domingo, 31 de março de 2013

A vida é doce



The Doobie Brothers - Long Train Running

Chocolate. Torta de creme com fatias douradas de maçãs. Suspiros. Um excelente café expresso. Mais chocolate.

sábado, 30 de março de 2013

Bronca profilática



John Maus - Do your best


Estávamos no café-da-manhã, onde tivemos uma breve conversa sobre a logística do dia.

_Vou levar vocês para a aula de música.

_Ah, não!

_Por quê anão?

_Porque você dá muita bronca.

_Só dou bronca quando é preciso. Você fez alguma coisa para merecer uma bronca?

_Não.

_Então não vai ter bronca.

Depois que meu filho saiu para se aprontar, minha mulher continuou a conversar comigo.

_Acho que você deveria diminuir as broncas nas crianças. Elas estão ficando chateadas - ela disse.

_Não vou parar de dar bronca porque eles não gostam. Às vezes é necessário.

_Mas você exagera.

_Não acho. Minhas broncas são bem consistentes, pedagógicas e profiláticas.

_Você fica meia hora falando a mesma coisa.

_O objetivo da bronca é exatamente esse: provocar chateação a ponto da pessoa não querer levar outra.

_Eu não dou bronca assim.

_Pois é, suas broncas são meio explosivas, mas não duram quase nada. Num instante você esquece de tudo, se arrepende e passa a adular as crianças.

_Não é isso...

_Talvez você pudesse melhorar as suas broncas.

_Agora virou uma conversa sobre a qualidade das broncas?

_Existem as que dão certo e as que não servem pra nada.

_Ai, como você é irritante.

_Deve haver uma maneira de transformar a eficiência das broncas num gráfico.

sexta-feira, 29 de março de 2013

A Sexta da Paixão



Ann-Margret - I Aint Got Nobody

As sextas-feiras santas da minha infância eram bem rigorosas, não eram como as de hoje. O Dia da Paixão de Cristo era um dia de não pode. Não pode escutar música. Não pode comer carne. Não pode brincar. Não pode ver televisão. Não pode brincar de finca. Não pode correr. Não pode pular. Não pode jogar futebol...

_Pode ler um livro, mãe?

Eu falava baixo, mas minha mãe ficava me olhando furiosa, como se eu tivesse gritado e cometido um sacrilégio. Eu sabia que no sábado de aleluia ela se lembraria que eu bem merecia umas palmadas.

_Depende. Que livro que é? – dizia minha mãe, num sussurro.

_Aahh( eu dizia para ganhar tempo e pensar num livro bem inocente) Tarzan?

_Não. Nada de violência. Cadê aquele livro que você ganhou de presente na primeira comunhão? – cochichava.

Eu sabia onde estava. Mas eu tinha jurado que jamais leria aquele livro. Chamava “Tenho pressa de crescer”. Eu não tinha. Eu era meio nanico e franzino, mas eu não tinha a menor pressa de ficar grande e ter responsabilidades. Eu só queria saber de brincar e de ler livros de aventuras. E gibis.

_Mãe, pode ler gibi?

_Não, vai ler coisa que preste. Vai estudar, menino.

Nas sextas-feiras santas quase todo mundo ficava em casa, só saía para ir a missa. Eu ficava olhando pela janela. Muito de vez em quando você via um carro passar.

_Mãe, posso descer e ficar lá embaixo? Prometo que não vou fazer nada.

_Então pra quê descer?! Fique sem fazer nada aí mesmo.

Eu ficava. A sexta-feira santa era um dos maiores dias da minha infância, um dos que mais demorava a passar. Eu pensava em escutar música. Eu pensava em comer carne. Eu pensava em brincar. Eu pensava em correr. Eu pensava em tomar sorvete de chocolate no balanço do parquinho da quadra. Eu pensava em ler as aventuras do Tarzan, no gibi do Batman. E só depois de ter pensado muitas vezes em tudo o que era proibido me dava conta de que eu estava perdido e queimaria no fogo do inferno.

Felizmente minha mãe sempre rezou muito.

O projeto de legalização da prostituição

Reproduzo o Projeto de Lei 4211/2012, que aguarda parecer da Comissão de Direitos Humanos e Minorias, em tramitação no Congresso Nacional.

PROJETO DE LEI Nº _________/ 2012
(Dep. Jean Wyllys)
Regulamenta a atividade
dos profissionais do sexo.

LEI GABRIELA LEITE

O Congresso Nacional decreta:
Art. 1º - Considera-se profissional do sexo toda pessoa maior de dezoito anos e absolutamente capaz que voluntariamente presta serviços sexuais mediante remuneração.
§ 1º É juridicamente exigível o pagamento pela prestação de serviços de natureza sexual a quem os contrata.
§ 2º A obrigação de prestação de serviço sexual é pessoal e intransferível.

Art. 2º - É vedada a prática de exploração sexual.
Parágrafo único: São espécies de exploração sexual, além de outras estipuladas em legislação específica:
I- apropriação total ou maior que 50% do rendimento de prestação de serviço sexual por terceiro;
II- o não pagamento pelo serviço sexual contratado;
III- forçar alguém a praticar prostituição mediante grave ameaça ou violência.

Art. 3º - A/O profissional do sexo pode prestar serviços:
I - como trabalhador/a autônomo/a;
II - coletivamente em cooperativa.
Parágrafo único. A casa de prostituição é permitida desde que nela não se exerce qualquer tipo de exploração sexual.

Art. 4º - O Capítulo V da Parte Especial do Decreto-Lei no 2.848, de 7 de dezembro de
1940, Código Penal, passa a vigorar com as seguintes alterações:
“Favorecimento da prostituição ou da exploração sexual.
Art. 228. Induzir ou atrair alguém à exploração sexual, ou impedir ou dificultar que alguém abandone a exploração sexual ou a prostituição:
.........................................................................................”
“Casa de exploração sexual
Art. 229. Manter, por conta própria ou de terceiro, estabelecimento em que ocorra exploração sexual, haja, ou não, intuito de lucro ou mediação direta do proprietário ou gerente:
........................................................................................”
Rufianismo
“Art. 230. Tirar proveito de exploração sexual, participando diretamente de seus lucros ou fazendo-se sustentar, no todo ou em parte, por quem a exerça:
.............................................................................................”
“Art. 231. Promover a entrada, no território nacional, de alguém que nele venha a ser submetido à exploração sexual, ou a saída de alguém que vá exercê-la no estrangeiro.
.........................................................................
“Art. 231-A. Promover ou facilitar o deslocamento de alguém dentro do território nacional para ser submetido à exploração sexual:
......................................................................”

Art. 5º. O Profissional do sexo terá direito a aposentadoria especial de 25 anos, nos
termos do artigo 57 da Lei 8.213, de 24 de julho de 1991.

Art. 6º. Esta Lei entra em vigor na data da sua publicação.
Brasília, de julho de 2012.
Jean Wyllys
Deputado Federal PSOL/R

O inteiro teor com justificativa pode ser encontrado aqui.

Se você acha bacana, entre em contato com os parlamentares da comissão e diga que acha bacana.

Se você não está de acordo, entre em contato com os parlamentares da comissão e diga que não está de acordo.

Mas ninguém precisa subir em cima da mesa.

Na minha opinião, caso a proposta vire lei, ela não produzirá os efeitos positivos alegados em sua justificativa. A regularização da profissão do sexo não constitui instrumento
eficaz ao combate à exploração sexual, não favorece a fiscalização e nem o controle do Estado sobre o serviço. Aqui, nada funciona, nem mesmo a emissão de alvará de funcionamento para boates. Além disso, cismei com o § 2º do artigo 1º, que diz: "A obrigação de prestação de serviço sexual é pessoal e intransferível." Ou seja, uma vez contratado, o serviço não poderá ser negado, é uma obrigação. Não sou nenhum expert, mas a minha noção de estupro é violentada por esse parágrafo. Pensava que o estupro estava configurado quando a pessoa não considerava um não como resposta a qualquer tempo. Mas pelo projeto, contratou, tá contratado, é obrigação. Me incomodou também o fato de que, de acordo com a proposta de lei, qualquer pessoa seja um profissional do sexo nato, já estando apta a exercer a profissão a partir do aniversário de 18 anos. Isso, sem dúvida nenhuma, reduzirá os índices de desemprego. Tenho certeza também que todas as pessoas que estudam e investem muito tempo e recursos aprimorando conhecimentos e habilidades ficarão satisfeitas com a idéia. Também receio que, com as cooperativas de sexo funcionando super-bem, numa boa, sem violência, drogas, ou menores de idade, o excesso de oferta derrube o preço dos serviços de tal forma que a atividade termine por deixar de ser interessante economicamente.

O que me lembra aquela piada do marido que diz à esposa que vai se mudar para uma remota ilha de Java. A mulher pergunta o motivo e ele diz que na tal ilha estão pagando 100 dólares por uma transa. A mulher também começa a fazer as malas.
_E você vai pra onde? - diz o marido.
_Vou te ajudar. Você não vai conseguir sobreviver com 100 dólares ao mês.


P.S: Enquanto procurava o projeto de lei, descobri também que "o Ministério do Trabalho e Emprego reconhece a prostituição como ocupação regular, compondo a Classificação Brasileira de Ocupações (CBO), dando assim contornos de reconhecimento de tal segmento laboral. Destarte, são os profissionais do sexo contribuintes obrigatórios da Previdência Social por força da Lei n° 8.212/91, assegurando-lhes código próprio de contribuição, sob o numero 1007, embora muitos profissionais do sexo desconheçam seu direito a salário-maternidade e auxílio-doença, bem como à aposentadoria, todos mediante contribuição de 20% do salário mínimo. Leia mais:

quinta-feira, 28 de março de 2013

Dilema



Ann-Margret - "Bill Bailey" Screen Test 1961

Fiquei sabendo hoje que existe um projeto na Comissão de Direitos Humanos.

