segunda-feira, 30 de maio de 2011

Fazendo contas com Palófi

Cada dia que passa eu me convenço de que o Palhocci é inocente e não vendeu caro a influenza. Estou cada vez mais convicto de que o atual Manda-Chuva da Casa deve continuar no cargo, porque é uma pessoa que inspira confiança e credibilidade, atchim. Tenho absoluta certeza de que ele é uma pessoa honesta, com uma extraordinária capacidade para prestar serviços de consultoria muitíssimo bem pagos.

A verdade é que estamos nos acostumando tão rapidamente a números gigantescos que poucas vezes paramos para fazer as contas. O que são vinte milhões de reais? Divida por 365 e você terá R$54.794,52, um valor razoável para o dia trabalhado. E essa quantia, para um sujeito que trabalha dando conselho pelo telefone, como o Palólci, mal cobre as despesas. É bem verdade ainda que ninguém, a não ser o Papa, trabalha todos os dias do ano. Então, é bem natural que o Doutor Pailóssi cobre também pelos feriados, dias santos e finais de semana.

Sei. Você é do tipo rigoroso. Gosta de vírgulas e contar centavos. Então divida o butim de um dia por 24 e o valor será de R$2.283,10. Ou seja, cada hora de consultoria do Palossi custaria uma mixaria. Satisfeito agora? Viu que isso não passa de uma mera conta de restaurante.

É lógico que à primeira vista o valor parece absurdamente reduzido, tendo em vista a qualidade dos serviços prestados pelo Doutor P. Mas se você dividir vinte milhões por 12, o resultado é R$1.666.666,66. Oras, tem muito jogador de futebol que fatura mais do que isso por mês. E o Paiossi bate um bolão em economês.

Sinceramente, acho que as pessoas não deviam pegar no pé do Doutor Palófi. Honestidade chegou ali e parou, gente. E dividir vinte milhões pelo valor do salário mínimo é pura demagogia, não é por aí. Também não vale dividir por cestas básicas e nem por corrida de táxis. Pouco importa se com essa grana daria para comprar 408 Astras. Ninguém se lembra mais de que um presidente começou a ser impichado por causa de uma Fiat Elba. Ninguém se dá conta de que vinte milhões fazem exatos 400 pacotes de 50 mil reais, que não cabem mais numa cueca.

Não é o valor, não é o espírito da coisa, não é uma coisa de princípios. Ocorre é que eu acho o Palólfi muito esforçado em esclarecer as coisas e deixar tudo bem explicadinho. Quer dizer, tirante o confidencial. Tem coisa muito confidencial que é uma falta de respeito a gente contar pros outros. E eu já posso imaginar o Doutor Pê, depois de semanas estudando um assunto ligando para o cliente e dizendo que o relatório da consultoria já estava pronto e se auto-destruiria em vinte segundos.

_Pô, nem vai dar tempo de ler.

_Eu posso fassê um ressumo, se fossê quisser.

_Manda bala.

_Não fai rolar.

_Ué, e o resumo?

_Já fiss.

_Aaanhhh.

domingo, 29 de maio de 2011

Armários, gripe e um gol contra do Rafa

Estive muito gripado nos três últimos dias. Isso não impediu a montagem de alguns armários e outros pequenos trabalhos de marcenaria, mas atrapalhou um pouco. Resolvi montar eu mesmo dois dos três armários gigantes que estavam no quarto das crianças e que ficarão no quarto de hóspedes. É uma tarefa difícil porque as pessoas que desmontaram os armários não identificaram todas as partes. Então foi como montar um quebra cabeça gigante em três dimensões.

É lógico que cometi alguns erros e tive que refazer a montagem de algumas partes. Mas as gavetas encaixaram, bem como as portas e as barras de cabides. O terceiro armário foi transformado numa espécie de rack para TV. Ainda não sei o que fazer com as portas que sobraram.

Procurei manter as crianças longe, por causa da grande quantidade de pregos enferrujados dos fundos dos armários. Os caras deixaram todos os pregos onde estavam e sumiram com os parafusos. Vai entender. Felizmente encontrei todos os ferrolhos das dobradiças das portas. Quando varria o chão e estava seguro de que não havia prego nenhum no chão, eu chamava as crianças para me ajudar. Eles adoraram se sentir úteis.

