quinta-feira, 30 de maio de 2013

Imersão e suspensão



Latasha Lee & The BlackTies-Stand By Your Man

Fiquei impressionado com o Hans Roling e suas estatísticas visualmente encantadoras. Pessoas que conseguem transformar assuntos penosos e intrinsecamente chatos em temas empolgantes e envolventes sempre me despertaram interesse. Helmann Melville, com Moby Dick, foi um dos que conseguiram fazer isso com maestria. O grande escritor recheia o livro de detalhes técnicos sobre a navegação marítima e a caça às baleias, mas mesmo assim você não desgruda da trama. É possível citar outros? Euclides da Cunha, com Os Sertões. Truman Capote, com A sangue frio. Tom Wolfe com todos os seus livros, em especial Os Eleitos(os astronautas e a corrida espacial) e A Palavra Pintada(a loucura da arte moderna nos EUA). Todos eles conseguem passar informação em meio à ação que descrevem ou romanceiam. É também o que me atrai no teatro, na pintura, na música e no cinema: cenas que dizem milhares de palavras em poucos segundos. O efeito disso é uma sensação de imersão e suspensão ao mesmo, um encantamento que nos maravilha e paralisa.

Estamos novamente em um novo momento de transição de meios e adaptação de mensagens. Assim como aconteceu no início do cinema, do rádio, da tv e da internet, quando todos os conceitos de assemblage/montagem foram criados e submetidos a teste, quando os programas de rádio levaram o pânico(A Guerra dos Mundos) ou a euforia da notícia do fim da II Guerra para milhões de pessoas, quando os programas de auditório e as novelas nos hipnotizaram nas poltronas, quando a interatividade começou a engatinhar, agora é a vez de alguma coisa que tenha tudo ao mesmo tempo agora nos deixe embasbacados. Estamos nos aproximando da era da manipulação total da informação, onde será possível agregar e manipular grandes quantidades de dados em qualquer mídia e agregá-la e organizá-la de forma atraente e interessante, instantaneamente.

Era nisso que eu estava pensando quando o guarda na enorme fila para entrar no banco me estendeu um papelzinho com o número da minha senha.

_Por quê está tão cheio? - perguntou uma moça, atrás de mim.

_É o feriado. E também tem o ENEM, hoje é o último dia para a inscrição - ajudou alguém.

Duas horas depois, ainda dentro do banco, descobri que não conseguiria jamais retomar o otimismo com relação à tecnologia. O próximo passo, dizem, é ficar imune a qualquer expectativa, boa ou ruim.

terça-feira, 28 de maio de 2013

Hans Rosling



Queens of The Stone Age - I Sat By The Ocean

Hans Rosling encabeça a lista dos 13 palestrantes do TED preferidos por Bill Gates. O cara é mesmo um craque da estatística. E graças ao seu entusiasmo e a capacidade de enfrentar mitos, conseguiu organizar e disponibilizar um enorme banco de dados de dezenas de países do mundo. Suas apresentações são de cair o queixo pela sua agilidade, dinamismo e capacidade de síntese. As informações são agregadas a uma ferramenta de animação de gráficos, que permite enriquecer uma apresentação mostrando, por exemplo, a relação entre área plantada, PIB, emissão de carbono e mortalidade infantil nos diferentes países e em todos eles juntos. Qualquer pessoa vira um fã de estatística ao ver suas sensacionais apresentações. Confira no You Tube e no TED. Ah, e se você quiser inventar uma aula bem dinâmica, não deixe de usar o site que ele criou e as ferramentas disponibilizadas no Gapminder.

segunda-feira, 27 de maio de 2013

O kit Niemeyyer e a ciclovia na esplanada



Moby - Go

Fiquei sabendo pelo meu amigo Mário que o governo do Distrito Federal começou a construir feito mineirinho come quieto uma ciclovia nos gramados da Esplanada dos Ministérios. De repente, com a agilidade que lhe falta para arrumar hospitais, escolas e as pistas já existentes, o governo local providenciou o início e meio das obras, rapidamente. Assim como a rápida demolição do antigo Estádio Mané Garrincha, os nosso briosos administradores fizeram como sempre fazem, mandam quebrar tudo logo de cara que é para não ter como refazer o já desfeito. No caso, trataram logo de escavar os buracos de pistas e as covas para as mudas. Além da sinuosa pista de cimento, o projeto desenvolvido inclui a plantação de algumas dezenas de árvores que poderão chegar a trinta metros. Arquitetos cheios de argumentos e defensores do projeto arquitetônico original fizeram críticas ácidas à iniciativa, conforme pode ser visto em vídeo da Folha no YouTube.

Como é habitual, nossos governantes acham que sabem tudo e não combinaram nada com ninguém que não fosse da patota. O projeto pulou de uma gaveta e virou realidade num instante, sem discussão com a população. E isso deve ser questionado. O povo precisa ser ouvido sempre e hoje em dia, convenhamos, é bem simples fazer uma consulta popular.

Pessoalmente, acho que os espaços de lazer de Brasília são escassos e extremamente mal estruturados. Recomendo a todos os visitantes da capital que sejam precavidos e tragam água, sombrinha, cadeira dobrável e uma matula ao fazer o circuito de monumentos. Esses são os quatro componentes básicos do kit-Niemeyer. Sim, você não encontra água, o sol é de rachar, não há lugar para descanso e inexistem estabelecimentos para beliscar nada na Esplanada durante os finais de semana. Com sorte, haverá ambulantes cobrando preços escorchantes por uma pipoquinha amanhecida. Durante a semana será preciso apresentar identidade para ultrapassar uma roleta de um ministério qualquer e descolar um refri ou um salgadinho numa biboca no térreo ou no subsolo. Em qualquer dia, se precisar ir ao banheiro, chame um táxi e corra para o Conjunto Nacional. Os banheiros de acesso público na Esplanada são quase inacessíveis ou estarão fora de ordem. É constrangedor. Já vi brigas na Catedral por causa disso. Para um passeio noturno na capital será preciso acrescentar lanterna e casaco e deixar separada uma grana para o sujeito que vai olhar o seu carro.

