sábado, 30 de junho de 2012

Acabaram-se as entrevistas coletivas



EMERSON, LAKE & PALMER - Peter Gunn Theme

A democracia no país das jabuticabas involuiu. Já faz muito tempo que as entrevistas coletivas dos governantes deixaram de ser feitas. Houve uma época em que elas eram periódicas e frequentes. Os governantes eram mais transparentes e abertos ao questionamento. Com isso, pareciam até mais inteligentes. Hoje, são fanfarrões e carrancudos, cheios de dedinhos balançando. Ficam enfezados quando questionados. No máximo, os jornalistas conseguem declarações apressadas dos poderosos de plantão enquanto entram e saem apressados de uma inauguração fajuta ou do anúncio de mais um programa tapa-buracos qualquer. E o pior é que na maioria das vezes os jornalistas ficam satisfeitos de só conseguirem esses laconismos idiotas.

Os nossos governantes não falam coisa com coisa. Alguns não conseguem juntar sujeito ao predicado. Já se acostumaram a não fazer sentido e a não responder perguntas. Respondem ao que não foi perguntado. Mas quase todos entendem vaias. Quase todos ficam longe de eventos públicos corriqueiros, não vão a estádios, não vão a shows e ao teatro, não fazem as coisas que o cidadão normal e comum faz. A não ser que seja no exterior. Lá fora vão à opera, ao restaurante famoso, ao teatro, ao cinema, ao parque, às compras, parecem cidadãos. Pareceriam bem mais se não se mostrassem tão ridículos, com dancinhas embriagadas. Aqui, só mostram as caras nos eventos oficiais, com claque orquestrada e grande aparato oficial. São burocratas que parecem assoberbados pelo trabalho, trancados em gabinetes refrigerados, maquinando ações para dar a impressão de alcance de resultados. Mas é tudo ilusão, não se engane.

Eu confesso que estou cansado e desapontado com a maioria absoluta dos políticos brasileiros, sobretudo dos que estão no poder. Não tenho mais paciência para escutá-los. Tudo sempre está tão bom e é sempre tão fácil para quem tudo sabe, que me cansei. E devo ser uma exceção, porque as pesquisas mostram que a popularidade de todos aumenta vertiginosamente, quase tanto quanto o endividamento das famílias brasileiras, é um espanto. É fantástico isso porque a criminalidade aumenta, os preços aumentam, os impostos aumentam, a corrupção aumenta, a percepção da corrupção aumenta, a violência aumenta, a seca é a maior dos últimos trinta anos, a gasolina vai aumentar e nada de bom aumenta, mas, mesmo assim, a aprovação dos governantes é como um foguete enlouquecido rumo ao sol.

Nossos governantes se enrolam quando confrontados com o que eles mesmos disseram na semana passada sobre qualquer assunto.

Com os candidatos também não é diferente. Candidatos ao executivo na maioria das vezes repetem obviedades monótonas ou anunciam que também farão programas do arco-da-velha para minorar os velhos problemas: educação, saúde, segurança...

Eu não queria muito. Só queria que as entrevistas coletivas regulares e periódicas voltassem, por exemplo.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Eu, meu personagem



Harvey K-Tel - Boops Apocalypse - Marlena Shawn - Woman of the guetho

Ainda consigo escrever uma história, de vez em quando. Não é muito frequente, admito, mas acontece. Tudo por causa do processo de escrever que, pelo menos para mim, é complicado e tortuoso. Sempre que penso no esforço que eu preciso fazer para escrever me dá um desânimo danado, fico até com sono.

Esse personagem é um sujeito como eu, meio careca, barriga de chopp, míope e com uma risada esquisita. Esse personagem é metido a escritor, como eu, mas nunca publicou um mísero livro. Esse personagem talvez seja eu mesmo, ou uma boa parte de mim, mas prefiro que não seja. Prefiro que não seja. Assim como eu, ele escreve na primeira pessoa. Alguém lhe disse que é um erro escrever na primeira pessoa, isso sempre tolhe todos os pensamentos e movimentos. O melhor é escrever na terceira pessoa, virar "ele", tornar-se um outro, fica mais fácil olhar para dentro da gente mesmo. Fica mais fácil dizer a verdade sobre as coisas estúpidas e malucas que fazemos o tempo todo.

Mas o personagem não consegue escrever na terceira pessoa. Ele sabe contar histórias inventadas, com coisas assustadoras e reviravoltas encantadoras, as crianças às vezes gostam, mas em geral, não, ele prefere ficar calado. Ou talvez ficar calado seja parte do processo de escrever. É como se ficar mudo alguns dias fizesse uma espécie de represa de palavras que, de uma hora para outra, romperiam o dique e jorrariam sobre o papel. Não, não é assim que acontece.

Para começar, o processo não parece ser passível de reprodução. Ele, ou melhor, eu já passei algumas semanas calado e nem por isso escrevi páginas e páginas sobre alguma coisa. Na verdade, na maior parte das vezes, meu mutismo nada gerou além do silêncio. Então não é porque fico calado que consigo escrever. Entretanto, as poucas vezes que consegui escrever aconteceram depois de longos períodos de mutismo.

Também consegui estabelecer uma relação entre ler e escrever, o que é bem óbvio, mas tem muita gente que desdenha. Só consigo escrever depois de longos períodos de muita leitura. Mas, como acontece quando fico calado, não adianta me atirar aos livros para que eu escreva furiosa e freneticamente. Ao contrário, a leitura aumenta de tal ordem a minha autocrítica que muitas vezes fico semanas sem escrever um único parágrafo curto.

O mesmo acontece quando estou me alimentando bem, praticando exercícios físicos e interagindo com as outras pessoas. As vezes que consigo escrever tudo isso está acontecendo. Mas mesmo quando tudo isso acontece, fico semanas sem conseguir escrever algo inteligível.

Esse personagem, diferente de mim, acredita que algumas coisas conseguem despertar nele a capacidade de escrever. São quase sempre coisas diferentes, mas algumas vezes as coisas puderam ser repetidas. Houve aquele período, por exemplo, das meias brancas Lupo. Durante três semanas ele repetiu o par de meias e conseguiu escrever todos os dias, embora o que escreveu não fizesse muito sentido.

Houve também o período do cotonete. Mas o personagem não sente orgulho disso, é um período a ser esquecido. Ele não precisava usar o cotonete. Bastava apenas segurar o cotonete alguns segundos e prender atrás da orelha como muitas pessoas faziam com o lápis, no tempo em que se usava lápis.

O personagem faz uma pausa e tenta se lembrar do último texto que adorou escrever. Não consegue.

A conta começa a chegar


Quantos outros projetos e metas do governo Lula são equivocados? As obras de transposição do Rio São Francisco estão igualmente atrasadas e muito mais caras. O projeto do trem-bala começou custando R$ 10 bilhões e já passa dos 35 bi.

Assim como se fez a revisão dos planos da Petrobras, é urgente uma análise de todas as demais grandes obras. Mas há um outro ponto, político. A presidente Dilma estava no governo Lula, em posições de mando na área da Petrobras. Graça Foster era diretora da estatal.


Trecho de O 'custo Lula', de Carlos Alberto Sardenberg.

Derrapadas na petrobrás



Como a oposição - se é que ela existe - não vem sendo capaz de produzir um mínimo de crítica à política econômica do governo do PT, foi preciso que a própria diretoria da Petrobrás tomasse a iniciativa de apresentar a mais contundente denúncia das derrapadas administrativas registradas nos oito últimos anos da Petrobrás.

Trecho do artigo Realismo na Petrobrás de Celso Ming no Estadão.


quarta-feira, 27 de junho de 2012

Femen



The Vaccines - If You Wanna


Eu não sei vocês, mas quase sempre vejo as fotos das mulheres do Femen nos protestos. Elas estão em todas. Ecologia, corrupção, tráfico e exploração das mulheres, preço do gás, consumo de carne, qualquer coisa. É bem verdade que em geral presto mais atenção em outra coisa do que na mensagem, mas mesmo assim é preciso reconhecer que as moças da Ucrânia são valentes e merecem a maior consideração e res-peito. Dizer outra coisa seria um trocadilho no mínimo er... sus-peito ou insustentável.