São armários de aglomerado com um forro marrom, envernizados. Eram embutidos e algumas paredes laterais não são forradas. Por isso, as crianças acham que eu devo pintar os armários. Ainda estou em dúvida sobre o que fazer. De qualquer modo, com tudo montado, comecei a lixar os armários. Encontrei a velha lixadeira orbital no meio da tranqueira que trouxe do quartinho da garagem do velho apê. Ainda funciona direitinho.

Eu estava lixando o fundo de um armário quando olhei na direção do barulho que o Rafa estava fazendo. Percebi que ele havia pegado alguma coisa mas não dei muita trela, ele vive pegando coisas na garagem. Quando prestei mais atenção percebi que era um pássaro. Rafa é um caçador, quem diria.

Chamei o meu filho para ver cachorro e ele ficou chocado. Naturalmente, Rafa não deixou que eu tirasse o pássaro da sua boca. Ele tratou de fugir rapidinho para o fundo do quintal. Tive que correr atrás do cãozinho shi-tsu para capturá-lo e tirar o pássaro da sua boca. Rafa é um atleta como eu, se cansa rapidinho e acha correr um saco. O pássaro tinha virado uma massa de vísceras e penas, não consegui descobri que bicho era. Talvez fosse um beija-flor, dos grandes, pois as penas eram esverdeadas em alguns pontos.

Rafa ficou desapontado comigo. Meu filho ficou decepcionado com o Rafa e comigo, porque não impedi o "assassinato do beija-flor".

_Mas eu não sei se era um beija-flor. Podia ser um pardal, sei lá - eu disse.

_Não importa. Estou decepcionado - disse o meu filho.

_Mas filho, o Rafa é um bicho, o instinto animal dele é que fala mais alto - eu disse.

_É um malvado, isso sim - ele disse.

E não quis saber mais de conversa. Mais tarde, quando estava colocando as portas do futuro rack, Rafa se aproximou de mim e ficou deitado daquele jeito dele, parecendo um tapete. Ele nem se mexeu quando fiz carinho na sua cabeça. Amanhã não vai ter jeito, vou precisar de um remédio para a gripe.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Curicacas e garrafas de Gatorade

A curicaca é uma ciconiiforme da família Threskiornithidae. Seu nome popular é onomatopéico, semelhante ao som do seu canto. É uma ave comum na América do Sul. Tem cerca de 40 cm de altura e 70 cm de comprimento. O bico é curvo e fino. Essas aves são protegidas pelos agricultores, porque controlam o número de insetos.

As curicacas não têm nada em comum com as garrafas de Gatorade, a não ser que fazem parte desse post, que é um pedido de desculpas a duas pessoas diferentes. O primeiro é para o meu pai, porque duvidei do nome e da existência dessa ave.

_É curicaca - disse o meu pai.

_Tá, curicaca, acredito - eu disse.

_Está duvidando? É curicaca o nome desse bicho.

_Sei, ave rara, encontrada também na Patagônia, vista pela primeira vez pelo Dr. Livingstone no lago de Titicaca, quase extinta pela família Curi porque detestavam a associação com o nome.
_Nada disso, é ave comum, já vi muitas aqui no quintal.

E meu pai descreveu a curicaca exatamente como elas aparecem nas fotos que vi depois, pela internet. Também reconheci a ave que vi numa palmeira outro dia, passeando por lá. Bom, sorry, não tá mais aqui quem falou.

E as garrafas de Gatorade? Bom, uma vez, há centenas de posts neste blog, eu acusei injustamente a minha mulher de ter jogado fora minha coleção de garrafas de Gatorade. Lembro que na época, por volta do ano 2000, tivemos uma conversa mais ou menos assim.

_Eu? Não joguei fora coisa nenhuma, mas se por acaso eu encontrar essas garrafas elas vão para o lixo, sim, senhor. Nunca vi. Você guarda tudo, Careca. Até tampinha de cerveja - disse a minha mulher.

_Minha coleção de tampinhas? Onde está?

_Coleção, uma ova! Era um monte de tampinhas de uma única marca de cerveja.

_Da Devassa? Eram tampinhas do ano de lançamento, não fazem mais daquele jeito.

_Era um monte de tampinhas enferrujadas e sebentas. Foram para o lixo.

Ela,portanto, não disse que havia jogado as garrafas no lixo. Embora tenha admitido que poderia fazê-lo. Mesmo assim, presumi que ela havia jogado as garrafas fora. Lembro que fiquei chateado. Fiquei tão chateado que anos depois, quando comecei esse blog, fiz um post em que recriminava a minha mulher por ter jogado a minha coleção na sarjeta.

