segunda-feira, 29 de abril de 2013

O futuro como antigamente



Jessica Pare Mad Men - Zou bisou bisou

Fomos assistir Oblivion, filme de ficção científica estrelado pelo Tom Cruise. Minha mulher tinha preferido um outro filme, sobre um jogador de futebol que se apaixona.

_O quê? Você quer que eu assista a um filme sobre um jogador de futebol que se apaixona? Mas nem amarrado eu saio de casa pra ver isso! Como se chama? O romance do jogador de futebol americano? Amei uma bola? Rá,rá! Não senhora, vamos ver um filmaço de ficção científica, cheio de efeitos especiais, um filme que custou o PIB de um país do Caribe só em ambientação e figurinos, nem os mensaleiros conseguiram roubar tanto dinheiro! É esse que eu quero ver.

_Ficção científica é muito chato - disse a minha mulher.

_Esses filmes futuristas são sempre uma projeção do presente. E eles também inspiram as pessoas a comprar um monte de badulaques. Parecem comerciais de Marlboro em Portugal, nunca se venderam tantos cavalos.

_Vamos ter de tirar no par ou impar - ela disse.

Eu ganhei. Tive que trapacear, é verdade. Mas ela não percebeu. Ou percebeu e deixou pra lá. Chegamos um pouco em cima da hora, tinha uma longa fila para a pipoca, mas conseguimos bons lugares. Fazia tempo que não ia a filme tão lotado. Vimos alguns treilers, inclusive aquele que conta a história do Renato Russo.

_Será que ele sabia que seria tão famoso? - disse a minha mulher, bem baixinho.

_Acho que sim. Acho que ele se achava predestinado a ser grande. Todas as músicas dele são meio pomposas, não é mesmo? Mesmo assim eu gosto muito - eu disse.

Começa o filme com o Tom Cruise e daí a pouco minha mulher me dá uma cotovelada.

_Essa não! - ela disse.

_O que foi? O que foi?

_Eles estão em 2077 e é tudo anos 60, o homem vai trabalhar fora, a mulher é que faz o jantar - ela disse.

_É mesmo - eu disse.

E acabei ficando o resto do filme pescando os clichês. Estavam lá, todos eles. No final, tive que reconhecer que saí de casa para ver o filme do romance do astronauta.

_Mas os efeitos especiais também foram superlegais - eu disse, puxando brasa para minha sardinha.

_É, mas aquele parecia o avião do Sportacus- disse minha mulher.

_Quem é Sportacus?

_Aquele atleta do bigodinho de Lazy Town.

_Putz! É mesmo!

_E o ET? Pô, parece o olho vermelho do HAL, do filme do Kubrick.

_É, é igualzinho ao computador de 2001, uma odisséia...

_E aquela piscina espacial? Onde foi que apareceu uma piscina com fundo de vidro? Vai me dizer que você gostou da motoca elétrica? E o vôo a toda velocidade no cânion? Igualzinho a Guerra nas Estrelas? Sentiu a força? E aqueles óculos escuros? Credo! O Tom Cruise não usava desde Top Gun, achei que o Charlie Sheen ia aparecer também...





sexta-feira, 26 de abril de 2013

O filtro



Fun - We Are Young (Acoustic)

“Por que lembrar um detalhe como esse agora? Não há razão, nenhuma razão em que ele possa pensar, a não ser o fato de que razão e memória estão quase sempre em conflito(...)”(Paul Auster, Sunset Park, pág. 142, Cia das Letras, 2012)

Os telefonemas comerciais costumam nos encontrar em momentos bem inadequados. Os exemplos são inúmeros, um amigo meu na Bahia tentava se proteger de um tiroteio quando o celular tocou. Era uma promoção imperdível de um campeão de audiência. Agachado atrás de um fiat 1998, vermelho, ele recusou educadamente, com medo de uma bala perdida. Quem nunca foi interrompido no meio de uma discussão por uma tentadora oferta de proteção anti-vírus da sua provedora favorita de internet? Quem nunca parou o bife à parmegiana na metade para recusar o pedido daquela legião de benfeitores? E, não poderia faltar, quem nunca perdeu as estribeiras com a mulher do filtro de água?

_Mas o seu filtro está vencido, meu senhor!

_Não, não, ele está perfeito.

_Mas aqui diz que o senhor comprou o filtro já tem mais de oito meses. Depois de seis meses os fungos começam a aparecer...

_Não tem fungo nenhum na minha água!

_O senhor vai colocar a vida da sua família em risco? Vai?

_O quêê?

_Nunca ouviu falar de bactérias? Germes?

_A senhora é uma terrorista! Eu não quero comprar filtro! Aliás, eu quero muito comprar filtro, mas jamais vou entrar na sua loja! Hoje mesmo vou comprar dois filtros e passar aí na sua lojinha e mostrar pro seu gerente que eu não comprei os filtros aí por sua causa, e que eu nunca, nunca, nunca na minha vida vou comprar filtros nessa loja, nem eu nem meus amigos, vizinhos e parentes... alô...desligou.

_Nossa, benhê, fosse quem fosse, não precisava berrar assim.

_Era a mulher do filtro.

_Ah, bom, essa eu também não aguento. Na semana passada ela disse que nossa água devia estar cheia de giárdias e nematóides.

_Putz!

_E eu pedi para que ela apagasse o meu nome do registro.

_Ela deve ter apagado o seu nome, mas não o meu.

_Eles nunca vão apagar seu nome porque você já caiu nessa conversa.

_Eeuu?]

_É, você, sim, senhor. Assim que a gente se mudou para o velho apê.

_Mas isso já faz muito tempo.

_Eles têm seu nome no computador. Deve ter uma marquinha de "VAI QUE COLA" no seu nome.

_Pô, também não precisa esculhambar, amor.

_Vai ver é uma cor. Os caras que compram são marcados em laranja na planilha. Eles ligam três vezes por semana até você se distrair e comprar.

_Comigo não vai funcionar de novo.

_Ou então eles fazem isso com todos os homens. A grande maioria é marido distraído, que cai logo na conversa da vendedora. Homem é tudo meio bobo com as coisas de casa.

Ela continuou falando mas deixei de prestar atenção. Eu estava de olho no copo, olhando na contra-luz, com cuidado, só pra ter certeza de que não veria um bichinho qualquer vibrando um cílio ou botando o probóscito pra fora.

_Benhê, benhê, é pra você.

Era um cara oferecendo cartão de crédito.














quinta-feira, 25 de abril de 2013

Comparando Larry David e Raymond Carver



Etta James - I've Gone Too Far

Um vez pensei em fazer um livro sobre as conversas imaginárias que eu costumo ter com alguém da minha Kombi de leitores ou com amigos e amigas distantes. Isso não chegou a virar um projeto, só rabisquei algumas folhas com esboços iniciais desses diálogos. Costumo deixar essas idéias anotadas em papéis que uso para marcar os livros que estou lendo e depois acabo me esquecendo delas. Um belo dia, quando menos espero, ao folhear um livro qualquer encontro esses pedaços de folhas soltas com anotações na minha letra horrorosa.

