sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Viva Pedrinho, Narizinho, Emília e Tia Nastácia

Li na Folha e na coluna do Marcos Guterman no Estadão que o Conselho Nacional de Educação recomendou que o livro “Caçadas de Pedrinho”, de Monteiro Lobato, não fosse distribuído a escolas públicas ou, se for, que venha acompanhado de um aviso de que se trata de obra “racista".

Pô, que sacanagem. Gilberto Gil, que foi Ministro da Cultura e não pode ser chamado de racista por nenhum burocrata idiota, bem que poderia vir a público passar um pito nos caras que fizeram essa recomendação. No mínimo porque cantou o Sítio do Picapau Amarelo para mim e toda a meninada dos anos setenta.

As bobagens do correção política começam a chegar nas prateleiras dos já escassos clássicos brasileiros com as já conhecidas excelentes intenções que levam ao exílio de títulos e depois à queima de livros em praças públicas. Nessa toada, "A Moreninha" terá de trocar de nome para "A levemente bronzeada" só para não ferir nenhuma suscetibilidade. A Escrava Isaura não poderá ser mais implacavelmente perseguida por aquele ator da Globo, o Rubens de Falco, e sumirá das prateleiras por evocar a imagem da Lucélia Santos, ao invés de alguma outra branquela menos estrábica. Desconfio que Guimarães Rosa também será gravemente atingido pela onda politicamente correta, afinal de contas o grande drama das veredas de Riobaldo é amar Diadorim sem saber que ela finge que é homem só para poder andar junto com a jagunçada, matar Hermógenes e vingar o pai. "Riobaldo pensa que é gay e não existe nenhum problema nisso", alguém ainda vai alegar, antes que o livro seja qualificado de homofóbico e de apologia ao chapéu de couro.

Mas é no campo da música que estaremos fritos. Marchinhas de Carnaval terão versos inteiros substituídos. Ninguém mais vai poder cantar que o cabelo da afrodescendente não nega que ela procede do outro continente. Estrofes dos axés bahianos dos anos 80 serão banidos das discotecas. Não será possível dizer olha a afrodescendente do cabelo "hard", que não gosta de pentear, quando passa na boca do tubo, o grande afro-brasileiro começa a gritar, pega ela aí, pega ela aí, pra quê, pra passar batom, de que cor, de violeta, na boca e na boca do céu...

E sobretudo, ficaremos sem escutar aquele clássico dos clássicos, do tempo da lambada, que começava assim: tem, tem, tem, tem dois neguinho, tem, tem, tem, tem dois neguinho, um morava na Jamaica, outro mora no Brasil, um chamava Bob Marley, outro é Gilberto Gil...

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Declaração de voto

Neste segundo turno votarei tranquilamente no melhor candidato. E não é apenas por causa de uma história de vida exemplar, em que tudo aponta para a aptidão, para a correção, para o que é virtude e virtuoso, para o que é bom e do bem, para o que é positivo, para a segurança da tomada das decisões que se espera de um estadista.

Votarei numa boa no candidato que sabe o que diz, que gosta da verdade, que se dá ao respeito, que ama a democracia.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

É triste, mas foram oito anos com o cara chutando cachorro morto




A foto captura o momento exato em que o Rei estende a mão para o inimigo, digo, adversário, digo, antagonista do momento.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Reflexão sobre o primeiro turno

Essa não é uma eleição entre ricos e pobres, entre ignorantes e bem formados, entre o sudeste e nordeste.

Também não é a eleição entre a continuidade e a não continuidade.

Essa eleição não é pró-presidente e anti-presidente. O presidente não é candidato, embora não tenha se afastado do palanque nesses oito anos.

Essa eleição não é uma escolha entre os oito anos que se passaram e os oito anteriores.

Esta é uma eleição polarizada entre 2 modos de se fazer política.

Um é velho, do tipo vale-tudo pela vitória.

Os dois candidatos flertam com esse modo de fazer política. Um bem mais que o outro.

Um deles se destaca pelas alianças com as figuras mais repulsivas do cenário nacional, pela ausência de escrúpulos que derrapa na negligência, que esbarra na falta de critérios, que descamba para o conluio da companheirada, do dito pelo não-dito, do assinado pelo rubricado, pelo ataque sistemático e baixo a todas as instituições, pela brutalidade e crueza com que exerce um pragmatismo vazio, sem alma, que busca o poder pelo poder. Outro candidato tem uma história de vida exemplar, mas aparenta a prepotência de saber e de ter solução para tudo, incluindo aí o jeito de aumentar o salário mínimo, a bolsa-esmola sem contrapartida e a aposentadoria, sem quebrar a banca.

O outro modo de se fazer política não é novidade. Ele se evidencia a cada eleição travestido nos votos brancos, nulos e abstenções. Neste primeiro turno, veio também vestido de verde. Somados, venceram disparado o primeiro turno. Pois muitos dos eleitores de um acreditam que o seu candidato é o único capaz de soerguer as instituições do país, preservar as conquistas democráticas e resguardar a liberdade. E também não duvido que muitos dos eleitores do outro acreditam que só o seu candidato poderá diminuir as enormes desigualdades existentes no país.

Um deles, sem dúvida nenhuma, é o candidato mais preparado, com o melhor currículo, vida sem mancha, honesto, honrado e probo. Mas parece que ainda não conseguiu fazer, da maneira certa, o convite capaz de atrair multidões para o seu lado. Sinceramente, não sei dizer se esse candidato foi excessivamente brando nessa primeira etapa. Também não sei se as multidões combinam com esse outro modo de se fazer política. Mas torço para que encontre um jeito bacana de mostrar que as desigualdades só diminuem com ampliação das oportunidades, que nem mesmo o Estado pode tudo e que, sem respeito à lei, não existe liberdade. Terá de ser um discurso de coesão, de soma, mas deixando bem claro que não há pacto possível com larápios, desonestos e gente sem disposição para trabalho.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

F... e mal pagos

Lei não pode retroagir. Se o nosso glorioso Supremo tivesse derrubado esse princípio iríamos chafurdar no caos até o final dos tempos. Porque na seqüência, seriam “descobertas” prestações de contas faltosas e delitos em maior ou menor grau de todos os políticos que não praticassem a genuflexão, a dobradura de coluna e a felação dos poderosos donos da situação. Estivemos bem perto disso. Estamos andando na borda da navalha há algum tempo.

As melhores intenções podem gerar efeitos perversos. É por isso que se diz que o inferno está cheio delas. Por aqui, convivemos com um monte. Pouco ainda se fala do gigantesco escândalo da semana passada, quando se descobriu que envelopes de propina de repente apareciam em gavetas no PP. Da semana anterior, quando foram revelados fatos sobre as taxas de sucesso cobradas por filhos, irmãos, tios, sobrinhos, bisavôs, avós, primos, parceiro de truco, cupinchas, asseclas e apaniguados de uma ex-ministra, fala-se menos ainda. Do gigantesco escândalo dessa semana, quando um genro de ministro negocia no maior descaramento a conduta e o voto do pai da mulher (que é sócia do marido), pouco se falará.

Pulamos de um escândalo para outro. As referências positivas se perderam. Estamos sem reserva moral. Nenhuma instituição nos protege. O último e supremo guardião da lei é o primeiro a querer temperar a legislação. Estamos f... e mal pagos. Giba solta palavrão. Até o Galinho jogou a toalha.

No domingo, como vaticinou Augusto Nunes com o texto brilhante de sempre, votarei na democracia.

Frase do dia


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