quarta-feira, 30 de abril de 2008

O mistério dos sumiços daqui de casa



Havia uma loja de bicicletas no comércio perto de casa. Era muito providencial. Os caras cobravam barato e faziam um serviço de primeira. As bicicletas dos meninos, apesar de novas, estavam sempre com um freio falhando, uma rodinha que não firmava, um pedal que cismava de rachar. Então eu devo ter ido lá umas quatro vezes no ano passado e outras duas neste ano. As duas desse ano foram dois pneus furados. Pois a loja sumiu de repente. Só notei ontem, depois de procurar inutilmente pelo kit de remendos. Não achei e aí fui procurar a loja-oficina. Foi chato porque eu fui andando e carreguei uma bicicleta à toa. Aí tive que voltar, pegar o carro e levar para outra loja não tão boa de bicicletas, que é mais longe. Quando eu era menino, se as coisas sumissem de repente , dizia-se que era coisa de saci. Ah, se eu pego esse saci!
Eu perco tudo aqui em casa. E no mesmo dia em que eu acho as coisas, elas desaparecem misteriosamente, logo depois. Se procurar bem, em algum lugar deve haver uns trinta e três kits de remendos para bicicleta: tubo de papelão, tampa de lixa, cola para borracha e borracha para remendo. Perto de cada um desses kits deve haver uma mini-bomba de bicicleta. Pequenas e eficientes. Elas sumiram há tempos. Eu comprava um kit e uma bomba e eles sumiam. Comprava outros kits e bombas, e eles sumiam. Comprava e sumia. Aí, uma vez, no supermercado, a Patroa perguntou se eu estava iniciando uma outra coleção. Então eu parei de comprar. A Patroa é muito cruel com as minhas coleções. Ah, se eu pego esse saci!
De vez em quando, coisa rara, eu avistava uma coisa parecida com essas bombas de bicicleta no canto da estante, numa prateleira mais alta. Como não ia checar imediatamente, quando voltava a pensar nisso, a coisa já tinha sumido. Mas, depois que isso aconteceu umas vinte e sete vezes eu considerei um absurdo esperar pelo acaso. Então eu assumi o compromisso mental de checar a veracidade assim que o espectro ectoplasmático de uma bomba de bicicleta se manifestasse nas proximidades.
É lógico que assim que assumi esse compromisso, as manifestações ectoplasmáticas cessaram. Então eu comecei a reparar em outros sumiços cotidianos. Os livros que eu começo a ler, por exemplo. Eu devo ser um campeão mundial de começar livros. Já comecei a ler uns vinte livros neste ano. Eu começo o livro, aí acontece alguma coisa com um dos meninos. Eu paro de ler. Ponho o marcador de página no livro. Levanto e vou ver o que eu posso fazer. Em geral, posso fazer muito pouco, mas às vezes é importante fazer um carinho numa perna machucada, dar um beijo numa unha, essas coisas. Aí eu volto e cadê o livro? É batata. Sumiu. Escafedeu. Desapareceu sem deixar vestígios. Aí eu procuro, procuro e acho o marcador de página. Mas é um outro marcador de página de um outro livro. Aí eu vou até a minha estante. E desisto de achar o livro naquela bagunça. Ah, se eu pego esse saci!
A Rose foi a minha primeira suspeita. Ele é a babá-cozinheira-faxineira-passadeira-faz-tudo e mordomo daqui de casa. E o mordomo, você sabe. É lógico que é preciso muito tato para tratar com uma pessoa que acumula tantos postos de trabalho e recebe o salário que a Patroa paga. Então, por via das dúvidas, nunca manifestei diretamente a minha suspeita de que a Rose pegue os livros e os esconda na estante, entre os outros livros. Apenas sugeri, uma única vez, que ela teria a possibilidade de, quem sabe, não agüentar ver livro solto perto da poltrona de leitura que eu uso. Mas ela descartou a pergunta dizendo que coleira de livro é armário. O que eu ainda não entendi.
Minha segunda suspeita foi comigo mesmo. Será que eu estava tendo ataques de organização? Não. Afastei essa hipótese lembrando que a última coisa que eu organizei na minha vida foi a estante. Isso me deixou sem mais suspeitos. Eu estava exatamente no mesmo lugar onde tinha começado. E o pior de tudo é que as crianças queriam andar de bicicleta e eu não tinha a mínima idéia de onde elas estavam. Elas, as bicicletas. As crianças estavam ali, berrando no meu ouvido. Mas, em compensação, eu tinha acabado de encontrar um kit remendo de bicicleta dentro do armário de remédios. E ao lado do kit, em perfeito repouso, uma linda bomba de bicicleta! Comigo não, sacizinha! Pode ficar de três!

terça-feira, 29 de abril de 2008

O fim da voz de interurbano



Cada vez que alguém conhecido viaja para longe eu reparo nela, mas depois acabo esquecendo. Mas quando eu reparo, eu sempre fico com raiva dela. Digo que vou acabar com ela. Digo que ela nunca mais vai me fazer pagar mico. Digo que ela vai se arrepender de ter existido.
Ela é minha voz de interurbano.
Eu vivo fazendo voz de interurbano, é um saco. Voz de interurbano é quando você fica falando muito alto e pausado. E o pior é que não é automático. É um reflexo condicionado ao entendimento de que a ligação é interurbana.

_Alô, Careca?
_Fala, Cabeça, seu bambi!
_Ô bichona, tô na beira-mar, comendo camarão e enchendo os cornos de cerveja. Tá com inveja, né?
_ NA PRAIA? COM O NA-MO-RA-DO DA CI-CA-RE-LLI??
_Pára de berrar, ô energúmeno!

Mas não tem jeito. Só paro de berrar em interurbano quando desligo o telefone. Eu sei de onde eu peguei esse condicionamento. Meninos, eu sei. Sei que isso só acontece porque sou testemunha ocular, auricular e oral da história da telefonia no Brasil. Lá em casa sempre fomos muito ligados em nuevas tecnologias. Então tivemos sempre dos melhores modelos de telefone. Eram sempre aqueles com disco de discar. Algarismos arábicos. Eram sempre pretos ou verdes. Verde-escuro.

Aqueles telefones eram muito bons, agüentavam uma batida de telefone legal, que provocava um efeito ensurdecedor do outro lado da linha. E, além da excelente qualidade dos aparelhos, as ligações daqueles tempos que o povo declarava telefone no imposto de renda eram igualmente excepcionais. Você conseguia ouvir uma entre cada três palavras de cada ligação interurbana.

_...falando?
_...quer falar....quem?
_Alô, Careca....é...filho de uma...tô ligando da....escutou o barulho... praia, seu bambi!
_ PÕ, CA-BE-ÇA, VAI...DO SEU...
_Para..., ....gúmeno!

E hoje não é mais assim. As ligações são ótimas. Você consegue escutar tudo na maior qualidade e limpidez sonora. O cara pode ligar do pólo norte que você entende tudo, com tranqüilidade. Não há ruído de fundo. Nem delay. Aliás, delay de telefone é uma das coisas mais claustrofóbicas que existem. Não, senhor. Hoje é tudo maravilha.

_Alô, Careca?
_É claro, ô Cabeça, estou vendo que ligou do celular...
_Tô na Ilha Grande, no Rio, numa pousada maravilhosa...
_Zizizizizittititi , ALÔ,zzizizaaiajfallalaxxxxxxxxjljdljlkjljl, CABEÇA, zzzljljljlazzzzzljlasssssvvzizizizttitajallaejleklajlakjlaçaljl
_ zzzljljljlazzzzzljlasssssvvzizizizttitajallaejleklajlakjlaçaljlxxxxxxxx***...****.

E o que aconteceu foi que o telefone caiu no vaso.

segunda-feira, 28 de abril de 2008

O perfeito animal de estimação



Nós já decidimos que um dia eles terão um cachorro. Médio porte. Já existem duas pessoas que ofereceram os filhotes que ainda não nasceram. Um deles é um beagle. Meu filho gosta muito dos beagles. O mais famoso dos beagles, como se sabe, é o Snoopy. O outro cachorro que ainda nem nasceu é um schnáuzer. Minha filha gosta muito de schnáuzers. O mais famoso dos schnáuzers é o Milu, o cachorro branquinho do Tintin. São boas opções.

Tenho outras preferências, mas é melhor não me meter nessas escolhas importantes. Em geral, tomo decisões precipitadas, que induzem as pessoas a cometer erros crassos. Tenho que proteger meus filhos de mim mesmo, das decisões de que posso me arrepender. Então eu fico postergando as decisões o máximo que posso, mas falo delas com a Patroa. Desse jeito, se acontecer de eu cometer um erro, a responsabilidade é dividida. Genial, né?

Entretanto, às vezes a coisa mais errada a se fazer é postergar a decisão.

Foi aniversário de cinco anos do meu filho no sábado, como eu disse ontem, e nós havíamos deixado a questão do presente dele em suspenso. Ele já havia dito que queria um bicho de estimação e tinha optado por uma tartaruga. Sabe aquelas tartaruguinhas verdes, que todos nós já criamos em casa? Pois é. Custa uma fortuna nas lojas de animais. Como a tartaruga é um animal silvestre, só pode ser comercializada se for criada para isso, com selo, certificado, aprovação e benção do IBAMA.

Essas coisas de aprovação do governo, como se sabe, custam muito dinheiro.

Na loja, eu tentei regatear o preço:
_ Quelônios!! Quelônios duplos! Tudo isso por uma tartaruguinha verde! Não senhora, não vai dar não. Com essa grana eu compro um boi adulto que sabe as quatro operações. Não, dona, a senhora se enganou. Eu não quero o irmão gêmeo do pequeno Nemo. Eu não quero o peixe que o Picasso pintou. Eu não quero o cavalo marinho que ganhou as olimpíadas. Eu só quero uma tartaruga. Das bem pequenas. Se eu levar duas ou três vocês fazem um desconto?

_Meu senhor, nós não fazemos abatimentos. Isso aqui é uma loja de animais vivos.

_E a Rainha do Trocadilho trabalha aqui! Sei. Uma balconista gozadora. Eu mereço. As pessoas vêem um careca e já acham que podem sacanear o ser humano. Ah. Tá vendo ali? Um ser humano sem pêlos? Ria dele. Humilhe-o. Tudo só por causa de cabelo. Não, dona. Seja legal com o careca. Vocês alugam para teste?

_Não. As tartarugas não podem ser alugadas. Mas os coelhos, os cachorrinhos ...

_Quer dizer que eu só posso alugar mamífero?

_Não, tem uma porção de bichos aí...

_Tem jabuti?

Ela não tinha jabutis e eu acabei adiando a decisão.

_Pai, eu quero um leopardo – ele me disse, quando cheguei em casa.

Então, eu comprei um carro do Batman. Ele gostou.

domingo, 27 de abril de 2008

Sem baixas



Fizemos uma grande festa ontem para comemorar o aniversário de cinco anos do filho mais velho. Choveu à beça. Não me lembro de ver tanta chuva assim nessa época do ano. O clima já mudou e muito, mas continuamos cabeças duras. Ficamos sempre surpresos com as viradas de tempo, as chuvas impossíveis, o calor fora de hora, o frio insuspeito. Convidamos os parentes, os amigos que conseguimos encontrar, os colegas da escola. E foi uma bela festa, digo, sem falsa modéstia nenhuma. Ele se divertiu. A princesinha se divertiu. E eu e a Patroa também nos divertimos. Acho que os convidados também se divertiram, não vi ninguém sair chorando.
É lógico que não foi uma festa perfeita. A chuva forte obrigou todo mundo a ficar mais apertado no salão de festas. Os brinquedos montados para as crianças ficaram ao relento, encharcados. Os garçons não serviram nenhum litro de suco. Mas a cerveja estava bem gelada. Os refrigerantes e salgadinhos foram bem servidos. O cachorro quente agradou a todos. Todo mundo levou bombom pra casa. Ninguém se machucou. Zero knock-outs. Sem baixas. Ok.
Só depois que todos os convidados foram embora é que eu lembrei que eu não havia descido com os cds e nem com o aparelho de som. Foi uma festa sem música, mas ninguém reclamou. Estranho, né?