Exagero, podem pensar alguns. Mas comecei essa coleção em 1998, quando a bebida foi lançada e as garrafas eram de vidro, com letras em relevo e com duas partes jateadas. Coisa fina.

Hoje, enquanto esvaziava o quartinho da bagunça do velho apê me deparei com uma caixa enorme, cheia de garrafas. Era a minha coleção. Caramba! Depois de tanto tempo, devem valer uma nota no mercado dos colecionadores que são birutas como eu.

Bom, sorry, errei, tentarei não repetir.

Agora vou tentar registrar em foto uma curicaca.

Também vou procurar um lugar seguro para guardar a minha coleção de garrafas de Gatorade. Minha mulher tem memória de elefante.

terça-feira, 24 de maio de 2011

O passo do tamanho das pernas


Fui fazer hoje uma faxina no velho apê para entrega à imobiliária. Além de diversos reparos, o apê foi pintado e escovado. Quando estava quase tudo pronto, resolvi experimentar um produto que prometia fazer milagres com o rejunte. Fiz um pequeno teste no chão do banheiro e resolvi usar.

Passei o Zap com cuidado, de acordo com as instruções do blister e também do frasco do produto. Ele realmente funciona muito bem. Só tem um problema. É melhor você ir limpando à medida que coloca o revitalizador do rejunte. Depois que a coisa seca, você vai ficar horas para tirar o excesso dos azulejos. Naturalmente foi isso que aconteceu comigo. Fiquei duas horas retirando os excessos de um produto que coloquei em dez minutos. Mas aprendi bem a lição. E o outro banheiro ficou razoavelmente revitalizado, rapidamente.

O dia foi proveitoso e amanhã o velho apê estará pronto para a entrega. Feitas as contas, foram onze anos e alguns meses morando ali.

A foto mostra a vista que eu tinha do lugar onde eu ficava mais tempo no velho apê: a varanda onde ficava o computador. Dá pra ver um pedaço da calçada onde eu passeava todos os dias com o Rafa.

Às vezes me dá um medo danado de estar dando um passo maior do que as minhas pernas, de sair de um apê onde vivia confortável e acomodado para uma casa onde os desafios e limites ainda são desconhecidos. Por outro lado, eu já havia atingido o "point of no return" quando aconteceu o desligamento imediato e seria até covardia recuar.

Os dias estão passando de forma muito rápida e de forma muito envolvente e intensa. E quando isso acontece eu quase sempre me sinto feliz.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Palocci é inocente

Dona Crédula, a velhinha que acredita na existência de uma oposição no Brasil, ligou para mim no domingo.

_Careca, os meninos estão exagerando. Eu sei que eles fazem uma oposição forte, mas desta vez o Serra e o Aécio pegaram pesado demais com o Palocci.

_Mas Dona Crédula, os dois elogiaram o ministro...

_Tem que elogiar mesmo, é um ministro tão bonzinho. E não tem sentido essa suspeita. Ele já explicou tudo duas vezes.

_Pois é, e a cada explicação ele lembra de vinte milhões que recebeu. Nesse ritmo de lembrança ele vai chegar a cem milhões no início de junho.

_Eram contratos com bancos, montadoras e indústrias. Essas empresas pagaram por serviços de consultoria e análises de mercado.

_Mas Dona Crédula, ele vendeu esses serviços quando era deputado e ao mesmo tempo era o coordenador da campanha presidencial. Além disso, ele é médico, não é economista. E as pessoas têm o direito de saber o que um representante eleito e no exercício do mandato andou fazendo para ganhar dinheiro.

_Ele explicou que 70 por cento dos serviços já estavam prontos.

_Queria ver uma análise faltando trinta por cento.

_Como?

_Acho que o Palocci é um médico que sabe tudo de finanças.

_Pois é, meu filho, ele é inocente.

_Claro.

_Ele não fez nada de errado.

_Certo.

_E além disso, ele já parou com as consultorias.

_Hum-hum.

_Por isso eu acho que o Serra e o Aécio foram muito duros e deveriam se desculpar.

E a ligação caiu. Mas D. Crédula talvez tenha razão. Do jeito que a coisa vai, Serra e Aécio vão acabar se desculpando.

sábado, 21 de maio de 2011

A banheira do Cabeça II

(...)
_Nãããooo, você está de sacanagem. O Cabeça mandou colocar uma banheira no quarto!!!