Sou a favor ou contra a regularização da profissão de prostituta?
Não sei. Estou pensando em voz alta.

Bom, não deveria haver discriminação de gênero. Se é pra regularizar, vale para todos. Conheço três. O masculino. O feminino. E o andrógino platônico. Mas pode haver outros. Talvez uma boa maneira de se pensar um tema como esse seja me colocando nos sapatos de uma prostituta(o), ou melhor, de um profissional do setor de sexo. Eu passaria a ter direitos profissionais reconhecidos. Exerceria um dos itens de profissões previstas na declaração de Imposto de Renda. Teria FGTS. Seguro-desemprego. Poderia ser autônomo. Teria direito à sindicalização. Poderia constituir até mesmo um Conselho Regulamentador para combater imperícias e casos de má conduta dos profissionais do setor.

Mas teria carteira de saúde especial ou estaria sujeito à fiscalização do ministério do trabalho? Na Áustria, de acordo com John Irving em "O Mundo Segundo GArp", as prostitutas legalizadas tinham uma carteira de trabalho especial, mas eram obrigadas a se submeter a inspeções rotineiras por fiscais de saúde. Uma versão tupiniquim disso estaria imune aos nossos habituais problemas burocráticos? Quais seriam os critérios para emissão de permissão, alvará ou concessão? Haveria a figura da prostituta(o) aprendiz? Seriam constituídas zonas específicas de trabalho? Como seriam os cursos de formação profissional? Como seria feita a certificação e/ou reconhecimento dos profissionais que já estão em atividade? Eles já teriam direito ao seguro-desemprego ou haveria carência? Haveria fomento oficial à atividade, um auxílio pílula azul, ou bolsa prazer? A carteira profissional(como a dos motoristas profissionais) teria diferentes gradações e especialidades? O SEBRAE entraria com cursos para fomentar o empreendedorismo na área? Os jornais voltariam a publicar anúncios dos profissionais do setor? Ou o Conselho de Autoregulação Publicitária manteria decisão contrária? Diploma? Selo de qualidade? Entra no IDH? Vira pergunta no censo? Bom, que mal pode haver nisso? Não sei. Estou pensando alto. Será que o projeto de lei fala alguma coisa sobre isso? Não tenho idéia. Como seria o texto da justificativa presidencial para a institucionalização da profissão?

Também me vi pensando no impacto que a regulamentação da profissão pode provocar em outras atividades e nos cofres públicos. Tendo em vista o cipoal legal em que vivemos, isso é bem difícil. Mas vamos lá. Visto que a prostituição não trata de bem, mas de serviço prestado, o imposto cobrado sobre a atividade (ISS) deveria ser recolhido aos cofres do município? Haveria ICMS sobre preservativo vendido no local de prestação de serviços? Ou isso deveria ser recolhido no estado de origem? E quanto a outros aparelhos e objetos complementares à atividade? Como combater a guerra fiscal entre os estados que quiserem incentivar a prostituição dentro dos seus limites? O BNDES poderia apoiar o desenvolvimento da prostituição? O cartão BNDES poderia ser utilizado para comprar máquinas e equipamentos que incrementassem a atividade? Especialidades sado-masoquistas implicariam na exigência de cursos específicos? E quanto à exportação? Como combater o cartel no setor? A livre associação de prostitutas para a prestação de serviços será permitida pelas juntas comerciais? Haveria necessidade de abolir o crime de cafetinagem? Há possibilidade de monopólio, oligopólio e cartelização do setor? Se é possível, seria desejável evitar isso? Existem estudos de mercado? Propostas de benchmarking? Eike sabe disso? A Caixa vai financiar com juros mais baixos? Qual seria o papel do CADE na coibição da formação de oligopólios de prostitutas com mais de 50% do mercado regional?

Deveríamos incentivar a criação de campeãs nacionais na atividade? Eike entraria nessa também? Teríamos uma PX? Uma Prostiboi? Seria possível utilizar recursos de fundos internacionais para estimular a criação de empresas de serviços de prostituição? Experts sobre a regulamentação austríaca poderiam ser contratados a prestar consultorias no país? Gueixas, profissionais austríacas ou prostitutas de outras nacionalidades, inclusive cubanas, poderiam exercer atividade livremente no país ou teriam que passar por teste de proficiência? Quem faria o teste? O MEC? Concessionárias? Os testes vocacionais poderiam incluir a profissão? Os currículos escolares poderiam conter informações básicas sobre esta profissão? Os acordos do Mercosul incluiriam esses serviços? E o Código de Defesa do Consumidor? Serviços contratados por telefone ou internet poderiam ser negados presencialmente? Participação eventual em suruba poderia caracterizar vínculo empregatício? Serviços noturnos teriam remuneração obrigatoriamente superior aos serviços prestados durante o dia? A atividade é securitizável?

E quanto às licitações? Com a regularização da profissão, a administração pública poderia contratar prostitutas com dispensa de licitação caso a despesa estimada fosse inferior a 80 mil? Como coibir a formação de preços? Como evitar o direcionamento dos editais de licitação? Prostituta(o) com expertise reconhecida acarretaria em inexigibilidade ou dispensa de licitação? Seria possível licitar por tabela de preços? Haveria pregão? A regulamentação da profissão fere o princípio da moralidade da administração pública? A Lei de Improbidade Administrativa seria aplicável a servidor público que, não estando a serviço, contrata prostituta para a prestação de serviços particulares? O que seria aceitável como brinde? Recursos de empreiteira amiga poderiam ser usados para custear despesas de senadores com profissionais do sexo, desde que devidamente legalizados e reconhecidos?

Juízes de futebol que já receberam indenização por terem as mães xingadas de profissão agora legalmente estabelecida e regularizada serão obrigados a devolver o dinheiro?

Os ministérios teriam uma rubrica orçamentária específica para tratar da contratação do serviço de prostitutas? Seria criada uma Comissão Especial de Prostituição no Congresso? A Frente Parlamentar para a Prostituição? Haveria uma cota de emendas ao orçamento destinada à contratação de prostitutas? Esses serviços poderiam se aproveitar de recursos oriundos de emendas parlamentares destinadas ao incremento do turismo, esporte e/ou lazer? A atividade mereceria um ministério próprio? Os preços da atividade entrariam na composição dos índices oficiais e, conseqüentemente, influenciariam a taxa da inflação? O governo criaria o PEC? Alguém pensou em prostíbulos públicos com servidores devidamente concursados? E uma sociedade de economia mista, a PROSTITUTABRAS S/A, que poderia patrocinar blogs e publicações de jornalistas simpáticos? É impossível também não pensar nos grandes eventos esportivos, seja na Copa, nas Olimpíadas e na F-1. Haveria reserva de mercado? Cazuza estava certo?

Os legisladores devem estar atentos aos mais variados aspectos do tema. As implicações de ordem prática são muitas.

Digamos que você é um profissional liberal(médico, advogado, dentista, etc) e, a muito custo, consegue comprar uma loja num ambiente de comércio e prestação de serviços. No dia seguinte, você descobre que na loja ao lado abriram um escritório para a prestação de serviços sexuais, devidamente reconhecido e registrado como empresa de pequeno porte. O local passa a ser freqüentado, entre outros, por usuários de drogas lícitas, políticos de fina estampa, maiores de idade, policiais e pessoas sem ficha, fiscais do trabalho e consumidores da boa música. Você tem muitas alternativas, é claro. Mas vou listar seis, marque a que você achar melhor.

1 - Você venderia a sua loja o mais depressa possível.

2 - Você chamaria sua mãe, sua mulher e sua filha para conhecerem a loja vizinha e os simpáticos freqüentadores. Aproveitaria para perguntar sobre oportunidades de estágio e empregabilidade da terceira idade.

3 - Você permaneceria indiferente, porque você sabe que nada funciona nesta porra.

4 - Você subiria na mesa da sala da Comissão de Direitos Humanos e xingaria o presidente de racista.

5 - Você beijaria a Fernanda Montenegro na boca. De língua.

6 – Você arrumaria um estágio para você mesmo na loja ao lado, já pensando numa forma de engordar a aposentadoria e complementar renda.


P.S: Obrigado por ter lido esse texto até o fim. Você é muito paciente. Ah, o video da Ann-Margaret não tem nada a ver com o texto.

P.S do PS: Putz! Só agora achei o link para o inteiro teor do projeto de lei. Talvez eu volte a esse assunto, mas estou com preguiça.


quarta-feira, 27 de março de 2013

Pochete



Ocote Soul Sounds - Agua Santa

Tenho orgulho de muitas coisas. Coisas bestas, todas elas, mas que me deixam de peito cheio de ter vivido e experimentado. Em algum lugar da estante, por exemplo, está o meu diploma de datilografia. É uma coisa à tôa, não é nada, não é nada e não é nada mesmo. Mas tenho orgulho. Estudei na Escola Bennett, que ficava em cima de uma loja de couros, perto da lanchonete do Murakami. Treinava à noite. Fiz uma das melhores provas de velocidade da minha turma. Tudo bem, era uma turma cheia de disléxicos, mesmo assim foi um bom tempo.

Outra coisa que me deixa orgulhoso é trocar courinho de torneira. Troço besta, né? Troco rapidinho, sei o macete para encaixar o courinho novo. Também tenho orgulho de saber que o nome certo do courinho é carrapeta, mas na loja ninguém vai saber disso. O melhor é falar courinho. Quer mais um? Sei assobiar. Milhões de pessoas em todo o mundo sabem assobiar. Mas eu sei assobiar Brasileirinho, o que me deixa todo faceiro. Também sei que assoviar e assobiar é a mesma coisa. Não é pra qualquer um, hein?