O projeto da ciclovia arborizada na Esplanada promete aliviar, daqui a alguns anos, o problema da falta de sombra. Mas todos os outros permanecem e permanecerão. A cidade não possui apenas uma arquitetura peculiar. Ela nasceu da imposição de uma vontade, do sonho e capricho de um homem que soube contagiar multidões no seu tempo e congregar milhares e milhares de vontades. A renúncia de Jânio e o regime militar não destruíram apenas o regime democrático no país: sufocaram liberdades e fizeram com que Brasília fosse durante longo período menos que uma cidade, uma estadia funcional. Com o fim do regime e a possibilidade de uma representação política para os moradores da capital, a existência de uma câmara legislativa foi saudada como a reconquista da cidade pelos que as construíram e pelos que aqui cresceram e a amam. Os moradores daqui, no entanto, vêm sendo sucessivamente traídos e vilipendiados pela maioria dos seus representantes. Ainda hoje Brasília é moldada ao quase exclusivo bel prazer dos que detêm poder, que parecem se preocupar cada vez menos em respeitar os direitos e a vontade dos moradores. Ou pior, o descaso e o arbítrio é que tomam conta da cidade. E o descaso é bem penoso de se ver, com as dezenas e dezenas de quadras de esporte aos cacarecos nas entrequadras do Plano Piloto, na velha ciclovia e nas cidades satélites, como o Guará.

Com a ciclovia pronta, certamente irei conhecer, levar as crianças para uma volta de bicicleta, um passeio de skate. A cidade precisa de espaços de convivência agradáveis, limpos, com lugar para sentar, banheiro, sombra, água, um café, caramba! Por precaução, levarei também o kit-Niemeyer.

domingo, 26 de maio de 2013

Estepes



Curb Your Enthusiasm - Tyre Scene

Uma vez eu, a Maira, o Cabeça e a minha mulher estávamos passeando em Recife, no carro da irmã do Cabeça. Era noite, ainda não existia GPS, o celular era uma tecnologia em ascendência entre ricos esnobes, e o Cabeça não acreditava em mapas. Ele confiava na memória. Não me lembro onde estávamos indo, mas obviamente não conseguimos chegar lá. Era uma pista esburacada e o Cabeça caprichou no volante, só deixou escapar uns poucos buraquinhos de nada. É claro que o pneu furou. Ficamos dez minutos procurando o estepe. Quando o encontramos, não conseguimos sequer tirá-lo de onde estava, que era uma espécie de nicho sob o bagageiro. O jeito foi chamar um sujeito que trabalhava num posto, que ficava não muito longe. Uma hora depois demos risada da história. Depois ficamos sabendo que aquele era um dos bairros mais perigosos do Recife.

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Espinoza e a essência do indivíduo



Laurel & Hardy - The Plank

"Espinoza acreditava que todo indivíduo tem uma natureza essencial que luta, ao longo da existência, para realizar e manter. Em outras palavras, ele achava que subjaz em cada indivíduo um ímpeto inato para se tornar, e se manter, aquilo que aquele indivíduo é mais essencialmente." Sobre a verdade, Harry G. Frankfurt, pag. 49.

Espinoza acredita na paixão e no amor. Quem ama necessariamente luta para ter presentes e preservar as coisas que ama. Como filósofo que ama a verdade, Espinoza dizia que alguém que despreza a verdade ou é indiferente a ela deve ser alguém que despreza a sua própria vida ou é indiferente a esta. Para o filósofo, essas pessoas teriam grandes dificuldades na vida.

Também acredito nisso, em que pese todas as consequências. É uma coisa terrível de se acreditar, porque vai, em certo ponto, contra a noção de livre arbítrio. Esopo resumiu tudo com a história do escorpião e da rã.

E se for da sua natureza do indivíduo agir como vilão, com frieza e crueldade? Em algum momento é isso que predominará? Somente assim aquele indivíduo se sentirá plenamente realizado? E se for da natureza do homem que ele seja desonesto, ao longo de sua existência ele se tornará e se manterá desonesto? Até que ponto isso é inevitável? O mesmo ocorre com o assassino, o covarde, o irresponsável, o canalha e todos os outros criminosos e desvirtuados? Indivíduos são recuperáveis ou o que importa é uma Lei de Talião mais sofisticada? Não sei. Nem mesmo sei se já soube. Esqueço coisas óbvias. Leituras a serem refeitas. Longos dias em silêncio.













quinta-feira, 23 de maio de 2013

Ainda gripado



Alex Clare - Damn Your Eyes

Troquei uma das lâmpadas da luminária que eu coloquei sob a jabuticabeira. Ela parece ter crescido bastante no último ano, mas pode ser apenas o efeito da poda dos galhos mais baixos, feita pelo jardineiro. Eu havia espalhado duzentos quilos de seixos embaixo da árvore, mas em apenas um ano a sensação de que a árvore nascera entre pedras desapareceu. É difícil manter um jardim bonito. É difícil manter uma horta. Mas continuo tentando. O meu pé de limão-china continua sendo um campeão de produtividade, nunca ficamos sem limões aqui em casa desde que nos mudamos. A seca se avizinha, vigiamos as crianças, cuidamos de agasalhos, das garrafinhas dágua. A gripe continua a me incomodar, agora com dor de garganta, pulmão cheio. Tenho preguiça de remédio.


terça-feira, 21 de maio de 2013

O fim do bolsa-família não deveria ser boato



Curb Your Enthusiasm - Swan Kill


Leio nos jornais sobre os boatos a respeito do fim da bolsa-família. O pessoal do governo não gostou nada da boataria. Sempre que alguém do governo não gosta de alguma coisa é um barata-voa danado e montanhas parem ratos. Pelo que vi, surgiram duas facções. Na liderança da primeira apareceu uma ministra para colocar a culpa numa “central de notícias da oposição”. Sei. Se existisse, a central funcionaria mais ou menos assim:

_Você ligou para a central de notícias da oposição. Para fazer elogios, tecle 1. Para sugestões, tecle 2. Para reclamações, tecle 3. Para mandar beijim, tecle 4. Para concorrer a um queijim, tecle 5. Para boatos sobre o fim do bolsa-família, aperte 666...

