terça-feira, 31 de julho de 2012

Na falta do Simancol

Uma das coisas mais interessantes do julgamento do mensalão é esta história do ministro que não pode, mas que, pelo jeito, vai participar do processo. Ele não pode porque foi assessor jurídico do sujeito que é apontado como o chefe da quadrilha, porque foi advogado do partido e principalmente porque a mulher dele advoga para um ou vários dos processados. Qualquer um dos motivos já seria suficiente para que um ser humano bem formado, com escrúpulos e com um pingo de vergonha na cara já se declarasse impedido de ser juiz no caso. O que acontece é que isso é um impedimento previsto em lei e o mínimo que um ministro do supremo deveria saber é que esse impedimento existe, é claro e inequívoco. Mas como parece estar faltando simancol e sua excelência não se decide, decidi elaborar alguns breves discursos de impedimento que podem ser usados pelo ministro sem o menor problema:

_Pessoal, rapeize, tchurma, ó dó, não posso participar do julgamento porque já fui assessor de um dos caras. Era meu chefe. Ele pedia meu conselho para não fazer malfeito ilegal, então só fazia malfeito dentro da lei. Então, depois de examinar o meu foro íntimo eu descobri é melhor eu sair dessa numa boa. Bié.

Ou então:

_Companheiros, estou impedido de participar porque quando fui advogado do partido eu avisei várias vezes que esse negócio de caixa dois e dinheiro não-contabilizado era a mesma coisa. Eu falei que isso poderia dar cana. E vai que alguém gravou, como é que eu fico? Então, fui.

E ainda:

_Camaradas, ainda ontem à noite comentei com a minha mulher que hoje tomaria essa decisão. Ela até ligou para o cliente dela na sequência, ela é muito atenciosa com os clientes. Então, tem uma norma aí que diz que eu estou impedido, é melhor eu ficar na minha. Vai ser ótimo falar de outra coisa depois da novela. Inté.

Por outro lado, ia ser super-legal ver um ministro levar puxão de orelha do procurador-geral na frente dos pares.

Davey continua a dançar



"Walk Like an Egyptian" by The Bangles

segunda-feira, 30 de julho de 2012

O mundo é um moinho



Brian Ferry - Don´t stop the dance

Eu quase não assisto televisão. Não é esnobismo. Não é coisa de gente metida a intelectual. Não é despeito. Não é porque prefiro ver vídeos. É só porque tenho a maior preguiça de ver comercial. Mas hoje eu passei na frente da TV, que era assistida pela minha mulher, e vi esse sujeito de uma série de detetives norte-americana. O rosto do ator era alguma coisa sensacional. O sujeito emanava ceticismo e decepção, era um alumbramento negativo.

_Olha só para esse cara - eu disse para a minha mulher. Ela estava sozinha, é claro. Aqui em casa nós evitamos falar gírias perto das crianças.

_Hum-hum - confirmou a minha mulher.

_Ele parece que está desapontado com todo mundo, parece um daqueles cachorros sabujos. Olha só. O mundo me entedia. Eu levo uma vida chata. As pessoas me chateiam com suas mentiras nauseantes. Ninguém me surpreende. Todo mundo merece desprezo, inclusive eu. Eu não acredito em você. Eu não acredito em ninguém. Ponto.

_Ele é o chefe dos detetives e na série, a filha dele é uma prostituta, passou outro dia- disse a minha mulher.

_O mundo é um moinho. Esse cara perdeu mesmo todas as esperanças. Olha só o rosto dele!

O sujeito é um bocado careca. Tem profundas rugas na testa. Está sempre na penumbra.

_Hoje a detetive ruiva vai sair da série.

_Ela vai morrer?

_Não sei, acho que sim.

Acabei assistindo ao episódio inteiro. Não entendi muita coisa. Os nomes eram todos complicados. O ator de Cheers estava lá, de cabelos brancos. Caramba! Cheers. Como era o nome da atriz que contracenava com ele? Tinha umas sobrancelhas fantásticas. Era ruiva também. Bom, não importa. A trama parecia complicada demais porque era a segunda parte do episódio. E a detetive ruiva não morreu. Ela começou uma despedida depois que todos os vilões foram mortos ou presos, mas fiquei com preguiça de ver.

domingo, 29 de julho de 2012

Fim de mistério



Jethro Tull - "Too Old to Rock And Roll, Too Young to Die"

Um amigo me explicou para que serve aquele misterioso alicate que comprei há uns dez anos. É um alicate para desencapar fio elétrico. Também descobri que foi feito na China.

_É bem tosco, esse alicate - disse o meu amigo.

_Tem certeza? Ele tem trava, parafuso de regular altura e mais essas molas e coisas aqui - eu disse.

_Tenho certeza. Ele não deve funcionar muito bem, é bem primitivo.

Isso foi no sábado. Neste domingo, resolvi testar o alicate. Desencapou o fio, é verdade. Mas não funcionou muito bem. Tive que fazer muita força. É mais fácil usar um estilete.

Depois eu fui guardar o alicate. Deixo todas as minhas ferramentas trancadas, guardadas a sete chaves, atrás de trancas e cadeados. Durante anos protegi esse alicate com limpeza periódica, cuidados e mimos negados a outras máquinas e instrumentos. Era guardado em lugar nobre, ao lado de alicates produzidos na Alemanha, na Suíça, na companhia de ferramentas de boa estirpe.

Acabei deixando ele de fora.

sábado, 28 de julho de 2012

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Valente



Aloe Blacc - Good Things

Fomos todos ao Parque da Cidade no final da manhã. Levamos o Rafa, os skates, dois bambolês, uma bola de basquete e a comida. Perdemos um boné. Comemos cachorro quente e bifinhos de frango e peixe. Bebemos água de coco e guaraná. Levei um tombo de skate mas ninguém viu, só um guarda. Ainda bem que não me machuquei. O Rafa não pode entrar no Parque Ana Lídia, é proibido. Então eu tive a desculpa perfeita para ficar quieto depois do tombo. Fiquei lendo e desenhando. Depois que se cansaram do parque, as crianças queriam ir ao circo. Mas tomei birra com circo. Sugeri um cinema. Não houve jeito. Resolvemos sair do parque direto para o circo e já comprar as entradas. Na entrada do estacionamento fomos cercados pelos palhaços do circo. Acho palhaço de circo muito abusado. Os caras acham que só porque estão com a cara pintada e usando sapatos e roupas ridículas têm o direito de ser grosseiros com a gente. Um deles nem me esperou parar o carro para enfiar um monte de serpentinas e línguas de sogra nas mãos das crianças. Mandei as crianças devolverem e ainda paguei um sapo para o palhaço. Saco. Felizmente os caras da bilheteria também não souberam ser gentis com a minha mulher. Ela voltou chateada com a exigência de contracheque atualizado de professora no guichê. Com isso, eram dois votos para adiar a ida ao circo. Depois de muita negociação, as crianças toparam. Assistimos "Valente". Todas as mulheres no cinema choraram, é claro. Eu disfarcei bem. Estou cansado, cansado. Minha filha está mais feliz. Agora só falta "assistir peças infantis".

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Semana que vem as crianças voltam às aulas



Iva Lamkum - Raise Your Glass

Terminei o aparador gigante. Para reforçar a estrutura, usei quatro pedaços de barra roscada de 10 milímetros. Para enfiar cada pedaço em seu respectivo pilar, foi preciso furar e martelar. Depois ainda foi necessário usar a segueta para cortar a parte amassada da barra roscada. Funcionou. Mas não ficou bonito. Na verdade, o resultado ficou meio tosco, como se eu tivesse gastado apenas dez minutos para fazer tudo. Talvez ainda tente um remendo, não sei, talvez seja melhor deixar de lado por algum tempo para depois reavaliar com a cabeça fria.