É lógico que também tenho vergonha de algumas coisas. Não é nada de pinta, nem verruga, nem perna mais curta que a outra. Tenho tudo isso, é claro, mas não me incomodo. Os problemas são os dedos mínimos dos pés, os dedinhos. Por alguma razão obscura, meus dedos são meio balofos e calosos. As unhas desses dedos são pequeninas, as menores que tenho. Definitivamente, meus dedos estão fora do padrão de beleza atual. É como comparar as pinturas com as mulheres calipígias e aquela Miss Bumbum que tirou fotos na Torre Eiffell. Meus dedos levam a pior.

Também tenho vergonha de ter usado pochete durante uns três ou quatro anos, antes de casar. Muita gente considera isso imperdoável. Alguns amigos me sacaneiam por isso até hoje. Minha mulher mesmo ameaçou terminar comigo se eu continuasse a usar a minha primeira e única pochete. Era linda, a minha pochete. E cabia muita coisa. Minha mulher disse que eu tinha que optar, ou ela, ou a minha pochete. Não hesitei. Desde aquele dia, nunca mais usei a Ritinha. Sim, é o nome da minha pochete. Não tive coragem de jogá-la fora. Pensei em vender ou dar de presente a alguém, mas depois percebi que não poderia dar a Ritinha para outra pessoa. Sentiria ciúmes. Então envolvi a pochete em papel de seda e guardei numa caixa. Ficou lá durante anos e anos.

Por que estou falando nisso? Ontem encontrei a caixa e a pobre Ritinha. Todo mundo sabe que a moda vem e vai, vai e vem. Quem sabe?

terça-feira, 26 de março de 2013

Rolling Stones - All Down the line



Rolling Stones - All Down the line

Ética



Candy Dulfer - Complicated Lives

"É importante reconhecer que nomear alguém para um cargo para o qual não tem competência, configura um desvio ético tanto de quem nomeia, quanto de quem aceita o cargo para o qual não está qualificado."

A frase é de Marcílio Marques Moreira e está disponível na página 9, deste documento, disponível no site do BNDES.



domingo, 24 de março de 2013

A hierarquia dos xingamentos



Curb Your Enthusiasm - Empty Gesture - To say something without an intention of actually doing it.


Meninos sempre xingaram, amaldiçoaram e caçoaram dos outros meninos. É lógico que também brincaram, vibraram e fizeram festa juntos. É assim e acho que sempre será. A não ser que aconteça algo como naquele conto de ficção científica do Philip K. Dick, em que os aliens conquistam o mundo depois de popularizar entre as crianças um jogo parecido com um banco imobiliário às avessas, onde ganha quem perde. Vencia a partida quem ficasse sem dinheiro e sem propriedades. No conto, os seres extraterrestres eram uma espécie de comunistas espaciais que não apelavam para pogrons e campos de extermínio. Eles preferiam a ação lenta: minar a resistência dos terráqueos acabando com a capacidade crítica das crianças, eliminando a noção de propriedade.

É um conto datado, da época da guerra fria e bem difícil de comparar com a realidade brasileira. Aqui, tendo em vista as últimas redações do ENEMa e os discursos do primeiro escalão, talvez estejamos destruindo a capacidade de articulação e concatenação de idéias, o que talvez seja mais eficaz para a nossa derrocada definitiva. Mesmo assim, torço para que as capacidades de xingar e praguejar sejam mais arraigadas e presas ao instinto, como parece provar qualquer martelada no dedão, e nos ajudem a resistir e a não entregar a rapadura de vez. Acredito que, a começar do amor de mãe(e de pai), só defendemos o que nos é próprio.

Quando menino, três xingamentos eram motivos inegociáveis de pancadaria e briga de soco: maricas, dedo-duro e baba-ovo. Maricas não é o mesmo que chamar de mulherzinha ou de enrustido, não tem nada a ver com o sexo ou com a sexualidade. Existem mulheres corajosas que não são mariquinhas e exalam feminilidade. Para citar alguns exemplos, minha mãe, minhas duas irmãs, minha mulher, minha filha e um monte de amigas nunca foram mariquinhas e se forem provocadas não duvido que saiam no braço com o ofensor. Maricas, ou mariquinhas, tem mais a ver com a falta de valentia e brio, é gente com sangue de barata. Todos os meninos queriam ser Tarzan, Super-Homem, Batman, Robin ou até mesmo alguém vestido de colant roxo e sunga listada de preto e amarelo, com máscara, desde que fosse valente e combativo como o Fantasma. Os que não queriam ser assim, a gente chamava de mariquinha. Quem não saísse no braço (e não precisava vencer, só precisava sair do lugar e ter coragem de xingar de volta) a gente continuava a chamar de mariquinha. Por natureza, é um descontente. Sempre se julgará preterido, mas continuará a esperar que as coisas lhe caiam do céu. Sua covardia é também o seu túmulo. Todos lhe viram as costas e o esquecem rapidamente. Ele aprende rápido que ninguém se lembra dos covardes e por isso dará pitis de pretensa valentia.

Dedo-duro também era um xingamento que descambava em porrada. O rato é sempre desprezado. Desde a mais tenra idade, a pessoa que nos entrega à desaprovação alheia nos é odiosa. Do mesmo modo, a pessoa que se esmera em buscar reconhecimento alheio nos constrange. O propagandista é o outro lado da moeda falsa do delator. E não adianta alegar bons motivos e propósitos. O delator é sempre vil e sempre mentirá para se defender. Ele nos delata por recompensa, que é sempre pífia comparada ao sofrimento que provoca. O dedo-duro é um dos maiores traidores e é sempre o primeiro a morrer nos filmes de gangsteres, pode anotar. O dedo-duro é a personificação mais abjeta e desprezível da vilania. O dedo-duro, uma vez descoberto, se contorce em remorsos e se esconde nas sombras. Como castigo, ao dedo-duro é imposto silêncio e todos lhe recusam a palavra.

Outro dos campeões dos xingamentos era baba-ovo. O puxa-saco é o aliado de todas as horas de quem está em alguma posição, ainda que ínfima, de poder. Para mim, há uma hierarquia de xingamentos. Baba-ovo é pior do que maricas, porque se faz de valente, sentado preguiçosamente atrás dos poderosos. É pior do que dedo-duro porque são os puxa-sacos que incentivam o dedo-duro a dedurar. Não lhe atormenta o remorso e desconhece o constrangimento que provoca. O lambe-botas é o bajulador de plantão. Ele só fará esforços para manter a sua zona de conforto. O bola-gato é o mais desprezível dos três, lhe falta a noção do ridículo. Ele alegará que a subserviência é melhor que a não sobrevivência. Mas isso é uma falácia. O que pode ser pior que servir voluntaria e regozijosamente aos maus? É possível ser bom sendo espontaneamente subserviente ao malvado? Acho que não. O baba-ovo, com seu egoísmo, é a omissão de todas as virtudes. É ele que perpetua a existência e o poder dos tiranos, déspotas e canalhas.

O campeão dos campeões dos xingamentos não é preciso dizer. É a soma dos três acima, na agressão direta à primeira pessoas que nos ama, antes mesmo que o ar entre nos pulmões.

sexta-feira, 22 de março de 2013

Eu não sou um cara legal



Curb Your Enthusiasm - I'm Not a Cool Guy

O facebook é um perigo, um perigo. Quando você percebe, está completamente viciado em acompanhar o que outras pessoas estão fazendo na rede. Uma das coisas que me deixa mais curioso é a mensagem "Seus amigos não fizeram nada de novo". Como? Tudo bem, eu não tenho tantos amigos assim, fico sem graça de mandar mensagem para os conhecidos pedindo para ser amigo. E se recusarem? E se nem se dignarem a responder? Eu me sinto como um adolescente com vergonha de pedir as meninas para dançar. Além disso, sempre tive poucos amigos, até mesmo o poderoso facebook não seria capaz de me transformar num sucesso social. Então acabei me acomodando com um número de amigos e amigas ainda menor do que a minha kombi de leitores.

Mesmo assim, a mensagem sempre me deixa curioso. Ninguém fez nada, coisa nenhuma? E aí começo a clicar nas páginas de um amigo, de outro, e quando percebo lá estou eu dando palpites onde não fui chamado. É um defeito antigo. Sofro da síndrome dos dois velhinhos do Muppet Show, lembra? Os dois viviam fazendo comentários reducionistas e negativos sobre a turma de Caco, o Sapo. O que você achou do show? Foi uma bomba! Bum! Uma explosão, muita fumaça e os dois velhinhos apareciam balançando as cabeças, meio tostados. Eu adorava. E às vezes eu sinto o mesmo prazer infantil ao navegar no facebook. Caramba, olha o que esse pateta está falando? Mas como alguém pode ser tão imbecil em acreditar nessa lorota? Rá, rá, rá, esse jamanta gosta desse tipo de música? Olha só o filme que esse mané gostou! Quem come isso, meu Padim Ciço? Já pisei em coisas com uma aparência melhor. Sim, eu não sou um cara legal. Penso coisas negativas e acho graça dos comentários do tipo "thanks for sharing". Thanks for nothing! O facebook não desperta em mim o animal social que há em todo ser humano. Ele desperta a besta encrenqueira que consigo reprimir usando pouco o telefone e me mantendo longe da comunicação interativa.

E pronto. Em pouco tempo passa. Devo sofrer de Síndrome de La Tourrette de curta duração, num instante a minha estupidez verborrágica passa. Aí bate o arrependimento. Putz! Pra quê fui abrir a boca? Ou melhor, por quê teclei essa coisa? Eu devia ter ficado na minha. Cacilda! E ainda cometi um erro de concordância. Agora aquele Mané vai pensar que eu sou mais mané do que ele! E essa avalanche de comentários? Por quê eu quero dar palpite numa matéria sobre o uso de uma peruca de bombril num desfile de moda? Onde estou com a cabeça? É possível excluir publicações e descurtir no Facebook, mas nunca tive coragem de fazer isso. Vai que alguém está observando a minha página e percebe que sumiram publicações. E se eu deletar exatamente a publicação que a pessoa pretendia comentar? Não, senhor. Não, senhora. O que foi publicado, foi publicado. O comentado, idem. E assim mantenho as mancadas no ar.