Pela segunda facção, um outro ministro fez pose de magistrado e declarou que tudo foi muito bem organizado, orquestrado e planejado. O ministro disse também que a origem do boato seria devidamente investigada e os culpados severamente punidos.

Os 44 milhões de brasileiros que votaram no outro candidato nas últimas eleições queriam muito que oposição fosse tão eficiente quanto, em raras ocasiões, o partido da situação pretende que seja. As sucessivas carimbadas de medidas provisórias no Congresso Nacional, no entanto, desmoralizam qualquer tentativa de canto de galo.

Ao final de suas declarações de duela a quem duela, o ministro disse ter escalado o batalhão de arapongas cibernéticos da Polícia Federal para capitanear as investigações. Essa turma é especializada em grampo de e-mail e escuta paralela de skype, agindo desde sempre dentro dos mais estreitos e estritos limites legais, com dois pesos e duas medidas para cada ocasião. Claro, os gênios já intuíram que tudo foi engendrado nas redes sociais, provavelmente no Facebook ou no twitter. Certamente vão localizar mensagens comprometedoras como as seguintes:

_Véi, vamu kmça um boatu?rs,rs,

_Vamu, rs,rs,rs.

_Lol, u gov vai kbar k bolç esmol.

_Rs,rs, ngim vai pdr a mmta.

_Vamu çkar agora.

O trabalho dos especialistas do governo é sobejamente credenciado pelo êxito obtido em investigações como a... er... teve a da ... e ainda a ... sim, e teve também aquela sensacional a... bom, teve alguma aí, que obviamente culminou com todos os canalhas atrás das grades. Encontrados os responsáveis, a depender da cor da camisa, duvido que recebam o mesmo tratamento que o governo concede a malfeitores exonerados de ministérios e bate-paus da blogosfera: churrascos, abraços, tapinhas nas costas, elogios em palanques, anúncios, grana, consultorias do Cebrai e medalhinhas por bons serviços prestados.

Com 13,8 milhões de famílias beneficiadas, o Bolsa-Família é o maior programa do gênero assistencial-clientelista no planeta e, assim como a Muralha da China, pode ser visto a olho nu do espaço batendo 25,8 bilhões anualmente da carteira do nosso pibinho. A gigantesca máquina administrativa de 39 ministérios, os milhares de municípios imbecilmente emancipados - que torram tudo que recebem do FPM nos salários de prefeituras e assembléias perdulárias e inúteis - e o Bolsa-Família são as nem tão novas saúvas do país. Hoje, nenhum político tem coragem de começar a diminuir essas encrencas e elas estão acabando com a coragem de se fazer política de maneira decente no Brasil. O fim do Bolsa-Família é só um boato. Mas deveria ser programa de governo torná-lo desnecessário. Deveria ser meta registrada em cartório o planejamento e método para a sua erradicação. Um dia alguém vai ter que matar esses gansos.



P.S: Começaram a pipocar matérias nos jornais dizendo que os arapongas cibernéticos talvez não sejam os mais indicados para investigar os boatos, já que a propaganda boca-a-boca é que provocou a confusão em alguns estados notadamente menos eletrônicos. Seja como for, é interessante imaginar que em algum município, um único telefone de uma agência qualquer registra ligações para centenas de beneficiários do bolsa-família no mesmo dia, em ordem alfabética.

domingo, 19 de maio de 2013

Antecipação



Curb Your Enthusiasm - Chat and Cut

Eu encontrei no sábado o pai de uma colega de sala da minha filha, no caixa do supermercado.

_E então? Como foi a avaliação? - eu pergunto.

_Que avaliação? - ele responde.

_Hoje teve avaliação das crianças na escola. Sua mulher é que vai nessas coisas, não é?

_Não, não, aos sábados ela trabalha, quem faz essas coisas sou eu - ele disse.

_Mesma coisa - eu disse, compreendendo pelo embaraço do outro que ele havia esquecido da avaliação da escola.

_E no mais, vai tudo bem? - ele disse.

_Claro, claro, tudo bem. Não se preocupe, daqui a pouco tem outra avaliação.

_Daqui a três meses, ou dois - ele disse.


Quando cheguei em casa, contei para a minha mulher sobre o encontro com o pai da colega.

_Xii, a mulher dele não vai gostar - disse a minha mulher.

_Se acontecesse comigo, o que você faria? - eu disse, só para continuar conversando.

_Se acontecesse o quê?

_Se eu esquecesse da reunião da escola, o que você faria? - eu disse.

_Você foi, não foi? - ela disse.

_Claro que fui, você já viu as avaliações, já conversamos sobre elas. Só estou perguntando por perguntar - eu disse.

_É mesmo.

_E então?

_Não sei o que faria, isso é uma coisa muito séria.

_Acho que não é nada demais. Se você esquecesse, eu não me importaria muito - eu disse.

_Parece que você está planejando esquecer a próxima reunião na escola.

_Não, só acho que não seria nada demais.

_Está parecendo uma desculpa por antecedência.

_Não é nada disso.

_Eu te conheço. Se você faltar à próxima reunião eu vou ficar furiosa - ela disse.

_Mas o que...

_Não senhor, nem adianta vir com pegação. Alguém tem que ir às reuniões da escola e eu trabalho aos sábados. Então, é sua obrigação participar da reunião da escola, ainda mais quando eu estou trabalhando. É muito importante acompanhar o desempenho escolar das crianças...

_Tudo bem, tudo bem. Se você esquecesse da reunião eu também ficaria furioso - eu disse.

