sexta-feira, 30 de março de 2012

Renda de bilro



Orgone - Give it Up

Estou imerso em toneladas de arquivos cibernéticos que juntei e gravei em DVDs e CDs durante vários anos. Organizar a barafunda eletrônica não é fácil. Tenho jogado muita coisa fora. Alguns CDs são impossíveis de ler, estão empenados, arranhados, lascados. E assim como os arquivos analógicos, os arquivos digitais também estimulam o devaneio e a introspecção. Passei a manhã e a tarde praticamente em silêncio.

Fez um calor infernal, não consegui me concentrar direito. Estou dando um tempo na oficina, já tenho coisas demais. Talvez ainda faça um móvel novo, quero muito construir um baú para o meu quarto. Terá que ser bem grande. Vi um projeto legal na internet, mas estou em modo de contenção de despesa nível cinco mortal duplo carpado. Minha pilha de madeira se acabou, usei tudo. A última coisa que fiz foi um estrado que escureci com verniz e parafusei na parede dos fundos, de frente para o quintal. Vai servir para pendurar vasos.

Nesta semana também reformei uma mesa e um rack, além de duas cadeiras, tinha esquecido. Mas não fui muito produtivo. Tive problemas com os freios do carro e troquei as pastilhas. Agora está bom. Também me organizei para a declaração de imposto de renda, todos os papéis estão separados, falta pouca coisa.

Uma das coisas que faltavam era a declaração de rendimentos do banco. Foi por causa dela que descobri que o meu cadastro precisa ser renovado ou não me devolvem o limite do cheque especial. As moças do banco pediram que eu leve algum comprovante de renda para acertar tudo.

_Só se for de bilro! - eu disse.

_Como? O senhor poderia repetir, por favor? - disse a gerente.

_Nada, foi só uma piadinha - eu disse.

Enrolei e vou deixar para apresentar o comprovante na outra semana.

quinta-feira, 29 de março de 2012

Professor Villa aponta o nosso fracasso

Publicado hoje na Folha de S. Paulo:

MARCO ANTONIO VILLA
TENDÊNCIAS/DEBATES
O ASSUNTO É

DEMOCRACIA BRASILEIRA
Fracassamos
Há despolitização, corrupção nos três Poderes e oligarcas como Sarney. A Nova República fez aniversário, ninguém lembrou. Havia motivo?

Nem o dr. Pangloss, célebre personagem de Voltaire, deve estar satisfeito com os rumos da nossa democracia. Não há otimismo que resista ao cotidiano da política brasileira e ao péssimo funcionamento das instituições.

(...)

quarta-feira, 28 de março de 2012

Chico Anysio e Millôr Fernandes

Nós sempre fomos os melhores para dizer que somos os melhores em alguma coisa. Essa é que é a verdade. E gênios como Chico Anysio e Millôr Fernandes estavam ali para dizer que não é bem assim, veja como temos os nossos ridículos, veja como essa nossa mania de grandeza nos apequena.

Chico Anysio fez isso com mais de 200 tipos em mais de 60 anos de humor. Era o artista encantador, o homem que se transformava naquele sujeito esquisito que vimos na rua. Chico não tinha medo de nos fazer rir. Nem que para isso se transformasse num jovem sacana, no velhaco canalha, no boleiro cachaceiro ou no inevitável político corrupto. "Eu quero que os pobres se explodam" - seu personagem disse, muitas vezes. E a caricatura é verdadeira, eles estão pouco se lixando.

Millôr Fernandes, que eu conheci nas páginas da revista Veja, não era humorista. Era o pensador sarcástico. Seu humor era diferente, mais cáustico e ferino. Millôr era o rei do aforismo nacional, o sátiro do traço tremido, o poeta do hai-kai demolidor, o campeão da frase arrasadora. “Os corruptos podem ser encontrados em várias partes do mundo, quase todas no Brasil” - disse Millôr, com precisão demográfica.

O Brasil ficou muito mais chato sem Chico Anysio e Millôr Fernandes. Lá se vão duas figuras que nos ajudaram a suportar a sem-graceza dos poderosos com muito escracho, sarcasmo e ironia. Vão fazer muita falta.

Artigo imperdível de JR Guzzo

Imperdível : Em busca do nada - artigo de JR Guzzo na Veja.

terça-feira, 27 de março de 2012

O tsunami publicitário esquizóide

Uma das coisas que mais me impressionam nas pesquisas de opinião sobre os índices de popularidade dos últimos governantes não é o fato deles serem estupendamente favoráveis. O que me impressiona é a descolagem que beira à esquizofrenia. Ao mesmo tempo em que as pessoas pesquisadas aplaudem os governantes, elas reclamam, e muito, da precariedade da infra-estrutura, da má qualidade e/ou ausência dos serviços de saúde, educação, transporte e segurança.

Também me impressiona o tsunami de publicidade governamental esquizóide a que estamos sendo submetidos diariamente. No Distrito Federal, isso é patético. As ruas, todas elas, estão em pandarecos e os outdoors proclamam que foram investidos um bilhão em obras. Não duvido, devem ter sido obras subterrâneas na reforma do estádio de futebol. Os hospitais públicos(e nem particulares) não possuem atendimento pediátrico regular, só atendem crianças nas emergências, mas a propaganda diz que tudo está lindo e maravilhoso. Para se ter uma idéia, a única UPA do DF, inaugurada com pompa e circunstância há dois anos, não funciona desde antes da inauguração. Fizeram o galpão, mas depois de dois concursos públicos sem que aprovados se interessassem em assumir as vagas, a UPA continua sem andar.

O transporte público é uma ameaça diária à população, com ônibus com mais de 14 anos em circulação. Pelo menos é o que informa a propaganda dos rodoviários. A propaganda do governo solta foguetes porque abriu licitação para comprar novos veículos. Na melhor das hipóteses, eles entrarão em circulação em 2013. Na segurança pública, depois de uma saraivada de danças de cadeiras, os policiais volta e meia ameaçam a população com mais uma paralisação. A marginália se rejubila. Em consequência, os criminosos perderam os pudores e atuam com desenvoltura no Plano Piloto, com assaltos, sequestros e até estupros à luz do dia.

Talvez isso esteja acontecendo por causa dos apagões diários. O próprio governo admite que nessa época do ano, as chuvas provocam um enorme aumento do número de apagões. O problema é que na seca os apagões continuam, talvez por causa do baixo índice pluviométrico. Felizmente cortaram a propaganda que falava da excelência dos serviços e do investimento fabuloso que estava sendo feito na companhia de luz.

