quinta-feira, 4 de julho de 2013

A embalagem enganosa



The Black Crowes - Soul Singing

Não tenho falado mais sobre a manutenção da casa. É uma coisa ininterrupta, conto nos dedos as semanas em que não fiz um reparo ou precisei fazer um pequeno conserto. Já me habituei e muitas vezes nem considero a rotina digna de nota, a não ser quando me vejo numa situação meio esquisita. Hoje, por exemplo, depois de meses adiando, resolvi trocar o sensor fotoelétrico de uma lâmpada do jardim. É de um ponto do quintal que prefiro que esteja iluminado à noite. Não é nada essencial, é só um capricho, mas hoje me vi tentado a reparar o problema. Fui para as lojas de bricabraques à procura do tal sensor. Na primeira delas, depois de vários minutos conversando com o vendedor sobre diferentes modelos de sensores, ele me convenceu de que o modelo que estava me empurrando por trinta e duas pratas era um sensor fotoelétrico associado a um temporizador. Aparentemente era isso mesmo que estava escrito na embalagem. Eu levava dois aparelhos em um só. Maravilha. Paguei a pechincha e assim que saí do balcão de expedição surgiu um outro vendedor, com uma cara de lástima por mim, o comprador atoleimado.

_Olha, você comprou gato por lebre. Esse aí não é um sensor fotoelétrico. É só um temporizador - disse o apiedado vendedor.

_Tem certeza? O outro vendedor me garantiu que esse fazia as duas funções. Além disso está escrito na embalagem aqui, ó, 'sensor fotoelétrico" - eu disse.

_Não. Está escrito "Linha de Sensores Fotoelétricos". É uma embalagem enganosa. Mas dê uma olhada no aparelho e veja se existe algum sensor. Viu? É só um temporizador - ele disse.

_Mas que perda de tempo. Eu não quero um temporizador, eu quero um sensor - eu disse.

_Se quiser o dinheiro de volta é só levar ao caixa - disse o vendedor.

Foi o que eu fiz. Demorou o dobro do tempo, é claro. Mas devolveram o dinheiro. Quando estou saindo, o vendedor que havia me vendido gato por lebre surgiu à minha frente.

_Ué, desistiu do sensor? - ele disse, com uma expressão estranha no rosto. Parecia que estava sorrindo, mas podia ser uma careta.

_Não. É que o sensor que você me vendeu não era um sensor, era só um temporizador - eu disse.

_Quem disse isso? Você? - ele disse.

_Não, não. Foi um dos seus colegas. Ele me mostrou a embalagem enganosa. Parecia mesmo que era um sensor com um temporizador, mas era só um temporizador - eu disse.

_Não é possível. Estou há anos nesse negócio e nunca ouvi falar de embalagem enganosa. E qual foi o colega que disse um absurdo desses? Quem foi? Foi um vendedor mais velho, meio careca? - ele disse.

_É. Foi um vendedor assim. Mas tudo bem, já recebi o dinheiro de volta - eu disse, procurando um jeito de passar pelo vendedor.

_Aquele cretino! - disse o vendedor de lebres.

_Pois é, então passar bem! - eu disse, ainda tentando fazer com que o sujeito saísse da minha frente.

_Não, não, espere aí. Isso não vai ficar assim, não! Eu já aguentei tudo o que eu podia aguentar daquele cretino filho de uma figa do Osvaldo. Esse canalha está prejudicando todas as minhas vendas. Isso não vai ficar assim. O senhor pode voltar lá e pegar o sensor-temporizador. Eu garanto que ele tem as duas funções. O filho de uma quenga não consegue nem ler as instruções da embalagem...

_O Osvaldo? Você está falando do Osvaldo? - eu disse.

_Sim, claro. Só aquele imbecil pra inventar essa estória de embalagem enganosa - ele disse.

_Mas eu vi a embalagem e é verdade, não era um sensor, era só um temporizador - eu disse.

_Sei, o senhor sabe mais do que eu, que estou nesse ramo há mais de vinte anos - ele disse.

_Desculpe - eu disse. Eu não sei se eu sei mais do que você, mas eu tenho certeza de que aquilo não era um sensor-temporizador, era só um temporizador - eu disse.

_E pra quê servia o sensor, então? - ele disse, colocando as mãos na cintura.

_Não havia sensor - eu disse.

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