segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Adeus, 2013! Feliz 2014!

Este vai ser o meu último post do ano. Amanhã não quero chegar perto do computador. Estou cheio de idéias. Estou repleto de planos. Estou com uma enorme energia represada. Mas vou deixar para 2014. Você que me acompanhou até aqui, não desista. Amanhã vai ser outro dia.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

É Natal

Ping. Ping. Ping. O dia começou com goteira nova aqui em casa. E justo sobre o armário de roupas da minha mulher, um lugar injustíssimo para goteiras. Subi no sótão e ali estava ela, a origem da goteira. Um joelho no encanamento, um pequeno gotejamento. Corri para buscar minhas tralhas de encanador amador. Aqui em casa eu sou jardineiro amador, encanador amador, carpinteiro amador, eletricista amador, tudo amador. Amo que é uma beleza e realmente adoro consertar as coisas eu mesmo. E só desisto de tentar quando o estrago já está muito grande. Desta vez não foi muito diferente. Afinal, era apenas um pequeno gotejamento. Mas dez minutos depois a pequena fissura no joelho do encanamento se transformou numa fissura coberta com fita veda rosca. E uma hora mais tarde, quando o bombeiro profissional chegou, ele ficou embasbacado ao observar uma bola gotejante de fita veda rosca no encanamento. Em dez minutos ele serrou o cano e substituiu a parte estragada.

_Posso levar isso aqui? - ele disse, apontando para a enorme bola de fita veda rosca com um cano atravessado, no canto do sótão.

_Não. Eu vou transformar essa maçaroca numa bola de verdade. Se eu conseguir mais umas fita isolantes, posso criar a minha própria bola de boliche caseira - eu disse.

_Nunca vi um remendo tão grande - ele disse.

_Eu tenho mania de grandeza. Mas não foi proposital. No início parecia que tudo terminaria rapidamente e que apenas mais uma volta seria o suficiente para conter o vazamento. Mas de repente parece que o joelho se esfarelou e o vazamento ficou realmente grande. E o pior é que eu nem podia descer para desligar o registro, pois o teto ficaria inundado. Eu só podia continuar enrolando, enrolando e enrolando para diminuir o vazamento e ganhar tempo. Antes de você chegar eu já havia descido com cinco baldes cheios. Bom, águas passadas. O serviço ficou em 90?

_Fica por 80 se me deixar levar o remendo - ele disse.

_De jeito nenhum - eu disse.

_70 e eu levo a bolota de fita veda-rosca - ele disse.

_Não, senhor, não está à venda - eu disse.

_60, é a minha última oferta - ele disse.

Caramba, 30 pratas por um pedaço de lixo, eu pensei. Mas depois eu imaginei o bombeiro chegando em casa, ou voltando para a oficina com aquele tosco remendo que eu demorei metade da manhã para fazer e simplesmente rindo do meu esforço e da minha incompetência. Prevaleceu o amor-próprio. Paguei os 90.

Depois que o sujeito foi embora eu me arrependi. Que bobagem, poderia ter economizado trinta pratas. É Natal. É tempo dos homens de boa vontade. E que importância tem se o bombeiro risse da minha ridícula bola de fita de pvc? E se ele estivesse agora mesmo rindo de mim por ter recusado um desconto de 30 pratas num pedaço de cano estragado? Jamais saberei. Não é assim também com o Natal?

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Tranqueira

Uma das resoluções de fim-de-ano que pretendo cumprir à risca em 2014 é a de não juntar nenhuma tranqueira e me livrar de todas as tranqueiras já juntadas. Pretendo começar por essa moldura de árvore de Natal, que acaba de se queimar. É uma pequena armação de metal por onde corre um fio de lâmpadas led, dentro de uma mangueira transparente, levemente esverdeada. A armação imita a silhueta de um pinheirinho geométrico, com uma estrela na ponta. Armada, media uns oitenta centímetros e ficava parecendo uma árvore de luz neon, tridimensional. Estava conosco há anos, mas ainda me lembro quando minha mulher a trouxe para casa. As crianças eram bebês e estávamos preocupados com a possibilidade de alguma alergia a pó, que mais tarde acabou se confirmando. A preocupação não era exagerada. A árvore de plástico verde já havia entrado em nossas vidas, ensacada e escondida em algum lugar escuro e poeirento do armário na garagem do velho apê. Usávamos pouco porque tínhamos medo das crianças mexerem nas lâmpadas e se machucarem. E usar pouco é uma característica marcante de qualquer tranqueira.

A tendência anti-tranqueira vem sendo reforçada aqui em casa. Neste ano a tranqueiragem diminuiu e foi bem mais fácil arrumar os armários do escritório, por exemplo. Não é uma inteira novidade, todos os anos esvaziamos os armários, não é mesmo? A diferença é que não voltamos a encher tudo com aquelas coisas que um dia terão conserto ou guardam uma gostos lembrança. Não, senhor. Paramos com aquela história de ganhar espaço para perdê-lo cinco minutos depois. Para isso foi fundamental romper o ciclo da tranqueiragem e jogar coisas no lixo. Não é um processo fácil. Quero dizer, algumas pessoas tiram isso de letra, mas não eu. Eu me apego a tranqueiras. Não é que eu seja um acumulador inveterado. Eu sei que a minha coleção de garrafas de Gatorade, de tampinhas de cerveja e de chumbo de balanceamento de rodas podem causar uma impressão adversa, mas a verdade é que essas são coleções respeitáveis, não podem ser confundidas com tralha sem serventia.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

O último presente

Acho que todo mundo passa por isso. O último e mais difícil presente de Natal da lista tem de ser o de alguma pessoa querida, que você se preocupa à beça em agradar, mas nem sempre consegue. É aquela pessoa que, por mais que você tente se manter firme, é capaz de abalar a sua segurança. Ela sabe onde atingir o seu amor próprio no lugar onde ele é mais sensível porque te conhece bem demais. Talvez mais do que você mesmo. Na minha lista, essa pessoa é a minha mãe. Só falta o presente dela e hoje quase que encontramos. Mas no último instante eu percebi um pequeno defeito no acabamento da peça escolhida e desisti da compra a tempo. Eu simplesmente sabia que aquele pequeno defeito seria observado de imediato por minha mãe. Ela disfarça muito bem, não deixaria isso transparecer, não faria nenhum comentário. Ela sorriria, elogiaria a escolha, seria superbacana e carinhosa e agiria como se nada de ruim tivesse acontecido, pelo contrário. Só que não. Eu também a conheço muito bem e de algum modo saberia que ela havia encontrado um defeito. Na minha cabeça, isso a deixaria triste consigo mesma porque eu teria, por displicência, adquirido uma peça com defeito. Sim, é complicado. Mas todo mundo sabe que os pais muitas vezes se culpam pelos erros dos filhos, ou exageram suas virtudes, ou superestimam suas qualidades e sublevam seus defeitos. Ou o contrário de tudo isso. Na verdade, é um pouco de tudo, não existem regras quanto a isso, apenas um monte interminável de tipos e combinações possíveis. Mas eu sou supersticioso, e procuro evitar que algumas coisas ruins que eu imagino efetivamente aconteçam.



quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

A falta que o espelho faz

Eu fico reparando nas pessoas enquanto fazemos as compras de Natal. Existem as pessoas que se agarram às sacolas e outras que se sentem visivelmente incomodadas de carregar as tralhas. Muitas pessoas não se incomodam de carregar grandes volumes no meio da multidão, quanto mais, melhor. Uns caras ficam indo e voltando ao carro estacionado para se livrar dos pacotes. Alguns homens carregam todos os volumes obedientes, atrás das mulheres. Outros caras vão na frente, com as mãos abanando ou nos bolsos, as mulheres atrás equilibrando sacolas e falando ao celular, gesticulando. Muitos homens, a maioria, não escondem o ar de insatisfação, preferiam estar fazendo alguma outra coisa. Algumas mulheres, poucas, também andam de cara amarrada, infelizes, mas sobrecarregadas de pacotes e sacolas. Pouca gente sorri na multidão. Os casais de jovens namorados são os únicos a olhar para as vitrines distraídos. Quanto mais apaixonado menos se olha a plaqueta com preço.

As pessoas também demonstram diferentes níveis de preocupação com o local onde deixam as sacolas. Existe, por exemplo, o marido cabide, que é uma combinação de tipos mencionados anteriormente. Trata-se de um sujeito que detesta fazer compras e que não suporta carregar sacolas. Esse tipo fica aboletado numa cadeira, no café, com as sacolas em sua volta, dispostas em círculo como as carruagens atacadas pelos Sioux nos filmes de bang-bang. Outros caras ficam em pé, de braços cruzados no peito como os leões de chácara, as sacolas cuidadosamente espremidas entre as pernas. Eu sou do tipo que detesta colocar sacola no chão. E gosto de fazer compras. É uma atividade que muitos consideram estressante, mas eu não. Eu gosto de presentear as pessoas. É estranho isso, porque não tenho dinheiro. Já tive, mas não tenho mais. Mesmo assim acho ótimo dar presentes, encontrar um objeto que caiba no meu orçamento, em suaves prestações a perder de vista, e agrade um pouquinho uma pessoa que eu amo. Não sou do tipo que gosta de resolver tudo de uma tacada. Também não sou meticuloso a ponto de vasculhar a cidade em busca de um presente específico para uma pessoa. Passo horas numa livraria para encontrar um livro que agrade um sobrinho ou que desperte um sorriso num cunhado. Mas não vou pingar de livraria em livraria até encontrar um livro específico. Sou besta assim.

Com a ida ao shopping desta quinta-feira, faltam apenas três presentes da lista. Em outros tempos já teríamos fechado o conjunto e colocado todos os pacotes debaixo da árvore, mas estamos um pouco enrolados e preguiçosos. A batida no carro explica um pouco a preguiça. Minha mulher estava numa curva, presa num engarrafamento. Um espertinho resolveu ultrapassá-la sem ter espaço para isso. Arrancou o espelho retrovisor do lado do motorista. Sem ter como fugir entre tantos veículos parados, o sujeito desligou o carro e se comprometeu a pagar o conserto. Depois ligou e disse que o serviço teria que ser feito numa oficina de sua confiança. Eu quis mandar o sujeito à merda, mas o mar não está pra peixe e descobri que a tal oficina ficava bem perto de onde mora o meu sogro. Então aproveitei o pretexto para ir filar um almoço no sogrão e depois levar o carro na tal oficina. Mas como dirigir sem espelho retrovisor? É uma coisa louca a falta que o espelho faz. Passei na minha mãe, descolei um espelho de maquiagem e prendi com durex no que restou da base do antigo retrovisor. Quebrou o galho legal. Mas demorei muito e acabei invertendo a opção, levei primeiro o carro na oficina indicada. Apesar de já avisado da minha ida ao local, o mecânico ainda não havia pedido o retrovisor substituto. Ela ficou de me ligar assim que recebesse a peça. Intuí logo que daquele mato não sairia coelho por hoje. Então fui almoçar no sogrão.

Minha sogra convalesce de uma cirurgia no coração para a colocação de uma válvula. É uma pessoa idosa que enfrenta com coragem e firmeza uma cardiopatia grave. Ela e o marido montaram uma grande árvore de Natal na sala da casa onde moram. Achei que ficou quase tão bela quanto a árvore que as crianças me ajudaram a montar em casa. O Natal às vezes é uma competição de coisas boas e bonitas que podemos fazer uns pelos outros, eu acredito. Acabou que o mecânico não ligou. É só uma coisa chata para resolver amanhã.