Uma outra guerra de out-doors se desenrolava desde o início do ano entre o governo e os professores da rede pública. Eles pediam o cumprimento do acordo coletivo e o governo dizia que vinha cumprindo a coisa, mas só até o limite da lei de responsabilidade fiscal. Hoje os professores decidiram entrar em greve e, ao mesmo tempo, impedir o trânsito em seis vias do Eixo Monumental, uma das principais avenidas de Brasília. O bloqueio durou 40 minutos. Os professores antigamente reivindicavam melhores condições de trabalho, mas hoje em dia só querem mesmo é o faz-me-rir, quem pode já tirou o filho da escola pública há muito tempo. Quem não pode, prefere comprar um carro mil em suaves prestações a perder de vista. O governo continua com a propaganda de que está cumprindo com tudo, mas que veja bem, tem a lei de responsabilidade fiscal, etc.

O que eu acho mais bacana é que a grana que os governantes torram com publicidade nunca entra no limite da lei de responsabilidade fiscal.

O rei pelado e incompetente

A incompetência virou elogio - MARCO ANTONIO VILLA

O Globo - 27/03/12

(Trecho)
O governo Dilma Rousseff lembra o petroleiro João Cândido. Foi inaugurado com festa, mas não pôde navegar. De longe, até que tem um bom aspecto. Mas não resiste ao teste. Se for lançado ao mar, afunda. Não há discurso, por mais empolgante que seja, que consiga impedir o naufrágio. A presidente apresenta um ar de uma política bem-intencionada, de uma tia severa e até parece acreditar no que diz. Imagina que seu governo vai bem, que as metas estão cumpridas, que formou uma boa equipe de auxiliares e que sua relação com a base de sustentação política é estritamente republicana. Contudo, os seus primeiros 15 meses de governo foram marcados por escândalos de corrupção, pela subserviência aos tradicionais oligarcas que controlam o Legislativo em Brasília e por uma irritante paralisia administrativa.
Leia tudo aqui.

segunda-feira, 26 de março de 2012

Reunião na escola


Orange Blossoms Video JJ Grey and MOFRO

Nunca funcionei bem nas segundas-feiras. Em geral, é um dia pouco produtivo, que uso para rever as coisas que já fiz. Não é um bom dia para planejamento, prefiro fazer isso às terças-feiras. Segunda é dia de esvaziar gavetas e arrumar coisas. Houve uma época em que eu forçava a barra. Eu procurava manter o ritmo também às segundas, com o mesmo volume de produção. Já desencanei. Segunda-feira é o meu dia devagar.

Mas hoje tinha reunião de vivência na sala da minha filha, então eu não poderia faltar. Ela ainda está com o rosto cheio de marcas dos arranhões e da mordida do Rafa, por isso ela estava bem chateada de ir para a escola. Mas nós a convencemos.

A reunião durou duas horas e foi bacana mas um bocado cansativa. Consistiu de uma explicação longa e detalhada das professoras sobre as atividades em sala e o conteúdo a ser desenvolvido no ano letivo. Os pais foram convidados a participar de atividades junto com os filhos nas aulas de inglês, artes, música e educação física. As crianças estavam radiantes.

No final, na aula de educação física, participamos de duas brincadeiras. A primeira foi uma espécie de pique-pega que começava com todo mundo de mãos-dadas, formando um círculo. Três crianças, com seus respectivos pais, eram os pegadores. Uma das crianças e somente uma poderia quebrar a corrente do círculo. O resto das regras não entendi, porque todas as crianças gritavam ao mesmo tempo e estavam loucas para que aquilo tudo começasse.

Mal começou e o círculo já estava rompido e todos fugiam uns dos outros, uma bagunça e gritaria geral. Fui cercado por um monte de gente e me disseram para ficar abaixado. Obedeci. Crianças corriam e esfregavam a mão na cabeça dos adultos abaixados, que assim poderiam ficar em pé e fugir novamente. Um menino veio e esfregou a minha cabeça, mas preferi ficar abaixado porque estava com preguiça de correr de um lado para outro.

Em seguida, a professora nos chamou para uma nova brincadeira, que era uma espécie de queimada, com uma regras bestas de ficar congelado e descongelar que novamente não entendi direito por causa da gritaria. Recomeçamos os movimentos microbianos em velocidade acelerada. Por fim, a professora encerrou aquele nonsense e todos nós batemos palmas, aliviados.

sábado, 24 de março de 2012

O inimigo Rafa



JJ Grey - King Hummingbird

Rafa é o cãozinho shi-tsu da minha filha. Pesa uns três quilos, tem uns 40 cm de comprimento e uns trinta de altura. Em geral é bem fofinho, mas desde ontem está em baixa total aqui em casa. Não é sem motivos. Rafa arranhou e mordeu o rosto da minha filha. Ela está com vários pequenos arranhões na bochecha, um risco que vai da testa à ponta do nariz e um pequeno corte acima do lábio, na parte esquerda do rosto. Tudo foi superficial, mas o cortezinho perto da boca sangrou à beça. Ficamos todos assustados.

As circunstâncias do ataque não estão bem claras. Rafa teria atacado enquanto minha filha fazia carinho no cãozinho. Ela adora abraçá-lo e pode ter apertado um pouco demais e o bichinho reagiu. Outra hipótese é que o Rafa adora dormir, mas quando alguém o acorda ele geralmente fica muito assustado e irritado. Sei disso porque uma vez ele me deu uma tremenda mordida no dedão da mão quando o acordei durante uma soneca no sofá. Eu só queria colocá-lo no ninho, mas ele não quis saber de conversa. Numa outra vez ele mordeu o meu dedão do pé quando o cutuquei, sem querer, enquanto ele dormitava debaixo da mesa do almoço. Nessas duas vezes, o Rafa ficou bem irritado, rosnando e me olhando com um jeito agressivo.

Minha filha também já havia sido arranhada na bochecha uma outra vez, quando os dois brincavam. Desta vez, o Rafa ficou rosnando e latindo muito para mim quando socorri a minha filha. Percebi que ele estava tão confuso quanto eu, a menina chorava e gritava assustada com o próprio sangue. Acho que o Rafa estava tentando defendê-la de mim. Depois ele ficou bem jururu, quietinho, como se soubesse que havia feito uma besteira enorme.

Isso aconteceu ontem à noite, quando nos preparávamos para dormir. Mas ao invés da tradicional leitura de livro, acompanhada de copos de água e mais histórias para dormir, ontem tivemos chororô, muita água oxigenada, esparadrapo e metiolate.