Hoje não teve jeito, foi preciso trocar a bateria do carro. Quando voltei da oficina, minha filha me esperava com o seu pacote de férias. Sim, eu também estranhei. Trata-se de uma lista de coisas interessantes para se fazer nas férias e depois contar em sala de aula. Nós fizemos quase tudo: fomos ao cinema, reencontramos os amigos e também fizemos novas amizades, descobrimos coisas novas, visitamos o zoológico e guardamos lembranças de um monte de dias bacanas.

Estamos muito bem, é verdade, o pacote está quase completo. Mas ainda precisamos "assistir peças infantis" e "fazer um piquenique no parque da cidade".

_Paiê, nós temos que ir ao teatro! - disse a minha filha.

_Não, senhora, não temos - eu disse, bem sovina.

_Mas é uma tarefa pra escola, paiê.

_Nada disso. Aí diz que você precisa assistir a uma peça infantil, não é?

_É, ué.

_Pois então. Eu mesmo posso apresentar uma peça infantil pra você.

_Ah, paiê, se liga, você não é ator.

_Não sou ator? Não sou ator? Eu já fiz um monte de peças de teatro no meu tempo de escola.

_Deixa de inventar, paiê. Que peça você fez?

_Fiz um monte. Fiz o papel de zangão na peça A abelhinha feliz, conhece?... Pois então, é um clássico, essa peça. Também fiz o papel de macacão em "O burrinho tró-ló-ló.

_Ah, paiê, fala sério.

_Tudo bem, tudo bem. Mas a gente não precisa ir ao teatro, a gente pode brincar de fazer uma peça aqui mesmo, no quintal. Aliás, a gente poderia representar a peça "Piquenique no parque da cidade", assim já resolveríamos duas pendências de uma vez só, que tal?

_Não, paiê, claro que não.

Bom, de amanhã não escapo.

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Bom pra mim



The Soul Snatchers "Good to Me"

Houve uma época em que eu não me importava com marca de café. Realmente, não ligava a mínima para isso, até que um amigo da Bahia me deu uma máquina de fazer café expresso. Foi um presente e tanto, acompanhado de aula-demonstração e uma porção de cafés. Prestei bastante atenção às aulas e às degustações e até fiz alguns cafezinhos razoáveis.

Daí para achar que eu era o rei do café expresso foi um pulo, é claro. Só fui me dar conta do meu amadorismo quando outro amigo veio me visitar e desperdicei os dois últimos sachês que eu tinha naquele dia com um chafé miserável de aguado. Acabei passando café e vergonha com a máquina convencional. Depois descobri que estava usando uma forma errada, mas era tarde.

Depois desse fracasso, não toquei mais na máquina expresso, sempre peço para a minha a mulher. Mas desde que ganhei a máquina, passei a prestar atenção na marca do café. Presto uma atenção danada, mas acabo mesmo levando o mais em conta.

O carro não ligou hoje cedo. A bateria está morrendo, está nas últimas. O mês já está acabando, então vou segurar mais um pouco, esticar até o último dia, quem sabe, depois parcelar em um monte de vezes.

Nesta semana iniciei um novo aparador. Escolhi uma prancha(a última) de trinta centímetros de largura e três metros de comprimento que estava no fundo do quintal. A madeira estava um pouco rachada, um pouco amarelada e com um trecho inaproveitável. Tive que me desfazer de meio metro. Lixei todo o restante. Gastei a terça-feira preparando os quatro pés do aparador, que acabaram virando seis. Usei um pilar de três metros, de dez por dez centímetros, que funcionava como poste de luz da antiga casa de barcos. Cortei quatro pedaços de 70 centímetros.

Demorei um bocado para decidir como seria o encaixe dos pés. Cm uma furadeira fiz uns encaixes embutidos. Acertei a profundidade de dois centímetros com uma tupia. Acabei a montagem hoje, no início da noite. Ficou legal, mas é preciso reforçar a estrutura. A prancha é muito pesada e os pés também. Estou pensando em usar quatro pinos metálicos em cada pilar. Isso é ruim porque não há como esconder os pinos, e todo o trabalho de cavar os encaixes estará perdido. Ainda não sei como solucionar o problema. Mas uma vez, basta eu me achar para me perder.

terça-feira, 24 de julho de 2012

Três mulheres e o Mensalão



Kitty, Daisy & Lewis - 'Messing With My Life'

A Liberdade é bela. Sempre. Delacroix não teve dúvidas e a colocou guiando o povo com os peitos de fora no célebre quadro de 1830.  Cinqüenta anos depois a França presenteou os Estados Unidos com uma estátua da Liberdade inspirada naquela moça do quadro, só que mais vestida, mas ainda muito bonita, um mulherão.  Nós achamos tão bonita que pegamos seu rosto como efígie da nossa República. É o nosso bem maior e desde a proclamação está gravada nas nossas moedas e dinheiros.  Ela tem uma voz que se escuta até durante as lutas e tempestades e abre as asas sobre nós.  Para cantá-la se fizeram milhares de hinos.  Os políticos adoram a Liberdade que têm, que é bem maior que a minha e a sua.  Eles fazem questão de deixá-las bem felizes e exageradas, com silicone e viagens à Europa à custa dos cofres públicos, é claro.

 A Verdade não tem a mesma sorte da Liberdade.  Aparentemente, a Verdade nua e crua só pode ser horrível. Ela não tem rosto. Não tem cor. Ninguém sabe se cheira bem. Não se sabe se é grande, pequena, diminuta ou  enorme. Ninguém põe a mão no fogo por ela. Para evocá-la, homens e mulheres juram e perjuram sobre a Bíblia e a Constituição, depois dizem que estavam de dedos cruzados.  Ninguém a defende. Não me lembro de música nenhuma em sua homenagem. Nem do Chico. A Verdade quase sempre é um risco.  Deve ser por isso que a grande maioria dos políticos nem de leve a mencionam. Muitos nunca a viram, nem durante a campanha, é claro. 

Todos dizem que amam a Justiça, que é mulher de respeito, de espada no colo.  Mas isso é conversa, todos se aproveitam da mulher que é cega, coitada. Longe dos seus ouvidos, os homens e as mulheres a traem. Com o tempo, ciumenta que é, a Justiça passa a desconfiar de todas. Mas sem a Verdade, a Justiça, vira uma chifruda enlouquecida que só pensa em auxílio-paletó, mordomias e em viajar para a Europa para intercâmbios. Com a Verdade, que seja dita, nossa Justiça também não faz muita coisa, estamos cheios de histórias tristes e trágicas por aí. Os políticos adoram a Justiça, desde que ela lhes seja favorável, é claro. 

E então apareceu Mensalão, o bem dotado.

Passados sete anos, o Mensalão ainda é bicho-papão para muitos políticos do país. Mas ainda que a Justiça faça alguma coisa, Verdade seja dita, não vai se mudar nada. Essa turma nunca vai perder a Liberdade.  
 

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Segunda-feira eu me sinto velho



Ladi6 - "Like Water"

Pela manhã eu torci para que o carro pegasse de primeira e ele pegou. Comecei bem o dia, eu pensei. Então me mantive inabalável. As crianças pediram panquecas para a minha mulher e comeram tudo rapidinho. A comida do Rafa acabou. Lutei e venci o desânimo que sempre me atormenta às segundas-feiras e tratei de por mãos à obra. Fui para o quintal, cuidar das coisas, olhar a horta, cortar e lixar madeira. Fez um dia bonito.

Estou em casa, eu pensei. Não posso ficar parado, preciso fazer alguma coisa. Então corri para o computador e fiquei escrevendo durante horas e horas. Mas nada fez muito sentido, ruminei coisas bovinamente e me distraí.

