terça-feira, 16 de abril de 2013

Paladar Infantil



Nouvelle Vague - Teenage Kicks

Caprichei na leitura do Harry Potter nos últimos dias, mas não adiantou. Hoje as crianças votaram e escolheram a mãe para ler o último capítulo do livro inicial da série. Por alguma estranha razão, nós lemos os livros fora de ordem. Acho que agora só falta um livro da série, mas não tenho certeza. Assim como acontece com a comida, as crianças são um pouco refratárias a experimentar novos autores e personagens. Eu pensava que deveria ser o contrário, mas o Cabeça já me explicou que isso tem até nome na literatura da medicina, é o Paladar Infantil. Elas fazem o percurso ao contrário do que estávamos acostumados: primeiro o filme, depois o livro. Em geral, só demonstram interesse pelas histórias escritas de filmes ou desenhos que já tenham visto e gostado, de preferência, mais de uma vez. De alguma maneira, isso também começa a funcionar super bem comigo. Ultimamente, tenho selecionado leituras pelo que vem passando nas telas.

Mas nem sempre é assim. Outro dia mesmo entrei desavisadamente na livraria do shopping e quando vi estava folheando "1222", de uma tal Anne Holt. A chamada de capa dizia que mais de seis milhões de exemplares já haviam sido vendidos em todo o mundo. Não sei como é com você, mas em geral fujo de best-seller e de músicas com milhões de audições. Mas assim como gosto de Harry Potter, tento não fazer disso uma regra rígida, ou um princípio que me privará de desfrutar do que me apetecer em matéria de livro, culinária, música e tudo mais. Já ia devolver o livro à prateleira redonda quando duas palavras me saltaram aos olhos: norueguesa e policial. Pô, norueguesa! Lembrei logo do Knut Hamsun, o único outro escritor norueguês que eu havia lido, e assim mesmo por insistência do Selva Brasilis. Ele estava entusiasmado com "Fome" e "Os Frutos da Terra", escritos pelo Nobel de 1920. Lembro pouco do primeiro e nada mais do segundo. Lembro mais do Selva me contar que Hamsun havia esquecido o prêmio enquanto saía da cerimônia do Nobel, porque seria muito distraído e também não ligava para dinheiro. E talvez tenha sido esse despojamento propagandeado pelo meu amigo que tenha me convencido a abrir "Fome" na biblioteca da universidade. Fui fisgado poderosamente a partir da primeira página, saí tardíssimo da biblioteca, mas por alguma razão não pude levar o livro para casa. Para não correr o risco(inexistente, é claro)de que algum desavisado pegasse aquele romance estupendo, resolvi escondê-lo numa prateleira especial, onde eu mantinha dois ou três volumes que sempre voltava a ler. No dia seguinte, logo depois das aulas, corri para a biblioteca e para o meu canto secreto, atrás do romance de Hamsun. Para minha surpresa, meu mocó secreto de pérolas da literatura havia sido descoberto e nunca mais encontrei os meus livros prediletos. Ou seja, também nunca terminei de ler "Fome", ficaram faltando pelo menos dois capítulos.

Resolvi então dar mais uma chance aos noruegueses e levar Anne Holt para casa, ainda com remorsos por não ter lido Hamsun até o fim e também tentando me lembrar quais eram os outros livros que eu costumava esconder na minha prateleira secreta. Fiz um grande esforço mas nada.

O que me traz de volta às crianças e o último capítulo de Harry Potter. Vocês sabem como é isso. Lemos para as crianças antes de dormir desde que eram bebês. E desde que foram alfabetizadas, chegar ao final de um livro é sempre uma festa porque voltamos para as melhores frases dos melhores momentos, tentamos localizar as partes que mais detestamos e também fazemos cócegas em quem não consegue ficar acordado até o final. Eles gostam principalmente desta parte. Eu também. Tudo bem, eu admito, tenho um paladar infantil.

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