Hoje, por exemplo, estava folheando “Fique Quieta, Por Favor”, do Raymond Carver, publicado pela Rocco, em 1988, tradução de Maria Helena Torres da edição original norte-americana de 1963. É um dos meus livros prediletos. Tenho a edição revista pela mulher do autor, com os contos integrais, sem os cortes radicais do editor de Carver, mas, sinceramente, prefiro as versões antigas. Acho que elas calaram mais fundo, como se diz. Ao folhear o livro, de dentro caiu uma filipeta com a seguinte anotação:

“Haveria outro homem, ele se perguntou embriagado, capaz de perceber através de um acontecimento qualquer, as conseqüências catastróficas que certos detalhes desencadeiam em suas vidas?” (Raymond Carver)

Depois disso eu escrevi “Larry David” e coloquei um pequeno ponto de interrogação.

Larry David(Curb Your Enthusiasm e Seinfeld) é um dos comediantes que mais admiro. Seu humor cáustico tem origem nas mesmas pequenas coisas, nos pecadilhos que cometemos todos os dias. A partir dos desatinos mais simplórios, ele descasca cebolas bem humoradas, rola bolas de neve e desenrola novelos de lã impossíveis de se desembaraçar. Se ele, sem querer, fecha a porta do carro com a chave, acabará sendo obrigado a enfrentar, a pé, a fila do drive-trough da lanchonete. Se o cachorro rosna para a colega de trabalho negra, David tentará provar, com advogado e tudo, que não é um racista desprezível.

Raymond Carver é parecido, só que ao contrário. Carver é um devoto dos pequenos sinais que as tragédias e pesadelos emitem antes que se abatam sobre nós. Ele é bem detalhista na construção de seus enredos, onde situações banais se convertem em dissecações pormenorizadas de sentimentos que preferiríamos não saber que temos. Mas onde Raymond Carver vê drama e catástrofe com a sua tristeza alcoólatra, Larry David vê uma oportunidade para fazer com que cada um ria de si mesmo.

Eu consigo perceber que meu humor no dia-a-dia oscila entre os dois. Gostaria de rir mais de mim mesmo como Larry David, mas às vezes sinto uma propensão invencível para o drama, tal qual Carver. Na verdade, no mundo real, sou um desajeitado para sair de pequenas situações constrangedoras.

Outro dia mesmo eu estava numa longa fila para comprar pipocas no cinema. Minha mulher estava com as crianças na outra fila para comprar os ingressos, o filme começaria em alguns poucos minutos. Eu me virei para procurar por eles um segundo e no instante seguinte lá estava uma mulher enorme na minha frente. Putz! Fiquei colérico e tive que cruzar os braços para conter a raiva. Fiquei pensando em Moby Dick, Orca e Free Willy, mas nada fazia passar o ódio por estar sendo passado para trás até mesmo numa coisa tão idiota quanto a fila para comprar pipocas. Rapidamente, a fila cresceu atrás de mim. Para piorar a situação, um grandalhão ainda maior do que a mulher se emparedou ao lado dela e ambos começaram a fazer sinais para uma dupla de rapazes de roupas bem apertadas que se aproximaram rapidamente.

_Com licença – eu disse em voz alta, chamando a atenção de Moby e Willy. Vocês estão atrás de mim nessa fila.

Willy olhou para mim como se eu fosse uma castanha-do-Pará pronta para ser quebrada. Eu virei os olhos para Moby e repeti mentalmente para mim mesmo que aquele era um pequeno passo para o homem, mas um grande passo para a humanidade. Acho que Moby não estava se sentindo muito bem, de modo que tive sorte e ela assentiu com a cabeça.

_Tudo bem, tudo bem, não precisa brigar por causa de um lugar na fila – ela disse.

_Eu não estou brigando – eu disse, com firmeza.

A mulher deu de ombros e os quatro se instalaram atrás de mim. Em seguida chegaram minha mulher e meus filhos.

Devo confessar que o desfecho surpreendentemente positivo me deixou bastante orgulhoso de mim mesmo. Então, por um breve momento, eu me senti bem como Larry David, com um sorriso interior enorme, quase gargalhando. Mas depois pensei que se Moby Dick tivesse resistido um pouco mais, minha mulher e meus filhos teriam testemunhado o marido e pai sofrer uma humilhação pública. Aí fiquei acabrunhado e senti uma sede enorme, como Raymond Carver.

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Fala, Barão!



CeeLo Green feat. Christina Aguilera - Baby It's Cold Outside

Ainda tenho alguns amigos do tempo da universidade. Não nos frequentamos, nem nada, apenas mantemos aquele silêncio respeitoso de quem se entende, sem descartar o risinho irônico preso no canto da boca como quem diz: eu te conheço de outros carnavais. Penso pouco nesses amigos, sou um sujeito meio arredio, tenho uma memória muito curta e ultimamente tenho evitado despesas ao máximo, o que inclui gasolina e dinheiro pro café. Mas a internet está aí, o celular é uma facilidade e de vez em quando (raramente) encontro algumas pessoas. Hoje, para minha surpresa, ligou o Molina.

Aqui eu preciso abrir um parênteses para tentar descrever o Molina. De uma maneira rápida, na universidade havia ingênuos, revolucionários, reacionários, otários, gente boa, alienados, bocós e manés como eu. Mas só havia um frasista realmente demolidor, o Molina. Naquela época nós adorávamos discutir e argumentar. Algumas pessoas eram realmente muito boas nisso. Posso me lembrar de pelo menos duas pessoas que eram realmente muito boas em discussões sobre qualquer coisa, mas só posso me lembrar do Molina como o único capaz de encerrar uma disputa verbal com uma frase acachapante e demolidora.

Também é preciso dizer que ele gostava de fazer isso, de ser irônico, mordaz e ferino de um jeito que deixava o interlocutor se sentindo um idiota gaguejante. Mas ao mesmo tempo, não havia nada de ameaçador ou de atemorizante no Molina. Ele sabia como ridicularizar uma pessoa sem deixá-la magoada. Era como se te chamasse de imbecil e ao mesmo tempo lhe desse um tapinha nas costas: tudo bem, você é um trouxa, mas vamos tomar um chopp e falar de alguma outra coisa que você entenda. Ou algo assim. Na minha percepção, e sempre posso estar equivocado, o Molina era o mais próximo do que poderia ser definido como um duelista verbal sacaneta, mas gentil.

Fiquei contente com a ligação dele, nos cumprimentamos, trocamos as gentilezas telefônicas de praxe e fiquei esperando. Bom, acontece que o Molina também ficou esperando.

_Pode falar - eu disse.

_Sim, tudo bem, manda bala - ele disse.

_Hã?

_Mas foi você que me ligou. Eu só apertei o botão de retornar - ele disse.

_Putz! Me desculpe, Molina. Devo ter apertado o número errado.

_Pô, nunca liga pra mim e quando liga foi por engano - disse Molina.

_Foi mal. Eu liguei para o meu cunhado, o Moa, era sobre o imposto de renda.

_Ih, nem me fala, também preciso fazer a declaração.

_Mas quais são as novidades?

_Tudo na mesma.