Depois de muito tempo, as crianças se acalmaram e dormiram.

_O que faremos quanto ao Rafa? - disse a minha mulher.

_Vamos decidir amanhã. Hoje estamos com a cabeça quente e poderíamos cometer um erro irreversível.

E neste sábado, é claro, acordei com a decisão certa na cabeça, pensando em declarar o Rafa como inimigo oficial do nosso pequeno clã e baní-lo para outra residência onde ele não poderia morder menininhas indefesas. E nem dedões.

Mas, covardemente, deixamos que a menina decidisse a sorte do Rafa. E ela perdoou o cãozinho, mesmo estando com o rosto todo arranhado e com um esparadrapo ventilado enorme sobre o corte acima do lábio. Rafa passou o dia inteiro meio cabisbaixo, brocoxô, com um olhar pidão, andando para cima e para baixo.

sexta-feira, 23 de março de 2012

Adeus, Chico



Escolinha do Professor Raimundo - Seu Mazarito

Morreu um gênio.

O vídeo acima tem dois.

quinta-feira, 22 de março de 2012

Incidente no supermercado



"She's Got The Jack" AC/DC with a White Stripes video

Fui almoçar com os meus pais nesta quinta-feira. Tenho a sorte de ser vizinho deles. Minha mãe tem mais de 75 anos. É uma mulher gentil e muito bem educada. Quase sempre também é otimista e bem-humorada. Mas hoje estava chateada com o que aconteceu no supermercado.

_O que foi, mãe?

_Um sujeito grosseiro. Nada de mais - ela disse.

_O que ele fez, mexeu nas suas compras? - eu disse.

_Não, ele só me respondeu de um modo grosseiro.

_Foi na fila dos idosos? - eu disse.

_Não, eu não gosto da fila dos idosos. O caixa é muito lerdo, fica passando as coisas devagarinho. E toda hora fica conferindo se passou mesmo a mercadoria. Parece que o leitor do código de barras daquele caixa está sempre com defeito. O caixa rápido também é uma porcaria, demora à beça. Eu vou no caixa comum, ele me trata como uma pessoa comum, é muito melhor.

_E o caixa foi grosseiro? - eu disse.

_Não, foi um sujeito na fila. Ele estava distante do carrinho, quase encostado no balcão do caixa. Eu perguntei se era o carrinho dele, só isso. Ele me olhou com raiva e disse "por quê?". Eu fiquei espantada. Até mudei de fila e fui no outro caixa.

_Mas que cara escroto! - eu pensei em dizer. Mas eu não falo algumas palavras na frente da minha mãe.

_Mas que sujeitinho infeliz - eu disse.

_Você precisava ver o jeito como ele olhou. E o tom de voz? Nossa, não precisava - disse a minha mãe.

_Vai ver ele pensou que você ia levar o carrinho cheio de compras dele - disse o meu pai.

_Ai, que absurdo!- disse ela.

_Faz sentido, eu mesmo já encontrei um carrinho de supermercado cheio de compras super-escolhidas quase na boca do caixa. Tinha frutas perfeitas, maçã, uva, banana, até a carne moída era bonita. Tudo arrumadinho. Achei que alguém tinha abandonado o carrinho e fui para o caixa. Quando estava quase no fim vi uma velhinha procurando o carrinho. Saí de fininho enquanto ela fazia o maior escândalo - eu disse.

_Pois então, vai ver foi isso. O sujeito achou que você ia tomar posse do carrinho e resolveu enxotar a velhinha - disse o meu pai.

_Velhinha é a sua avó - disse a minha mãe.

_Mãe, você queria levar o carrinho do sujeito? - eu disse.

_Ora, vá plantar batatas! - disse a minha mãe.

_As batatas, estava de olho nas batatas...

_Socorro...

quarta-feira, 21 de março de 2012

Para ganhar dinheiro fácil e a rodo



The Bamboos - 'King Of The Rodeo' feat. Megan Washington - uma versão bem legal de Kings of Leon.

Demorou um pouco, mas caiu a ficha. Minha mulher me pediu um estrado para pendurar vasos, mas não entendi direito e passei quase a manhã inteira montando uma estante em pinus. Não era daquele jeito. Ela correu para me mostrar uma revista que tinha uma foto do estrado. No final da manhã consegui terminar o projeto. Teria dado tempo de concluir tudo ainda hoje se não fosse a chuva. Pelo segundo dia consecutivo, caiu um tremendo aguaceiro no início da tarde.

Ontem a chuva provocou uma queda de energia no perto das cinco horas. Quando voltei para casa com as crianças, a luz ainda não tinha voltado. Fomos procurar as lanternas e velas para tomar banho e nos divertimos um pouco com a casa às escuras. Mas eles não estavam nada animados com a perspectiva de um banho frio. Felizmente a luz retornou na hora exata em que entraram debaixo do chuveiro. Depois foi o contrário, é claro. As crianças relutam a tomar banho, mas depois que começam não querem mais sair.

Minha vida segue uma rotina de pequenos afazeres. Todos os dias, procuro fazer uma coisa que tenha início e fim, como os posts diário no blog. Às vezes acho que estou fazendo algum progresso com as outras coisas que estou escrevendo. Nessas horas fico muito feliz por não estar preso dentro de um cubículo. Outras vezes, acho que nada funciona e que estou desperdiçando o meu tempo fora de um cubículo. Talvez eu tenha nascido para um cubículo.

Seria bom ganhar uns caraminguás. Então começo a devanear sobre formas espetaculares para ganhar dinheiro fácil e a rodo. Eu poderia vender um rim. Mas só tenho dois, tenho certeza de que um deles me faria falta. Então eu penso mais um pouco. Eu poderia intermediar a venda de um rim. Mas isso deve ser ilegal e não gostaria de cometer um crime. Talvez eu pudesse hipotecar ou exportar meu próprio rim. Mas acho que eles exigiriam exames complexos e não sei se o meu rim atenderia aos requisitos mínimos. Depois eu me lembro que eu não tenho o menor tino para comércio, então penso em outra coisa.

Norman Mailer tem um conto em que o personagem está numa situação parecida com a minha. Então o sujeito resolve começar a dar aulas de tauromaquia em Manhattam. Talvez eu devesse fazer uma coisa parecida. Mas sou bom em pouca coisa e tauromaquia não é uma delas. Sou bom em alicate de dedo. Peteleco. Adedonha.