Apesar de tudo, não estou satisfeito com os botões do Facebook. Acho que "Curtir" não esgota tudo o que eu pretendo dizer com click rápido. Por isso, sou favorável à introdução de pelo menos mais dois botões, ao lado do Curtir. Um deles poderia se chamar Tosco, com implicações óbvias para uso. Comitiva gigante para Roma? Tosco. Líder é processado por suspeita de desapropriação irregular? Tosco. O outro botão poderia se chamar Magoei. De cara, esse botão daria margem para manchetes sensacionais sobre a rede social. Ou talvez fosse melhor um botão chamado Xô.

quinta-feira, 21 de março de 2013

O sofrimento dos anos 80



Jerry Lewis - Count Basie Orchestra

Uma das melhores coisas para fazer junto com as crianças(8 e 9 anos) é uma sessão de cinema com um filme velho, mais ou menos do tempo em que você achava que também era criança. Ontem, para estrear um cabo novo do IPAD, as crianças escolheram Ghostbusters no Netflix. No meio do filme, três coisas chamaram a atenção das crianças: a qualidade das animações, as tvs e os cigarros em cena.

_Pai, esse filme deve ser muito antigo! Não dá para ter medo desses monstros!

_Pai, as tvs eram caixas quadradas. E as telas eram ovais!

_Pai, eles fumam! Não pode! O cigarro faz mal!

Ghostbusters é uma comédia de 1984. Menos de trinta anos, não faz tanto tempo assim, eu quero acreditar. Mas faz. Eu digo a eles que não me lembrava de ter sentido medo daqueles monstros. O filme é uma comédia, os monstros tinham mais é que ser engraçados. Por isso tem geleca em todas as cenas com monstros.

_Pai, achei meio nojento. E geleca é meio sem-graça.

_Pai, eu achei tosco.

Sobre as TVs, eu contei que a maioria delas era em preto e branco quando eu comecei a ver TV. E eu só comecei a ver TV depois dos oito anos de idade. No interior era preciso ter uma antena muito alta para pegar um bom sinal, em torres e barras meio improvisadas sobre os telhados. As antenas viviam sendo derrubadas pelo vento e quebrando. As crianças disputavam os pedaços de antena. Nós fazíamos guerras de zarabatanas com as aletas de alumínio, que era sopradas com toda força. Mudei de assunto quando começaram a perguntar se poderíamos fazer uma guerra daquelas qualquer dia.

_Paiê, nós temos antena?

_Podemos fazer uma zarabatana?

_Me ensina a fazer um canudinho?

Sobre os cigarros, eu disse que eram os anos 80, e que também fumava naquela época, e que é verdade, o cigarro faz muito mal à saúde. Também disse que nos filmes, o cigarro é um recurso de cena. Era muito usado para indicar que uma pessoa estava muito nervosa, com muito medo, ou para dizer que estavam relaxando depois de praticar... exercício. Eles fizeram caretas de desaprovação. Tabaco agora parece ser tabu. Não sei se esse é o melhor caminho.

Numa das cenas os Caça-fantasmas quase destroem um hotel para capturar um fantasma verde, que fazia uma melecada danada por onde passava. Cobram cinco mil dólares do gerente do hotel, que inicialmente se recusa a pagar. O gerente depois muda de idéia quando os caçadores ameaçam soltar o fantasma da armadilha.

_Pai, não é justo, eles causaram um prejuízo muito maior do isso e ainda estão cobrando?! Estragaram o hotel inteiro!

_Essa era a piada, filho. Eram os anos 80.

Apesar das críticas, eles disseram ter gostado do filme. Minha filha disse que gostou da música.

_Pai, a melhor parte foi no final, quando destruíram o monstro.

_Pai, eu gostei das explosões - disse o meu filho.

Em geral, tenho a impressão que meus filhos estão sendo condescendentes comigo. Quando assistimos a filmes velhos juntos, tenho certeza de que agem de forma paternalista, como se eu precisasse ser consolado pela deficiência técnica dos efeitos especiais dos filmes. Seja como for, já está tarde e é hora dos dois irem dormir. Enquanto sobem as escadas, escuto os dois conversando:

_Dá pra acreditar num monstro de marshmellow?

_E aquele cachorro? Dava pra ver que era um desenho animado!

_E as TVs? Umas caixas pequenas!

_Caramba, como as crianças sofriam nos anos 80.


Talvez eu seja antiquado



Gay boy from Curb Your Enthusiasm

Quase passei ao largo de toda controvérsia sobre a presidência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara. Mas acabei conversando sobre o assunto com esse meu amigo dos tempos da universidade, que encontrei por acaso. É um amigo gay. Ele primeiro comentou sobre o vídeo em que o deputado usa a chapinha. Eu não vi, não me interesso por chapinhas. Digo ao meu amigo que uma parte da gritaria cessou com a informação de que os pais do deputado eleito presidente da CDH são negros. Mas isso só diminuiu o volume dos berros que o acusavam de racismo. Eles imediatamente começaram a gritar que o deputado é preconceituoso e usa a religião como plataforma política e também para ganhar dinheiro. Também não votaria nele, mas existem dezenas de políticos que colhem seus votos nos templos onde atuam e junto ao público que os conhece.

_E se descobrirem que o deputado é um ex-gay? – eu levantei a hipótese.

_Não existem ex-gays– disse o meu amigo.

_Você conhece todos os gays? Quem pode garantir que ele não se cansou de sexo e passou a se dedicar somente a sorvete de framboesa, por exemplo?

_Você conhece alguém que já cansou de sexo? – ele disse.

_Tem gente que já cansou de sexo com humanos. Para tudo sempre existe alguém. Conheço um cara que se cansou de falar com motoristas de táxi. Ele anda com um mapa e aponta para onde quer ir.

_Existem umas coisas que eu sei. Ex-gay eu nunca vi – disse o meu amigo.

_Também nunca vi enterro de anão. Qual é o problema do sujeito ser o presidente da comissão? – insisti.

_Ele não é a pessoa mais indicada.

_Hum-hum. Sei. Outros podem ser melhores, mas não é assim com tudo? Tudo bem, quem quiser protestar dentro da lei, que proteste. Só queria entender. Por quê esse sujeito é tabu para o cargo de presidente? Ele pode ser deputado, pode ser da comissão, mas não pode ser presidente da comissão. Por quê? Parece preconceito.

_Não é preconceito. Ele não tem condições de assumir – disse o meu amigo.

_Agora é você que está falando em assumir. Mas, veja bem, o deputado foi eleito presidente por 11 de 12 votos possíveis...

_Por quê você está defendendo aquele cara? – disse meu amigo.

_Eu não estou defendendo. Só não estou atacando.

_É porque você sabe que ele é anti-gay! É anti-minoria!

_Eu? Eu não sei de nada.

_Você também é anti-gay! Você também é anti-minoria!

_Eu?? Não, senhor, eu não sou anti-nada.

_É, sim! É, sim! É, sim!

Meu amigo gay foi embora, batendo o pé, zangado comigo. Talvez eu seja apenas antiquado. E antipático.

quarta-feira, 20 de março de 2013

O paraíso em que vivemos



Etta James, Harvey Fuqua - Spoonful

As últimas pesquisas de opinião comprovam que uma das melhores maneiras de se aumentar o índice de aprovação do governo brasileiro é fazer tudo errado. Basta alguém fazer uma besteira para que os aplausos comecem a pipocar. Não basta reduzir pela metade o valor da segunda maior empresa petrolífera do planeta. Entre outras coisas ruins é preciso esculhambar com o setor elétrico, garantir a desindustrialização definitiva, reduzir ainda mais drasticamente a qualidade da educação e promover a volta da inflação.

Alguns críticos dizem que o governo é ruim para fazer as coisas, mas sabe se comunicar muito bem. Eu poderia concordar se conseguisse entender o que algumas autoridades falam fora dos palanques. Embora reconheça que isso é quase impossível, pois vivemos intermináveis dias de comício. Os fascistas e nazistas criaram o conceito de guerra total e permanente. Os gênios da esquerda bolaram o clima de eleição total e permanente, e assim ninguém sai do palanque, onde se faz o diabo. Os mandachuvas mais vaidosos discursam durante horas. Os menos verborrágicos inauguram pedras fundamentais. Os gagos, que não conseguem unir sujeito e predicado, dão bronca no moço das emas. Ninguém liga. Todos estão felizes porque o dinheiro dos impostos está sendo gasto com quem precisa: cabos eleitorais, empreiteiras e agências de publicidade.

Estamos ferrados. O presente perde o sentido. Todas as providências são sempre inéditas e remetidas a um futuro próximo, mas nem tanto. As promessas nunca são cumpridas. As cobranças são solenemente ignoradas. Qualquer postura crítica ou mesmo a menor observação sensata é perseguida e combatida. Os desvios mais radicais, os malufismos, sarneizismos e collorismos mais perversos e pervertidos são tolerados e incensados.

Na minha opinião é o contrário. O governo que torra zilhões dos cofres públicos com a propaganda de que os hospitais públicos estão melhores, quando estão caindo aos pedaços e repletos de doentes, não liga a mínima para a boa comunicação. Ele mente. Só isso. Nem vou falar de segurança(prisões pocilgas, etc) e educação(gaiolas de doutrinação, etc). A boa comunicação pressupõe a abertura para o diálogo e o contraditório, ouvir argumentos divergentes e estar disposto a acatar melhores teses. É possível fazer isso de maneira civilizada, ou pelo menos sem pitos, broncas, dedinhos em riste e vassouradas. Mas não por aqui. E de qualquer forma, ninguém liga.