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Pássaros dourados

Todos os anos nós montamos a árvore de Natal. Não é enorme, mas é grande. Ficou enorme sobre o baú que construí no final de novembro. A cada ano gostamos de comprar pelo menos um enfeite novo, que irá se juntar aos de outros dezembros. Ontem comprei um pequeno globo coberto de espelhos, que meu filho pendurou em lugar de destaque. Gostamos de ver a árvore bem carregada de bolas e enfeites. Existem bolas douradas, vermelhas, prateadas, em forma de agulha, pinhas, de pião, de madeira, imitando notas musicais, tambores, cornetas, presentinhos, anjos, maçãs, sinos e laços de fita dourados. Houve uma época em que também pendurávamos muitas lâmpadas coloridas, a árvore ficava piscando durante quatro semanas. As lâmpadas chinesas foram se queimando e deixamos de substituí-las. Nesse ano, restaram apenas dois cordões de lâmpadas coloridas para iluminar a árvore. Elas conferem um brilho especial durante a noite. Ainda faltam presentes, mas já se pode deixar um ou outro debaixo da árvore. Também montamos o trenzinho, que meu filho possui desde bebê. Dessa vez fizemos uma pista mais curta, porque o trenzinho estragou e não consegui consertar. Com a pista curta, é mais fácil empurrar os carrinhos manualmente. Pela nossa tradição, toda a família deve participar da montagem da árvore, menos o Rafa, porque os cachorros gostam de morder alguns enfeites, fazem xixi na árvore e também roem as pinhas que penduramos(uma vez quase perdemos um cãozinho por causa disso). Por isso, estamos esperando a minha mulher para completar a última parte e mais importante: a colocação da estrela no alto da árvore. Isso vai ser complicado porque não resta muito espaço entre o teto e a ponta da árvore. A árvore é só um modo de lembrar que de vez em quando é preciso fazer alguma coisa juntos. De algum modo, com o sentimento certo no coração, uma coleção de bolas pintadas, plástico verde e lâmpadas podem compor um símbolo bonito e brilhante de que é bom ter esperança e que dias melhores virão.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Pneu-grama

O dono da loja de bicicletas comenta com o filho que nunca tiveram um ano tão ruim. É uma loja grande, na esquina da comercial. Deve haver umas 50 bicicletas expostas e um outro tanto dentro da loja, mas não existem empregados. É uma empresa familiar. Eu estou ali olhando uma bicicleta nova para o meu filho, mas de alguma maneira o dono da loja já percebeu que eu não vou comprar nada. Ele não se sente constrangido em deixar que eu escute essa lamentação porque é evidente que ele acredita que eu estou em situação pior. O pudor é um tipo de respeito que só existe entre os que se consideram iguais. Houve uma época em que eu ainda conseguia passar uma impressão diferente para os vendedores, mas agora é impossível. Está na cara que eu não tenho dinheiro. Não com esse par de tênis. Não com esse jeito de perguntar o preço e pelo número de parcelas.

_Você divide em 10 vezes? - eu disse.

_Não, amigo. Só os supermercados conseguem dividir em tantas prestações. Doze parcelas sem juros. Eu só consigo em seis vezes, reduzindo a minha margem ao máximo.

_Você tem um cartão?

_Cartão? Claro, claro. Pois então, filho, pelas minhas contas, vendemos uns vinte por cento a menos. Este é o meu pior ano - ele disse ao filho.

_Nosso. Talvez a coisa mude até o Natal. Não é? - disse o rapaz.

_Esse aqui é o suporte de teto? Como se faz para colocar a bicicleta em cima do carro? Não é muito difícil? - eu disse.

O dono da loja deu de ombros. Volta a conversar sobre o péssimo ano com seu filho.

_Quanto custa o suporte? eu disse.

_O suporte eu só vendo à vista - ele disse.

Engoli a raiva e dei meia volta. Eu olho para o meu filho, que por sua vez observa uma bela bicicleta cheia de molas e amortecedores.

_Talvez a gente possa comprar, vou conversar com sua mãe - eu digo.

_Não, não precisa.

Ele contém o entusiasmo. Não é nenhuma Nimbus 3000, a vassoura mágica de Harry Potter, mas é bacana. Não seria nenhum sacrifício extraordinário comprar a bicicleta, as prestações caberiam no orçamento. O que me preocupa mais é a logística dos passeios, como transportar as bicicletas até onde seja seguro andar de bicicleta. Quando saímos da loja, voltando pra casa, eu lembro ao meu filho do tempo em que ninguém se preocupava em andar de bicicleta na cidade.

_Eu andava pela Asa Sul e Asa Norte sem medo. Cansei de ir da quadra até o parque da cidade e voltar. Lá havia um trator que puxava diversos carros sem motor, que a gente chamava de trenzinho. A grande aventura era tentar pegar carona no trenzinho em movimento. Uma vez fomos de turma, uns seis ou oito garotos para o parque e minha bicicleta ficou com o pneu furado. Não havia como consertar. Um dos garotos tinha um kit para remendos, mas não quis emprestar. Um amigo disse que já tinha passado por aquilo e me ensinou a sair da enrascada. Enchemos o pneu com grama e folhas de jornal enroladas e voltamos pedalando. Levei uns tombos porque a bicicleta fica parecendo que está bamba, mas depois que se pega o jeito, não tem erro. Consegui voltar para casa com todo mundo.

_Pneu-grama?

_É esquisito, mas funciona - eu disse.

Tento sufocar o didatismo que eu deixo interferir em quase todas as nossas conversas. Sou um pai chato, acho que preciso ensinar as coisas ao meu filho, transmitir lições de vida, blá, blá, blá. Sei que ele se chateia com isso e por alguns minutos fico calado, represando a vontade de colocar um desfecho com algum sentido e importância para aquela história do pneu-grama. Então decido que é melhor ficar calado. Por hoje, é melhor ficar calado, estou sem um pingo-de-humor. Algum dia ainda voltaremos a essa mesma história, ela estará sempre esperando. Torço para que eu esteja bem inspirado. Sei que aprendi uma grande lição naquele dia. Todos os dias aprendemos muito sobre engolir sapos.

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Um baile na Patagônia



Cat Power - Manhattan

Existe um monte de lugares que eu gostaria de visitar, mas evito. A Patagônia, por exemplo. Tenho vontade de conhecer desde que li "Na Patagônia", de Bruce Chatwin. Livro que por sua vez me levou a ler o "Endurance" e uma série de outros livros sobre as viagens ao ártico e ao antártico. Mas isso foi mais tarde, na releitura. No início, por alguma razão, a Patagônia me levou a "Sobre Heróis e Tumbas", do Ernesto Sábato, que perdi em alguma estante e nunca reli, livro importante que esqueci onde guardei. Não importa. Martin nasceu na Patagônia. E a Seita Sagrada dos Cegos também a alcança.

Houve uma época em que parecia que tudo o que eu lia era uma mensagem cifrada e oculta para me levar para a Patagônia. Até mesmo revista em quadrinhos do Tio Patinhas. As viagens do Beagle e Charles Darwin. Os relatos do descobrimento. As histórias dos homens gigantes levados para exibição na Europa, Quequeeg - o gigantesco e tatuado índio de Moby Dick, cujo caixão salvará o narrador Ishmael no final da história. Mesmo que Melville diga que Quequeeg é o filho do chefe de uma tribo canibal de uma ilhota do Pacífico, para mim ele é da Patagônia, o lugar onde todos os meus mitos convergiam, de Nantucket a Chubut. De algum modo, na minha cabeça adolescente, tudo parecia me dizer que eu encontraria respostas para um monte de perguntas se eu fosse para a Patagônia.

Mas não fui. Nunca. Amigos e familiares foram e me encantaram com histórias maravilhosas sobre o lugar, de como até mesmo o frio que se sente por lá é especial, mais intenso e propenso a provocar tremedeiras de bater queixo. Mesmo assim não fui. Tenho medo de ir à Patagônia e que essa visita me faça perder o encanto que ainda hoje ela provoca, essa proeza de liquidificar referências e, no final, de trazer de volta a vontade de fazer perguntas e traçar caminhos e roteiros inesperados, só meus.

Aqui sou interrompido para ser convidado a uma festa de aniversário. Explico que não posso, que minha filha fará uma importante apresentação de Street Dance e que amanhã, dia da festa, é também o últio dia de ensaio geral.

_Não podemos faltar - eu disse.

_Ótimo, esperamos vocês amanhã - disse a pessoa.

É nessa hora que imagino um baile na Patagônia, enquanto ainda converso com a pessoa ao telefone e procuro explicar que é impossível, não se pode faltar ao último ensaio geral antes da apresentação de street dance. Mas a pessoa está focada no aniversário do filho, tenho certeza de que não entendeu nada do que eu disse. No baile da Patagônia, enquanto dançam e pulam, gigantes que deixam grandes pegadas ensinam aos portugueses de Fernão de Magalhães que não é preciso torcer os pescoços dos pinguins, os bichos morrem com uma leve pressão no peito, bem junto ao coração.

Já estamos no final de ano, os assuntos e temas nos atropelam. Há uma certa impaciência no ar. Talvez o ano que vem seja melhor do que este, mas duvido.


Trecho de "Sobre Heróis e Tumbas", que encontrei na internet: "Nossa razão, nossa inteligência, constantemente nos estão provando que este mundo é atroz, motivo pelo qual a razão é aniquiladora e conduz ao ceticismo, ao cinismo e finalmente à aniquilação. Mas, por sorte, o homem não é quase nunca um ser razoável, e por isso a esperança renasce uma e outra vez em meio às calamidades. E esse mesmo renascer de algo tão absurdo, tão sutil e tão intimamente absurdo, tão desprovido de todo fundamento, é a prova de que o homem não é um ser racional.” (Ernesto Sábato)

domingo, 24 de novembro de 2013

Os instrutivos almoços de domingo



The Walkmen - Another One Goes By

As reuniões de família aos domingos são muitas vezes ótimas e quase sempre instrutivas. Não sei como é na sua família, mas aqui, todos nós ficamos juntos depois do almoço para tomar um café, contar as histórias da semana e criticar as figuras públicas que merecem ser criticadas. Também fazemos elogios, comentamos os filmes que devem ser vistos, as músicas que devem ser ouvidas, os livros que devem ser lidos e reclamamos dos preços que estão subindo demais, da economia que está indo para o buraco e até do sistema de defesa que compramos dos russos. Depois de tudo isso, partimos para a reminiscência das coisas boas e fazemos de tudo para arrancarmos risadas e melhorarmos o humor uns dos outros. Nessa hora, vale colocar qualquer pessoa na berlinda, desde que isso renda uma boa gargalhada. Ficar à mercê das gozações dos familiares é um exercício de aprendizagem muito importante mas pouco valorizado pelas pessoas. Mas eu, não. Dou o maior valor. Eu aprendo muito sobre mim mesmo nos almoços de domingo, especialmente quando estou na berlinda. Hoje, por exemplo, descobri com minha mãe que eu sou um perdulário de café.

_Como é isso? - eu disse

_Você usa pó demais. Seu café fica grosso, forte, é um exagero. Tem que colocar água para conseguir cortar com faca - ela disse.

_Não sabia que estamos precisando economizar café.

_Não estamos. Mas aquilo que você faz não é café, é um pântano.

Fiquei sem resposta, é claro. Depois disso eu fiquei na minha, que é a única maneira de evitar um longo período na berlinda, sendo peneirado por gozações. Os assuntos mudaram velozmente e, de repente, estávamos engalfinhados numa reclamação generalizada contra o excesso de insetos desta época do ano. A raquete de tênis passava de mão em mão, enquanto falávamos porque os pernilongos estavam atacando sem dó nem piedade. Eu falava pouco, até que minha mulher resolveu me alfinetar.

_O problema com o Careca é que ele alerta os insetos. Ele avisa que está chegando e todos os bichos desaparecem antes que ele consiga exterminar algum.

_Amor, não fala assim, isso é um assunto íntimo.

_Não, agora eu tenho que falar. Quando eu vejo uma barata e grito pedindo ajuda, você só aparece uns cinco minutos depois. E assim mesmo só se aproxima do lugar depois de bater os pés várias vezes. Só falta ele pegar o megafone e gritar para as baratas se esconderem. É um horror. E se ele está por perto, ele sempre encontra uma maneira de fazer a barata escapar. Tropeça, some a pretexto de pegar um chinelo, qualquer coisa. É irritante.

_Você está exagerando, amor.

_Não estou. Seu IAB - índice de aniquilação de baratas deve ser um dos mais baixos do planeta.

