria em oferta, mesmo assim corri de volta para o lugar e tentar reverter a compra. Fui esnobado pelo mesmo vendedor que um hora antes havia elogiado o meu bom gosto e a excelente escolha da mesa "para a vida inteira". Vendo que não conseguiria reverter a aquisição, o jeito foi tentar conseguir uma oferta especial dos bancos. O vendedor me esnobou mais uma vez e disse que os bancos disponíveis não estavam em oferta. Na verdade, cada um custava o dobro do que eu havia pago pela mesa.

De volta a casa, decidi eu mesmo fazer os bancos usando sobras de madeira da reforma que havíamos feito na casa. Não ficaram bonitos. Usei parafusos e cantoneiras de metal e não fiz nenhum encaixe. As pernas dos bancos foram feitas de estacas de ipê, uma madeira duríssima. E apesar de não serem bonitos, os bancos estão em uso até hoje. Mais importante do que isto, naquela noite em que terminei o primeiro deles, usando um serrote manual e uma furadeira hobby, eu escrevi uma história sobre um sujeito parecido comigo, quase da mesma altura, que um dia resolve se vingar de um vendedor de móveis que se recusou a desfazer uma venda. Era a história de um crime brutal, cometido por um motivo banal. E só porque eu usava uma furadeira elétrica e um serrote manual essa história ficou bem sangrenta. Descobri então que a marcenaria combina com escrever. As duas atividades são bem solitárias e exigem muita concentração. Um pequeno descuido e um erro acontece, uma história que começou bem empaca e não há jeito de se aproveitar o material.

Outro dia fiz um baú para guardar cobertores. Mas ele acabou por ficar na sala, fazendo as vezes de um aparador. Cometi alguns erros ao fazer o baú, coisas que já deveria saber que não iriam funcionar. Mas já encaro os erros sem raiva ou desespero. Na verdade, algumas vezes eu me divirto com eles.

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Train of thought - O fio da meada



Roberto Carlos - Eu Te Darei o Céu

Uma das novelas do Paul Auster, não me lembro qual, fala de um sujeito que é escritor, mas que só consegue escrever quando usa um caderno especial que encontra numa única papelaria de Nova York. O problema é que o estoque é bem limitado e a lojinha desaparece da noite para o dia. Em pouco tempo, o escritor já não tem mais o caderno mágico de escrever. É óbvio que se trata de um sujeito racional, ele não é nem um pouco supersticioso. Ele é até meio descrente de tudo, vive ironizando as pessoas que falam de sorte e azar, ri das pessoas que falam em transcendentalismo e até debocha das que se permitem a buscar explicações e conforto no divino. Não me lembro de como acaba, é um dos livros que preciso lembrar o nome e depois procurar na estante.

Sempre gostei muito dessa história porque às vezes eu me pego procurando um lápis que tenho há muito tempo e que eu chamo de "fio da meada". Eu chamo esse lápis assim porque às vezes acredito que ele me ajuda a encontrar uma linha a ser desenvolvida por alguns parágrafos. É ridículo, eu sei. Mas o fato é que funciona. Com o "fio da meada" por perto, eu só preciso riscar uma palavra de leve numa folha em branco para que as frases comecem a pipocar na minha cabeça e eu trate de ler meu próprio pensamento e ao mesmo tempo de escrevê-lo, o mais depressa que conseguir. Em geral, todas as frases desencadeadas pelo "fio da meada" fazem muito sentido e não preciso me preocupar muito com o encadeamento das coisas. Ele possui um ritmo próprio e instigante, como o de uma pessoa que está conversando com você, até com uma certa intimidade, mas não muita.

Houve um período de desânimo, é claro. Como qualquer artefato do balacobaco, "fio da meada" passou por várias fases inspiradoras e também por alguns tempos em branco. Algumas vezes, sem nenhuma razão aparente, eu precisava rabiscar vários parágrafos ou desenhar garatujas até que os parágrafos e mais parágrafos começassem a efervescer na minha mente. Em outras, bem poucas, nada acontecia. Era como se o lápis tivesse um detector de ansiedade que o impedisse de funcionar. Ele também não funcionaria se eu estivesse muito alegre, ou infeliz demais, ou com sede, fome ou se dormisse muito pouco. O mesmo aconteceria se eu estivesse com muita preguiça, se comesse demais, ou se estivesse com uma música presa na cabeça. Também reparei que se eu ficasse algumas semanas sem ler um livro, "fio da meada" funcionaria de um jeito capenga, como se precisasse recarregar as baterias.