E enveredamos pela sucessão de lugares comuns que finalizam uma conversa de telefone.

terça-feira, 23 de abril de 2013

Dois caras normais

Tenho um amigo que é bem triste. É um bom amigo, das antigas, não tenho como fechar a porta para ele. Mas fico feliz de nos encontrarmos raramente. Isso sempre acontece nos lugares mais improváveis e nos horários mais estranhos. Uma vez nos encontramos por volta do meio-dia enquanto atravessava a W-3, no Setor Comercial Sul, um lugar muito movimentado. Tive que acompanhá-lo na direção contrária da que seguia, por insistência dele, para que tomássemos um café juntos. Ficamos no café por alguns minutos, fiquei controlando o tempo preocupado em não perder o meu compromisso no setor comercial, uma reunião num sindicato para homologação de uma demissão. Não me lembro da conversa, mas sempre falamos de livros, então ele deve ter me falado das suas leituras.

Uma outra vez nos encontramos no elevador lotado de um prédio muito alto que fica próximo ao conjunto nacional, onde fiz um longo e caríssimo tratamento de dentes. Dessa vez não conversamos, eu me desculpei e ele entendeu, eu estava com um dente doendo muito e um pouco atrasado para a consulta de emergência que a dentista encaixara, por volta das seis da tarde. Ele me entregou um cartão, mas acho que o perdi. Naquele dia também perdi o dente e talvez por isso não tenha pensado em guardar o cartão do meu amigo.

Na última vez que nos vimos, há uns dois anos, esse meu amigo usava terno e gravata e estava de braços dados com uma mulher muito bonita, num vestido longo e elegante. Ela usava jóias, pérolas, anéis de brilhantes, aquelas coisas que saltam aos olhos e transmitem a sensação imediata de riqueza e luxo. Mas por algum motivo, tudo aquilo não lhe caía bem. Eu estava de jeans e camiseta, tomava um chopp neste shopping, que tem vista para o lago, enquanto esperava minha mulher chegar com as crianças. Meu amigo triste ficou feliz ao me ver e se apressou a apresentar a mulher que o acompanhava.

_Minha esposa, Edith. Nós estamos em lua-de-mel - ele disse.

Fiquei surpreso. Um shopping não parece um bom lugar para uma lua-de-mel eu pensei, mas achei melhor ficar calado. Meu amigo triste parece ter lido meus pensamentos e começou a explicar que não morava mais na cidade, que haviam se conhecido no interior e que a mulher nunca havia viajado antes. Daí a escolha da capital para a lua-de-mel.

_Estou mostrando os lugares que frequentava. Não sabia que você também gostava de vir aqui.

Parabenizei o casal, etc, fiz os elogios de praxe e comecei a me preparar para uma retirada estratégica. Mas não sem antes observar que a mulher também possuía um ar de tristeza igual ao do meu amigo. Dessa vez ele também me deu o cartão, que guardei com cuidado. Eu já ia me levantar quando Edith, que não havia dito nem uma única palavra, virou-se para mim.

_Então você é que é o amigo triste? - disse ela.

_Como? - eu disse.

_Não, Edith...

_Meu marido me contou que sempre fica deprimido depois que se encontra com você. Mas até que você parece normal.

_É que hoje estou sem lenço - eu disse.

Mas ela não achou engraçado.




O diferente é o mesmo



Dave Edmunds - I hear you Knocking

A mesma coisa pode ser dita de maneira bem diferente.




Gale Storm - I Hear You Knocking

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Dois trechos de "Sobre a verdade"



Latasha Lee & The BlackTies- So Blind

"Realmente não podemos viver sem a verdade. Precisamos da verdade não só para entender como viver bem, mas para saber como sobreviver. Além disso, ela é algo que dificilmente deixamos de notar. Portanto, somos obrigados a reconhecer, pelo menos implicitamente, que a verdade é importante para nós; e, por conseguinte, também somos obrigados a entender que a verdade não é um traço de fé em relação ao qual podemos nos permitir a indiferença. A indiferença não seria apenas uma questão de imprudência negligente. Logo se revelaria fatal. Assim, na medida em que apreciamos sua importância para nós, não seria razoável que nos permitíssemos nos abster de querer a verdade em muitas coisas ou de lutar para conquistá-la."

O trecho acima é da página 43 de um livrinho lançado por aqui em 2007, chamado "Sobre a Verdade", do Professor Emérito da Princeton University, Harry G. Frankfurt. Em 2005, o respeitável professor nascido em 1929, ficou milionário com o seu mega-best-seller "On Bullshit". Curiosamente, ou talvez não, o livrinho sobre a verdade não vendeu tanto quanto o outro.

"Sem a verdade, simplesmente não temos opinião sobre as coisas, ou a nossa opinião está errada. De uma maneira ou de outra, não sabemos em que tipo de situação nos encontramos. Não sabemos o que se passa, seja no mundo ao redor, seja dentro de nós mesmos", escreve Frankfurt, na página 68.










domingo, 21 de abril de 2013

Fábula



Selah Sue - This World

Minha filha me pediu para contar uma fábula e só consegui lembrar de imediato daquela do lobo e do cordeiro. O carneirinho está bebendo água na parte de baixo do córrego e o lobo está na parte mais alta. O malvado então reclama com o pequeno cordeiro, dizendo que ele está sujando a água. O pobre carneiro explica que aquilo não procede, que ele está na parte mais baixa do riacho, é impossível sujar a água. O lobo fica ainda com mais raiva do infante e diz que no dia anterior os pais dele também haviam sujado a água em que ele bebia. O cordeiro falou calmamente para o lobo que era um órfão de pai e mãe. Ambos haviam sido comidos por um lobo logo depois que ele nascera, o que já fazia algum tempo. O lobo a essa altura está muito próximo do cordeiro e pronto para dar o bote. Babando de ódio, diz para o carneirinho que se não foram os pais do garoto, foram seus avós que sujaram a água em que ele bebia. E quando o rapazinho se prepara para explicar que aquilo também era impossível, o lobo furioso salta sobre o infeliz e o devora. Minha filha arregalou os olhos e fez cara de choro.

_É uma fábula sobre a crueldade - eu procuro explicar. Nada que o carneiro falasse poderia acalmar a fúria do lobo. Ele estava determinado a matar o cordeirinho, porque é isso que os lobos fazem. Eles se alimentam dos carneiros. O que acontece na natureza é que os lobos simplesmente caçam os cordeiros e pronto. Na fábula, que é uma historinha com um ensinamento, uma moral, o carneiro ainda tenta conversar, o que só aumenta a fúria do lobo. Na natureza, o bichinho tentaria fugir tão logo sentisse o cheiro do lobo, é claro. Mas as fábulas são sempre um exagero do que existe na natureza, para mostrar a verdade com mais clareza. E o ensinamento dessa fábula é que não existe argumentação possível contra a violência. Em algumas situações, não adianta explicar e procurar conversar, o melhor que se pode fazer é guardar o fôlego para tentar fugir, o que pode ser muito difícil.