Li em algum momento da cobertura da Rio + 20 que já existe uma representante do Femen aqui no Brasil. Todo mundo sabe que em se tratando de mulher pelada, o país tem muito a contribuir. Além dos peitos da Femen brasileira, a reportagem mostrou que a internacionalização dos protestos com os seios de fora tende a ganhar mais força que a onda do aquecimento global. Aliás, a temperatura ambiente não é impeditivo para as mulheres do Femen, elas tiram os sutiãs e blusas em praças cobertas de neve e em tanques de guerra congelados. Meninos, eu vi.

Aqui em Brasília os protestos são bem chinfrins em matéria de nudez ou de peito de fora. Talvez por isso a imprensa local dedique cada vez menos linhas para a cobertura das passeatas, greves e paralisações que ocorrem no Distrito Federal. É bem verdade que volta e meia uma moça tira a blusa em protesto contra alguma coisa na UnB,que por sinal está em greve, mas em geral os colegas homens também resolvem tirar as roupas em solidariedade, não dá para prestar atenção.

Seja como for, acho que só uma mocinha não dará conta do tanto de protesto que é necessário neste país, agora que até os estudantes - outrora tão ativos - estão caladinhos e pelegos. Pelos meus cálculos, precisaríamos de pelo menos umas vinte em cada capital só para começar, com uns 2 protestos básicos por semana: educação, saúde, segurança, transporte público, etc.

Hum.

Pensando bem, acho que esse negócio de Femen brasileiro não vai dar certo. Logo, logo aparecerá um fiscal disso, um fiscal daquilo, dizendo que a mocinha tem de se sindicalizar, tem que seguir os padrões mínimos da peitaria. E sempre haverá algum político para regulamentar a profissão de Femen, exigindo concurso público, reclamando do edital para a contratação do protesto, querendo dez por cento ou um emprego para uma prima talentosa. Periga ainda haver cotas raciais, mas nisso estou de acordo, quanto mais cores, melhor.

terça-feira, 26 de junho de 2012

Não fez mais que a obrigação

Depois de seis meses de embromação, o ministro Enrolanduísque disse que entregou as folhas da sua obrigação. O sujeito que chegou ao tribunal por causa de uma mulher da vizinhança afirmou que um dia teve coração, mas que o estripou antes de proferir o aguardado voto. De orelhas ainda vermelhas por ter sido repreendido por sua lentidão em revisar 122 páginas e ameaçado atrasar o julgamento marcado do mensalão, Embromanduísque ainda teve a cara dura de afirmar que nunca, antes, neste, país, existiu um ministro mais rápido de voto do que ele. Isso é algo que só George Solitário poderia confirmar, mas a tartaruga gigante de Galápagos morreu na véspera.

Lenientuísque disse também que boa parte da sua falta de pressa decorreu da sua preocupação com o destino dos 38 mensaleiros. Exagerou em pelo menos uma preocupação, pois um dos réus(o 19 denunciado) já morreu e certamente estará cumprindo merecida pena senão pelos prejuízos aos cofres públicos, pela vergonha trazida para o nome da família. Estranhamente, Embromationuísque não se mostrou minimamente preocupado com a possibilidade de 37 pessoas apontadas como culpadas pelos crimes de corrupção, desvio de recursos, lavagem de dinheiro e formação de quadrilha escaparem impunemente. Um não escapou, tenho certeza, da justiça divina.

Ainda inovando no quesito "falei-demais-agora-dou-bom-dia-a-cavalo", Enrolanduísque também se gabou de fazer um contraponto ao relatório que deveria apenas revisar. Para completar a sua gabolice, ainda tentou atrasar em mais alguns dias o início do julgamento do mensalão dizendo que fez o seu anúncio em tempo hábil para uma edição extra do Diário da Justiça. A manobra espertalhona não foi engolida por nenhum dos seus pares que só permitiram um atraso de 24 horas no início do julgamento. No dia 2 de agosto, uma quinta-feira, finalmente começará o julgamento de 37 mensaleiros ainda vivos depois de sete anos de espera.

Apesar de não ter mostrado o voto, Posterganduísque deu a entender que os 37 mensaleiros e seus apaniguados podem ficar tranquilos pois ele tem contraponto para tudo. Somente os outros mais de cem milhões de brasileiros é que devem ficar preocupados.



Contagem regressiva para Enrolanduísque

Aquele ministro enrolador ainda não entregou as suas páginas de revisão. Levou puxão de orelhas em público do presidente do tribunal, que coisa feia. Ministro levado, esse! Fez e continua fazendo de tudo para atrasar o início do julgamento do mensalão. Faltam quatro dias úteis para que ele entregue suas anotações, onde mostrará que não foi por ser vizinho de madame e amiguinho de bacana que chegou à mais alta corte.

Vale lembrar que compete ao revisor:

I – sugerir ao Relator medidas ordinatórias do processo que tenham sido
omitidas;

II – confirmar, completar ou retificar o relatório;

III – pedir dia para julgamento dos feitos nos quais estiver habilitado a proferir voto.

Seguem trechos do relatório de 122 páginas que Enrolanduísque levou mais de seis meses para ler e cumprir a sua obrigação:

(...)Para o Procurador-Geral da República, relativamente ao réu JOSÉ DIRCEU, “Provou-se que o acusado, para articular o apoio parlamentar às ações do governo, associou-se aos dirigentes do seu partido e a empresários do setor de publicidade e financeiro para corromper parlamentares. As provas coligidas no curso do inquérito e da instrução criminal comprovaram, sem sombra de dúvida, que JOSÉ DIRCEU agiu sempre no comando das ações dos demais integrantes dos núcleos político e operacional do grupo criminoso. Era, enfim, o chefe da quadrilha. (...) Nesse sentido, há vários depoimentos nos autos. MARCOS VALÉRIO (...) confirmou que JOSÉ DIRCEU comandava as operações que estavam sendo feitas para financiar os acordos políticos com os líderes partidários(...)” (fls. 45.123/45.124).
Página 52 do relatório do Min. Barbosa.


(...)Sustenta, também, que o réu JOSÉ GENOÍNO “era o interlocutor do grupo criminoso. Cabia-lhe formular as propostas de acordos aos líderes dos partidos que comporiam a base aliada do governo. Representando JOSÉ DIRCEU, JOSÉ GENOÍNO, além de conversar com os líderes partidários, convidando-os a apoiar os projetos de interesse do governo, procedia ao ajuste da vantagem financeira que seria paga caso aceitassem a proposta” (fls. 45.144).
Página 53 do relatório do Min. Barbosa.


(...)Para o Ministério Público, “JOÃO PAULO CUNHA desviou, em proveito próprio, o valor de R$ 252.000,00, que pertenciam à Câmara dos Deputados. O crime consumou-se na execução do contrato n° 2003/204.0, firmado com a SMP&B Comunicação” (fls. 45.209).
Página 56 do relatório do Min. Barbosa.

(...)Ainda no âmbito do Banco do Brasil, o Procurador-Geral da República concluiu estar provada a prática dos crimes de peculato, corrupção passiva e lavagem de dinheiro pelo réu HENRIQUE PIZZOLATO, e dos crimes de corrupção ativa e peculato pelos réus
MARCOS VALÉRIO, RAMON HOLLERBACH e CRISTIANO PAZ,relativamente a recursos oriundos do Fundo de Incentivo da Visanet repassados à sua empresa, DNA Propaganda (fls. 45.237).
Página 57 do relatório do Min. Barbosa.


(...)O Procurador-Geral da República assegurou que, seguindo a sistemática de lavagem de dinheiro disponibilizada pelos núcleos publicitário e financeiro da quadrilha narrada no Capítulo II da denúncia e, ainda, da nova estrutura especificamente montada pelos réus vinculados ao Partido Progressista (Capítulo VI.1 da denúncia), “No período compreendido entre os anos de 2003 e 2004, os parlamentares federais JOSÉ JANENE, PEDRO CORRÊA e PEDRO HENRY, auxiliados por JOÃO
CLÁUDIO GENU, receberam R$ 2.905.000,00 (dois milhões, novecentos e cinco mil reais) oferecidos por JOSÉ DIRCEU para votarem a favor de matérias do interesse do Governo Federal” (fls. 45.385).
Página 62 do relatório do Min. Barbosa.

