domingo, 28 de fevereiro de 2010

Bom dia, cachorro




A nova rotina do semestre promete. Aos sábados, minha mulher tem que acordar cedo para dar aula na faculdade. Aos domingos, ninguém trabalha, é lógico. Mas Rafael, o cãozinho shi-tsu daqui de casa, gosta de companhia desde cedo. Então ele fica arranhando a porta do corredor. Eu levanto, é claro, e abro a porta. Vou até onde fica a comida do Rafael, troco a água e coloco mais ração para o bicho comer. Também faço uma festinha nele e jogo a bola que eu dei pra ele de Natal.

É uma bola de plástico rígido, daquelas que dizem que são boas para evitar lesão por esforço repetitivo. A bola tem uma porção de "dentes". Rafael não consegue morder direito, nem ficar com essa bola muito tempo na boca. De todas as bolas testadas, essa é a única que resta. As outras foram destruídas rapidamente. Ter um cachorro e não ter uma bola é uma incongruência, porque é muito legal jogar a bola e o cachorro trazer de volta.

Mas assim que eu lavo as mãos e volto para a cama, Rafael passa a arranhar a grade do corredor. A grade é coisa nova, minha mulher decidiu que essa grade é fundamental para disciplinar a circulação canina no apartamento. Além de arranhar a grade, Rafael inicia então uma série de cantos góticos caninos, pontuada por gemidos e rosnados baixinhos. Dessa vez, levanto definitivamente.

Venho para o computador, escrever esse post. É uma bela manhã de domingo, com o sol começando a ficar forte. O asfalto ainda está molhado da chuvinha fina que caiu de madrugada. Eu digo bom dia para o meu cachorro.

sábado, 27 de fevereiro de 2010

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

John Cheever e o Rádio Enorme

Um dos melhores contos que li do John Cheever se chamava "O rádio enorme". Conta a singela história de um casal que mora num edifício de apartamentos e leva uma vida rotineira. Um dia o marido chega em casa e encontra a mulher aos prantos. Ela conta que escutou uma terrível briga de um casal de vizinhos no rádio. O marido chama um técnico para consertar o rádio. No dia seguinte, a mulher relata mais uma infinidade de coisas tristes que ouviu pelo rádio. Mães e pais maltratando filhos, casais se odiando, agressões cometidas e assassinatos tramados. O marido tenta encontrar um técnico da empresa que fabricou o rádio, mas não encontra ninguém.

É um conto lúgubre, triste e ao mesmo tempo instigante. A história é uma dupla manipulação das curiosidade: a do casal, que acaba viciado no rádio que capta as histórias reais dos vizinhos, e a do leitor que não consegue deixar de espreitar o casal da história. Não me lembro de como termina esse conto. Mas é sempre dele que me lembro quando chego em casa e não há ninguém. O apartamento fica imerso em seu silêncio e logo depois eu começo a ouvir os sons da vizinhança.

São sons de histórias tristes. Nenhuma lúgubre ou especialmente mórbida, em geral são fragmentos de histórias tristes e banais que chegam aos meus ouvidos. Mães ralhando com os filhos. Um marido mais nervoso do que o habitual. Alguém falando ao telefone com voz muito alta. Um cão latindo. E TVs. Muitas TVs. É raro ouvir alguém escutar música, talvez os adolescentes de hoje só escutem música com fone de ouvido. Muito raramente, duas meninas do primeiro andar brincam de karaokê. Elas berram muito e são cansativas, em geral dura pouco.

Também ouço os porteiros e as pessoas falando com os porteiros. Todo mundo trata muito mal os porteiros do meu prédio. É raro ouvir alguém cumprimentar, dizer boa noite, como vai. Não há sorrisos. As gentilezas são poucas. Por causa disso, tenho certeza, há um mínimo de reciprocidade dos porteiros, que parece muito próximo da extinção.

Em Brasília, às vezes tenho a impressão de que as pessoas preferem não ser cordiais a arriscar uma intromissão. Aqui, em alguns bairros, a privacidade é um conceito exagerado, é uma idiossincrasia que perdeu as estribeiras. Mas nos apartamentos, com as portas fechadas, muitas vezes as vozes se alteram e escapam pelas beiradas das janelas.

Mas hoje eu não quis nem saber. Cheguei em casa e coloquei uma música para tocar.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

A caneta Montblanc da desobediência

Leio hoje que a Montblanc decidiu suspender a venda de canetas com a figura do Mahatma Gandhi. Duzentas e quarenta e uma canetas seriam comercializadas em todo o mundo. Mas uma ação judicial movida na Índia fez com que a famosa marca alemã suspendesse a comercialização do objeto de luxo.

A caneta em ouro e prata com a gravura de Gandhi iria custar 24 mil dólares. Versões mais modestas custariam cerca de três mil dólares. Uma fundação de caridade do bisneto de Gandhi receberia parte da dinheirama de cada caneta vendida.

Nem vou entrar no mérito da coisa. Acho que é um feito de marketing sensacional. O interessante da história é o número 241. Gandhi percorreu esse mesmo número de milhas quando cruzou a Índia anunciando que ia produzir sal sem pagar impostos, o que era proibido pelo Império Britânico. Acabou acompanhado por milhares de pessoas.

Gandhi produziu sal junto com um monte de indianos. Ele não pagou imposto nenhum. Pelo que eu sei, a grande maioria dos mais de um bilhão de indianos não paga imposto nenhum até hoje. E também não tem acesso a nada. Gandhi ferveu água do mar até que tudo se evaporasse e depois colocou o sal que ficou na panela dentro de um saquinho. Pelo menos é assim que me lembro do filme do Richard Attenborough. Com a marcha contra o imposto do sal, Gandhi deu o maior tempero à desobediência civil do ensaio de Henry Thoreau. Fez tudo sem violência, numa boa.

Desobediência civil é coisa pouco estudada e comentada no país. Tem gente que acha que ainda nem chegamos ao estágio de obedecer as regras. Eu acho que sim, nós obedecemos. E também acho que somos abusados rotineiramente.