De modo que, com o passar dos anos, fui descobrindo com o lápis que a escrita exige um sentimento específico, uma disciplina diária e um esforço contínuo. E tudo isso é volátil e melífluo como são as palavras. Não vou dizer que tudo o que eu escrevo foi soprado pelo "fio da meada", mas confesso que uma boa parte das melhores coisas que já consegui colocar no papel só saíram pelas pontas dos meus dedos depois que eu risquei um pouquinho com esse lápis. Não precisa ser muita coisa, basta uma palavra. O grande problema é que eu uso esse lápis há muitos e muitos anos e agora o "fio da meada" é só um pitoco. Ando com ele para baixo e para cima, junto com um bloquinho, que não tem nada de especial, é só papel. Uma vez fiquei desesperado porque meu lápis foi parar dentro da máquina de lavar roupa, no bolso da minha calça jeans. Perdi um bloquinho, mas tudo bem. O problema foi com o pitoco. Durante semanas, foi como escrever com tinta invisível, meus sujeitos, verbos e predicados desapareciam no meio de frases descoordenadas, inchadas e úmidas. Uma outra vez, perdi uma ponta do grafite de uma só vez depois que deixei "fio da meada" cair no chão. Foi terrível. Tive que fingir que era um poeta modernista, nada fazia muito sentido.

Pretendo me preparar para o dia em que o "fio da meada" estará definitivamente terminado. Já não tenho muito tempo.

Roberto Carlos - I Will Give You Heaven

One of the novels of Paul Auster, I do not remember which, tells of a guy who is a writer, but he can only write when using a special notebook that is found only at this unique stationery from New York. The problem is that the stock is very limited and the shop disappears overnight. Before long, the writer has no more magical notebook to write. It is obvious that this fellow is a rational subject, he is not a bit superstitious. He is halfway skeptical of everything, living mocking people who speak of chance, laughs at people who talk about transcendentalism and even mocks those that allow themselves to seek explanations and comfort in the divine. I do not remember how it ends, this is one of the books I have to remember the name and then look on the shelf.

I've always loved this story because sometimes I find myself looking for a pencil that I have for a very long time. It´s a very special pencil for me, that´s why I call it the "train of thought". I call this pencils so because sometimes I think it helps me to find a line to be developed for a few paragraphs. It's ridiculous, I know. But it works. With the "train of thought" close, I just need a word lightly scratching a blank sheet for the phrases start popping in my head. All I have to do is to read my own thinking while writing it, as soon as I can. In general, all the phrases triggered by "train of thought" make sense and I do not need to worry too much about the sequence of things. He has a self-paced and exciting way, like a person who is talking to you, even with a certain intimacy, but not too much.

There was a period of discouragement, of course. Like any triggery artifact , "train of thought" has gone through several phases and also inspired me for some blank pages. Sometimes, for no apparent reason, I needed several paragraphs scribble or even drawn up some doodles in order to make paragraphs and paragraphs began to bubble over in my mind. In other times, very few, nothing happened. It was as if the pencil had a detector of anxiety that prevented him from working. It would not work if I was very happy, or unhappy too, or thirsty, hungry or sleep very little. The same would happen if I was too lazy, if I ate too much, or if I had a song stuck in my head. I also noticed that if I stayed a few weeks without reading a book, "train of thought" would work in a way lame, as if to recharge.

So, over the years, I discovered with pencil writing requires a specific feeling a daily discipline and sustained effort. And all this is volatile and mellifluous as words are. I will not say that everything I write has been blown by "train of thought", but I admit that a good portion of the best things that ever got put on paper just came by my fingertips after I scratched a little with this pencil. There were no needs to be much, just a word. The big problem is that I use this pencil for many, many years and now the "train of thought" is just a little stick. Walk with it down and up, along with a pad, which has nothing special, it's just paper. Once I was desperate because my pencil got into the washing machine, in the pocket of my jeans. I lost a pad, but that´s ok. The problem was with the "train of thought". For weeks, it was like writing with invisible ink, my subjects, verbs and predicates disappeared in the middle of sentences uncoordinated, swollen and moist. Another time, I lost one huge piece of the graphite at once after I left "train of thought" fall to the ground. It was awful. I had to pretend I was a modernist poet, nothing made sense.