sábado, 26 de abril de 2008

Deixa o louco passar



Eu estou parado no sinal vermelho. Estou na esplanada. Pelo retrovisor, vejo uma enorme fila de carros à minha espera. À minha direita, na outra faixa, um caminhão gigantesco está estacionado. Eu sou o primeiro da fila. Daqui a pouco vou cruzar seis faixas de pista. E vou levar os meninos para a escola alternativa. Hoje é sexta-feira e é dia de vertical novamente. Vertical é quando... vocês já sabem.
E hoje vai ter índio de novo. Alguém conseguiu que um grupo de índios de verdade visitasse a escola. Os Aimorés, Xingus, não sei. Os Índios estarão lá. Sob a proteção da Funai. Meus filhos não conseguem esconder a expectativa. A mais nova, de três anos, quer dançar com um índio. E o mais velho, de quase cinco anos, quer lutar com um índio. De verdade. De longe, eu acho índio legal. Na selva, dono do pedaço, se sentindo em casa. Na cidade, índio é tudo Dersu Uzala.
_Depressa, pai! – eles gritam, quando o sinal fica verde.
_Não. Tem que esperar o louco passar – eu digo, sem ligar para os carros que já buzinam atrás de mim. Faço o gesto de passar por cima para a turma de trás. Flash. Uma enorme camionete passa zunindo à nossa frente. Se eu tivesse acelerado logo que o sinal abriu estaríamos , no mínimo, muito amassados entre as ferragens. Atrás de mim os carros se calam. É extraordinário como nossos neurônios estão se acostumando a reagir somente a mensagens visuais. Mas é preciso estar alerta. Usar todos os sentidos. O olfato. O tato. O paladar. A audição. Com prudência, eu verifico se está tudo bem e só depois acelero. Conseguimos.
Você sabe que a sua qualidade de vida diminuiu quando começa a planejar com muito cuidado todos os seus movimentos na cidade. A mesma cidade em que você andava sozinho, sem preocupações, quando você era um menino. Um descuido agora pode ser fatal.
_O louco já passou, pai? – meu filho pergunta.
_Um deles, filhote. Existem muitos – respondi.
Daí a pouco, um novo cruzamento. Novo semáforo.
_Pai, não esquece de deixar passar o louco, hein?
_Nunca. Mas agora não somos os primeiros da fila. Tem menos perigo.
E, novamente, um carro passa zunindo logo depois do sinal fechar. Pelo pára-brisa eu vejo no retrovisor o olhar assustado da motorista à minha frente. Perigo à frente e atrás. Tem gente que culpa o carro mil e as facilidades de financiamento. Eu fico com os suspeitos de sempre: os caras que acham que estão por cima da carne seca; os idiotas do “meu pirão primeiro”; gente que me chama de “meu querido”; os panacas que dizem “veja bem”; os sujeitos que acham que estão sempre certos. A lista é longa, vem sendo construída desde o fim da era do gelo.Aquele flash da camionete me deixou azedo.
E num instante estamos prontos para descer no estacionamento de brita da escola alternativa. Cada um carrega a sua própria mochila. E a minha princesa estréia uma nova bolsa bordada que ganhou de presente da tia, minha irmã mais nova. Eu também estou curioso e pergunto para uma das professoras se os índios já chegaram.
_Ainda não. Só depois das dez – ela responde.
E eu me despeço das crianças. Está tudo bem.
Quatro horas mais tarde eu voltei para buscar as crianças.
No portão, como sempre, há um pequeno tumulto de crianças, pais e mochilas para passar. É sexta-feira e todos têm pressa em voltar para casa. Para minha surpresa, meu filho pega a minha mão e a da irmã. Ele nos puxa de lado.
_Vamos, filho. Está na hora de ir para casa! – eu digo.
_Não, pai, espera. Vamos deixar o louco passar - ele diz.
E eu olho para trás e não vejo ninguém em especial. Não há nenhum brutamontes querendo passar. A escola é alternativa. Os bichos grilos são bem calmos e pacíficos. E quase todo mundo já foi embora. Só tem um grupo de índios, lá no fundo da escola. Estão pintados e usam bermudas. Parecem estar se divertindo. Logo, estamos os três sentados, olhando os índios, vendo a confusão de carros a sair do estacionamento de brita. Eu aproveito para tomar água no bebedouro. Um índio se aproxima das crianças. Ele sopra um apito de madeira e imita um monte de passarinhos. Não sei o nome de nenhum dos passarinhos que ele imita. Mas, no final, parecia ser um sabiá.
E então, de repente, eu vi que o louco já tinha passado. O louco é sempre da gente.

sexta-feira, 25 de abril de 2008

Um breve passeio de lancha no espaço




Eu era solteiro e uma vez fui para o México. Sozinho. Fui para Cancun, curtir umas férias. Foi o pacote de viagens mais barato que eu encontrei. Nessa época, sem brincadeira, com esse pacote “single special” era mais barato ir para o México uma semana do que ficar cinco dias num muquifo no Rio de Janeiro. Era época de paridade com o dólar. Fiquei num hotel sensacional. Meliá Qualquer Coisa. Era a dois passos de um boteco famoso, Hollywood Não Sei O Quê Lá, ou Qualquer Coisa Hollywood. Era o buteco mais badalado do local. Cheio de lembranças das filmagens de astros de cinema. A tequila mais cara da região. E o lugar mais lotado de turistas daquele pedaço do planeta.
Quando eu desembarquei no México, um guia foi logo nos agrupando e apontando os micro-ônibus corretos, de acordo com o hotel onde se estava hospedado. Eu fiquei junto com um monte de casais de brasileiros recém-casados. Achei legal à beça.
Eu pensei assim, com aspas. “Recém-casado é ótimo, porque a dupla é super alto astral. É tudo perfeito, de fábrica, que nem carro zero. Não tem trelêlê nem desconfiança na relação. E por isso todo mundo é bem simpático com os seres humanos em geral, inclusive com os solteiros. Viajar com recém-casados é muito bom. As pessoas estão tão convencidas da importância do amor que querem transmitir informações sobre as benesses do casamento, falar do noivado, da festa de casamento, dos planos para o futuro, para a casa própria, para as próximas férias, sei lá”.
Mas a realidade era diferente. Eu estava num grupo com uns catorze casais. Só falavam entre si. Todos eles não escondiam o entusiasmo que sentiam com a humanidade dos casados. Todos eles me olhavam com a superioridade de quem superou um estágio da evolução humana. Todos eles mal conseguiam conter a alegria de estar ali, a caminho de um hotel bacana, com a possibilidade de passar o dia inteiro fazendo aquilo que teriam uma semana inteira para fazer e fazer e fazer. Todos eles mal esperavam para chegar logo no hotel e ficar trancado uma semana, só pedindo serviço de quarto.
E eu sozinho. Juro que procurei um anel para colocar no dedo. Juro que pensei em inventar que iria encontrar minha noiva no hotel. “Eu vim na frente, só para fazer o check in”. Juro que pensei em um monte de besteiras naquele micro-ônibus. “Tudo bem”. Eu pensei. “No hotel deve ter gente solteira”. “E se não tiver?”. Eu pensei. “O que é que eu vou fazer aqui?”. Continuei pensando. “Caramba, começo a entender porque essa viagem é tão barata para um solteiro.” E depois desse pensamento eu cruzei os dedos e comecei a torcer para a minha lógica ser derrotada por uma dúzia de moçoilas solteiras e disponíveis hospedadas naquele magnífico Meliá Turquesa - lembrei o nome do hotel, aleluia!
Na época eu disfarçava a carequice com um boné. O micro-ônibus estacionou e descemos todos. Os casais dispararam na minha frente. Fiquei por último na fila do check-in. E enquanto eu procurava um voucher, percebi que os atendentes do hotel olhavam para mim com enormes sorrisos. “Nossa, que profissionalismo desses caras. Olha só, todos sorrindo, epa, aquele ali está é dando risada. Caramba! Esses caras estão é rindo da minha cara. Por quê será? Cadê o mico? Já sei! Eu sou o único solteiro desse hotel inteiro, só pode ser isso! Cacilda!” E de fato, assim era.
Naquele dia, não vi nenhuma alma solitária no pedaço. Só casais. E também só havia casais no buteco famoso, o Qualquer Coisa Hollywood. E o mesmo valia também para os outros hotéis, como vim a descobrir no dia seguinte. Para resumir, Cancun inteira só tinha casais. Do mundo inteiro. Aquela era a versão da Península Maravilhosa para Lua de Mel do Planeta Terra. E naquela específica ocasião da história cancuniana, eu era, talvez, o único solteiro por ali, onde nativos não entram.
Tentei me enturmar assim mesmo. Puxava conversa no balcão, na piscina. Mas recém-casados estão em planos astrais diferentes de solteiros carentes. E ali tudo era programado para o casal. Torneio de duplas de casados. Torneio de futebol de casados versus casados. Torneio de dança de casados. Tour de compras para recém-casados. Torneio de peteca para casados. No terceiro dia, como eu não sou de dar murro em ponta de faca, decidi deixar pra lá e curtir o que pintasse. A natureza. O mar. A praia. E todos aqueles drinques. Lá, das 18 horas até as 20 horas, todos os hotéis tinham a promoção “beba o quanto quiser por apenas um dólar”. Ou seja, bebi como um gambá enquanto estive em Cancun.
E numa bela manhã, andando pela praia, vi uma lancha puxando um sujeito de pára-quedas. A noiva, embaixo, dava gritinhos emocionados. A lancha parou e o sujeito foi planando devagarinho e aterrissou numa boa. “Cacilda! Taí uma coisa divertida para fazer sozinho”.
Aí contei os trocados que eu tinha e dava para meia hora de passeio de paraglidding. No dia seguinte, eu iria embora bem cedo. O mexicano me deu umas instruções rápidas. Eu fingi que entendi e sentei no que parecia uma cadeira de balanço, só que feita de lona. Contei até três e a lancha acelerou. Em dez segundos eu estava lá em cima, vendo o topo do hotel de dez andares onde eu estava hospedado. Meu boné caiu! E o frio que dava na minha barriga ia da ponta dos dedos dos pés, que pareciam estar pisando numa lancha minúscula, até a ponta do meu nariz. Caramba! Nunca senti tanto medo na minha vida. E quanto mais eu berrava, mais o cara da lancha acelerava, pensando que eu estava curtindo. Foi meia hora e mais dez minutos de lambuja do mais puro, genuíno e terrificante terror. E acho até que foi por isso que eu demorei para casar. Associei as coisas. Casamento, lua-de-mel, medo e passeio de pára-quedas puxado por lancha. Tudo a mesma coisa.