_Espera aí, amor, vai com calma. Nunca ouvi falar nesse índice até a semana passada, quando eu matei duas baratas.

_Não senhor, você encontrou as duas mortas e disse que matou logo depois que eu falei no IAB. As baratas provavelmente morreram de frio ou de velhice, nenhuma pareceu esmagada.

_É uma técnica nova que estou usando.

_Deve ser o grito. Você fez tanto barulho que as coitadas morreram de susto, de taquicardia.










sexta-feira, 22 de novembro de 2013

CDs de viagem



Jimi Hendrix - Castles Made of Sand

Não sei onde estará o álbum duplo "A Arte de Jimmy Hendrix" que havia lá em casa. Escutava muito. Gravei dezenas de fitas para amigos e amigas. Ouvia duas vezes no mesmo dia. Primeiro era na ordem impressa, sem mexer com a agulha. Na segunda vez, escolhia a minha ordem para a coletânea. "Castles made of sand" era uma das minhas favoritas, presença obrigatória no ipod, nos CDs de viagem. Sim, hoje eu me toquei que é preciso começar a elaborar ipods e cds para a viagem de carro que faremos no início do ano. Coisa tão importante quanto a revisão do carro. Estou atrasado nos preparativos do escritório, já deveria ter terminado, mas só hoje consegui concluir a instalação da serra de bancada na mesa que construí especialmente para ela. Com isso pronto, ficarei praticamente sem desculpas para elaborar e construir a estante para o escritório. O modelo está grudado na placa de metal que pendurei na parede há mais de ano. Será tudo em compensado, com molduras de madeira maciça, pinus, massaranduba ou uma outra que estiver em conta. Meu entusiasmo com as palavras anda arrefecido. Minha vontade de contar histórias não é mais a mesma. Talvez seja apenas o final do ano, as decisões que precisam ser tomadas sobre escolas e alterações de rotina. Vamos ver.

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

O Careca em crise



Black Crowes High Head Blues

Nunca pensei que diria isso, mas já faz mais de seis meses que não leio uma boa história de detetives, um livro policial ou mesmo um conto de mistério, horror e suspense, na boa tradição iniciada por Edgar A. Poe e refinada por Dashiel Hammett, Raymond Chandler e tantos outros. Um dos motivos para isso é a situação atual do escritório. Um belo dia inventei de colocar toda a minha coleção de livros policiais na parte mais alta da estante que improvisei no escritório. Pareceu uma ótima idéia na ocasião, porque a prateleira improvisada abriu um bom espaço na estante que trouxemos do velho apê. O único problema é que lá, no alto da prateleira, só alcanço de escada. E a escada é pra ficar lá fora, como já disseram Jorge BenJor, o síndico Tim Maia e minha mulher. Sim, não é um problema intransponível, mas você sabe como é, o ser humano tende a fazer o que está ao seu alcance e o resto fica adiado para uma outra hora, que eu não vou lá fora agora nem a pau, juvenal, para buscar uma escada. Mas não vou mesmo. Então, os dias passam, as noites também, e eu acabo deixando para amanhã a releitura de um Ross Mcdonald, um Lawrence Block, um Rex Stout, um Elmore Leonard, ou mesmo uma Patrícia Highsmith que esteja escapando da memória. Estou entrando em crise de abstinência. Estou pior que o Angeli quando entrou em crise. Estou pior do que o Laerte. Não, aí também não. Mas estou mal, amigos da kombi de leitores.


quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Eu gosto de música velha



BLONDE ON BLONDE - RIDE WITH CAPTAIN MAX

Demorei a reconhecer que eu gosto de música velha. Não é que eu não goste de música nova, atual. Tem muitas coisas novas bem legais e algumas realmente bem originais e inovadoras. E de vez em quando encontro alguém que parece estar igual ao Capitão Kirk no comando da Starship Enterprise, "indo onde ninguém esteve antes". Mas aí, basta futucar um pouco o YouTube e vapt, aparece uma música que chama a atenção. Vou olhar a data da criação e tadam!, é coisa velha. Às vezes é bem antiga mesmo. Aí eu começo a reparar nas músicas novas que eu gosto e pimba!, lembro que aquela coisa nova, tocada daquele jeito por esses garotos, parece aquela banda velha quando estava no começo, experimentando e aprendendo muito. Mas às vezes, em algumas músicas especialmente interessantes, é possível reconhecer sons parecidos com a fase madura de algum criador excepcional.

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Selfie, a fotinha de si mesmo



Sneaky Sound System - It's Not My Problem

Até hoje, nunca tinha ouvido falar na palavrinha "selfie". Ouvi dizer que foi escolhida como palavra do ano pelo Dicionário Oxford e embora não tenha muita idéia do isso significa, resolvi adotar a palavrinha, gostei. Para quem não sabe o que significa, informo: selfie é o nome daquela fotinha de celular que uma pessoa tira de si mesma e publica numa rede social. Não basta tirar a fotinha. Ela tem que ser publicada para ser uma "selfie". Eu, por exemplo, nunca tirei uma legítima selfie, eu uso um celular super-peba com uma câmera elementar pebinha, coitada, nem sei como entrar com ela direto na internet. Acho que não tem jeito. Na notícia que ouvi no rádio, havia alguma relação simbiótica entre as selfies e as celebridades, mas não prestei muita atenção nessa parte.

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

O Guia de Restaurantes do Careca



Joe Cocker and Grease Band - Feelin' Alright

Eu queria um dia escrever um guia dos restaurantes que vale mesmo a saída de casa, aqui em Brasília. É mais um dos milhares de projetos que já comecei , mas deixei sem terminar em alguma pasta eletrônica numa nuvem qualquer. A tecnologia é uma grande aliada dos homens e mulheres sensatos, que imprimem o que interessa e fazem back-up do que é importante. Eu ando esvaziando gavetas e subindo arquivos. Isso é burrice, eu sei, se houver uma pequena tempestade informática meus gigabytes serão destroçados por fagulhas cibernéticas. Seria mais prudente imprimir as coisas e esconder no fundo de uma gaveta. Num dia de sol, eu vasculharia os armários e poderia reencontrar meus pensamentos desconexos alimentando traças e outros insetos chegados em papel. Isso tudo é para dizer que nos últimos dias o sistema elétrico local tem apresentado falhas desconcertantes, meu provedor idem, e minha preguiça tem se agigantado, de forma que o meu exercício diário de blog tem sido bastante intermitente. Mil sinceras desculpas a você, leitor da kombi, que entra aqui todos os dias e só tem encontrado clipes.

Sim, quase me perco, mas vamos lá. É verdade de fato que já escrevi umas cinquenta páginas desse guia, que trata da localização, arrumação, serviço, higiene e pratos de alguns restaurantes que frequento aos sábados, e sempre aos sábados, na boa e confiável companhia da minha mulher, do meu amigo Dr. Cabeça e da sua esposa, sempre elegante e bem-humorada, Maira. Ultimamente temos tido também a companhia do Irmão do Dr. Cabeça, pianista clássico de mão cheia, financista versado em letras de câmbio e sabedor de tudo, menos de futebol, que ninguém é perfeito.

Assim de cabeça e agora, aproveitando que a energia e a internet estão finalmente de volta e estáveis, escrevi com certeza sobre o Beirute, que conheço de longa data. Ali a comida é boa e barata, a cerveja está sempre gelada, o chopp é bem tirado, os garçons são gente boa, mas é só. As mesas são apertadas, os bancos são espartanos, o barulho é de algazarra e é preciso conversar aos berros em alguns horários. Não há luxo no Beirute. Nem excessos. Há quem considere o kibe bem feito, outros preferem o filé a parmegiana. Eu gosto do kafta e do mixui. Houve um período em que não dispensava o arak e o steinhagen, junto com o chopp. Mas isso já faz tempo. Eu ainda morava na Asa Sul. Hoje moro mais perto do Beirute da Asa Norte, onde servem comida da mesma qualidade, mas o ambiente é ainda mais estreito. Alguns dos velhos garçons agora andam por lá.

Escrevi sobre uns 15 restaurantes. Talvez ainda volte a falar sobre isso. Mas é preciso ser sincero. A turma está cobrando os olhos da cara, servindo umas coisinhas de nada e ainda dão aquela olhadinha marota quando a gente pede a Nota Legal.

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Corruptos em cana, enfim



Ross - Alright by me - dica do Gravetos

O Ministro Joaquim Barbosa tem o meu respeito. Depois de oito anos e cinco meses, os julgados e condenados no processo do mensalão finalmente começarão a cumprir pena. Não é coisa para se comemorar. Isso é apenas o que deve acontecer.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Cinema com chocolate



Smoove & Suonho- A little soul

Andei meio sumido porque fui ao cinema com a minha mulher. Ao invés de pipocas, agora levamos chocolate para comer no cinema. Assistimos a um filme muito tenso com aquele ator que faz o Wolwerine, o outro que faz o amigo do Homem-de-Ferro e um terceiro que não me lembro onde vi, mas todos são muito bons. Inclusive um outro ator que quase não fala nada mas é coberto de porrada o filme inteiro. Na história, duas meninas desaparecem e o filme conta como os pais e um policial enfrentam a situação. Achei muito bom porque é um filme de suspense com ação, mas uma ação bem realista, ninguém faz coisas de 007. Bom, a não ser o cara que leva porrada pra caramba. Na volta pra casa estávamos ainda super-tensos por causa do filme.

_Você lembra da cena em que o detetive quebra o pc e o teclado? - eu disse.

_Claro, é uma cena muito importante.

_Aposto que ele não teria quebrado nada se ao invés de pc fosse um Mac - eu disse.

_Rá, rá. Amor, ninguém liga mais para piadas de tecnologia.

_Estou só querendo quebrar a tensão. Olha lá a paisagem, que legal.

_Não estou vendo nada de mais.

_Parece uma árvore de Natal na horizontal.

_Você pensa em cada coisa esquisita - disse a minha mulher.

_E se eu ligar o rádio agora e tocar "Love is in the air"? - eu disse.

_Acho que vou ter que ver desenho animado para conseguir dormir - disse a minha mulher.

Eu liguei o rádio e estava tocando "Garota eu vou pra Califórnia". Isso foi na sexta-feira. As crianças estavam na tia, com os primos. O sábado passou voando, comigo tentando terminar a nova mesa para a serra elétrica. Ficou pronta e estava tão fissurado por cortar madeira que acabei começando a fazer também a base da nova mesa para tupia. Cortei todas estacas para para a estrutura. Meu irmão voltou dos EUA com um presente, uma base acrílica para a mesa de tupia. Aqui elas custam uma fortuna e o custo de importação é proibitivo. Lá custa menos que 40 pratas. Ele também trouxe uma guia de união rápida. No domingo, não fiz muita coisa pela manhã, só terminei de limpar a oficina. Depois de comer uma carne seca na morango, um super-almoço na casa da sogra, acabei ficando com preguiça de escrever.

Hoje voltou a fazer um calor dos infernos, estou com o Lobo à minha frente. Ele sopra silenciosamente na velocidade média.

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Lobo



Santigold - "Disparate Youth"

Choveu, depois de dias fazendo um calor dos infernos. Achei que a temperatura ia melhorar, mas continua quente pacas. Felizmente, compramos ventiladores novos. É, não tinha ar-condicionado em promoção. Minha mulher escolheu um ventilador que é mais que um ventilador, é um climatizador portátil silencioso com umidificador e esterilizador ambiente, repelente de insetos e desionizador atmosférico. Putz! Só faltou tocar MP4, eu pensei. Na primeira noite de testes do novo ventila(sim, aqui em casa nós também gostamos de comer um pedaço das palavras) ele passou raspando. Ele umidificou, ventilou, repeliu insetos e desionizou a atmosfera direitinho, só que não foi muito silencioso. Fui verificar o aparelho no dia seguinte e descobri que as aletas de plástico estavam ressecadas. Descolei um óleo Singer emprestado da minha mãe e zip, o barulhinho sumiu. Na segunda noite, o ventila foi bem melhor. Ainda mais porque nós usamos o tijolinho de congelado no recipiente, conforme as instruções.