_Foi o que o Paulinho disse, mas o Cabeça negou. Na verdade ele não gosta muito de comentar esse assunto - eu disse.

_Mas uma banheira não é um assunto que a gente possa chamar de "delicado".

_Não, quer dizer, a banheira do Cabeça é uma exceção. Ela é bem delicada.

_E ele usa a banheira?

_Diz ele que já usou. Mas disse que dá muito trabalho - eu disse.

_Pô, o cara tem uma banheira no quarto e não usa? - disse o meu amigo.

_É a arquitetura moderna. Você acha legal, é bonito e coisa e tal, mas não usa. Ou usa só quando você está a fim de muito trabalho. Mas não é bom falar da banheira com o Cabeça.

_Ué, por quê?

_Ele fica constrangido. Acho que foi por causa das fotos do Paulinho.

_Fotos? Mas que fotos?

_Foi numa das primeiras festas que o Cabeça fez depois que mudou para esse apê, chiquérrimo. No meio da festa todo mundo começou a comentar sobre a banheira no quarto, que era bacana, e aí o Paulinho pediu licença para tirar umas fotos da banheira.

_E o Cabeça deixou?

_Nããããooo, quiéissoooo? O Cabeça ficou revoltado. Disse que ninguém ia tirar foto de banheira coisa nenhuma. E é lógico que todo mundo correu para a banheira do quarto para tirar a foto. Devia ter umas vinte pessoas na banheira. Todo mundo vestido, é claro.

_Puxa, deve ter ficado uma foto bem legal.

_Não sei. Nunca vi essa foto. Deve estar na memória da câmara de alguém. Hoje em dia ninguém revela foto, é um saco.

_...


_...


_O Cabeça já pensou numa reforma? Em tirar a banheira?

_Não sei. Acho que ele gosta da banheira no quarto.

_Como alguém pode gostar de banheira no quarto? - disse o meu amigo.


---

Hoje eu almocei com o Cabeça e ele disse que não pensa em reformar o quarto.

_É uma banheira legal. Já me acostumei com ela - disse o Cabeça.

Como já disse aquele gênio, "as pessoas se acostumam com tudo".

sexta-feira, 20 de maio de 2011

A banheira do Cabeça

Eu estava conversando hoje com um amigo sobre as esquisitices da arquitetura moderna.

_Vi numa revista que as cozinhas se misturam com as salas de jantar. Ninguém mais usa porta, é diferente.

_Não acredito, sério? - disse o meu amigo.

_É, a cozinha é integrada com o resto da casa. Pra mim isso é efeito sit-com.

_Sit-com?

_É, são os seriados americanos, também chamados de comédias de sofá. É que o cenário da série tem cenas na cozinha, na sala(que tem um pequeno hall na porta de entrada) e uma escada para onde "estão" os quartos. Mas não existem paredes entre esses ambientes. para permitir a filmagem sem atropelos. Esse cenário de mentira acabou entrando na cabeça das pessoas, que passaram a querer morar em casas assim, com ambientes mais amplos, poucas portas.

_Sério?

_Não sei, acho que sim. As pessoas são malucas. Veja o Cabeça, por exemplo, ele tem uma banheira no quarto.

_No banheiro da suíte?

_Não, no quarto mesmo. A banheira fica em frente à cama do casal.

_Putz, ele gosta de tomar banho na banheira antes de dormir?

_Isso eu não sei.

_Ele tem espelho no teto?

_Que eu me lembre, não tem.

_E por quê diabos ele mandou colocar uma banheira no quarto?

_O Cabeça disse que a idéia não foi dele, que já comprou o apê com a banheira. Ele só viu a banheira depois do negócio ter sido fechado.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Um bocado de sorte

Existem muitas coisas mais deprimentes do que solicitar o seguro desemprego. Mas é preciso ficar repetindo isso muitas vezes quando você vai solicitar o seu. A moça do balcão de informações foi super atenciosa e gentil. E nem era uma moça. Era uma demi-coroa. Já é a minha segunda tentativa de solicitar. Na primeira vez, acabaram as senhas. São duzentas senhas por dia. E lamba. Hoje faltava a ressalva.

_Ressalva?

_É, isso aqui tem que estar escrito na carteira de trabalho. É lei nova, quase ninguém sabe. Tem que voltar no departamento de pessoal e pedir para escreverem isso aqui na carteira de trabalho.