Quando protestamos mesmo o mais pacífico dos protestos, como aconteceu recentemente no DF, os poderosos de plantão soltam cavalos, porretes e cassetetes sobre a multidão. E a grande tristeza é que as bravatas, a retórica aloprada e os vitupérios dos nossos vilões muitas vezes prevalecem.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Eleições na escola

A escola nem-tão-alternativa-assim onde meus filhos estudam adota uma sistemática interessante para a definição dos nomes das turmas das crianças: o voto direto com o braço levantado. Vence o nome que tiver mais braços levantados. Foi assim que no ano passado, a sala da minha filha se chamou “Jardim Pato”. Foi unanimidade. Todo mundo quis pato. E todo mundo levantou os dois braços. Por causa disso, a turma Pato ganhou até um pato de verdade de presente. A escola considerou a iniciativa didática, embora eu tivesse dúvidas sobre os ensinamentos que pudessem vir a ser transmitidos pelo animal. Mas os meninos e meninas aprenderam muito com ele. Por exemplo? Aprenderam o que é pé chato. Seja como for, o bicho cresceu e está enorme, outro dia vi atrás de uma grade. Suspeito que em breve vai virar um prato ao tucupi, ou com laranja.

A sala ao lado da sala da minha filha tinha uma borboleta grande grudada na parede, bem perto da porta. Sim, você adivinhou. Era o Jardim Borboleta. Após a escolha do nome, as crianças adotaram diversas lagartas. Não. É mentira. Um dos pais teve a paciência de recolher lagartas no jardim de casa e levar para a escola. Foram tantas lagartas que a escola resolveu dividir entre as turmas do jardim para as aulas de "metamorfose".

Uma das coisas mais sensacionais do jardim da infância é aprender sobre metamorfose. Esse conhecimento é muito estimulante. A feiúra da lagarta pode se transformar numa bela borboleta. Então, tudo é possível. Certo. Tirante a calvície.

A turma do meu filho também tinha nome ecológico. Era Primeiro Ano Planta. Meu filho me disse isso entredentes, mas eu percebi que ele não estava entusiasmado pela maneira como olhava para o próprio umbigo. Não pedi para repetir. Durante uns dez meses, nós evitamos falar do nome da turma. O ano passou rápido. Eu também não me liguei muito na temática, eu confesso.

Às vezes, os assuntos e temas mais deliciosos estão debaixo do meu nariz, mas a minha empáfia faz com que eu não perceba. No meu tempo, os meninos não escolhiam o nome da turma. Era tudo número e letra. Primeiro A. Segundo Ano B. Terceiro E. Tudo muito cartesiano, eixo x, eixo y. Uma chatice total. É lógico que é muito melhor crescer numa turma em que você participa da escolha do nome. Ainda que você não tenha levantado o braço para o nome vencedor.

Neste ano, minha filha está no Pré Arco-Íris.

_Eu queria Rosa, paiê, mas só eu levantei os braços.

_Ué, e o seu primo? Ele está sempre do seu lado. Pensei que ele ia levantar o braço junto com você.

_ Ah, paiê, ele agora só anda com os meninos, nem brinca mais comigo. E ele gosta mais de roxo.

_Roxo é uma cor legal. E você, filho, como chama a sua turma.

_Segundo Verde - diz o menino. Mais uma vez, percebo que ele não está satisfeito com o nome da turma. A antiga primeira série é o atual segundo ano. O menino já está alfabetizado, mas só agora começa a ter provas e avaliação de verdade. Embora no ano passado ele também já fizesse dever de casa. Assim, se ele tivesse entrado no ano passado no atual segundo ano ele estaria adiantado, embora estivesse apenas na primeira série. Mas como ele entrou na primeira série, ele passou para o segundo ano, o que equivale à série seguinte ao jardim de infância. Ao que parece, a alteração é o sonho orgiástico de um burocrata, pois melhora as estatísticas e ao mesmo tempo provoca uma confusão dos infernos na cabeça da gente.

_Verde é um nome bacana, filho.

_É pai, mas eu queria outro nome.

_Qual?

_"Rock". Queria que a minha turma chamasse Segundo Ano "Rock".

_Rock é bem radical, filho.

_É bem manêro.

_Se eu estivesse lá eu teria levantado os dois braços - eu disse.

E teria mesmo. O garoto é antenado. Quer ritmo e música para nome da turma. Por mim, eu teria achado ótimo ter estudado no Segundo Ano Feijoada.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Mais uma janela se abre

A fada dos dentes terá que passar mais uma vez aqui em casa. Durante o café da manhã, meu filho exibiu o outro dente da frente, que também balançou durante várias semanas antes de deixar o posto. O primeiro dente da frente ele mesmo havia retirado com orgulho e satisfação durante as férias na praia, depois de pegar um jacaré. Hoje ele estava conversando comigo quando simplesmente parou e puxou o dente fora.

Na verdade, o dia não começou muito bem para ele. Ele esqueceu o dever de casa em algum lugar e a minha mulher, que é a mãe dele, já havia passado uma boa meia hora com ele tratando de bons conselhos sobre responsabilidade e obrigações. Eu mantive o silêncio desejável nessas horas. E quando ele olhava para mim com aquele olhar de pedido urgente de socorro eu fazia cara de paisagem.

Talvez isso tenha relação com o filme "The Road" que vi ontem à noite. É baseado na novela do Cormac McCarthy, que ganhou o Pulitzer de 2007. É um filme com cenário apocalíptico. Um pai e um filho tentam sobreviver num mundo futuro onde tudo se acabou e as pessoas se dividem em canibais ou não canibais. Pai e filho viajam para o sul, em busca do litoral. Cormac fala de Deus, de amor, esperança e de vida para o filho no meio de um cenário desesperador. O final me deixou sem sono até as duas da manhã.

Filmes assim costumam abaixar a minha auto-estima e auto-confiança. E me deixam com pensamentos estranhos.

Agora eu tiro do bolso da bermuda o pequeno dente da frente, enrolado em guardanapo de papel. É perfeito, não há sinal de deterioração. Não há uma mancha preta, nem um furinho inadequado. É um dente bonito. Acho que na minha infância os dentes de leite não se perdiam assim. Tenho a lembrança de dentes escuros e meio roídos que desapareciam em linhas amarradas. Mas este é um dente perfeito.