Eu encontro um livro que ensina a fazer mil sanduíches diferentes. Eu encontro um livro que ensina a fabricar uma espada japonesa. Keri Smith fez 42 anos. Vejo no Youtube a dança da atleta australiana dos cem metros com barreiras. Vejo no Facebook uma foto do meu amigo Velho Tom debaixo de uma árvore. Ele ainda tinha cabelos compridos e usava uma barba grande na época. Visito um blog que me dá a dica de um vídeo hilário de Jerry Seinfeld e Larry David andando de fusca e tomando café. É extraordinário como os dois irradiam uma alegria enorme conversando sobre nada. Não é apenas talento. É quase um superpoder.

Fico pensando longamente sobre o que eu pensava quando era bem mais jovem. Houve um tempo em que eu também queria fazer as coisas se moverem apenas com a força do pensamento. Hoje em dia ficaria feliz se tivesse força para conseguir encher uma folha de papel. Às vezes acho que realizei um monte de sonhos. Tenho certeza também de que deixei um monte deles para depois e que muitos desses não vingarão. Mas quem pode saber o dia de amanhã? Já estive pior? Eu me pergunto muitas vezes as mesmas perguntas.

Passados tantos anos, quem eu ainda admiro? Meus pais, minha mulher, meus irmãos, alguns familiares e amigos. Também incluo na lista alguns escritores, pintores e músicos. Quem você colocaria em primeiro lugar na lista de pessoas que você detesta? Às vezes eu acho uma canalhice escrever perguntas retóricas. Outras vezes simplesmente admito que não há como fugir delas.

As crianças passaram o dia mergulhadas nos dois episódios finais de Harry Potter. Desgrudaram da tela e ficaram irritadas quando souberam que o jantar seria sopa. Não. Cassoulé. Elas mudaram de idéia porque estava uma delícia. Antes de dormir eu brinco de lutar judô com os dois, treinando imobilizações. Eles detestam a minha chave de dedão do pé. Antes de dormir querem a leitura de mais um capítulo de um dos livros do Harry Potter.

Estou cansado. Em todas as segundas eu me sinto velho.



Conte os dias



Joss Stone - Count The Days

Fiquei sabendo lá no Gravetos e Berlotas que a grande diva lançou novo disco. Corri para o Youtube e lá estava Joss Stone. Por enquanto, essa é a minha preferida.

STF: uma história marcada pela subserviência

O Prof. Villa recorda o histórico de subserviência do nosso Supremo.

domingo, 22 de julho de 2012

Aos domingos



Jully Black - Seven Day Fool

As crianças gostam de acordar cedo aos sábados e domingos. É para brincar mais tempo. Eu acordo quase sempre no mesmo horário, é uma questão biológica. Gosto de começar o dia varrendo a varanda, coberta de folhas e flores do flamboyant e das outras plantas da pérgula. Não é preciosismo. Durante o dia ocorrem algumas rajadas de vento. Sem a varrição, tudo acaba no fundo da piscina, o que é bem mais difícil de limpar. Depois de varrer, vou ao fundo do quintal para aguar os quatro canteiros da pequena horta. Temos alfaces, cebolinha, cenoura, tomate, pimenta, manjericão e um canteiro exclusivo para as couves. Aproveito para molhar um pouco as plantas da cerca(framboesa, maracujá e xuxu), o pé de limão-china(ou cravo)e a jabuticabeira. Os brotos das flores da jabuticaba já começaram a surgir, prenúncio de mais uma grande safra. Depois de molhar as plantas, dou comida e água para o Rafa. Ele é exigente. Tenho que lavar as tijelas antes de colocar novo alimento. Do contrário, ele se afasta sem se alimentar. Quando as aulas recomeçarem, voltarei a caminhar com o Rafa pelo quarteirão.

Aos domingos não podemos demorar muito para nos aprontar, pois as crianças fazem equitação. É um luxo, é claro. Elas adoram e sempre ficam muito contentes depois de cavalgar. Vamos todos juntos para a hípica. Um dia ainda vou ceder à vontade de montar também, mas por enquanto eu e a minha mulher esperamos pacientemente pelo retorno da dupla. É um lugar agradável. Aproveitamos o tempo para ler. Também uso o tempo para desenhar. Isso sempre atrai a atenção de outras crianças ou até mesmo de adultos. Ficam sempre curiosas com o que posso estar desenhando. Em geral não tenho uma idéia pré-concebida. Desenho o que me dá na telha. Um arbusto. Um cavalo. Uma pena. Um brinquedo. Um rosto. Um sapato. Qualquer coisa. Às vezes levamos o Rafa, ele gosta de passear por lá e não tem medo dos cavalos.

O passeio na hípica pode ser um pouco chato, porque existem alto-falantes no local e o DJ adora música sertaneja brega pop universitário, qualquer porcaria assim. Mas algumas vezes o DJ não vai, o que é uma delícia. Nesses dias, você escuta os cavalos galopando, o som abafado das patas batendo no chão. Há sempre alguém saltando obstáculos, treinando pesado para as competições. E tombos também. Mas raramente alguém se machuca.

Hoje chuviscou um pouco e por isso as crianças foram ao picadeiro, um grande retângulo coberto com chão de saibro e serragem. Já sabem os nomes de muitos cavalos, têm suas preferências, comentam orgulhosos que estão trotando e até galopando. Depois fomos embora, para a casa dos avós.

Aos domingos nós gostamos de encontrar as pessoas da família, de colocar as novidades em dia, de rir um pouco, de experimentar a caipirinha, de aproveitar a cerveja gelada e a boa companhia. Mas também falamos da estupidez, das arbitrariedades e injustiças dos poderosos. Estamos à mercê de pessoas escrotas, infelizmente. E então nós agradecemos pelo alimento recebido e por estarmos juntos e em paz, desejando o bem para os que nos cercam. E depois disso sempre acontece muita coisa, mas eu não fico sabendo, porque vou cochilar um pouco. Gosto muito dos domingos.

sábado, 21 de julho de 2012

Pelo andar da carruagem



Nicole Willis and Soul Investigators - No One's Gonna LOve You

Uma das expressões mais usadas aqui em casa é a famosíssima "Pelo Andar da Carruagem". Não sei vocês, mas nós falamos assim mesmo, com maiúsculas antes de cada palavra, que é para acentuar a pompa da expressão. O significado é um pouco intangível, é sobre a possibilidade de uma coisa dar errado mesmo que se faça uma grande força para que dê tudo certo. Mas não é nada científico, está mais para um chute bem dado. Hoje, por exemplo, lembro da expressão ter sido usada ainda pela manhã, quando tentei ligar o carro para ir até a padaria e o motor ranhetou.

_Seu carro pifou de novo? - disse a minha mulher.

Eu não disse nada, é claro. Nós gostamos de fazer perguntas retóricas nas manhãs de sábado. E todo mundo sabe que não é preciso responder pergunta retórica. E nas manhãs de sábado, ninguém merece pergunta retórica.

_E aí, seu carro estragou? - disse a minha mulher.

Bom, não era uma pergunta retórica, mas às vezes é melhor não responder a pergunta nenhuma quando se está irritado porque o carro não liga.

_Ele está meio indisposto - eu disse.

_Seu carro está meio indisposto? - disse ela.

_Caramba, estamos com um eco aqui em casa! - eu pensei em dizer. Mas não disse, é claro. Fiquei sem falar nada.

_Xii, Pelo Andar da Carruagem hoje vai ser o bicho! - disse a minha mulher.

Mas nem foi tanto. Eu peguei o carro da minha mulher emprestado e fui à padaria. Tinha fila saindo porta afora. Então fui ao supermercado, que fica ao lado e que também vende pão. Estacionei na parte de trás, ao lado de dois outros carros. Ao passar pelo caixa o sistema do cartão estava fora do ar. Tive que esperar numa fila para usar o cartão em outra máquina. Quando voltei o carro estava cercado por três caminhões de mercadorias, não havia saída. Com calma e método, enfiei a mão na buzina até que atraí a atenção de um dos transportadores, um sujeito que era um pouco mais franzino que Lou Ferrigno.