A coisa com o calor teria parado por aí, mas a temperatura durante o dia estava de matar, o escritório parecia a ante-sala de um dos assessores menos importantes de Lúcifer. Eu não estava conseguindo nem pensar direito. Tentei descer o ventila, mas era preciso retirar o recipiente, descer as escadas, etc. Tive uma visão da minha vida de carregador de ventila para cima e para baixo e pensei comigo mesmo, nobody deserves! Não, senhor, ninguém merece! Então voltei à mega-loja com promoções de ventiladores e lá estava ele, o negão, o maior e mais potente ventilador jamais criado pela tecnologia nacional. Simples, direto, tranquilo e infalível. O bicho tem três velocidades e ponto. Mas é silencioso como a víbora que acabou com a Cleópatra, e nem tem linguinha que faz pffft!

Então hoje, no auge do calor, pouco antes da chuva, eu já estava numa boa, no escritório, curtindo The Big Black Fan. Uso na velocidade mais baixa que é para não voar papel pra todo lado. As crianças gostaram tanto dele que já colocaram um apelido: lobo.

_Ele vai soprar, soprar e soprar!

E sem fazer barulho.

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Ainda é tempo



New Order - Temptation '87

"Living Worst Nightmare" é o nome do cara que colocou esse vídeo no Youtube. Ele teve o cuidado de fazer 390 uploads. Eu nunca fiz nenhum. Ainda vou fazer. Também vou escrever o "1001 vídeos que você deve colocar no Youtube antes de bater as botas".Já tenho um monte de vídeos prontos. Ou quase. Uma das coisas que ainda faltam é o nome. E roteiro. Gosto de fazer vídeos de um take só, eu ligo a câmera e deixo rolar, ajo naturalmente. Isso não muda muita coisa porque fico atrás da câmera, filmando. Outra complicação é que o meu nome de verdade não é muito artístico. Não quero usar Careca, parece falta de imaginação. Além disso, já tem um monte de Carecas no Youtube. Não quero ser Careca###, seguido de um monte de números. Isso é coisa de Metralha. E todos os nomes bons como "Living Worst Nightmare" parecem ter sido usados. Isso não é ironia. O apelido escolhido já passa uma mensagem sobre a personalidade da pessoa. Você não aguentaria cinco minutos na companhia de um sujeito assim, mas ele tem uma seleção musical razoável. E 390 músicas já é um legado.

O cara chega em casa, depois de um dia difícil no trabalho e prepara o upload. Não, tem sempre muito mais coisa. O cara chega depois do trânsito, do horário de verão, do fast-food, dos black blocs, e dos malfeitos dos poderosos que todos os dias aparecem nos jornais. Não é brincadeira. Se eu usasse um chapéu, eu tiraria para todos esses uploaders abnegados que upam (do verbo upar) trocentos vídeos que todo mundo deveria ver pelo menos uma vez na vida. Eu vejo um monte, todos os dias. A maioria não chega à metade, tem coisa muito ruim. Assisto uns três ou quatro até o final. Um ou dois vou assistir mais de uma vez. Mas os meus vídeos prediletos não são os musicais, nem os desenhos animados e nem os com trechos de filmes e seriados. Eu me amarro mesmo é nos vídeos do tipo faça você mesmo.

Adoro os videos de marcenaria. Fico admirado com a simplicidade e alta capacidade de comunicação que alguns legítimos artesãos exibem na Internet. Falo de amadores brazucas e estrangeiros. São pessoas simples, humildes mesmo, que possuem grande habilidade e capacidade de improviso. Os brasileiros conseguem passar seus recados vencendo todas as adversidades possíveis, da ausência de equipamentos adequados, à total falta de infra-estrutura. Lógico, há sempre um grupo de pessoas super-produzidas, mas a maioria é de abnegados que estão realmente felizes por compartilhar o que sabem fazer.

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Alô, Snoopy!



Pixar's Presto

Eu gosto de cachorros. Já tive pastores, boxers, vira-latas, filas e agora temos um shi-tzu. Uma das irmãs da minha mulher tem uma cadela beagle, chamada Princesa, que está um bocado acima do peso e bem velhinha. O beagle, dizem, tem um dos relógios caninos mais acelerados, não costuma passar de 10 anos. De acordo com os donos, se fosse humana, Princesa teria uma idade aproximada de 80 anos. Não sei se isso é verdade, mas ela parece mesmo envelhecida e tem aquele ar tristonho ressaltado pelas orelhas de abano murchas, tocando o chão de leve, de vez em quando. Princesa manca um pouco e desperta em quem a vê um misto de piedade e solidariedade. E ainda tem o porte altivo, de princesa nobre que fugiu da revolução. Se ela for atravessar a rua você para o carro e vai ajudar, com certeza.

Mesmo sabendo a profusão de bons sentimentos que um beagle é capaz de despertar no ser humano, não consegui entender a invasão ao Instituto Royal ocorrida na semana passada. Para mim, a invasão, os estragos e os furtos de animais(a pretexto de resgate) foram crimes brutais praticados contra o Instituto, os pesquisadores e o bom senso. Também acredito que os criminosos causaram terríveis danos e sofrimentos aos animais surrupiados, por desconhecimento do histórico de cada bicho, por ignorância dos testes e experimentos realizados e em realização em cada um dos beagles roubados. Um dos animais furtados, li em algum lugar, foi oferecido à venda na internet.

Cientistas e pessoas do mundo acadêmico brasileiro têm obrigação de se manifestar para dizer o óbvio: os animais são imprescindíveis para a realização de testes, experimentos e pesquisas. Pessoas comuns como eu também têm obrigação de dizer que não querem que pretensos defensores de bichos pratiquem crimes e permaneçam impunes. Os ladrões e vândalos que invadiram o Instituto, quebraram as coisas e surrupiaram os cachorrinhos devem ser responder por seus crimes.

O episódio me lembrou duas coisas. A primeira foi o Snoopy, aquele cachorro pianista e filósofo inventado por Charles Schulz para a Turma do Charlie Brown, o menino amendoim existencialista adorado até por Benito de Paula. Charlie é o eterno perdedor, o menino esperançoso, determinado e simpático que não ganha nenhuma, especialmente de Lucy, a menina dominadora e manipuladora que nunca deixará Charlie acertar o chute na bola de futebol americano. Ela sempre irá tirar a bola no último milésimo de segundo. Snoopy dormia sobre a casinha porque gostava de olhar para as nuvens e sonhava em ser um grande e combativo aviador, uma espécie de barão vermelho das casinhas de cachorro com asas. Críticos perspicazes diziam que Schulz só colocava Snoopy sobre a casa porque não sabia desenhar direito. Anos depois Schulz confirmou essa teoria. E também admitiu que a sua mulher era um bocado dominadora e uma vívida inspiração para Lucy. Eu adorava o Snoopy e uma vez, quando o boneco foi dado como brinde no McDonald´s, em várias partes, eu me empanturrei de mclanches só para completar a coisa.

O roubo dos beagles também me lembrou uma história ocorrida nos EUA sobre a garota que se recusou a dissecar um sapo na escola. A história pode ser lida aqui.

O calor que vem fazendo, o horário de verão que detesto, as coisas que eu lembrei e a própria invasão para roubar beagles me trouxeram à cabeça, além daquela música do Benito de Paula, uma forma de raciocínio similar à do Gilberto Gil, refazendo tudo, guariroba. Assim que estivermos prontos para chutar de trivela mais este factóide, outra Lucy surgirá para nos fazer chutar o vazio, como estamos fazendo semana após semana, sem que nada pareça ao menos nos dar a leve impressão de que vamos melhorar, de que existe bom senso e que nada se resolve com porrada e quebra-quebra. Está faltando tolerância, boa vontade e cooperação, sem isto não há mágica que resolva.








domingo, 27 de outubro de 2013

Faz um calor brabo



Walk on the Wild Side - Lou Reed

Meu vizinho de frente colocou a casa à venda. Primeiro ele tratou de embelezar a residência. Mandou o caseiro lavar as telhas e a fachada. O rapaz usou uma daquelas máquinas lava-jato, de alta pressão. Demorou uma semana para lavar todo o telhado. Na sequência, outra semana para lavar todas as pedras pirinópolis da entrada e garagem. As pedras tinham uma cor amarelada, suja, e ficaram brancas, quase brilhantes. Depois o caseiro refez o jardim, enquanto uma equipe de serralheiros apareceu para cuidar da cerca de metal. Foi tudo refeito, e o portão ganhou um motor elétrico com trilhos novos e uma cremalheira bem ajustada e silenciosa. O rapaz gastou uma semana para repintar a cerca renovada. É uma bela casa, de dois andares. Com tudo pronto, a casa começou a receber visitas de interessados. Isso já tem uns seis meses. Acho que o mercado imobiliário anda em baixa, não aparece muita gente.

Seja como for, o embelezamento da casa do vizinho serviu como incentivo para renovar o jardim da frente da minha própria casa. A última pintura de cerca foi no ano da mudança, talvez já esteja na hora de um reforço na cor. O grande problema é a onda de calor que atravessa a cidade. Nesta semana foi difícil até pensar durante algumas horas do dia. Na última sexta-feira tivemos que sair para comprar um ventilador novo e mais potente, que está ligado ao máximo enquanto estou no computador. Mesmo assim, parece insuficiente.





sábado, 26 de outubro de 2013

Killer



Etta James - The Blues Is My Business

Algumas pessoas são aquinhoadas com o dom da frase matadora, aquela que desmonta qualquer argumento e deixa a gente sem graça ou com vontade de ir pra casa e entrar debaixo das cobertas. Tenho vários amigos com essa capacidade demolidora. Esses caras dizem frases brilhantes como quem faz um comentário qualquer, singelo, mas sabem que depois daquelas palavras organizadas numa sentença direta, será difícil retomar o mesmo tema sem aquela sensação de quem repete o ônibus errado. Um desses campeões é o Cabeça, meu amigo de infância e de todos os tempos, que é mais conhecido pelo pessoal de Catalão como Dr. Cabeça. Não foram poucas as vezes em que o Dr. Cabeça encerrou discussões enormes e bizantinas com uma tirada curta e grossa, entremeada por algumas palavras de baixo calão.

_É couro de cu de índio! - ele disse uma vez para um chato que insistia em saber de que eram feito seus sapatos. Obviamente, a frase foi extrapolada para todo e qualquer contexto onde alguém insistisse em fazer perguntas sobre coisas insípidas e irrelevantes.

_Quero língua de colibri com leite de virgem sueca! - ele disse, de bate-pronto, em resposta a um desafio lançado por um gourmet. Frase excelente, que virou a melhor forma de expressar um desejo utópico.

_Isso não é pimenta, é uma hemorróidas couve-flor! - ele encerrou uma discussão sobre a qualidade da pimenta bahiana, num restaurante bahiano, depois de azucrinar garçons por conta de pimentas fraquinhas que serviam aos turistas, mas que ele, não, ele não era frouxo de achar aquelas pimentinhas de nada ardidas, aquilo nem coçava a língua...

Pois hoje estávamos lá na feira de antiguidades da hora, no Gilberto Salomão, quando nossas mulheres desapareceram em meio a um monte de tranqueiras e velharias expostas em bancadas pelo shopping. Fomos encontrá-las admirando uma cama antiga, feita de madeira maciça e trabalhada, cheia de adereços e curvas, bonita como um leque de renda. A mulher do Dr. Cabeça, ficou entusiasmada. Perguntou as medidas, preço e formas de pagamento. Eu assobiava baixinho quando ouvia o número de dígitos do preço. O Cabeça lembrou a mulher que eles estavam em obras, com uma reforma com o prazo estourado e o limite da conta bancária parelho ao déficit previdenciário. A esposa continuava entusiasmada. Tecemos comentários sobre móveis de época, da mobília datada de antigamente, das vantagens e desvantagens de se ter um móvel velho, das vantagens e vantagens de se possuir mobília nova, etc, mas nada.