_E com isso aqui na carteira eu posso solicitar o seguro?

_Tem que pegar a senha - disse a demi-coroa.

-A que horas acabam as senhas?

_Varia muito. Tem dia que acaba de manhã. Tem dia que acaba de tarde. Tem dia que nem usamos todas as senhas.

_É mesmo?

_Não, é raro. Só aconteceu umas duas vezes. Tem muita gente pedindo o seguro.

_Tem muita gente desempregada?

_Isso eu não sei. Mas tem muita gente pedindo o seguro.

_Mais do que antes?

_É sempre mais gente.

_Muito obrigado.

_De nada, boa sorte para você.

É uma pessoa sincera. Ela realmente conseguiu encontrar a fórmula adequada para dizer adeus no balcão do seguro desemprego. Conhece a burocracia que lhe comprete conhecer. Tem as soluções prontas para o necessário. Já coloca duas filipetas de papel na minha carteira de trabalho. Uma tira da largura de quatro linhas de pauta tem o artigo da lei nova, que precisa ser cumprido. O outro, pequeno e quadrado, traz o verbete que deve ser escrito e assinado pela gerente de pessoal nos casos de demissão sem justa causa com indenizações que já tenham sido pagas.

Fiquei dez minutos pensando em não ligar para o antigo departamento de pessoal. Bolas. Liguei para o departamento de pessoal. Foram gentis e disseram que não haverá problema. Levei a minha carteira de trabalho e me desejaram sorte. Duas vezes no mesmo dia.

Preciso mesmo de um bocado de sorte.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Milhares de coisas para fazer

Agora que tenho todo o tempo do mundo, o tempo se esgota rapidamente. Os dias passam voando e as coisas não planejadas tomam um tempo enorme. Ainda existem coisas a consertar, pisos e pinturas a serem feitas, especialmente no velho apê. Também é preciso desocupar um quarto cheio de bugigangas e coisas que fomos encostando do velho apê. É hora de tomar decisões importantes, sobre o que jogar fora e o que preservar. Tranqueiras acumuladas em mais de dez anos devem ir para o lixo, eu sei, mas às vezes a mera separação de objetos para o lixo desencadeia uma longa sequência de memórias e devaneios. E com isso o tempo passa ainda mais rápido.

O tempo de escrever também passa voando, com devaneios e pensamentos desconexos em turbilhão. Quero escrever milhares de coisas, mas me atropelo e nada guarda coerência com nada. A escrita vive da leitura e não tenho tido tempo de ler. Hoje passei em frente à livraria, na hora do almoço e quase comprei um livro. Mas não me faltam livros. Na mudança, organizei duas prateleiras de livros ainda não lidos. Alguns deles são bem convidativos.

Mas o difícil mesmo é conter o sono. Tenho feito tantas coisas diferentes durante o dia que os bocejos e os olhos pesados me pegam no meio de uma ou duas páginas de leitura. Estou dormindo cedo e acordando cedo.

terça-feira, 17 de maio de 2011

Chaves

Uma das coisas mais importantes de uma mudança é cuidar das chaves. Das novas e das velhas. É preciso andar algum tempo com dois chaveiros bem separados, porque sempre vai faltar alguma coisa para trazer da casa velha depois. Os chaveiros não podem ser parecidos, devem ser radicalmente diferentes. E você tem que andar com ambos durante alguns dias para se acostumar com o novo molho de chaves.

A composição do molho de chaves não se define de um dia para outro. Será o uso de portas e portões que vai determinar se você deve levar mais de cinco chaves no chaveiro. Mais do que isso, especialmente se uma das chaves for a do carro, fica impossível de colocar no bolso. O ideal é reduzir o chaveiro para três chaves indispensáveis, de todos os dias. Todas as outras devem ser reunidas num outro chaveiro e colocadas num local bem acessível, mas seguro. Mais importante, os adultos da casa devem ser informados do local onde podem encontrar todas as chaves da casa que não ficam nas portas.

Mesmo assim, é inevitável alguma confusão. Aqui em casa, por exemplo, o acesso à garagem é feito por duas portas, uma de serviço e outra mais social. É lógico que planejávamos sair e entrar pela porta social, mas a fechadura está com um problema que as finanças e a preguiça só permitirão consertar em breve, o que nos obriga a usar a porta de serviço. No entanto, ainda não fiz uma cópia da porta de serviço para a minha mulher, o que a obriga a usar a porta social. Para as crianças isso é um pouco confuso, porque se estão comigo só usam a porta de serviço e se estão com a mãe só usam a porta social. Bom, espero que não pensem que isso é algum tipo de metáfora educativa ou motivacional.