Help.

terça-feira, 20 de março de 2012

Elegia



The Beatles - Because

Quando minha avó morreu, minha irmã mais velha fez um belo discurso no velório. Ela fala baixo, essa minha irmã, mas foi possível escutar todas as palavras com clareza. Minha irmã falou da vida dura e sofrida da minha avó, que ficou viúva antes de completar 25 anos, com sete filhas para criar e mais um menino que adotou. Naquela época, viúvas não tinham muito futuro. Enxotou pretendentes a rodo, fazendeiros de olho em suas terras e na sua beleza juvenil, no seu corpo fértil. Uma foto da época em que ficou viúva mostra uma moça muito bonita, de grandes olhos escuros. Parecia artista de cinema. Minha avó disse não a todos. Levou vida casta e dedicada à família. Era religiosa, temente a Deus, mas sem ser beata. Sem instrução, soube vencer com dignidade as dificuldades de se educar e encaminhar todos os filhos. Nenhum se perdeu. Todos construíram suas vidas, estudaram e constituíram famílias. Minha avó, disse a minha irmã, sofreu a dor de enterrar uma filha mas não se abalou. Sempre foi uma mulher de atitudes firmes, um exemplo de retidão e abnegação.

Foi mais ou menos nessa altura que eu percebi que estava soluçando alto, já não escutava nada do que minha irmã dizia. Lembro muito pouco do resto do discurso.

No interior, os vizinhos da rua inteira vêm transmitir seus pesares à família e o velório fica sempre muito cheio. Mas igual ao da minha avó, só vi em filme. Tinha gente a dar com pau, menino de nariz escorrendo, gente simples e humilde, gente rica e elegante, mas até o vendedor de picolé chorava, lá no portão. Quando parei de soluçar, minha irmã ainda falava e voltei a prestar atenção. De algum modo, minha irmã tinha começado a falar sobre a extraordinária força de vontade da minha avó, que havia quebrado a mesma perna três vezes. Superava a dor com valentia, sem se queixar, e em pouco tempo se recuperava. Fazia questão de ir à feira sozinha, todas as semanas.

O final da vida da minha avó foi sofrido. Ela parecia se recuperar e de repente piorava. Num daqueles dias, ela descansou. No velório, ela parecia mesmo estar descansando, com o terço nas mãos. Mas para minha mãe e suas irmãs e meu tio não havia palavras de consolo, não havia conforto. E assim foi, por algum tempo.

Desde aquela época eu sei que não sei fazer uma elegia.

Morreu ontem Dona Zeina, amiga e mãe do meu amigo Rodrigo. Um beijo, Dona Zeina, todos aqui em casa sentiremos muitas saudades da sua sinceridade, ternura e alegria. Força Rodrigo, Joe, Boiá e Rick.

segunda-feira, 19 de março de 2012

O terceiro muito obrigado



AC/DC - Rock N' Roll Train

Houve uma época em que não tinha a mínima paciência para vendedores ao telefone. Mas aqui em casa as coisas podem ficar bem monótonas e às vezes eu fico umas três ou quatro horas em silêncio, sozinho. Então, quando o telefone toca, eu já não me apresso a desligar como antigamente. Mesmo que seja uma vendedora da tv a cabo. Hoje, por exemplo, ligaram três vendedores diferentes da mesma empresa, sendo duas mulheres. Ouvi as propostas integralmente, sem interromper em nenhum momento. Os vendedores ficam surpresos com isso. Acho que estão acostumados a serem enxotados depois de umas duas ou três frases. Comigo não. Eu encomprido a conversa.

_Hum, isso parece ótimo! São quantos canais a mais mesmo?

_Hãã...são dez canais a mais, sendo 9 de esportes e um de filmes, senhor. E tudo por apenas nove e noventa e nove de acréscimo na sua fatura, sendo que no primeiro mês é de graça, totalmente de graça e gratuito, não custa nada no primeiro mês!

_Que maravilha! Isso significa que no primeiro mês eu não preciso pagar nada a mais na minha fatura! Caramba! Mas isso é sensacional!

_Hãã...E o senhor também pode adquirir agora todos os canais de filmes exclusivos da nossa rede por apenas 49 e 99! Com isso, o senhor vai contar com mais de 110 canais de diversão e interatividade para toda a família!!

_Uau! E por apenas 49 e 99! Eu sou mesmo um cara sortudo! São quantos canais mesmo?

_São 110 canais exclusivos de séries, filmes e canais interativos para o senhor e a sua família!

_Nossa, é muito canal!

_E eu só preciso confirmar algumas informações agora para que o senhor e a sua família...

_Não, muito obrigado, mas não estou interessado.

Algumas vezes, o vendedor ainda insiste um pouco, mas em geral desligam depois do terceiro "não, muito obrigado". Vai ver essa regra está escrita em algum manual de telemarketing. Deve existir uma outra regra sobre quem faz a ligação. Nunca atendi ao mesmo vendedor.

domingo, 18 de março de 2012

Uma dica para os atrasados



Kinny - Enough Said

Neste domingo nós nos atrasamos para uma festa de aniversário de um amigo do meu filho. Foi um grande atraso. Na verdade, quando chegamos, o último carro com convidados estava acabando de sair. Fomos vistos e não havia mais como recuar e sair à francesa, de fininho. Tivemos que entrar, abraçar o aniversariante e conversar um pouco, é claro. Meu filho ficou chateado, porque gostaria de ter brincado com os colegas de escola. Mas estava chovendo aquela chuvinha fina e fria, foi até bom não prolongar a estadia. Além disso, o aniversariante não estava muito bem. O menino pulou de um barranco no campo de futebol inflável e bateu o queixo em algum lugar. Precisou levar alguns pontos dentro da boca. Ficamos sabendo do acidente enquanto observávamos as crianças brincarem na cama elástica. É uma casa muito bonita, essa do amigo do meu filho.

_Nossa, deve ter sangrado horrores - eu disse.

_Muito, muito mesmo. Ensopou a camisa. Tive que correr até o dentista para que ele desse os pontos - disse a mãe do menino.

_Dentista?

_É, eles são muito bons com cortes dentro da boca - disse a mãe do menino, que é médica.

É uma dica preciosa. Jamais me lembraria de ir ao dentista numa situação dessa. Certamente teria corrido para a emergência de um hospital e esperado horas. Antes de sairmos admirei a vista da casa. Fantástica. Dava para ver uma bela silhueta da cidade e a chuva forte chegando. Adoro essa cidade.

sábado, 17 de março de 2012

Um clássico



Led Zeppelin - Immigrant Song

Depois dos chutes no traseiro



AC/DC Whole Lotta Rosie



Recebi por e-mail.