E mesmo assim, aqui está ele, sobre um pedaço de guardanapo de papel.

Escrever é descascar cebolas. Talvez toda essa situação seja mais uma metáfora. Alguma coisa sobre cumprir a sua missão com total retidão e sair de lado, para o que está por vir. Talvez o dente tenha sido tirado apenas para desviar a atenção do dever de casa. Ou foram apenas coincidências.

Talvez não seja nada disso. Foi só um dente que caiu.

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Sonhar não é fácil

Este post faz parte da minha série de textos "Tudo é exatamente o contrário do que dizem". Trata-se de um livro que estou preparando para lançar no dia 07 de setembro deste ano. Acho que o primeiro texto do livro trata dos maus hábitos dos motoristas nos semáforos e de como é fácil evitar ser flagrado com o dedo no nariz. Vou lançar o livro em setembro só para provar que um livro pode ser editado no prazo estipulado e lançado na data marcada. Embora pessoalmente não acredite nisso.

Vamos ao tema. Sonhar não é fácil. Não. Não é. Durante muitos anos planejei meus sonhos cuidadosamente antes de dormir e sei o quanto é realmente complicado organizar tudo antes de cair no sono. A começar do elenco. O elenco de um sonho merece dedicação no travesseiro. Não é possível deixar qualquer um participar de uma coisa que só o seu subconsciente imagina. Sempre escolhi atrizes lindas para participar dos meus sonhos. Não precisavam ser boas atrizes. E caso isso não esteja claro, elas precisavam ser lindas e inspiradoras. Atores, mesmo os anões atores, eram sumariamente vetados do elenco. Animais também. Eu era o personagem principal dos meus sonhos até que o diretor subconsciente tomasse conta da coisa.

Depois do elenco, havia todo um cuidado com o cenário e as locações. Isso porque o sonho não poderia acontecer em qualquer lugar. Tinha que ser um lugar especial, bacana, bonito. De preferência, na orla, com barcos e guitarras havaianas. Com a música ideal de fundo, os letreiros começariam a aparecer em negrito e itálico, "Estrelando Careca", em caso de filme independente e com jeito de underground. "Starring The Bald", em caso de superprodução americana. "Avec Le Chauve" se fosse um filme intelectual francês.

Durante uma boa parte da minha adolescência, os meus sonhos eram produções undergrounds do tipo ãhn suecas, eu nem me preocupava em aparecer nos letreiros e tinha muito cabelo. Nessa época o cenário variava entre o sofá e um tapete. Nem travesseiro tinha. Eram sonhos muito educativos onde predominava o nu frontal, lateral e traseiral artístico. Mas essa fase passou.

Hoje, com mulher e filhos, as coisas mudaram. Sonhar exige um planejamento mais cuidadoso. Não pode ser apenas eu e uma dúzia de starlets numa praia deserta (gostava muito desse enredo). Ou eu e uma dúzia de starlets numa ilha (também gostava muito desse enredo). Ou eu e quatro dúzias de starlets amazonas que me capturavam para garantir a continuidade da tribo(o meu predileto).

Realmente, já não é possível sonhar essas coisas. É preciso um mínimo de seriedade, o que aumenta as complicações e dificulta os sonhos. Além disso, a organização do elenco fica cada vez mais complicada, porque não vejo TV e nem vou ao cinema como antes. Mesmo assim, o veto aos anões continua firme. E também o veto aos animais. Embora o Rafa, o cãozinho shi-tsu da minha filha, de vez em quando apareça no meu subsconciente. Ele vem, sorrateiro, levanta a perninha e solta uns pingos só para marcar território no meu sonho. Não é nada fácil.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

O aviso prévio do interino

É incrível como os políticos continuam a provocar surpresas desagradáveis. A última foi o anúncio da desrenúncia do governador interino do Distrito Federal. Ele passou um tempão avaliando a possibilidade de renúncia. Depois decidiu que iria renunciar. Aí o sujeito convocou uma coletiva. Mas na hora "H" ele disse que estava com a carta de renúncia prontinha, mas que só ia apresentar depois. Ficou todo mundo sem entender.

É preciso tirar o chapéu para tanta cara dura. O interino PO inovou em matéria de recuar ante o anunciado. Ele não só desdisse o que disse várias vezes a diversos interlocutores, como não mostrou o que disse que tinha escrito e deixado pronto. Foi o verdadeiro escreveu, não leu e tudo ficou por isso mesmo.

Já havíamos nos acostumado aos factóides. PO inventou o des-fato. Pode ter sido pelo medo de ser obrigado a passar um tempo na sala especial da penitenciária Papuda, ao invés de fazer companhia ao governador detido na bem mais confortável sala especial da Polícia Federal. Pode ter sido por outro motivo. Mas o interino inovou. Ele renunciou por escrito, mas como não mostrou, ainda não vale.

Mas só para a cabeça dele.

Foi um patético D.Pedro I às avessas. O filho de Dom João VI disse para dizerem ao povo que ele ficava e ficou, sem se preocupar em escrever nada. O interino PO disse que ia se mandar, escreveu e voltou atrás nas mal traçadas que um dia hão de valer.

Na prática, a renúncia escrita que foi falada já vale e o interino não manda em nada. Já deu aviso prévio. Mostrou a carta na manga, fez coisa estúpida de mau jogador.

E faltou hombridade de todos os lados. Os caras do partido dele tinham que vir a público chutar-lhe o traseiro logo após ter saído de fininho de um encontro com o Presidente, que é de um partido antagônico e situação. Lula, sabido e curtido em pitos públicos, foi um dos poucos a lhe puxar a orelha. Mereceu, o travesso interino, uma desdita pública humilhante, mas que não chegou a ser acachapante.

Não sei dizer se o melhor é a intervenção. Mas o Distrito Federal está sem mando, caminha para o desgoverno. Fevereiro se acaba e nem sombra dos carnês de recolhimento de IPTU e IPVA. Os parlamentares batem cabeça na Câmara Legislativa. Não há vivalma que inspire confiança, retidão, dignidade, bom exemplo. A verdade é que, a despeito da nobre missão com que foram incubidos, nossos legislativos nunca cuidaram muito do bom fazer, trataram somente de cavoucar picuinhas e especular com o Plano de Ordenamento Territorial do DF. Mas dinheiro não falta. Saúde, educação e segurança no DF são providos pelo Governo Federal.