(...)Quanto ao Partido Liberal – PL (Capítulo VI.2 da denúncia), o Procurador-Geral da República afirmou haver prova da prática dos crimes de corrupção passiva, lavagem de dinheiro e formação de quadrilha pelos réus VALDEMAR COSTA NETO e JACINTO LAMAS
(considerando que os corréus colaboradores Lúcio Bolonha Funaro e José Carlos Batista respondem a ação penal perante juízo de primeiro grau) e da prática de crime de corrupção passiva e lavagem de dinheiro pelo réu BISPO RODRIGUES.
Página 62 do relatório do Min. Barbosa.

(...)O Procurador-Geral da República afirma que “O valor fechado, à época, por ROBERTO JEFFERSON com JOSÉ DIRCEU impunha o pagamento do valor de R$ 20.000.000,00 (vinte milhões de reais) para que o PTB aderisse à base de apoio do Governo. Em razão desse acerto, ROBERTO JEFFERSON e EMERSON PALMIERI, em junho e julho de 2004, receberam duas parcelas, totalizando R$ 4.000.000,00 (quatro milhões de reais)” (fls. 45.428/45.429).
Páginas 63 e 64 do relatório do Min. Barbosa.

(...)Por fim, relativamente ao PMDB (Capítulo VI.4 da denúncia), o Procurador-Geral da República assinala, nas Alegações Finais (fls. 45.434): “Ficou comprovado que, no ano de 2003, o então Deputado Federal JOSÉ BORBA recebeu R$ 200.000,00 (duzentos mil reais) para votar a favor de matérias do interesse do Governo Federal”.
Página 64 do relatório do Min. Barbosa.

(...)Quanto ao capítulo VII da denúncia, referente à prática de crime de lavagem de dinheiro por integrantes do Partido dos Trabalhadores, o Procurador-Geral da República sustentou que “o dinheiro obtido pelo grupo liderado por José Dirceu também serviu para o beneficio pessoal de integrantes do Partido dos Trabalhadores – PT”, o que, ainda nos termos da manifestação ministerial, “foi viabilizado mediante o emprego de artifícios com o objetivo de ocultar a sua origem, natureza e real destinatário” (fls. 45.440). Para receber os recursos em espécie, os réus PAULO ROCHA, JOÃO MAGNO, PROFESSOR LUIZINHO e ANDERSON ADAUTO teriam se valido “do mecanismo de lavagem disponibilizado pelo Banco Rural”, enviando intermediários (fls. 45.441).
Página 64 do relatório do Min. Barbosa.

(...)Também teria praticado crime de lavagem de dinheiro o réu PROFESSOR LUIZINHO (então Deputado Federal).
Página 64 do relatório do Min. Barbosa.

(...)Segundo o Procurador-Geral da República, “Provou-se que, no período compreendido entre os anos de 2003 e 2004, ANDERSON ADAUTO, então Ministro dos Transportes, recebeu a quantia total de R$ 950.000,00 (novecentos e cinquenta mil reais) de MARCOS VALÉRIO, por intermédio de JOSÉ LUIZ ALVES, mediante o emprego de artifício destinado a ocultar a origem, a natureza e o real destinatário da vantagem indevida” (fls. 45.454). O Procurador-Geral da República identificou os depoimentos e documentos que comprovariam a tese acusatória.
Página 65 do relatório do Min. Barbosa.

(...)Quanto ao último capítulo da denúncia, o Procurador-Geral da República considerou que “As provas colhidas no curso da instrução processual comprovaram que DUDA MENDONÇA, ZILMAR FERNANDES, KÁTIA RABELLO, JOSÉ ROBERTO SALGADO, VINÍCIUS SAMARANE, MARCOS VALÉRIO, RAMON HOLLERBACH, CRISTIANO PAZ, SIMONE VASCONCELOS e GEIZA DIAS consumaram os crimes de evasão de divisas e lavagem de dinheiro”, relacionados à dívida de R$ 11.200.000,00 (onze milhões e duzentos mil reais), contraída pelo Partido dos Trabalhadores durante a campanha presidencial de 2002 (fls. 45.458).
Página 66 do relatório do Min. Barbosa.

Tendo em vista os escândalos de hoje em dia, os valores parecem até pequenos, não é mesmo?

O problema de sempre

O Prof. Villa escreve artigo no "O Globo" mostrando que a fruta murchou no pé.

segunda-feira, 25 de junho de 2012



The Vaccines - Wetsuit Instagram Video

Fiz uma nova arrumação na oficina, ela está bem confortável e com tudo ao alcance das mãos. Mas é impossível agradar todo mundo. Rafa, o cãozinho shi-tsu da minha filha, já manifestou o seu desagrado, deixando sua marca em todas mesas e armários. Só escapou uma banqueta de plástico. A minha velha mesa reclinável dos tempos em que eu brincava de ser publicitário foi incorporada à oficina. Pensei que o espaço ficaria reduzido, mas as rodas que coloquei nas bancadas e mesas ajudam muito a mudar a configuração rapidamente. É só puxar.

Havia um problema quanto às fontes de energia e acabei improvisando uma solução. com um T e duas extensões de cinco metros. Passei os fios pelo alto, sob o telhado e assim consegui outras duas tomadas para a oficina. Elas ficam dependuradas, o que é super prático e também mais seguro, porque estão fora do alcance das crianças. As power-tools ficam trancadas nos armários.

Dormi pouco no final de semana, devido ao frio forte, que provocou um certo desconforto para as crianças. Ainda está chovendo em Brasília, o que é surpreendente nesta época do ano.

domingo, 24 de junho de 2012

Cadê o relatório do Levanduísque?

O prazo para a entrega do relatório do ministro Lewandovski terminará na próxima sexta-feira, dia 29 de junho. O país espera há sete anos para o início do julgamento dos criminosos do mensalão, marcado para o dia primeiro de agosto.

sábado, 23 de junho de 2012

O observatório


(...)"Durante anos nós nos esforçamos para permanecer num canto obscuro, produzindo o mínimo com o mínimo de esforço, mas com competência, sem deixar margem para questionamentos. Todos nós possuíamos aquele "feeling" para os limites toleráveis de produtividade: nunca aquém e jamais, em tempo algum, almejar o destaque de produzir um pouco além do que seria considerado normal. Chamar a atenção era um erro crasso e primário. Para os tolos que se esforçavam ao máximo, sabíamos de antemão que o futuro lhes reservava uma glória efêmera e um ostracismo duradouro. Seria burrice apressar a chegada dos tempos difíceis. O que nós queríamos e protegíamos essa conquista a todo custo, era o conforto adorável da mediocridade. Para isso, nada melhor do que aprimorar o uso dos jargões e de aprofundar as discussões sobre as menores tecnicalidades."(...)

(...)"Permaneci algumas semanas encerrado em meu cubículo. Escrevia regularmente os relatórios solicitados, às vezes deixando propositalmente pequenos erros de digitação bem evidentes, ignorando o corretor ortográfico do computador. Mas aquele novo pedido exigiria um esforço extra. Eu não poderia falhar.(...)

(...)Desta forma, meu chefe imediato poderia apontar alguns problemas e fingir discutir de forma inteligente comigo, de portas abertas. Durante a conversa ele naturalmente encontraria posição bem visível e audível do lado de fora da sala para pontuar alguns parágrafos e discutir regências verbais ou uma outra firula qualquer. De qualquer forma a encenação seria feita para que ele pudesse deixar claro que havia me corrigido. Era por isso que era o chefe. Ele, por sua vez, deixaria passar outros dois ou três erros para que o supervisor os corrigisse e procedesse da mesma maneira em nova reunião de portas abertas a outros olhos e ouvidos atentos.(...)

(...)Ao chegar à avaliação final do assessor do presidente da empresa, novos erros teriam sido inseridos por supervisores mais especializados em fazer somente o que agrada aos superiores e no final todos ficariam contentes com um texto medíocre e repleto de obviedades, muito parecido com uma série de outros relatórios insossos e monótonos estocados no porão. Mas antes disso, garantida a aprovação final do presidente da empresa na data limite para uso do recurso disponível, seria preciso imprimir e fazer publicar os extensos relatórios a toque de caixa."(...)