Depois disso minha filha continua assustada e com uma cara de choro maior ainda. Minha mulher, que assistiu a conversa, me dá um chute na canela por baixo da mesa e me olhou com aquela cara de "conserte isso agora, seu Mané".

Tento pensar numa saída melhor, numa explicação mais amena, ou numa maneira milagrosa de salvar o carneiro no último instante. Ou talvez numa maneira de suavizar o ensinamento, e quem sabe insinuar que o lobo engoliu o carneiro inteiro e que apareceu um caçador de última hora que matou o lobo e retirou o carneiro de dentro de sua barriga ainda inteiro em sua inocência. Mas é impossível.


sexta-feira, 19 de abril de 2013

O ponto mais baixo da existência



If Humans Crossed the Street Like Animals

No livro "Da mão para a boca", Paul Auster identifica o ponto mais baixo da sua existência. É uma passagem curta. A denominação é exatamente esta: o ponto mais baixo da existência. Ele fala de um período da vida em que não tem dinheiro, não tem emprego, não consegue escrever e está um pouco desesperado. De repente ele tem a idéia de criar um jogo de baseball de cartas. Ele passa algumas semanas no projeto e consegue inventar o tal jogo. É uma idéia mirabolante. O baseball é o esporte mais popular da América e ele está convencido de que o projeto pode dar certo. Um tio acha o jogo interessante, conhecidos elogiam a iniciativa, afirmam que ela tem viabilidade econômica e ele acaba indo para uma Feira de Jogos numa grande cidade norte-americana para tentar vender o baralho. Ao entrar no enorme centro de convenções da feira ele percebe que aquilo não tem o menor cabimento. Ele sente que ninguém irá se interessar pelo jogo que inventou. Mas mesmo assim já possui uma entrevista agendada por meio de alguém conhecido e não pode se dar ao luxo de simplesmente voltar pra casa. De terno e gravata, carregando o baralho de baseball numa caixa de charutos, ele entra na salinha de divisórias para a sua reunião de negócios.

"Não houve conversa fiada, amabilidades nem perguntas. "Mostre o que você trouxe", disse ele, secamente; abri a minha pasta e peguei a caixa de charutos. Seus olhos brilharam de desprezo. Era como se eu lhe tivesse entregue um cocô de cachorro, pedindo-lhe que cheirasse."

Paul Auster tenta mostrar o jogo, mesmo sabendo que o sujeito não está interessado e que o desfecho não será agradável. Sessenta segundos depois o sujeito lhe estende a mão e o manda sair da sala. Enquanto arruma as cartas e as coloca de volta dentro da caixa, Paul percebe que ali, exatamente naquele momento, está vivendo o seu Everest invertido. Ele ainda insistiu com o projeto e passou por mais uma série de constrangimentos por causa do seu Action Baseball. Por fim, desistiu do baralho e também de inventar jogos.





quinta-feira, 18 de abril de 2013

A fisgada



Phantogram - "When I'm Small"


Leio uma entrevista em que John Irving - um dos escritores que mais admiro - revela que escreve seus livros de trás pra frente. "Podem ser os últimos parágrafos ou umas duas ou três páginas do final, escrevo ao contrário até que eu tenha uma sensação mais sólida sobre o sentido daquilo, se está soando da maneira certa. Você tem que saber como é a sua voz ao final da história para saber como ela vai soar quando você começar". Penso em usar esta revelação para aprimorar o meu método de seleção de livros, que consiste em ler o primeiro parágrafo do livro e esperar pela fisgada. Às vezes ela não acontece no primeiro parágrafo e então dou mais uma chance para o livro com a leitura do segundo parágrafo.

Venho lendo livros desde que mandaram o homem à lua, então percebi que os editores dos bons livros já descobriram que uma das melhores maneiras de se convencer alguém a comprar a publicação é fazer com que o segundo parágrafo seja grande o bastante para terminar na página seguinte. Virar a página é um momento crucial para mim, se eu fizer isso acabo levando aquele volume para o caixa. Isso explica porque o parágrafo inicial de um livro está sempre um pouco acima da metade da primeira página, mais ou menos na linha dos 3/4. Mas, depois da declaração do J. Irving talvez eu devesse começar a ler também a última das páginas e começar a comparar o tom de voz do narrador.

Minha mulher já está completamente adaptada à modernidade e tem lido livros e mais livros eletrônicos. Eu ia dizer "montes e montes de livros", mas não se aplica. Aliás, para mim esse é o grande problema do livro-e, ele exige que você repense coisas tão banais quanto o hábito de virar páginas. Eu, por exemplo, me acostumei a virar páginas de livros sem tocar o interior da página, faço isso com cuidado, usando as laterais. Sou cuidadoso. Não gosto de deixar muitas marcas no livro, até abro pouco para não forçar a cola e garantir que as páginas continuem bem presas à lombada da capa. Houve uma época em que eu escrevia meu nome e data de aquisição na primeira ou na última página. Mas deixei de fazer isso. Hoje em dia não sou mais tão possessivo com os meus livros e não faço muita restrição a empréstimos, a pessoa só precisa assinar um termo de responsabilidade.

Tudo isso é pra dizer que ainda não fui fisgado por um livro eletrônico. Já reli uma porção de livros-e e até comprei alguns. É bem verdade que é muito mais fácil passar uma página eletrônica do que folheando um livro, mas talvez eu tenha restrições de outro tipo, ou goste de papel, ou simplesmente não goste de livros-e.





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quarta-feira, 17 de abril de 2013

O acontecimento do não suposto



Modern English - I Melt With You

Ontem choveu muito e o piscineiro não apareceu. Estabeleci uma correlação entre as duas coisas, o Adailton não apareceu porque ninguém entra na piscina debaixo de chuva, e se ninguém vai usar a piscina, ela não precisa estar limpa. Um raciocínio simples e lógico. Até mesmo eu que sou um sujeito supercomplicador de raciocínios consegui pensar nessa linha reta e, portanto, imaginei que esse era um bom motivo para não se aparecer no dia do serviço. Na minha cabeça confusa, suposição muitas vezes vira acontecimento, parece anúncio de façanha do governo no jornal.

Hoje também choveu forte, o que me deixou bastante irritado. Não por causa da chuva, eu adoro chuva. Mas porque eu demorei pacas e quando finalmente corrigi os estragos que a chuva havia feito no teto e na parede da sala, as chuvas acumuladas provocaram nova infiltração e todo o serviço que eu havia demorado semanas para realizar foi perdido. Eu ainda estava amaldiçoando goteiras quando toca a campainha e é o Adailton, o piscineiro. Ele é muito falante de vez em quando, mas ultimamente tem ficado bem calado.

_Muito bonito, hem - eu disse, logo que abri o portão - não apareceu ontem só por causa de uma chuvinha?

Foi uma provocação barata, choveu horrores.

_Não foi nada disso, Seu Careca. Tive que ir para o hospital - disse o piscineiro.

_Hospital? Está doente? Está com dengue? Metade da cidade está com dengue!

_Não, não, está tudo bem, graças, fui levar a minha mulher para o hospital.

_Ela trabalha em hospital?

_Não.

_Mas se está tudo bem com vocês e ela foi para o hospital, quem é que está doente?