O que chateia é perceber que um monte de pessoas estúpidas e desprovidas de virtudes republicanas - e não somente duas - estão aboletadas numa estrutura de governo que só funciona na base da retro-alimentação.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Hugh Laurie, o escritor e o fim do horário de verão

Comecei a ler um livro do Hugh Laurie, que vem a ser o Dr. House, da série da TV. É legal. Cheio de frases espirituosas. Mas não estou conseguindo focar no livro. Não é culpa do escritor, o problema é o horário de verão. Às seis da manhã ainda é escuro total. Eu acordo, numa boa, mas os meus olhos se recusam a entrar em foco antes de umas seis e vinte. Assim, não aproveito mais do que uns dez minutos de leitura por dia. Nesse ritmo, qualquer livro fica moroso e chato de ler.

A única maneira de aproveitar bem a leitura matinal é ler contos e histórias curtas. Mas estou um pouco enjoado de literatura rápida. Queria pegar um livro mais denso, mas andei atolando em diversos. Hugh Laurie se esforçou, dá para notar, mas receio que vou acabar deixando o livro de lado. A única chance do Hugh é permanecer no banheiro até depois do horário de verão.

A verdade é que o horário de verão me incomoda um bocado, já reclamei antes por aqui. Eu demoro a me adaptar e quando finalmente estou adaptado, o relógio ganha uma hora a mais. No sábado, à meia-noite vamos atrasar o relógio uma hora. Vai acontecer tudo de novo. Durante quase um mês acordarei uma hora antes do necessário. Será a melhor oportunidade para ler no período da manhã. Mas para isso, será preciso vencer o sono e encarar a leitura.

Para melhorar a concentração, já pensei em tomar um chuveiro frio rápido, para despertar e encarar a leitura. Mas não dá certo. Na única vez que fiz isso, fiquei morrendo de frio e sem a menor concentração para a leitura. Então, entro no banheiro com os olhos fechados, acendo a luz forte e vou abrir os olhos devagar. Aí pego o livro e começo a ler. Parece uma coisa besta, mas não é. Sou uma pessoa de hábitos arraigados. Dispenso novidades às seis da manhã.

E também quando chego do trabalho. Não dá para pensar muito no que escrever. Se eu demorar muito, não escrevo. E depois que eu escrevo, eu gosto de desenhar um pouco. E existem também todos os outros projetos.

É preciso estar atento e forte. We can work it out.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Uma partida de ping-pong

Eu já fui bom em ping-pong. Ou tênis-de-mesa, como preferem os pernósticos. Sim, já fui bom nisso. Tem gente que nem considera ping-pong um esporte. Para muitos Intelectuais e Ministros do Supremo, ping-pong deveria ser retirado de competições olímpicas. Eles têm seus motivos. Por exemplo? É um dos poucos esportes que combinam com uma barriga de chopp, junto com xadrez e tiro. Quero dizer, você não precisa realmente estar em boa forma física para jogar ping-pong. E a vantagem sobre xadrez e tiro é que você também não precisa estar muito sóbrio.

Com tudo isso em mente, resolvi aceitar o desafio do meu sobrinho de 15 anos para uma melhor de três de ping-pong. Partidas de 21 pontos. Regras clássicas. Saque queimado, repete o saque. Tem gente que joga com o saque revertendo para o adversário, mas prefiro a repetição. Bola na linha é bola dentro. Quina é azar do adversário. Ponto chorado vale o dobro.

Meu pai, sabiamente, me ensinou que cortar o saque do adversário é a humilhação suprema do ping-pong. Você pode até perder a partida, mas uma cortada de saque permite a você sair por cima, com um sorriso demolidor no canto dos lábios.

O garoto joga bem. Precisa aperfeiçoar o estilo da pegada, é claro. Eu pego a raquete no estilo "suyo zanbatha", que assimilei ao ver uma capa da revista "Lobo Solitário" publicada nos anos 80. Meu sobrinho prefere a clássica pegada tipo "caneta". A primeira partida foi apertada, com uma avaliação mútua cuidadosa. Eu explorei a proximidade do adversário, alternando a colocação da bola: perto da rede, longe da rede. É lógico que isso me levou a cometer vários erros. Também fiz a tradicional e emblemática "esquerda-direita-cruzada", que sempre sempre deixa os adversários aturdidos. O garoto pegou e respondeu com uma incrível jogada de sorte, com a bola batendo na quina à minha direita e mergulhando 90 graus.

_Putz! - eu disse.

E foi lamentável mesmo porque as regras eram claras. Ponto chorado conta dobrado, assim perdi a primeira partida. Na segunda, mantive a boca fechada durante todo o certame, com breves interrupções para alguns goles de cerveja. Apliquei raquetadas homéricas. Realizei jogadas deslumbrantes, que deveriam ter sido imortalizadas em dodecassílabos pelos mais valorosos poetas. O garoto não teve a menor chance. O ponto final foi uma cortada certeira com direito a giro de 360 graus. Ou seja, desci o braço e dei uma voltinha. Iuhu!

Eu estava bem. Eu estava no auge. Ou seja, a cerveja começava a falar baixo e ronronante no meu sangue. A terceira e última partida foi realizada com torcida discreta de Rafael, o cãozinho shi-tsu da minha filha. Ele ficou sentado, observando o embate. Disputamos ponto a ponto com um desfile de jogadas sensacionais. O "cartipiu estralado com revertério à esquerda". O "telefone vermelho com sino na orelha", a "cortada Africa Bambatha incendiária - tacando fogo casa abaixo". O terrível e dolorido "corte seco frontal com marca redonda no peito". E assim por diante.

Estávamos novamente 20 a 20, disputando o melhor de dois. Quem fizesse o primeiro ponto tinha vantagem incontestável. O saque era dele. Era o meu momento "karatê kid". A hora da "CORTADA SUYO ZAMBATHA", a cortada mata-cavalos que havia feito a minha fama no círculo restrito de jogadores de ping-pong da pesada, de meados dos anos 80. O silêncio se instalou em volta da mesa. A única coisa que eu ouvia era a respiração chiada do Rafael.