quinta-feira, 24 de abril de 2008

O jantador



Uma vez eu li um conto do John Cheever chamado “O Nadador”. O cara ia de piscina em piscina no bairro onde morava. Um barato. O final era triste, triste.
Como para nós, os que nascem e vivem abaixo dos trópicos, os sub-tropicais da humanidade, só nos resta a paródia de cabeça baixa, eu descobri que queria ser um jantador.
Não. Não dava para ser almoçador. Porque as pessoas já não estão mais voltando para almoçar em casa. Pode reparar. Alguns caras até dizem que vão. Mas aí, vai chegando perto da hora do almoço, esses caras ligam e falam assim: Benhê, sabe o quê que é? Pintou uma reunião de última hora, não vai dar, mas amanhã, ou melhor, na semana que vem...
Mentira. Besteira. É preguiça de enfrentar um trânsito pesado duas vezes, na ida e na volta. Ninguém merece. Também já tive isso. Então, para ser almoçador e filar o almoço dos outros seria preciso que as pessoas da família inteira, todos os integrantes, estivessem em casa. E também seria necessário que as pessoas presentes à refeição não saíssem em disparada depois de terminar o prato. O que também acontece muito.
Desse modo, não dá para ser almoçador porque eu seria um intruso no lar dos outros, na ausência dos donos da casa. É. E um careca bancando Cachinhos Dourados não pegaria nada bem. Não encontraria nenhum urso, pois as mulheres e as crianças também não estão mais em casa. As mulheres estão no trabalho. As crianças ficam revezando as atividades com uma empregada promovida a tutor, o dia inteiro. De manhã tem a escola, à tarde tem inglês, natação, capoeira, jiu-jitsu, artes plásticas, francês, xadrez e música. Aos sábados, equitação, golfe, aeromodelismo e kart, sei lá. As casas e os apartamentos ficam o dia inteiro só para as empregadas, ou ficam vazias.
Menos aqui em casa. Para começar, de empregada só tem a Rose, que trabalha feito uma doida o dia inteiro. O motorista e tutor das crianças sou eu, mas só tem natação duas vezes por semana. E o vídeo-game, que eu mesmo dou aulas grátis para eles. E sou eu também que fico com as crianças em todas as refeições. Por isso, de vez em quando eu gostaria de conversar em adultês enquanto como arroz e feijão. Ou pelo menos conversar com alguém sem pedir para a pessoa parar de colocar o dedo no nariz, ou coçar o pé, enquanto eu parto o bife. Por isso, à noite, uma vez por semana, eu bem que poderia fazer um tour de jantador pelo prédio. Ir de apê em apê na hora do jantar. Podia ser aqui no prédio onde eu moro.
Eu explico. Além dessa saudade de conversa de adulto durante a refeição, desde que eu parei de fumar, meu olfato vem se aprimorando. Cheiro cheiros que julguei não ser mais capaz de cheirar (parece verso de viciado em talco, né?). E de tarde, eu fico aqui, na varanda do apartamento. Leio. Estudo. Escrevo. Desenho. Fotografo. Filmo.Vai chegando a hora do jantar e os cheiros começam a aparecer mais fortes. No segundo andar, vai ter carne de panela hoje, na casa do Fritz. E esse cheiro de lasanha, só pode ser do quinto andar, onde moram aqueles tipos meio italianos. Quibe. Tem quibe ali, no sexto andar do Salim. E arroz e feijão, com bife acebolado. Hum. Esse é aqui em casa! A Rose capricha. Galinha caipira. Feijão tropeiro. Caramba! Todo dia é uma saraivada de cheiros de jantares deliciosos. Será que é só eu que reparo? E como durante a noitinha o barulhão de reforma (o prédio onde eu moro é um campeão de reforma, Jesus Cristo!) acaba, você escuta até o barulho de pão. Quer dizer, tem muita sopa e sanduíche também, mas eu gosto.
Então eu fico me imaginando fazendo visitas inesperadas aos vizinhos.
_Oií Rinaldo, e aí, hoje tem lasanha né? É claro que eu estou a fim. Obrigado pela gentileza. Tem parmesão ralado? Tem vinho? É bom esse aqui, hein? Sim, sei tudo de vinho. Vinho é feito de uva. Tem álcool à beça. Tem os bons e tem os ruins. Esse aqui é bom. O ruim vem em garrafão.
E aí eu como rapidinho, pois a galinha caipira não me sai da cabeça. E parto para outra.
_Alô, como vai? Cheguei na hora da galinha, né? Não se acanhe, nem precisa levantar. Posso sentar ali? Aqui está bom. Nossa, não comia dessa galinha caseira já tinha muitcho tempo. Tem malagueta? Sim, sei tudo de pimenta. É fruta, a pimenta. Tem as muito ardidas, tem as fracas e tem as cheirosas. Existem algumas variações e recombinações. Mas gosto de todas.
E aí eu partia para outro vizinho, depois de me despedir com agradecimentos profusos.
_Valeu demais, vizinho! Ó, quando quiser, é só aparecer lá em casa. Amanhã vai ter um rosbife genial que a Rose faz. É um cozido fatiado, com tomate, cebola e pimentão. Fica em salmoura na geladeira e vai muito bem com pão italiano. Aparece lá.
E aí vou lá para o Salim.
_E aí, Salim? Tudo enriba? Cara, senti o cheiro do quibe lá de casa. Tem chanclich também? Nossa, que banquete! E quibe cru, michuí,tahine, pão sírio e esfiha. Mel e mostarda. Pô Salim, só falta você servir um árak. Ave Maria! Quero mais sim, senhor! E mostarda escura, tem? Sei tudo de mostarda. Um grãozinho de nada e vira uma árvore do tamanho do baobá...

Acho que em um mês eu faço uma investigação culinária noturna no prédio inteiro. E é lógico que todo mundo vai ser muito simpático e receptivo. Não é não?

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Goleirão de galalite




Tenho fascínio por algumas máquinas. Especialmente as máquinas que possuem um disco giratório e fazem zum. Ventilador. Máquina de lavar. Esmeril. Dremmel. Parafusadeira elétrica. Fatiador de padaria. Cortador de grama. Acho um barato cortador de grama. Acho geniais aqueles modelos portáteis, com um fio grosso que gira muito rápido. Aquela geringonça é leve e super bem equilibrada. Num instante você consegue acertar uma cerca viva, alinhar um arbusto. Você se sente um gafanhoto humano com um brinquedo daqueles nas mãos. Zum.

Aqui, nessa cidade, existem batalhões motorizados para podar a grama das áreas verdes entre os edifícios, na quadras residenciais. E é divertido observar todos aqueles mini-tratores. Eles costumam chegar no início da manhã. Fazem um barulho infernal. Zum. Ao meio-dia, resta pouco mais que alguns metros quadrados de gramado para acertar, para transformar em tapete da cor da esmeralda. No final da tarde, toda a grama cortada já está ensacada e é levada em caminhões.

Eu olho de longe os mini-tratores. Os motoristas se divertem um bocado. Tiram fino nas calçadas. Dão cavalo de pau e levantam uma nuvem de grama cortada. Zum. Nuvens de insetos se movimentam de acordo com o avançar das máquinas. De vez em quando, numa beirada de calçada, ou numa pedra meio enterrada, um estrondo com faíscas revela um imprevisto. Eu vigio as crianças. Acho muito legal, mas também tenho um medo danado desses cortadores de grama. Só vejo de longe.

Um grande amigo, ainda menino, perdeu um olho por causa de uma lâmina atirada por uma dessas máquinas de cortar. Éramos colegas de classe. Sétima série. Mas quando nos conhecemos o acidente já tinha acontecido há muito tempo. Ele usava óculos. Eu achava que esse amigo era estrábico. E era um estrábico muito estranho, pois tinha dia que um olho estava torto para a direita. E no outro parecia estar torto para a esquerda. Um dia olhava de cima, sobranceiro. E no outro olhava de baixo, irônico. Aí, num dia qualquer, ele precisou tirar o olho de vidro para limpar. E, naturalmente, fez isso com a naturalidade de quem limpa os óculos. Eu fiquei pasmo.

A minha curiosidade mórbida de menino é que me fez perguntar como ele havia ganhado aquela estranha bola de gude.

_Puxa, mas que falta de sorte – eu comentei, depois que ele me contou.

_Besteira. Foi uma sorte danada. Mais um milímetro e a lâmina me matava - ele me disse.

Achei que era estoicismo da parte dele, falar de uma tragédia daquele jeito. Já imaginou? Perder uma parte do corpo e falar disso com naturalidade? É, sou manco. Uma carro passou por cima. É sou maneta. Um leão comeu. É, só ouço desse lado. Show da Ivete Sangralo. É, meu joelho era muito legal. Mas o zagueiro não gostou. Sim, eu peso mais do lado que ainda tem rim. Recebi em euro.

Talvez fosse estoicismo mesmo. Eu nunca ouvi ele se queixar da falta do olho. Nem mesmo no jogo de futebol. E ele até que joga bem. Botão. Também, só usa goleirão de galalite!

terça-feira, 22 de abril de 2008

O boi marruco e as broas de milho



Meu primo Carláile sempre foi um exemplo para todos nós. O exemplo negativo. Não faça como ele. Isso é coisa do Carláile. Até minha avó, que não falava “não” para neto nenhum, parecia ter um pé atrás com o Carláile. Chamava ele de “boi marruco”. O Carláile era estouvado. Era um menino grande demais, na comparação com os outros meninos. Onde dava para passar dois de nós, correndo, o Carláile entalava. E isso geralmente acontecia nas portas. Eu e o meu irmão íamos zunindo na frente e passávamos. O Carláile vinha atrá e paf! Batia o ombro na porta, quicava na parede e levava um vaso na passagem. Aquele vaso, que sua avó guardava com carinho, lembrança de casamento, de um tempo longínquo que já se foi.
_Volta aqui, boi marruco! – dizia a minha avó. Mas ele já estava longe.
Nós éramos crianças. Muitas crianças. E tomávamos suco, café com leite e comíamos pão com manteiga por volta das cinco da tarde. Em ocasiões especiais, minha avó servia broas de milho para todos. Mas em geral, as broas de milho eram delícias secretas que só de vez em quando recebíamos. Mas pão com manteiga, café e quisuco era regra geral na mesa. Era uma mesa enorme, a que tinha na casa da minha avó. Era mesa de fazenda velha. De fazer curau de milho e pamonha. Tinha espaço para todo mundo. Mesmo assim, o Carláile não sabia onde por as mãos e os pés, grandes demais para aquela idade. Ele costumava sentar em cima da mão esquerda para economizar problemas. E cruzava as pernas, enrolava os pés um no outro. Mesmo assim, com a mão direita livre, esbarrava e derrubava as coisas. Lá se ia outro vaso dos tempos longínquos da fazenda da minha vó! Ele se desesperava, o Carláile. Minha avó corria atrás dele com uma colher de pau.
_Volta aqui, boi marruco! – ela dizia, com uma energia invejável para os setenta e nove anos de idade da época.
E é claro que o Carláile só ia aparecer mais tarde. E é claro que nós comíamos o pão com manteiga, o biscoito de queijo, o pão de queijo, tomávamos o quisuco e o café com leite e o que mais que a minha avó reservara para ele. Quem não estava à mesa não poderia reclamar.
Minha avó era uma mulher muito forte e lúcida. Tinha a sabedoria dos oráculos antigos e a fé dos humildes. Viúva antes dos trinta, criou sete filhas e mais um menino, adotado. Sozinha. Ela, as panelas e uma máquina de costura. E ela adorava todos os vinte e três netos. Eu, com minha mania de sabidão, achava que era o neto predileto. Pois ela fazia com que eu me sentisse o neto predileto. Tinha sempre uma broa de milho escondida para mim. Minha avó me entregava no maior segredo aquela broa de milho. Eram especiais e deliciosas. Nem minha mãe, que é supercozinheira de mão cheia, jamais conseguiu fazer broas de milho como a minha avó. Então, eu chegava para as férias e lá estava a minha avó. Conversava com todo mundo e quando eu estava sozinho ela me chamava e, do bolso do avental, tirava uma broa de milho para mim. Só para mim. Eu ficava no céu!
Éramos crianças, muitas crianças. E o Carláile era desajeitado. Estávamos todos correndo, entrando pela casa. As portas sanfonadas de madeira faziam um barulhão danado. E de repente, depois de um grande estrondo, nós paramos de correr e voltamos. Vimos o Carláile no chão. E o retrato do meu avô estava ali ao lado, cacos de vidro e pedaços de moldura para todos os lados. O Carláile tinha, ninguém sabe como, derrubado o retrato do vovô e também o último dos vasos da minha avó. Também, que mania de colocar vaso perto da porta! – eu pensava. Mas a minha avó, espantou todos nós e apontou para o Carláile, com a colher de pau. Em um milésimo de segundo ele se levantou e sumiu, em disparada.
_Volta aqui, boi marruco! – gritou a minha avó.
E ele só voltou horas depois, quando todos os cacos estavam recolhidos e no lixo. Quando o retrato do meu avô já havia sido colocado em nova moldura. Depois de alguém desistir de tentar colar os cacos do que restava do último dos presentes recebidos pelos noivos.
O Carláile chegou em silêncio, pé ante pé. Eu fiquei onde estava, procurando broas de milho, do lado do armário gigante da cozinha. Havia um nicho onde eu cabia inteirinho. Encostei a porta e fiquei olhando pela fresta. O Carláile chegou e pediu desculpas para a minha avó, sozinha, na frente do forno a lenha. Chorava, chorava. E minha avó passava a mão nos cabelos do Carláile. Depois ela o abraçou como as avós abraçam a gente, com ternura duplicada de mãe. E ali, do meu escondido, eu vi minha avó tirar uma lata que eu nem sabia que existia de dentro do forno a lenha. Soprou as cinzas da tampa. E da lata, minha avó tirou um monte de broas de milho e entregou ao Carláile. Então eu soube quem era o neto predileto.

segunda-feira, 21 de abril de 2008

Carecas famosos e outras bobagens

Depois que eu entrei no Hall da Fama dos Mega Blogs pelas mãos da Franka, do Frankamente, resolvi criar o meu próprio Ráu dos Carecas Famosos.

Vou começar pela ala de carecas famosos do cinema. O primeiro, obviamente, é o Telly Savallas, com o seu pirulito de Kojak. Nunca ouviu falar? Pesquise. Em seguida, vem Bruce Willis. E o terceiro é o José Padilha, diretor do Tropa de Elite, que ganhou um urso de ouro e vai virar estátua no lugar do Romário. Essa ala de famosos do cinema é bem grande. Também tem Oscarito, Grande Otelo, Didi, Dedé, Mussum e Zacarias, só para citar alguns nacionais. Aliás, só hoje é que eu reparei que todos os Trapalhões, os ídolos da minha infância, adolescência e idade de gente grande, foram ou são carecas. Os Trapalhões foram as risadas infalíveis de dezenas de domingos da minha vida.