As pesquisas de opinião mostram que os governantes estão certos. Provam que erros de concordância, e até mesmo o “estrupo” ocasional da língua, podem ser risonhamente apoiados por dois terços da população, desde que se tenha crédito facilitado. As vaias ocasionais, como sabemos, só acontecem em lugares onde os gatos pingados da oposição e da imprensa golpista racham uma quentinha.

Tenho que correr porque daqui a pouco vem o apagão do meio da tarde, o céu está nublado. Hoje tem consulta com o médico que não aceita o meu plano de saúde e espera eu insistir muito para entregar um recibo. Sofri uma pequena lesão ao ajudar uma mulher a trocar o pneu debaixo de chuva, numa pista super-esburacada, ao lado de um metrô que nunca termina, perto de um estádio de futebol gigantesco e caríssimo, numa cidade que não tem nenhum grande time. O consultório do médico fica longe de qualquer estacionamento seguro, perto de uma escola onde os traficantes disputam clientes com pequenos surtos de violência e assassinatos ocasionais. Ali, o futuro da nação escuta uma doutrinação capenga feita por professores desmotivados, que caminham para mais uma greve interminável. Um deles lê o jornal do dia. Acha incrível que um terço da população desaprove o governo do paraíso em que vivemos. Isso tudo logo agora que anunciaram a liberação de mais uma montanha de dinheiro para a prevenção de enchentes que acabam de fazer mais três dezenas de mortes no mesmo lugar onde, no ano passado, e no ano anterior, e nos anos antes também, centenas perderam a vida.

P.S.: Não questiono a qualidade das pesquisas, a possibilidade de vício da amostragem, o fantástico poder da propaganda e a maneira esperta de se entregar uma avaliação sempre positiva, ainda que o país oscile entre o apogeu da tragédia e a decadência da miséria. Um economista resume a chave de tudo no Facebook. Reproduzo as palavras do Rogê, amigão desde os tempos do onça: “Enquanto o consumo crescer, a aprovação também crescerá. A questão é: por quanto tempo conseguiremos sustentar aumentos no consumo sem correspondentes aumentos na produção e sem inflação galopante?”

terça-feira, 19 de março de 2013

O Careca e a barriga Bola



Elvis Don't Be Cruel


Está bem, está bem. Já me disseram a mesma coisa várias vezes nas últimas semanas, então sou obrigado a admitir, estou ficando barrigudo. Isso não significa que estou ficando gordo ou mais pesado. Aliás, existem coisas mais terríveis para um homem do que estar acima do peso. Estar desempregado e acima do peso, por exemplo, é bem mais preocupante. Estar desempregado, acima do peso e careca é ainda pior. Não é o meu caso, é claro. Só estou desempregado e um pouco careca, o que é só ruim.

Nessas condições, criar barriga é que é o pior cenário. Ser magrelo com barriga é sinal grave de incompetência. Você não foi capaz de engordar por inteiro. Manter as pernas e braços finos e o tronco oblongo não é muito saudável e pode transmitir impressões erradas para outras pessoas. As mais otimistas começam a pensar que você é muito bom com metas a curto prazo, afinal você conseguiu engordar na linha de cintura. Entretanto, o seu pneuzinho, ou anel de reservas, ou atabaque, ou seja lá qual foi o apelido que você arrumou para a sua barriga(a minha se chama Bola) indicam que você está longe de completar um projeto inteiro de forma equilibrada e atraente.

A primeira vez que me disseram que eu estava criando barriga eu fingi que não ouvi. Por isso, na segunda vez a mesma pessoa achou que deveria gritar no meu ouvido para me dar a mesma informação. Gritar pode fazer com que algumas mensagens penetrem no cérebro de forma dolorida, mas nem sempre têm poder de convencimento. Fingi surpresa. Simulei estar ofendido. E neguei, é claro.

_Eu não estou com barriga. São gases! – eu disse.

A primeira evidência é negar o óbvio. Mas dentro de pouco tempo, de uma maneira ou de outra, minha mulher, todos os meus familiares e conhecidos começaram a repetir que eu estava ficando barrigudo. Quando todas as pessoas que você conhece começam a falar a mesma coisa isso pode significar que a verdade está próxima ou que uma lavagem cerebral está em curso. Quando desconhecidos começam a usar a sua barriga como ponto de referência, então a verdade surge clara e evidente.

_Está vendo o magrelo barrigudo, estacionei atrás dele, é o fusca vermelho.

Só depois que admiti que estava ficando barrigudo que comecei a reparar nas balanças de farmácia. Sei, foi burrice minha não ter notado antes, mas já está provado que podemos permanecer décadas cometendo o mesmo erro pensando que estamos cometendo erros novos. Votar em políticos pela cor da gravata, por exemplo. Ou nos que fingem saber construir uma frase com sujeito, verbo e predicado e falam coisas como “estrupo”.

Mas nunca é tarde demais. Agora eu sei que existem apenas dois tipos de ser humano. Os que sobem nas balanças de farmácia e os que não gostam de praticar esportes. Depois que descobri essa obviedade, a história da humanidade começou a fazer mais sentido. Paralelamente, descobri que para a maioria das mulheres, estar acima do peso não é nenhum problema, talvez por isso existem tantas por aí. Entretanto, estar acima do peso sem cartão de crédito é desesperador para homens e mulheres.

Voltando à minha barriga percebo que quase tudo que escrevo neste blog é sobre ela, Bola. É um tema recorrente...


Tive que interromper por algumas horas por causa do apagão na minha rua. Até o ano passado bastava uma chuva forte para faltar energia. Desde janeiro, a luz some toda vez que aparece uma nuvem mais fofinha. Minha mulher apareceu, solidária, e disse que vai me ajudar a perder barriga.

_Mas eu não quero perder a Bola – eu disse, fazendo carinho nela, minha barriga.

Ela, minha mulher, não disse mais nada e despejou uma sacola com livros e revistas com dicas para emagrecer, perder peso e enrijecer os músculos. Passei os olhos naquela literatura fantástica. Eu acho incrível que consigam gastar tanto papel e tinta para dizer duas coisas tão simples: coma menos e faça exercícios. Acho que os livros perfeitos de dieta deveriam ter apenas uma frase escrita: feche a boca. As outras duzentas páginas poderiam ficar em branco, sem pauta, para que a gente pudesse fazer anotações e desenhar bichos.

Bom, agora vou ter que perder a barriga. Queria que essa fosse uma tarefa tão fácil quanto martelar o dedão do meu pior inimigo, mas sei que vai doer pacas em mim mesmo. Ai.

segunda-feira, 18 de março de 2013

João Ubaldo fala a verdade




Doobie Brothers - What a fool believes


Reproduzo abaixo o excelente artigo do sempre fenomenal João Ubaldo.

Que elites, que esquerda? - JOÃO UBALDO RIBEIRO
O GLOBO - 17/03

A cada instante e cada vez mais, somos alvejados por milhares de informações de todos os tipos, muitas delas procurando, como consequência final, alterar nosso comportamento, seja para pormos fé nas lorotas pseudoestatísticas e conceituais que nos pregam os fabricantes de remédios, pastas de dentes e produtos de farmácia em geral, seja para acreditarmos que determinado partido político, ao pedir com fervor nossa adesão, realmente tem alguma identidade que não seja a que lhes emprestam seus tão frequentemente volúveis caciques. Aparentemente, nossos cérebros se defendem de ser entulhados com essa tralha e grande parte dela é esquecida.

Mas em algum lugar da mente ela permanece e afeta talvez até nossa maneira de ver o mundo. Se prestarmos atenção aos comerciais de tevê e fizermos um esforçozinho de abstração, veremos que temos plena ciência de que quase todos eles, ou mesmo todos, se apoiam em pelo menos uma mentira ou distorção. O xampu não produz cabelos como aqueles, a empresa não dá o atendimento ao cliente que apregoa, o plano de saúde falha na hora da necessidade, a velocidade da banda larga não chega nem à metade do que contrata, o sistema de saúde que descrevem como o nosso parece gozação com o pessoal que estrebucha em macas no hospital, o banco professa carinho e oferece gravações telefônicas diabólicas, o lançamento imobiliário mente sobre as vantagens do bairro e a segurança da construtora, a moça não é bonita como aparece, o sinal da operadora não é confiável, a prestação sem juros é enganação, a garantia do carro não vale nada para a concessionária. Tudo, praticamente, é mentira e sabemos disso. Mas, mistérios desta vida, agimos como se não soubéssemos, numa postura acrítica e já meio abestalhada.

Em relação à política, talvez nossa situação possa ser até descrita em termos mais drásticos. As afirmações mais estapafúrdias são divulgadas e ninguém se preocupa em examiná-las. Não me refiro a chutes que prostituem a estatística e fazem dela, como já se disse, a arte de mentir com precisão. Os números nos intimidam desde a escola primária e qualquer embusteiro se aproveita disso para declarar que 8.36% (quanto mais decimais, melhor) de alguma coisa são isso ou aquilo e ver esta assertiva ser recebida reverentemente, como se não fosse possível desconfiar de tudo, da coleta dos dados, às categorias empregadas e os cálculos feitos. Média, então, é uma festa e eu sempre penso em convidar o dr. Bill Gates para morar em Itaparica e me transformar em nativo do município de maior renda média do Brasil, cuíca do mundo.