_Mas do que é que você está falando? Eu trabalho aos sábados!

sábado, 18 de maio de 2013

A gripe do Careca e as médicas cubanas



The Walkmen - The Love You Love

Gripe é fogo. Tira o bom humor, a concentração e estraga com tudo. Até com a disposição para escrever no blog. Sim, meus caros amigos da Kombi, há dois dias estou gripado como um peixe. Nesse momento estou olhando para a ponta do meu nariz pingando e fazendo bico para que nada caia pelo chão. Meu nariz está tão entupido que poderia ser usado para barrar vazamentos em canais na Holanda. Também estou com olhos vermelhos e um dos meus ouvidos parece ter sido sugado por uma profissional do sexo especializada em orelhas. Deveria haver prazer depois da dor, mas a parte do depois foi esquecida. Seja como for, alguma coisa provocou um vácuo no canal auditivo e isso parece ter colado o meu tímpano num lugar entre o estribo e o martelo. É quase tão doloroso quanto o que dói no resto da minha cabeça.

Além disso, há a indisposição. Não sou fanático por exercícios físicos, mas só de erguer o braço fico desanimado. Nos dois últimos dias, tenho procurado me manter em repouso absoluto. Isso consiste em ficar deitado com a cabeça ensanduichada por travesseiros. Nos melhores momentos, consegui revisar mentalmente o meu testamento. Como não tenho nada, o meu testamento consiste precisamente no que fazer com os meus restos mortais: vou doar tudo o que ainda servir para alguma coisa e o que sobrar poderá ser usado por estudantes de medicina do sexo feminino formadas em Cuba.

Sim, tem muita gente preocupada com a chegada dos médicos cubanos, mas um amigo meu, que prefere ficar anônimo, disse que existe também uma legião de brasileiros esperando ansiosa pelas médicas, anestesistas e enfermeiras cubanas! Ele me explicou que já que é uma fantasia ser bem atendido nos hospitais públicos então que ela seja bem picante com uma morena caliente. Nossos médicos e médicas são ótimos e coisa e tal, mas não falam com a ponta da língua tocando nos dentes ao dar vivas a Fidel, não sussurram Che-Gue-va-ra!

É extraordinário o quanto pensamos no fim quando estamos gripados. Eu pelo menos sou assim. Primeiro pensei que não era gripe, era só um resfriado. Depois pensei que era dengue. O que se faz quando se tem dengue? Putz, eu não consegui nem me levantar para descobrir no google. Aí comecei a melhorar, o que me levou a acreditar que é mesmo só uma gripe. Levantei, me animei um pouco e fui para a Internet.

Vi a foto da presidente vestida de tomate e calça preta, chutando a bola na inauguração do estádio. Dei risada. Um amigo observou que ela só inaugura estádio vazio, sem gente, vai ver tem medo de vaia. Brasília, assim como o resto do Brasil, tem um monte de surtos de doenças do terceiro mundo, mas nossos políticos estão muito ocupados inaugurando estádios de futebol, eles não ligam pra coisa pequena. Tenho certeza de que amanhã já estarei bem melhor.

terça-feira, 14 de maio de 2013

O fim do zoo e a passividade cultural do Careca



Laurel and Hardy

Eu vi um comentário no Facebook e, mais uma vez, não resisti. Fui dar pitaco num post em que um sujeito lacrimoso bradava pelo fim dos zoológicos, maldizendo os seres humanos. "Só uma raça imbecil como a humana pode considerar isso uma diversão", ele escreveu. "Isso" se refere a visitar o zoo com as crianças. Putz, também acho que um bando de gente da raça humana não prima pela inteligência, eu mesmo vivo fazendo burradas, mas não sou de cuspir na minha árvore genética. Tem muita gente boa nesta raça, e algumas são tão bonitas e inteligentes quanto a Scarlet Johansen. Mas o sujeito estava revoltado, para ele não há outra solução. É preciso acabar com os zoológicos do mundo, a começar pelo de Brasília - disse o jacobino.

"Tenho um cachorro em casa e também um peixe beta, que minha filha ganhou de uma amiga. Eu e meus filhos cuidamos muito bem deles. Assim como os meus bichos, quero crer que os animais do zoo de Brasília têm procedência legal e são tratados com cuidado, recebem tratamento veterinário, remédios, alimentação adequada, etc. Eu, meus filhos e milhares de pessoas adoramos visitar o zoológico para picnics. É um dos poucos programas acessíveis para muitas famílias. Também adoramos andar a cavalo, pescar, churrasco e frango assado. Espero não ter ferido nenhuma suscetibilidade, mas eu gosto do zoo, de aquários gigantes e de ver bichos ao vivo. Acho melhor do que ver pela TV" - eu escrevi.

Em segundos, um outro ser humano revoltado com a existência dos zoos escreveu que eu estava comparando alhos com bugalhos. Ele disse que animais domésticos não podem ser comparados a animais silvestres. Para esse legítimo homo sapiens o zoo significaria apenas uma tortura eterna para os bichos dali. Pelo que sei, já faz tempo que os zoológicos seguem regras rígidas para não encarcerar animais capturados na natureza. Ou seja, nos zoos predominam os animais nascidos no cativeiro vindos de outros zoos ou de fazendas de animais silvestres. No zoo de Brasília, alguns animais contam com abrigo e cuidados muito superiores aos que muitos humanos consegue garantir com o salário mínimo. Na minha opinião, que às vezes pode ser imbecil, por uma questão de coerência, se você é contra o confinamento de um bicho, tem que ser contra o confinamento de qualquer bicho, o que inclui alguns insetos. Se o zoo deve ser fechado, então teremos que libertar o cão, o porco, a vaca, a ovelha, o coelho, o cavalo, o jegue, o rato e o peixe beta. Liberdade para os hamsters, os cães-guias e os cavalos da equoterapia. Free Lassie, Rex e o Macaco Tião! Todos eles ostentam o olhar triste do confinamento. E digo até que alguns carregam também o brilho da compreensão de que o cutelo está próximo.

Era o que eu ia responder ao mané que insinuou que eu gostava de tortura quando o autor do post também escreveu um comentário dizendo que era "justamente sobre essa aceitação cultural passiva, capaz de transformar um aprisionamento cruel em um feliz picnic familiar" que ele estava falando. Putz! - eu pensei. Passividade cultural é o baralho! Vá destrinchar um pernil! Vá comer um sushi! Mastigue uma parrilada! Deixe a paella, a moqueca e a carne de sol no prato! Aceitação cultural passiva é ficar em casa, pregar o fim do zoo vendo bichos pela TV ou em fotografias ao invés de ir para o zoo de Brasília, ver os bichos, sentir o cheiro, descobrir onde se escondem para se proteger do sol, tentar adivinhar qual deles daria um bom candidato a deputado. Rá! O zoo é um dos poucos locais da cidade onde famílias de todos os segmentos sociais ainda passeiam com tranquilidade com suas proles.