A ala de carecas famosos da TV também é encabeçada pelos Trapalhões, é lógico. E pelo Jonathan Harris, conhecido como o doutor Zachary Smith do seriado "Perdidos no Espaço". Tá bom, ele tinha cabelo, mas era um careca na essência de ser careca. Ou seja, na falta de pelos e atropelos para manifestar a personalidade do Dr. Smith (Caramba! Às vezes até eu me surpreendo com minha capacidade de juntar polissílabos). É extraordinário o quanto eu me espelho no Dr. Smith. Devo muito a ele. Graças ao Dr. Smith eu sei como eu vou ser quando me tornar o velho ranzinza, egoísta, ignorante e pernóstico em que me transformo. É sério. Smith é um modelo. Era para ser um modelo às avessas, mas o mundo dá muitas voltas e a gente acaba se embolando. E é só por causa dele que eu chamo o meu Fiat 147, de 1983, de “lata velha de sardinhas enferrujada”.

Pois então. A ala da TV é gigantesca, mas tem uma seção especial de carecas disfarçados. Ela começa com Starsky e Hutch, As Panteras e Tarzan (aquela com o menino mexicano, o Jái - http://retrotv.uol.com.br/tarzan/index2.asp). Starky e Hutch não tinham cabelo. Usavam perucas e calças bocas de sino. As panteras também. Usavam calças bocas de sino, se depilavam e usavam perucas. E o Tarzan tinha cabelo, mas aquele menino, o Jái, não. Aquilo só podia ser peruca. Aquela série era demais. Surreal. Aliás, sabia que o Tarzan daquela série filmada no México veio gravar o grito de Tarzan em Foz do Iguaçu? Capitão Lee e Kowalsky, de Viagem ao Fundo do Mar, também usavam perucas. O Almirante Nelson usava uma peruca muito bem feita. Era tão bem feita que ele parecia careca.

No futebol, os carecas imperam. Basta citar Ronaldo, o Fenômeno.(Bastou eu falar e o cara deixou o cabelo crescer) No romance policial, Lawrence Block. No clássico, Balzac. Na ironia, Voltaire. Na física, Newton. Na moda, Klein. No carnaval, Piná (Lembra dela? A mulata careca que fez o Príncipe Charles sambar! Jesus, como nós, os nativos, já fomos pitorescos). E na pintura, Picasso.

Quer dizer. Tem careca famoso pra tudo quanto é lado. E nem mencionei muitas mulheres.

Tá vendo? Excelente companhia. Por outro lado, existem os carecas de que você nunca ouviu falar. Meu primo Carláile, por exemplo.

domingo, 20 de abril de 2008

O décimo sétimo mandamento do shopping



Uma aposta, por mais idiota que seja, é uma aposta. E regras são regras. Todo mundo precisa de regras. E nós estamos na entrada do shopping. Eu, a Patroa e os filhotes. O mais velho ensaia uma corrida. A mais nova ensaia uma birra, joga a sandália crock longe. Eu fico firme, na frente do painel que tem as regras do shopping. É um painel metalizado, até bonito. A Patroa se afasta um pouco, viu uma coisa legal numa vitrine.
_Não pode correr. Não pode ficar descalço. Não pode gritar. Não pode entrar com animais. Não pode andar de skate ... – eu tento ler, sem berrar. Mas estou perdendo a parada.
O shopping ganhou de Moisés por seis. São 16 mandamentos no shopping. E nenhum está funcionando com os meus pequenos pagãos. Felizmente é cedo e não tem quase ninguém. Se você quer ensinar uma coisa para alguém num shopping, escolha um horário onde vai encontrar pouca gente. Vá bem cedo. Por isso eu fui bem cedo ensinar as regras do shopping para meus filhos. Além disso, estou pagando uma aposta. A Patroa precisa fazer outra coisa, ela se despede.
_Tchau, amor! Apostou, está apostado! Uma manhã no shopping sozinho com as duas crianças. Rá, rá!
_Quero te dizer que apreciaria muito um gesto de solidariedade ... - eu começo a dizer.
_Mim ganhou! Rá! Tu perdeu! Rá! – ela despista, e se afasta, rápida.
_Onde está a compaixão? A piedade?
_Estou com o celular ligado! Vou para outro shopping! Rá, rá! – ela sai, rindo, rindo.
Estou ferrado. De fato, perdi a aposta. Num domingo eu disse que era capaz de tomar uma coca 1000 ml sem tirar a garrafa da boca. Ela disse que topava fazer uma aposta. O perdedor teria que encarar uma manhã no shopping, sozinho, com as duas crianças. As regras estavam claras? Estavam. Tudo compreendido? Tudo.
_Mim pode começar? eu perguntei, com minha ironia de homem primata.
_ Pode - ela respondeu.
E ela fez cócegas quando eu ainda estava na metade. Agora não adianta reclamar. As regras estavam claras e o Tarzan aqui perdeu.
Estou com as crianças no shopping e não vou dar o braço a torcer. Vou encarar essa, sozinho. Mesmo porque já cansei de pagar mico e vexame. Os dois são capazes de provocar uma avalanche seguida de um maremoto se as rédeas estiverem soltas. É preciso ensinar boas maneiras, bom comportamento. E vou começar nesse instante. Quer dizer, daqui a pouquinho. Porque agora meu filho vem correndo de longe e dá um carrinho na chegada. Desliza de bumbum até onde estou. Um sorriso ilumina o seu rosto. E a minha princesa brinca de chutar e chutar o crock. Tenho que rir também.
_Ó que massa, pai! – diz o meu filho. E ele desliza naquele chão. E eu acho massa! Droga! Eu deveria ter ficado sério. Nada de rir. Estou ferrado. Estou ferrado. Mantenha a calma. Mantenha a calma. Leia o cartaz, novamente. Não. Invente alguma coisa, rápido.
_Crianças, atenção, atenção. Vamos olhar aqui para o papai. Isso mesmo. ESTÁTUA!
E funcionou.
Por alguns segundos eles congelam.
E aí eu uso a psicologia barata de almanaque que eu uso para tudo. Eu cubro o painel com o corpo.
_Não pode ver. Não pode ver. Não pode ver. Nananinananinão.
E os dois prestam a maior atenção. E num instante estamos todos lendo as regras do shopping, atentamente. Os ícones que eles colocam ao lado do mandamento ajudam um bocado.E no instante seguinte, nós caminhamos como as pessoas dos comerciais de televisão. Todo mundo feliz, feliz.
Naquela manhã, nós seguimos todas as regras. E o meu filho, ele manda bem, inventou mais uma. Família anda de mão dada.

sábado, 19 de abril de 2008

Agora ele só tem o dia 19 de abril



Conforme eu expliquei em outro post, sexta-feira é dia de vertical na escola alternativa das crianças. E vertical é quando todas as crianças, de dois a cinco anos, participam das mesmas brincadeiras juntas, das dez até o meio-dia. E ontem, como não poderia deixar de ser, o tema da vertical foi o índio. Porque hoje, sábado, é o dia do índio.
Eu não tenho a menor paciência com índio. Nem com escoteiro. É. Dizem que é preconceito. No sentido amplo, pode ser. Mas eu não acho. Eu chamo de instinto. Eu vejo qualquer ser humano e fico com um pé atrás. Eu não acredito no mito do bom selvagem. Não acho que todo homem nasce bom. Homem nasce. E aí, se não estudar, continua ignorante. Acontece muito com quem não usa tanga também. Nunca maltratei, saí do elevador ou mudei de calçada por causa de índio ou de outro ser humano qualquer. Mas tem algumas coisas na culinária, no vestuário e no beiçário deles que eu não experimentaria nem a golpes de borduna. Agora, com escoteiro é preconceito puro.
Naturalmente, todo mundo contribui para a vertical da melhor forma possível. Então, como todos os anos, um monte de gente resolve fantasiar os filhos de índio. E eu confesso que até pensei nisso, em botar os dois de tanga, mas fiquei com dó das crianças. Pô, não é porque estava com preguiça de pensar em índio que iria fantasiar os dois de Nhambiquaras. Outro monte de gente resolve levar alguma coisa de índio para a escola: colares, arcos, flechas, tacapes, lanças, pulseiras, beiçeiras, forte Apache, discos do Sting... Outro tantão de marmanjos improvisa um apetrecho de última hora, um cartaz, um folha A4 com um desenho de cocar, qualquer coisa. Mas eu não. Eu não tinha pensado em absolutamente nada. Acho que eu travo quando penso em índio. E para variar, enrolei até o último segundo da sexta-feira pela manhã, sem ter arrumado nadica de nadinha.
Cacilda! Deu sete horas da manhã de sexta-feira e nem uma sombra de idéia para a vertical tinha passado pela minha cabeça. E eu só tinha meia hora antes de sair de casa. Não se pode deixar passar a vertical em branco. Isso nem é possibilidade. É ruim para a educação das crianças. Faz elas pensarem que a gente não se importa com as brincadeiras delas. E eu me importo. Faz elas pensarem que a gente está deixando a educação só por conta da escola. O que nem sempre é verdade.
Pensando bem, as crianças não iriam pensar nisso nem aqui nem na China.
Então eu pensei em incrementar o grito de guerra. Mas não gosto de grito no ouvido e só daria para praticar dentro do carro. Pensei em pintar os dois para a guerra, mas isso daria um trabalho danado e até chegar na escola já teria saído tudo nas roupas. Pensei em arrumar um cocar, mas não dava mais tempo. Um tacape, uma colher de pau, um apito. Mas necas. Eu estava desarmadíssimo. Eu estava sem saída. Eu escutava Caetano nas minhas orelhas. “Virá, apaixonadamente como Peri, virá que eu vi”... Ele fazia um duelo com Renato Russo: “quem me dera ao menos uma vez, com a mais bela tribo, dos mais belos índios, não ser atacado por ser inocente”...E aí vinha outra, do cancioneiro popular “Índia, seus cabelos, índia seus cabelos...” E a minha cabeça parecia uma rádio fm em túnel perto de penitenciária.
Ao mesmo tempo, eu lembrava de uma história verdadeira de um cacique norte-americano. Era uma história que meu irmão tinha estampada numa camiseta de ir para a universidade. A carta-resposta de um cacique ao governo dos EUA. Ele agradecia a oferta do governo de vagas nas universidades, onde seus jovens bravos seriam treinados nas artes e ciências dos brancos. O cacique, teimoso e orgulhoso, recusava. E depois dizia, com ironia de índio, que tinha umas vagas nas aldeias e poderia receber alguns jovens brancos que quisessem se tornar Homens. Assim, com “H”. Acho que hoje meu irmão não usaria mais essa camiseta nem a golpes do gravador do Juruna . Incendiário aos vinte. Bombeiro aos quarenta. Pois é. E com isso, já era hora de sair de casa com as crianças. E agora?
Felizmente, a Patroa me salvou. Na véspera, ela já tinha cozinhado milho, descolado umas pamonhas e feito uns colares de madeira e sementes com os meninos. Ela ensaiou palavras em tupi e guarani, contou histórias de onça, pajelança e jabuti. Enfim, foi super didática e educativa. E eu nem tinha visto nada. Estava tudo nas mochilas. Mochilas. Mochilas. Coisa de índio, né não? Não gosto de mochila. Eu carrego tudo na mão. E eu achei dois apitos do ano passado dentro do carro. Chegamos na escola cantando:
_ÊÊÊÊ, índio quer apito, se não der pau vai comer...

sexta-feira, 18 de abril de 2008

Uma carta para o futuro



Mais duas idéias de Keri Smith
02. Write a letter to yourself in the future – Escreva uma carta para você mesmo no futuro
Prezado Careca,
Espero que esteja se divertindo com o pessoal do asilo. Os enfermeiros são legais? E as enfermeiras? Nem deixam você chegar perto, né? Eu te falei, ninguém gosta de velho tarado, seu gagá. Você sempre soube que acabaria assim, então deixa de frescura. Você se acostuma com as fraldas. E com o Coréga também. É natural, é da idade. E a cadeira de rodas também. Era isso ou o andador. E o andador é muito chato e barulhento.

Aposto que a programação da TV deve estar ainda pior do que hoje. Mas não é por isso que estou escrevendo. Você agora, em 2040 já deve ter esquecido de mim. Eu sou aquele que fez você começar um blog em 2007. Eu tinha um bom motivo. Era preciso fazer alguma coisa. Qualquer coisa. Você mesmo não queria fazer nada. Então eu fiz você mudar de idéia. Primeiro com as músicas, fazendo você voltar a escutar músicas. Depois, com todos aqueles papéis e lápis. Fui eu que segurei a sua mão e fiz você desenhar, junto com o seu filho. Você adorava desenhar, Careca. Mesmo assim, ficou mais de cinco anos sem pegar num lápis. E eu não estou te escrevendo para pagar sapo, nem para te dar uma lição de moral. Cara, você se anulou durante muito tempo. Pura preguiça.