(...)Naquele porão infecto, depois de mofar por alguns meses, o material seria enviado para lugares distantes da mala direta desatualizada que custara uma fortuna. Uma vez, por erro de alguém, fui escalado para uma visita técnica para um lugarejo distante, onde deveria verificar o andamento de um dos projetos mal sucedidos que desenvolvíamos. É evidente que não questionei o erro, viajar para trabalhos técnicos está estritamente dentro do limite tolerável da produtividade, até porque as viagens são, em geral, desnecessárias. (...)

(...)Cumprida a via crucis da coleta de assinaturas nas solicitações e autorizações para a viagem, o que também está dentro da faixa mais autêntica da produtividade tolerável, viajei para o tal lugarejo na companhia de outros dois funcionários, a quem conhecia superficialmente. Durante todo o percurso, que demorou quase um dia inteiro entre aeroportos e carros alugados para chegar ao lugarejo, conversamos sobre aspectos técnicos da vistoria. (...)

(...)Os dois funcionários obviamente me consideravam um outsider e me crivaram de perguntas sobre a legislação afeita ao projeto, além de longas digressões sobre decisões de avaliações e de prestações de contas. É lógico que falei o mínimo possível, não só porque era e sou totalmente ignorante sobre as coisas de que falavam, mas porque sabia que bastaria o meu olhar distante e superior, somado a um permanente sorriso de escárnio para que ficassem convencidos de que sabia muito mais do que o conhecimento dos dois somados. E de qualquer forma, aquilo para mim era desimportante. Afinal, eu já havia insinuado que estava ali não para a realização da vistoria, mas para me assegurar e certificar junto ao supervisor de ambos, que eles estavam perfeitamente aptos a desempenhar o papel que lhes competia. "(...)

(...)Ao entrar na sala, não pude deixar de notar o meu relatório sob um dos pés da mesa onde o prefeito esparramara pastas e papéis. Percebi então que o meu trabalho, afinal de contas, servia para alguma coisa.(...)


(Trechos de "O observatório", uma pequena novela na minha gaveta.)




Olavo de Carvalho em dois bons artigos

Dois bons artigos de Olavo de Carvalho, veja trechos:


1 - O poder anônimo

(...)
Em vez de lançar clareza sobre o seu objeto de estudo, muitas vezes as ciências sociais se transformam elas próprias em instrumentos de camuflagem.
...)

2 - A camuflagem da camuflagem

(...)
O vício de tudo querer reduzir a “leis históricas”, “estruturas”, “causas” e outras forças anônimas, suprimindo do panorama os agentes conscientes e todo elemento de premeditação, só tem de científico a aparência enganosa que deslumbra e fascina multidões de estudantes devotados a alcançar, como supremo objetivo na vida, a perfeita macaqueação do discurso pedante sem o qual não se avança na carreira acadêmica.
(...)

Sete dias para o relatório Lewandowski

Faltam sete dias

Para que o julgamento dos mensaleiros comece em 1° de agosto, conforme o cronograma aprovado por unanimidade pelos ministros do Supremo Tribunal Federal, o revisor do processo, Ricardo Lewandowski, precisa entregar seu voto até 30 de junho. Foi o que prometeu.

sexta-feira, 22 de junho de 2012

O armazém turco



3 Hür-El - Sevenler Ağlarmış

A superquadra onde eu passei a maior parte da infância tinha uma rua comercial bem eclética. Eu disparava de skate do meu bloco para a padaria, andando sobre o caminho de terra batida no meio do gramado. Um dia eu, o Jô e o Damassa iríamos construir rampinhas de cimento para melhorar o percurso.

Ao lado da padaria havia uma loja de apetrechos e materiais para rituais religiosos africanos, que a meninada chamava de Loja da Macumba ou só Macumba. O Jô tinha tanto medo da loja que nem passava na frente. Eu também tinha, mas ali era um dos únicos lugares da quadra em que era possível comprar bombinhas e rojões.

Atravessando a rua, bem de frente para a padaria, havia a Comercial de Couros Paulista. Em cima da loja de couros, com entrada pelos fundos, a Escola Benett, onde eu e meus irmãos aprendemos datilografia. Logo abaixo, a lanchonete do Murakami, depois o restaurante Faisão Dourado. Havia ainda uma loja de fotografia com uma enorme logomarca da Kodak. Foi ali que o japonês dono da loja tirou a foto da minha carteira de identidade, que permanece comigo até hoje.

Uma das últimas lojas era um armazém de secos e molhados muito sujo e esmolambento que a gente chamava de loja dos turcos ou só Turcos. Havia um monte deles. Eram magros, esquisitos, com os olhos bem grandes e dilatados e se vestiam muito mal e pobremente. As prateleiras e vitrines dos turcos eram meio vazias e empoeiradas. Nem eu nem meus amigos ligávamos. Ali era o melhor lugar para comprar bombas, bombinhas, rojões, traques, espadas de fogo e o campeão dos campeões, o cabeção número 8, uma bombinha colossal que usávamos para estourar latas.

Contagem regressiva para Lewandowski


FALTAM OITO DIAS.


O Prof. Villa começou e o Augusto Nunes resolveu fazer contagem regressiva todos os dias para a entrega do relatório Lewandowski.

Seria legal se todos os blogs lidos por gente decente aderissem a essa campanha silenciosa.


quinta-feira, 21 de junho de 2012

Eu sou o meu irmão



Pink - Get The Party Started

Eu estou nessa loja de bric-a-brac. Loja de badulaques. Até pouco tempo era assim que chamavam essas lojas de materiais de construção e acabamento. Hoje é home-center. Sempre vejo muitos conhecidos nessas lojas, onde compro pequenas coisas para a manutenção da casa. Eu vejo o conhecido e busco outro itinerário, pego um desvio atrás daquelas prateleiras gigantescas. Não sou muito fã de papo-furado dentro de lojas. Não sou muito fã de papo-furado. Não é que não tenha tempo a perder, é que passo muito tempo sozinho e acabei ficando ruim de conversa. Ou com a conversa ruim, tanto faz. Pra falar a verdade, nunca fui muito bom de papo.

Vou comprar tinta nessa loja. E verniz. Eles agora fabricam um monte de tintas e vernizes diferentes, sem cheiro, à base de água e que secam bem depressa. Prefiro os antigos. Eles empesteiam o ambiente com um cheiro insuportável e tóxico, são difíceis de limpar, grudam no pincel ou rolinho e só saem à custa de muito thinner e aguarraz. Além disso, só podem ser usados se estiver fazendo tempo bom e demoram dias para secar. Mas são bem mais baratos.

Eu estou escolhendo um verniz das antigas, marca tradicional, quando dou de cara com um conhecido. Não há tempo para desvio, não há como evitá-lo. Eu o reconheço imediatamente, embora já tenha se passado pelo menos uma década desde que o vi pela última vez. É um sujeito que fez universidade comigo. Nunca fomos amigos, nem mesmo nos cumprimentávamos direito. Ali, naquele corredor estreito em que nós dois empurramos carrinhos de compras, o cumprimento será inevitável, eu penso, e ensaio um sorriso de cumprimento. Mas o sujeito passa diretamente por mim, como se não tivesse me visto.

Tanto melhor, eu penso, e continuo a empurrar o carrinho. Quando chego ao final do corredor eu me lembro que ainda preciso pegar o verniz e dou meia volta. É quando percebo que o sujeito também está voltando e dessa vez, eu penso, o cumprimento será inevitável. Lá está o meu sorriso protocolar novamente, mas pela segunda vez, o idiota passa direto, o nariz empinado apontando para o alto das prateleiras, o carrinho quase raspando no meu carrinho.

Ufa, eu penso, o pernóstico também não está a fim de papo, ainda bem. E continuo com as compras. Droga, eu penso, o panaca me fez sorrir à toa, os caras das câmeras de segurança devem se divertir com esse tipo de situação. Eu penso em muitas coisas estúpidas, eu sei. Mas em lojas assim, penso sobretudo nos caras das câmeras de segurança. Ficam lá na salinha deles, com trinta telinhas, vendo os caras torcendo o pescoço para olhar as mulheres passando de salto alto. Eles vêm os malucos que ficam tirando coisas de um lugar e levando para outro, trocando as mercadorias de prateleira. Vêm os otários que tentam furtar pequenos objetos. Vêm os homens, mulheres e crianças que se fingem de clientes e que entram na loja para mendigar. Vêm tudo, os carinhas das câmeras de segurança.

