sexta-feira, 21 de maio de 2010

Morre o Caminho do Careca

Morreu hoje, de causas não identificadas, o blog Caminho do Careca. Nele foram publicados mais de 920 "posts" num período de quase cinco anos, que receberam algumas dezenas de comentários.

Em seu último depoimento eletrônico, Careca, o sorumbático criador do blog, disse que o Caminho do Careca "já vinha rateando há tempos, com postagens cada vez piores".

_Agradeço, de coração, o carinho de todos aqueles que dedicaram alguns minutos do dia para conferir as minhas bobagens.

Careca disse ainda que pretende reunir alguns textos do blog num livro, mas ninguém levou a sério. Como o fundo do blog é preto, o Caminho do Careca já está com a cor adequada para ser velado.

Ponto.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Três descobertas importantes

1.Não tenho talento algum.

2.Jamais deveria ter dado bola para a minha vaidade.

3. Resta pouco, muito pouco tempo.

(Por outro lado, tudo pode ser apenas efeito do antibiótico)

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Algumas decisões tomadas

1. Contra o mau-humor vigente, o bom-humor.

2. Renovar, todos os dias, a alegria de ter o coração livre da inveja.

3. Contra a má-vontade, o desprezo total e absoluto de quem a pratica.

4. Exercitar, todos os dias, a boa vontade.

5. Ser absolutamente intolerante com os ingratos.

6. Ser justo ao justo.

7. Renovar, todos os dias, a fidelidade.

8. Jogar sal no rastro dos traidores.

9. Rir, gargalhar, pelo menos três vezes ao dia.

10. Abominar a ignomínia, o abjeto e aquele que comete danos irreparáveis.

11. Perdoar a poucos. Bem poucos.

terça-feira, 18 de maio de 2010

O discurso do cara que bate por trás

Da série Tudo é Metáfora

Aconteceu comigo. Uma vez bati, de leve, num fusca que seguia à minha frente, na descida da Rua da Igrejinha. Ali, não sei se ainda funciona, havia uma academia de balé e eu me distraí exatamente no meio de um exercício das meninas nas barras. Tunc. Foi o bastante para que o dono do fusca, um PM que não estava a serviço mas usava farda, cobrasse o para-choque e também um para-lamas enferrujado. Lembro que a olhadela nas meninas do balé me custou quase um salário. Depois disso cismei com balé. Também me lembro que o sujeito do fusca tinha mais ou menos uns dois metros de altura e um peso aproximado de 100 quilos. Por sorte, eu não tinha talão de cheques, senão teria assinado um cheque em branco ali mesmo e entregado para o PM. Ao invés disso, tive que ir a um monte de lojas de auto-peças e num ferro velho para acertar a dívida com o sujeito. Sim, senhor, desde então evito prestar atenção em bailarinas e abomino o balé clássico. Por afinidade, também incluo na lista o balé moderno, jazz, dança de salão, tango e a chaka (a famosa dança das preguiças em A Era do Gelo II").

Também me lembro do diálogo que tive com o capitão PM.

_Você vai ressarcir o prejuízo?
_Sim, senhor, eu abomino perdas e danos - eu disse.
_Quando?
_O mais rápido que puder - eu disse.
_Faça isso ainda hoje.
_Mas é claro - eu disse. E dali mesmo iniciei a minha pesquisa de preços.

Anos depois, meu irmão sofre uma batida por trás. O cara simplesmente o acertou numa reta, longe de cruzamentos. Não houve uma redução brusca de velocidade. O sujeito bateu o carro e pronto. Fato consumado.

Meu irmão desceu do carro e o sujeito já estava aos prantos no volante.

_Ai, doutor, esse carro não é meu, é do meu primo, eu acabei de pegar emprestado, minha mulher me deixou, estou desempregado, meu cachorro morreu, meu papagaio está doente, minha sogra continua na minha casa, eu estou com uma doença braba, meu nome está no Serasa, eu ...

Meu irmão virou as costas e foi embora.