Eu sou o seu passado. E uma das coisas que aprendemos há muito tempo é que o passado é imutável e imóvel. Nada se agita no passado. Até mesmo ontem está preso numa gelatina de âmbar. O DNA do passado é irrecuperável. Não se move. Não dá para fazer novos dinossauros. E os esforços que fazemos para imprimir velocidade e ritmo no que já fomos e fizemos são falsos e vãos. Somos crocodilos albinos de nossas próprias vidas. Choramos lágrimas amargas para o que fizemos e não pode ser alterado. E depois comemos o pão que o diabo amassou.

Não é que nem videogame, sabe? Você não pode reiniciar a hora que quiser. Você não salva, faz uma pausa e depois continua a marcar pontos. Na verdade, você e eu sabemos que é o contrário. A contagem é regressiva desde o dia em que nascemos. E tem gente que reza para ouvir, no dia em que a indesejada das gentes chegar, uma palavra de conforto. Nós, você e eu, também torcemos para receber um gesto de atenção. Um olhar de respeito. Vivemos para isso. Para que alguém, na última hora, segure a mão direita com cuidado e depois feche os olhos que já foram nossos. Com cuidado. Não queremos que a falta de brilho em nossas pupilas assuste as crianças de nossas crianças.

É por isso que eu te escrevo, Careca. Para te dizer que se não fosse por mim, você nem teria tentado. E estaria perdido num xarope de auto-piedade. O futuro nós sempre soubemos como seria, não é? Nós sempre soubemos que seria lento, doloroso e solitário. Não é nenhuma novidade.
E acorda, Careca! Chama o enfermeiro para tirar você do sol! O inferno, desde o fim da camada de ozônio, está sobre nossas cabeças!

P.S.: Tem um cigarro no envelope, junto com a carta. Se você estiver vivo, nessa altura do campeonato vai valer a pena dar umas tragadas.

19. Take 15 minutes to eat an orange – É pra já.

quinta-feira, 17 de abril de 2008

Só pode beijar quem quer ser beijado



Só pode beijar quem quer ser beijado. Essa é uma das regras da turma do meu filho, na escola alternativa. Muito boa, essa regra. Lá, as crianças são estimuladas a definir, elas mesmas, quais serão as regras que irão seguir dentro e fora da sala. É uma maneira de criar identidade de grupo, entre outras coisas pedagógicas que os professores explicam. Meu filho que bolou essa regra do beijo. Ele bola bem. Eu me embolo todo. Especialmente com as coisas da escola. Eu me sinto um outsider com os outsiders. Um esquisito entre os esquisitos. E com os convencionais, eu me sinto um estranho no ninho. Gozado. Coloco os meus filhos na escola alternativa, mas parece que sou que busco uma turma.
Brrrrtttt.
Não pode soltar pum na roda. Essa regra também é boa. Eu poderia ter bolado essa, faz bem o meu tipo. Mas foi um intelectual de cinco anos incompletos que sugeriu. Meu filho apoiou a sugestão do colega. Ninguém gosta de sentir esses cheiros de manhã. E a roda é a primeira atividade do dia. Todos os meninos e meninas vão chegando e entrando na roda. Ficam sentados em círculo, que nem índios. Os alternativos todos gostam muito de índio. Tirando o Último dos Moicanos, acho índio um saco. Peri, Aritana, Juruna, tudo chato. Até o Tonto. Eu sempre torci pro John Wayne. Em Dança com os Lobos, com o Kostner, torci para os lobos. Mas tudo bem. Os indiozinhos ficam na roda e contam o que aconteceu de interessante, uns pros outros. É legal. E não pode soltar pum.
Não pode xingar a mãe. É outra regra interessante. Está escrita num cartaz, pendurado na parede da sala do meu menino.
_Quem bolou essa? – eu pergunto.
E a professora aponta, orgulhosa, para um menino que está com o dedo enfiado no nariz. Muito enfiado. Cacilda, esse menino está com coceira no cérebro, não é possível!
_Jesus! Você quase cutucou o olho por dentro, hein, rapaz! – eu digo, sorrindo.
Ele me olha com superioridade e volta a esconder o dedo dentro do nariz. Como se vê, eu tenho muito jeito com crianças.
Só para mostrar que eu sou um adulto adepto de coisas adultas, eu finjo ignorar esse menino. E aí, quando a professora não está olhando eu faço a minha careta especial para o garoto. Aquela, em que eu enfio dedos no nariz, na boca e na beirada dos olhos e puxo tudo de uma vez, ao mesmo tempo em que coloco a língua para fora e mexo as orelhas. Rá! É preciso anos de treino para fazer essa careta, meu chapa!! E então ele retira o dedo do nariz, desanimado.
_E pode xingar o pai? – eu pergunto para a professora. Ela é baixinha, baixinha, essa professora. Pareço jogador de basquete perto dela.
_Não, não pode.
_E porque isso não está escrito?
_Não precisa. Se não pode xingar a mãe, não pode xingar o pai. Até quem tem quatro anos consegue perceber isso.
_Desculpe, mas tenho dez vezes isso em cada perna e ainda não consigo ler essas entrelinhas. Onde dá para perceber? – eu desafio.
E a baixinha percebe que é um desafio. Ela tratou de sacar depressa. Apontou para o menino do dedo no nariz.
_Bernardo? Pode xingar o pai? – as mãos na cintura, dona da situação.
_Não. Não pode xingar o pai – diz o Bernardo. E volta a enfiar o dedo no nariz.
A professorinha recoloca, com mais força, as mãos na cintura. Eu abaixo as minhas mãos. Reconheço a derrota. Às vezes sou mais teimoso que uma mula. Mas dessa vez, não. Então me despeço do meu filho, da professora e já estou com um pé fora da sala quando eu escuto o diálogo entre o meu primogênito e o Bernardo.
_Seu pai é um mala, hein? – disse o Bernardo.
_Mala é a sua mãe – disse o meu filho.
E, vai ver, no fundo, no fundo, os dois têm razão. Mesmo assim, não consigo conter um sorrisinho de vitória ao olhar de volta para a professorinha.

Obrigado pelas sugestões


Pessoal, pessoal, eu queria agradecer as sugestões de saídas honrosas e nem tanto que recebi para aquela história do post "Cortar o caminho para andar em círculos". Vocês todos foram muito legais. É isso aí.
Quem quiser saber como terminou a história, só precisa ler os comentários.
Lá. No post de terça-feira.

quarta-feira, 16 de abril de 2008

Coisas para fazer enquanto há tempo




Eu sou maníaco por listas. Eu gosto de entrar em supermercado com lista na mão, para não perder o foco. Senão acabo levando prateleiras, alicates e outras coisas essenciais para a reafirmação permanente da minha personalidade masculina, de macho alfa super-porreta. Ou então coisas para perder a barriga, incluindo apetrechos de bicicleta. E quando eu não tenho nada para fazer, eu pesquiso listas interessantes na Internet. Tem lista pra caramba. Os maiores ditadores de todos os tempos. Lista de fotos de tatuagens de atrizes pornôs. Lista de maiores santos. Lista de pecadores recalcitrantes. Listas dos carros mais caros do mundo. Lista de lugares que você precisa visitar antes de morrer. Listas das coisas mais ridículas que você já fez numa festa. Enfim, tem lista de tudo mesmo.
Aí eu achei a lista de 100 idéias desse tal de Keri Smith. Nunca nem tinha ouvido falar dessa cara. Puro google. Mas gostei de algumas das idéias e resolvi postar aqui, com os meus comentários. Legal, né?

14. Trace your footsteps with chalk.
Risque as suas pegadas com giz
Eu percebi que não chegaria a lugar nenhum. Eu percebi que todos os caminhos me levavam para dentro de mim mesmo. Aí procurei um pedaço de giz no bolso. Eu sabia que estava ali. Um pedaço de giz branco pequeno. Estava junto com duas moedas, uma de dez e outra de 25 centavos. Abaixei, com cuidado. Levantei a mão que estava com o giz, como se fosse um braço periscópio. Estudei o meu próprio pé calçado. Observei com cuidado antes de começar. E no meio da multidão, comecei a riscar a minha pegada, segurando o giz com força contra a beirada do sapato. Quando tive certeza de que a silhueta do meu próprio pé estava completa, levantei devagar. Lá estava ela. Uma pegada quase perfeita. Então me abaixei e com um traço rápido, risquei uma linha reta, para marcar o lugar da sola. Agora, sim, estava completa. Um traço para delimitar a meia sola faz uma diferença bem grande numa pegada.

29. Study the face of someone you do not like. - Estude o rosto de uma pessoa que você não gosta. Eu não tenho nenhum inimigo declarado. Mas existem muitas pessoas que não gostam de mim. Param de conversar, quando eu me aproximo. Cochicham quando me afasto. Riem escancaradas quando estou de costas. De qualquer modo, para levar essa idéia adiante, com toda honestidade, eu deveria começar pelo espelho. Eu, muitas vezes, não gosto de mim mesmo. Mas o que é que posso fazer? Eu vivo o dia inteiro comigo mesmo. E a noite inteira também. Aliás, esse cara vai comigo para onde eu for, até no banheiro. Até em feijoada com sarapatel. Tenho que admirar a perseverança desse sujeito, pois ele vai comigo até em reunião de condomínio. E eu tenho um rosto comum. Pouco queixo, mas não tão pouco quanto Noel Rosa. Tenho nariz batatinha. Míope. Sobrancelhas estrangoladas. Definitivamente. Orelhudo. E agora, com verrugas. Tem uma bem pequena, do lado esquerdo do nariz. E uma outra, maior, antiga, discreta, meio escondida pelo queixo. Minha pele é mais para oleosa. Dá para ver muitos poros sem lupa. Aliás, dá para ver poros a dois passos de distância. Mesmo assim, minha filha diz que eu sou bonito. Mas ela quer um videogame só pra ela.

35. Give away something you love. - Dê alguma coisa que você ama. Não, o meu patacão de 1811, não. Minha HQ Almanaque do Homem Aranha Número 1? Nem pensar. Meu CD do Cream? Jamais. Minha coleção de canetas de banca de revista? Necas. Não. Não. Não. Caramba. Essa eu sou incapaz de tirar do papel? Será que eu jamais conseguirei dar alguma coisa que eu amo para uma outra pessoa? Também, que idéia mais besta! Talvez emprestar... com juros...

84. Write a list of all the things you do to escape. - Faça uma lista das coisas que você faz para escapar; a) Fecho os olhos; b)Rezo; c)Sacudo a perna ou o pé, vigorosamente; d) Aumento o volume do som, especialmente quando toca “Cool Kids” do Screaching Weasel; e)Assobio o Hino Nacional; f)Canto o Hino à Bandeira; g)Procuro papel; h)Rabisco papel; i)Amasso papel; j)Vasculho o lixo; k)Faço uma lista do que eu tenho no lixo; l)Choro; m)Blogo.