E então eu estou no caixa, com o meu carrinho. Sem querer, acabei entrando na fila de quem enche o carrinho de badulaques e bugigangas. É tarde demais para mudar de lugar e ir para o caixa rápido: uma longa fila de carrinhos já se formou atrás de mim. Prefiro continuar onde estou e esperar mais um pouco a dar meia volta e ir na contra-mão de uma dezena de carrinhos.

Talvez tenha sido a minha sorte, o engano com a fila. Eu tinha a leve desconfiança de que teria encontrado o conhecido mais uma vez se tivesse ido para a fila do caixa rápido. E bastou eu pensar nisso para que o sujeito aparecesse na outra fila, a três metros de mim. Dessa vez eu estava distraído e ele também, não deu para disfarçar que havíamos nos visto e reconhecido mutuamente, não adiantava fingir procurar um buraco no teto.

_E aí, como vai? – ele disse.

_Vou bem, obrigado.

_Não está me reconhecendo? – ele disse.

_Claro, você é o ... – eu disse, falando o nome do conhecido.

Ele sorriu de lado e disse que eu tinha me enganado. Na verdade, disse que eu tinha falado o nome do irmão gêmeo dele. Ele me disse então o seu nome e nenhum sino bateu. Eu não me lembrava daquele nome. Também não me lembrava que o conhecido tivesse um irmão gêmeo. Nos despedimos rapidamente e cada um foi cuidar da sua vida. De qualquer forma, fiz uma anotação mental para incorporar um gêmeo de mim mesmo quando fosse abordado por algum conhecido na rua e não estivesse a fim de cumprimentos.

Depois de passar as compras, no meio do estacionamento havia um sujeito ao lado de algumas caixas perto do meu carro. Ele abriu os braços e um largo sorriso assim que me aproximei.

_Doutor, doutor, sou eu, como vai o senhor e as crianças?, e a esposa?, eu espero que tudo esteja muito bem, doutor, eu saí do lava-jato onde eu trabalhava, lembra?, e depois eu não agüentei muito tempo a padaria e agora eu estou aqui, trabalhando duro, doutor, aceite esse aqui, esse, é um presente para o senhor, doutor, o senhor sempre foi muito bom comigo no lava-jato, pegue, é um presente, por favor, é modesto, mas é um presente, doutor, não se recusa um presente, ainda mais um presente como esse, foram bons tempos aqueles na padaria, mas agora a vida é diferente pra mim, eu já tomei jeito depois do lava-jato, ali era só farra, um vidão, agora sou pai de família como o senhor, doutor...

O sujeito se parecia com um monte de sujeitos a quem não damos muita atenção no dia-a-dia e eu fazia um esforço de memória para lembrar de que lava-jato aquele infeliz estava falando. Que padaria era aquela?

_Doutor, doutor, gostou do perfume é um ótimo presente, leve outro, leve outro, leve esse aqui para a sua esposa, é muito bom, ela vai adorar, leve esse então, pegue, pegue, doutor, isso, é seu, é seu, é um presente, dê um presente para ela, doutor, e também me dê uma força, qualquer quantia que o senhor puder, doutor.

Só então percebi que o sujeito estava me vendendo perfumes.

terça-feira, 19 de junho de 2012

Uma polêmica interessante



Get the party started - Shirley Bassey

Excelente a polêmica entre Reinaldo Azevedo e o economista João Manoel Pinho de Mello. Os jornais, rádios e tvs andam tão vazios de discussões inteligentes ou burras que nem liguei para as cutucadas que aplicaram um ao outro. É bem verdade que Reinaldo Azevedo cercou o professor no corner e sapecou-lhe uns golpes abaixo da linha de cintura. Mas o professor da PUC-RJ também tentou dar carteirada e chegou a tirar uma calculadora científica do bolso, eu vi. Como a discussão extrapolou para um monte de outros blogs, ficou melhor para os leitores. Eu me diverti pacas lendo comentários e mais comentários de gente que, como eu, não sabe xongas de Adam Smith mas adora ver vale-tudo.

Depois de ler uma quilombada de opiniões, estou com a maioria, Reinaldo Azevedo venceu por pontos, depois de aplicar pelo menos um par de ganchos no professor.

O bolsa-família é importante. Em São Paulo, com uma população de 41,2 milhões de pessoas, a bolsa beneficia cerca de 1,2 milhões de famílias. É gente pacas. Mas convenhamos, neste país a polícia não funciona, a escola não funciona, a justiça não funciona, os hospitais não funcionam, a infra-estrutura é uma droga, as instituições estão em frangalhos e a corrupção é epidêmica.

Mas voltemos à pesquisa. Será que 32 ou 306 reais mensais fazem toda a diferença no abismo das desigualdades sociais e econômicas do país, especialmente nas grandes cidades? Será que 306 merrecas mensais podem ajudar a reduzir a criminalidade? E em quanto?

As perguntas são pertinentes e interessantes e motivaram a realização da pesquisa. Reinaldo Azevedo empombou com a motivação, com a metodologia, com os resultados e com o uso político da pesquisa, chamou tudo de bobagem. O professor não gostou e declamou títulos e medalhas recebidas antes de começar a responder. Se atrapalhou e foi prolixo. Qualquer pessoa que for dar uma entrevista deve meter duas regras de ouro na cabeça: fale pouco; só responda o que for perguntado.

O mecanismo derivado da bolsa-escola(que exigia a contrapartida da frequência às aulas) foi deteriorado. O bolsa-família é dinheiro na mão, que é vendaval, como já cantou Paulinho da Viola. É programa só de entrada, continua o problema do que fazer depois, para que as famílias não continuem a precisar do programa. E isso fica ainda mais difícil se as instituições se deterioram. Hoje, depois do PAC 1, do PAC 2, do PAC 3, e do eu quero TCHU, eu quero TCHAN, assim como aquelas antigas obras emergenciais contra a seca, o bolsa-família é só mais uma moeda eleitoral.

A verdade é que não existem políticas públicas no país. O que existe são dezenas de programas mequetrefes e chinfrins, lançados com estrondo e propaganda cara a cada semana, mas com resultados discutíveis ou jamais apresentados. E não existem políticas públicas porque não existe um projeto para o país. E se ele existe, não está visível na peça orçamentária. Qual é a nossa meta? Qual é a meta do governo atual? E do governo anterior, quem lembra? E todos aqueles compromissos, creches incluídas, em que pé estão? Melhoramos nossas escolas ou elas volta e meia estão em greve? A polícia, volta e meia está em greve? Os médicos estão em greve? O judiciário está em greve? Pô, os servidores públicos estão entrando em greve? (Não é que eu seja contra greve, mas isso parece revival do final dos 80) Recuperamos nossas estradas? Ampliamos os portos e aeroportos? Construímos tudo o que precisamos e agora vamos fazer estádios?

Boa parte da discussão do que se quer para o país poderia estar acontecendo dentro das universidades, tradicional local de discussão de alto nível das questões nacionais. Mas hoje isso já não ocorre, a despeito das 55 universidades federais estarem em greve. Por isso, achei ótimo ver uma produção acadêmica virar tema de debate num blog de longo alcance.

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Desdar



Gorillaz - On Melancholy Hill

Sou um péssimo etimologista. Nem procuro disfarçar, essa não é a minha praia. Não corro para o dicionário para buscar a origem das palavras. Não manjo nada de latim. E também não estou me jactando da minha própria ignorância.

Lembro de um programa de rádio que vivia fazendo piada sobre o surgimento de algumas palavras. Era um quadro besteirol super-divertido chamado Assim Disse Onário. Um dos mais famosos contava a origem da palavra computador, que teria sido criada por estivadores portugueses cansados de carregar as máquinas que chegavam dos navios japoneses.

Minha filha, que é tão ou mais criativa que um estivador português, outro dia inventou o verbo desdar, que significa tomar de volta aquilo que se deu a outra pessoa.

