terça-feira, 20 de março de 2012

Elegia



The Beatles - Because

Quando minha avó morreu, minha irmã mais velha fez um belo discurso no velório. Ela fala baixo, essa minha irmã, mas foi possível escutar todas as palavras com clareza. Minha irmã falou da vida dura e sofrida da minha avó, que ficou viúva antes de completar 25 anos, com sete filhas para criar e mais um menino que adotou. Naquela época, viúvas não tinham muito futuro. Enxotou pretendentes a rodo, fazendeiros de olho em suas terras e na sua beleza juvenil, no seu corpo fértil. Uma foto da época em que ficou viúva mostra uma moça muito bonita, de grandes olhos escuros. Parecia artista de cinema. Minha avó disse não a todos. Levou vida casta e dedicada à família. Era religiosa, temente a Deus, mas sem ser beata. Sem instrução, soube vencer com dignidade as dificuldades de se educar e encaminhar todos os filhos. Nenhum se perdeu. Todos construíram suas vidas, estudaram e constituíram famílias. Minha avó, disse a minha irmã, sofreu a dor de enterrar uma filha mas não se abalou. Sempre foi uma mulher de atitudes firmes, um exemplo de retidão e abnegação.

Foi mais ou menos nessa altura que eu percebi que estava soluçando alto, já não escutava nada do que minha irmã dizia. Lembro muito pouco do resto do discurso.

No interior, os vizinhos da rua inteira vêm transmitir seus pesares à família e o velório fica sempre muito cheio. Mas igual ao da minha avó, só vi em filme. Tinha gente a dar com pau, menino de nariz escorrendo, gente simples e humilde, gente rica e elegante, mas até o vendedor de picolé chorava, lá no portão. Quando parei de soluçar, minha irmã ainda falava e voltei a prestar atenção. De algum modo, minha irmã tinha começado a falar sobre a extraordinária força de vontade da minha avó, que havia quebrado a mesma perna três vezes. Superava a dor com valentia, sem se queixar, e em pouco tempo se recuperava. Fazia questão de ir à feira sozinha, todas as semanas.

O final da vida da minha avó foi sofrido. Ela parecia se recuperar e de repente piorava. Num daqueles dias, ela descansou. No velório, ela parecia mesmo estar descansando, com o terço nas mãos. Mas para minha mãe e suas irmãs e meu tio não havia palavras de consolo, não havia conforto. E assim foi, por algum tempo.

Desde aquela época eu sei que não sei fazer uma elegia.

Morreu ontem Dona Zeina, amiga e mãe do meu amigo Rodrigo. Um beijo, Dona Zeina, todos aqui em casa sentiremos muitas saudades da sua sinceridade, ternura e alegria. Força Rodrigo, Joe, Boiá e Rick.

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