Acho que deve ser o contrário: deveria ser criado um movimento pela preservação do zoológico e ampliação dos locais e da estrutura para acomodação dos bichos ali dentro. O quê que há? Não assistiram Madagascar? O zoo daqui possui várias jaulas amplas, como a do elefante e da girafa(que só vejo de binóculo) que não vi em zoológicos de outras cidades do Brasil e do exterior. O zoo é parte importante da cidade, ocupa um espaço nobre e, na minha opinião, deve ser preservado e aprimorado. Alguma campanha inteligente deve ser feita para melhorar as instalações para os homens e bichos. Acho que além de adotar jaulas, a população deveria ser convidada a colocar os piores deputados e senadores numa delas e chamar crianças para atirar pipocas nesses indivíduos. Pregar a extinção do zoo é favorecer a especulação imobiliária, que sempre teve um olho gordo voltado para a área, próxima ao parkshopping e ao aeroporto, bem na entrada da Asa Sul. É possível fazer as duas coisas, extinguir os zoos e proteger a área? Na minha opinião, e de acordo com a lei das probabilidades, não. Meu lado paranóico vislumbra nessa conversa de acabar com o zoo o nascimento de uma campanha para roubar da população mais um espaço público em Brasília. Logo após assumir, a atual administração fez ecoar nos jornais locais uma grande onda sobre corrupção, máfia e má gestão no zoo da cidade. Depois o assunto sumiu. Tomara que esteja enganado, mas se estiver, tenho certeza de que ou todos os bichos estarão soltos e vamos todos comer somente alfaces como o Horácio ou apenas alguns zoológicos estarão fechados, e, em seu lugar, novos e exclusivos condomínios serão erguidos.

domingo, 12 de maio de 2013

Nem tão jovens assim



The Cure - Just Like Heaven

Ganhamos ingressos para assistir Homem-de-Ferro 3 numa promoção relâmpago. Fui uma das primeiras cem pessoas a imprimir um e-mail e apresentá-lo à concierge do shopping. Fui bem idiota. Imprimi o e-mail a cores. Poderemos ver o filme em qualquer horário de segunda a quinta-feira, desde que não seja feriado, enquanto o filme estiver em cartaz. A concierge me pediu o CPF, a identidade, o e-mail, o CEP e mais um monte de coisas. Devo ter feito cadastro no mailing desse shopping umas trinta vezes. Como resultado, sou bombardeado por quinze ou mais e-mails por dia de empresas relacionadas ao shopping. É mais confortável assistir a filmes em casa, mas o shopping é perto de onde moro e ainda desfruto de uma boa sensação de segurança. Entretanto, é mais econômico ficar em casa. Sair custa, em média, 50 pratas. Com as crianças, é o dobro.

Estou curioso para ver o filme "Somos tão jovens". Todas as pessoas que o viram cobrem a fita de elogios. Uma delas comentou que esta é a primeira chance que a minha geração tem de conferir uma boa história sobre a sua juventude, nas entrequadras de Brasília. É aqui, não é uma metáfora sobre algum lugar mítico no passado. É uma história onde a cidade também é personagem. Nas conversas, as pessoas apontam para as pequenas falhas que não prejudicam o enredo, das reconstituições de espaços tão profundamente alterados pelo tempo, como o cine Karim. Todos falam que saem do cinema com gosto de quero mais, que faltou contar alguma coisa que também achava fundamental para exprimir como foram aqueles dias, quando éramos tão jovens. E falar sobre o filme também se torna uma forma de contar a própria história, as loucuras, os medos, e a ingenuidade que cada um parece ter guardado para envolver aquela época.



quinta-feira, 9 de maio de 2013

Oficina do Dia das Mães



Latasha Lee & The Blackties - Pledging My Love


_Sinto muito, filha, mas não vou poder ir na festa das mães na escola - disse a minha mulher.

_Mas é no sábado, manhê.

_Eu vou estar trabalhando, não posso - repetiu minha esposa.

_Mas manhê, você está sempre trabalhando. O papai é que vai nas festas da escola - disse a minha filha. Nessas horas, é claro, eu sempre penso que falando assim as pessoas imaginam que eu não trabalho ou que estou desempregado, quando as duas alternativas estão absolutamente corretas.

_Eu gosto de ir nas festas da escola - eu disse. Mas não é verdade. Eu disse só porque me pareceu a coisa certa para dizer. Acho as festas escola muito longas e desorganizadas. Tem sempre muito discurso, as pessoas ficam se esticando e bloqueando uma às outras com suas máquinas fotográficas, celulares e ipads, nem as crianças parecem estar se divertindo.

_Eu sei paiê, mas é a festa das mães! E a mamãe nunca vai - disse a menina.

_Eu já fui várias vezes - disse a minha mulher.

_Não, mãe, você sempre está trabalhando, nunca foi. É sempre o papai - disse minha filha. Eu também uso muito o nunca e o sempre. Acho que ajuda na dramaticidade.

_Eu sou professora, filha. Já imaginou se a sua professora avisasse que não ia dar aula amanhã porque tinha um outro compromisso? - disse a minha mulher.

_Que compromisso? - disse a menina.

_É uma hipótese. Mas vamos supor que a sua professora deixou de dar aula porque preferiu ter ido a uma festa. Isso seria legal?

_Se fosse uma festa do dia das mães todo mundo ia entender, eu acho - disse a minha filha.

_Se fossem crianças, talvez. Mas os adultos, não. É falta de respeito - disse minha mulher.

_Não se preocupe. Eu vou representar sua mãe - eu disse. E lembrei que no ano passado, apesar dos discursos e dos bloqueios fotográficos, a festa foi bem bonita, fiquei até soluço quando cantaram "Como é grande o meu amor", do Roberto Carlos.