Foi daqueles momentos que colocam a câmara lenta nos filmes. Meu sobrinho sacou e apliquei a "CORTADA SUYO ZAMBATHA" com uma violência indescritível. Nem Petrarca conseguiria colocar aquilo em palavras. Nem João Ubaldo, que é um gênio. Estamos em câmera super-lenta agora. Vejo meu sobrinho piscar e abrir um sorriso de lado. A raquete dele surge da linha da mesa e descreve um semi-círculo quase perfeito, TOC. A bola laranja bateu no meu lado da mesa e depois sumiu.

_Uma "ZAMBATHA SUYO ZAMBATHA"!! Caramba! A cortada das cortadas - eu disse, sem pensar.

_Vale dois! - disse o meu sobrinho, abrindo os braços e cantando o hino dos vencedores.

_Ô balancê, balancê, quero dançar com você...

Talvez os Ministros do Supremo tenham razão. Esporte besta, ping-pong.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Ainda não choveu neste carnaval

Não choveu. Nem parece que vai chover. Só porque eu falei que no carnaval sempre chove nesta cidade, ainda não caiu nem uma gota em cima da minha careca. E pelo andar da carruagem, não vai cair. A minha terça-feira de carnaval começou com uma manhã de sol sem uma única nuvem no céu.

O lado bom é que as piscinas estão ótimas.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Um barco dentro de uma garrafa

É, baixei esse vídeo da internet. É feito com pinças e fios. Até onde eu sabia, o grande segredo era a articulação dos mastros, para que tudo ficasse em pé corretamente. Mas existem outras dificuldades. É preciso cuidado na hora de inserir o barco e as velas. O vídeo mostra tudo em detalhes.

Quando eu era criança, os barcos dentro de garrafas me fascinavam. Eu não sabia do artifício de se usar os mastros articulados. Achava que os caras usavam pinças compridas e colas especiais. Achava que tinham habilidades manuais extraordinárias. Ou então engarrafavam o barco depois de tudo pronto.

Não me lembro de quando descobri o segredo da articulação, de como os fios eram puxados e tudo se encaixava direitinho no lugar. Mas depois que descobri, boa parte do encanto dos barquinhos dentro das garrafas tinha desaparecido junto.

É assim com um monte de coisas, né?

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Domingo de carnaval de manhã bem cedo

Os foliões daqui de casa acordaram às seis da manhã. Os foliões visitantes(a priminha e o amigo do meu filho) também se mostraram muito atentos ao horário e fizeram questão de acordar antes que o galo cantasse. É bem legal acordar cedo no domingo de carnaval. Só não é muito legal acordar muito cedo no domingo de carnaval. Virei para o lado e continuei a dormir.

Um hora depois eu me levantei e fui para a sala, fazer companhia para as crianças. Elas assistiam TV. Minhas crianças foliãs não conseguem ficar um minuto em silêncio na frente da TV. Também não conseguem ficar paradas. É extraordinário chamar aquilo que fazem de "assistir TV". Seria mais adequado chamar a atividade de "bagunça intensa e total com TV ao fundo".

Mas houve uma parada súbita. De repente, como se tivessem combinado, eles ficaram olhando para a TV da maneira como eu ficava quando era criança: parecendo hipnotizado.

Na TV passava um episódio de Lego Star Wars.

Durou meros cinco minutos. Mas nesse tempo, eu poderia escutar alfinetes caindo no chão da sala - o que é só modo de dizer, porque a TV estava um pouco alta. Até Rafael, o cachorro shit-tsu da minha filha, fez respeitoso e atento silêncio ao episódio. De repente, acabou.

_Depois eles vão passar Batman Lego e Indiana Jones Lego - informou o meu filho.

_Eles deviam passar Barbie Lego - disse a minha filha.

_Polly Lego - disse a priminha.

_Eu queria ver Homem Aranha Lego - disse o amigo do meu filho.

_Isso não existe - disse Careca, o estraga-prazeres.


Eles não ligaram a mínima. E num instante eles estavam de volta à "bagunça intensa e total com TV ao fundo".

sábado, 13 de fevereiro de 2010

Ainda é carnaval

No post anterior, percebi, no final, que o tom do texto era de oração.

Não há nada de estranho nisso. A civilidade é sagrada.

Meu amigo Selva Brasilis, que está visitando a terra do ziriguidum, já decidiu que não volta para cá. Está convencido de que a Selva não tem jeito.

Eu sou teimoso.

E foi o Selva que me fez olhar para o letreiro do Beirute, um bar de Brasília que nasceu em 1966. No letreiro ainda aparecem os pinguins originais da cerveja dos pinguins. Tem também uma estrela de Davi com um "A" no meio.

_Careca, você sabe o significado disso?

Eu não sei. Nem arrisquei um palpite. Meu amigo Velho Tom, que também fazia muito tempo que não via, arriscou alguma coisa sobre o Ceará. O irmão do Cabeça também disse alguma coisa. E o Niltão também. Não importa.

Uma banda de frevo entrou no boteco na sequência. Três frevistas ficaram saracoteando na frente da mesa, com guarda-chuvas minúsculos. Nunca entendi o guarda-chuva dos frevistas. Deve ser para ajudar no equilíbrio. Tomei uma cerveja bem gelada. Manoel, o garçom, me reconheceu e correu para vir apertar a minha mão. E a dos meus amigos do tempo da universidade. Foi um reencontro bacana.

Ainda é carnaval. Um corrupto continua na cadeia.

Eu sou teimoso. Ainda acho que tem jeito.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Hoje é Carnaval

O melhor desse carnaval é ter novamente a esperança de que a justiça seja feita, de que o corrupto e corruptor continue na cadeia, de que os criminosos sejam punidos.

Chico Buarque anteviu a alegria desse dia, há muitos anos atrás, quando inventou aquele famoso samba-enredo. Vai passar. Talvez até passe mesmo.

Mas até lá vale a pena soltar rojões e foguetes porque um corrupto foi colocado atrás das grades. Vale a pena fazer batucada na porta da cadeia, porque um larápio que se julgava acima da lei teve que se entregar para não ser algemado. Porque um criminoso arrogante não poderá mais andar livremente entre as pessoas que traía e furtava.