Parece campanha política, né?

segunda-feira, 17 de maio de 2010

O combate continua

Alguns progressos registrados. A vitória se aproxima. Mas o antibiótico me deixa com uma soneira danada.

domingo, 16 de maio de 2010

Começa o combate

Gri, a minha gripe entranhada, começou a ser combatida, com os rigores antibióticos que lhe são devidos.

Foi o Cabeça que esclareceu. Gri não é uma gripe qualquer. É uma sinusite braba.

_Careca, deixa de ser Mané. Gripe não dura tanto tempo. Isso é sinusite grave e bestificante. Você precisa ir ao médico.

_Pô, Cabeça, mas você é médico - eu disse, fanho.

_Mas só atendo no consultório - ele disse.

E só depois de duas caipirinhas, um bife ancho, duas costelas e quatro cervejas, eu convenci o Cabeça a me entregar o nome do remédio, prometendo que iria procurar um médico. Ele foi piedoso. E eu menti, é claro. E ontem mesmo, no sábado, eu comprei um antibiótico genérico e iniciei o tratamento. Na farmácia, nem preciso dizer, não foi preciso mentir.

Hoje de manhã, Gri tentava me esfaquear o meu peito, mas resisti. Agora estou melhor.

Serão mais oito dias de combate intenso.

sábado, 15 de maio de 2010

A economia da auto-ajuda

Livros de economia e a literatura de auto-ajuda têm muita coisa em comum. São chatos de ler e dizem o óbvio, aquilo que você nunca prestou atenção. Quando eu comecei esse blog, eu queria que ele fosse uma espécie de guia de auto-ajuda para mim mesmo. Mas alguma coisa saiu fora de controle e hoje o Caminho do Careca é um lugar cibernético esquisito. Eu queria que fosse uma espécie de Caminho de San Thiago de Compostela, mas virou uma trilha rala no meio do cerrado de pixels. Não sei mais o que é. Fuçando uma gaveta, hoje à tarde, eu descobri o texto abaixo, das antigas, debaixo de uma conta de telefone. Está sem data, mas é de uns três anos atrás, quando eu achava que o que eu escrevia no Caminho do Careca poderia ser usado em horóscopo de revista de celebridades:

"É óbvio que você, depois dos quarenta, já viveu pelo menos metade da sua vida. E todos aqueles sonhos dourados, se ainda não rolaram, não vão se realizar mais.

Eu parei de dar murro em ponta de faca há uns dois dias, então já posso falar de cadeira: dê uma olhada no espelho, brother. Daqui pra frente, é ladeira acima ou ladeira abaixo. Só depende de você. E não existe garantia nenhuma.

Não vai adiantar procastinar mais um pouco. Não vai adiantar esperar. Ninguém vai descobrir aquele seu extraordinário talento. Você vai ter que dar a cara a tapa. O bilhete premiado da loteria não vai flutuar até o seu bolso. Sua barriga vai continuar a aumentar se você continuar sedentário. O cigarro vai continuar a lhe fazer mal, se você continuar com o cigarro. A birita também.

Pode ser também que tudo o que você faça bem feito, seja considerado tosco. Pode ser que o seu melhor seja desprezado. Pode acontecer ainda que aquilo que você considere mais valioso seja descartado e cuspido no lixo. E alguém ainda pode aparecer e agredir você, gratuitamente. E o pior, você pode ser levado a acreditar que irá conseguir, mas levar uma rasteira antes da linha de chegada.

Você está sozinho em tudo o que você fizer. Você e todo mundo. Sempre foi assim.

Mas se você fizer o melhor que pode, saiba que isso costuma despertar simpatias. Com um pouco de sorte, alguém pode até gostar de você.

Trate bem e com muito respeito essas pessoas.

Aqui se faz, aqui se paga."