I intend to prepare for the day when my "train of thought" is definitely over. I do not have much time.

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Baixinho



Estou me acostumando a ver filmes baixinho. A TV tem um ótimo som embutido, cheio de recursos, mas prefiro ver os filmes bem baixinho, com legendas. Não quero acordar ninguém. O melhor de ver filmes quase em silêncio é que você obtém atuações quase perfeitas dos atores. Ler a legenda passa a ser um exercício de atribuição de empostação de vozes. Às vezes o filme nem é tão bom assim, mas com um pouco de imaginação e a exata entonação, algumas cenas ficam excelentes, dignas de um Oscar. Penso nisso e aí me lembro que uma vez ganhei, junto com minha turma, um troféu na escola. O Berimbau de Prata. Foi o prêmio do segundo lugar no festival da canção da escola parque, fizemos uma canção sobre a televisão. Era bem bonito. Acho que não podíamos ficar com o troféu para sempre, era só por uns tempos, até o concurso de música do ano seguinte.

sexta-feira, 12 de julho de 2013

Um pouco sobre o trabalho com madeira



New Order - Love Vigilantes

Mais da metade do trabalho com madeira é dedicado à limpeza. Hoje passei uma boa parte do dia na minha pequena oficina, para terminar um baú de cobertores, e grande parte do tempo foi consumido com a limpeza de ferramentas e do espaço de trabalho. Se você algum dia resolver montar uma oficina, vá por mim, dedique boa parte do seu planejamento para imaginar um modo de limpar rapidamente o espaço e as ferramentas. E nunca, nunca mesmo, deixe a limpeza daquele lugar ou de uma ferramenta para depois. Remover qualquer sujeira encruada, mesmo que seja no dia seguinte, é muito, muito mais difícil. A organização também é fundamental. Caso contrário, você perderá um tempo enorme procurando lixas, réguas, furadeiras e chaves espalhadas por todos os cantos.

O trabalho com madeira, assim como qualquer outra lida, exige alguns preparativos. Eu os desconhecia totalmente. Fui me inteirando dos preparativos e cuidados necessários à medida em que enfrentava os pequenos desafios que me atribuía. Continuo fazendo algumas coisas da mesma forma intuitiva e com experimentação. Isso algumas vezes produz resultados ruins, com muitos erros. Mas algumas vezes, por incrível que pareça, a loucura dá certo. Entretanto, é preciso dar o braço a torcer, sem método, organização, limpeza e atenção constante, não se faz nada que preste. É lógico que desde que comecei até hoje já li dezenas de revistas, guias e tutoriais, então me considero um pouco mais familiarizado com alguns temas. Mesmo assim, continuo me colocando pequenos desafios. Não é que tenha medo dos desafios maiores. É que algumas coisas eu sei que jamais conseguirei fazer. E não digo isso por ter uma baixa-estima. Existem algumas coisas que não possuo nem ferramentas adequadas e nem a habilidade necessária para fazer. Isso inclui tudo que exija um torno e uma tupia de mesa, por exemplo. Também não sou nada bom com as junções "dovetails", demoro tempo demais para fazer os encaixes e acabo tendo muito retrabalho. Também já passei da fase purista, em que usava somente ferramentas manuais. As ferramentas elétricas facilitam tudo, não há como abrir mão delas.

Mesmo sabendo de tudo isso, não consegui terminar o baú de cobertores. Usei tábuas de pinus de 15 cm de largura, com 1,8 de espessura. Tem 1,20 m de comprido, 60m de altura e 45cm de largura. Só vou conseguir terminar amanhã.

terça-feira, 9 de julho de 2013

A grande espionagem dos Isteites



Tame Impala - "Why Won't You Make Up Your Mind?"