Não, não me refiro a números, mas a alegações estranhas. Por exemplo, esse negócio de o governo ser de esquerda. Só se querem dizer que a maior parte do nosso cada vez mais populoso bando ministerial é constituído de canhotos. O presidente Lula, que não quis ser presidente emérito e prefere continuar sendo presidente perpétuo mesmo, já disse — e creio que com sinceridade — que não é, nem nunca foi, de esquerda e que não usa mais nem a palavra “burguesia”. E que é que o governo fez que caracterize uma posição de esquerda? Apoiar Chavez com beijos e abraços, ao tempo em que respalda os bilhões de dólares de negócios brasileiros na Venezuela? Manter boas relações com Cuba, o que não quer dizer nada em matéria de objetivo político? Ser da antiga turma que combatia o governo, no regime militar? E já perguntei aqui, mas pergunto de novo: o PMDB é de esquerda? Quem é esquerda, nesse balaio todo? Furtar, desviar, subornar, corromper são de esquerda? Zelar por valores éticos e morais é de direita?

É gritaria da direita reclamar (e pouca gente reclama) do descalabro inacreditável em que se tornaram as trombeteadas obras do rio São Francisco, hoje uma vasta extensão de ruínas e destroços, tudo abandonado ao deus-dará, em pior estado do que cidades bombardeadas na Segunda Guerra? Ou o que está acontecendo com a Petrobras, que, da segunda posição entre as petrolíferas, despencou para a oitava e pode despencar mais, acrescida a circunstância de que ninguém explica direito qual é mesmo a situação do hoje já não tão radioso pré-sal? E combater a miséria nunca foi de esquerda ou direita. Ter altos índices de popularidade tampouco.

Também se diz que as elites dominantes querem derrubar o governo. Que elites dominantes? A elite política, que se saiba, é a que exerce o poder político. O Poder Executivo é exercido pelo governo que está aí e que, presumivelmente, não atua contra si mesmo. O Poder Legislativo está sob o controle da base do governo. E o Judiciário, por mais que isso seja desagradável aos outros governantes, não pode associar-se à ação política no sentido estrito. Já as elites econômicas não parecem empenhadas em subverter uma situação em que os bancos têm lucros nunca vistos, conforme o próprio presidente perpétuo já frisou, e as empreiteiras estão muito felizes e, convocadas pela presidente adjunta, prometeram fazer novos investimentos. Qual é a elite conservadora que está descontente e faz oposição ao governo? É justamente o contrário.

Finalmente, temos a imprensa golpista. Que imprensa golpista? Que editorial ou comentário pediu golpe? Comportamento golpista é o de quem acusa o Judiciário de ser agente de armações politiqueiras, quem chega a esboçar desobediência a ordens judiciais, quem se diz vítima de linchamento, quando foi condenado em processo legítimo e incontestável. A imprensa sempre se manifesta contra o desrespeito à Constituição e a desmoralização das instituições democráticas e tem denunciado um rosário sem fim de ações lesivas ao interesse público. Golpista é quem busca silenciá-la ou controlá-la, não importa que explicações se fabriquem e que eufemismos inventem.

domingo, 17 de março de 2013

O Careca conta mais verdades



Candy Dulfer - Hey Now

Quase ninguém gosta de jornalistas. Isso acontece porque a maioria das pessoas acha que ninguém deveria ganhar dinheiro para escrever fofocas. Mas isso é fruto de uma visão errônea dos jornalistas. Eles não escrevem fofocas, quem faz isso são os colunistas. Quando eles mesmos inventam as fofocas, chamam isso de opinião. Os jornalistas propriamente ditos escrevem ditados. Fulano disse, Beltrano falou, Sicrano gritou. Há quem defenda a categoria. Eles dizem que os melhores jornalistas sabem fazer boas perguntas. O grande problema é que a maioria não sabe fazer pergunta nenhuma e só quer terminar aquilo rapidamente para ir correndo até o bar mais próximo. Mas eu vou dizer a verdade: os que sabem fazer boas perguntas não têm o menor cuidado com as respostas.

Apesar do que dizem, mesmo não gostando de jornalistas, num primeiro contato as pessoas sempre olham um jornalista famoso com os olhos brilhando, cheios de boas expectativas. A pessoa pensa que finalmente teve a importância reconhecida e que os seus dias de fama, glória, fortuna e orgias estão começando naquele instante. Mas tudo se esvanece quando você descobre que o sujeito quer apenas saber se está no endereço certo. Não. Vá por ali, você diz, e indica o caminho errado para o pernóstico.

Estranhamente, mesmo quando o jornalista não é famoso, o mesmo fenômeno acontece. As pessoas ficam olhando para você com os olhos brilhando, como se um mané com um microfone ou um lápis pudesse abrir-lhe as portas da fama e da fortuna.

Felizmente ou infelizmente, não há unanimidade quanto a jornalistas. Há quem os defenda. Há quem mantenha alguns na coleira. Há quem sustente uma penca com anúncios estatais. Poucos são os que subsistem de forma independente.

Entretanto, em todas as culturas civilizadas, ninguém gosta de economistas. Isso vale especialmente para outros economistas. Vou deixar mais claro: as pessoas não gostam de economistas e economistas não gostam de outros economistas. Existem, é óbvio, economistas que se amam de uma maneira onanística. Entretanto, os economistas vivos costumam gostar apenas de alguns poucos economistas que estejam comprovadamente mortos e não possam mais dizer “ei, eu nunca disse isso que você disse que eu disse.” Uma boa parte dos economistas vivos não tem nem mesmo um pingo de amor próprio, eles gostam apenas do que é definitivamente detestável e imprestável, desde que possam ganhar algum dinheiro com isso. Tenho um amigo que me disse que os únicos economistas confiáveis são os economistas pobres.

_ Eles são muito boas pessoas, mas não sabem fazer quase nada, talvez um cálculo de juros simples. Até aí tudo bem, mas o problema dos economistas pobres é que eles, além de não conseguirem enriquecer ninguém, nem a si mesmos, vivem pensando em encontrar maneiras humilhantes de roubar a riqueza dos ricos. Eu nunca conheci um economista pobre, talvez por isso não confie em nenhum deles. Conheci um monte que é classe média. Os que mentem bem estão muito ricos na iniciativa privada. Os que mentem mal também estão muito ricos, mas trabalham para o governo – ele me disse.

_O que você acha do ministro da economia? – eu perguntei a esse meu amigo que é economista.

_Ele é muito bonzinho. Sem querer mudar de assunto, como você chama uma pessoa que não consegue dar bons chutes? Eu chamo de pereba, mas em alguns países eles chamam de ministro da economia. Rá, rá, rá. Essa é boa, mas é muito genérica. Ainda no mesmo assunto, como você chama uma pessoa que é paga para controlar a inflação mas não dá conta do recado? Acertou quem disse ex-ministro. E como você chama quem demite assessores corruptos e depois convida os mesmos sujeitos para montar uma assessoria?

-Não sei. Cúmplice?

_Em alguns países, o nome é presidente.

sexta-feira, 15 de março de 2013

O Careca conta a verdade



Empire Of The Sun - Half Mast


Demorei muito para descobrir isto. Não é que seja difícil. Não há mérito nenhum, não descobri nada sozinho. Mas aqui estou eu dizendo isso para você numa boa, sem enrolações: a maioria das pessoas não quer saber da verdade. Não é que gostem de mentiras. Elas simplesmente não querem saber da verdade e adoram se enganar. É mais ou menos como as mulheres que gostam de comprar sapatos. Elas sabem que aquele par de sapatos que custa uma fortuna não será capaz de transformá-las em pessoas melhores. Aquele par de sapatos também não irá propagar para o resto da espécie humana que elas são lindas, maravilhosas, inteligentes e ainda conseguem se equilibrar sobre um salto altíssimo e com uma base minúscula. Nem mesmo se os dedos dos pés estão empilhados e apertadíssimos num bico finíssimo. Não funciona assim: mais desconforto é igual a mais beleza. Mas quem acredita? O auto-engano impera. O auto-engano domina. Eô.

E não adianta perguntar a elas. Aliás, quando alguém perguntar se você quer saber a verdade, prepare-se porque na maioria das vezes, vem mentira por aí. Você quer saber a verdade? Vou te contar. E não contam. Muitas vezes nem é por maldade. É só por isso que não contam: a verdade não é bem-vinda. A verdade é que a verdade não dói, como mentem alguns. A coisa é bem mais embaixo. A verdade é como aquela celebridade que você encontrou por acaso, naquele hotelzinho metido a besta e caro em que você foi passar as férias: meio sem-graça e, sem sombra de dúvida, não merecia aquela badalação toda.

Quer ver uma coisa que é a mais pura verdade? Muita gente comete os mesmos erros várias e várias vezes e os amigos pensam que depois do último, agora vai, finalmente você vai deixar de ser tão estúpido. Mas necas. É como estudar, estudar e estudar. Você aprende, aprende, aprende e nada acontece. Você nunca vai escutar aquele estalo do Padre Vieira na sua cabeça. Pois então. A verdade é simples: você adora errar e acredita que aprende muita coisa com isso. Mas isso é besteira. A única coisa que a gente aprende com os erros é que deveria ter feito outra coisa. Mas o quê? As opções são infinitas.

Quer outra verdade óbvia? É decepcionante não ter notícias dos conhecidos. Quer outra? Nem sempre tomamos a decisão certa. Outras vezes tomamos uma decisão e nada acontece. Algumas pessoas na maioria das vezes tomam a decisão errada. Outras pessoas tomam quase sempre as decisões certas, embora não sejam infalíveis. E muito embora essas pessoas sejam super-racionais, tenham estudado todos os seus passos com cuidado e sofrido muito para finalmente tomar a decisão certa, sempre haverá um Mané para dizer que aquilo tudo não passou da mais pura sorte. Ah, e há também os sortudos.