_Parece o catre de um moribundo - disse o Cabeça, quando a mulher pediu uma opinião definitiva antes de fazer uma oferta ao vendedor.

_O quê?

_É a cama do morto.

´Fomos embora dali em cinco minutos e sem gastar nenhum tostão.




sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Ralouím



Lady Gaga - Empire of The Sun - Applause


_Paiê, o que você acha da minha fantasia de ralouím?

_Ótima, você está lindíssima! Vai arrasar Paris em chamas!

_Não, pai. É uma fantasia de bruxa. E qualquer um sabe que as bruxas são feias, horrorosas.

_As bruxas barangas são do mal. As bruxas do bem são bonitas.

_Mas eu vou fazer uma maquiagem e ficar bem feia, com cicatriz e verrugas!

_Acho que você está bem assim.

_Posso levar uma vassoura?

_Não. Seu irmão desmontou quase todas para brincar de lança. Só tem uma vassoura boa.

_Posso levar só um cabo?

_O problema é esse. Ele está juntando as "lanças" em algum lugar secreto.

_Ah, paiê, depois você arruma a vassoura! Eu vou trazer de volta.

_Claro. Você sempre traz tudo de volta.

_É sério, pai. Eu vou trazer a vassoura de volta.

_Palavra de bruxa?

_Sim.

_Sim, o quê?

_Palavra de bruxa.

_De bruxa do bem ou de bruxa do mal?

_Ah, pai, esquece. Agora eu também não quero levar a vassoura.

_Por mim, tudo bem.

_Posso levar uma maçã?

_Claro.

_Ótimo, eu vou de bruxa da Branca de Neve.

Não foi nada. Foi de bruxa do bem, linda e sorridente.

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Auto-ajuda



Arctic Monkeys - No.1 Party Anthem

Eu penso sempre que vou conseguir. Vou sim. É só no que eu penso. Vou dar conta. Vou fazer. Vou acontecer. Se a gente mesmo não se ajuda, quem irá nos ajudar? E olha que eu tenho mesmo muita sorte. Então eu penso positivo. Penso pra frente. Amanhã. Depois. Mais tarde. Vai dar certo. Não adianta olhar para trás. Vamos que vamos. Siga. Levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima. Se segura, malandro.

Mas não tem jeito. O horário de verão acaba comigo.

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Parabéns, Careca!



Elis Regina - Folhas Secas

Sim, é hoje, já ganhei parabéns, beijos e tudo. E requisitei a Elis para cantar essa inteirinha só para mim.

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Aos domingos almoçamos com a família dos nossos pais. Isso foi acordado ainda antes do casamento, quando nos visitávamos nos finais de semana, buscando(sem admitir, é claro) aprovação e incentivo dos familiares para a futura união. A família da minha mulher possui a mesma tradição de almoços barulhentos com a mesa transbordando de comida e bebida. Para não deixar nenhum lado magoado, nós revezamos. Um domingo é na casa dos meus pais, e o outro é na casa dos pais dela. Se houver algum outro compromisso, a alternância continua de onde parou. A regra é simples, mas sempre surge algum tipo de evento para complicar a lógica. Aniversários de sobrinhos, por exemplo. Só contam como domingo da sogra se forem mesmo comemorados no domingo. Isso significa que se houver festa de sobrinho durante a semana pode ser que encontremos todo mundo novamente no domingo seguinte. Houve uma época em que eu quis mudar essa coisa, argumentando que o objetivo da reunião de domingo era permitir o encontro com um dos lados da família e que, portanto, não fazia sentido repetir o encontro se ele já havia acontecido durante a semana.

_Ah, é, bebé! E se o aniversário for na segunda? Hein? - disse a minha mulher.

_Mas e se for na sexta? Ou no sábado? - eu disse.

_Você não entendeu nada.

_Pô, detesto quando você fala como o antigo Caetano Veloso - eu disse.

_A sua premissa não é verdadeira.

_Odeio quando você fala como se estivesse fazendo uma dissertação de mestrado - eu disse.

_Estou imitando Olavo de Carvalho.

_Tudo bem, está me chamando de idiota.

_Não estou, juro. Bom talvez eu esteja, mas de um jeito carinhoso.

_

Aniversários de primos não contam para a regra da alternância e almoço com amigos aos domingos conta como falta dupla nas duas casas de avós. A rigor, é impossível satisfazer a demanda dos avós pela presença dos netos. Eles sempre se queixam da ausência das crianças, mesmo quando estão presentes. Acho isso admirável porque o barulho que fazem às vezes é insuportável, além da bagunça que deixam pra trás.

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Videogame



Subway Club - Showing Up Late

As crianças estão felizes. Não somente porque se divertiram com o feriado prolongado, mas também porque os primos estão aqui. Os pais aproveitaram uma pechincha na internet e conseguiram viajar para Paris onde passam a semana. Fica muito mais barato que uma semana na beira de uma praia qualquer. E além disso, é Paris. Todo mundo enche a boca quando fala da viagem que fez a Paris. E quem não foi ainda, suspira sem esconder um pouquinho de inveja.

Enquanto estão aqui, eu, meu filho e meu sobrinho jogamos videogame. Foi um presente do dia das crianças. Achei que era um jogo pacífico, só de labirintos e enigmas para escapar de uma ilha misteriosa. Mas Tomb Raider é pauleira. Lara Croft morre tantas vezes e tão rapidamente que ficamos craques no revezamento dos controles. Sob meu controle, a moça sucumbe ainda mais rapidamente em quedas constrangedoras de alturas sublimes, golpeada por lobos famintos ou atingida sem piedade por inimigos que surgem de repente, enquanto se ouve uma musica sinistra. A aventura é infindável e os cenários da ilha são realmente muito bonitos. Minha mulher não queria conversa, ela achou o jogo muito sangrento e quase proibiu a jogatina. Nessas horas é que a gente descobre que nada é novidade para as crianças, todos os jogos proibidos já foram jogados nas casas dos primos mais velhos ou dos amigos. Sob a tutela do pai e tio, os jogos retornaram. Com dez minutos de jogo, os meninos já dominam todos os truques. Mas Lara Croft continua sucumbindo rapidamente enquanto me atrapalho com os controles.

_Pra quê serve esse botão azul? - eu pergunto.

_Serve para uma porção de coisas. Aperta ele pra escalar essa parede aí - diz o meu filho.

_Qual parede?

_Cuidado com o lobo!

_Onde? Onde? Aaaahhhh, nãããoooo!

_Você foi bem, pai, mas precisa se concentrar mais um pouco.

_É, tio, agora é a minha vez.

_Pôxa, não durei nem vinte segundos.

_Foram 15, pai. Eu cronometrei.

Como tenho que esperar muito tempo até que o controle volte às minhas mãos, fico torcendo com as crianças. Elas escapam de obstáculos rapidamente, escalam montanhas verticais, pulam de cordas estendidas sobre penhascos, descem em cachoeiras caudalosas, saltam em helicópteros durante tempestades, combatem em moinhos em chamas e eu fico feito bobo olhando aquilo tudo. Há também uma coleção de armas, um rigoroso programa de aprimoramento de habilidades e dezenas de detalhes impressionantes. Eles não se preocupam com a avalanche de informações, o que importa é suplantar rapidamente as fases em ritmo alucinante e vertiginoso. E eles avançam, capítulo sobre capítulo.

_Pai, é sua vez.

_Caramba! Esse jogo é demais, demais! Pra que serve o botão amarelo?

_Cuidado com a granada!

_Onde? Onde?

_Não inteirou nem 10 segundos, pai.

Ele tem razão. Mas foram eletrizantes.


terça-feira, 15 de outubro de 2013

Tudo ao mesmo tempo agora




Arctic Monkeys - Do I Wanna Know?

Leio um artigo onde o autor afirma que seus filhos já não assistem televisão. Eles surfam entre os diferentes aparelhos(TV, smartphone, tablet, gamepad, musicplayer, videogame, etc) tudo ao mesmo tempo agora. Os meus também são assim. Não conseguem ficar parados diante da tela como eu ficava, quando ainda assistia TV. Mudam de canal dinamicamente, não assistem a comerciais que não queiram assistir. Eles se entediam rapidamente, mas mergulham e atingem um estágio de imersão profunda com o que os interessa. No início, essas coisas me incomodavam. Eu gritava ordens para que se afastassem, dizia para que não ficassem tanto tempo quase sem piscar e que não se deixassem ficar absortos e bobos diante da tela. Mas as admoestações, os avisos e conselhos para resistir às coisas tão fantásticas que viam eram solenemente ignorados. A competição entre canais fez o trabalho de saturação por mim. Eles sabem escolher e escolhem sozinhos o que querem. Exatamente como eu fazia, quando era menino, mas com muito, muito mais opções. Mas não há nada disso na escola. Não há ninguém que os oriente a utilizar com mais proveito as máquinas em que se concentram e se dispersam. E parece não haver interesse nenhum nisso. Não sei avaliar direito se isso é bom ou ruim. Mas parece uma carência, o que é quase sempre ruim.

Vejo minhas crianças serem cultivadas como consumidores fiéis de videogames e jogos especiais, de músicas, imagens, vídeos e cantos de outros lugares e outras línguas. Não há nada de mal nisso, a não ser a postura passiva, de platéia que apenas ouve e se satisfaz no acompanhamento do coro, sem criar nada de novo. Sei que em outros lugares, há uma preocupação em incentivar as crianças a utilizar as facilidades tecnológicas para ampliar suas capacidades e talentos. Cato os aparelhos, aprendo o que posso e consigo, também jogo os seus videogames e escuto as músicas que eles escutam. Tenho que eu também aprender a transitar entre a miríade de aparelhos e códigos, a remexer nas linguagens e nas entranhas enigmáticas da produção de conteúdo para essa celeuma de telas e teclados. A chave de tudo, eu sei, é produzir conteúdo, deixar de lado a passividade da espera, tratar de fazer sozinho com o que se aprendeu sozinho.

Tive professores generosos na infância e adolescência. Uns poucos mestres bacanas na universidade. Dois grandes colegas de trabalho, ambos mortos, que me ensinaram a não tropeçar nos meus próprios pés. Em qualquer atividade, a excelência é uma conquista que se renova diariamente, quando aliamos conhecimento, habilidade e força de vontade. Mas sem a humildade para reconhecer erros próprios e méritos alheios não é possível seguir adiante, a excelência torna-se inatingível. Durante muito tempo estive envolvido em olhar para o meu próprio umbigo, para melhor me conhecer. Talvez tenha demorado tempo demais para perceber que o auto-conhecimento é um poço sem fundo e também que o fato de nos conhecermos um pouco mais não nos torna automaticamente melhores. Nem tampouco piores, diga-se de passagem. Apenas nos dão maior clareza para perceber que o nosso papel individual na história geral é mesmo bem reduzido, mas nem mesmo isso nos absolve. Uma andorinha não faz o verão. Mas e se ninguém puxar a fila? E se nenhuma delas mergulhar no espaço decidida a anunciar que o verão já chegou? Besteira, não sou pioneiro de nada. Mas sinto que, de alguma forma, isso tem a ver com não querer ser apenas espectador e consumidor do que outras pessoas decidiram fazer.

De tempos em tempos, tenho feito aqui alguma reflexão sobre a minha vida. Tenho dúvidas, muitas dúvidas. Quase sempre acho que as pequenas desventuras do meu cotidiano não interessam a ninguém. Não foram poucas as vezes em que escrevi um texto durante algumas horas e depois joguei tudo fora porque achava que havia me exposto demais. Em outras, a persona do Careca fala alto demais e eu fico apenas parecendo um mentiroso. Entretanto, de repente sinto uma compulsão para escrever sobre as picuinhas ridículas e sem noção que vivi numa fila do supermercado ou enquanto espero no consultório do dentista. Nas melhores vezes, consigo fazer um relato sem firulas e com sinceridade. Quando isso acontece eu tenho a pretensão de sentir que fui capaz de escrever um troço que me deixou conectado a um monte de pessoas e isso faz eu me sentir bem à beça.

Outro dia, por exemplo, na hora de passar as compras eu olhei para o crachá da caixa e lá estava escrito Hertânia.