_Mas não tem jeito, paiê. Neste ano você não pode representar a mamãe - disse a menina.

_Ué, eu sou um bom representante de mãe. Fico quieto. Não falo quase nada. Bato palmas e sorrio nas horas certas. Tenho certeza de que darei conta das tarefas de um bom representante de mãe neste ano, de novo.

_Não, paiê, é impossível. Este ano é impossível - disse a menina.

_Mas...

_Este ano vai ter oficina de massagem energizadora, maquiagem, manicure e pedicure. Eu queria fazer todas com a mamãe - disse a minha filha.

Tive que reconhecer que não sou muito bom em nenhuma dessas coisas. Nem sei o que é massagem energizadora. O lado bom é que não vou precisar entrar na frente de ninguém para filmar as apresentações.


quarta-feira, 8 de maio de 2013

Dorminhoco de elevador



Cold War Kids - We Used to Vacation

Quando as crianças eram bebês, às vezes tínhamos dificuldade em fazê-las dormir. Então aos poucos fomos descobrindo alguns truques para que pegassem no sono. Meu filho, por exemplo, dormia fácil sobre meu peito, escutando as batidas do meu coração. Minha filha cochilava quando dançava comigo, aninhada nos meus braços e com o queixo encostado, de leve, no meu ombro. Nessa época, colocava muito jazz e ambos adoravam um CD do Count Basie (The Atomic Mr Basie, que um dia ficou preso dentro do CD player. Até hoje está lá dentro, nunca consegui que funcionasse novamente. Quando cresceram um pouco, às vezes era preciso levá-los a passear de carro. Íamos os quatro, eu, minha mulher e os dois bebês cuidadosamente acomodados nas cadeiras super-reforçadas e seguras que economizamos meses para comprar. No início, o truque funcionava rapidamente. Mas pouco tempo depois, as crianças pareciam saber que aquilo era apenas uma estratégia desesperada para que dormissem rapidamente, então passavam a ficar acordadas. Desistimos dos carros depois que minha mulher dormiu e as crianças permaneceram acordadas depois de 15 minutos de passeio lento e sonolento com o carro. Depois paramos definitivamente de usar o carro para fazer as crianças dormirem. Só muito tempo depois um amigo me falou que o melhor para fazer bebês dormirem é passear de elevador. Quanto mais alto o andar, melhor. Depois eles cresceram e perdi a conta das vezes em que carreguei ambos, alternadamente, do carro até o elevador e do elevador até a cama do menino ou da menina, quando voltávamos da casa dos avós, aos domingos.

terça-feira, 7 de maio de 2013

Vivendo e aprendendo



Love Unlimited - High steppin' hip dressin' fella

Existem dezenas de sites na internet que o ajudam a fazer uma storyboard. Na maioria é possível escolher os personagens, a locação, objetos de cena, vestuário, redimensionar qualquer coisa e colorir com mais cores do que existem numa caixa de lápis de cor. É um novo mundo maravilhoso, cheio de possibilidades criativas. E quem me ensinou tudo sobre isso foi minha filha de oito anos de idade.

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Pais e filhos



Foster The People - Waste

Meu filho deu um tapa no rosto de um dos seus melhores amigos na escola. Fiquei sabendo disso hoje, mas a coisa aconteceu há uma duas ou três semanas atrás. No início eu não quis acreditar. Isso não parece coisa dele. Ele é um pouco franzino e está mais para o tipo emburrado do que para o agressivo. Pensei que poderia ser uma informação trocada. Estou um pouco decepcionado com a escola, há sempre uma desculpa pra tudo e já estamos no terceiro professor deste semestre. E o novo professor era apenas o assistente de uma outra professora até poucos dias atrás. E a escola, como qualquer outra instituição brasileira, primeiro se defende atacando o cliente e depois espalha as responsabilidades entre os elos da estrutura. Mas ao conversarmos com meu filho veio a confirmação. Ele realmente agrediu o colega.

Coisa de criança, a gente diz. Ele teve a impressão de que o colega tentou derrubá-lo fazendo-o tropeçar e o acertou na cabeça, com um soco. No dia seguinte, o colega despejou cola em sua camisa, como vingança. Menos mal. O garoto é grandalhão, provocaria um estrago feio se resolvesse revidar com os punhos. Alguém da escola, ainda não descobri quem, entrou na história e os dois fizeram as pazes.

Quando ele nasceu, fiz como todos os homens de bem fazem, jurei para mim mesmo que seria um homem melhor. E um dia, quando meu filho era bem menor, eu me perguntei até quando ele ainda olharia para mim como se eu fosse o herói dos seus dias. E então renovei os votos de me tornar mais valoroso, alguém inspirador. Achei que eu ficaria desolado quando descobrisse nos seus olhos que eu não sei de tudo e todos os meus defeitos. Imaginei que poderia ganhar mais tempo, que talvez pudesse prolongar o seu jeito de me ver como uma espécie de super-herói sem poderes. Mas o que aconteceu foi que esse dia chegou faz tempo e eu nem mesmo tinha percebido.

Sem dramas. Os filhos se espelham em seus pais. Estou precisando dar uma polida em mim mesmo.


domingo, 5 de maio de 2013

A tal da felicidade



Bob Dylan - Don't Think Twice It's Alright

Todo mundo quer ser feliz, é uma mania planetária. Talvez até mesmo os aliens, se existirem, queiram ser felizes. E muito embora dezenas ou centenas de artigos, contos e livros já tenham sido escritos sobre como as pessoas encontraram a felicidade, nunca vi nada sobre como mantê-la. Eu deveria escrever um pequeno post com o modesto objetivo de tentar preencher essa lacuna, mas não tenho essa capacidade. Talvez seja apenas impossível manter a felicidade, pelo simples fato de que somos felizes quando não estamos infelizes ou entediados.

Essa é uma das principais dificuldades do tema: não existe uma definição clara sobre o que é felicidade. Com tantos milhões de versos, páginas, discos, livros, filmes, canções, óperas, etc, etc, etc, dedicados exclusivamente ao assunto, seria de se esperar que já houvesse, no mínimo, uma fórmula matemática para sua obtenção. Mas tudo o que temos são alguns versinhos, aceitamos de bom grado uma tautologia às avessas. A felicidade é não estar infeliz, é se libertar de sentimentos miseráveis, é espantar a tristeza.