_Mas, filhota, o que está dado, está dado, não tem mola, não pode voltar atrás - eu disse.

_Claro que pode, paiê. Você vive tomando o nintendo de volta - ela disse.

_Mas é diferente. Eu não pego de volta, só fico com ele um pouco, até passar o castigo- eu disse.

_Não é diferente, paiê. E não é só o nintendo. Você me desdeu o canivete também.

_Cani...não, senhora, o canivete eu disse que só pode brincar enquanto eu estou por perto. Não é para exibir para as amigas.

_Viu, paiê? Isso é a mesma coisa que desdar. Se você me dá uma coisa, mas eu não posso ficar com ela, de que adianta?

Ela tem razão, eu sei. O desdar é um verbo defectivo, muito conjugado no modo imperativo pelos adultos.



domingo, 17 de junho de 2012

Cartão de presente



Alicia Keys and Jack White - Another way to die

É só uma impressão, é claro, mas às vezes acho que tudo nos convida à imobilidade. A profusão de coisas já criadas, toda a explosão de criatividade e inventividade alheia é um belo convite para ficarmos parados. Somos acostumados a ser apenas consumidores, espectadores, ouvintes, leitores, provadores, degustadores, etc. Eu mesmo gosto muito de ser leitor, especialmente porque dá menos trabalho. Mas já desenvolvi o hábito de escrever diariamente, o que me garante a dose diária e necessária do exercício da liberdade de pensamento. Sem isso, o dia não termina bem.

Demorei a tomar consciência de coisas simples e elementares associadas à escrita. Uma das primeiras coisas é que, como qualquer outra atividade física, escrever exige um pouco de aquecimento antes de se partir para a coisa em si. Às vezes realmente dá certo de primeira, mas em geral é preciso desistir e jogar fora algumas linhas ou mesmo parágrafos e folhas inteiras. Isso pode ser especialmente frustrante se você jogou dezenas de linhas fora durante a noite e o relógio marca que já passa da hora de dormir. Mas a escrita também surge da análise e superação diária das frustrações mais íntimas, dos pensamentos mais tortos e desatinados que temos a todo instante, então deixe de frescura e trate de rabiscar logo as suas coisinhas.

Também demorei a descobrir que não adianta enfrentar o relógio e deixar a canseira de lado. O corpo e a mente cobram todos os nossos esforços, o melhor, pelo menos para mim, é retomar a coisa no dia seguinte com disposição renovada.

Uma das maiores besteiras em relação a escrever é tentar evitar o clichê em nome da originalidade. Esqueça isso. Primeiro é preciso escrever, só depois de se ler tudo, dias, meses ou anos depois é que a avaliação quanto à originalidade deve ser feita.

Todas essas questões, é claro, surgiram quando eu estava pensando num cartão de presente de casamento do filho de uma grande amiga.

_Felicidades ao jovem casal - eu escrevi, depois de garatujar uma dúzia de folhas A4.

Mostrei para a minha mulher com um ar de triunfo.

_Putz, tem dois dias que você tenta escrever este cartão e só conseguiu quatro palavras? Me dá isso aqui - ela disse.

_Talvez fosse melhor só "Felicidades ao casal", né? É óbvio que ele são jovens - eu disse.

Ela disse que não e num instante redigiu um belo cartão de presente de casamento, uma daquelas mensagens edificantes que parecem tocar o coração da gente e de repente, de tão bonitas, agarram uma carótida e apertam até doer um pouco e a gente se sente mais humano e cheio de esperança de que existe mesmo a felicidade e é preciso sempre pensar na propagação da espécie.

_Uau - eu disse.

Talvez seja mesmo simples assim: quem pensa sobre suas frustrações, pode escrever sobre elas; quem se permite pensar em coisas maravilhosas será capaz de escrever sobre elas.

Dissecando o STF

O Prof. Villa disseca os problemas do STF.

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Pequeninas impressões



The Black Keys - Howlin´ for you

Às vezes fico pensando no início.

Nunca li "O beijo no asfalto", de Nelson Rodrigues. Também não assisti à peça ou vi aos filmes. Mas sei que a trama começa quando um homem atende ao último pedido de um moribundo e o beija na boca, ainda no lugar onde o sujeito acaba de ser atropelado. E se acontecesse comigo? Bom, sou meio surdo de um dos ouvidos.

Trópico de Câncer de Henry Miller, começa com uma citação de RalpH Waldo Emerson: " Estes romances cederão lugar, pouco a pouco, a diários ou autobiografias - livros cativantes, desde que um homem saiba escolher, entre o que chama de suas experiências, aquilo que é realmente sua experiência e saiba registrar verdadeiramente a verdade." Eu bem que tento.

O ótimo "Da mão para a boca", de Paul Auster, começa com a seguinte frase:"Dos vinte e muitos aos trinta e poucos anos de idade, passei por um longo período em que tudo que eu tocava dava em fracasso." Meu longo período está começando.

Bem no comecinho da palestra "O enigma da poesia", Jorge Luís Borges diz que não tem revelações a fazer. "Só posso lhes oferecer dúvidas." E eu? Tenho que ir com calma, ainda estou na fase de construir as primeiras perguntas.

Naquele conto do Sam Sheppard, do livro "Grande sonho do céu", há um cartaz que diz "A VIDA É O QUE ESTÁ ACONTECENDO ENQUANTO VOCÊ PLANEJA OUTRA COISA". E acontece que isso é a mais pura verdade.

"Não há futuro suficiente para todos", garante Tibor Fischer em "A gangue do pensamento". Ele tem razão, tem razão.

"Cretino", pensa Jack Torrence, na primeira linha de "O iluminado", de Stephen King. Sim, na maior parte das vezes eu me acho um cretino.

"É estranho que os benfeitores da humanidade sejam pessoas engraçadas. Pelo menos na América, isso acontece quase sempre. Quem quiser governar o pais tem que diverti-lo" - escreve Saul Below na primeira página de Ravelstein. Por aqui também temos piadistas de sobra.







quinta-feira, 14 de junho de 2012

Acidentes


Parov Stelar - The Princess

O jardineiro dos meus pais caiu da escada no início do mês. Estava bem alto. Digo, estava nas alturas, ele não bebe, nem nada. Subiu numa longa escada para lavar alguma coisa, se desequilibrou e caiu. Teve sorte de não quebrar nada. Meu pai o levou a três hospitais próximos. Não conseguiu atendimento, embora digam que temos o melhor sistema de saúde pública do mundo há mais de oito anos. Só depois eu soube que o jardineiro subiu a escada carregando uma lavadora de pressão. A máquina se espatifou, não tem mais conserto.

Depois, ainda na primeira semana do mês, as crianças ficaram gripadas. As noites ficaram mais frias e um pequeno descuido deixa todo mundo de nariz pingando. Em seguida, minha filha trouxe o aparelho ortodôntico quebrado da escola. Ela disse que não fez nada, o aparelho simplesmente se partiu dentro da sua boca. No dia seguinte foi a vez do meu filho. Ele deixou o aparelho sobre o sofá e o Rafa não perdoou. O cãozinho shi-tsu quebrou o aparelho com uma mordidinha de leve.

Nesse mesmo dia, durante os preparativos para um novo projeto na oficina quebrei três brocas de madeira. Na última, por sorte e também porque estava usando luvas tive somente um arranhão no polegar. A luva já era.

Ontem foi terrível. Alguma coisa falhou no carro da minha mãe. O Corolla disparou de ré numa velocidade absurda. O carro se chocou contra o pneu de um caminhão estacionado na frente da garagem. Foi a sorte. A batida foi contra a enorme roda de borracha e o eixo do caminhão. Em qualquer outro veículo o estrago teria sido maior. Felizmente, minha mãe não se machucou. A traseira do carro "abraçou" a roda do caminhão.

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Pedro, o Lobo e o mentiroso



Stevie Wonder & Jeff Beck - Superstition

Aprendi a história de Pedro e o Lobo quando era só um menino. Você sabe, é uma história curta.

O pastorzinho de ovelhas, para espantar o tédio, sai gritando por socorro: eu vi um lobo, socorro, me ajudem! Os aldeões correm em seu auxílio. Quando descobrem que é mentira, ficam fulos de raiva.