Ressurge também a esperança de que o povo não se esqueça das falcatruas e roubalheiras desses meliantes. Das suas mentiras deslavadas. Da cara-de-pau. Da ingratidão com quem lhe deu nova chance. Tomara.


E que sejam protegidos todos aqueles que lutam para que os malfeitores sejam punidos.

Amém.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Davey é sensacional

DaveyDanceBlog -68- Verona from Pheasant Plucker on Vimeo.



Davey Dance Blog

O Davey é demais. Ele parece o Wally, de Onde Está Wally. E ele gosta de dançar. Onde é que o Davey vai dançar? Ele já publicou uns 80 vídeos. Nem sei como achei os vídeos do Davey. Mas ele é um cara que escolhe uma locação, uma música e começa a dançar. Ele se diverte tanto que acaba divertindo todo mundo. Confira lá no vímeo outras músicas com o Davey em Paris, em Veneza, Amsterdam, Viena, tem música super-legal. Grande Davey.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Arrombando o cofre

Minha filha perdeu dois dentes da frente, da parte de baixo. Aconteceu durante uma querela boba com uma coleguinha, dentro da sala de aula. As duas meninas de cinco anos disputavam uma gravatinha de tecido. Minha filha mordeu o pedaço de pano. A outra menina puxou o trapo e os dois dentinhos foram junto.

Também fiquei chocado.

Obviamente, minha primeira reação foi contra a escola. A minha segunda raiva foi contra a professora. Depois diluí o ódio mais um pouco, fiquei contra a falta de previsão e de intervenção da professora, do monitoramento esparso oferecido pela escola. E por último, acabou a raiva.

Minha mulher segurou boa parte dessa onda sozinha, pois a escola ligou somente para ela. Por sorte, ela estava perto da escola e chegou pouco depois do acontecido. A menina estava com professora, orientadora e diretora da escola. Todo mundo com cara de choro e minha filhota chorando à beça. Correram para o dentista.

Está tudo bem. Um raio x mostrou que vem um par de dentes novos por aí. Os dentes deviam estar um pouco moles. O episódio só apressou um pouco a ordem das coisas. O dentista se mostrou muito tranqüilo e convincente.

Agora os dois estão de janelinha. Meu filho mais velho também tirou o próprio dentão da frente nas férias, lembram-se?

E hoje à noite a fada dos dentes deve aparecer para resgatar um dos dentes. Essa foi uma das coisas que mais doeram na minha filha. Na confusão, choro e sangueira na escola, só conseguiram encontrar um dos dentes. O outro sumiu. Não teve jeito.

_Paiê, será que a fada vai deixar só um dinheiro? – ela pergunta, tristonha.

_Não sei, filha. Essas fadas costumam ser muito pão-duras – eu digo.

_As fadas pão-duras e insensíveis dormem na sala – diz a minha mulher.

_Por outro lado, filha, nenhuma fada resiste a uma janelinha linda como a sua – eu digo.

E portanto, aqui estou eu com uma faca bem fina, tentando fazer escorregar umas moedas do cofre em forma de porquinho do meu filho. Antes mesmo da luz se acender, tenho certeza de que serei pego em flagrante.

O bom assessor

No trabalho tem um cara que é assessor. Só que é um assessor gente boa. Tem muito assessor que é metido a besta, tem o rei na barriga. Esse não. É pé de boi, trabalha à beça e engole sapos, como todos nós. E ele gosta de camisas em tom pastel. Então um monte de gente implica com ele, por causa das camisas. Principalmente o C3PO.

_Pô, Aspa, bonita a sua camisa verde - diz o C3PO. Para quem não sabe, o C3PO é um tremendo mala.

_Aproveitei uma liqui - diz o assessor, com visível modéstia.

_Se esperasse mais um pouco a camisa ficava madura - diz o C3PO. Ele é metido a fazer graça, mas ninguém ri das piadas do cara.

Depois eu vejo o Aspa com uma camisa cor-de-rosa. E o C3PO se aproxima, sorridente.

_Bonito uniforme, Aspa - ele diz, levantando as sobrancelhas. O C3PO tem aquelas sobrancelhas retas, que atravessam a cara da pessoa de um lado a outro.

_É lá da sua agremiação, né? Sou um simpatizante da sua causa, amigÔ - diz o Aspa.

_Quiéisso, o meu time só joga pra frente!

Eu só observo. Nesses tempos esquisitos, o melhor é guardar o fôlego.

_Hoje você veio de Zorro? - pergunta o C3PO ao Aspa. É uma camisa preta simples. Calça preta de sarja. Sapatos pretos. E o Aspa usa aquele bigodinho do Dom Diego de La Vêga. Só falta mesmo a máscara, o chapéu e a espada.

_Aiôo, Silver! - diz o Aspa, com um enorme sorriso.

_Silver?

_É o nome do cavalo do Zorro, não sabia não?

Eu fico mudo, que nem o mordomo Bernardo.

Hoje o Aspa foi de camisa quadriculada.

_O perfeito CASPArov! - disse o C3PO, satisfeito com o trocadilho.

Eu saí correndo para almoçar.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Uma nuvem Ursinhos Carinhosos

Antes que eu me esqueça, corro para anotar a conversa com a minha filha na manhã de hoje, indo para a escola:

_Paiê, olha lá aquela nuvem!

_Não posso, filha, tenho que prestar atenção no trânsito.

_Mas é uma nuvem Ursinhos Carinhosos, paiê!

_Caramba, é o meu tipo de nuvem predileto, filhota. Mas não dá para olhar agora, tenho que prestar atenção na pista. Olha só aquele ônibus ali. O motorista deveria ser algemado a um gorila no cio, que horror!

_Paiê, agora a nuvem virou Ursinhos Carinhosos Bêibis. Está muito mais bonita.

Nuvem bêibi é sempre mais bonita mesmo, mas não posso tirar os olhos da pista. Um motoqueiro vem fazendo zigue-zague nos espelhos retrovisores, o que me deixa um pouco confuso.

_Cadê aquela moto?