Os chaveiros também confundem o Rafa, o cãozinho shi-tsu daqui de casa. É que para passear com o cachorro testei várias saídas da casa e diferentes trajetos, para ver qual era o mais econômico em abertura e fechamento de portas. Mas o fator determinante acabou sendo a comida do Rafa. O cãozinho chega faminto e sedento, então apesar de ser obrigado a fechar e abrir mais portas, uso a saída de serviço com o Rafa. É lá, bem longe do granito ju-paraná, que fica a comida e a água do cachorro.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Cinema na segunda-feira

Aproveitamos uma tarde livre e fomos ao cinema com as crianças. Assistimos "Thor", em 3D e dublado. O ator que faz o herói parece o Brad Pitt anabolizado. A fita é co-estrelada pela Natalie Portman, a princesinha de Star Wars, que hoje emociona em filmes para públicos de todas as idades. O filme foi dirigido pelo Keneth Branagah, que eu conheci no papel super-clássico de Henrique VIII, declamando versos shakespeareanos. Parece adequado, Thor é um super-herói bem pomposo. Ninguém parece mais se importar em fazer concessões para fazer o que se quer fazer. Acho que estou fora de moda. O filme não é de todo ruim, mas é muito longo e escuro. Até as cenas diurnas são nubladas. Odin é Anthony Hopkins, que também já foi canibal e serial killer, Zorro e pai do Zorro. Uma vez vi uma entrevista em que ele dizia que não se importava mais em representar, o que ele queria era se divertir. Michael Kane também disse a mesma coisa. E bem antes dele, Brando. A mãe do Thor é feita pela Renneé Russo, que já foi linda e hoje está esmaecida e mais velha. Meu filho e um primo gostaram das cenas de luta e guerra. Minha filha e a prima ficaram com medo de algumas cenas de luta e guerra. Eu gostei dos efeitos especiais. O que achei mais divertido foi o efeito especial do vôo do Thor. Parecia muito com os desenhos antigos do Thor, em preto e branco e semi-animados. Naqueles desenhos, o personagem ficava em pose congelada e o fundo era movido, sem muita tecnologia. O vôo do Thor é mais ou menos a mesma coisa. As cenas finais são um passeio intergalático em 3D, infelizmente as luzes acenderam antes que tudo acabasse.

domingo, 15 de maio de 2011

Novas caminhadas para o velho Rafa

Rafa e eu nos acostumamos a passear em volta de um retângulo, durante vinte minutos. Podemos fazer isso no sentido horário ou anti-horário, mas tem que ser alguma coisa próxima de vinte minutos. Mais do que isso o Rafa e eu reclamamos e ficamos cansados.

Rafa é o cão shi-tsu da minha filha. Agora que nos mudamos para uma casa num dos melhores bairros desta cidade, Rafa se assoberbou e não liga a mínima para a política de boa vizinhança. Se um cachorro late para ele, do outro lado da cerca, Rafa trata logo de latir de volta, mais alto.

Nos tempos do apartamento, na superquadra, Rafa parecia ser mais tímido e não contra-latia. Agora, ele late primeiro e vê o tamanho do outro cachorro depois. E não importa o tamanho do bicho do outro lado da cerca, Rafa realmente fica muito valente quando percebe que o outro animal está contido por uma grade.

Também não importa mais se os potenciais adversários estão em maior número. Rafa enfrenta matilhas inteiras com seus latidos. Eu observo em silêncio e às vezes reprimo o Rafa.

_Pô, Rafa, vê se te enxerga, esse doberman pesa uns oitenta quilos! Pare de latir!

_Rafa, deixa esse collie, o pitbull e o paulistinha na deles. Eles são de paz!

_Ah, não, Rafa, não provoca o policial! Ele vai acabar pulando essa cerca e nos pegando. Se ele pular eu deixo você de aperitivo para ganhar tempo, hem, Rafa.

Os vizinhos ainda não se acostumaram comigo e o Rafa. De manhã, quando fazemos a nossa caminhada proativa, os cães espumam de raiva quando passamos. Alguns vizinhos espiam pelas janelas. Sou o novo morador chato que está quebrando uma rotina de silêncio e calmaria com um cãozinho. Eu aceno e digo bom dia, bom dia. Ninguém responde.