89. Write about or draw some of the doors in your life. - Escreva ou desenhe algumas das portas na sua vida: FRANKA. Jim Morrison. Dante Alighieri. Aldous Huxley. Jim Dodge. Jacques Tati. Chaplin. Tarzan. Bradbury. Houston. Cannetti. Hemingway. Kafka. Dostoiévsky. Lobato. Bob Dylan. Raul Seixas. Zé Ramalho. Tim Maia. Scliar. É tanta gente, se eu escrever 10 páginas ainda vai ficar faltando. Mas as primeiras, a mais importantes, foram os meus pais que abriram. Lembro, até hoje, de “Aqui Estão Eles”, do Walt Disney. Eles leram algumas portas todas as noites, até que eu decorasse. E depois leram outras, e mais outras e mais outras, até que eu lesse sozinho.

terça-feira, 15 de abril de 2008

Cortar o caminho para andar em círculos



Você só precisa se inscrever e pagar uma quantia ridícula para se matricular numa das oficinas do Centro Cultural Renato Russo. E foi o que a Minha Amiga tentou fazer. Eu já escrevi sobre a Minha Amiga antes. É a mulher do Meu Amigo. Psicóloga. Gente fina. Dá nó em pingo dágua. Pois a Minha Amiga quis fazer uma inscrição no Centro Cultural Renato Russo para uma oficina de artesanato.
_Careca, você nem imagina o trabalho que deu.
Eu nem imagino. E então ela me conta.
_Bom, eu liguei pra lá e atendeu uma mulher, com voz de preguiça. Sabe aquela voz de estou te fazendo um favor? Perguntei se ainda tinha vaga na oficina. E a mulher perguntou de volta qual era a oficina. Eu disse “todas”. Assim, eu queria muito fazer uma oficina. Só não sabia qual eu queria mais. E ela, muito grossa, diz que já fecharam as inscrições. Como assim, fecharam? Para todas? É. Fiquei fula de raiva. Mas não deixei parecer. Agradeci, muito educada, na maior finesse, polida como a faca. Jararaca! Eu pensei. Mas não deixei transparecer nada. Telefone é bom por causa disso. Se fosse videofone ela teria me visto bater os pés no chão, de raiva! Agradeci, numa boa, falei boa tarde, foi um prazer, obrigada, clic, queime no inferno, sua fedorenta! Vadia!
Eu engoli umas risadas com o chopp e esperei a continuação.
_Careca, eu lembrei do anúncio do rádio e tive certeza de que a mulher estava me esnobando. Fui conferir no jornal e lá estavam todas as oficinas com inscrições abertas. Ainda tem mais uma semana de prazo. A mulher estava com preguiça. Liguei para outro telefone do centro cultural. Queria reclamar, mas atendeu a mesma mulher. A voz era inconfundível. Sabe a Daniela Mercury, pois é, não parecia nem um pouco com a voz dela. Era mais assim, mais para a voz da Jane, lembra da Jane e do Erondí. “Não se vá!”! Pois parecia a voz daquela bruxa. Aí eu disse, muito calma, muito complacente. Alô, eu acabei de ligar procurando vaga nas oficinas mas a moça que me atendeu, acho que foi você mesma, disse que as inscrições estavam fechadas. Bom, eu sou da assessoria de imprensa do governador e queria confirmar o fim das vagas para suspender as chamadas no rádio, nos jornais e na tv. Já lotou é?? E pelo telefone deu para escutar a moça suando debaixo dos braços. Não, sabe o quê que é, foi um engano. Olha, aguarda um instante que eu vou passar para um dos professores, aqui, fala com ele. E aí eu falei com um professor que me explicou todas as oficinas, me passou todos os horários e ainda me convidou para uma aula teste numa oficina de desenho. Eu só continuo se gostar. Vai ser depois de amanhã. Não é incrível? A atendente só estava com preguiça de me passar as informações. Esse povo é muito, muito esquisito.
_E na aula de quarta-feira? Você vai fingir que é jornalista da assessoria do governador nesse curso?
_Pois é, como é que eu faço para sair dessa?
_Oras, diga que foi demitida.
_Não, aí eu continuo na mentira.
_Então diz que você não é você, mas é a sua irmã gêmea. Ela é que é jornalista. Você é psicóloga.
_Não, muito complicado.
_Oras, então diga que é vizinha da tal jornalista e que pediu a ela para cavar uma vaga para você.
_Interessante. Continua.
_Quer saber? Não diga nada disso. Fala que inventou essa história só de raiva da atendente.
_E se a atendente for amiga desse professor? Provavelmente é, porque foi ele que socorreu ela pelo telefone.
_E se você faltar na aula grátis de teste?
_E perder todo esse esforço?
E então eu lembrei de uma vez que apostei todo o dinheiro que tinha no bolso numa mesa de bilhar. Isso não me ajudou em nada. E nem mesmo tem qualquer relação com a história da Minha Amiga. Eu às vezes sou muito esquisito. E então resolvi colocar no blog para ver se recebo sugestões inteligentes para ela sair dessa embrulhada numa boa. Mas tem que ser rápido que a aula-teste já é amanhã.

segunda-feira, 14 de abril de 2008

Douglas sem juízo na beira do lago



Eu estou na beirada do lago e olho para o píer. Tem uma coisa boiando ali perto. Parece um cachorro. Meu pai está ao meu lado.
_É um cachorro? – eu pergunto.
_É. Está aí desde ontem. Vou falar para o Douglas levar para longe – meu pai responde.
Douglas é o empregado da casa. Tem mais de vinte e um anos, mas em tudo que faz parece que acabou de completar doze anos. Tem o juízo das moscas. Só sai de perto se alguém espantar. O Douglas trabalha para o meu pai já tem quase um mês. E ainda é preciso explicar tudo dez vezes para que entenda o que deve ser feito. Tem um ótimo coração e boa vontade, mas é impulsivo e apressado demais. E invariavelmente se atrapalha com as coisas mais simples. Como levar um cachorro morto para longe do píer.
_Douglas, ponha o colete salva-vidas e pegue uma corda. Depois amarre a corda no bote, coloque o bote na água, amarre a outra ponta da corda no cachorro morto e reboque o bicho para longe daqui. O píer está ficando empestado com aqueles restos. Não se esqueça de amarrar a corda no bote, senão você não vai conseguir remar.
É sexta-feira de um feriado, faz um sol de rachar mamona. Os meninos estão dormindo depois do almoço, a Patroa está lendo. Uma tarde perfeita para não se fazer nada. Fico onde estou, ao lado do meu pai, de frente para o lago. Vai ser divertido de ver.
O Douglas coloca o bote dentro da água. Rema até o cachorro morto. Aí percebe que esqueceu a corda.
_Ó, esqueci a corda, ó – e rema de volta para a margem. Meu pai solta um suspiro de desânimo.
E lá vem o Douglas novamente. Está sem colete e a corda está desamarrada. Quando se aproxima do cachorro morto meu pai pergunta a ele, em voz alta:
_Você sabe nadar, Douglas?
_Não, senhor.
_Então volte e ponha o colete salva-vidas.
_Não precisa. Já vou terminar. É num instante.
_Os afogados também morreram num instante – eu digo.
O bote balança um pouco, depois quase vira. E o Douglas volta para a margem. E aí ele coloca o colete, mas esquece a corda desamarrada. E depois ele amarra a corda, mas o remo cai dentro dágua. Com um pouco de sorte, resgata o remo. Mas o bote vira. Felizmente, ele está de colete. Eu o resgato entre gargalhadas. Afinal, com tudo certo, ele se aproxima do cachorro. O cheiro é nauseante. Douglas recua um pouco e prende a respiração. Rápido, amarra o que parece ser o rabo do cachorro na corda. E então começa a puxar, muito rápido, com remadas fortes. Depois de cinco remadas, a corda se solta. Mas Douglas só percebe quando já está longe. Aí volta e amarra a corda novamente no cachorro. Por um triz não vira de novo. E aí consegue. E de onde estamos dá para ver que soltou o cachorro perto de onde estavam alguns pescadores.
_É igual a um menino, esse Douglas – diz o meu pai.
_É mesmo. Muito perigoso – eu digo.
_Vou precisar encontrar uma pessoa de confiança – acrescenta.
_Olha lá, o bote virou de novo – eu digo, rindo.
E saio correndo para ajudar o Douglas, antes que os pescadores o alcancem.

domingo, 13 de abril de 2008

Um história para a princesa dormir II



_E aí, o Pastrami disse que queria casar com a Pequena Sereia. Continua, pai.
Continuo. Os dois já estavam namorando em segredo, fazia um tempão, Pastrami contou. Mas agora não dava mais. Eles tinham que casar. Ou então ela iria cantar “Levantou Poeira” todos os dias, o dia inteiro, onde o Pastrami fosse pescar.
Os pescadores decidiram parar com a pescaria durante uma semana. Nesse prazo eles fariam de tudo para achar alguém que pudesse casar o Pastrami com a Pequena Sereia. Para isso, eles precisavam achar um mágico que transformasse o Pastrami num sereio. Ou um mágico que transformasse a Pequena Sereia numa mulher. E só havia uma pessoa na face da terra com a capacidade mental, magical e poderosal para isso. Era o Zezeca.

O Zezeca era um mágico de festa de aniversário que havia virado mágico de verdade por acaso. Foi assim. O Zezeca estava andando numa praia, depois de ter sido expulso de uma festa de aniversário em São José da Coroa Grande. Na festa, ao invés de tirar um pombo do chapéu, o Zezeca tirou um baralho. E na hora de tirar o coelho, tirou outro baralho. E na hora do baralho, o Zezeca não tirou nada. Errou feio. Até o truque do lenço ele fez errado. E nem conseguiu fingir que tirava uma moeda da orelha de uma menina. E depois chamou o aniversariante de pestinha, porque o menino estava mexendo no coelho. E aí, quando o menino mexeu com o pombo, o Zezeca gritou com ele. O pai do menino aniversariante não gostou e puxou o Zezeca pelas orelhas pra fora da festa.

Pois ali, na metade da Coroa, ele tropeçou num robalo gigantesco na areia da praia. Sem parar para pensar, ele ficou com tanta raiva do bicho que atirou ele longe, dentro dágua. E acontece que era o Robalo Encantado dos Sete Mares, que de tão agradecido, deu ao Zezeca uma concha mágica. O Zezeca só precisava pensar numa mágica e encostar a concha no ouvido. Dali de dentro, bem baixinho, a concha dizia o segredo da mágica para o Zezeca.

Foi assim, com a mágica da Concha Mágica, que naquela noite o Zezeca transformou uma Maria Farinha numa bela lagosta assada na mesa do Restaurante Remela. Foi assim, que no dia seguinte, no mesmo restaurante, o ajudante de cozinheiro virou um fio de cabelo numa porção de camarões que foi servido à doré, para o dono do restaurante. De ajudante, Zezeca virou grande e reconhecido cozinheiro de frutos do mar num instante. Pois tudo o que ele precisava fazer era encostar o ouvido na concha e repetir as palavras mágicas. E o Restaurante Remela ficou famoso. E o Zezeca também. Mas um dia, assim, num passe de mágica, o Zezeca sumiu. E o restaurante também.

E agora, 40 pescadores estavam atrás do Zezeca. Eles procuraram, procuraram, procuraram. E nada. E quando só faltava um dia para acabar a semana, o Simão encontrou o Zezeca e o Restaurante Remela ali mesmo, na praia de São José da Coroa Grande. O restaurante estava depois de uma duna na praia que ele nunca tinha visto antes. Parecia que tinha surgido ali durante a noite. Pura mágica.

O Simão procurou o Zezeca no restaurante e explicou a história para ele. Aí o Zezeca falou que não fazia mais aquilo, que tinha perdido a concha mágica. As únicas duas mágicas que ele ainda conseguia fazer era mudar o restaurante de lugar e um congro rosa com cebolas. Ele disse que agora só mexia com restaurante. Que o negócio era a gorjeta. Ele lamentava muito e um abraço.

Mesmo assim, o Simão levou o Pastrami e a Pequena Sereia para o Zezeca ver. O Zezeca ficou com muita dó do casal apaixonado mas disse que não poderia fazer nada. Os dois choraram. E a Pequena Sereia cantou “Levantou Poeira” duas vezes. Aí o Zezeca chorou duas vezes. E de pura raiva daquela música chata ele tentou transformar a Pequena Sereia em mulher, com mágica. Mas tudo que ele conseguiu foi transformar a parte que era peixe em mulher. E a parte que era mulher virou peixe. Inverteu tudo.

E o Pastrami ficou desesperado. Enlouquecido. Queria matar aquele mágico de araque. E partiu para cima do Zezeca com um anzol gigante. O Zezeca imediatamente o transformou num sereio do avesso, pernas de homem, tronco e cabeça de peixe. E pimba. Os dois eram um casal, agora. Cabeças de peixe e as pernas de gente. Mas fora dágua não respiravam e dentro dágua não conseguiam nadar. Eram monstros nos dois mundos. Mas se amavam. Muito. Sshhh. E eles estavam quase dormindo.

Aí o Zezeca ficou com dó e lembrou de um feitiço de concha antigo, para transformar os dois em tainhas. E três dias depois, Pastrami e a Sereia foram pescados por 39 pescadores, junto com duzentas e cinqüenta e quatro tainhas. E no dia seguinte, tinham virado jantar no Restaurante Remela, na praia de São José da Coroa Grande. E quem comeu foi aquele menino, do aniversário, que mexeu no pombo do Zezeca.
_Credo! Os dois viraram tainha! Que horror! – disse a Patroa.
_Nessa parte ela já tinha dormido – eu disse, tranqüilo e infalível como Bruce Lee.