_Puxa, paiê, você não presta atenção em mim – reclama a minha filha.

_Presto, filhota, mas não quando estou dirigindo.

_Você nem viu a nuvem. Nem a bêibi nuvem.

_Quando a gente parar eu vejo, filha.

_Aí ela não vai ser mais Ursinhos Carinhosos.

_É só fingir um pouco.

_Não. Não funciona. As nuvens Ursinhos Carinhosos não são fingíveis. Nem as bêibis.

E o resto do caminho ela ficou calada e séria. Acho que nem olhou mais pela janela.

Quando paramos eu sabia que já não havia mais nenhuma nuvem no céu.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Alegria, alegria

Os dois dias do final de semana passaram voando. E no trabalho existe uma grande expectativa em relação ao carnaval. As pessoas fazem planos complexos e constroem estratégias peripatéticas para viajar. Como o dólar não dá em abacateiro, eu, minha mulher e filhos vamos ficar por aqui mesmo. E aqui faz sol e depois chove forte. Ninguém entende o clima. Mas eu me lembro de ter passado muitos carnavais nessa cidade. E sempre chove. Às vezes chove muito, outras vezes chove pouco, mas chove.E também não tem muita coisa pra se fazer, como em todos os lugares.

A verdade é que o carnaval não me empolga muito. Sempre fui um folião muito incompreendido, sambando num pé só o samba de uma nota apenas. Nunca fui de me fantasiar, de sair em bloco. Nada. Nem de decorar samba-enredo. Cantar samba não é comigo. Aliás, cantar qualquer ritmo não é comigo. Sou péssimo com a cuíca. Aliás de novo, não reconheceria uma cuíca nem se pisasse em cima e ela gemesse. É, só sei que cuíca geme. Pandeiro eu sei como é e até aprendi a tocar. Batucava nas laterais, no melhor estilo malandro da Vila. Mas já esqueci como é. Hoje em dia eu usaria para colocar salgadinho, vendo desfile pela TV. Aliás, desse carnaval que aprendi a tocar pandeiro, lembro de pouca coisa. Faz uns dez anos eu tive um flash-back dessa folia enquanto dirigia. É incrível o fato de ter sobrevivido. Ao flash-back e àquele carnaval.

Fico sabendo que no trabalho vai ter concurso de fantasia. O primeiro prêmio é bem legal. E alguns colegas me perguntam se eu vou participar do concurso.

_Claro, vou me fantasiar de meia, depois ainda saio no Pacotão - eu digo.

Ninguém acredita.

_Depois vou para a porta do Palácio do Buriti pra ganhar panetone - eu digo.

Mas ninguém acha graça.

_Então vou me fantasiar de Sombra - eu digo.

Mas os caras estão falando sério. Planejam fantasias tradicionais. Palhaço, pierrô, colombina, índio, pirata, o escambau.

_Caras, vocês estão mesmo falando sério?

_Mas é claro, o prêmio é muito bom, uma estadia com direito a acompanhante naquele hotel super-legal...

_Gente, vir fantasiado para o trabalho?

_Bom, se todo mundo vier, não tem o menor problema.

_É, o chato é pagar o mico sozinho. Mas se todo mundo vier...

_Então eu venho de Batimão - eu digo.

_Batman?

_Não, de bombachas com a camisa do Corínthians, Bah - Timão...

Mas os caras não acham graça.
Segunda-feira é fogo.

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Corcundobol

Meu pai inventou esse jogo para brincar com os filhos. Já faz muito tempo que eu e meus três irmãos brincamos com o nosso pai, então acho que misturei algumas regras na memória. Mas acho que o jogo consiste basicamente em ficar curvado sobre uma bola e fazer gols. É preciso usar uma bola grande, de plástico, senão fica muito difícil empurrar uma bola até o gol. Não é permitido ficar de quatro. Só existe um gol. E todo mundo sem bola é adversário. Você pode quicar a bola só umas cinco vezes e não vale segurar o braço do adversário. É possível segurar o pé e a perna. Cabelo não pode. Cotovelo é falta.

Eu devia ter uns oito ou nove anos de idade quando meu pai me chamou para brincar de corcundobol pela primeira vez. Fomos todos os cinco para debaixo do prédio de apartamentos, onde havia um círculo gramado pequeno. Com dois gravetos espetados na grama fizemos o gol. Meu pai, que havia inventado o jogo e as regras, achou que tudo estava muito adequado para o jogo.

Logo que começamos a jogar, outros meninos e meninas do prédio apareceram para ver a brincadeira. Era extraordinário um adulto como o meu pai brincar com as crianças. Era mais extraordinário ainda que o adulto inventasse a brincadeira e se empenhasse tanto quanto o meu pai na brincadeira. Ao mesmo tempo em que era empolgante, as outras crianças percebiam de imediato que aquela era uma brincadeira familiar a que não teriam acesso. Era um jogo inventado pelo meu pai, com regras obscuras que ele moldava para exercer autoridade e também para transmitir algum ensinamento estranho, que ninguém de fora conseguia captar.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Madeira, madeira, madeira

Demorei três dias para baixar um vídeo que ensina a calibrar a sua mesa de corte. é um vídeo fascinante que realmente ensina você a trabalhar com uma das ferramentas fundamentais para a marcenaria.

Devo estar ficando maluco.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

O Careca medalhão

Eu fico calado. Depois de um treinamento de mutismo agudo, longo e muito difícil, começo a deixar pergunta em branco. Ainda acontece, de vez em quando, aquela explosão de solicitude, de tentar oferecer uma resposta rápida e certeira. Mas em geral, consigo conter essa proatividade com a respiração pausada e um olhar de sol de primavera. Engulo em seco. Penso numa música baiana. Assovio.

Mas esse esforço ainda é visível. Admiro os caras que não demonstram que sabem a resposta para a pergunta cretina. Eles tendem a prosperar e sobreviver, embora percam a dignidade. Eu ainda esfrego os pés. Meu pomo de Adão sobe e desce. Disfarço muito mal. E isso é muito importante nessa época. Não refletir embaraços. Não conjecturar demais. Refletir em silêncio. E até escrever pouco. Cautela.

_Careca, o que você acha?