_Quer sair? - ele disse. Tinha uma voz surpreendentemente fina. Acho que voz fina é truque de lutador de jiu-jitsu.

_Não, eu quero ficar e criar raízes - eu disse.

_Ah, pensei que quisesse sair - disse o halterofilista.

_Não, eu gosto de ver o mundo entre caminhões - eu disse.

_Tem certeza de que não quer sair?

_Absoluta. Aqui é um ótimo lugar, é bacana, por isso está cercado.

_Você tem senso de humor, isso é bom. Quando quiser sair buzine.

Fiquei cinco minutos buzinando até o incrível Hulk voltar.

_Mudou de idéia? - ele disse.

_É temporário. Prometo que eu volto assim que puder.

_Pelo andar da carruagem, duvido que você volte hoje - disse o sujeito.

É uma expressão muito usada mesmo.

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Os peixes congelados do leão



Nicole Willis and the Soul Investigators - If This Aint Love Dont Know What Is

Um amigo me conta que a turma do leão o convocou a quitar um débito de seis anos. As pessoas costumam guardar comprovantes por cinco anos, mas esse meu amigo é precavido, tem arquivos de dez anos. Foi checar e confirmou. O débito já havia sido pago há seis anos. Tirou cópia do comprovante e foi para a convocação. Alguém lhe disse para ir de casaco e que levasse um livro. Sábio conselho. Chegou cinco minutos antes da hora marcada. A antesala estava com o ar condicionado ao máximo. O casaco era de couro, forrado. Abriu o livro e esperou. Era um bom livro. Três horas depois a porta da sala onde seria recebido se abriu. Uma mulher berrou o seu nome e ele foi até lá. Não houve pedido de desculpas pelo atraso, nem mesmo um olhar constrangido. Era apenas uma burocrata fazendo o seu serviço escroto.

_Trouxe o comprovante? - disse a mulher, absorta na tela do computador.

_Está aqui.

A mulher puxou o comprovante, uma cópia autenticada em cartório, e apertou os olhos para a tela do computador. Ela apertou ENTER e lhe estendeu a folha de volta.

_Já pode ir - disse a mulher.

_Está tudo certo? A convocação dizia que se eu não comparecesse hoje teria que pagar uma multa muito pesada.

_Já pode ir. Foi um erro do sistema.

_Foi um erro bem grande. Perdi a manhã inteira por conta desse erro.

_Mas agora está tudo bem, já pode ir embora.

_Esperei três horas lá fora, no maior frio. Ainda bem que uma amiga me disse para vir de casaco. Se tivesse um aquário na antesala vocês congelariam os peixes. Eu não vou receber um comprovante? - disse o meu amigo.

_Que comprovante? Não, não precisa de comprovante - disse a mulher.

_Preciso, sim. Preciso de uma declaração de que compareci aqui na hora marcada, de que fui atendido três horas depois, que apresentei o comprovante de quitação de débitos e que esclareci o que precisava ser esclarecido.

_Não, não precisa de nada disso. Já pode ir embora.

_Também preciso de uma declaração de que minha convocação aconteceu por erro do sistema.

_O senhor está insistindo à tôa. Já coloquei a informação no sistema. Não precisa de nada disso.

_Faço questão da declaração e tenho direito a ela. Vai que o sistema dá novo erro e eu tenho que voltar aqui novamente para mostrar que paguei o que já tinha pago.

_Isso não vai acontecer, o senhor já pode ir embora.

_Mas já aconteceu uma vez. E tenho direito a uma declaração de que compareci e entreguei uma cópia do comprovante de quitação de débitos. Ah, cópia devidamente autenticada em cartório, conforme o original.

_Tudo bem, eu faço uma declaração de punho.

_Com carimbo?

_Eu não tenho carimbo.

_Então pegue com seu chefe, só saio daqui com uma declaração assinada e devidamente carimbada...

Bom, ele só parou quando a mulher o ameaçou de prisão.

quinta-feira, 19 de julho de 2012

O tempo quando estamos em casa



Third Coast Kings - Summalove

Tirando a falta de dinheiro, ficar em casa é muito, muito legal, sempre gostei. Mesmo quando morava em apartamento eu era um tipo caseiro. Não é que eu seja uma pessoa acomodada ou não goste de sair. Eu simplesmente gosto de ficar em casa. Não me sinto mal se não saio de casa. Não fico contando os minutos para sair de casa. Não faço planos para sair de casa. Eu saio quando é preciso e volto rápido, é isso aí.

Algumas pessoas parecem se sentir incomodadas pelo fato de eu estar em casa. Eu mesmo fico incomodado. Mas é uma coisa passageira, eu vivo dizendo para mim mesmo, mesmo quando faço as contas e vejo que já estou há muito tempo em casa.

Existem muitas coisas excelentes que só descobri porque estou há muito tempo em casa, eu vivo dizendo para mim mesmo, mas às vezes nem eu acredito. Às vezes eu penso que isso é terrível, que eu deveria estar fazendo alguma coisa, qualquer coisa, fora de casa. Então penso em alguma coisa, um projeto pequeno, e vou para a oficina, lixo uma madeira, monto uma bandeja, corto umas tábuas. Nessas horas fico envolto numa nuvem de serragem, o barulho das máquinas que uso ampliam a sensação de isolamento, é uma beleza. Não posso me descuidar nesses momentos, é preciso atenção total para evitar acidentes. Uso luvas, máscara, um avental de couro para proteger o corpo.

Estou imerso numa atividade nobre, moldo, monto, fabrico e dou perfeito acabamento ao que minha mente planeja. Aos meus olhos, encontro a minha redenção. Sou um sujeito útil. Sei fazer coisas. Tenho habilidades. Quem sabe o que o futuro nos reserva?

Tééééééémm. A campainha me desperta dos devaneios. Às vezes é um carteiro. O sujeito que olha o relógio da energia elétrica. O piscineiro. O sujeito que olha o relógio da água. Os caras que vivem oferecendo gás. Os caras que entregam cartões de manutenção dos portões de garagem. Os sujeitos que não dizem nada e enfiam montes de cartões de prestadores de serviços de uma só vez, dentro da sua caixa de correio. Gente pedindo ajuda pra comprar remédio. Gente pedindo ajuda para comprar comida. Gente pedindo comida. Gente pedindo água. E gente fazendo pesquisa.

_O senhor poderia responder a uma pesquisa?

_Não. Estou ocupado. Não tenho tempo, lamento - eu sempre digo.

_São apenas cinco minutos.

_Não.

São meus cinco minutos, tenho vontade de dizer, com raiva. Parece que o tempo anda ainda mais rápido quando estamos em casa.





Nossos vilões ainda são os mesmos



Morcheeba - Rome Wasn't Built In A Day

Peço desculpas à minha kombi de leitores pela ausência inexplicada de posts nos últimos dias. Foi mal. Estive envolvido com algumas pequenas soluções para coisas pendentes aqui de casa. A principal delas é o jardim. Também fiz três pequenas bandejas de madeira para treinar três tipos diferentes de junção: fresa, biscuit e pinos. A união de partes sem uso de cola(ou com o mínimo dela), pregos ou parafusos é uma das coisas mais divertidas e difíceis do trabalho com madeira. O biscuit é um pequeno disco ou retângulo de madeira colocado para reforçar as junções de madeira. Fica bonito nas quinas. Minha tentativa-treino não funcionou muito bem, acabei optando por uma fresa. Fiz também uma caixa um pouco comprida que dei de presente para minha filha. Ela pretende pintar de branco com um grande, mas grande mesmo, coração vermelho por cima. Dentro, ela pretende colocar os materiais de costura que ganhou de presente da mãe. As duas foram num armarinho numa das saídas especiais só de meninas para escolher linhas, dedal, agulhas e as coisas de costurar. Enquanto fazia as coisas, fiquei pensando nos eternos vilões das nossas vidas brasileiras.


domingo, 15 de julho de 2012

Domingo, dia 15 de julho



Morcheeba - The Sea

Meu carro não funcionou novamente, na manhã deste domingo. É a bateria. Usei os cabos para conectar a bateria de um outro carro, mas não deu certo. Depois do almoço, com a ajuda do meu irmão e de um sobrinho, consegui fazer o carro pegar no tranco, na segunda marcha. Depois andei meia hora para tentar carregar. Aproveitei para localizar uma loja onde se vende baterias. Encontrei uma não muito distante, mas no domingo está tudo fechado, só amanhã conseguirei providenciar uma bateria nova.