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Um baú na minha cabeça

Tenho algumas lembranças dessa pessoa, que considero minha amiga, embora ela mesma talvez não me considere como amigo. Não nos vemos há mais de vinte anos. Não restou uma única foto dos tempos felizes em que saíamos quase todos os dias. Mas seu sorriso amplo, de quase todos os dentes à mostra, sua gargalhada estrondosa, são inesquecíveis. Íamos sempre ao cinema, nos tempos da Cultura Inglesa. Lembro de assistir um festival de David Lean ao seu lado. Lembro de uma opinião sobre Lawrence da Arabia. "O melhor filme de todos os tempos". E depois, quando assistimos Tess: "o melhor filme de todos os tempos, depois de Lawrence da Arábia".

De piadas bobas. Olha o carro, ploft. Que carro?, ploft. O quê?, ploft.

Lembro do seu sorriso aberto, enorme. Lembro de escutar discos de Fagner, Ednardo, Yes, Caetano, Gil, Mutantes, Beto Guedes, Rita Lee, Djavan, Milton Nascimento, todos de vinil, ao seu lado. Usávamos fones de ouvido grandes na discoteca. Havia uma discoteca onde nós sempre íamos escutar os discos novos, que ninguém tinha dinheiro para comprar. Passávamos horas ali dentro. Os toca-discos ficavam numas cabines envidraçadas. Toda hora um chamava o outro para escutar um pedaço de música legal. E o mais interessante não era o que cada um ouvia, mas a cumplicidade de dividir uma novidade junto com o outro.

Ela gostava de andar de bicicleta. Eu não gostava tanto. Nunca fui muito atlético. Mas eu a acompanhava. Ela amava a biblioteca que havia em sua casa. Eu também adorava ler os livros que havia por lá. E muitas tardes nós passamos na sala, lendo, um ao lado do outro. Isso também ampliava a cumplicidade. Nós falávamos dos livros que transbordavam das estantes. Eu falava dos livros que um dia eu escreveria. Eu tinha um monte de textos datilografados. Mas um bocado de coisas ruins aconteceram rapidamente, numa sequência tão lancinante quanto uma cirurgia mal-sucedida. E ela precisou ir embora. Jamais trocamos correspondências. Não possuo nem mesmo um cartão, um bilhete, com a sua letra. Dela não guardei uma mecha do cabelo, que era liso e claro. Às vezes parecia branco de tão amarelo.

Passado tanto tempo, até hoje não consigo falar sobre o que aconteceu. Para fugir desse assunto, coloquei essa amiga e tudo o que me lembra dela num baú na minha cabeça. Um baú de pirata. Igual àqueles que existem em aquários, as bolhas de ar levantando a tampa de vez em quando. E o mais estranho é que todas as vezes em que me sinto disciplinado, pronto para escrever o que tenho que escrever, uma bolha qualquer faz com que esse baú se abra para me assustar um pouco. E então eu hesito novamente. Porque não quero, não ainda, não agora, olhar para dentro desse baú e revirar todas as coisas.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Dunga, você errou

Dunga deixou o Ganso e o Neymar de fora. Errou. O atual time do SANTOS tem que ser escrito todo em letras maiúsculas, porque esse é o time que devolveu a vontade de ver futebol aos brasileiros. O SANTOS faz com que você queira ver qualquer jogo da equipe, mesmo que não torça para o time que já foi de Pelé. E só por isso os meninos do ataque do Santos teriam de estar lá, na seleção. Mas os garotos, além de devolverem a alegria ao futebol, também são responsáveis pelas maiores goleadas dos últimos tempos. A equipe joga bonito e consegue excelentes resultados. Faltou ousadia ao Dunga. Faltou respeito ao mérito. Faltou coragem para levar os novos e grandes jogadores. Faltou inteligência também, porque o time ainda não pôs o pé na África e já está desfalcado.
Se Adriano tivesse sido convocado, eu estaria aqui escrevendo para que o Imperador fosse humilde e entregasse a camisa para um dos dois santistas. Como não foi, resta pedir um ataque de sanidade ao Grafitte e ao Elano. Pô, vocês, não me levem a mal, mas entreguem a camisa que ainda não receberam e digam ao Dunga que sendo pela felicidade geral da Nação, vocês ficam.

domingo, 9 de maio de 2010

Domingo é Dia das Mães

Na véspera, combinamos com as crianças para não acordarmos tão cedo.