_Sobre o quê?

_Sobre o que estamos conversando, é claro.

_Ainda não tenho uma opinião formada. Precisarei de mais tempo para analisar esse tema com a profundidade necessária. Seria leviano da minha parte estabelecer um juízo sem considerar todas as alternativas. Mas já posso dizer que nem todos os impactos estão sendo considerados.

_...?

Vivemos tempos de casca-de-banana por todos os lados. Quem vacilar, escorrega. E o tombo pode custar o lombo. Por isso, fico calado. Fechar a boca também me deu a idéia de emagrecer. Estou com pelo menos 4 quilos a mais. E toda vez que perco um quilo eu acho um outro, na sequência. Aquela velha coisa de adiar o programa de exercícios começa a me dar remorsos. Não existe alternativa. Se não malhar, restará somente a flacidez incurável.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Mcbess II

Mas é possível encontrar também coisas sem palavras.

CH/CH from mc bess on Vimeo.

Mcbess é ótimo

Em dias improdutivos, recorro à Internet. Aí me sinto um nativo, vendo os espelhos e bugigangas dos gringos. Eu estou na minha canoa, feita de um único tronco de árvore. Eu me encanto com as bugigangas e sofisticadas tranqueiras espalhadas pelo espaço cibernético.

McBess é um link perpétuo no vímeo. Não consigo entender nenhuma palavra do que os caras cantam. Mas acho a animação de ótima qualidade.


WOOD from mc bess on Vimeo.



get the Dead Pirates track here : music.dirtymelody.com/
and get mcbess book with a free 7" from the dead pirates here : nobrow.net/nobrow-press
a music video by simon & mcbess , music by mcbess and the dead pirates

CH/CH from mc bess on Vimeo.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

A vida como ela era

Descobri que eu sou um nostálgico compulsivo. Tenho uma péssima memória para coisas ruins. Às vezes, eu acho que prefiro a vida como ela era. Tenho a ilusão de que as pessoas tinham mais tempo e menos preocupações. Isso é falso, é claro.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

O porteiro do edifício meio burrinho

Foi um dia daqueles monótonos. Para começar, eu esqueci o crachá obrigatório do lugar onde eu trabalho. Sem crachá, você não consegue passar pela roleta meio burrinha do edifício inteligente onde eu trabalho. Por causa disso, tive que ir até o balcão onde os seguranças desfrutam da alta tecnologia moderna. No balcão tem computador, mini-câmera, microfone, sensor disso e daquilo. Mas todo mundo sabe que aquilo é só fachada. Os seguranças ficam mesmo é jogando paciência com aquele equipamento caro.

Todos os dias sou um dos primeiros caras a entrar no prédio. Todos os dias eu vejo os mesmos seguranças e cumprimento a todos. Mesmo assim o Júlio, o guardinha de plantão, resolve vir com o procedimento regulamentar para cima de mim:
_RG?

_Sou eu, Júlio. O Careca. Você sabe onde eu trabalho. Eu só esqueci o crachá.

_Careca? Qual é o seu RG?

Procuro manter a calma e o olhar à frente. Chamam isso de foco no objetivo. É bem difícil. Você não pode deixar a sua atenção ser desviada. Começo a ficar zarolho.

Tento de novo.

_Júlio, sou eu, cara.

_Cara?

Eu procuro a linha do horizonte. Do balcão não dá para ver. Tento esvaziar a minha mente. Tento relaxar. Até lembro da música do Roberto Carlos, "além do horizonte deve ter..."

É o calor. Só pode ser.

_Deixa disso, Júlio.

_O RG, por favor...- ele insistiu, feliz por exercer o poder de porteiro.

Achei melhor responder.

_CPF?

Inventei um na hora.

_Vai para onde?

Falei o número do andar e sala.

_Falar com quem?

_Comigo. Eu vou subir para a minha sala e falar comigo mesmo até cansar. Eu adoro falar sozinho, sou maluco - mas é claro que não disse nada disso, só pensei.

Respondi que eu iria falar com o Doutor Acômio.

Júlio finalmente me deu um crachá provisório. Depois até que o dia melhorou.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

O Careca dá uma dentro

Neste ano fizemos tudo certinho. Minha mulher resolveu todas as questões de logística e material e eu colaborei intensamente, concordando com tudo.

_Vou comprar mochilas novas para as crianças - ela me disse.

_Sim, bem - eu concordei.

_Vou comprar o material escolar para as crianças - ela contou.

_Tá bom, bem - eu disse, com aprovação.

_Vou entregar essas trinta sacolas de material escolar lá na secretaria da escola das crianças.

_Puxa, que legal, meu amor - apoiei, com entusiasmo.

_Vou sair e comprar tênis, uniformes e coisas para as crianças não ficarem peladas e nem sentir frio na escola.

_Uau, que gentileza a sua, minha linda - assenti, com vigor.

Mantendo a calma e a serenidade, contribuí decisivamente para a criação de um ambiente ameno e tranqüilo para a volta às aulas da meninada.

Às dez da noite de ontem, domingo, uma ameaça pairou no ar. Minha mulher começou a deixar a cozinha armada para a fantástica manhã do retorno às aulas. Ela fez o lanche, arrumou as mochilas novas e deixou tudo nos trinques.

_Amanhã as crianças voltarão às aulas, mas não tem suco de caixinha. Você poderia sair e comprar?- minha mulher me perguntou, candidamente, numa boa.

O Tricolor tinha levado uma virada fenomenal. O Coringão tinha triunfado, mais uma vez. Mesmo assim meu humor estava excelente. Eu nem tinha visto os jogos. Fui assistir ao clássico "O Fada dos Dentes", que achei bem engraçado. E as crianças também. Tudo para a manutenção de um excelente "enviroment" educativo-pedagógico.

_Sim, querida, com prazer - eu respondi, com alegria.

E antes de dormir, eu programei o relógio e também o telefone para para despertar às seis da manhã. Por isso, ó minha kombi de leitores, o primeiro dia da volta às aulas foi um sucesso magnífico e retumbante. E as crianças adoraram.

Sim, eu também estou intrigado. Mas só pode ter sido o suco de maracujá.

Frase do dia


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