Estamos sendo espionados, saiu no jornal e na TV. Ninguém sabe direito como, onde, e por quê, a única coisa certa é que a bisbilhotice é feita pelos Estados Unidos. Mesmo sem saber direito o que está acontecendo nossos governantes ficaram ofendidíssimos com a espionagem gringa e planejam exigir explicações assim que possível. Em primeiro lugar, nossos líderes pretendem consultar um ex-presidente que é também articulista do New York Times e especialista em negociações de paz no Oriente Médio e adjacências. O sábio guru costuma vaticinar usando metáforas futebolísticas num dialeto fanho que é popularmente conhecido como "língua presa". O grande problema é que ninguém sabe onde está o bidu. Será que os Estados Unidos sabem? Receio que não.

Não sei de riquezas nacionais e nem de estratégias empresariais tupiniquins que mereceriam a dedicação bisbilhoteira dos ianques, mas eu sei de pouca coisa. Vai ver os EUA querem saber porque estamos demorando tanto tempo para explorar o pré-sal. Ou por quê gostamos de comprar refinarias por muitos milhões e depois corremos para vender a mesma refinaria por muito, muito menos. Ou talvez estejam supercuriosos com o trem-bala brazuca, uma maravilha da engenharia virtual que já nos custou mais de um bilhão e o preço não para de subir. Ou quem sabe estejam intrigadíssimos com a nossa proverbial capacidade para realizar acordos comerciais bilaterais.

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Pharrell Williams - Happy



Pharrell Williams - Happy

Melhor música do sensacional "Meu Malvado Favorito 2". Ri do início ao fim.

domingo, 7 de julho de 2013

O país do futebol



Tame Impala - Elephant

_Se esse timeco ganhar a Copa das Confederações, todo mundo volta pra casa sorrindo - ele me disse, antes do jogo da final.

_Não, quê isso? É uma onda de indignação. É uma coisa inédita. Agora vai. As pessoas não aguentam mais os desmandos e a roubalheira. As pessoas querem mudanças. O gigante acordou - eu disse.

_Rá! Fogo de palha! Se levantarem o caneco, pode escrever no seu blog, fica tudo para depois do nunca - ele me disse.

_Vou discordar de você. Foram milhões de pessoas nas ruas, em mais de 400 cidades diferentes. É uma insatisfação muito grande. Não me lembro de ter visto coisa igual.

_Da mesma forma que veio, se vai. Daqui a seis meses não se fala mais nisso. Se esse selecionado mequetrefe ganhar da máquina bem treinada e azeitada da Espanha, as ruas se esvaziarão ainda mais rapidamente. Aqui é o país do futebol. Estou um pouco cansado disso. Desde muito tempo que esse é só o país do futebol. Queria que fosse o país dos justos. Queria que fosse o país dos estudiosos. Queria que fosse o país do bem estar. Queria que fosse qualquer outra coisa. Mas é só o país do futebol- ele disse.

Faz apenas uma semana, essa conversa. Na hora do jogo, eu pensei mesmo que era hora de uma mudança e que talvez uma derrota fosse mesmo o que estávamos precisando para que o país deixasse de ser somente o país do futebol. Mas acabei me empolgando logo no início da partida com o primeiro gol. E no final eu também queria estar lá, queria ter cantado o hino à capella.

Ao contrário do combinado eu nem escrevi nada no blog. Preferi ficar em silêncio, torcendo para que ele estivesse errado, embora eu soubesse lá no fundo que é verdade, aqui é só o país do futebol. É nele que reside a nossa pequena chance de vitória.

sexta-feira, 5 de julho de 2013

As mentiras melhores



Rival Sons - Jordan

Li em algum lugar que às vezes as pessoas não querem saber da verdade, porque a verdade é terrível demais, então preferem a mentira. Mas não pode ser qualquer mentira, tem que ser uma daquelas lorotas bem elaboradas. Acabei de me lembrar que li isso num livro do Tibor Fischer, o melhor escritor entre todos os escritores. Deve ter sido em "O Colecionador de Colecionadores." Em um trecho do livro, um vaso de 10 mil anos - que é o personagem principal - explica que a verdade raramente é necessária.