_No Dia das Mães, ela merece dormir um pouco mais, né? - eu disse.

E as crianças concordaram. E realmente elas não fizeram o barulho habitual de domingo de manhã bem cedo. Elas reduziram como puderam todas as risadas e perguntas e as coisas que conversam de manhã. Ligaram a televisão. Abriram a geladeira, fizeram leite com chocolate. Dava para ouvir o leite se esparramando na cozinha. Deixaram o cachorro sem comida, apesar dos protestos dele. Também entraram e saíram do banheiro umas quinhentas vezes, deram descarga e gritaram um pouco, só para testar as cordas vocais. Depois riram mais um pouco, cantaram as canções iniciais dos desenhos animados prediletos. Aí, quando cansaram um pouco, entraram no quarto nas pontas dos pés e disseram para o papai aqui que já eram seis horas e dez minutos.

_Mas eu não falei que era para deixar a mamãe dormir?

_Ô paiê, a gente chamou só você, ué.

E a minha mulher deu umas risadinhas no travesseiro dela.

sábado, 8 de maio de 2010

Não é fácil ser mãe

Tudo bem, eu concordo. Ser mãe é mais difícil que ser pai. E isso não tem nada a ver com biologia, com afetividade e nada. Acho que é mais difícil ser mãe por causa do Dia das Mães. Tudo bem, nós pais também temos o nosso dia, mas nada se compara ao Dia das Mães. É fogo. Pra começar tem todo o pseudo-segredo que envolve as celebrações na escola. As crianças treinam canções secretas durante semanas, às escondidas da mãe, antes do dia da apresentação especial do Dia das Mães na Escola.
No Dia dos Pais, se tiver um parabéns é lucro. Com hip-hip, é lucro triplo.

Neste ano, por exemplo, as crianças treinaram durante dois meses a canção especial do Dia das Mães na Escola. Todos os dias, elas também cantaram para o papai aqui a canção no carro, antes de ir para a escola. E é bem verdade que nos primeiros dias a coisa é meio tocante, mas depois de uma semana ouvindo aquelas canções você sente vontade de subir pelas paredes. Do carro. Em movimento. É um horror.

Mesmo assim sobrevivi. E na Escola Nem Tão Alternativa Assim em que as crianças estudam, todo ano tem cantoria das crianças, palco, declamação de poesia e pique-nique dos pais. É muito legal. As mães se acabam, é claro. Minha mulher chora lágrimas de esguicho quando os pimpolhos se apresentam, com as canções treinadas.

Mas antes da canção das crianças, tem que ouvir o discurso da diretora da escola. Desde que eu me entendo por gente, discurso de diretora de escola é uma coisa chata. Deve ser uma espécie de unanimidade universal. Pensa bem. O discurso da diretora da escola é chato. É até um pleonasmo, né? Pois então. E nesse ano, a diretora caprichou, ou então a minha gripe, a Gri, é que reduziu o meu bom-humor.

Se bem que o meu humor acordou um pouco mais reduzido porque eu não pude dormir a hora extra de sábado. A festa das Mães na escola começava às oito e meia, e para sair de casa com duas crianças, é preciso acordar pelo menos uma hora antes.

Com um pouco de esforço, conseguimos chegar às nove e quinze na escola, exatamente na hora da apresentação da minha filha mais nova. Estava mais lotado que um shopping em dia de liquidação da loja de sapatos femininos. Minha filha conseguiu chegar ao palco a tempo e cantou a sua canção a plenos pulmões, com toda a coreografia perfeitamente encenada. Minha mulher chorou copiosamente (nem foi tanto assim, mas sempre quis escrever copiosamente e não poderia perder esta chance). Eu chorei copiosamente de inveja. E então comecei a procurar, desesperadamente, pelo meu filho, que havia desaparecido no meio daquele mar de gente da escola.