Mesmo assim, se fosse fazer um post sobre o assunto, eu diria que a felicidade é como um bem precioso. É como um colar especial, uma jóia, um brinco. Não se pode ostentar felicidade. Alguém de olho grande fará com que você a perca, outra pessoa tentará arrancá-la de você. Por isso, talvez seja melhor esconder todas as migalhas felizes que pudermos obter numa cara de paisagem. É melhor disfarça-la de alguma outra coisa, desde que não seja um jogo de palavras. Tenho pouca paciência para jogos de palavras embora não desdenhe de trocadilhos. Isso. Talvez seja melhor esconder a felicidade detrás de um trocadilho, um assobio, uma piada sempre repetida. Mas é preciso ter bem claro que, por maior que seja, um dia todos os pequenos pedaços recolhidos desaparecerão

sábado, 4 de maio de 2013

O rancoroso Careca



Brenda Lee - Break it to me gently

Depois de anos observando a mim mesmo descobri que este ser humano aqui precisa dormir todas as noites exatamente seis horas e 15 minutos. Durante a semana, vou dormir disciplinadamente por volta da meia-noite, acordando às seis da manhã. Diariamente, isso acaba resultando numa carência residual de sono de cerca de 15 minutos, que procuro suprir aos sábados. Ultimamente, o resíduo de sono tem extrapolado um pouco o teto da meta, e venho me sentindo mais sonolento e cansado. Assim, aos sábados costumo dormir duas horas a mais, o que corrige o déficit de sono e ainda garante algum extra que posso vir a precisar durante a semana seguinte. Isso tem funcionado muito bem, mas caso eu sinta necessidade de uma prevenção extra de sono, só para enfrentar a semana mais tranquilo, aos domingos, na casa do Sogrão, costumo reservar pelo menos uma horinha depois do almoço para uma cochilada esparramado num sofá previamente reservado. Sim, é preciso fazer reserva porque existem dois co-cunhados que de vez em quando alegam ter o mesmo direito de soneca, o que é uma inverdade. Mesmo assim, só para garantir, sempre deixo escondido no sofá um celular programado para despertar lá pelas duas e meia, horário médio do fim de almoço. Assim que ele toca, a pretexto de atender o telefone, eu me abanco no sofá e só largo as almofadas com pelo menos uma hora de sono pré-ajustado. Engenhoso, né? Obrigado.

Neste sábado, entretanto, a minha rotina de acumular horas extras de sono preventivo foi subitamente alterada por uma imprevista fuga do Rafa, o cãozinho de estimação da minha filha. Rafa é muito dócil e só tem três manias desagradáveis: ele gosta de fazer xixi onde não pode quando acha que sua opinião não está sendo respeitada, ele morde quem resolve tomar à força o que ele está mastigando e, por último, mas não menos importante, o Rafa foge se você abrir o portão de casa. São fugas bestas, só até a terceira casa vizinha, onde existe uma enorme e felpuda cadela Ruskie. Sim, Rafa acredita que entre os cães ninguém se importa com esse negócio sobre o tamanho do documento. É um shi-tzu ingênuo, eu sei.

Em geral, não ligo para as fugas do Rafa, é só andar, sem pressa, até onde ele está e carregá-lo pra dentro. Só que hoje quem abriu o portão foi meu filho, que se despedia de um amigo da escola que dormiu aqui em casa. Cheguei um minuto depois e encontrei a porta da frente e o portão abertos. Imediatamente intuí o que havia acontecido. O cachorro fugira e meu filho saíra a perseguí-lo. Houvesse um adulto sensato por perto teria impedido o garoto de perseguir o cachorro ou pelo menos ajudado, mas o imbecil que é pai do menino que dormiu aqui não tem um pingo de noção, eu deveria saber. E, portanto, a responsabilidade foi minha, que autorizei o meu menino a abrir o portão para a saída do colega.

Atribuir responsabilidades e apontar culpados, no entanto, não resolve nenhum problema. Eu continuava com dois. Nenhum sinal do meu filho. Nenhum sinal do Rafa. Andei até a rua e forcei a vista nos dois sentidos. Nada. Contei até trinta para evitar o pânico total e absoluto. Em geral, o Rafa foge para cima, onde mora a Ruskie, eu pensei, e corri até o portão daquela casa. Nada dos dois. A taquicardia já me fazia suar frio. Eu já me preparava para correr até em casa e pegar minha filha. Meu plano era sair de carro com ela e esquadrinhar o quarteirão. Já estava entrando em casa aos berros quando olho para o alto da rua e meu filho está acabando de dobrar a esquina, carregando o Rafa nos braços.

A história foi essa mesmo: assim que o portão se abriu, Rafa disparou rua acima. Meu filho correu no seu encalço, enquanto o seu amigo entrava no carro do pai sem noção e se mandava, sem ajudar em nada, sem solidariedade e com a cara de pastel costumeira. E agora eu estou aqui, escrevendo esse post para me lembrar que sou um cara mesquinho mas que, apesar de tudo, não costumo guardar rancor. Mas nesse caso, guardarei.



sexta-feira, 3 de maio de 2013

O resmungão Careca



The Walkmen - Heaven

Rose está de férias. E com o problema da saída de água da máquina de lavar louça, não há outra solução, tenho que lavar pratos e talheres. Aqui em casa prevalece a velha regra: se eu cozinho, não lavo. Sim, existem poucos cacófatos tão bons. E é a minha mulher quem cozinha. Hoje, para não dizer que não falei de arroz, fiz um risoto de açafrão para o jantar, mas ninguém quis experimentar. Então não valeu, tive que encarar a louça.