A caminhada noturna também não é diferente. Eu e o Rafa subimos a rua, junto com os latidos em crescendo. Todo o trajeto é pontuado por paradas do Rafa em frente às grades dos novos desafetos. Ele enfrenta todos com galhardia. E faz um xixizinho de Rafa esteve aqui em lugares estratégicos. Acho que ele não está sabendo fazer novas amizades. Mas eu também não estou muito melhor. Eu aceno e digo boa noite, boa noite. Ninguém responde.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

A volta das prateleiras

Deu tilt no blogger e não consegui colocar o texto abaixo na noite de quinta-feira.

Passei o dia montando prateleiras. Descobri uma parede inteira da casa que posso encher de prateleiras e estou fazendo exatamente isso. Só saí de casa para comprar cantoneiras. Para não correr o risco de ter que repetir a viagem, comprei logo oito cantoneiras. Aí comecei a furar a tal parede. Devo parecer um maluco com uma furadeira nas mãos, mas me sinto um artista. Uma espécie de Andy Warhol careca misturado com Jason e o cara malvado de “O Massacre da Serra Elétrica”. A diferença é que eu uso uma furadeira.

Uma vez vi o trailler de um filme policial em que a furadeira era a arma do crime. Tem um filme pornô famoso estrelado por uma furadeira. Ou será um martelete?

Tenho um caso antigo com prateleiras. Já tive uma coleção enorme, mas fui me desfazendo dela aos poucos. Mas ainda tenho alguns bons modelos comigo. O mesmo vale para as cantoneiras. Gosto das cantoneiras reforçadas, com mais de três centímetros de largura. As finas quebram o galho.

Coloquei oito prateleiras e um pequeno armário grudados na parede. Eram portas e paredes de um armário gigantesco que renovamos com a reforma. As portas e paredes estavam boas e só precisaram de uma limpeza. Ficaram ótimas. Coloquei um monte de tralha e restos de obra nas prateleiras. Sobraram algumas latas pequenas de tinta, verniz, gesso, silicone, colas, tubos, conexões e um monte de luminárias.

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Os novos barulhos

Quando a gente se muda, é preciso acostumar os ouvidos. Os barulhos são diferentes. Depois de treze anos em apartamento, acostumei a andar descalço dentro de casa, para não ferir os ouvidos do vizinho de baixo. Também me acostumei a evitar a descarga durante a noite, para não acordar os vizinhos de baixo e de cima. Me acostumei a sussurrar no banheiro, para não ser ouvido por todos os lados. E também não ligo máquinas de lavar louça ou roupa depois das oito da noite.

Numa casa tudo é permitido. Mesmo assim, continuo com os meus costumes. E tratei logo de me habituar aos novos barulhos. A minha casa, descobri na primeira noite, estala que é uma barbaridade. Existe uma grande escada de madeira na casa, que dá acesso aos quartos, na parte de cima, e à cozinha, na parte de baixo. É uma bela escada de ipê e trato ela com carinho e produtos Ingleza desde que a comprei, junto com a casa. Imaginei que era a escada que estalava, mas na madrugada da segunda noite descobri que os estalos vinham de outro lugar. Não era um barulho interno, era externo. Eram as telhas, é claro.

E além do barulho das coisa, tem ainda o barulho dos bichos. Casa tem muito bicho. O sótão tem um ou dois casais de morcegos, mas eles estão de mudança. Lagartos e lagartixas existem às pencas, mas eles quase não fazem barulho. Pererecas e mamangavas também. Descobri que existem muitos marimbondos ou vespas gigantes nas proximidades. Cansado de matar as vespas com pancadas da raquete de tênis elétrica (os choques não funcionam nos bichões), decidi passar a fechar as janelas dos quartos a partir das seis da tarde. Um bicho desses se debatendo no vidro faz um barulho assustador. Tenho pavor de marimbondos desde que recebi umas trinta picadas desses gigantes e fui parar no pronto socorro, com um big duma reação alérgica.

Os morcegos estão de mudança porque um casal de corujinhas fez o ninho no jardim, na parte da frente da casa. Eles são pontuais. Saem para caçar lá pelas seis e meia e às nove e trinta já estão trazendo comida de volta. Evito chegar perto do ninho, porque esses bichos são bem agressivos quando se sentem ameaçados. Avisei às crianças para tomar cuidado. E eu também mantenho uma distância segura dessas aves. Rafa, o destemido cãozinho shi-tsu, morre de medo de coruja, não preciso avisar a ele.