Para qualquer lugar que se olhasse havia um casal sentado sobre um quadrado de pano, com pelo menos uma criança aos berros, gritando, brincando, pulando ou simplesmente berrando de alegria. Parecia um dos círculos do inferno de Dante, numa versão Disney. Quando eu comecei a ficar desesperado encontrei o meu filho junto com um monte de crianças, na quadra de esportes da escola, bem longe de toda a confusão.

Apesar da minha vontade de ficar por ali, voltamos para dentro da escola e também nós sentamos no nosso quadrado de pique-nique, comemos salgados e biscoitos e tomamos suco. Na confusão, meu filho não conseguiu se apresentar. Depois de comer tudo, fomos embora.

Agora, lembrando um pouco de tudo o que aconteceu na parte da manhã, revejo mentalmente os casais e a escola lotada. As crianças cantando, emocionadas. O tantão de presentes, e cartões, e recitações, e embrulhos, e coisinhas feitas pelas crianças. Se fosse Dia dos Pais, não teria nem um terço do quórum. Nem se a programação fosse refeita para o período da tarde. Eu mesmo acho que não iria. Preferiria ficar em casa, dormir até mais tarde. Abrir uma lata. Assistir um futebolzinho...

sexta-feira, 7 de maio de 2010

O Careca continua gripado

Estou gripado há tanto tempo que já perdi a conta. Também não sei se é gripe ou é rinite alérgica. Parece gripe. O problema é que não é forte o suficiente para justificar uma ida ao médico. Nas duas últimas semanas, tomei um monte de remédios, em doses cavalares, para ver se a gripe ia embora e nada. Consigo trabalhar numa boa, parece que é só um pigarro e uma indisposição. Mas não passa. Vivo tomando remédio e vitamina C. É bem verdade que não consigo dormir muito, mas também não tenho dormido pouco. É uma gripe rame-rame, chatinha, da qual eu não consigo me livrar. Já está comigo desde a última campanha de vacinação, aquela que disseram que ia matar metade dos brasileiros que conseguissem chegar à fila do hospital. E exatamente porque estamos juntos esse tempo todo, já é uma gripe enxerida, cheia de intimidades.

_Ô Careca? - disse ela.

_Pode falar - eu disse.

_Você vai trabalhar hoje? - perguntou.

_Fazer o quê, né?

_Mas eu estou escorrendo pelo nariz, arranhando a sua garganta, zumbindo o seu ouvido, não acredito que você vai trabalhar.

_É dia de entregar relatório, Gri, hoje não tem desculpa - eu disse. Eu chamo ela de Gri desde que ela começou a me chamar pelo apelido.

_Dorme mais um pouco, vai? - ela disse, me deixando tonto.

_Nem se eu tivesse um atestado. Hoje é o dia D.

_E se eu provocasse uma enxaqueca?

_Hoje não, Gri. Eu teria que ir do mesmo jeito e entregar o relatório com dor de cabeça e tudo. Alivia aí.

_E que tal umas dores musculares?

_Pô, Gri, dá um tempo. Não tem desculpa. Vou tomar 4 comprimidos desses verdes e amarelos, dois de cada.

_Não, não, não faça isso, não, não, nãããããã...

_Glub, glub, glub, glub - eu disse. Um glub para cada comprimido. E eu melhorei um bocado.

Mas lá no final da tarde, logo depois de entregar o relatório, Gri já tinha voltado.

_Oiê - ela disse, entupindo o meu nariz.

_Ah, dão.

_Agora não te largo tão cedo - ela disse, com um sorriso sarcástico.

_Pô, Gri, podia dar um dempo, foldar na zegunda-deira... e rapidamente, eu tomei mais uns dois comprimidos.

O problema dos comprimidos é que eles dão um sono danado.

_Careca, você já vem? - disse a voz no meu ouvido.