Nesse meio tempo, um outro sobrinho, que tem a mesma idade da minha filha, teve uma crise alérgica. A capital brasileira continua com o célebre problema da falta de pediatras nos hospitais. É lógico que o problema não é só daqui, mas esta é a capital do país, onde as coisas deveriam ser modelares. Infelizmente, não é. Se é pelos cuidados com as crianças e famílias que devemos medir o desenvolvimento de um país, então estamos mal, muito mal.

Moro na parte norte da capital. Em Brasília, existem dois setores hospitalares, um no final da Asa Sul e outro ao final da Asa Norte. Em ambos existem avisos de que não existem pediatras. Nos hospitais privados, o atendimento para as crianças só é feito nas emergências, após longa espera.

Não sei qual é a solução para o problema. Mas os hospitais funcionam mal e porcamente há muitos anos. E nos últimos tempos, a coisa só vem piorando. Nos hospitais públicos, o problema é insano, as condições são insalubres. Acho uma indecência o atual governo do distrito federal gastar um bilhão de reais numa porcaria de estádio de futebol e continuarmos com um péssimo, caro, burro e ineficiente sistema de saúde. Na minha opinião, o governo que torra tão mal os recursos públicos não merece nenhuma aprovação. E se esse mesmo governo também falha miseravelmente no que se refere à educação, à segurança e à promoção do bem-estar público, também não pode ser apoiado, deve ser reprovado.

sexta-feira, 13 de julho de 2012

O pona e o PIB



Nirvana - Dumb

Quando eu jogava bola de gude, coisa que fez minha alegria durante alguns anos no interior, às vezes era vantajoso jogar por último. A brincadeira começava com os jogadores tentando tirar uma bola grande de dentro de um círculo traçado no chão. Não bastava acertar a bola no centro do círculo, era preciso fazer isso com a força adequada para remover a bolona(que tinha um nome específico que me escapa) de lá. Quase sempre, as bolas dos primeiros a jogar ficavam em volta da bolona, dentro do círculo. Vencia o jogo quem conseguia tirar o maior número de bolas de gude de dentro de um círculo. Quem jogava por último, caso todos os jogadores anteriores fossem ruins, teoricamente levava vantagem por ter mais bolas de gude para tirar do círculo.

Para jogar finca, era o contrário. A finca era um prego sem cabeça ou um pedaço de metal limado, com ponta fina. A brincadeira consistia em seguir um caminho entre dois pontos procurando cercar o adversário. Era proibido cruzar uma linha por cima. Mas era permitido o uso do subterrâneo, desde que a finca não caísse e nem esburacasse demais o terreno. O primeiro a jogar é que tinha mais chances de ganhar o jogo, pois jogava em terreno limpo e sem marcas. Se errasse, no entanto, seria suplantado rapidamente pelo segundo colocado.

Por isso, para jogar finca, o importante era gritar "primeira, meira". Para jogar bola de gude, às vezes era bom gritar "pona, eu sou pona", e na base do grito, a primeira ou a última colocação era conquistada junto à criançada. Se houvesse alguma disputa de posições, ela poderia ainda ser discutida e decidida no braço, pela força.

Lembrei dessas coisas, não sei bem o motivo, depois de ouvir uma declaração da presidente sobre o PIB. A declaração me pareceu meio infantil, como uma disputa de posições entre crianças, uma tentativa de ganhar na base do grito.

Há nove anos, quando começou esse ciclo administrativo, uma das primeiras coisas que fizeram foi alterar toda a sistemática de cálculos e estatísticas do principal instituto do país. Em colunas alvissareiras, os economistas de plantão aplaudiram as mudanças, rasgando elogios para a correção das medidas adotadas. Agora, passados tantos anos, a presidente expressa insatisfação com a metodologia do cálculo. Ela não acha interessante que a riqueza seja medida em termos de PIB, mas pela assistência das crianças e famílias.

Nossos economistas de plantão não se manifestaram, o que é uma pena. Eu, na minha mais modesta opinião, acho que se vamos começar a medir a riqueza das nações pelo tratamento dispensado às famílias e as crianças, verdade seja dita, estamos mesmo condenados ao últimos lugares. Pois aqui todos nós somos muito maltratados, principalmente pelo governo.

Para mim, a presidente acaba de gritar "pona!". Para completar o malfeito, deveria também mudar o slogan do governo, alterando o que é muito ruim para o que é pior.

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Patins no gelo



Wolfmother - Joker and the Thief

Um terço do mês já se passou e não fiz nem um quinto das coisas que pretendia fazer. É bem verdade que as crianças estão de férias e é preciso aproveitar o tempo livre com elas. Hoje elas foram patinar no gelo, na pista de patinação que fizeram no shopping. Fomos pela manhã, quase na hora do almoço. A pista estava quase vazia. Minha filha já tinha um certo domínio dos patins, mas o meu menino não parava de cair. É muito atirado, quer ir depressa demais. Deve ter caído uma vez a cada 30 segundos. Os instrutores no início ainda se revezavam para socorrê-lo, mas depois se cansaram. Minha filha caiu pouco. Meu sobrinho, que também foi com a gente, se arriscou pouco e também quase não caiu.

Sou muito ruim com patins. Minha mulher é ótima. Mas não arriscamos. A última vez que andei de patins bati com os joelhos no chão, foi um horror. Minha mulher tem boas lembranças da patinação.

Depois da patinação, almoçamos e passeamos um pouco. Entrei numa livraria e não quis comprar nenhum livro. Tenho lido pouco, o que é muito ruim.

Mesmo depois de tantos tombos, ou por causa deles, as crianças querem voltar ao shopping para patinar.

terça-feira, 10 de julho de 2012

Quem não deve, teme



Tame Impala - Alter Ego

Um dos ditados mais idiotas que existem, na minha modesta opinião, é o "Quem não deve, não teme". É exatamente o contrário no país da impunidade. Aqui, no cipoal legal que nos enreda e confunde, é mais prudente se precaver e temer a todo instante. Sempre pode surgir um fiscal de alguma coisa de trás de alguma moita para lhe exibir uma falta qualquer, acompanhada de multa e acessórios.

Dizem que vivemos no Estado de direito, mas convenhamos, aqui alguns podem mais que a grande maioria. E o que é pior, fazem e acontecem ao arrepio da lei e fica por isso mesmo. Alguns desses debochados ainda têm a cara de pau de se dizerem perseguidos, veja só. Não sossegam nem com merecidas bengaladas na cabeça e continuam com suas maquinações esdrúxulas.

Veja essa lei da transparência, por exemplo. Pode até ter sido criada com a melhor das intenções, mas a coisa está pegando onde é mais irrelevante, que é a publicação nominal e individualizada de quanto ganha cada servidor público. Se o fulano ganha tanto ou mais que o limite legal, cumpre ao empregador não pagar. Publicar o nome dele numa lista é apenas uma medida para constrangê-lo publicamente, para exibi-lo a uma possível execração ou facilitar achaques e outras malfeitorias.