E quer saber? Talvez os Manés tenham razão. Veja aquela história dos ciclistas que pedalam doidões na contramão nas grandes cidades. Eles não só acreditam que aquilo faz o maior sentido, como têm certeza de que correr o risco de morrer atropelado é uma estratégia eficaz para driblar a lei seca e, ao mesmo tempo, mudar o comportamento de milhões de motoristas que só estão loucos para chegar em casa o mais depressa possível. Parece razoável? Eles dizem que sim. Tenho minhas dúvidas. Deve haver uma maneira mais segura de tomar cerveja.

Uma última verdade: você não tem poder nenhum. Nada. None. Zero. Venha de onde vier, o poder não vem de nós, do interior. Não. Mas isso não vale para o agronegócio.

Espero que isso tenha ajudado em alguma coisa. Mas a quem estou enganando?

quinta-feira, 14 de março de 2013

Curiosidade mórbida



Etta James : Misty Blue

É a platéia de um programa de televisão inglês. As melhores e mais bem educadas platéias do mundo são as inglesas, eu acho. O apresentador é bem dinâmico, consegue ficar sorrindo por muito tempo sem parecer que está com esparadrapos prendendo o esgar. Ele faz uma pergunta meio mórbida para a platéia e apesar disso todos riem. É algo como: vamos ver se alguém aí já se machucou seriamente? Ou: quem aí já se feriu sozinho? Meu inglês às vezes parece que está desaparecendo e não consigo entender muita coisa daquele sotaque britânico a toda velocidade. Uma vez alguém me disse que entender o que a Adele canta não significa que você sabe inglês, ela praticamente soletra as sílabas. Fiquei confuso porque também não entendo o que ela canta. Talvez ela soletre devagar demais ou eu é que não sei soletrar.

Seja como for, o apresentador faz a pergunta para algumas pessoas na platéia, há uma escadaria que ele vai subindo e apontando o microfone. Você? Você já se machucou? Quer falar sobre isso? Conta pra gente! E duas mulheres(há uma maioria absoluta de mulheres) dizem que jamais se machucaram. O apresentador deixa a primeira passar, mas com esta segunda ele insiste um bocado. Nunca se machucou? Um braço? Uma perna? Uma orelha? Uma unha? Nada? Caramba! Ela é a mulher que saiu da bolha de plástico! E a galera vibra, com a câmera mostrando a cara gordinha da mulher envergonhada que nunca se machucou. E agora a câmera já está com o apresentador novamente e ele encontrou uma mulher que tem uma história para contar. Ela se machucou! Ora vivas, ele já estava pensando em matar em produtora do programa! A mulher com a história é uma jovem loura, não muito bonita, tem um problema na arcada dentária superior. Aquilo me impressiona porque tenho uma péssima dentição e por isso sempre reparo nos dentes dos outros. Acho que estou sempre comparando a minha dentição horrorosa com a dos outros e bem, aquela mulher ganhou. Por um momento eu penso, uau, ela tem uma arcada dentária mais feia do que a minha, mas é tão jovem, quem sabe não consegue ganhar na loteria e consertar tudo?

Putz! A mocinha conta que aos cinco anos de idade enfiou um lápis no nariz. Um lápis inteiro, vocês acreditam?! Doeu? Foi muito doloroso, mas ela teve sorte porque era um lápis muito grande e estava com um bom pedaço para fora, foi um pouco fácil de puxar para fora, prendeu só um pouco. O apresentador pergunta como aquilo aconteceu e ela explica que foi convencida a enfiar o lápis numa das narinas pelo irmão, que tinha seis anos de idade. Seu irmão tinha seis anos de idade? Não, o irmão tinha dez anos e ela tinha seis anos de idade. Ah, isso explica tudo! O terrível e cruel irmão mais velho. E como ele a convenceu a enfiar um lápis tão grande no nariz? Bom, aqui o apresentador está sendo irônico porque a moça também tem um baita nariz. É realmente um nariz grande e por isso agora entendo porque a arcada dentária da moça me chamou tanto a atenção. A moça tem um nariz cavalar e uma arcada igualmente. O quê? Ele disse o quê? Ela conta que o irmão disse que aquela era a melhor maneira de se apagar memórias. Jesus! Mas com o lápis você estaria escrevendo memórias, não? Não, eu enfiei o lado com borracha, por isso doeu tanto! Todo mundo cai na gargalhada.

E no momento seguinte o apresentador volta para o centro do palco, onde já esperam um monte de convidados. Eu paro de prestar atenção na conversa e de repente me pego torcendo para que a câmera volte a mostrar aquela moça que enfiou o lápis no nariz. Eles não vão mostrá-la novamente, eu sei. Fico pensando na memória terrível que uma menina de seis anos teria para querer apagar com tanta força.

Humble Pie - Natural born boogie



Humble Pie - Natural born boogie - Peter Frampton aos 18.

terça-feira, 12 de março de 2013

Taxi Driver



Taxi Driver

Todo mundo tem uma história de táxi. Já peguei táxis com excelentes técnicos de futebol, economistas de primeira grandeza e fenomenais cientistas políticos. Muitos deles não apenas dominavam estas três áreas ao mesmo tempo, como também eram peritos em engenharia de trânsito, planos de contingência para tsunamis e medidas para conter o uso de artefatos nucleares em barganhas comerciais internacionais.

Eu tenho duas histórias de Táxi Driver. A primeira foi há muitos anos, quando eu e a minha mulher fomos passar a lua-de-mel em Fortaleza. Chegamos num vôo de madrugada, classe econômica. Eu vestia o terno do casamento(sem a gravata) e minha mulher ainda estava com os cabelos arrumados para a cerimônia, que tinha acontecido algumas horas mais cedo. Era um penteado super-requintado, com algumas pérolas cuidadosamente presas em lugares estratégicos, formando um coque. Assim que pegamos a bagagem e saímos para o salão, fomos pegos de surpresa pelo bafo calorento de Fortal, um sopro capas de provocar sudorese instantânea. Na sequência surreal, fomos abordados por um sujeito barbudinho vestido com um implausível casaco Adidas, iguais àqueles que o Fidel Castro faz propaganda. Três listas nas mangas. O sujeito perguntou se a gente precisava de táxi e ingenuamente eu disse que sim. Imaginei que ele estava de casaco porque o carro teria um belo ar condicionado, mas esta não foi a primeira vez que a minha lógica de Sherlock goiano me apunhalou brutalmente na traquéia. Paguei língua em pensamento e me arrependi amargamente assim que vi o carro. Era velho, com uma pintura muito ruim(verde), movido a gás e o banco traseiro estava com um terrível cheiro de mofo. Mas eu já havia combinado a corrida e estávamos loucos para chegar ao hotel.

O motorista arrancou sem cantar os pneus, o calhambeque era bem silencioso. Seguíamos para uma estadia num hotel na avenida beira-mar, presente de casamento da minha irmã mais velha. A capital cearense era um breu acalorado, não havia nem sombra de ar condicionado no carro e por isso eu quis abrir as janelas.

_Não, não é seguro - disse o arremedo de Fidel. E tratou de falar dos mais recentes e tenebrosos crimes acontecidos com turistas nos táxis naquela Fortaleza do final dos anos 90. Fiquei arrepiado. Minha mulher também ficou bastante assustada e durante todo o tempo ficamos de mãos dadas, em silêncio, ouvindo a interminável descrição dos crimes pelo motorista.

_Mas comigo vocês não precisam se preocupar - ele acrescentou, logo depois de nos contar que a polícia havia descoberto que a maioria dos crimes contra os turistas estava sendo cometida por uma quadrilha cruel de taxistas, que usavam peixeiras enormes para matar suas vítimas.

_E você? Anda com uma peixeira? - eu perguntei, lá no banco de trás. E imediatamente me arrependi, mas já era tarde demais, eu já havia feito a pergunta. O taxista diminuiu a velocidade e se inclinou para abrir o porta-luvas. Puxou uma peixeira de um tamanho impossível para o porta-luvas.

_Só uso para defesa pessoal - ele disse. Meu coração batia muito forte quando, em seguida, o táxi fez uma curva abrupta e pude contemplar a avenida beira-mar. Puutz.

Chegamos ao hotel em menos de cinco minutos depois da exibição da peixeira. Passamos boa parte do que restava da noite desmanchando o penteado da minha mulher, que estava cansada dos grampos, pérolas e do laquê. Só conseguimos relaxar depois de um glorioso banho de banheira bem morna.

A minha outra história de taxi é mais curtinha. Aconteceu quando ainda morava no velho apê, em Brasília. Meu carro havia quebrado e eu precisava ir correndo para o trabalho. Corri para a entrada da quadra, onde ainda existe um ponto de táxi. Havia três carros parados.

_Toca para a Esplanada - eu disse, olhando para o relógio e sentando no banco de passageiros, no primeiro carro da fila.

_Senhor, o táxi está reservado - disse um dos três taxistas que jogavam dominó numa mesinha ao lado.

Desci, fui até o segundo táxi e fiz a mesma coisa.

_Senhor, o táxi está reservado - disse outro taxista.

Antes que eu abrisse a porta do último carro, o taxista disse que ele também estava reservado. Estranhamente, esse taxista também usava um casaco Adidas verde. Eu olhava nervoso para o relógio. Minha reunião ultra-mega-super-importante começaria em alguns minutos.

_Peraí, eu disse, essa reserva está em nome de quem?

_Alexandre.

-Roberto.

_Otávio - disse o motorista do último carro da fila.

_Sou eu. Otávio sou eu, foi minha mulher que ligou - menti. Descaradamente. Humilhantemente. Menti.

O taxista de casaco Adidas se levantou e num instante saímos dali. Quando entramos na Esplanada eu resolvi dizer a verdade.

_Olha, eu não sou o Otávio. É que hoje não posso chegar atrasado nessa reunião de jeito nenhum.

_Tudo bem.

_Você já sabia, não é?