_Gri?

_Gri? Mas quem é Gri? - disse a minha mulher, no telefone colado à minha orelha.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Abandonar a zona de conforto






Comecei a ler mais um livro de Paul Auster, "Invisible". Mas ando meio anti-literário, com preguiça de ler coisas complexas.

Está complicado abandonar a zona de conforto.

Decidi voltar a fazer exercícios e resolvi começar pelos músculos faciais. Estou sorrindo um bocado. Também pratico levantamento de sobrancelhas e piscadas fortes, alternadas. Quando estou muito concentrado, consigo mexer as orelhas, mas não muito. Esse estado mental é muito perigoso. Só consigo combater essa inércia com música. Está na hora de escutar alguma coisa legal. E rir um pouco.

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Presente do Dia das Mães

_O trabalho manual, o artesanato, é uma coisa muito desvalorizada no Brasil - eu disse.

_É - concordou a minha mulher.

_Não sei porque isso. Em todos os lugares civilizados do planeta, as pessoas valorizam os trabalhos manuais. Tem muita gente que vive de artesanato na Europa, os caras são respeitados. Enchem a boca ao dizer "artesão". É outra coisa. Nos Estados Unidos também é assim. Os caras são valorizados. Não é como aqui.

_É - disse a minha mulher.

_Conheço um português que criou seis filhos com o trabalho artesanal de restaurador. O cara é bom. Sabe tudo. Também vive dando palestras pela Europa. Lá isso é muito valorizado. Não é como aqui.

_É - disse a minha mulher.

_Aqui, o sujeito pode criar as coisas mais geniais que ninguém valoriza. Todo mundo põe defeito. Brasileiro gosta de chutar cachorro moribundo. Diz que é coisa chinfrim. Que é brega. Se é feito em casa não presta. Santo de casa não faz milagre mesmo. Pode ser a coisa mais trabalhosa do mundo, com o melhor acabamento do mundo, mas ninguém dá o menor valor. Pode colocar amor, carinho, imaginação, inteligência, afeto e a melhor das competências técnicas. Não adianta. Ninguém respeita. É um horror.

_Careca?

_Sim, meu amor.

_Essa conversa toda não é por causa daquelas suas caixinhas de marchetaria, é?

_Não. Quiéisso? Nãããoo. De jeito maneira.

_Achei muito bonitas as suas caixinhas.

_De verdade?

_Acho que sua mãe e suas irmãs vão adorar aquelas caixinhas de presente de Dia das Mães. Mas eu não quero caixinha de jeito nenhum.

_Ah, é, é?

_É.

_E o que você quer? Uma bolsa Louis Vuitton?

_É totalmente artesanal - ela disse.

terça-feira, 4 de maio de 2010

O Careca em dúvida

Existe uma infinidade de projetos sobre a minha mesa, aqui em casa. Tenho uma série de boas idéias anotadas em algum lugar, num caderninho preto com elástico. Fiz as contas e descobri que existem mais de vinte caderninhos pretos espalhados pela casa. Planejo uma exposição. Tenho boas idéias para fazer uma exposição. Tento compilar o prometido compêndio de "O Melhor do Caminho do Careca". Mas qualquer dessas coisas pressupõe sair de um confortável anonimato, de colocar a minha verdadeira cara debaixo da peruca do Careca.

Ainda que não passe de um segredo de polichinelo, o anonimato desse blog é muito confortável. E com a persona do Careca eu posso escrever com mais liberdade e desprendimento. Afinal, o Careca é o que eu invento, é um "eu" exagerado e mais desbocado. Ainda que eu só fale sobre o que realmente acontece comigo e com os que me cercam, esse é um blog mediado por um personagem que, só por coincidência, é o autor. E a visão desse personagem às vezes é mais arguta do que eu mesmo.

Tudo o que é complicado tem um fundo de verdade, né?