Você não concorda? Bom, se alguém que você não conhece ligasse para a sua casa e perguntasse quanto você ganha por mês, acho que você não iria gostar de dizer. Mas é isso que está sendo sugerido para os servidores públicos. E pior, eles não podem bater o telefone no desaforado. São obrigados a responder ou a aceitar que respondam por ele, informando nome e valor da remuneração mensal. Daí para cruzamento de dados com CPF, CEP, telefone e horas vagas é só um pulo.

Como você, eu também acho que o que pago de impostos não está sendo bem retribuído em serviços e infra-estrutura. E também acho que os servidores públicos poderiam prestar contas ao público sobre o trabalho que desenvolvem, sem exibir os contracheques. Nos estrangeiros, o que vigora é o conceito de "accountability", mais abrangente e alinhado com a proposta de fiscalização pública do que a transparência do contracheque.

P.S.: Ao que tudo indica, Demóstenes Torres será imolado nesta quarta-feira. Li o discurso que fez para um plenário vazio e lembrei da velha fábula do lobo e do cordeiro. Algumas vezes e contra algumas coisas, não adianta ter bons argumentos.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Escorpiões no coqueiro



Phoenix - Rome

Minha mãe me conta que o jardineiro encontrou escorpiões no alto de um dos coqueiros da casa dela.

_Mãe, essa é a primeira vez que eu escuto uma coisa dessas. Já ouvi falar de jabuti em árvore. Mas escorpiões no coqueiro? Tem certeza?

Ela tem certeza, é claro. Fui até lá para conferir.

Encontrei o coqueiro, que fica ao lago do canil. Vi um monte de folhas cortadas no chão. Minha mãe trouxe um vidro grande, cheio de escorpiões pretos mergulhados em álcool para me provar o dito.

_O jardineiro disse que os escorpiões ficavam na base da folha, colados no tronco. Pode ser que ainda tenha algum ali em cima. Você quer ver?

_Neim. Morro de medo de escorpião. Pra mim, a senhora falou, tá falado!

A gente acha que já viu de tudo, que sabe de tudo e nada nos surpreende. Pura besteira. Por via das dúvidas, examinei cuidadosamente os coqueiros lá de casa. Felizmente, não vi nenhum escorpião.

domingo, 8 de julho de 2012

O Século Vinte e Um



Robbie Williams - Supreme

Não me lembro mais como chegamos a esse assunto. Mas falávamos desse sujeito que apareceu no jornal da cidade depois de ter sido acusado do crime de racismo. De acordo com o jornal, ele teria furado a fila do cinema e xingado a mulher do caixa ao não ser atendido. O jornal estampou a foto do sujeito e também da vítima. Fizeram o maior escarcéu. Ao que parece, o cara acusado de racismo é um profissional da área de saúde, com um certo reconhecimento profissional, blá, blá, blá. Foi então que o Cabeça disse o apelido do sujeito.

_É o Século Vinte - ele disse.

De acordo com o Cabeça, muito antes de aparecer no jornal por causa de xingamentos racistas o sujeito ficou conhecido pelo apelido de Século Vinte. Isso aconteceu depois de ter sido flagrado sendo sodomizado numa das salas do estabelecimento de saúde onde trabalhava. Ainda com a porta escancarada, cercado por enfermeiras, médicos e pacientes escandalizados, enquanto puxava a calça e a ajeitava na cintura, o herói falava:

_Gente, o que é isso? Não tem nada demais, gente! Estamos no século vinte! Século Vinte!

O apelido pegou na hora, é claro. Mas o sujeito não deixa de ter certa razão. A diferença é que no século vinte e um quase nada nos escandaliza.




sábado, 7 de julho de 2012

O Careca e a Suíça



Robbie Williams - Radio

Terminei o recamier/banco de ripas. Só o que precisava era de uma broca nova. A velha estava desgastada e demorava demais a concluir os furos. Foi só trocar que fiz todos os furos em 15 minutos. Usei a barra roscada 3/8 para unir as 9 travas de ipê. Para apertar bem, usei pequenos pedaços de madeira como espaçadores entre as travas.

Não consegui um alinhamento total, eu sabia que não teria jeito, já que todas as travas eram de espessuras diferentes e usei uma furadeira na mão, não foi de bancada. Desse jeito, por maior que seja o cuidado na marcação dos pontos de furos, na hora "h" a máquina sempre desliza um pouco. Com dezenove furos de cada lado, no final a diferença é expressiva, foi preciso bater forte na barra roscada.

Depois de ter os dois lados bem unidos e a seco, apertei umas porcas de segurança nas extremidades. Tinha comprado as porcas no ano passado para outra coisa que acabei não fazendo. Fiz o acabamento em cera depois do almoço. Gostei do resultado.

Queria ser perfeccionista, mas não sou. Tenho a maior pressa em terminar as coisas, o que muitas vezes compromete a qualidade, eu sei. Mas sei também que o meu entusiasmo é curto, gosto de emendar um projeto no outro, enquanto estou no pique. Muitas vezes errei por excesso de cuidados, uma vez estraguei um desenho bacana porque fui apagar uma coisinha de nada e borrei um grande pedaço do desenho. Nessas horas me sinto bem Larry King, uma coisinha besta à tôa gera uma consequência desastrosa. Isso também acontece com os textos, é claro. Nunca sei a hora de parar e às vezes acabo indo para umas direções esquisitas, então volto tudo e apago. O melhor é começar do zero, pelo menos para mim.

Uma pessoa muito inteligente disse que é um clichê de pseudo-artista dizer que o maior defeito é ser perfeccionista e que perfeccionismo não é defeito. Há controvérsias. É possível até argumentar que o perfeccionista perde muito tempo com preparativos e organização, mas mesmo isso é questionável. A verdade é que os preparativos e a organização são partes essenciais de qualquer projeto. E a mais pura verdade é que, sendo defeito ou qualidade, eu gostaria de ser perfeccionista.

Em primeiro lugar, isso fica super-bem em legenda de foto. "Fulano de tal, o perfeccionista, comemora a grana preta na conta bancária". Lindo, né? Ou então, "Careca brinda a chegada de 2013 na Torre Eiffel". Nem precisa dizer que isso seria perfeito, né?

Em segundo lugar, bom, não tem segundo lugar. Perfeccionista que se preza não admite o segundo lugar, detesta o terceiro lugar e morre de raiva da quarta colocação.

De qualquer forma, qual seria o antônimo de perfeccionista? O google traz relaxado como primeiro resultado. Relaxado? Felizmente ou infelizmente não me sinto relaxado, nem acomodado e nem satisfeito. Mas também não me sinto o contrário de nada disso. Estou neutro. Mas sem apatia. Como a Suíça.

É o feijão, estúpido!


O governo comprova a eficácia das suas políticas: já importamos feijão da China.

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Não cruze os dedos agora, por favor




Beethoven: "für Elise"

Não é só em mim. Eu também fico procurando personagens nas pessoas. Às vezes me pego olhando para um tipo qualquer tentando adivinhar o que ele está pensando, como foi o seu dia até aquele instante. A moça que errou o troco na padaria, por exemplo. Como será que ela fez para chegar no trabalho com a greve de ônibus? Ela se levantou a que horas? Percebi que ela se enganou e me deu o troco a mais. Mas não sorriu quando devolvi o excedente. Ela daria um bom personagem? Não, é claro, quem se importa com a moça do caixa da padaria? Ela não é bonita, nem nada. E nem sorri quando lhe devolvemos o troco errado. Seria preciso que algo extraordinário acontecesse à moça do caixa da padaria. Ou talvez algo já tivesse acontecido. Quem liga?