Fazia um tempão que não pensava em limpar coisas e deixar tudo pronto e arrumado na cozinha. É bem verdade que procuro deixar a oficina sempre organizada e limpa, mas ela fica na área externa, é uma garagem aberta, não há como evitar poeira e folhas secas. De vez em quando uso o aspirador de pó ao contrário, soprando as folhas e a poeira para fora, lubrifico as ferramentas, passo uma mão de tinta no piso e nos armários ressecados pelo sol e vento. É mais fácil e rápido do que usar vassoura, pano de chão, detergente, rodo e sabão.

Ficar em casa ocupado com tarefas domésticas convencionais sempre me deixa um pouco deprimido. Com a oficina e o jardim é exatamente o oposto, fico animado e empolgado com os projetos. O trabalho com o uso de ferramentas exige atenção e foco no que se está fazendo, o que pode ser até relaxante. Mas limpeza, lixo e arrumação definitivamente não melhoram os meus dias. Isso me leva à introspecção melancólica e repisar coisas e fatos que, obviamente, não têm mais conserto. Como fico muito tempo sozinho, às vezes acabo falando comigo mesmo em voz, ou seja, desenvolvi o péssimo hábito de resmungar.

Não é nada muito elaborado, na maioria das vezes só digo uma palavra perdida e depois volto a me calar. Mas é resmungo, reconheço.



quinta-feira, 2 de maio de 2013

O efeito Koulechov



Ella Fitzgerald - Manhattan


No início do cinema, Koulechov fez um teste para observar como uma platéia reagiria a um determinado tipo de edição. Ele produziu três pequenas cenas e ao final de cada projeção, pediu para que o público comentasse a interpretação do ator em questão. Todas as cenas eram formadas pela mesma estrutura, uma cena curta, um corte seco, outra cena curta.

Na primeira edição, um prato de sopa era exibido e em seguida a projeção mostrava o rosto de um ator. Ao descrever a cena, os espectadores enfatizavam o olhar faminto do ator e como sua interpretação sugeria que estava com fome. “Que ótimo ator - diziam - ele dava mesmo a impressão de estar faminto.”

No segundo trecho editado, via-se uma menina numa mortalha branca com um ramo de flores, deitada num caixão. Em seguida, via-se o rosto do ator. A platéia descreveu o olhar do ator como triste e desolado, transmitindo a grande dor que parecia devastar o seu semblante. Emocionante e tocante foram adjetivos muito usados para qualificar o trabalho do ator.

No terceiro trecho, a tela mostrava uma bela mulher em pose lânguida sobre um divã e em seguida o rosto do ator. A platéia descreveu o olhar do ator como o de um homem apaixonado. Houve quem dissesse que o sujeito não conseguia esconder o desejo ardente que sentia pela mulher.

A cena do rosto do ator era exatamente a mesma nas diferentes projeções. Ao gravar a cena com o ator, Koulechov o instruiu especificamente para ser neutro, não lhe fornecendo qualquer pista sobre a montagem ou o teste que faria e muito menos para transparecer fome, luto ou luxúria. Fosse nos dias de hoje, Koulechov diria “faz cara de paisagem”.

Com o teste, Koulechov constatou que a platéia “viu” emoções na justaposição de imagens e atribuiu diferentes sentidos à inexistente expressão do rosto do ator por mera associação de imagens.

A partir daí, os teóricos da montagem cinematográfica foram mais longe. Eles perceberam rapidamente que não somente a justaposição era importante, mas que diferentes emoções poderiam ser despertadas a depender da forma como era feita a transição entre as diferentes tomadas de cenas. Anos depois, Hitchcock sintetizou tudo dizendo que a essência do cinema não era bem o “cutting” , era o “assembly”. “É como criar um mosaico num buraco vazio” – ele disse.

Vejo com tristeza que muitas pessoas acabam por acreditar na montagem que vem sendo exibida há anos. Nossas estradas e a infra-estrutura do país estão em frangalhos. Nosso cipoal jurídico continua embaraçoso. Os administradores do governo continuam a gastar muito e muito mal e os governantes estão longe de ver nisso um defeito. Além da corrupção endêmica que rouba muito dinheiro, nossas prioridades foram trocadas, entre outras, por gastos imensos com estádios irrelevantes, com setores que estão nascendo há 100 anos, com estradas que não ficam prontas, com metrôs que nunca funcionam e com transposições que acabam se perdendo em meio às secas. Premia-se o compadre, só quem se dá bem é o cupincha, há muito se perdeu a noção de mérito. Quase nada ou nada melhorou na educação, saúde e segurança pública, mesmo assim, uma porção de pessoas vem a público para cantarolar que beiramos a perfeição. O “assembly” dos poderosos continua a impor associações de idéias perniciosas e nefastas. Estamos muito longe de um final feliz.

quarta-feira, 1 de maio de 2013

O benefício do acaso



Stillwater Giants - Not Like The Others

Descobri que a saída de água da máquina de lavar louça não está ligada em lugar algum. Ela deveria estar conectada à caixa de gordura da casa, um dos serviços que pagamos para ser feito durante a reforma, antes da mudança do velho apê. Por alguma razão, o serviço foi pago, com a instalação de uma nova caixa de gordura, quebradeira, etc, mas a conexão não foi feita. É possível escutar a água correndo por baixo da caixa, deve haver um sumidouro qualquer no subsolo da casa. O problema exigirá a substituição da caixa, mais quebradeira, etc, não estou podendo. Então resolvemos deixar a máquina de lavar louça sem uso, só até ser possível consertar o que deveria ter sido feito há dois anos.

Todo mundo que eu conheço se queixa dos péssimos serviços prestados na construção civil. Ninguém, nem mesmo quem pagou super-hiper-caro, consegue contar uma história sem atropelos, sobrepreços, mancadas feias e erros exasperantes cometidos por pessoas físicas, grandes, pequenas e médias empresas. Amigos recomendam a prestação de queixa nos conselhos regionais de engenharia, outros falam em procurar o Procon. Mas confesso que tenho vontade de rir quando alguém menciona o Código de Defesa do Consumidor. Num país onde notórios prevaricadores caminham livremente o que pode esperar o consumidor? De que adianta? Os bons prestadores de serviços são inencontráveis. O jeito é confiar na sorte ou partir para o faça-você-mesmo.

Frase do dia


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