CONTAGEM REGRESSIVA PARA A COPA 2014...


Faltam 2 anos,

12 estádios,

1 seleção,

1 técnico,

300 hotéis,

14 aeroportos,

120.000 km de rodovias,

2.000 km de metrô,

1 trem-bala completo,

pacificação em 115 favelas,

33.000 soldados preparados,

2.000 restaurantes e

150.000 motoristas de taxi falando inglês. Acabar com o trafico de crack, cocaina e maconha, reeducação geral para 190 milhões de brasileiros...

Sejamos otimistas, falta pouco!

sexta-feira, 16 de março de 2012

Às vezes, nada funciona



Sheryl Crow - Rock And Roll

Às vezes, nada funciona.
Muitas vezes, nada funciona.
Quase toda hora, nada funciona.
Nesse minuto mesmo, tem uma coisa que não funciona.
O vídeo acima não funciona.
Melhor parar por aqui.

quinta-feira, 15 de março de 2012

Os nomes estranhos



When The Levee Breaks - Zepparella

Fui a uma cerimônia de colação de grau outro dia. Foi em outra cidade. O auditório era gigantesco e havia uns oitenta formandos em direito, todos de beca, faixa e aquele chapéu quadrado. A cerimônia contou com show de laser e música incidental. O juramento e os discursos também foram caprichosamente emoldurados. As pessoas da platéia disputaram quem fazia mais barulho quando seu formando era chamado.

O nome era escrito com laser verde na parte superior do palco. Achei alguns nomes bem interessantes. Todos desfilaram com empolgação. O orador da turma caprichou na entonação e não poupou clichês. Foi aplaudido, mas sem júbilo. Houve uma homenagem a um aluno que morrera uma semana antes da cerimônia. Um familiar foi chamado para receber o diploma que o aluno falecido deveria receber. Um governador foi o padrinho da turma. Ele conseguiu vencer os apupos iniciais e acabou aplaudido, com clichês, frases incompletas, parágrafos truncados e tudo.

Em seguida, nova chamada dos formandos para que todos, um de cada vez, recebessem o canudo. Desta vez cada torcida particular caprichou no barulho. Um sujeito gordinho e um magrelo cabeludo quase estouraram meus tímpanos com suas buzinas, apitos e cornetas. Resisti bravamente e não agredi ninguém. Para não pensar no barulho, fiquei reparando novamente nos nomes dos formandos. O brasileiro é muito criativo para nomear as pessoas, todo mundo sabe, é um fenômeno que já nem espanta ninguém. Mas desta vez fiquei muito impressionado.

Segue abaixo uma pequena lista dos nomes que ficaram na minha cabeça. Em ordem alfabética:

Crismeirivei
Crissia
Deiseney
Elisama
Gilbethânia
Kleiderson
Valderissima
Vandernelson

O nome que eu achei campeão de esquisitice foi o da Gilbethânia. Tratava-se, obviamente, de uma homenagem dos pais aos artistas da MPB Gilberto Gil e Maria Bethânia. Como posso ter certeza? O segundo nome era Caetano e o terceiro, antes de Silva, era Galcosta, com tudo junto.

Acho que vou passar a evitar cerimônias de colação de grau. Saí de lá com dor nos ouvidos.

terça-feira, 13 de março de 2012

Truques e circo


Foo Fighters - Walk

Eu estou na platéia desse circo. Tenho apenas sete anos de idade. Lá na frente, o mágico inicia a sua apresentação. Está vestido de branco, fraque, gravata borboleta grande e cartola, e tem a pele negra. Não me lembro de ter visto mágicos assim antes. Ele tira um bicho de dentro do fraque. É um coelho. É um coelho preto.

Tira a cartola, mostra que está vazia. Coloca o coelho dentro da cartola, diz as palavras mágicas e zup, o coelho sumiu. Mas alguma coisa parece estar errada, o mágico parece preocupado. O coelho sumiu mesmo.

Ele procura na roupa, na caixa de mágico, nada. O mágico continua o espetáculo e faz as coisas de sempre. Garrafas, pombos, periquitos, anéis de aço, levitação, cartas de baralho, caixa de espadas, serragem de uma mulher ao meio, emenda da mesma mulher, garrafa cheia, garrafa vazia, etc. Ao final, tira a cartola da cabeça e enfia a mão, como quem procura alguma coisa. Todos nós esperamos ver o coelho preto novamente, mas aparece um coelho branco.

Ele tira o coelho branco da cartola e enfia a mão novamente. Outro coelho branco. Ele tira o coelho da cartola e repete os movimentos. E retira o terceiro coelho branco. Nessa altura, eu e toda a platéia batemos palmas feito loucos. Então ele mergulha a mão mais uma vez dentro da cartola. E devagarinho retira o coelho preto. Aplaudimos ensadecidos.


Dez anos depois estou na platéia desse mesmo circo. E o mesmo mágico apresenta o mesmo número. Faz tudo exatamente igual e no final retira o coelho preto e uma porção de coelhinhos. Eu e a platéia aplaudimos loucamente.

Vinte anos depois estou na platéia novamente. O mágico começa a sua apresentação e recebe vaias quando finge não encontrar o coelho logo no início. Aos poucos, ele consegue conquistar o público, fazendo cada truque com grande habilidade e graça. Ao final, aparecem o coelho preto, coelhinhos brancos e pretos e um coelho xadrez. A platéia aplaude intensamente.

Só ontem descobri que o circo está de volta à cidade e que o mágico continua vivo e em grande forma. Amanhã mesmo estará apresentando o seu espetáculo, considerado um clássico. Não vou nem a pau. Estou de saco cheio de circo e de truques baratos.

segunda-feira, 12 de março de 2012

As coisas não vão bem quando vão mal



Kings of Leon - California Waiting


Governo? Que governo? é o título do novo artigo do professor Marco Villa, uma das poucas vozes lúcidas que ainda se fazem ouvir nestes tempos lúgubres e insalubres. Vale muito a leitura do artigo.

sábado, 10 de março de 2012

Tatu, o escolhido



Steve Miller Band - Abracadabra



_O mascote da copa será o tatu.

_Um avião, patrão, um avião!

_Não é o anão da ilha da fantasia. É o tatu-bola.

_Tatu-bola tem hífen?

_Tem. Uma vez comi um tatu-bola.

_Ficou com dor nas costas?

_Rá, rá. Sério. Faz muito, muito tempo, na fazenda de um amigo.

_Pensei que era um bicho protegido.

_Esse estava sem guarda-costas.