Mas é lógico que a minha menina princesa teve pesadelo. E nós deixamos ela dormir com a gente.

sábado, 12 de abril de 2008

Um história para a princesa dormir




Era uma vez uma linda sereia que se chamava Pequena.
Ela não era muito baixinha, mas de vez em quando era confundida com um atum, dos médios.
Pequena vivia se metendo em encrenca e onde não era chamada.
Gostava principalmente de se enroscar em redes e atormentar os pescadores.
Por sua vez, os pescadores não gostavam nem um pouco da Pequena. Primeiro porque era uma decepção puxar aquela rede e encontrar um peixe que só era peixe até a metade. E o segundo motivo é que a metade que era gente não parava de cantar. E o repertório da Pequena era um horror.
Os pescadores não suportavam mais aquelas músicas baianas. E então, depois de um dia em que a Pequena Sereia estragou várias redes e cantou “Levantou poeira” umas trinta vezes, os pescadores decidiram acabar com aquele tormento.
Eles se reuniram na casa de um pescador chamado Simão. Todos os 40 pescadores.
Um a um, todos foram chamados a apresentar sugestões para acabar com a Pequena Sereia.
_Arpão! – gritou um pescador chamado Arnaldo.
_Anzol! – gritou um outro chamado Bernardo.
_Bala! – gritou outro, chamado Alexei.
_Paulada! – gritou o que se chamava Raimundo.
E assim por diante. Até que chegou a vez de um pescador miudinho, chamado Felipe Leocádio Pastrami, que todo mundo chamava só de Pastrami. Ele se levantou. Deu a volta na âncora gigante que tinha na casa do Simão. Subiu no palanque de redes. E lá de cima, ele olhou para todos os seus amigos pescadores. E ele olhou com firmeza, como só os baixinhos metidos conseguem olhar. Chamou o nome e olhou dentro dos olhos de cada um dos seus 39 amigos ali reunidos. Aí ele falou:
_Irmãos!
_Óóóóóóóóóóó – disseram os pescadores evangélicos.
_Brothers! – ele disse, para os pescadores que eram gringos japoneses.
_Óóóóóó, né? – disseram os gringos japoneses.
_Pescadores da Bahia! – insistiu Pastrami.
_Ó – disseram Dori e Val, os gêmeos da Bahia, com preguiça.
_Eu amo a Pequena Sereia! – falou o Pastrami.
_Buuuuuuuuuuu – disseram os pescadores.
_E eu gosto do que ela canta! – afirmou Pastrami.
_Sai dessa lama, jacaré! – disseram os pescadores.
_E eu quero casar com ela – Pastrami disse, baixinho.
E todo mundo ficou calado. Sshhhhhh. Silêncio total. Alguém esbarrou na âncora e ela fez um barulho de metal, téim. Um outro derrubou um anzol bem pequeno no chão. Téim. E todo mundo escutou o eco do barulho do anzol. Téim, téim. O eco parecia um sino de igreja, bem longe. Téim, téim, téim. Sshhh. Todos os quarenta pescadores pensavam as coisas mais malucas ao mesmo tempo. Quase dava para ouvir os pensamentos deles cochichando, bem baixinho.
E agora? Quem poderia ajudar o Pastrami? Quem poderia transformar uma sereia numa esposa de pescador? Que juiz seria capaz de casar aqueles dois? E depois de casados? Será que eles dormiriam numa cama, ou num aquário gigante? E se nascessem peixinhos? Os peixinhos iriam pescar outros peixinhos? E se nascesse uma menina metade peixe e metade menina? E se fosse um menino? Ele ia jogar futebol? Peixes jogam futebol? Devem ser bons de cabeça. Sshhh. Sshh.


_E aí? O que aconteceu? – pergunta a Patroa.
_Dormiu, oras.
_Não, o que aconteceu com a Pequena Sereia.
_Ainda não sei. Amanhã eu penso em alguma coisa.
_E se ela acordar à noite e quiser saber?
_Os pescadores foram dormir para acordar amanhã bem cedo.
(Continua)

sexta-feira, 11 de abril de 2008

Glub




Para as pessoas que se obrigam a ser total e completamente honestas sobre elas mesmas e suas vidas, um blog diário pode ser muito perturbador, ofensivo e até agressivo para as pessoas que amamos. Ser verdadeiramente honesto consigo mesmo é admitir a existência de um caráter multifacetado. E você, antes de tudo, tem que admitir que é você que escolhe quem e o quê você quer ser. Essa responsabilidade é sua, brother. Você pode até ser levado a isso. Mas a palavra final é sua. E não dar a palavra final também é uma decisão de caráter. Ou de esquizofrenia.

Eu sou um, mas sou muitos. Eu sou o Careca. Eu sou o engraçadinho. Eu sou o bufão. Eu sou o babaca. Eu sou um dos três boludos, na Ilha Grande, acompanhado de dois grandes amigos que hoje nem vejo mais. É culpa minha, que me afasto de quem me comove, de quem me irmano.

Eu sou o reacionário. Eu sou o esquerdista que nunca aceitou pixar muro, parada de ônibus. Eu sou o covarde. Eu sou o valentão. Eu sou o menino agressivo que apela para as botas ortopédicas. Eu sou o ignorante metido a besta, que quer continuar ignorante. Eu sou o homem que fica em casa. O cara que chora vendo filme de guerra. O amigo do Mário. O bobo tímido. O rei do go-gó. Eu sou o sujeito honesto, modesto, que gostaria de saber mais. O misantropo. Sou só um cara comum, medíocre.

Quem é que eu realmente sou? Sou tudo isso. Mas na maior parte das vezes, sou só aquele último, o cara comum e medíocre que um dia escorregou numa casca de banana. Acontece com todo mundo. Mas sou eu que escolho quem eu sou. Para isso existem poucas atenuantes. E aqui, nesse espaço virtual, eu sou o Careca.

Debaixo do Careca, cabem todos os olhos, narizes e bocas. Eu poderia ser todas as minhas facetas. Mas eu não poderia ficar entrando e saindo de rodamoinho de facetas a vida inteira. Aqui eu escolhi ser somente alguns de mim. E eu até poderia me permitir entrar novamente naquele rodamoinho. Mas isso não me levaria a lugar nenhum distante do pinel. E uma coisa é certa. Se você escolher um lugar, seja um só, ali, naquele instante, mas seja verdadeiro. É o que eu faço. Pelo menos uma vez por dia. Pode ser pouco, mas por enquanto é o bastante.

Quando eu não escolho o que eu quero ser, quando eu não estou no controle, o pior de mim aparece. E ainda assim eu sou humano em minhas boas intenções e na minha malícia. Minhas reações aos eventos da vida, minhas opiniões sobre os amigos, os acontecimentos, sobre os estranhos em que tropeço, qualquer das coisas de que falo neste blog diário, exigem um certo grau de controle de pensamentos e sentimentos.

Mas para dividir essa qualquer coisa com genuína honestidade, de coração e mente, do fundo da minha alma, não posso ser só capitão, tenho que ter a bravura de afundar com o navio. E mergulhado do jeito que estou, só posso ir cada vez mais fundo.

quinta-feira, 10 de abril de 2008

O gógó trolóló da reunião de terça




Só agora parei para pensar no que aconteceu. Na terça-feira teve reunião na escola alternativa das crianças. Foi na sala da minha princesa de três anos, à noite. Quando cheguei à escola, os dois professores fumavam um cigarro do lado de fora. Olharam para mim com curiosidade. Ofereceram cigarro. Não aceitei. Desde que eu parei de fumar eu só gosto de sentir o cheiro de cigarro. Fiquei ali um pouco, aspirando, jogando conversa fora, abusando do gerúndio. Chamo isso de controle do vício. Seguro a vontade de fumar e fico ali. Devagar, aos poucos, eu deixo a vontade ir embora. Eles me contaram tudo o que estava acontecendo na sala da minha filha. Fiquei feliz em saber que ela não leva desaforo para casa. Mas nem pensar em por cigarro na boca. Um viciado é sempre um viciado - já dizia Bill Burroughs. Todo dia é mais um dia. Toda noite é mais uma noite.

Fui o segundo a chegar. Por um instante imaginei que seria o único pai no meio de umas dez mães, mas desencanei rapidinho. Em escola alternativa, a coisa é invertida. Os pais, os homens, é que vão. As mulheres são até minoria. A participação e freqüência, felizmente, são bem maiores do que nas reuniões de condomínio. São quinze crianças na sala da minha filha, sendo treze meninos e duas meninas. Uma delas é a minha princesa. Onze pais e mães apareceram. Contando comigo, doze adultos. Mais dois professores e a diretora de pedagogia. Quinze adultos na salinha amarela.

Na escola tem também a sala rosa, a sala salmão, a sala azul, a sala verde, a sala xadrez e o galpão, onde funciona a cantina, a secretaria e os banheiros dos adultos. Meu filho está agora na sala salmão, na turma do ciclo IV. Tem ainda árvores, muitas árvores, um parquinho, ou melhor, um parcão e um belo gramado.

A reunião parecia um encontro de personagens fugitivos de “Hair” em volta de mesinhas, com todos sentados em banquetas de madeira minúsculas. Só sobrou um banquinho. O único careca era eu. Isso e o meu ar sério e compenetrado sempre me conferem uma certa autoridade. Para reforçar essa impressão, eu faço cara de Gandhi malhador, como se eu fosse um filósofo lutador de jiu-jitsu. Além disso, é claro, dou vazão à minha estratégia de começar a falar sem parar, mas sem elevar a voz, até que a outra pessoa cale a boca. Aprendi essa tática em assembléias de estudantes. Chamo isso de “ganhar a palavra no go-gó”. É bem diferente de ganhar “no grito”. Nessa modalidade, o sujeito eleva a voz até alcançar um volume de decibéis audível até para Beethoven. No “go-gó” não, falar alto não vale. O importante é deixar o adversário com cara de bobo.

Não fui eu que comecei. Mas eu estava exercitando a minha tática “go-gó” em cima de um cabeludo de terno e gravata, com broche de partido político na lapela. O cara queria me convencer de que a ausência formal de proposta político-pedagógica da escola era negativa. E desde quando maluco põe coisa no papel, eu pensava. Para dizer a verdade, eu nem sabia porque o tema tinha surgido, eu só tinha perguntado as horas. Mas também não queria ouvir aquela arenga chata nem deixar parecer que ele tinha vencido um debate. Eu dizia para ele que não lamentava aquela ausência e que gostaria muito de jamais conhecer o projeto político-pedagógico que o inspirava. Em voz baixa, com calma. Não é que eu seja preconceituoso, mas quando alguns alternativos começam a falar sério eles costumam me tirar do sério. É um porre.

O cara só parou de falar porque eu, no meio da minha frase, cantarolei “Só danço samba, só danço samba, vai, vai, vai, vai”. A variante go-gó musical. Sempre funciona. Peguei o sujeito de surpresa.
_Hã? – ele titubeou.
_Pois então, vamos ouvir o relatório do professor – eu encerrei e passei a palavra para o jovem mestre.
_O grupo está unido. O grupo está forte. Tem muito mais meninos, mas as duas meninas estão se saindo bem. Elas sabem se defender. Está tudo bem. Voltem sempre.
Aí eu virei pro cabeludo e perguntei se ele tinha menino ou menina. Ele disse que era um menino. Aí eu virei para o jovem professor.
_É o filho dele que apanha da minha filha? – eu perguntei, apontando o cabeludo de terno com o polegar, para o professor.
_Também – respondeu, o jovem mestre.
_Eu vou falar com ela para maneirar – eu disse, para os dois, com um enorme sorriso no rosto.
Quando eu cheguei em casa, dei um beijão na minha menina de ouro. E agora que estou pensando direito, acho que vou colocar ela na capoeira.

quarta-feira, 9 de abril de 2008

Eu cantei essa pedra no dia 14 de março

09/04/2008 - 12h25
Cafetina brasileira Andréia Schwartz posa nua para "Sexy"

Torrando “LA PLATA” com cartão corporativo



O blog Caminho do Careca recebeu uma mensagem psicografada com as informações sigilosas sobre os gastos com cartões corporativos da Presidência da República do Bananal. É isso mesmo. Tem de todo mundo, de Sarneyy, o Marimbondo da Academia de Letras, até Lulla, o Molusco. O Careca agrupou o dossiê, digo, o banco de dados, digo, a papelada, digo, o material, de acordo com as despesas mais representativas.