_É uma brincadeira antiga. As pessoas quase sempre escolhem o último carro, a não ser que a reserva seja do Alexandre. A maioria escolhe o carro do Otávio. Uns poucos arriscam o Roberto. Mas ninguém escolhe o carro do Alexandre.


Depois disso, nunca mais voltei ao ponto de táxi da quadra.







segunda-feira, 11 de março de 2013

Pelado no parque



Queen - Bicycle Race

Uma das coisas mais extraordinárias dos últimos anos é a facilidade com que muitas pessoas se dispõem a tirar a roupa para defender uma causa. Sou do tempo em que era preciso esperar o desfile de carnaval para ver tanta gente nua, mas hoje em dia os protestos com gente pelada são praticamente diários. Vale tudo. E já tem um monte de figuras carimbadas. As moças do Femen, por exemplo, tiravam as vestimentas praticamente uma vez por semana para chamar a atenção para questões políticas e já espalharam filiais de protestos pelo mundo, inclusive no Brasil. Eu presto a maior atenção, mas até mesmo eu tenho que reconhecer que as moças do Femen já não animam a torcida como antes. Das primeiras vezes, até mesmo os policiais pareciam constrangidos em prender aquelas moças tão bonitas com os peitos de fora, mas hoje em dia os caras parecem que já estão acostumados com aquela peitaria e os slogans pintados. Eles atiram as moças nos camburões, seguram pelas axilas, levantam e sacodem as mulheres sem a menor cerimônia, dá a maior dó. O descaso é tanto que as moças deram um tempo, começaram a espaçar um pouco mais os protestos.

Seja como for, aqui no Brasil a onda agora é o nudismo de bicicleta. Dezenas de ciclistas do sul e do sudeste estão se mobilizando e tirando a roupa para dizer que andar de carro é ruim e que o bom mesmo é pedalar até o trabalho. Os caras dizem que é legal demais pedalar até a exaustão, enfrentando a fumaça, todos os riscos do trânsito e a possibilidade de morrer atropelado pelo filho de um milionário. Eles gritam por melhores condições de ciclismo e querem sair no braço com quem não esteja a fim de pedalar. Mesmo assim, são todos do bem. Os ciclistas acreditam que ficando pelados sobre a bicicleta vão conseguir chamar a atenção das autoridades para a necessidade de se construir melhores ciclovias e, quem sabe, estimular milhares de pessoas a sair do sedentarismo selvagem. Pode ser que funcione, pode ser. Mas tenho as minhas dúvidas quanto a pedalar pelado. Isso não faria bem para as minhas hemorroidas.

Outra dúvida que eu tenho é quanto ao bafômetro. Alguém precisa me explicar se o ciclista é obrigado a soprar o bafômetro ou se pode usar a bombinha. Também preciso saber se o ciclista não estaria obrigado a levar um estepe e triângulo, que são equipamentos de segurança mínimos e obrigatórios para qualquer veículo.

Eu me sinto mais confortável sobre duas rodas quando estou vestido. Mesmo assim torço para que os ciclistas consigam o que desejam, inclusive mais e melhores bicicletas e uma chance para concorrer ao remake unissex do clipe do Queen.

domingo, 10 de março de 2013

Novas listas de 2013



Empire Of The Sun - Standing On The Shore

O calor deve exercer algum tipo de influência nefasta sobre o meu humor. E nos últimos dias, a temperatura tem se mantido alta, com calor à sombra e à revelia dos ventiladores. Tenho rido pouco, minha última gargalhada deve ter sido em janeiro ou fevereiro, não me lembro mais. Para passar o tempo, começo a fazer uma lista das pessoas que me dão vontade de sair correndo quando abrem a boca:

1 - Qualquer Suplicy
2 - Frei Beto
3 - Marina Silva
4 - Agnelo
5 - Gilberto Carvalho

Já estou cansado e ainda nem cheguei nos piores.

Depois começo a fazer uma lista das pessoas que bem mereceriam pelo menos um disparo da fantástica arma de raios cancerígenos inventada nos laboratórios secretos de Tio Sam. A lista começa a ficar muito parecida com a primeira, e ainda estou bem longe de chegar nos piores. Aí tento me lembrar o que teria provocado a minha gargalhada um ou dois meses atrás. Não consigo.

sábado, 9 de março de 2013

Escultura



Elvis Presley - Dixieland Rock

Uma vez comprei um kit de escultura. Consiste numa massa branca de alguma substância esquisita que não seca, duas espátulas com pontas diferentes, uns arames grossos e alguns discos que parecem moedas grossas perfuradas, onde os arames se encaixam. A massa é bem maleável e moldável e nesses três ou quatro anos que tenho esse kit o material continua bem fácil de manusear. Infelizmente, não sei onde está o livro que acompanhava o kit. Nos primeiros dias com o o kit segui as instruções e consegui moldar uma cabeça humana razoável, mas em pouco tempo enjoei da brincadeira de esculpir. Outro dia, depois que arrumei os armários do escritório, encontrei a cabeça que havia esculpido lá por volta de 2010, ainda sobre o mesmo prato de plástico alaranjado. Entrei num frenesi escultórico e só fui parar de brincar com a coisa depois que minha filha entrou no escritório e começou a me fazer perguntas.

_Paiê, o que é isso? É uma cabeça? O que você está fazendo? Responde, paiê! Isso é um olho? É uma orelha? Pai! Mas que nariz grande! E essas orelhas enormes...É o Dobby! É o Dobby do Harry Potter! Nossa, está igualzinho!

Estava um pouco parecido. Mas eu não disse a ela que estava tentando fazer a cabeça de uma outra pessoa, talvez a do Woody Allen. Acabei deixando como estava porque agora ela entra mais vezes no escritório e pergunta pelo Dobby.







quarta-feira, 6 de março de 2013

A pistola de raios cancerígenos de Obama



Elvis Presley - Baby I Don't Care

Daqui a vinte ou trinta anos, talvez um pouco antes ou um pouco depois, um escrupuloso funcionário da Casa Branca exibirá para o mundo a famigerada pistola de raios cancerígenos dos pérfidos agentes ianques de George Bush e Barack Obama. O mundo também conhecerá o canhão de ondas provocadoras de terremoto e tsunami e as provas definitivas de que o capitalismo e o imperialismo foram os responsáveis pela extinção da vida em Marte. Quando isso acontecer, e nem é preciso que seja nessa ordem, ainda assim ficarei de consciência tranquila por não ter me juntado ao coro dos que agora incensam mais um ditador sul-americano que bateu as botas.

É impressionante como muitas pessoas acreditam nas besteiras propagadas pelo chavismo, pelo peronismo/kircherismo e aqui, na selva brasilis, pelo lulopetismo. Impressiona que o bom senso seja sistematicamente colocado de lado quando o assunto remete a qualquer desses ismos. Hoje fiquei bobo de ouvir um monte de analistas dizerem que o recém-falecido foi responsável por grandes transformações sociais na Venezuela. Pessoas, pessoas, hello? Hellooooo? Agora celebramos quando o que era ruim fica pior? Ou a Venezuela se tornou uma terra de oportunidades e há um atropelo de gente de outros países querendo se mudar para lá? Pelo que sei, até pouquíssimo tempo, os visitantes tinham pressa de sair fora porque tinham medo de ferir suscetibilidades. Visitar a Venezuela, me diziam, pode ser constrangedor e muito intimidante. Amigos me faziam relatos incríveis, de funcionários e até ministros que eram demitidos por telefone(nada a ver com o caso de um ministro da educação brasileiro) e humilhados publicamente por terem irritado o presidente (nada a ver com os famosos pitos de uma faxineira). As já frágeis instituições venezuelanas ruíram. Empresários, juízes, jornalistas e qualquer pessoa que ousasse discordar de suas perorações estava arriscado a ser perseguido implacavelmente. Era especialmente arriscado porque Chavez estava em todas. Ele não parava de falar sua arenga repleta de parlapatices, nem mesmo o Rei Juan Carlos aguentou. E olha que suas majestades são especialmente treinadas em bom comportamento e elegância.

A verdade é que a vacina cubana não funcionou e a indesejada das gentes buscou mais um. Quem dera fosse o último das Américas, mas a lista é grande e a burrice generalizada só tem feito aumentar o número dos amantes do arbítrio, da intolerância e do sectarismo.


terça-feira, 5 de março de 2013

As pessoas na salinha



Bossa Nova Baby

Minha mãe, que se aproxima dos 80, de vez em quando vê na TV alguma coisa que a desagrada.

_Meu filho, eles só falam de sacanagem na TV. Em qualquer programa, inclusive os infantis.

_O melhor é mudar de canal. Ou desligar a TV.

_Mas não é todo mundo que pode mudar de canal.

_E nem todo mundo tem televisão.

_Acho que tinha que haver algum tipo de controle – diz a minha mãe.

_Já existe. Mas o auto-controle é o melhor tipo de controle.

_Não. Tinha que haver algum tipo de regulamentação.

_Mãe, já existem leis e regulamentos à beça.

_Mas não é suficiente – diz a minha mãe.

_Tudo bem, então como funcionaria esse controle?

_Não sei. Mas do jeito que está, não está funcionando.

_Mãe, eu sou contra por causa das pessoas na salinha.

_O quê? Que pessoas?

_Em qualquer tipo de controle que você pensar, isso implicará numa sala com um grupo de pessoas com poder para dizer o que pode ser visto, lido ou ouvido. Eu não quero que outras pessoas me digam isso. Eu mesmo quero decidir e escolher.

_Mas existem pessoas que não são capazes de escolher.

_E outras escolhem o que é ruim. É o velho dilema apontado por Sócrates. O grego, não o jogador. Mesmo assim, prefiro isso do que entregar a decisão para as pessoas da salinha.

Frase do dia


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