_Rá,rá. Foi assado ou cozido?

_Assado e frito, eu acho. Foi servido com molho de pimenta.

_Que fim levou o Tatu?

_Já disse, foi comido.

_Não, eu falo do Tatu da série da tv.

_Também deve ter sido. O Ricardo Montalban não perdoava ninguém.

_Fico pensando na coreografia da abertura da copa. A Adele cantando Rolling in the deep. No final, um tatu-bola rola pelo gramado. A multidão vai ao delírio.

_Lindo.

sexta-feira, 9 de março de 2012

A febre Harry



The Clash - I Fought The Law

As crianças pegaram a febre Harry Potter. Os primos que foram a Disney voltaram maravilhados de lá e influenciaram um pouco, é verdade. Desde janeiro as aventuras do menino mágico começaram a dominar as brincadeiras. Eles encontraram uma lista de palavras usadas pelo Potter e sua turma na internet e volta e meia dizem alguma coisa em latim um para o outro.

_PriorIncantato!

_Deletrius!

_Avada Kedavra!

_Reducto!

É o dia inteiro. Eu e a minha mulher também somos enfeitiçados a toda hora, já nem ligamos mais.

_Legilimens! - diz a minha menina.

_Credo! O quê é isso?

_É o feitiço para ler a sua mente.

_Escrevilimens! - eu digo.

_Ôxi, o que é isso?

_É o feitiço para escrever a sua mente. Eu passo a mandar no seu pensamento - eu digo, e dou a minha risada de Vincent Price em Thriller, do MJ.

_Bloqueatus!- diz a menina.

_Abretudus!

Ficamos boa parte do dia assim. E depois fiz umas varinhas mágicas de Harry Potter para os dois. Meu filho me ajudou na oficina e ficou bastane orgulhoso do trabalho.

quinta-feira, 8 de março de 2012

Estamos lotados



Doobie Brothers - Listen To The Music


Lotação atingida
Estamos lotados de móveis. Sim, fiz algumas peças, mas agora vou dar um tempo, a casa enorme já tem muita coisa. Por isso, estou dedicando algumas horas do dia para melhorar a área e os móveis da oficina. Refiz a minha bancada de trabalho, que ficou mais firme e comecei a organizar os dois grandes armários de ferramentas. Separei os objetos por tamanho e função.


O supremo é o terror
A notícia diz muito sobre a qualidade das decisões dos nossos supremos magistrados. Caminhamos a passos largos para a bagunça jurídica total porque os caras lá de cima estão batendo cabeça enquanto ajudam jagunços poderosos a bater nossas carteiras.

Chuvaréu alaga Brasília
Choveu no final da tarde. A cidade virou uma zona. Gastei mais de uma hora para pegar as crianças na última atividade do dia. Estou cansado pacas. Talvez seja ainda um resquício de gripe.

quarta-feira, 7 de março de 2012

Sou um péssimo eletricista



Van Halen - You Really Got Me

Calor intenso nos últimos dias. O boiler foi desligado e mesmo assim a água esquenta muito graças ao sistema de energia solar. Terminei os serviços mais simples de eletricidade da casa. Fiz uma remodelação geral na oficina. Rafa, o cãozinho shi-tsu da minha filha, anda me seguindo para todos os cantos. E sempre dá um jeito de demonstrar que não está gostando. Fez xixi em todos os cantos possíveis da oficina. Não escapou nenhuma perna de mesa e nem mesmo rodinha. O estrago é tão grande que vou ter que pintar novamente.

Estamos dormindo todos os dias com os ventiladores ligados. É bem verdade que um dos ventiladores precisa de alguns ajustes no interruptor. Por algum motivo que desconheço, as funções das teclas do interruptor não corresnpondem às ações. Se eu ligo a luz, não acontece nada. Se eu figo o ventilador, as lâmpadas também acendem. E se eu só aumento a velocidade do ventilador, sem ligar a luz, não acontece nada.

Pelo menos não levei choque.

terça-feira, 6 de março de 2012

Thin Lizzy - The Boys Are Back in Town



Thin Lizzy - The Boys Are Back in Town

Ultimamente tenho escutado um monte de músicas que eu escutava no início dos anos80. Naquela época, tínhamos muitas fitas cassetes em casa. Meu irmão gravava um monte e eu aprendi as técnicas rapidinho. Havia alguns programas legais e o importante era estar preparado para a música certa, na hora certa. Eu deixava o gravador engatilhado no recorder, o dedo na tecla "pause". Aos primeiros acordes do sucesso que eu queria, bastava apertar suavemente a tecla para que o registro começasse. Eu gravava tudo. MPB, rock, música clássica, jazz. Começou ali também a minha mania de desenhar bem pequeno na capa das fitas. Eu reproduzia os mesmos desenhos de Saint Exupery em "O pequeno príncipe".

Ainda possuo um monte de fitas cassete guardadas numa gaveta, na casa dos meus pais. Tenho medo de colocar essas fitas para tocar e elas simplesmente se esfarelarem. Algumas estão sem capa, mas sei a sequência das músicas só de olhar para o desenho que fiz. Naqueles dias, as rádios inseriam vinhetas no meio da música, bem alto, para que a sua gravação ficasse marcada. Eu detestava isso. E apagava as músicas que vinham com o prefixo de uma rádio qualquer. Minhas fitas eram limpas e eu tinha o maior orgulho delas.

Mas às vezes, era impossível esperar mais por alguma música que você queria muito escutar de novo, na sua própria fita. Minha fita da Steve Miller Band era desse jeito. Todas as faixas estavam com a vinheta da rádio, que fez um programa especial dedicado à banda em algum momento dos anos 80. Para eternizar aquele momento, eu comprei uma fita cassete especial de ferro-cromo, 90 minutos. Beleza. Tinha espaço de sobra. Por isso, lá no final havia essa música, The boys are back in town, , a única do Thin Lizzy que consegui gravar naqueles dias malucos da adolescência.

segunda-feira, 5 de março de 2012

Sobre chutes no traseiro



AC/DC - Thunderstruck

As discussões sobre a copa quase sempre descambam em ataques gratuitos entre quem defende e quem é contra a realização da competição no Brasil. Acho ataques gratuitos um desperdício. Agora mesmo fiquei surpreso com a sugestão de chute no traseiro do país feita pelo secretário-geral da FI-FÁ-FUM. Achei desrespeitosa e grosseira. Mas fiquei mais surpreso ainda com a reação do Alho Cabelo, que já solicitou o corte do gringo dos papos oficiais sobre a Copa. Taí uma coisa que não surpreende, tem um monte de gente conversando altos diálogos sobre a Copa, mas pouca coisa tem sido feita. Acho que o país não merece chute nenhum. Mas as coisas precisam ser feitas e bem feitas.