_Já sei, seu pai se chama Heraldo e sua mãe se chama Tânia - eu disse, com a mão na cabeça, como se estivesse lendo pensamentos.

_Nossa, como foi que você adivinhou? - disse a moça.

_Foi chute - eu disse.

É por isso que estou determinado a continuar a escrever neste blog por mais algum tempo. De vez em quando, com um pouco de sorte, eu acerto.

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Simpsons



Isaac Hayes - Shaft

Assisto "Os Simpsons" há vários anos. Deixe-me ver. A série tem 25 anos, então eu vejo o desenho animado há 20 anos, sem exagero. Outro dia descobri que meus filhos também assistem e vibram com as desventuras de Bart, Lisa e Homer. Meu filho se identifica com Bart. Minha filha se identifica com Lisa. Eu sou uma mistura de Moe(o dono do bar) e Homer.

Paulo Francis dizia que Os Simpsons eram indubitavelmente negros. Ele alegava que o cabelo de Marjorie "Marge" Bouvier Simpson, a esposa suburbana de Homer, era a principal indicação disso. Talvez estivesse enganado. Hoje se sabe que Matt Groening, o criador da série, desenhou o penteado de Marge inspirado nos cabelos azuis da atriz principal do filme " A Noiva de Frankenstein'. A mãe de Matt também se chama Marge e ambos são branquinhos, branquinhos, mas Paulo Francis talvez não soubesse disso. Ou talvez soubesse e achasse que era tudo para disfarçar. Seja como for, em algum momento dos anos 90 Marge Simpson foi a capa da revista Playboy.

A série é uma das mais longevas da TV. O roteiro de cada episódio surge de reuniões com uma equipe de 16 escritores realizada tradicionalmente no mês de dezembro, em algum lugar que não consegui localizar nos artigos da internet. Rick Gervais, o comediante de The Office, já foi o responsável por vários episódios da série. Bart Simpson já foi o meu preferido. Nos primeiros anos da série, Bart dizia em um dos episódios que tinha orgulho de tirar notas baixas. As escolas tiveram que proibir as crianças de usar camisetas com o ídolo em várias cidades dos EUA.

Os Simpsons foi o primeiro desenho animado para adultos que eu assisti já adulto.

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Pirâmides



The Animals - Shake

Tinha esse cara, que trabalhava comigo, era só um garoto. Ele acreditava em pirâmides. Não aquelas pirâmides dos faraós do Egito. As outras. Aquelas tramóias que vigaristas sem escrúpulos inventam para arrancar o dinheiro dos otários. As primeiras pessoas que entram devem recrutar novas pessoas e assim por diante. No final, há um grande calote nos envolvidos e quem mais sofre são as pessoas na parte de baixo da pirâmide. Esse cara acreditava que poderia ser mais rápido e pular fora da pirâmide antes de perder. Ele passava um bocado de tempo ao telefone, tentando atrair mais pessoas para a pirâmide e subir na hierarquia da pilantragem.

_Isso não está certo, garoto - eu dizia.

_Não tem nenhum problema.

_Isso aí é uma pirâmide. Isso é golpe.

_Pode ser. Mas por enquanto estou ganhando dinheiro.

_No final, a conta não fecha, vai acabar no prejuízo.

_Vou nada. Vou sair antes que se acabe.

_E as pessoas que você chamou para entrar na pirâmide, como vão ficar? Você não se importa?

_Quanto mais rápido elas conseguirem recrutar pessoas, melhor para elas. É uma questão de trabalhar duro.

_Enganar os outros não é trabalho, é tapeação.

_Eu não estou enganando ninguém. Todo mundo sabe que é preciso cumprir metas. Só progride quem cumpre as metas.

O que aconteceu é que a quantidade de pessoas que ele precisava recrutar aumentou rapidamente e os prazos para alcance das metas de recrutamento diminuíram. Para completar, ele havia recrutado praticamente todos os conhecidos, que também recrutaram as pessoas das proximidades e vizinhança. Pessoas desconhecidas eram muito menos permeáveis ao recrutamento. As metas e prazos foram para o espaço. O garoto estagnou num degrau da pirâmide e logo deixado para trás. No final perdeu muito e ainda foi agredido por uma das pessoas que ajudou a lesar.

Seis meses depois ele estava de volta ao telefone. Embarcara em outra pirâmide.

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Três para um



Velours - I'm Gonna Change


Eu e a minha mulher estivemos nessa reunião, na casa de um grande amigo, conversando com pessoas que não conversávamos há muito tempo. É agradável sair um pouco. Nossa vida social é de uma austeridade franciscana, motivada não somente pela dificuldade de deslocamento com as crianças, dinheiro curto e cansaço, mas principalmente pela minha crônica falta de vontade de sair de casa.

Estávamos ali em atenção a um convite para uma happy-hour , ou seja, uma reunião para começar por volta das seis e com uma duração de umas duas horas, no máximo. Mas às seis horas ainda estávamos enrolados com outras atividades e muito longe de sair de casa. Por isso, achei melhor ligar para o anfitrião e sondar os horários. Ele foi muito compreensivo e disse que as reuniões em sua casa, mesmo as que começavam às seis da tarde como aquela, quase sempre chegavam à meia-noite, com folga. Assim, de uma maneira muito elegante, ele deixou claro que era tolerante até mesmo com os atrasos ultrajantes de pessoas como eu.

Quando liguei, confesso, achei que encontraria um pretexto qualquer enquanto conversávamos para, mais uma vez, ficar em casa com minha mulher e as crianças. Mas não teve jeito. Não poderíamos faltar.

Os anos de namoro e casamento me ensinaram que não se deve apressar ninguém a se arrumar. Em geral, eu me apronto e vou para o computador jogar paciência ou xadrez até a minha mulher me chamar e dizer que está pronta. Em geral isso acontece quando estou na minha melhor partida e desta vez não foi diferente.

_E aí? Estou bem? – ela disse.

_Fantástica – eu disse. E é a mais pura verdade, embora eu também tenha aprendido que qualquer observação menor que uma efusiva e total felicitação sobre a roupa e os acessórios escolhidos significam apenas um aumento do tempo de espera.

Minha filha estava com duas amigas da escola e a mãe de uma delas chegou no horário combinado para buscar a menina. Para evitar um atraso ainda maior, resolvemos levar a outra menina até a casa dela. Tocamos a campainha mas não havia ninguém. A solução foi deixar a menina junto com a menina que também estivera em casa, depois de avisarmos os pais. Toda essa operação durou quase uma hora.

Em seguida, saímos em direção à casa da minha cunhada, onde as crianças passariam a noite com os tios e primos. As crianças adoram quando saímos de casa porque isso significa que também passarão a noite na casa dos avós ou dos primos.

Depois de um trânsito infernal, finalmente nos pusemos a caminho da happy hour. Nem olhei para o relógio para não desanimar.

_Caramba! – eu disse.

_O que foi? O que foi? – disse a minha mulher.

_Nós somos muito enrolados. Precisamos ir a três lugares diferentes para chegar a um outro lugar – eu disse.

Apesar do atraso, foi uma ótima noite na companhia dos amigos.

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

O jiló daqui de casa



The Soul Survivors - Mama Soul



Acho que isso acontece em todas as famílias. Em algumas, é com o brócolis. Em outras é com o pimentão. O alho, o cará. Há sempre uma raiz, um vegetal, um peixe, um tubérculo que provoca engulhos no nosso paladar infantil mas que são idolatrados pelos nossos pais. Na minha época, o vilão era o jiló. Meus pais também apostavam suas fichas no óleo de fígado de bacalhau, na Emulsão Scott, na Hypogloss, nos sucos de cenoura e beterraba e numas drágeas de vitamina de ferro. Todas essas coisas, não sei se estão na ordem certa, me garantiriam ossos fortes, um fígado de ferro, uma excelente visão, o coração de um touro e o perfeito funcionamento dos intestinos.

Como eu sou um cara moderno, com uma visão de mundo própria e desprovido de preconceitos e idéias pré-concebidas, nunca me preocupei com a presença de alimentos específicos nas refeições das crianças. Com exceção das abóboras, é claro. Aqui em casa comemos abobrinha, abóbora japonesa, abóbora bahiana, abóbora comum e moranga. As crianças não reconhecem as virtudes da abóbora e, portanto, em todas as refeições é preciso um certo trabalho de convencimento.

Nas primeiras vezes, eu ainda tentava argumentar a respeito da rica diversidade de sabores das abóboras, mas as crianças torciam o nariz.

_Pai, não adianta, eu não gosto de abóbora – dizia o meu filho.

_É, paiê, não tem gosto de nada – dizia a minha filha.

_Peraí, não pode ser as duas coisas. Se não tem gosto de nada, então é impossível não gostar.

_Então eu também não gosto – dizia a minha filha.

Resolvi incrementar as abordagens.

_Os cientistas descobriram uma vitamina na abóbora que deixa as pessoas mais inteligentes.

_Mas eu já sou inteligente, paiê – dizia a minha filha.

_Eu também. Estou satisfeito com o meu QI – dizia o meu filho.

_Mas essa vitamina deixa a gente ainda mais inteligente.

_Nós preferimos passar, paiê.

_E se descobrirem que os nutrientes da abóbora é que fazem a gente correr depressa? – eu tentei.

_Assim eu vou correr é dessa mesa, pai.
_E se daqui a vinte anos os alienígenas chegarem e só as crianças que comeram abóboras forem capazes de resistir à dominação?

_Os aliens vão vencer de qualquer jeito, paiê.

_E se as abóboras fizessem a gente jogar videogame muito bem?

_Não, pai, você já me pegou com essa, nem vem.

_Ele te pegou com essa? Jura?

_Eu só tinha quatro anos.

_Tudo bem, então vamos seguir a regra do colorido. Todos os pratos devem estar com alimentos coloridos. Verde da alface, branco do arroz, feijão, carne, batata e ahá, está faltando a cor laranja! Como vocês pretendem resolver isso?

_Cenoura, paiê.

_É, pai, nós já colocamos cenoura, viu? Eu já comi tudo.

Bom, talvez eu convença a Rose a fazer uns sucos com abóbora.

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Ponto



The Cactus Channel - Wooden Boy

Fui comprar açúcar no supermercado. Nosso consumo de açúcar é imenso. Algum dia ainda vão fazer uma auditoria e descobrir que fomos nós, eu, minha mulher e meus filhos, que fizemos os usineiros desistirem de produzir álcool combustível. É tão grande o nosso consumo que uma vez fiquei de tocaia na despensa para verificar se alguém estava comendo açúcar na calada da noite. Não descobri nada porque acabei dormindo, mas reforcei fortes suspeitas. Foi uma campanha memorável.

_Onde você estava? - disse a minha mulher.

_Dormindo na despensa - eu disse.

_Fala sério. São quatro horas da manhã e você está deitando só agora? Ficou conversando na internet, não foi?

_Não, benhê. Caí no sono dentro da despensa. Estava vigiando o açúcar.

_Isso não está acontecendo. Isso é um pesadelo.

_Pesadelo vai ser quando eu descobrir quem está comendo açúcar escondido - eu disse.

Desconfio principalmente da ex-babá-universitária-cozinheira-faxineira-governanta-daqui-de-casa, a Rose. É que ela não pode comer açúcar e todo mundo sabe que o proibido é mais gostoso. Como a Rose não dorme em casa, logicamente não poderia ter atacado a despensa à noite e por isso mesmo não foi pega em flagrante delito açucarado. Aos cinquenta e poucos, com peso crescente e a ameaça de diabetes, Rose está naquela fase de interdições preventivas que se tornarão permanentes. Eu entendo a Rose. É muita pressão. Desde que adotamos a folha-de-ponto-do-lar-do-Careca aqui em casa o consumo de açúcar aumentou consideravelmente. Sim, a lei nos obriga a manter uma folha de ponto e acho que uma outra lei nos obriga a seguir a lei, embora muita gente deixe isso para lá. Mas aqui em casa não. Seguimos à risca todas as disposições, até as transitórias. Logo, se a lei exige uma folha de ponto, nós mantemos uma folha de ponto, que a Rose assina todos os dias na hora em que entra e na hora em que sai.