Talvez eu tenha apenas medo de assinar os desenhos nos caderninhos, de mostrar a minha cara junto com os meus rabiscos, numa exposição ou numa publicação. Talvez ainda não seja a hora. E de fato não há muito do que me orgulhar e exibir aos outros.

Talvez ainda seja preciso deixar o tempo passar, olhar as coisas que faço com distanciamento e assim já fazer uma autocrítica preliminar, preparando o peito para as que virão. Tenho a auto-estima baixa e um colesterol a controlar, nunca soube o que falar para elogios e tenho a tendência a considerar qualquer crítica como um desaforo.

Ou talvez seja apenas mais uma onda de auto-boicote que eu tenho que esperar passar. Uma pequena variação sobre esse eterno tema.

Ou talvez não. Talvez seja apenas falta de tempo. Fazendo as contas do tempo, na ponta da lápis, não estou com muitos minutos sobrando. Terei que abdicar de alguma coisa, em algum momento. Das duas uma: caso queira mesmo fazer alguma coisa, terei que reduzir o número de postagens semanais ou dormir menos.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Não fique quieto

Meu filho se agita. Às vezes, simplesmente não consegue ficar quieto na hora do jantar. Fica balançando as pernas e os pés. Sacode o corpo sentado na cadeira. Inclina a cadeira o máximo que pode. Outro dia, num almoço de aniversário, ele exagerou com essa peripécia e acabou passando um grande susto em todo mundo, porque a cadeira virou e ele caiu de costas no chão. Corri, aflito, pensando que havia desmaiado. Felizmente foi coisa à toa, mesmo assim, machucou o queixo, mordeu a língua. Menos de dez minutos depois, já estava como antes, saracoteando na cadeira, testando ao máximo o equilíbrio.

E quase sempre também é como um teste para mim. Às vezes acho que ele, sem ter consciência disso, com sete anos acho que não temos muita consciência de nada, fica o tempo todo testando até onde pode ir, até onde pode dobrar o que é que há para dobrar. E em geral, eu perco esse jogo, porque sempre acho que ele poderia ter parado antes, porque eu teria parado antes, porque os meus limites são mais estreitos. Eu digo então que ele não sabe a hora de parar de brincar. Mas porque tem que ter essa hora? Porque não deixar que ele mesmo perceba qual é o limite?

Quando eu era menino, o limite estava bem claro. E se dúvida eu tivesse, bastava um olhar para os olhos da minha mãe para saber quando parar. Às vezes, nem isso. Eu adivinhava os olhos dela em mim se extrapolasse a medida. Era muito raro recorrer à torre de controle dos olhos do meu pai. Dele, a menor das reprimendas já me enchia de vergonha por semanas a fio.

Depois, um pouco mais tarde, ainda no jantar, meu filho sacode as pernas e balança o corpo sem parar. Eu me lembro daquela piada antiga e cruel, do menino que não fica parado. O menino fica girando feito carrossel e o pai, furioso com o barulho do pé batendo no assoalho, ameaça: fica quieto, menino, senão eu prego o outro pé no assoalho! E por isso eu me calo, porque talvez eu esteja contendo demais o garoto. E é estranho lembrar dessa piada justo agora, que o seu pé está ferido, com um pequeno caroço que parece um calo. Nessa semana iremos ao médico, para ver o que é. Tomara que não seja nada, uma coisa à tôa. Ele age como se realmente não fosse nada, não reclama, é estóico à beça, descobri o calo quase por acaso outro dia, quando tentei fazer uma massagem nos seus pés.

Quando ele era um bebê, eu às vezes cortava as suas unhas, que eram muito, muito finas e cortantes. E depois eu gostava de massagear as plantas dos seus pés. E devagar, eu pressionava o polegar contra a planta do pé e os dedos, bem devagar, até que se descontraíssem, até que um sorriso relaxado surgia no seu rosto e ele adormecia. Ele sentia cócegas quando eu esfregava o queixo no seu calcanhar. Seu pé, um dia, foi menor do que o meu nariz.