Acho que poderiam começar com maior transparência sobre o que tem sido conversado e sobre a utilização dos recursos. Em geral, estamos recebendo pílulas de informações sobre o certame, com muito ruído e acusações mútuas de quem defende ou de quem é contra a realização da copa no país.

Sabemos que alguns estádios estão pela metade, que os aeroportos estão pela metade, que as estradas estão pela metade, e que o Caldo Ramelo já está de saco cheio de levar boladas nas costas da turma da Fa-Fe-Fi e do Ricardo Peixeira. Aliás, o Ricardo Telheira era dado como saído da CêBêÉfe, mas mexeu os seus dadinhos e anunciou ao bravo povo que o odeia que todos terão que engolir sua proeminência até ele cansar.

Mas ninguém sabe se é verdade mesmo que os dois quilômetros em torno da área de jogo serão considerados área da Fifa, com exigência de documentação, ingresso e autorização controlada pelos meganhas da Fifa durante o certame. Ninguém sabe também se é verdade que nessa área o que valerá será a lei da Fifa e não as nossas leizinhas mixurucas. E ninguém sabe também qual é o número de leitos de hospitais que será reservado antecipadamente no período dos jogos para a turma do futebol, políticos e cartolas.

Essas coisinhas me preocupam porque já ouvi falar que alguns governos federais, estaduais e municipais pretendem decretar feriado no período da copa. Feriado geral por período prolongado é pior do que carnaval, a bandidagem rola solta porque os policiais vão curtir as férias como devem ser curtidas, longe do perigo.

Acima de tudo, além das questões de infra-estrutura e operacionais, ainda não escolhemos um nome para a bola oficial, eu não sei o nome do mascote nacional e achei aquele símbolo horroroso. Para complicar ainda mais, temos uma seleção pereba de tudo, não empolga nem em amistoso com timeco. Pensando bem, talvez aquele cara da Fifa não estivesse de todo errado.

domingo, 4 de março de 2012

Ataque de paúra



AC/DC - Ride On

Outro dia fiquei com medo de morrer de repente, assim, do nada. A gente vive ouvindo essas histórias e sempre acha que é algo impossível de acontecer, mas convenhamos, acontece o tempo todo e pode acontecer com todo mundo. Tive esse ataque de paúra enquanto fazia compras no supermercado, exatamente quando passava na sessão de peixes. Sempre compro peixe congelado, mas gosto de praticar as dicas que ouvi num programa de rádio para a compra de peixe fresco. Fiquei olhando os olhos dos peixes para ver se estavam brilhantes, conferi se as escamas estavam firmes e aí tive o ataque. Bum. Paralisei total. Só saí do transe quando um outro carrinho bateu, de leve, no meu. Devolvi o pescado para a montanha de gelo e continuei a fazer compras, normalmente. Durante o ataque pensei em milhões de coisas e não consigo lembrar de muita coisa. Mas lembro de pensar que eu quero viver.

Putz, vou ter que planejar essa contingência.

sábado, 3 de março de 2012

Calúnias



Death Proof- Car crash scene - Tarantino

Resisto bravamente à oferta de dvds piratas. Já fui diferente, comprava sem o menor peso na consciência. Andava uptodate com os últimos lançamentos do cinema. Um dia meu filho me viu chegar com um dvd pirata e disse que aquilo era um crime. E me olhou com visível decepção. Era um princípio arraigado. De alguma maneira eu intuí que se eu argumentasse e desse uma desculpa qualquer estaria abalando a estrutura moral do menino para sempre.

_Você tem razão - eu disse. E botei a culpa no Tio Cabeça, é claro.

_O Tio Cabeça que me deu. Acho que ele não percebeu que era pirata - eu disse.

_Pai, é lógico que percebeu. Esse disco tem só uma capinha de plástico. O verdadeiro tem muito mais coisas. Até o papel é melhor e mais bonito - disse o menino.

A conversa me obrigou a uma ginástica arrumacional em casa. Peguei todos os filmes que acumulei durante esses anos e fiz um pente fino, só mantive os originais e legais. As minhas toneladas de pirataria foram sendo eliminadas aos poucos, devidamente destruídas, para não dar muito na vista e chamar a atenção das ôtoridades. Como todo mundo sabe, as ôtoridades daqui adoram ferrar com a vida de manés como eu, mas ficam cheias de dedos e não-me-toques quando se trata de enquadrar tubarões e larápios contumazes, até mesmo os que aparecem em vídeos embolsando propinas. De resto, o que me motivou mesmo foi o olhar do menino, não quero nunca ficar longe do seu coração.

Os anos se passaram e tinha me esquecido de que havia colocado o meu amigo Cabeça numa situação difícil imerecidamente. Ele estava com a moral abalada frente ao meu primogênito sem que soubesse e sem ter a menor culpa no cartório. Só me lembrei da história no dia de hoje, em pleno restaurante, quando entrou ali o vendedor de filmes piratas. Nesta cidade, um mané como eu corre o risco de ser eletrocutado numa blitz de Detran, mas um manezinho vendedor de pirataria circula com a maior desenvoltura e oferece sua muamba sem o menor pudor em qualquer lugar. Confesso que me senti tentado a resolver ali mesmo a minha defasagem cinematográfica em relação aos concorrentes ao Oscar. Mas não esqueço o olhar do menino e não gosto de esconder coisas.

Então fiquei ali, só observando a reação do Cabeça. O vendedor deu uma circulada pelo restaurante e depois de algum tempo chegou à mesa. Eu suspeitava que o Cabeça manifestaria uma verdadeira ojeriza à pirataria e temia que ele saísse no tapa com o ambulante das maracutaias. Puxa vida, eu tinha que arrumar uma maneira de pedir desculpas ao Cabeça, afinal de contas, lá em casa ele estava queimado com as crianças. Para elas, ele era o rei do dvd pirata, exatamente o oposto da vida real. Na minha cachola, eu já via tudo:

_Mas que absurdo! Isso é crime! Isso alimenta o crime organizado! Isso sustenta a rede de violência e bandidagem! Essa é a base do tráfico de drogas leves, pesadas e marijuana! Você contribui para o comércio de escravas! Leve essas coisas para longe daqui, xô! - diria o Cabeça, na minha antecipação das coisas.