_Quem falou em doença?

_Você não disse que foi para o hospital?

_Fui, ué, fui sim. Fui levar a minha mulher.

_Bom,está tudo bem, você não está doente, sua mulher não está doente, nem você e nem ela trabalham no hospital...Então vocês foram visitar alguém?

_Vixe, não senhor. Não foi visita, não.

_Então vocês foram fazer o quê no hospital? - eu disse, irritado. Estou sempre irritado quando chove e minhas paredes ficam com a pintura estragada.

_Nós não fomos fazer nada. Eu só fui deixar a minha mulher.

_Ah, e você só deixou ela no hospital ou você entrou com ela de acompanhante?

_Tem que entrar, Seu Careca. Tem que entrar.

_Sei. E você acompanhou a consulta inteira, ficou lá até o fim?

_Bem que eu queria, mas eles não deixam. Além disso tive que voltar pra casa, as crianças não podem ficar sozinhas.

_Ué, e como a sua mulher voltou pra casa?

_Ela não voltou ainda, só hoje é que vai voltar.

_Sua mulher está internada no hospital? E você ainda diz que está tudo bem?

_Está tudo bem, tudo ótimo.

_Caramba, não entendo mais nada. Sua mulher passa o dia e a noite no hospital e está tudo bem?

_Sim, correu tudo bem. A criança nasceu saudável.

_Você teve outro filho?

_Não, foi minha mulher.

_Meus parabéns.

_Muito obrigado.

Depois eu perguntei qual era o sexo da criança.

_É uma menina - ele disse. É uma linda menina!

Mas não consigo dizer se ele estava preocupado ou não. Seja como for, ele não estava pulando de alegria. Depois que limpou a piscina ele saiu carregando as suas tralhas.

terça-feira, 16 de abril de 2013

Paladar Infantil



Nouvelle Vague - Teenage Kicks

Caprichei na leitura do Harry Potter nos últimos dias, mas não adiantou. Hoje as crianças votaram e escolheram a mãe para ler o último capítulo do livro inicial da série. Por alguma estranha razão, nós lemos os livros fora de ordem. Acho que agora só falta um livro da série, mas não tenho certeza. Assim como acontece com a comida, as crianças são um pouco refratárias a experimentar novos autores e personagens. Eu pensava que deveria ser o contrário, mas o Cabeça já me explicou que isso tem até nome na literatura da medicina, é o Paladar Infantil. Elas fazem o percurso ao contrário do que estávamos acostumados: primeiro o filme, depois o livro. Em geral, só demonstram interesse pelas histórias escritas de filmes ou desenhos que já tenham visto e gostado, de preferência, mais de uma vez. De alguma maneira, isso também começa a funcionar super bem comigo. Ultimamente, tenho selecionado leituras pelo que vem passando nas telas.

Mas nem sempre é assim. Outro dia mesmo entrei desavisadamente na livraria do shopping e quando vi estava folheando "1222", de uma tal Anne Holt. A chamada de capa dizia que mais de seis milhões de exemplares já haviam sido vendidos em todo o mundo. Não sei como é com você, mas em geral fujo de best-seller e de músicas com milhões de audições. Mas assim como gosto de Harry Potter, tento não fazer disso uma regra rígida, ou um princípio que me privará de desfrutar do que me apetecer em matéria de livro, culinária, música e tudo mais. Já ia devolver o livro à prateleira redonda quando duas palavras me saltaram aos olhos: norueguesa e policial. Pô, norueguesa! Lembrei logo do Knut Hamsun, o único outro escritor norueguês que eu havia lido, e assim mesmo por insistência do Selva Brasilis. Ele estava entusiasmado com "Fome" e "Os Frutos da Terra", escritos pelo Nobel de 1920. Lembro pouco do primeiro e nada mais do segundo. Lembro mais do Selva me contar que Hamsun havia esquecido o prêmio enquanto saía da cerimônia do Nobel, porque seria muito distraído e também não ligava para dinheiro. E talvez tenha sido esse despojamento propagandeado pelo meu amigo que tenha me convencido a abrir "Fome" na biblioteca da universidade. Fui fisgado poderosamente a partir da primeira página, saí tardíssimo da biblioteca, mas por alguma razão não pude levar o livro para casa. Para não correr o risco(inexistente, é claro)de que algum desavisado pegasse aquele romance estupendo, resolvi escondê-lo numa prateleira especial, onde eu mantinha dois ou três volumes que sempre voltava a ler. No dia seguinte, logo depois das aulas, corri para a biblioteca e para o meu canto secreto, atrás do romance de Hamsun. Para minha surpresa, meu mocó secreto de pérolas da literatura havia sido descoberto e nunca mais encontrei os meus livros prediletos. Ou seja, também nunca terminei de ler "Fome", ficaram faltando pelo menos dois capítulos.

Resolvi então dar mais uma chance aos noruegueses e levar Anne Holt para casa, ainda com remorsos por não ter lido Hamsun até o fim e também tentando me lembrar quais eram os outros livros que eu costumava esconder na minha prateleira secreta. Fiz um grande esforço mas nada.

O que me traz de volta às crianças e o último capítulo de Harry Potter. Vocês sabem como é isso. Lemos para as crianças antes de dormir desde que eram bebês. E desde que foram alfabetizadas, chegar ao final de um livro é sempre uma festa porque voltamos para as melhores frases dos melhores momentos, tentamos localizar as partes que mais detestamos e também fazemos cócegas em quem não consegue ficar acordado até o final. Eles gostam principalmente desta parte. Eu também. Tudo bem, eu admito, tenho um paladar infantil.

segunda-feira, 15 de abril de 2013

Boston


Os melhores países para se viver são os que mais prezam a liberdade, tolerância e respeito pelos outros. Nesses países, é errado suprimir os direitos das mulheres. Também é errado menosprezar a democracia. A grande força desses países está na capacidade de convivência harmônica de suas diversidades.

O terror é a negação das diversidades. Os terroristas buscam a imposição de mentiras. Os extremistas com bombas querem abolir conquistas e direitos. Os assassinos com ideologia querem disseminar o medo, matando pessoas inocentes, homens, mulheres e crianças. Suas ações são planejadas com cuidado para atingir locais onde há grande concentração de pessoas. Os terroristas se regozijam com o número de mortos. Na lógica perversa de suas ideologias, quanto mais vítimas inocentes, melhor.

A propaganda extremista é dirigida para um público alvo. Ela se aproveita da nossa tolerância e até mesmo da nossa fragilidade de conceitos. Até hoje não existe uma definição jurídica internacional para o terrorismo. Ele se confunde com crime político e isso dificulta tudo. Indiferentes a isso, os terroristas se aproveitam ainda da nossa indiferença e da ignorância de muitos idiotas. Muitas pessoas imbecis não sentem vergonha de escrever nos comentários de redes sociais suas bizarras expressões de apoio a atos terroristas.