O pastorzinho acha graça e resolve repetir a brincadeira: um lobo, eu vi um lobo! Os aldeões voltam a correr para ajudar o pastor. Mas é mentira, novamente. Nem precisa dizer que ficam furiosos.

Na terceira vez, o lobo vem e começa a matar as ovelhas do pastorzinho. Desesperado, ele grita por socorro vezes e vezes: um lobo, um lobo! Mas nenhum aldeão corre para ajudar o pastor. Ele perde todas as ovelhas, uma a uma todas são estraçalhadas pelo lobo.

A moral da história é que a mentira acarreta consequências desastrosas para o mentiroso.

Aprendi também que o mentiroso é detestável não somente por causa do seu senso de humor grotesco, mas porque invariavelmente nos faz perder tempo e rouba nossos melhores esforços. Por isso, o mentiroso é um ladrão. O mentiroso também estraga o nosso senso de coletividade, a nossa propensão a ajudar os outros, a boa fé e a boa vontade para com nossos semelhantes. O mentiroso é um traidor da boa índole. O mentiroso é baixo, é escrotal, é alguém que trata a confiança com desprezo.

Nem sempre é fácil reconhecer um mentiroso. Eles são ardilosos, às vezes são simpáticos e aparentam ser tão inofensivos quanto um pastorzinho de ovelhas. A verdade é que os mentirosos são perigosos, contraproducentes e promotores do prejuízo alheio.

Do mesmo modo, nem sempre é fácil reconhecer uma mentira.



Mudança na História


A história será outra?

terça-feira, 12 de junho de 2012

Ray Bradbury



Stevie Ray Vaughan - Superstition

Ray Bradbury morreu e eu fiquei calado. Adorava seus livros. Li e reli Crônicas Marcianas vezes sem conta, era o meu predileto. Na minha estante, em lugar de destaque, há uma grosso volume em papel jornal dos cem contos mais célebres de Bradbury, em inglês. Foi o primeiro livro que comprei pela Amazon, ao custo de 17 dólares e 95 centavos. Mais do que os contos, o livro possui uma bela introdução do próprio Ray Bradbury. Nesse pequeno texto, ele explica como algumas de suas histórias surgiram e declara de maneira muito fingida que para ele escrever não era uma coisa que planejasse ou programasse, era somente uma coisa que fazia.

Bradbury diz que as cem histórias do volume o arrebataram nas mais estranhas horas e que ele se sentia obrigado a escrevê-las antes que saíssem da sua cabeça. Em seguida, ele fala da amizade com John Houston, na época das filmagens de Moby Dick, do qual foi o roteirista. O filme foi rodado na Irlanda, onde todas as noites diretor e roteirista enchiam os cornos de whiskey na frente da lareira.

Lá pelas tantas, depois de muitas histórias, goles e risadas, Houston iria parar e escutar com atenção os ruídos do lado de fora. E em seguida, começaria a chorar e a apontar para a janela dizendo que os espíritos (banshees) da Irlanda estavam lá fora e que talvez fosse melhor Bradbury ir verificar o que as criaturas tanto queriam. Foi isso que ele fez, todas as vezes. Foi verificar o que tanto queriam os espíritos, os anjos e demônios da sua imaginação. Ele tinha que fazer isso rápido, antes que tudo desaparecesse da sua cabeça, é claro.

Era tudo verdade. Nas suas Crônicas Marcianas, Bradbury também fala de fantasmas e da lembrança de uma antiga civilização. Em Fahrenheit 451, os livros estão sendo queimados mas alguns malucos decidem salvá-los em suas memórias.

Escreveu mais de trinta livros. Trabalhou pacas. Suou a cabeça. Descanse em paz, Ray Bradbury.




sábado, 9 de junho de 2012

Precisamos de um escandalômetro



Beat!Beat!Beat! - Fireworks

Jantamos no aeroporto. Fomos esperar minha mulher, que estava participando de um congresso em outra cidade. Meu filho decidiu que o aeroporto era o melhor lugar para o jantar de hoje. Chegamos às sete da noite no aeroporto. Não havia lugar no estacionamento. Escolhi uma fila para esperar alguém sair para pegar uma vaga. Dei sorte, só esperamos três minutos.

Minha mulher chegou cansada, mas topou o jantar no aeroporto. Estava lotado. Encontramos uma mesa livre por pura sorte. O menino quis macarrão. A menina pediu um prato em outra lanchonete. Observamos as crianças comer. Eles gostaram.

Na saída do estacionamento, motoristas buzinavam. Alguém havia se esquecido de pagar e isso criou uma tremenda confusão.

_É torcedor da Argentina - gritou um sujeito para um outro que buzinava feito louco. A seleção perdeu para a grande rival mas já não se fala em troca de técnico. Gosto mais de ver a seleção olímpica do que a que é considerada principal. No jogo de hoje, os garotos mostraram que estão com sede de bola com algumas boas jogadas. Mas a Argentina, como sempre, tem mais sentido de equipe, joga com o objetivo de ganhar e conta com jogadores muito bons, com destaque para Messi, é claro.

Leio as notícias na internet. Morreu o Ivan Lessa, gostava de ler suas crônicas. Mais uma denúncia de corrupção no Banco do Nordeste. Um monte de denúncias contra a UNE.

Não se passa um dia sem que surja um novo escândalo. Em geral, não acontece nada. Alguém devia inventar um "escandalômetro" eficiente ou no mínimo mapear as denúncias de roubalheira no país. Poderiam botar um desses institutos fulanos de tal para fazer essa coisa. Eu imagino um escandalômetro parecido com o "índice de maldade" do Stich, naquele desenho animado da Disney. Você sabe, Lilo não está satisfeita com o comportamento agressivo do Stich e desenha uma silhueta do alienígena. A cada maldade de Stich, Lilo enche um pouco silhueta. Até que Stich faz uma grande besteira e Lilo trata de encher o contorno da figura. Nem precisa dizer que Stich fica furioso e destrói o medidor de maldades.


quinta-feira, 7 de junho de 2012

Recreio

Li no jornal da capital brasileira que uma menina de 13 anos foi estuprada três dias seguidos pelos colegas, dentro da sala de aula, dentro da escola pública onde estuda. Li de novo para entender. Depois é que caiu a ficha. A menina era currada durante o recreio. No primeiro dia eram três ou quatro, nos dias seguintes o número aumentou. Fiquei estarrecido.

Conversei sobre o assunto com a minha mulher. Ela me conta sobre uma pesquisa que alguém está fazendo sobre as escolas públicas daqui. Os pesquisadores observaram o recreio de uma das escolas parecida com a da menina que sofreu o estupro, talvez mais bem colocada no ranking das escolas públicas, talvez com meninos e meninas com maior renda média familiar. Pouco importa. Em todas as escolas públicas é a mesma coisa e em algumas particulares também.

O recreio é uma zona de guerra aberta. Os professores se refugiam na sala dos professores e pronto. Não há bedel. Não há nenhum tipo de supervisão ou controle adulto. Adolescentes molestam crianças. As perseguições e pancadaria acontecem a todo instante. Drogas. Bebida. E o cantinho do amasso. Nesse cantinho, os adolescentes formam um círculo em volta de um casal ou de vários casais. Ali dentro vale tudo.

As crianças e adolescentes que notavam a presença dos boquiabertos pesquisadores diziam que aquilo não era nada. Que aquele era um dia tranquilo. Nos outros dias aconteciam coisas bem piores, bem piores.

O que pode ser pior?

Quem consegue estudar numa escola em que o recreio é uma zona de guerra e a sala de aula é local de estupro?

Quem se importa?

Pois é, eu também me defendo como posso e torro uma boa grana mensal com a escola das crianças. Mas já vimos esse filme com os hospitais públicos. Eu também encarei o plano de saúde caríssimo com a expectativa de escapar do inferno da saúde pública. Mas hoje, na capital da república, as filas particulares e públicas são equivalentes e o descaso, similar. Com o transporte é a mesma coisa. O público foi para o espaço, investimos no carro próprio e hoje ninguém mais consegue andar direito. De segurança nem se fala.