No início, confesso, o maior problema com a folha-de-ponto foi a própria folha. Alguém sempre usava a danada para anotar recados nos verso ou ficar rabiscando garatujas e bichinhos enquanto estava ao telefone. Eu mesmo desenhei uns cubos, esferas e cones, só pra praticar o sombreado. Outro problema era com a própria folha. Ela quase sempre sumia, coisa mais difícil de achar no meio dos desenhos das crianças. E elas desenham muito. Até o dia em que encontrei um imã de geladeira sensacional para pendurar folhas de ponto. Isso ajudou a diminuir as perdas de folha e também a rabisqueira, já que o telefone fixo fica longe da geladeira e do imã.

O único problema é que o imã não ajudou a diminuir o stress da Rose. Ela deve ter os seus motivos, embora eu desconfie que isso tenha alguma coisa a ver com o horário de entrada no trabalho. É que os ônibus estão sempre quebrando, há sempre um problema na pista, os carros de passeio são uma bosta, acidentes acontecem, é uma bagunça o transporte coletivo. Sei que não é culpa dela, mas também não é minha, e a lei manda estabelecer o controle de ponto. Então eu controlo. Todos os dias fico de olho no relógio para mandá-la embora pra casa.

_Rose, são cinco horas, está na hora de você ir embora. Eu já acionei a sirene de ir embora duas vezes - eu digo.

_Mas hoje eu cheguei às dez e pouco, Seu Careca - ela diz.

_É, mas você não parou no horário de almoço. Lei é lei, Rose. Se passar das cinco, tenho que colocar no banco de horas, fazer uma equação biquadrada para o cálculo das férias. Sem falar da hora extra. E tem que assinar a folha antes de ir embora - eu digo.

_Eu assino amanhã - ela diz.

_Não, senhora. Ponto é ponto, não é parágrafo - eu digo.

E quando a Rose finalmente vai embora, a folha assinada, eu vou conferir o vidro de açúcar. Eu tinha feito uma marca discreta com o lápis que fica ao lado do telefone. Vou checar e o açúcar está na mesma marca. Ou então fizeram uma nova marca e apagaram a antiga.







terça-feira, 1 de outubro de 2013

Lavei a égua!



Bloc Party - Ratchet

Não me lembro mais quem gostava de usar essa expressão. Aliás, nem me lembrava mais da própria expressão quando ela, de súbito, me assaltou a memória. Lavei a égua! O significado era algo como ir à forra, dar o troco merecido em alguém, ou simplesmente se dar muito bem. Naquele velho programa de rádio certamente alguém inventaria uma historinha besta para ilustrar o surgimento da expressão. Eu adorava o Café com Bobagens, então, sem querer eu acabo pensando numa historinha do tipo.

Logo após o final da segunda guerra mundial, Paris tinha voltado a ser uma festa, principalmente para os recém-casados. A cidade tinha centenas de atrações, e uma das mais famosas era, sem sombra de dúvida, o grande espetáculo do cubano El Kabong, o cara com o maior kabong daqueles dias, maior até mesmo que o famosíssimo dominicano Porfírio Rubirosa, também conhecido como "Moedor de Pimenta".

O espetáculo de El Kabong era feito para mostrar ao público que o cubano tinha comprimento, largura e profundidade, além de manter a firmeza por uma hora de show business, de terça a domingo, fizesse sol ou chuva, granizo ou neve. El Kabong era mesmo um prodígio e encantou esse casal de brasileiros em lua-de-mel em Paris. Os noivos ficaram especialmente empolgados com o número de encerramento, quando El Kabong segurou o kabong com as duas mãos e pá-pá-pá, partiu três nozes ao meio e levou o público ao delírio. Uau! Os brasileiros nunca tinham visto nada igual. No auge da empolgação, o casal jurou voltar a Paris dali a dez anos para renovar os votos e, se possível, assistir ao espetáculo do magnífico El Kabong.

Dez anos se passaram e lá estava o casalzinho de brazucas, assistindo ao espetáculo de El Kabong. Ele havia mudado muito pouco e para o número de encerramento, pá-pá-pá-pá, El Kabong quebrou quatro nozes. Empolgados, o casal de brasileiros decidiu ir aos camarins para cumprimentar o grande El Kabong, mas a fila estava muito
grande.

Outros dez anos se passaram e lá estava o nosso casal, em Paris, renovando os votos com declarações ao pe´da Torre Eiffel. Toda aquela estrutura metálica lembrou aos brasileiros que uma visita a Paris não era nada sem uma passada no show do grande, do único e inigualável El Kabong. Desta vez, era possível ver algumas pequenas mexas de cabelos brancos no cubano, mas o resto continuava firme e forte. El Kabong encerrou a noite com kabongadas rítmicas sobre nozes. Eles teriam aguentado mais tempo na fila, mas ficaram com medo de perder o vôo de volta e resolveram deixar para a seguinte.

Mais dez anos se passaram e o nosso casal de brasileiros considerou esta a melhor de todas as viagens a Paris, porque não visitaram museus e nem fizeram nenhum dos tradicionais programas turísticos. Aproveitaram os cafés sem pressa, beberam muito vinho e só quando estavam quase de saída para o aeroporto se lembraram do espetáculo do cubano El Kabong. Não faz mal, disse a mulher. Na próxima vez nós iremos novamente.

Eles não contavam com os problemas econômicos do país. Dez anos se passaram rapidamente, mas uma tungada na poupança impediu que o casal voltasse para Paris. Outros dez anos precisaram passar para que o casal se recuperasse um pouco. Para marcar a ocasião, resolveram ir mais uma vez a Paris.

Dessa vez assistiram ao espetáculo na primeira noite após a chegada. El Kabong estava com os cabelos irremediavelmente brancos e usava uns óculos enormes, que distorciam os olhos. Mas o sujeito continuava com a mesma determinação e segurança de sempre. Fez isso e aquilo, e também fez assim e depois assado e por fim, chegou ao grande número de encerramento. El Kabong, para surpresa do casal brasileiro, havia retornado à simplicidade do pa-pá-pá. Com firmeza ele kabongou três cocos-da-bahia. O casal de brasileiros foi à loucura, junto com a platéia ensandecida. Eles correram para o camarim e aguentaram duas horas na fila de autógrafos. O brasileiro, é claro, fez a pergunta que todos faziam ao cubano.

_Há 50 anos que acompanhamos o espetáculo. O senhor começou com nozes e agora, para nosso assombro, quebra cocos-da-bahia com o kabong no final do espetáculo. Como isso é possível?

El Kabong suspira, coça discretamente o kabong, e tosse um pouco antes de responder pela milionésima vez a mesma pergunta.

_Pois é, os anos foram passando. A vista foi ficando fraca, a mira diminuiu. Tive que me adaptar - ele disse, enquanto balançava os óculos grossos como se fosse o kabong.

E também tinha aquela outra, do sujeito que encontra um velhíssimo professor de educação física no supermercado acompanhado de uma moça lindíssima. Se alguém a comparasse com um avião ficaria devendo em turbinas e equilíbrio aerodinâmico. O cara fica sem-graça de abordar o antigo professor e sua presumível filha e netos no corredor de iogurtes, apesar de uma rápida troca de olhares e um lampejo de reconhecimento mútuo. Afinal, os dois se encontram novamente na fila do caixa, mas desta vez o professor está sozinho. Os dois se cumprimentam e atualizam as informações mútuas e recíprocas rapidamente. Casaram, mudaram, separaram, casaram, mudaram e separaram. A diferença é que o professor está no terceiro casamento, com 2 filhos de cada união, inclusive do atual. Ele está mais feliz que um cachorrinho com osso, casado com uma mulher 60 anos mais nova.

Enquanto a fila não anda, os dois acabam se abrindo. O sujeito deixa o velho professor presumir que seu primeiro casamento foi um fracasso porque ele não conseguia ir muito longe debaixo dos lençóis. Ele também deixa o professor entender que o segundo casamento foi um fracasso porque a mulher estava sempre insatisfeita. O professor então conta ao ex-aluno que sua primeira mulher resolveu se separar porque achava que ele se excedia nas obrigações conjugais. Com a segunda mulher também não foi muito diferente, ela se cansou da energia perseverante e rotineira dos exercícios diários, noturnos, matutinos e vespertinos e a qualquer hora que fosse. Mas agora ele estava se sentindo muito bem, porque havia encontrado uma companheira com o mesmo fôlego e ímpeto conjugatório.

_Noossa, professor! Mas o senhor, com esta idade! São 80 anos, não é mesmo? Qual é o seu segredo?

_É simples. Coma pão. Mas sem manteiga. Comer pão todos os dias mantém o Rubirosa e o apetite como devem ser - disse o velho professor.

_Mas quantos, professor?

_Isso varia de pessoa para pessoa. Eu só preciso de dois pães por dia - ele disse, se despedindo do ex-aluno e se afastando com as compras, a mulher e os filhos.

Nosso amigo sai da fila rapidamente e corre para comprar pães.

_Quantos? - perguntou a moça bonita atrás do balcão.

_Vinte - disse o ex-aluno do professor de educação física.

_É uma família grande, hein?

_Não, é só para uma pessoa.

_Vixe!

_O que foi?

_Nada, é pão para uma só pessoa...

_E o que é que tem?

_O pão. Vai ficar meio duro, né?

_Você acha?

_Pela minha experiência, tenho certeza.

_Então me vê 40!









quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Um pedido



Tonight - Kings of Leon

Eu pretendia escrever sobre outra coisa, mas a campainha tocou e fui correndo olhar a tela do visor do porteiro eletrônico. Eu tinha escutado o barulho do caminhão de lixo e fiquei com medo de ter acontecido alguma coisa. Hoje o jardineiro apareceu depois de um largo intervalo. As rotinas acumuladas resultaram em sete ou oito sacos de lixo lá fora e minha mente paranóica já havia registrado a possibilidade de uma reclamação por excesso de lixo, sei lá. No visor havia mesmo um gari, esbaforido, pedindo para falar com o dono da casa.

_Sou eu, pode falar.

_Será que você pode colaborar para eu comprar um lanche? - perguntou o gari.

Fiquei surpreso. Muito surpreso. E disse não. Ele disse que tudo bem, desejou boa noite e foi embora.

Um pouco depois, me peguei reexaminando a situação e percebi que a minha surpresa não era devida ao fato do gari ter pedido dinheiro. Hesitei porque fiquei pensando se havia esquecido alguma data festiva onde esses pedidos são feitos sem cerimônia e a recusa é considerada uma afronta.



quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Cartões Folksy Cards



PINK - "Who Knew"

Aqui vão alguns dos melhores cartões da Folksy Cards, a fictícia empresa que Donald E. Westlake inventou para Art Dodge, o sensacional personagem de Dois é Demais!. Art é o autor daqueles cartões tipo folder, com uma ilustração engraçada na capa e uma frase desconcertante assim que olha o que tem dentro.

"Beije-me outra vez... eu dou a outra face."

"Temos de parar de nos amar desse jeito... Vire de bruços."

"Amar é... nunca ter de dizer "quanto é?".

"Sare logo... meu médico disse que você também pegou."

Lembro que os cartões desse tipo um dia foram moda. Eu mesmo recebi alguns de amigos e familiares. As livrarias e papelarias consagravam seções inteiras para cartões bem-humorados. E havia também as camisetas, as almofadas engraçadinhas, as canecas de chá e chopp, os mousepads, etc. Depois dos cartões engraçadinhos, de humor negro, vieram os cartões musicais, os pop-ups, os cartões parecidos com cartões telefônicos plastificados e os cartões parecidos com cartões de crédito. Mas o insuperável cartão "De...Para" nunca saiu de moda.

No livro, Art conhece uma pesquisadora que escreve uma tese sobre a comédia humana. A moça faz uma entrevista rápida.

"O que é o humor, de fato?

"Fazer as pessoas rirem."

"Por baixo disso", ela falou. "O que significa o humor?"

