terça-feira, 23 de abril de 2013

Dois caras normais

Tenho um amigo que é bem triste. É um bom amigo, das antigas, não tenho como fechar a porta para ele. Mas fico feliz de nos encontrarmos raramente. Isso sempre acontece nos lugares mais improváveis e nos horários mais estranhos. Uma vez nos encontramos por volta do meio-dia enquanto atravessava a W-3, no Setor Comercial Sul, um lugar muito movimentado. Tive que acompanhá-lo na direção contrária da que seguia, por insistência dele, para que tomássemos um café juntos. Ficamos no café por alguns minutos, fiquei controlando o tempo preocupado em não perder o meu compromisso no setor comercial, uma reunião num sindicato para homologação de uma demissão. Não me lembro da conversa, mas sempre falamos de livros, então ele deve ter me falado das suas leituras.

Uma outra vez nos encontramos no elevador lotado de um prédio muito alto que fica próximo ao conjunto nacional, onde fiz um longo e caríssimo tratamento de dentes. Dessa vez não conversamos, eu me desculpei e ele entendeu, eu estava com um dente doendo muito e um pouco atrasado para a consulta de emergência que a dentista encaixara, por volta das seis da tarde. Ele me entregou um cartão, mas acho que o perdi. Naquele dia também perdi o dente e talvez por isso não tenha pensado em guardar o cartão do meu amigo.

Na última vez que nos vimos, há uns dois anos, esse meu amigo usava terno e gravata e estava de braços dados com uma mulher muito bonita, num vestido longo e elegante. Ela usava jóias, pérolas, anéis de brilhantes, aquelas coisas que saltam aos olhos e transmitem a sensação imediata de riqueza e luxo. Mas por algum motivo, tudo aquilo não lhe caía bem. Eu estava de jeans e camiseta, tomava um chopp neste shopping, que tem vista para o lago, enquanto esperava minha mulher chegar com as crianças. Meu amigo triste ficou feliz ao me ver e se apressou a apresentar a mulher que o acompanhava.

_Minha esposa, Edith. Nós estamos em lua-de-mel - ele disse.

Fiquei surpreso. Um shopping não parece um bom lugar para uma lua-de-mel eu pensei, mas achei melhor ficar calado. Meu amigo triste parece ter lido meus pensamentos e começou a explicar que não morava mais na cidade, que haviam se conhecido no interior e que a mulher nunca havia viajado antes. Daí a escolha da capital para a lua-de-mel.

_Estou mostrando os lugares que frequentava. Não sabia que você também gostava de vir aqui.

Parabenizei o casal, etc, fiz os elogios de praxe e comecei a me preparar para uma retirada estratégica. Mas não sem antes observar que a mulher também possuía um ar de tristeza igual ao do meu amigo. Dessa vez ele também me deu o cartão, que guardei com cuidado. Eu já ia me levantar quando Edith, que não havia dito nem uma única palavra, virou-se para mim.

_Então você é que é o amigo triste? - disse ela.

_Como? - eu disse.

_Não, Edith...

_Meu marido me contou que sempre fica deprimido depois que se encontra com você. Mas até que você parece normal.

_É que hoje estou sem lenço - eu disse.

Mas ela não achou engraçado.




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