O moço que entrega o gás seria um bom personagem? Ele dirige uma espécie de mini-kombi, carrega seis botijões pequenos. Na frente do carrinho parece que só cabe o motorista. Um cd toca Pour Elise, de Beethoven. Meu filho disse que essa é a música que ele mais escutou na vida. Talvez seja verdade, os carros de gás passam todos os dias, diversas vezes ao dia. Todos tocam Pour Elise. Parece ser a música oficial do gás em Brasília. Os cachorros choram quando os carros de gás passam. O moço que entrega o gás grudou um imã de geladeira na caixa de correio do portão da minha casa. Todos os dias limpo a caixa de correio. Acho que vou começar a colecionar os imãs de geladeira das empresas que vendem gás onde eu moro.

Evolui lentamente o projeto do recamier. Já consegui os pés do móvel, mas ainda falta muita lixação e perfuração. Decidi colocar uma barra roscada para unir as ripas do móvel. Serão necessários trinta e seis furos de 10 mm. Hoje, depois de uma hora ininterrupta de trabalho, conseguir fazer a metade.

Depois eu pensei um pouco e cheguei a uma questão importante: quem se importa com o que acontece comigo? Provavelmente umas cinco ou seis pessoas. Contando comigo, é claro. E mais tarde é que cheguei a uma pergunta também muito importante: quem eu gostaria que se importasse com o que acontece comigo?

A vaia ambulante



Twisted Sister - We're Not Gonna Take It


Outro dia mesmo, quando disse que sentia falta de entrevistas coletivas periódicas, também falei que os governantes entendiam vaias. Por coincidência, um presidente pôs o pé na calçada e elas começaram a acontecer.

Augusto Nunes explica o fenômeno, é só clicar no trecho abaixo:

Como são poucos, esses inimigos da pátria resolveram fantasiar-se de estudantes para desmoralizar a UNE, piorar o humor da presidente e, sobretudo, reduzir os lucros dos fabricantes de estatísticas com a invenção de outra brasileirice: a vaia ambulante.

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Visita ao zoo



Arctic Monkeys - R U Mine?

Fomos ao zoológico no quinto dia de férias das crianças. É um dos melhores programas da cidade, sempre foi. Quando eu visito o zoo, eu também viro criança, revisito o eterno fascínio com os animais da África, o assombro com os bichos brasileiros.

Fomos de jaula em jaula, correndo, pulando, as crianças sem conter o entusiasmo. Eu fingia que não estava empolgado, mas também apertava o passo para ver o máximo possível. Mas não adiantou nada, o tempo passou voando.

Sempre fico com pena dos animais presos, as crianças também. Mas o fascínio de estar próximo dos bichos é sempre maior. Desta vez tivemos sorte e pudemos ver um dos elefantes bem de perto. Mas as girafas estavam bem distantes e os hipopótamos também. O rinoceronte estava dormindo por volta das onze e meia. Estava coberto de poeira e parecia uma grande estátua de pedra. Os leões e leoas dormiam pesadamente. O tigre albino fez uma pose caprichada, mostrou os dentes. O outro tigre, o da Ásia, lambia as patas e as garras esticado num jirau gigantesco.

Minha filha correu para onde existem milhares de borboletas, mas já era meio-dia e estava fechado. Meu filho pediu pressa para ir ao serpentário. Na saída, vimos um macaco enorme pendurado na cerca do zoológico, pelo lado de fora. Ele procurava uma brecha nas telas e no arame farpado. Não queria saber de cerrado. Queria voltar.

A marolinha II: o mundo vai acabar de novo


Kenneth Maxwell fala sobre o mais recente escândalo bancário que aflora na Inglaterra. Além do Barclays, outros 18 bancos estão sob investigação.

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Fora Mercosul, viva Mercosanostra



Screeching Weasel - Cool Kids


Formado por parceiros que vivem tentando enganar uns aos outros, o Mercosul era, até esta sexta-feira, uma inutilidade controlada por três patetas. Agora são quatro.

Com um pequeno artigo, Augusto Nunes chutou o cadáver insepulto do Mercosul, morto de morte matada por duas presidentes sabichonas e pelo menos dois tiranos eleitos. Oremos. Como agora o mercado tem um parceiro do norte, convém, no mínimo, tirar o sul da reta, digo, do nome.

Mesmo assim, caso queiram manter o zumbi andando para garantir almoços, jantares e coquetéis diversos, é preciso ter algumas cartas na manga para justificar tantas viagens e hospedagens, não é mesmo?

A parceria com o Uruguai dispensa comentários, então não os farei.

A parceria com o Paraguai, provada improdutiva pela presidente que ajudou a expulsar o país do clube, parecia valer a pena, já que, entre outras coisitas, 30% da energia consumida no Brasil vem de lá. Temos também alguns 500 mil brasiguaios produtores agrícolas na fronteira, mas quem liga pra isso? O importante é que chutaram o Paraguai para fora do clube e bateram a porta.

Nossa parceria com a Argentina sempre foi muito produtiva, é claro. Eles gostam de produzir e nós gostamos de comprar. Eles fazem um doce de leite sensacional e são campeões da parrilada, ninguém pode negar. Também são bons de bola, têm filmes muito bons e ninguém faz um tango como eles. Creio que também teríamos muito a aprender sobre a recuperação de ilhas remotas e participação em shows do AC-DC no estádio do River Plate. A parceria com o Brasil sempre veio a calhar. Quando não calha, eles encalham. Temos muitíssimo em comum com nossos hermanos, inclusive presidentes com penteados estranhos.

A principal vantagem de termos a Venezuela como parceiro estratégico será a transferência tecnológica. Com nossos vizinhos vamos aprender a desindustrializar o país de vez e ainda, de quebra, sucatear ainda mais rapidamente a petroleira da casa. A oposição brasileira, sempre ela, há muito se espelha no modelo venezuelano e vem caprichando em pusilanimidade há pelo menos 12 anos.

Agora que temos a Venezuela no Mercosanostra(sim, é a minha sugestão para o rebatismo) o próximo país a entrar no clube deveria ser Cuba. Sim, a marchinha de carnaval veio logo pra minha cabeça. Todo mundo quer ver Cuba lançar.







terça-feira, 3 de julho de 2012

Visita ao Banco Central



Arctic Monkeys - Crying Lightning

Estive hoje com quatro crianças no Museu de Valores do Banco Central. Fomos eu, meus filhos, dois amiguinhos das crianças que vieram da Bahia e uma babá, que também veio de lá. A primeira dificuldade foi estacionar. A capital da República é uma cidade feita para se andar de automóvel, mas que não possui estacionamentos. Esse problema é inversamente proporcional à necessidade. Quanto mais você precisa de uma vaga mais difícil ela se torna de achar. O Museu funciona no primeiro subsolo do Banco Central, que fica no centro do plano piloto de Brasília, no Setor Bancário Sul. Dei duas voltas no setor sem encontrar nem uma esperança de vaga. Entrei numa superquadra ao lado. Nada. Para não voltar para casa, fiz o que muita gente faz: subi no gramado com o carro e inventei uma vaga debaixo de uma árvore. O efeito manada foi imediato. Bastou eu parar o carro ali que em trinta segundos todo o gramado foi ocupado por carros sedentos de estacionamento. Fiz uma oração silenciosa para que o carro não fosse multado, não estou podendo.

Desci com as crianças sob um sol de rachar mamona e um vento seco de trincar os dentes. Todos de mãos dadas e com uma série de instruções bem decoradas. Não correr. Não gritar. Não berrar. Não cutucar. Não enfiar o dedo no nariz. Não batucar nos vidros. Não melecar os vidros. Não chatear os guardas. Não dar birra. Não sumir de vista e andar sempre junto. Falar comigo antes de qualquer coisa.

Entramos pela entrada principal do edifício, que é bem imponente. Passamos por uma porta giratória. Cada criança por vez. Duas fizeram questão de inverter o sentido de rotação quando passavam, o que provocou uma pequena confusão e uma narigada, minha, no vidro da porta giratória.