Fiz uma pausa de dez minutos para folhear o livro e encontrar o que eu queria. Segue o trecho, está na página 179:

"A verdade quase nunca é vantajosa. O condenado prestes a subir à forca não quer saber que está tudo azeitado. Ao receber a visita de sua mulher, quer ouvir que houve um indulto, mas que só será anunciado no último segundo, depois que ele vistir o capuz e estiver na posição, e é isso que ela diz, embora saiba que todo mundo já está brigando pelo melhores lugares.

A primeira vez que ouvi isto assim formulado foi quando eu estava num vagão atravessando os Alpes. As rodas escorregaram, e o vagão ficou pendurado sobre o pitoresco abismo. Os passageiros ficaram sentados, imóveis, temerosos de que qualquer movimento provocasse uma queda sobres as rochas que esperavam pacientemente a centenas de metros lá embaixo. O mais novo olhou cautelosamente para trás:

_Metade do vagão passou da beirada.

_Por que foi dizer isso? - censurou-o o mais velho. - Não é disso que precisamos. Precisamos é de mentiras melhores."

Ou talvez não.




A embalagem enganosa 2



Black crowes - Feelin' alright

_Não havia sensor - eu disse.

_Espere aqui. Não se mexa. Vou lhe mostrar o sensor-temporizador! - disse o vendedor.

Nessa altura do campeonato, já havia ajuntamento e torcida. Outros fregueses e vendedores se aproximavam para ver o que estava acontecendo. Um engraçadinho começou a fingir que agenciava apostas.

_Aposto cem pratas no careca! - disse o sujeito.

Eu realmente só queria ir embora, mas as pessoas simplesmente não me deixavam passar. Quando pensei ter conseguido encontrar uma brecha entre dois apostadores, o vendedor voltou.

_Aqui. Olha aqui. É um sensor-temporizador, conforme eu havia dito - ele disse, abrindo a embalagem e exibindo a engenhoca.

_Mostra pro Osvaldo - eu disse, e apontei para trás.

Saí correndo quando todos se viraram. Nem olhei para trás. Acho que nunca mais voltarei para a loja de bricabraques. É uma pena, porque é a loja mais próxima de casa, eu nem precisava de automóvel para ir até lá. De qualquer modo, já que eu estava de carro e continuava sem um temporizador, resolvi ir até uma loja mais distante para procurar um novo equipamento. Essa outra loja é enorme, no sentido maioral da palavra. É uma gigantesca empresa multinacional, de modo que eu não teria problemas para me livrar de vendedores. Na verdade, é bem o contrário. É mais fácil encontrar uma pessoa que lhe deve dinheiro do que um vendedor nesse lugar. Não que os vendedores não existam. Eles existem aos montes, mas ficam em grupos espalhados pelos cantos, não ligam para quem veio fazer compras. São profissionais altamente treinados e capacitados, sabem avaliar um cliente com uma breve olhadela de alto a baixo no interessado. Se um deles olhasse na minha direção, talvez me enquadrasse no perfil de cliente insignificante, alguém que não vale a pena deixar de conversar sobre futebol ou novela para atender. Portanto, fui até a prateleira de sensores fotoelétricos e escolhi o modelo mais barato. Custava vinte pratas. Levei a engenhoca até o caixa, paguei a crédito e me retirei rapidamente. A operação toda não durou mais do que cinco minutos.

De volta a casa, demorei apenas um minuto para encaixar o novo sensor fotoelétrico sobre a base existente. Assim que o fiz, me lembrei que o jardineiro havia feito um pequeno comentário sobre o rompimento de fios elétricos naquela parte do jardim, coisa de seis meses antes, exatamente no mesmo período em que o sensor fotoelétrico deixou de funcionar e eu presumi que estivesse queimado.

_Cortei uns fiozinhos que saíam de um conduíte, espero que não se importe - dissera o jardineiro.