Não está fácil para ninguém. E é por isso que é tão chato ouvir essas propagandas cor-de-rosa e mentirosas dos governantes. Será que não cansam?


Salve-se quem puder



The Black Keys - The Only One

Augusto Nunes em texto maravilhosamente tsunâmico.

quarta-feira, 6 de junho de 2012

É ela, estúpido!

Ela vai mal e o Prof. Villa lista algumas questões que deveriam estar no centro do debate político.

terça-feira, 5 de junho de 2012

Tênis iguais aos meus



Interpol - C'mere

Encerrei a programação de projetos de maio com cinco dias de atraso. O último, a repintura da parede e teto da sala, foi concluído hoje com a ajuda do jardineiro. Ele fez um dia extra como pintor de paredes. Foi mais barato. Um pintor cobra 150 guinéus/dia e sempre deixa trabalho para o dia seguinte.

Dentre todos os projetos faltou fazer o curso de navegação e consertar o recente problema na válvula da descarga do banheiro da Rose, algo que exige algumas modificações na rotina diária, além de uma folga orçamentária ainda não disponível.

A casa está linda, digo sem modéstia nenhuma. Hoje me peguei feliz da vida saboreando um pedaço de maçã no meio da tarde, enquanto ajudava meu filho a fazer o dever de casa. Ele andou passando mal e resolvemos deixá-lo em casa, em observação. Fizemos uma pesquisa para a aula de música. A professora havia pedido uma página escrita sobre o estilo musical que ele mais gostasse. Ele queria escrever sobre rock´n´roll, então ficamos vendo um monte de vídeos no Youtube. De tempos em tempos ele pedia pra parar e escrevia uma frase. Fez uma boa redação. É intuitivo, rápido e tem uma bela capacidade de síntese. Depois que terminou leu o texto inteiro para mim. Fiquei orgulhoso e disse que tinha gostado do seu trabalho. Depois ficamos vendo os vídeos das músicas que ele gosta. Quase todas são músicas de fundo dos videogames. Foi nessa hora que me senti super-feliz. Fiquei pensando que se não fosse um pai que fica em casa, jamais poderia curtir uma coisinha tão besta quanto ajudar o filho com a lição de casa no meio da tarde, no início da semana. Depois me senti triste por estar em casa há tanto tempo, mas não dei muita bola, preferi me sentir feliz.

Com o início do mês, é preciso fazer novos projetos, estabelecer uma nova programação para não deixar o tempo escorrer entre os dedos e transformar a cachola em oficina de diabos ensandecidos. Para começar, há a reforma da velha mesa elíptica que estava na casa da minha cunhada. Comecei a recuperação daquela prancha de surf na semana passada, mas é preciso nova lixação e pintura. Outro projeto é a mesa da área externa que fiz para a minha mãe. Não ficou legal, vou refazer tudo. O projeto dos troncos que viraram mesinhas de apoio com rodas será ampliado, acho que farei mais duas. Também estabeleci um deadline para o livro de crônicas e para o outro, ainda sem título. De repente me deu uma pressa danada de esvaziar armários e gavetas. Às vezes acho que sou meio ciclotímico.

Ao mesmo tempo, encontro bons livros na estante. Me deparo com Sunset Park, de Paul Auster. Alguém me deu em inglês. Outra pessoa me deu em português. Acho ótimo. De manhã leio em português. À noite, leio em inglês o que li pela manhã. Volto a desenhar, aos poucos vou desenferrujando. Continuo por aqui. Descobri que Maria Eugênia fez uma história em quadrinhos. Paulo Bono continua firme. Esfarelando ainda escreve, de vez em quando. Vou no Selva todos os dias, é incrível como está antenado com tudo o que acontece. Vou no Facebook, mas quase nunca posto nada ali, acho muito invasivo. Aquele cara do Estuário manda bem. Franka escreveu um romance, tomara que o publique.

Um amigo de longa data me prometeu um trabalho, mas não ligou de volta. Outro amigo me deu um telefone e pediu para que eu ligasse, mas não me atendeu em nenhuma das cinco tentativas. Uma amiga me disse para procurá-la, que existia uma possibilidade. Eu a procurei e a ela me disse, constrangida, que não existe possibilidade. Me pediu desculpas. Quando saí daquele escritório sentei no meio-fio, do lado de fora. Olhei para a frente e vi um par de tênis pendurado nos fios. Eram iguais aos meus, iguaizinhos.





O fim da literatura




Moby - Temptation

Olavo de Carvalho afirma que a literatura brasileira já se acabou e ninguém notou.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

O fim do poeta



Editors - Munich

Nós tivemos uma manhã difícil no sábado, com aquelas conversas de marido e mulher. Era alguma coisa sobre a influência excessiva de um sobre o outro que acaba em controle e domínio. Sei que os ânimos se exaltaram um pouco, mas somos adultos civilizados e responsáveis, soubemos abaixar a bola e buscar o diálogo. Decidimos fazer uma coisa juntos, uma coisa cooperativa. Isso sempre funciona. Como era preciso sair para comprar um presente de aniversário para a minha mãe, aproveitamos para unir o útil ao agradável. Fomos ao pólo verde, uma área cheia de lojas de plantas e flores que fica perto de casa. Passeamos longamente, olhando plantas, móveis rústicos, flores, pedras, peixes, mesas, cadeiras, velas, luminárias, candelabros, treliças, sementes, mudas e estranhas fontes de barro pintado. Compramos uma orquídea linda para minha mãe. Andamos em todas as lojas do pólo verde até encontrar o vaso certo. Olhamos uns trinta modelos diferentes até que eu e a minha mulher concordamos com um vaso pintado à mão e meio vitrificado.

_Você sabe quem é o dono dessa loja? - eu perguntei para a minha mulher, enquanto ela pagava o vaso.

_É aquele senhor ali atrás, de cabelo liso branco, óculos de John Lennon - ela disse.

_Eu sei, eu sei, disfarça que ele está olhando pra gente - eu cochichei.

_Que nada, está falando no celular, nem está vendo a gente.

Era verdade. Ele discutia o preço de alguma coisa com alguém. Mesmo assim, eu assobiei baixo e saí da loja disfarçando.

_Qual é o problema? - disse a minha mulher, cochichando também.

_Nenhum, é que ele é um cara famoso, o dono da loja.

_Famoso, é? Nunca vi mais gordo - disse a minha mulher.

_É um poeta famoso. Fazia parte da Geração do Mimeógrafo. Estudamos ele na escola. Eu sabia uma porção de versos dele.

_E como é o nome dele?

Eu disse o nome completo do poeta. Minha mulher me disse que nunca tinha ouvido falar.

_Eu achava esse cara o maior gênio. Quem diria, o poeta agora vende plantas.

_E vasos, também. Por quê você não falou com ele?

_Falar o quê? Dizer que achava ele um grande poeta? Pedir um autógrafo? Tietar o cara dentro da loja dele?

_E por quê não? Quem sabe ele não dava um desconto no vaso?

_Sei. Eu recitava uns versos do cara e pedia um desconto! Mas que idéia!

_Estou só brincando, eu sei que você é incapaz de puxar conversa com as pessoas.

_Êpa, de repente entrei na berlinda. Nada disso, eu converso numa boa com qualquer ser humano.

_Então vamos lá conversar com o poeta, quero ver!

_Vamos lá, então - eu disse. Dei dois passos na direção da loja e parei.

_Já desistiu?

_Como você consegue fazer isso? É incrível - eu disse para a minha mulher.

Eu olhei para dentro da loja e lá estava ele, o poeta da Geração do Mimeógrafo. Lia um jornal, totalmente absorto. Tinha uma cara de quem não me daria desconto nem se eu declamasse suas obras completas equilibrando pratos. Tive vontade de entrar lá e perguntar se ainda fazia poesias. Mas parecia óbvio que não.

Seculares


Como se sabe, todos os seculares problemas brasileiros continuam seculares e brasileiros.

domingo, 3 de junho de 2012

sábado, 2 de junho de 2012

Boy parede



Rufus w/ Chaka Kahn - You Got The Love

Essa é dos tempos em que ia para a festinhas e ficava grudado na parede, sem coragem para cruzar a sala e chamar a Flávia Tatiana para dançar.

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Frase do dia


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