"Aceitação. O cômico faz os outros rirem para que não o matem" - responde Art.

No final, depois de mil e uma peripécias divertidas, Art recebe um cartão da pesquisadora.

"Abrindo o envelope, encontrei um cartão do tipo que eu costumava publicar, apesar de não ser da minha empresa. A frente mostrava um homem vestido com a parte da frente de uma fantasia de cavalo, num cenário de palco de teatro. Dentro, dizia: "Não posso continuar sem você."

Art não acha graça e joga o cartão fora.



terça-feira, 24 de setembro de 2013

Vivendo na selva



Black Joe Lewis & The Honeybears - Livin' In The Jungle

Aqui, nada funciona. O que pode ser bem exasperante, às vezes, mas acho que estamos todos acostumados. Só quando vamos ao exterior é que percebemos que as coisas poderiam ser bem melhores. Mesmo assim, acho que estamos perdendo as referências. A degradação lenta e contínua atrapalha a nossa percepção das coisas. Estamos ficando cada vez mais sem importância no mundo.

Mesmo assim, esmorecer não é a solução. Em primeiro lugar, quero um País onde seja possível obter educação de boa qualidade nas escolas públicas para os meus filhos. Nessas escolas, quero professores que não sejam obrigados a entrar em greve todos os anos para garantir melhores salários e melhores condições de ensino. Também gostaria que os professores fossem respeitados pelos alunos, pelos pais de alunos e pelos administradores públicos. Quero que esses professores transmitam conhecimento e estimulem o pensamento crítico, sem confundir as duas coisas com doutrinação ideológica e proselitismo. Da minha parte, continuarei a participar ativamente das reuniões e atividades na escola.

Quero um país com cidades limpas, iluminadas e seguras, onde as crianças possam brincar na rua e seja possível passear à noite com minha mulher sem medo de ser atacado. Da minha parte, continuarei a colaborar com a limpeza, inclusive com a observação das disposições que regulam a construção de calçadas, plantio de árvores, cuidado com os animais, etc. Quero as cidades com bons serviços de saúde, onde não seja preciso conhecer alguém (e nem pegar um avião) para conseguir uma consulta e tratamento adequado. Da minha parte, observo as orientações dos agentes de saúde no que se refere à proliferação de mosquitos, insetos e roedores. Adicionalmente, procuro manter hábitos saudáveis.

Quero que as estradas permitam o livre trânsito com segurança, sem buracos e sobressaltos. Que os aeroportos e portos sejam adequados.

Em suma, quero que as coisas funcionem e que o Estado garanta a cada um a liberdade de pensamento, expressão e de empreendimento.

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Ainda "Sobre a verdade"



Selah Sue - Explanations

Harry G. Frankfurt, no seu livrinho sensacional “Sobre a verdade”, diz uma coisa que eu gosto muito de repetir: “sem a verdade, simplesmente não temos uma opinião sobre as coisas, ou nossa opinião está errada".(pág. 68) As razões são constituídas de fatos. O que é verdadeiro não pode, ao mesmo tempo, ser percebido como falso. Quando isso acontece, ocorre a confusão e a loucura. A verdade não varia de indivíduo para indivíduo, de acordo com a percepção de A ou B. Isso seria absurdo. Assim, só é possível ter um único tipo de relação com a verdade, o verdadeiro. Qualquer outro tipo é falso.

Mais ou menos na metade do livro, a parte que mais gosto começa pela repulsa de Kant e Montaigne pela mentira. Para Kant, a mentira prejudica a humanidade em geral. Para Montaigne, os mentirosos deveriam ser consumidos pelas chamas. Frankfurt, por sua vez, afirma que "o fato de que muitas pessoas se entregam a mentiras, e a outros tipos de comportamento fraudulento, dificilmente impossibilita um convívio proveitoso com elas ou impede qualquer conversa. Apenas significa que temos que ser mais cautelosos. Podemos nos sair muito bem num ambiente de fraude e de falsidade, desde que possamos contar razoavelmente com nossa própria capacidade de discernir confiavelmente entre casos em que as pessoas estão deturpando as coisas para nós e casos em que estão nos tratando com sinceridade."

Humberto, meu amigo canalha, se dizia apaixonado demais pelas mulheres para amar apenas uma. Ao pretender amar muitas, não amava nenhuma, embora estivesse apaixonado por todas. Uma vez Humberto foi a um restaurante com a amante, depois de ter pensado que havia despistado a esposa. A mulher invadiu o restaurante aos berros e ameaçava agredir Humberto e amante ali mesmo, depois dos palavrões. Humberto fez um gesto discreto para o garçom e quando o moço se aproximou, desviando com cuidado da mulher furiosa, Humberto cochichou que jamais havia visto aquela maluca em toda a sua vida. Foi o suficiente para a ultrajada fosse expulsa com energia do restaurante.

Há quem acredite(eu também, muitas vezes) que o mundo é binário, 0 ou 1, V ou F. As zonas cinzentas só existem até tomarmos uma decisão. Essa decisão, por sua vez, poderá se revelar acertada ou equivocada. Durmo melhor quando acredito estar tomando a decisão certa. Já acordei de madrugada com o coração batendo acelerado, o estômago na boca, só então descobrindo que não deveria ter feito o que fiz.


O livrinho que citei é “Sobre a Verdade’, Companhia das Letras, escrito por Harry G. Frankfurt, professor emérito de filosofia da Princeton University. Em 2005 Frankfurt virou best-seller com outro livrinho chamado “On Bullshit”, também traduzido e publicado pela Cia das Letras, que ainda não li.

domingo, 22 de setembro de 2013

Com que roupa?



Count Basie Orchestra - The Kid From Red Bank

Com que roupa?

Meu amigo C.F. postou no Facebook uma pequena dúvida sobre vestuário.


C. F. - Confesso minha quase total inabilidade para as formalidades sociais. Por isso, peço uma ajuda: o que significa, na prática, traje esporte fino para um evento matutino?

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D D e outras 14 pessoas curtiram isso.

I C L - Calça de tergal e camisa de popeline, rs
há 6 horas • Curtir • 2

C. F. - Popeline?Falou grego...
há 5 horas • Curtir

V B - Já para os homens o básico entendimento do esporte fino são as roupas sociais e um blazer, a calça jeans ou as de brim, podem combinar com uma camisa de botão e um blazer. O uso de gravata fica a critério de cada um. As camisetas devem ser básicas, com...Ver mais
há 5 horas via celular • Curtir • 2

M M - Calça Social ou de brim (nunca jeans), camisa social lisa e um blazer. Se for de manhã, e levando em consideração o calor (se o evento for ao ar livre), acho q pode dispensar o blazer, se não for casório.
há 5 horas via celular • Curtir • 1

A G G - Camisa polo, bermuda, tênis? Ou bermuda não é fino? È churrasco, funeral, casamento, aniversário, batismo?
há 5 horas • Curtir

C. F. - Compromisso em embaixada...não sei se posso dispensar o blazer...
há 5 horas • Curtir

M M - Se é embaixada, vá de blazer, tudo combinando. Pode dispensar gravata.
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M M - Ah, e sapato social, é claro!
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D A C - Ex marido, calca social, camisa lisa e blazer , em ambientes mais formais, sapato social co meia fina lisa,.nos tons da calcq
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M A - Vai de sunga...
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G S S - Bermuda, camisa polo e uma raquete de tênis.
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O J P P - Se for hoje, domingo, é bermuda, camiseta, tênis (com ou sem meia) e um bonezinho. Como o sol tá escaldante, não esqueça o protetor solar... rsrs
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S B - Ao pé da letra teria q rolar uma calça social camisa e um paletó só q com esses calor dos infernos não rola, né? Uma calça social e uma camisa já está de bom tamanho com sapatos.
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R M O - Deve ser uma roupa esporte de marca... acho
há 5 horas • Curtir

P L - Na prática pode tudo menos jeans
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M L M I - Eu acho que isso näo existe. Ou também tem que existir esporte grosso. Alguém inventou e caiu no gosto popular.
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R J - Alguém ainda usa determinar o traje para os convidados????
há 5 horas • Curtir • 1

M S - Significa anacronismo
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há 4 horas • Curtir (desfazer) • 1

T F - Esporte fino de manhã: uma sunga de seda.
há 4 horas • Curtir (desfazer) • 3

D L - Vai bonitinho, arrumadinho, eh isso... Gente... nos estamos no seculo 21 mesmo? affffff vai de pijama de seda, nao eh de manha?
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M F- Vai de jogador de golfe: esporte grã-fino.
há 4 horas • Curtir • 2

A R - Esporte fino significa que não é necessário o uso de terno e gravata - pode ser jeans com camiseta polo, pode usar um paletó - mas não exagere no esportivo e, portanto, não vá de qualquer tênis surradinho, qualquer calça já muito usada. vá, como o nome diz, fino. Isso se você se importar com essas coisas. Caso contrário, mande tudo à merda e vá como você quiser ir e segure a onda na base do charme.
há 4 horas • Curtir • 9

E M - Terno preto com tênis branco
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J M S - Querido,você deve ir conforme a orientação do convite porque se indica "Esporte Fino" o traje deve ser formal.Nada de Jeans, Tênis. Calça social e um paletó e como o evento é matutino faça opção por tons mais claros.Bjs.
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H C - Ir de Bermuda!
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R G G - Bermuda, jeans e tênis é esporte grosso. Coitado de você, C. kkkkkkkkkkkkk
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M A - Kkk Pelos comentários, eu te aconselho a ir de sunga de seda ou, mais comportado, bermuda, tenis e camisa polo. Mas como é fino, devem ser de marca! Kkk
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J C M H - Pode dispensar o blazer. Calca caqui, camisa Lacoste, mocassim marrom.
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B B I - C., acho que piorou... achava que sabia, mas depois desses comentários, fiquei com muita dúvida rsrsrs bj e saudade
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A U - O que eu queria mesmo era saber quem é que pratica esporte em traje esporte.
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D D - Sempre me pergunto essas coisas.
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TL - C., vá nu e quebre todas as regras
há 3 horas • Curtir • 1

A G G - Esporte fino? Deve ser polo, polo aquático ou cricket. Golfe? Truco, jamais.
há 2 horas • Curtir • 1

W W L - C., camisa de manga comprida e calça social, não jeans.
há 2 horas • Curtir • 1

M M - Com sua personalidade e caráter, qualquer traje, ou sem traje faz bem.
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A G G - Traje de gamão? Traje de xadrez? Bridge?
há 2 horas • Curtir • 1

A G G - "Esporte grosso" é havaiana e bermuda, com a barriga por cima da bermuda. Se você não tiver barriga, improvise com uma pochete. Um palito no canto da boca sempre vai bem, nessas ocasiões. Para demonstrar seu savoir-faire, braguilha aberta, mas apenas o terço superior. Corrente de oiro é um clássico.
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M B - Significa: frescura de quem escreveu! Kkkkk.
há 2 horas • Curtir • 2

M M - A propósito, pode buscar google images e GQ's website
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W W L - Cuidado, C., que a recepção não se pauta por personalidade nem caráter, mas pela apresentação do convite e do traje exigido. E quem te convida te considerou e, por isso, merece seu respeito
há ± 1 hora • Curtir • 2

V R - Jeans fora

L B - O esporte fino nada mais que um traje intermediário entre o estilo esportivo - informal e descontraído, e o traje passeio completo ou social. É muito utilizado em ambientes empresariais que não exigem roupas sociais (passeio completo) e para ocasiões que demandam uma certa formalidade, mas não exigem trajes completos.
há 4 horas • Curtir • 3

G H - Terninho ou blazer sem gravata...
há 3 horas • Curtir • 1

M B B B - Faço 52 anos agora, no dia 26. Não pedi traje, pedi a presença com qualquer traje. O que vale para mim é o coração de cada um e o recíproco amor. Se quiserem vir muito bem arrumados serão tão queridos como os mais mal arrumados, traje que, no final das contas, passa a ser apenas um pequeno detalhe...
há 2 horas • Curtir • 1

Frase do dia


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