Eu me importei, é claro. Mas acabei me esquecendo. Não faz mal. Depois de tudo consertado, terei um sensor fotoelétrico de reserva.

quinta-feira, 4 de julho de 2013

A embalagem enganosa



The Black Crowes - Soul Singing

Não tenho falado mais sobre a manutenção da casa. É uma coisa ininterrupta, conto nos dedos as semanas em que não fiz um reparo ou precisei fazer um pequeno conserto. Já me habituei e muitas vezes nem considero a rotina digna de nota, a não ser quando me vejo numa situação meio esquisita. Hoje, por exemplo, depois de meses adiando, resolvi trocar o sensor fotoelétrico de uma lâmpada do jardim. É de um ponto do quintal que prefiro que esteja iluminado à noite. Não é nada essencial, é só um capricho, mas hoje me vi tentado a reparar o problema. Fui para as lojas de bricabraques à procura do tal sensor. Na primeira delas, depois de vários minutos conversando com o vendedor sobre diferentes modelos de sensores, ele me convenceu de que o modelo que estava me empurrando por trinta e duas pratas era um sensor fotoelétrico associado a um temporizador. Aparentemente era isso mesmo que estava escrito na embalagem. Eu levava dois aparelhos em um só. Maravilha. Paguei a pechincha e assim que saí do balcão de expedição surgiu um outro vendedor, com uma cara de lástima por mim, o comprador atoleimado.

_Olha, você comprou gato por lebre. Esse aí não é um sensor fotoelétrico. É só um temporizador - disse o apiedado vendedor.

_Tem certeza? O outro vendedor me garantiu que esse fazia as duas funções. Além disso está escrito na embalagem aqui, ó, 'sensor fotoelétrico" - eu disse.

_Não. Está escrito "Linha de Sensores Fotoelétricos". É uma embalagem enganosa. Mas dê uma olhada no aparelho e veja se existe algum sensor. Viu? É só um temporizador - ele disse.

_Mas que perda de tempo. Eu não quero um temporizador, eu quero um sensor - eu disse.

_Se quiser o dinheiro de volta é só levar ao caixa - disse o vendedor.

Foi o que eu fiz. Demorou o dobro do tempo, é claro. Mas devolveram o dinheiro. Quando estou saindo, o vendedor que havia me vendido gato por lebre surgiu à minha frente.

_Ué, desistiu do sensor? - ele disse, com uma expressão estranha no rosto. Parecia que estava sorrindo, mas podia ser uma careta.

_Não. É que o sensor que você me vendeu não era um sensor, era só um temporizador - eu disse.

_Quem disse isso? Você? - ele disse.

_Não, não. Foi um dos seus colegas. Ele me mostrou a embalagem enganosa. Parecia mesmo que era um sensor com um temporizador, mas era só um temporizador - eu disse.

_Não é possível. Estou há anos nesse negócio e nunca ouvi falar de embalagem enganosa. E qual foi o colega que disse um absurdo desses? Quem foi? Foi um vendedor mais velho, meio careca? - ele disse.

_É. Foi um vendedor assim. Mas tudo bem, já recebi o dinheiro de volta - eu disse, procurando um jeito de passar pelo vendedor.

_Aquele cretino! - disse o vendedor de lebres.

_Pois é, então passar bem! - eu disse, ainda tentando fazer com que o sujeito saísse da minha frente.

_Não, não, espere aí. Isso não vai ficar assim, não! Eu já aguentei tudo o que eu podia aguentar daquele cretino filho de uma figa do Osvaldo. Esse canalha está prejudicando todas as minhas vendas. Isso não vai ficar assim. O senhor pode voltar lá e pegar o sensor-temporizador. Eu garanto que ele tem as duas funções. O filho de uma quenga não consegue nem ler as instruções da embalagem...

_O Osvaldo? Você está falando do Osvaldo? - eu disse.

_Sim, claro. Só aquele imbecil pra inventar essa estória de embalagem enganosa - ele disse.

_Mas eu vi a embalagem e é verdade, não era um sensor, era só um temporizador - eu disse.

_Sei, o senhor sabe mais do que eu, que estou nesse ramo há mais de vinte anos - ele disse.

_Desculpe - eu disse. Eu não sei se eu sei mais do que você, mas eu tenho certeza de que aquilo não era um sensor-temporizador, era só um temporizador - eu disse.

_E pra quê servia o sensor, então? - ele disse, colocando as mãos na cintura.

_Não havia sensor - eu disse.

_



Frase do dia


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