Não é possível haver tolerância com as atrocidades cometidas por terroristas. O terrorismo não é uma estratégia de luta política aceitável em países democráticos. É uma violência inaceitável cometida por grupos que acreditam que provocarão mudanças de comportamento nos seus inimigos através do medo. O terrorismo é abominável.



sábado, 13 de abril de 2013

Loucura



The JB's - Pass The Peas

_Se você pudesse medir, você diria que as pessoas ficam mais loucas quando ficam mais velhas?

_Sim, com certeza. Quanto mais velho, mais louco.

_E numa comparação pessoal, você diria que era mais louco aos vinte anos ou agora?

_Fácil. Quando eu tinha vinte anos eu era muito mais louco. Hoje eu me considero até razoável.

_Mas você acabou de dizer que as pessoas ficam mais loucas quando ficam mais velhas.

_Mas no meu caso, não.

_Quer dizer que todo mundo fica mais doido à medida em que envelhece, menos você?

_Não, eu quis dizer que eu era um tipo de louco muito furioso, e hoje em dia fiquei um louco mais calmo.

_Mas você é mais ou menos louco?

_Veja bem...

_Sim ou não?

_Olha, só pelo fato de me achar razoável acho que estou mais louco do que aos vinte anos. Mas a agressividade diminuiu. E você?

_Também me considero um louco manso. Mas acho que também melhorei um pouco na quantidade de loucura.

_Você quer dizer que diminuiu a loucura.

_Ou ela assumiu outras formas.

_Que outra forma?

_Ficou parecendo uma excentricidade, uma coisa mais inofensiva.

_Então você admite que está mais louco, só que a loucura mudou um pouco o formato?

_Acho que mudou o modo operacional inteiro. Às vezes não parece loucura de jeito nenhum, mas se você pensar bem, isso é um delírio completo. Loucura é sempre loucura.

_E se uma outra pessoa também confirmar que isso não é loucura?

_Pode ser pior: a outra pessoa também pode estar louca.

_Uma última pergunta: loucura tem cura?

_Tem, mas é que nem gripe. Sempre surge uma nova cepa.

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Poder



Marcus Miller - Power

Meus filhos e eu estamos conversando sobre superpoderes. Volta e meia estamos com essa mesma conversa.

_Eu queria ser invisível.

_Eu queria ter o poder da água.

_Eu queria ser super-forte.

_Eu queria voar.

_Eu queria soltar fogo pela boca.

_O quê?

_Eu queria soltar fogo pela boca.

_Você queria ser dragão?

_Não, eu só queria soltar fogo pela boca. Eu não queria ser um dragão.

_E por quê você queria soltar fogo pela boca?

_Sei lá, pai. Parece maneiro.

_Eu também queria, pai.

_Vocês dois queriam soltar fogo pela boca?

_É.

_Então eu também quero!

_Ah, pai, fala sério, nós dois já estamos soltando fogo.

_Posso soltar fumaça?

_Não, escolhe outra coisa, paiê.

_Tudo bem, tudo bem. Eu queria atravessar paredes.

_Como assim? Quebrando a parede?

_Não, é claro que não. Ele quis dizer atravessando igual a um fantasmo, né pai?

_E que graça tem isso?

_Vocês acham maneiro soltar fogo pela boca. Eu acho massa atravessar paredes.

_Ih, nem se compara.

_É, paiê.

_Eu também prefiro soltar fogo pela boca, mas vocês não me deixaram.

_Irmão, podemos deixar ele soltar fogo pela boca?

_Nem adianta. Agora sou eu que não quero mais soltar fogo pela boca.

_Então troca comigo. Você fica com o fogo e eu fico com atravessar paredes.

_Pensei que você achasse atravessar paredes sem-graça.

_É que eu já cansei de soltar fogo pela boca, paiê.

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Perseverança



Michael e Jackson 5 - Dancing Machine

Teimosia e perseverança são duas coisas muito parecidas. Mas teimosia é um defeito e perseverar é uma qualidade dos justos e bons. O burro, seja ele o quadrúpede ou o desinteligente, empaca e teima. O sábio persevera, aperfeiçoa e conquista. Na maior parte das vezes, sou teimoso como uma mula mas acho que persevero.

Dancing Machine-The Jackson Five



Dancing Machine-The Jackson 5

terça-feira, 9 de abril de 2013

He, he, he



Kings of Leon - Mi Amigo

Peguei mania de ler comentário na internet. Todo dia leio dezenas deles, logo abaixo das notícias. Às vezes, leio mais comentários do que notícias. Alguns são melhores do que as matérias jornalísticas, mas outros não fazem o menor sentido. Eu mesmo comento muito pouco, tenho preguiça. Mas não é só comentário de notícia. Também leio o que as pessoas dizem sobre vídeos no You Tube. Como eu gosto muito de grupos de rock das antigas, acabo lendo muito comentário em inglês. Foi numa dessas que me deparei com a sigla LOL. Que diabos é isso? Demorei quase trinta segundos para descobrir a resposta numa tradução mais que livre: rindo pacas alto. Foi mais curioso notar que muitos brazucas adotaram a sigla em inglês em seus comentários em português.

Lol é bacana, mas nada se compara a "He,He,He". Como todo mundo sabe, essa expressão significa "risadinha irônica em andamento". Um comentário com "He,He,He" significa que alguém está fazendo piada e ao mesmo tempo mostrando para você que é inteligente, engraçado e que além de tudo tem um senso de humor magnífico. Particularmente, não gosto muito de usar "He,He,He". Para mim, não soa natural, parece que estou forçando a barra querendo parecer mais inteligente do sou. Na maioria das vezes também não me acho engraçado e bom-humor é uma coisa rara quando estou lendo as notícias do dia. Não é culpa do dia, mas das desastrosas notícias que diariamente repetem o quando estamos recuando em nossa história.

Também não uso "rs, rs", que significa "risos, risos". Nem "tsc,tsc". Não falo "risos, risos". Nunca falei. Também nunca ouvi essa expressão num diálogo qualquer. Essa conversa abaixo, por exemplo, é completamente fictícia:

_Olá, Fulano!

_Olá, Beltrano! Como vai essa força?

_Vou bem, risos, risos, está tudo ótimo, risos, risos.

Por outro lado, apesar de falar "tsc,tsc,tsc" o tempo inteiro, não consigo escrever isso num e-mail ou num comentário. Pode ser exagero meu, mas acho que usamos "tsc,tsc,tsc" quando nos colocamos numa posição superior a uma outra pessoa. A expressão denota não somente um desapontamento, mas um certo desprezo.

(Desculpe, leitor, mas estou com sono. Continuo amanhã)

sábado, 6 de abril de 2013

Descendo o rio



The Fall - Totally Wired

Meu mundo não é mais correr entre um amontoado de prateleiras com milhares de mercadorias expostas. Já não tenho loucura para comprar muita coisa. Tive meus surtos por livros, fui um maluco atrás de discos, filmes, músicas e todas as coisas bonitas e gostosas que o dinheiro pode comprar. Mas não sou mais, diminuiu a minha vontade de consumo e perdi um pouco do pique para viver atrás de dinheiro. Ou talvez isso seja só uma incapacidade. Às vezes acho que estou farto. Em outras situações, percebo que sou irremediavelmente insaciável. Tenho uma lista de coisas que devo evitar.