No quintal também existem joões de barro, pombas e rolinhas. Às vezes passa um bando de periquitos. Eles vigiam o meu pé de jabuticabas. Minha mãe me disse que é bom aguar o pé de jabuticabas todos os dias, que assim ele dá frutos várias vezes ao ano. Por isso comprei uma mangueira de jardim semi-profissional. Prestando atenção nos barulhos e sons do jardim, descobri um vazamento numa tubulação. Felizmente, consegui remendar.

Tudo é fascinante. É delicioso me acostumar aos novos barulhos da nova casa. E um dos mais bacanas é o som do vento nas folhas das árvores do quintal.

terça-feira, 10 de maio de 2011

Um telefone internacional

Joaquim, esse meu amigo, ligou para me convidar para o seu aniversário.

_Alô, Careca?

_Não, é o pai dele. Estou com o telefone do Careca.

_O Sr. pode dar um recado a ele?

_Na verdade, não. A ligação vai cair.

_Mas como eu faço para falar com...

E a ligação caiu.

Joaquim tentou novamente.

_Alô, Sr. Pai do Careca?

_Sim, estou com o telefone dele. Mas não dá para falar agora.

E a ligação caiu.

_Alô, é só falar para ele ligar para o Joaquim.

_Não dá, estou numa viagem...

_Alô?

E na última tentativa o Joaquim descobriu que meu pai estava num trem bala, em algum lugar da Europa. Meu celular é meio peba, mas é 4band, o que permite ligações internacionais. No entanto, ele não resiste a eurotúneis. Por outro lado, eu posso me gabar de ter um telefone bem viajado.

Joaquim acabou passando um e-mail me avisando do churrasco do seu aniversário. Foi excelente.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

A Família Careca mudou

Sim, minha querida kombi de leitores. Estamos mudados. Saímos do velho apê e nos mudamos para uma casa bacaninha num dos bons bairros desta cidade. E o primeiro efeito da mudança é o nariz entupido. Estou fanho pra cacete tem uns cinco dias. Mas a minha fanhice é uma questão de caráter, como já disse um ex-amigo. Minha mulher está fanha porque me ajudou a empacotar e desempacotar milhares de coisas. As crianças curtiram uma semana de piscina sem parar e por isso estão endefluxadíssimas. Rafa é o único que está cheirando bem. Mas só porque anteontem o levei para um banho e tosa no pet shop. Antes ele estava um lixo.

Sim, foi por isso que eu sumi esses dias todos. Internet é um dos últimos itens a serem eliminados numa lista de prioridades da mudança e somente hoje os caras vieram. Demoraram cerca de cinco horas para descobrirem quais eram os dutos não-entupidos da casa e onde cada um levava a cada qual. No fim das contas, fizeram um bom serviço. Estou conectado. E fora de ritmo.

Uma das coisas que mais estou curtindo na nova casa é a descoberta do novo lugar de cada coisa. Sim, porque as coisas têm um lugar próprio e um jeito específico de determinar essa localização. Isso faz particularmente sentido na cozinha, onde o lugar dos copos e dos pratos é determinante para o bem-estar dos moradores da casa. Tentei vários armários, mas nenhum funcionou. Minha mulher tirou de letra. Pediu para as crianças pegarem um copo e um prato e ficou observando. Aí foi aonde eu havia colocado os copos e os pratos e os acomodou onde as crianças tinham olhado.

Eureca! - eu disse para mim mesmo. Sim, eu sou do tipo que diz Eureca para si mesmo. Mostrei o prato de comida para o Rafa e disse para ele tratar de procurar a comida dele. Naturalmente, não deu certo. O shi-tsu da minha filha ficou abanando o rabo, deitado como um tapete felpudo. Mais uma vez, foi a minha mulher que descobriu a solução.

_Não coloque a comida do cachorro aí! Vai manchar o meu granito ju-paraná! O lugar dele é lá na área de serviço. Lá não mancha e não fica cheiro de cachorro.

Sim, minha querida kombi, viver numa casa é ser iniciado em um mundo novo de mistérios, em um novo universo de aprendizagem e...

_Careca, você não vem dormir?!

_Mas querida, estou atualizando o blog...

_Por falar em atualização...

Então, meus queridos leitores e leitoras sou obrigado a abandonar a companhia de vocês. Mas amanhã eu volto. Inté.

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