Sarneyy - 15.03.1985 a 15.03.1990
Farmácia - 10% - Remédio para Marimbondos de Fogo
Fardão da Academia Brasileira de Letras – 5%
Inflação – 84%
Papel higiênico – 1%

Collor 15.03.1990 a 29.12.1992
Jet Sky e motos – 5%
PCFarias – 65%
Filhos na Suíça – 5%
Dentista da Roseanne – 20%
Canetas MontBlanc – 4%
Papel higiênico – 1%

Itammar 29.12.1992 a 01.01.1995
Farmácia – 9% - Remédio para bicho de pé e gel para topete.
Queijo Minas para os cupinchas – 89%
Reforma do Fusca – 1%
Lingerie para Lílian Ramos – 0%
Papel higiênico – 1%

FHC I 01.01.1995 a 01.01.1999
Farmácia – 89% - Remédio para esquecer tudo o que escreveu
Nhém-nhém-nhém– 10%
Papel Higiênico – 1%

FFHHCCC 01.01.1999 a 31.12.2002
Farmácia – 10% - Remédio para esquecer tudo o que escreveu
Nhém-nhém-nhém – 89%
Papel Higiênico – 1%

Lulla 01.01.2003 a 01.01.2007
Despesas no cartão corporativo – Sigiloso.
Depois que Dircceu saiu, Dellúbbio não pediu mais empréstimo e quase tudo é pago em Bolsa-Família.
Despesas pagas em cheque – 15% do valor total.
Alguns cheques foram cobertos pelo Presidente do Sebrái - Paullo Okammottocicleta.
Cheque em branco para o Robertto Jefferson não contabilizado.

Lullla 01.01.2007 a
Despesas no cartão corporativo – Sigiloso .
De acordo com a mensagem psicografada, presume-se que esse gasto seja igual a zero, já que o Pallocci era o único que lembrava a senha do cartão.
O Paullo Okammottocicleta já se ofereceu para cobrir as bolsas, com um pano, e ajudar o Silvvinho a cumprir pena.
O cheque especial do Roberto Jefferson ainda não foi contabilizado.

Atenção: nenhum aloprado contribuiu para a produção deste post. Aliás, eles agora só aceitam contribuir com 15% se receberem 100% da Bolsa Ditadura.
P.S. : Não se sabe qual é o gasto com papel higiênico, mas o Lullla vive enfezado...

terça-feira, 8 de abril de 2008

Entenda o Caminho do Careca





Algumas pessoas me perguntam o motivo de ter batizado o blog de “Caminho do Careca”.
Não é só por causa da falta de cabelo.

Sou classe média. Moro em apartamento. Não falta comida na minha mesa. À minha maneira, montei um casulo para proteger e educar meus filhos. Não engano ninguém. Não sou trapaceiro. As coisas de que eu gosto, digo que gosto. Sobre as coisas de que eu não gosto, muitas vezes não digo nada, que é para não magoar outras pessoas. Principalmente as pessoas que eu amo.

Mas eu procuro pensar e ter opinião própria. Se me perguntam sobre o que está errado e eu sei, eu digo o que está errado. Se eu não sei, confesso a minha ignorância. Se for muito interessante, digo que vou pensar sobre o assunto e dizer depois. Geralmente não digo nada depois. O que está certo e eu sei, eu digo que está certo. Às vezes também digo sem ninguém perguntar, mas é cada vez mais raro. E agora, quando isso acontece, costumo me arrepender de ter aberto a boca.

Mas já fiz diferente. Já fui de discutir aos berros com quem não enxerga o óbvio. Hoje evito o desgaste de tentar abrir os olhos dos cegos. No máximo, sou o herói de mim mesmo. Hoje só procuro ser honesto. E consigo. Na verdade, é bem fácil ser honesto. O difícil é ver os desonestos rindo de você. Mesmo assim, só admiro quem não faz pactos com a falsidade, quem não contribui para a desonra do próximo e do distante. A ignonímia é intolerável. Quem ri da desgraça alheia é cruel. Quem ri das próprias desgraças tem senso de humor. Uma navalha divide as duas coisas. Mas de vez em quando é bom caminhar ali, correndo o risco de se cortar. Ninguém é feliz o tempo inteiro. Mas há quem seja triste o tempo todo. Fujo desses caras.

Sou moralmente simplista. Sou quase reducionista. Eu sei que uma coisa é uma coisa. Outra coisa é outra coisa. Um erro não é atenuante para outro erro. O erro de um é o erro de um. A responsabilidade não é inimputável. A responsabilidade pelo erro é de quem errou. Não é transferível. Por isso, não aceito culpa que não seja minha. Isso também é ser honesto.

Se eu precisar ser condescendente, sou bonzinho primeiro comigo. Há quem me considere egoísta e pode até ser verdade. Entre o pecador e o indiferente, fico com quem finge menos. Eu sei que nós preferimos perdoar Barrabás, que é incapaz de alegar inocência. No máximo, sou cúmplice de mim mesmo. Se precisarem de um santo, não sou eu. E de qualquer modo estarei longe, bem depois da esquina. Ninguém me encontra quando eu preciso. E vice-versa.

Eu não escolho bode expiatório. Eu não coloco bode na sala. Não subo jabutis em árvores. Não gosto de rolo. E se eu pago, peço recibo. Já esperei meia hora pelas moedinhas de troco e a nota fiscal. Já amarguei muitas horas em filas de espera. Virei campeão de palavras cruzadas. Nas minhas jabuticabas, sempre encontrei vespas e marimbondos.

O Caminho do Careca é uma trilha na selva da minha cabeça. É um trajeto nas cidades desertas dos meus sonhos. É um rastilho de pólvora para umas idéias velhas e outras novas. É uma picada que eu procuro abrir, para enxergar melhor o que está na frente dos meus olhos.

Vou, a passos. Às vezes largos, às vezes curtos. Vou, na medida da minha própria força. E, às vezes, se eu acho que estou indo bem demais ou se alguma coisa me turva a visão, eu paro e escuto. Eu tenho opinião própria, mas não tenho certeza de tudo. Nem sou dono da verdade.

Sou só um cara que tenta, com sinceridade, seguir o próprio caminho. Que nem precisa ser novo. Mas é meu. Sou eu quem faço. O Caminho do Careca.

Pronto, falei. E o arrependimento já começa a surgir da ponta dos dedos.

segunda-feira, 7 de abril de 2008

Não existem cofres para o infinito


Infinito é a nova palavra favorita do meu filho mais velho. Ele já reconhece todas as letras. E também consegue rabiscar quase todas. Tentei ensiná-lo a escrever a palavra, esquecido de que, por enquanto, ele consegue apenas garatujar o próprio nome. Sempre penso que posso responder melhor às perguntas dele. Ser mais consistente. Mas o fato é que eu falho um bocado.

Eu gosto de observá-lo brincar. No início, eu gostava de me vangloriar. Gostava de achar que determinado gesto, o jeito de sorrir e a risada escancarada eram heranças melhoradas dos meus gestos, sorrisos e risadas. Depois, observando melhor, vi que as melhorias nos gestos ágeis haviam mudado a configuração, de tal maneira que havia restado apenas algumas centelhas dos meus próprios gestos na sua maneira de andar, correr e saltar. O mesmo valia para o jeito de sorrir, para a maneira de acompanhar as palavras com as mãos. Por fim, reconheci que os gestos e tudo o mais, inclusive o jeito meigo e maroto de olhar na hora de contar uma aventura, eram combinações só dele, que nasceram com ele e desabrocharam em apenas quatro anos. É muito rápido, esse crescer para o mundo.

Olhando para o arquivo de fotos no computador, eu vejo meu menino. As fotos mostram que vive de forma vibrante e barulhenta. É raro encontrar uma pose, um momento em que tenha parado para o clic. Acho que é dessa forma, em geral, que vivem os meninos. Mas o que é essa pequena sombra no canto do olho? O que é essa leve cicatriz no sorriso? É como se estivesse resignado a ser ignorado de tempos em tempos, quando me enrolo para olhar meu próprio umbigo. Eu sei. A cicatriz no sorriso é uma mancha indelével , que revela as inconsistências na minha interpretação de pai. Eu sei.

Mais fotos. Eu gostava de imaginar o coração como um cofre forte gigantesco, iguais àqueles dos bancos que aparecem no cinema. Uma imensa roda com gigantescos braços de metal para abrir a porta. Um segredo complicado e cheio de tecnologia para acionar o mecanismo da porta. Ali dentro, milhares de caixas metálicas guardariam todos os amores que eu amei, todos os ódios, todas as mágoas e dores que um dia senti. Pequenas caixas metalizadas, com chaves individuais e brilhantes. Cada caixa só poderia ser aberta por uma única pessoa. A pessoa que amei. A pessoa que odiei. Quem me magoou. Quem me fez sorrir.

Mas depois vi que não é assim.

Eu tenho um cofre pequeno no peito. E ali dentro, misturadas com a minha preguiça e o meu desleixo, as coisas boas e as coisas más lutam uma luta de vida e morte. E de vez em quando, é muito raro, eu deixo alguém se aproximar o bastante para dar uma espiada. E depois, eu bato a porta do cofre. A maioria das coisas, tenho certeza, eu não deixo pra lá, não guardo perdão. Mas o coração do meu filho é diferente. É uma casa grande e iluminada, eu sei. E tem árvores no quintal.

À noite, depois que eu o coloquei para dormir, eu olho para as fotos do meu menino e escuto os sons sonolentos da casa. Eu espero que ele sempre entenda o amor infinito que eu tenho por ele. Mas quase sempre, alguma coisa parece evidenciar todas as minhas tentativas de interferir no seu crescimento. Ali estão, as marcas dos meus dedos cheios de argila, de quando tentei moldá-lo à minha imagem e semelhança. Quando tudo o que era preciso fazer era soprar a ferida do joelho, beijar o arranhão na pele.

Só muito depois me ocorreu que eu poderia tê-lo ensinado a desenhar o símbolo de infinito. Eu perco o tempo certo, freqüentemente.

domingo, 6 de abril de 2008

Depois dele, posso ser primeiro?




_Uma das melhores partes de Kil Bill II, do Quentin Tarantino, é quando o Bill faz uma análise do Super-Homem para a ex-mulher, Umma Thurman. Não lembro se é antes, durante ou depois de acertar uns dardos paralisantes nela. A cena é uma grande parábola sobre o mundo moderno. Nossas mulheres são guerreiras assassinas perigosíssimas, prontas para nos degolar com facas gigantescas de samurai. Cuidado com elas. O uso de armas químicas paralisantes é a única garantia de sermos ouvidos em nossos devaneios sobre as coisas mais idiotas do mundo. Exatamente as coisas que nos deixam mais vivos e felizes. As coisas que nos mantêm presos a uma pré-adolescência segura e confortável.

No filme, Bill fala sobre a identidade secreta do super-homem, o alienígena de Kripton. É tudo muito interessante. Mas o principal é que o disfarce do super alienígena é aparentar fraqueza, covardia e insegurança com um terno cinza claro de repórter e óculos. “Clark Kent é a visão que o Super-Homem possui da raça humana", é a frase síntese do diálogo.

Mas o Tarantino não analisa o ponto fraco do Super-Homem.

O Super-Homem não perde para ninguém, a não ser que haja uma pedra verde no caminho. O ponto fraco do alienígena é essa pedra do seu planetinha, que explodiu. A pedra brilha, como uma lembrança radioativa e pulsante, e transforma o super numa gelatina mais fraca do que o Clark Kent. A kriptonita parece uma malária verde que faz o Super gemer, suar, delirar e desmaiar. Ele fica colocando as mãos na cabeça, como se a pedra também provocasse enxaqueca. É terrível! E a kriptonita não faz mal para uma pessoa da Terra. Ou seja, quem tiver Kriptonita, pode ser uma criança, pode ser um adulto, é capaz de destruir o Super-Homem. Basta um só pedacinho dessa lembrança de casa para o Super vacilar e se tornar um pastiche pior do que o próprio disfarce. Por último, a kriptonita pode ser neutralizada por um pedaço de chumbo. O super geralmente envolve a pedra verde com chumbo no último segundo, depois de apanhar bastante, mas ainda com um alguns milésimos de tempo para salvar o planeta.

A maioria dos heróis vira herói depois de um acidente, uma coisa qualquer que lhe confere poderes. E aí surge o problema da identidade. O Batman se veste na Batcaverna, tem um carro legal à beça. Mas o Batman não tem super-poderes. Não senhor. O Batman é forte, inteligente, mas de vez em quando apanha à beça. Especialmente do Coringa. E tem outros, também. O Aranha leva a máscara no bolso, para quando precisar. O Flash se veste super-rápido de vermelho. Mas só tem um que nasceu super. Ele mesmo, o Super-Homem. O Super-Homem só precisa guardar os óculos e abrir a camisa. O uniforme dele é como uma segunda pele. É material que veio do espaço, junto com ele. Estava na nave espacial. É tecido de seda espacial lá de Kripton. É o cobertor que ele ganhou da mãe e do pai dele. Não estraga nem quando ele volta super-aquecido do espaço. É sensacional! E o Super-Homem tem um amigo fotógrafo, o Jimmy Olsen, e uma namorada, a Lois Lane, uma garota super-bonita.

_Tudo bem, pai. Mas eu quero ser o Batman!

Frase do dia


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