Mas agora ele cresceu. Os meus limites nunca serão os dele, todo mundo sempre me disse que eu era tímido demais, introvertido demais. É muito bom que ele seja o contrário. Acho que os extrovertidos são mais amados, sim, mas isso não quer dizer que sofram menos. Então fico quieto e deixo que ele se sacuda um pouco. Talvez seja o melhor que possamos fazer, nos sacudir enquanto há tempo, ficar parado é que é um erro.

Uma vez alguém me disse que só corremos porque podemos. Achei que era brincadeira, uma coisa espertinha para se dizer para outra pessoa. Eu mesmo não sou muito de correr, prefiro nadar, andar de bicicleta. Mas hoje vejo que a pessoa tinha razão nesse jeito de definir o gosto de correr. As pessoas correm porque gostam de sentir o ar nos pulmões, o ritmo, a cadência da corrida, o cansaço dos músculos, o vento, a brisa, o suor. Porque é este usufruto com um pouco de esforço que lhes proporciona a gratitude de viver. Não. Isso é muito rebuscado. É uma coisa mais simples. As pessosas correm porque podem. Porque lhes é permitido. Porque lhes é concedido.

E de repente, como se o plug tivesse pulado fora da tomada, toda a agitação se encerra e meu filho dorme no sofá. No canto da boca, um sorriso. Ele ainda dorme quando o carrego até o seu travesseiro. Outro dia quase não consegui carregá-lo e fiquei com uma baita dor nas costas. Deposito com cuidado o pequeno em sua cama. Quando puxo o cobertor, ele ainda sorri, maroto. Na verdade, acordou quando o tirei do sofá e só fingiu dormir para que eu o carregasse.

_Boa noite, pai!

_Durma bem, meu filho!

É um ritual antigo, limitado em peso e altura. Pretendo prolongá-lo ao máximo.

sábado, 1 de maio de 2010

A primeira regra do avião do Careca

Eu devo ser uma das poucas pessoas que presta atenção no que a aeromoça fala, na hora das instruções sobre os procedimentos de segurança. Sim, muita gente presta atenção na aeromoça e no modo como ela prende o cabelo. Na maquiagem. No uniforme sempre muito colado ao corpo. Nos lenços. Quase sempre o uniforme inclui lenço. Nos sapatos, em geral um scarpin de meia altura com ponta quadrada, mais larga. Em tudo isso eu também reparo, mas o que sempre me chama a atenção são os procedimentos de segurança.

No avião, a regra é primeiro cuidar de si. Você deve primeiro colocar a máscara de oxigênio em você mesmo e só depois cuidar das crianças e de quem mais precisar ser cuidado. Primeiro você mesmo. É uma instrução muito importante e lógica. Se você não respirar, acabou-se tudo, você não vai conseguir ajudar ninguém.

Já levei um monte de sustos em avião, mas nunca estive numa aeronave que tenha sofrido algum tipo de acidente. Sou muito agradecido por isto. De qualquer modo, nesses sustos de avião, já deu para perceber que eu não lido muito bem com o pânico. Quando o avião começa a alternar altos e baixos, picos e vales numa velocidade muito grande, eu geralmente apelo para o padroeiro da aviação e começo a gritar mentalmente "Valei-me Santos Dumont!Valei-me!".

Não. Falando sério. Nessas horas só consigo pensar nas regras de segurança da aeromoça. Fico repassando mentalmente que o assento flutuante felizmente está próximo, bem debaixo do meu traseiro. Também me consola saber que se a coisa realmente estiver preta, máscaras de oxigênio cairão sobre a minha cabeça. Então eu rezo para Santos Dumont ajudar a fazer com que as máscaras não caiam. E também peço ajuda sideral para que eu não passe mal e tenha que usar aqueles saquinhos de corda e pagar o maior mico. Não.

O meu problema é que eu descobri que eu costumo usar a regra de segurança do avião para toda e qualquer ocasião. Acho que não é egoísmo. É uma questão de sobrevivência.

Frase do dia


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