Gosto de viajar, é verdade, mas o meu mundo não é mais um refazer de aventuras e trajetos, de buscar alcançar lugares em que nunca estive e de ver o que nunca vi, muito menos de sentir novamente o que já senti. Não é mais uma corrida sem fim. Tenho as minhas lembranças dos lugares e tempos em que me senti mais humano e vivo, orgulhoso de ser bom e pequeno. E algumas são mesmo insuperáveis: ver um sorriso feliz em alguns rostos. Meus olhos estão bem abertos agora, os melhores lugares em que estive procuro mantê-los bem perto de mim.

Minha vida também não é mais alcançar metas e vencer desafios. Eu já me impus um monte deles e também venci alguns que me foram impostos. Minhas recompensas foram variadas, mas as últimas não valeram a pena. Fui derrotado muitas vezes, até mesmo em algumas ocasiões em que pensava ter vencido. Deixei de fazer o que acreditava para fazer o que outras pessoas acreditavam ser o melhor. Na época me pareceu uma boa decisão, o que hoje percebo ser um absurdo. Mas estará sempre errado aquele que deixa outro traçar o seu caminho? Existem mesmo pessoas que sabem o que é melhor para a sua própria vida? Seja como for, perdi aquela capacidade de confiar cegamente. Hoje sou assaltado por dúvidas.

Cada vez mais, minha vida é também uma forma de escrever, nem sempre bem. Deixei de perseguir um estado da mente, de buscar uma concentração especial, de procurar fazer o melhor. Corto palavras com preguiça, me deixo pautar pelas coisas jogadas à beira do caminho. Escrever não deve ser um castigo, nem uma provação. Do mesmo modo, não é sempre um prazer, não é obrigatoriamente um exercício feliz de criatividade. Às vezes pego impulso numa frase solta antes de saltar para o tronco e descer o rio. Quem sabe para onde seremos levados?

Imagino a minha vida como um antigo mapa que refaço com a geografia que um dia eu soube, mas que esqueci durante um longo tempo. Estou me recuperando, estou sempre me recuperando da enorme quantidade de tempo perdido. Mas ainda assim, acordo de madrugada sobressaltado com a certeza de que a minha tarefa, apesar de não ser impossível, será apenas um grão minúsculo numa tonelada de areia despejada na praia. No entanto, é a minha tarefa ínfima, inútil e sem serventia. Sou eu o único responsável por esse pequeníssimo grão que passará despercebido. É como a partícula que me deixa vivo.

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Pistache e Stones



The Rolling Stones - The Last Time

A Bíblia menciona o pistache apenas uma vez, em Gênesis 43:11. As nozes também só aparecem uma vez, no Cântico dos Cânticos 6:11. Mas as amêndoas aparecem uma porção de vezes, inclusive uma vez na mesma linha em que aparece o pistache. Trata-se da passagem em que Israel recomenda a seus filhos que levem presentes para agradar o milionário egípcio que os havia salvado da fome. O ricaço era José, o irmão que haviam traído e vendido anos antes para os inimigos dos hebreus. Mas o pistache não agrada apenas aos milionários traídos. É uma castanha que conquistou o mundo.

O pistache vem de uma árvore que chega a uns 5 ou 6 metros de altura. Essa árvore é nativa do Irã, Iraque e Síria. É uma planta do deserto, muito tolerante a solos salinos. Seu cultivo se espalhou pelo mediterrâneo e chegou à América do Norte. O fruto cresce em cacho, como se fossem uvas de cascas duras e secas.

Adoro pistache. Aprecio muito o pistache levemente torrado e salgado, ainda na casca. Gosto muito de tirar o pistache da casca usando as unhas. Também como as casquinhas pequenas que sempre se soltam da castanha e ficam coladas à casca. É uma excelente companhia para a cerveja. Mas gosto especialmente do sorvete. A Diletto tem um picolé de pistache que é uma delícia. Foi com um picolé desses na boca que descobri também o melhor slogan de todos os tempos: la felicitá e um gelato. Nada mais verdadeiro.

Não me importo muito com a cor do pistache. Ele é tradicionalmente tingido de verde. Mas também pode ser vermelho, se antes de ser torrado for deixado de molho em suco de morango.

Deve haver uma maneira de relacionar pistache e os Rolling Stones, mas já é hora, e ainda não consegui. Em compensação, comi quase 200 gramas de pistache.

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Escrever é uma confissão



T-Rex e Elton John - Get It On

Tínhamos saído juntos para comprar um presente para o meu sogro. Minha mulher gosta de me pedir ajuda nessas coisas. Eu sou péssimo para sugerir presentes, mas por alguma razão ela acha o contrário. Seja como for, minha sugestão foi uma ida até uma loja de artigos de artesanato e material artístico. Meu sogro gosta de desenhar e também de marchetaria. A tal loja tem material para isso e muito mais. Perambulamos durante uma hora dentro da loja, olhando as vitrines e perguntando o preço de tudo. Por fim, decidimos levar uns estojinhos para desenho. Na saída da loja, resolvemos tomar um café noutra loja, bem em frente. Eu estava com fome, ao invés de café, pedi um suco e um sanduíche. Por causa disso, o serviço foi um pouco demorado. As tais lojas ficam num comércio que a minha mulher frequentava muito quando ainda era uma estudante do segundo grau. O lugar parecia meio congelado no tempo, sem pressa. A garçonete tatuada demorou a retornar com o café, o sanduíche(pesto, queijo e tomatinho) e o suco. Estava tudo delicioso, a comida em geral melhora com um pouco de espera. Depois começou a chover bem fininho. Na volta para casa, pegamos um grande engarrafamento. Acabei ficando sem vontade de jantar. Em compensação, passei umas duas horas desenhando, coisa que não fazia há algum tempo. É engraçado como desenhar me deixa desconectado de tudo e exageradamente introspectivo. Outro efeito é esse tom confessional. Parece que estou sussurrando para mim mesmo, procurando ser simpático, talvez assim eu mesmo consiga pelo menos uma absolvição.

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Sexo, sexo, sexo



David Letterman - Scarlett Johansson's Secret Tattoo


_Você viu as fotos?

_Vi. Todo mundo viu. Não se fala de outra coisa.

_Eu sou muito devagar. Eu nem sabia que ela é gay.

_Não?! Mas todo mundo sabia. Me admira muito você não saber. Eu pensava que você era bem informado.

_Não, não sou. E sobre essas coisas, bom, não é o tipo de informação que me desperta interesse.

_Ah, e você acha que eu tenho interesse nisso e é por isso que eu sei que ela é gay.

_Não, eu não estou dizendo isso.

_Então o que é que você está dizendo?

_Ahn, nada. Estou só dizendo que não me interesso em saber se uma pessoa é gay ou não é gay.

_Como? Como não te interessa? E eu? Eu não sou uma pessoa? Você não se interessa em saber se eu sou gay ou não?

_Não, você não, quer dizer, eu te conheço. Há muito tempo que eu te conheço. Eu sei que você não é gay. Você é ...

_Normal? Você ia dizer que eu sou normal, ou seja, que os gays são diferentes e anormais, é isso, não é?