Mas ao invés disso, ele me apontou com o dedo para o vendedor e disse:

_Não, quem gosta de pirataria é aquele cara ali, ó!

sexta-feira, 2 de março de 2012

Coisinhas bobas que consomem um tempão



Red Hot Chili Peppers - Snow

Quase toda a minha vida eu quis mais de tudo. Vida, saúde, amor, felicidade, prazer, livros, desenho, música, comida, bebida, tempo e um bom lugar para relaxar e ficar sem fazer nada. De tudo, já tenho muito, mas não consigo relaxar e ficar sem fazer nada. Então passei a querer menos. Comecei com os livros, depois viriam músicas, comida e bebida.

Tenho muitos livros enfileirados para ler, eu pensei, então vou parar de procurar livros como quem procura respostas para perguntas que não consegue fazer. Tentei colocar a estante em ordem, mas todas as vezes que começo a fazer isso acabo interrompendo o trabalho para ler um livro. Então nunca consigo arrumar a estante, embora ela não seja muito grande. Também tenho outras estantes desarrumadas, na casa dos meus pais, isso é um fenômeno que acontece há tempos.

Sempre adio a mudança dos livros para a minha casa, me desculpo alegando motivos variados. Quando eu morava no velho apê eu dizia que não tinha espaço, que ficaria apertado, mas era mentira. Se eu tivesse feito questão, havia um espaço bacana debaixo da cama. Cheguei a projetar uma estante subcama. Era um estrado sobre rodas. Ficaria um pouco estreito, mas toda a minha coleção de paperbacks poderia ficar ao alcance dos calcanhares. Felizmente minha mulher vetou a possibilidade de abrigar uma estante debaixo da cama, me explicando que os livros ficariam empoeirados e se tornariam viveiros de ácaros e fungos.

Em abril vamos completar um ano de casa nova. Aqui a desculpa de falta de espaço para livros não cola. Então eu inventei que é a falta de estantes que impede a mudança dos livros. Como estou praticando trabalhos em madeira praticamente todos os dias, essa desculpa também está se tornando bem esfarrapada.

O que me salva a cara é que a casa sempre exige trabalhos de manutenção. E existem coisas que apesar de serem bem simples, pela minha falta de experiência no assunto, demoro um tempão para fazer. Nesta semana, por exemplo, coisinhas bobas como arrumar as tomadas, trocar umas lâmpadas fluorescentes e trocar um ventilador de teto me encheram os dias. As coisas apresentaram problemas específicos, difíceis de resolver quando não se quer gastar dinheiro. Cada tomada da casa tinha um padrão diferente e já esgotado no mercado. Como harmonizar o visual tomadístico da casa e, ao mesmo tempo, dotar a residência do novo padrão de três furos?

Simples. Admiti para mim mesmo que essa é uma questão meramente retórica e que eu faria o melhor possível de acordo com o que eu já possuía em casa. Na prática isso significou a catalogação das tomadas, plugs e interruptores da casa para um remanejamento estudado e calculado, aproximando os iguais e deixando bem longe os desiguais.

Rose, a cozinheira-babá-lavadeira-cozinheira-universitária daqui de casa, achou que eu tinha enlouquecido. Andei alguns dias com chaves de fenda e philips nas mãos, desatarrachando e trocando tudo de lugar. Terminei tudo no maior capricho e fui ao banheiro tomar um banho de missão cumprida. Na hora em que entrei, um plafon do banheiro despencou do teto de gesso. Por pouco não me acertou a cabeça. Então, ó minha querida kombi de leitores, permaneci sujo e suado e tratei de providenciar uma solução para aquela quizumba.

Mas antes, é claro, eu teria que consultar minha professora doutora universitária e mulher, porque eu não sou idiota de trocar uma lâmpada nessa casa sem ter primeiro a concordância da senhora que paga o supermercado. Obviamente, ela concordou com alguma coisa bem complicada, que seria uma substituição em série de várias luminárias em diversos cômodos diferentes, até a colocação de uma nova luminária embutida no teto de gesso do banheiro. Putz.

Por isso, achei melhor contratar um eletricista, mas o imbecil furou comigo e hoje, ó minha kombi, eu tratei de mexer eu mesmo com essa coiserada. E consegui. Troquei luminárias e candelabros de lugar até que tudo ficasse do jeito que a mulher gosta e então me dediquei a colocar a luminária embutida no teto de gesso. No início, serrei com timidez, morrendo de medo de partir a placa de gesso e aumentar o prejuízo. Mas passadas as três primeiras horas, me emputeci e tratei de serrar o gesso sem medo de gastar dinheiro. Nesse embalo, terminei a instalação em dez minutos.

E só agora, fazendo o balanço da semana, é que percebi o óbvio ululante. Faltou, é lógico, colocar o ventilador de teto. Com sorte, na próxima semana estarei pronto para iniciar a estante para o sonhado translado dos meus livros na outra casa. Torçam.

quinta-feira, 1 de março de 2012

Variações sobre o mesmo tema



Wolfmother - California Queen

Às vezes nós repetimos conversas. Mas só até um certo ponto, os dois são como eu, gostam de variar um pouco. Damos voltas e voltas, mas o final é sempre o mesmo.

_Qual é o bicho que você acha mais esquisito? - diz o meu filho.

_O narval. É uma espécie de baleia com um chifre de unicórnio. Vive no mar da Groenlândia. É bem esquisito, o narval - eu disse.

_Uma vez você falou que era galinha - ele disse.

_O quê que tem, galinha?

_Você disse que achava galinha um bicho bem esquisito - disse o meu filho.

_Mas galinha também é esquisito. Passa o dia ciscando, comendo coisas que a gente nem vê. Bota ovo. Canta - eu disse.

_Não, quem canta é o galo. A galinha cacareja.

_Cacarejar é uma palavra esquisita - eu disse.

_Piolho de cobra, paiê - disse a minha filha, que também queria entrar na conversa.

_Minhoca - disse o meu filho.

_Vagalume - disse a minha filha.

_Joaninha - disse o menino.

_Também acho esquisito. Mas o campeão dos campeões dos bichos esquisitos é o coelho - eu disse.

_Coelho? Mas o coelho não é esquisito.

_Ele é fofinho - disse a menina.

_Mas pensa bem. Na floresta, cheio de bicho feioso, lobo, onça, jacaré, e os coelhinhos lindinhos, fofinhos, comendo alface e cenoura, mexendo o narizinho, balançando as orelhonas. É ou não é esquisito?

_Pai, você é tão estranho! - disse o meu filho.

_É, paiê, você é esquisito!- disse a minha filha.

Frase do dia


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