A entrada para o Museu é gratuita. Os adultos só precisam apresentar a identidade. O problema foi que a babá não havia trazido o documento. Então eu entrei com os quatro dentro do Museu. A moça da portaria entregou um crachá magnético para cada um e lá fomos nós, na maior empolgação. Demoramos cinco minutos na roleta. As crianças fizeram questão de testar todas as possibilidades de leitura dos cartões magnéticos e além disso se esqueciam de empurrar a catraca. Quando uma pequena fila de funcionários começou a se formar, o guarda da roleta abriu a portinhola para que eu pudesse passar com as crianças.

Agora só precisávamos esperar o elevador e subir até o primeiro subsolo. Confesso que eu estava meio confuso, já que havíamos entrado pelo térreo. Mas depois descobri que o térreo na verdade era o segundo sub-solo e por isso é que deveríamos subir. Esperamos outros cinco minutos e nada de elevador. As crianças não se aguentavam mais de ansiedade. Estavam loucas para ir logo para a sala do ouro, onde sabiam que estava a maior e mais pesada pepita de ouro de todo o mundo. Sim, meu filho há conhecia o museu de uma visita da escola e incendiara a imaginação dos outros com um relato fantástico das moedas e das barras de ouro e prata do museu. Então subimos dois lances da escada da saída de emergência e chegamos à entrada da exposição permanente.

O tempo passou voando dentro do museu. E logo ocorreu o inevitável, uma das crianças precisou ir ao banheiro. Por definição, em todos os prédios públicos de Brasília o banheiro é longe, pequeno, fica depois de um lance de escadas à direita e está sempre ocupado. Mesmo assim perguntei onde ficava, só por garantia. Era lá mesmo.

De volta à exposição, encontramos as outras crianças comodamente sentadas. Conferimos novamente a moeda mais valiosa da coleção(uma das 64 moedas criadas para a comemoração da coroa de D.Pedro I), a maior pepita de ouro, barras e lingotes e os bilhões em reais de notas picotadas e guardadas em caixas de vidro. As crianças gostaram.

Na saída, o guarda da roleta já se apressou em abrir a portinhola para que passássemos depressa. Mas não seria tão fácil. Cada criança demorou pelo menos um minuto para entregar o crachá magnético. Um deles achou o crachá tão bonito que queria tirar uma foto. Só então lembramos que a máquina tinha ficado em casa. Uma pena. Mas felizmente, não havia nenhuma multa grudada no pára-brisa quando voltamos ao carro.

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Oh, não! Oh, não! Oh, não!



Arctic Monkeys - Brianstorm Live

Meu novo projeto é um recamier ou um banco de ripas para colocar em frente à cama. Desde é claro, que passe pelo controle de qualidade. Comecei hoje mesmo. Estou usando nove ripas de ipê, que já estão lixadas. Ainda não tenho madeira para os pés, vou preparar com o que encontrar.

Usei máscara durante a tarde para o processo de lixação. E luvas. Daqui a pouco vou começar a usar protetor de ouvido. O barulho da máquina é cansativo. A nuvem de pó é assustadora. Meu vizinho deve me odiar, vai pó para tudo quanto é lado. Mas uso um aspirador razoável e deixo tudo limpo antes de trancar as ferramentas no armário. Alguém me disse, há tempos, que é muito importante limpar todas as ferramentas que usarmos antes de guardá-las. É uma regra que não admite exceção. Se você deixar para o dia seguinte, a sujeira gruda e o esforço para retirar tudo é muito maior.

Gosto de usar os equipamentos de segurança. Tenho sempre luvas de reserva. Também pretendo comprar um capacete parecido com aquelas proteções de soldador, só que transparente, para a lixação. Pensava que aquilo fosse pesado, mas é leve e protege o rosto inteiro, é bem melhor do que um óculos.

Tento organizar e dar um rumo novo para a minha vida. É difícil. Felizmente não estou doente e nem acho que tenho um problema qualquer. Tem muita gente dizendo que tem TOC, eu acho que não tenho nada. Estou perfeitamente saudável. Quer dizer, de vez em quando eu me pego falando com o espelho, dizendo coisas como "Oh, não! Oh, não! Oh, não!".

Uma vez minha mulher também me pegou falando com o espelho do banheiro.

_Você está falando sozinho? - ela disse, com um risinho no canto da boca.

_Não. Eu estava cantando - eu disse.

_Parecia um monólogo na frente do espelho.

_Às vezes eu só recito os versos, é por isso - eu disse.

_Você não precisa ter vergonha, muita gente fala sozinho com o espelho - ela disse. Mas eu não caio nesse truque velho.

_Eu não falo com o espelho - eu disse.

_Parecia que você estava falando "Oh, não! Oh, não! Oh, não!".

_Impressão sua, amor.

Eu olho novamente para o espelho, depois que ela saiu, balançando a cabeça. O sujeito no espelho faz a mímica com a boca, exagerando os movimentos: oh, não, oh, não, oh, não.

domingo, 1 de julho de 2012

Planos mirabolantes antes do almoço



Arctic Monkeys - Suck It And See

Fiz duas bandejas grandes para as mesas da casa. Em uma delas, usei sobras de madeira, cola e um verniz à base de água, cor de ipê. Para a outra usei duas pranchas de 80 por 30 de pinus reaproveitado. Tive que fazer o acabamento duas vezes. Na primeira vez, usei o mesmo verniz da outra e não ficou legal. Na segunda vez, depois de lixar tudo novamente, usei cera. Ficou melhor.

Durante o trabalho com madeira, às vezes me perco num turbilhão de pensamentos. Existem alguns recorrentes. Coisas que deveria ter feito, frases que eu poderia ter dito, arrependimentos, planos de invenções mirabolantes, esperanças enormes e esperanças miúdas, decepções, frustrações, erros crassos, bobagens e mais planos mirabolantes. Não sei vocês, mas eu tenho montes de planos de invenções mirabolantes todos os dias, idéias que servirão para fazer o meu pé-de-meia e me livrar da fila humilhante da aposentadoria mínima.

Um desses planos é o meu ventilador especial acoplado na balança do banheiro. O ventilador é capaz soprar um vento forte para auxiliar a secagem das reentrâncias dos dedos dos pés, ajudando o ser humano a se livrar de frieiras, por exemplo. Na versão mais requintada, a balança também é equipada com um massageador para a sola dos pés e um martelo de borracha preso a um braço articulado. O massageador começa a funcionar com uma leve pressão dos dedões. O braço articulado, por sua vez, é pré-programado para se auto-acionar todas as vezes que o indivíduo estiver acima do peso. Tum. Ou tum-tum, para os reincidentes.

Outro plano de invenção sensacional é a minha cadeira de paletó. Explico. Em todos os lugares em que trabalhei sempre havia um sujeito que detestava usar terno, que achava aquilo um saco. Esses caras sempre deixavam o paletó do terno pendurado na cadeira, às vezes por dois ou três semestres, quando apareciam. As peças ficavam ali, expostas ao sol, ao ranço de escritório, ao cheiro de detergente e dos produtos de limpeza que usavam. No final do período, o terno estava inutilizado, desbotado e cheirando a escritório azedo. A minha invenção, é claro, evitaria tudo isso, já que terno e encosto seriam feitos do mesmo material impermeável, que não desbota e nem gruda cheiro. Tenho certeza de que seria um grande sucesso no setor público, onde alguns caras penduram o paletó e se mandam.

A máquina de bater no bumbum também é outro plano de invenção que sempre me assalta durante as manhãs. Sabemos que a legislação ficou muito severa e intrometida, não se pode mais dar palmada no bumbum das crianças nem quando elas quebram o aquário e estragam a tv, chutando bola dentro de casa. Não, senhor. A palmada está proibida. Mas eu acho que não há nada na lei que proíba a utilização do DRADI - Dispositivo Robô Auxiliar de Disciplina Infantil, que é como chamo a minha máquina. O nome é bem legal, né, acho que tem tudo para ser um campeão de vendas.







Frase do dia


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