_Não, não, não. Os gays são normais. Alguns são legais. Outros só são... gays. Eu só ia dizer que você é heterossexual, como eu.

_Ah, é! E se eu te dissesse que eu não sou heterossexual?

_Beatriz, meu benzinho, meu amor, somos casados há 15 anos. Temos dois filhos. Você é hetero, tenho certeza.

_ E se eu te dissesse, Adamastor, se eu te dissesse que nesses 15 anos e dois filhos, que tudo não passou de uma farsa, que eu fingi desde o início. O que você faria, hein? Heiinn?

_Eu te daria um Oscar, Beatriz. Vá fingir bem assim na casa do chapéu.

terça-feira, 2 de abril de 2013

Sobre fé



AC/DC - Sin City


Sempre tive dúvidas sobre o que é a fé verdadeira. Não estou falando de Deus e nem de religião. Estou só falando de fé. Existem pessoas que acreditam que ela move montanhas e está alojada no mais profundo lugar dos nossos corações. Isso me impressionava muito quando era criança. Em primeiro lugar, eu não conseguia acreditar com tanta força. Isso fazia de mim um não removedor de montanhas logo de cara, o que combinava com o meu tipo físico. Aliás, combina até hoje. Também achava que tinha um coração pouco profundo, do tipo raso. Pensando bem, mesmo acreditando com muita força, não consigo nem ao menos remover esmalte de unhas. Não que eu use esmalte. Meu coração, por sua vez, está um pouco envelhecido.

Talvez por ser um tema muito abstrato, as metáforas e comparações sobre o significado da fé sejam tão fantásticas. Algumas pessoas me diziam que a fé era a mesma coisa que fazia Peter Pan voar e Papai Noel presentear as crianças boas. Essas pessoas eram bem intencionadas, mas eu já sabia quem era o bom velhinho e achava que o alucinógeno que o Peter cheirava um dia chegaria ao mercado. Talvez já esteja mesmo por aí. E alguns conhecidos realmente bateram asas.

Uma vez alguém me disse que ter fé era como torcer por um bom resultado do time mesmo se o técnico viesse de uma equipe rebaixada para a segunda divisão e o craque se jogasse no chão toda vez que recebesse a bola. Eu deveria ter prestado mais atenção nesse sujeito e não só porque ele tinha um jeitão de profeta. Se estiver vivo, tenho certeza de que ele deve estar em algum lugar da arquibancada entusiasmado com a seleção brasileira e apostando alto em alguma outra.

_É cam-pe-ão! É cam-pe-ão! – ele deve estar gritando.

Fé, me disseram depois, é uma mistura do mais profundo e puro desejo que somos capazes de ter, com uma confiança de entrega imediata sem necessidade de garantias. Gostei dessa definição por um bom tempo. Depois percebi que o mesmo se aplica a olhar vitrines e fazer compras pela Internet.

Fé é desejar o impossível, resumiram outros. Gosto de definições curtas. E essa é realmente muito boa, especialmente no que se refere à Scarlett Johansson. De acordo com essa definição, tenho muita fé em Scarlett e uma dúzia de outras estrelas de cinema. Ou talvez não tenha tanta fé assim, já que trocaria todas por Scarlett.

Agora que estou me aproximando da minha quarta grande crise da pré-meia-idade, também percebi que estou em mais uma crise de fé. As pessoas possuem catalisadores diferentes para uma grande crise da meia-idade. Eu conheço um sujeito, é mais um conhecido do que um amigo, que já percebeu que entra em crise todas as vezes que vê um boneco, um papagaio-boneco, num programa de televisão de grande audiência. Em geral isso ocorre quando ele está distraído, correndo na esteira da academia e, sem querer, olha para a televisão. O problema é que ele fica agressivo quando entra em crise e começa a destruir coisas. Ele já está endividado por causa do papagaio. Ele começou uma terapia e a psicóloga optou por uma solução catártica. Estimulou esse cara a criar pássaros. Ele escolheu uma calopsita e tentou estrangular a psicóloga. Está preso.

Por causa desse conhecido eu comecei a prestar muita atenção para descobrir o que pode ser o catalisador das minhas crises de meia idade. Primeiramente pensei que era a visão de um extrato bancário todo pintado de vermelho. Mas talvez tenha criado resistência a saldos negativos, hoje em dia isso só provoca um tique nervoso, que não vou dizer qual é. Depois pensei que eram filmes novos com Bruce Willys. Assisto aos filmes com ele desde a época em que ainda não fazia filmes, só televisão. Aí percebi que chorava muito depois de ver os filmes com o Bruce não porque ele é um bom ator. Ou porque ele é um mau ator. Mas porque ele também é careca, possui milhões de dólares e continua careca. O que prova que mesmo se você for uma celebridade famosa, ter milhões de dólares e acesso ao que há de melhor em todo mundo, nada do que você fizer fará com que seus cabelos nasçam novamente. Nem mesmo um punhado deles. E estamos falando só de cabelo, poxa, perdemos centenas de fios todas as semanas. Só então, quando penso nisso, é que tenho uma crise de fé.

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Mentirada danada



Steely Dan - Do It Again

Não contei nenhuma mentira hoje. Nenhuma. Então resolvi fazer listas de mentiras, é claro.

Mentiras clássicas que não colam desde o tempo do IPhone 1:
– Pode deixar que eu te ligo.
– Eu liguei, mas ninguém atendeu.
– Eu ia ligar, mas perdi o seu número, não sei onde anotei.

Mentiras clássicas que ainda insistimos em dizer:
– Fique tranqüilo, vai dar tudo certo!
– É para o seu próprio bem.
– Não vou contar pra ninguém.
– Não fui eu que contei.
– Pode contar comigo!
– Eu não pude evitar.
– Pode ir que eu vou em seguida.
– Era exatamente o que eu estava precisando.
– Eu estava passando aqui perto e resolvi aparecer.
– A gente se fala.

Mentiras que é muito melhor não dizer:
– Somos apenas bons amigos.
– Posso explicar tudo!
– Você está cada vez mais jovem.
– Você foi a melhor transa que eu já tive.
– Tudo o que é meu, é seu.
– Isso nunca aconteceu comigo.
– Eu nem estava olhando. Juro.
– Estou muito feliz por você. Muito.
– Puxa, como você emagreceu!
– Essa roupa é a sua cara.

Mentiras que não valem um tostão furado:
– Estou vendendo a preço de custo porque é pra você.
– Não é pelo dinheiro, é uma questão de princípios.
– A inflação vai cair. O PIB vai crescer.
– Dinheiro não traz felicidade.
– Quinta-feira, sem falta, o seu carro vai estar pronto.
– Pode deixar que eu tô vigiando.
– Não contém aditivos.
– Vai ficar baratinho.

Mentiras que os políticos vivem dizendo:
– Vamos construir estádios e a infra-estrutura beneficiará a todos.
– Essas obras vão acabar com o problema da seca.
– Isso vai acabar com a miséria.
– Vamos investir em educação.
– Vamos combater a corrupção.
– Nunca antes nesse país...

Frase do dia


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