quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Lobo



Santigold - "Disparate Youth"

Choveu, depois de dias fazendo um calor dos infernos. Achei que a temperatura ia melhorar, mas continua quente pacas. Felizmente, compramos ventiladores novos. É, não tinha ar-condicionado em promoção. Minha mulher escolheu um ventilador que é mais que um ventilador, é um climatizador portátil silencioso com umidificador e esterilizador ambiente, repelente de insetos e desionizador atmosférico. Putz! Só faltou tocar MP4, eu pensei. Na primeira noite de testes do novo ventila(sim, aqui em casa nós também gostamos de comer um pedaço das palavras) ele passou raspando. Ele umidificou, ventilou, repeliu insetos e desionizou a atmosfera direitinho, só que não foi muito silencioso. Fui verificar o aparelho no dia seguinte e descobri que as aletas de plástico estavam ressecadas. Descolei um óleo Singer emprestado da minha mãe e zip, o barulhinho sumiu. Na segunda noite, o ventila foi bem melhor. Ainda mais porque nós usamos o tijolinho de congelado no recipiente, conforme as instruções.

A coisa com o calor teria parado por aí, mas a temperatura durante o dia estava de matar, o escritório parecia a ante-sala de um dos assessores menos importantes de Lúcifer. Eu não estava conseguindo nem pensar direito. Tentei descer o ventila, mas era preciso retirar o recipiente, descer as escadas, etc. Tive uma visão da minha vida de carregador de ventila para cima e para baixo e pensei comigo mesmo, nobody deserves! Não, senhor, ninguém merece! Então voltei à mega-loja com promoções de ventiladores e lá estava ele, o negão, o maior e mais potente ventilador jamais criado pela tecnologia nacional. Simples, direto, tranquilo e infalível. O bicho tem três velocidades e ponto. Mas é silencioso como a víbora que acabou com a Cleópatra, e nem tem linguinha que faz pffft!

Então hoje, no auge do calor, pouco antes da chuva, eu já estava numa boa, no escritório, curtindo The Big Black Fan. Uso na velocidade mais baixa que é para não voar papel pra todo lado. As crianças gostaram tanto dele que já colocaram um apelido: lobo.

_Ele vai soprar, soprar e soprar!

E sem fazer barulho.

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Ainda é tempo



New Order - Temptation '87

"Living Worst Nightmare" é o nome do cara que colocou esse vídeo no Youtube. Ele teve o cuidado de fazer 390 uploads. Eu nunca fiz nenhum. Ainda vou fazer. Também vou escrever o "1001 vídeos que você deve colocar no Youtube antes de bater as botas".Já tenho um monte de vídeos prontos. Ou quase. Uma das coisas que ainda faltam é o nome. E roteiro. Gosto de fazer vídeos de um take só, eu ligo a câmera e deixo rolar, ajo naturalmente. Isso não muda muita coisa porque fico atrás da câmera, filmando. Outra complicação é que o meu nome de verdade não é muito artístico. Não quero usar Careca, parece falta de imaginação. Além disso, já tem um monte de Carecas no Youtube. Não quero ser Careca###, seguido de um monte de números. Isso é coisa de Metralha. E todos os nomes bons como "Living Worst Nightmare" parecem ter sido usados. Isso não é ironia. O apelido escolhido já passa uma mensagem sobre a personalidade da pessoa. Você não aguentaria cinco minutos na companhia de um sujeito assim, mas ele tem uma seleção musical razoável. E 390 músicas já é um legado.

O cara chega em casa, depois de um dia difícil no trabalho e prepara o upload. Não, tem sempre muito mais coisa. O cara chega depois do trânsito, do horário de verão, do fast-food, dos black blocs, e dos malfeitos dos poderosos que todos os dias aparecem nos jornais. Não é brincadeira. Se eu usasse um chapéu, eu tiraria para todos esses uploaders abnegados que upam (do verbo upar) trocentos vídeos que todo mundo deveria ver pelo menos uma vez na vida. Eu vejo um monte, todos os dias. A maioria não chega à metade, tem coisa muito ruim. Assisto uns três ou quatro até o final. Um ou dois vou assistir mais de uma vez. Mas os meus vídeos prediletos não são os musicais, nem os desenhos animados e nem os com trechos de filmes e seriados. Eu me amarro mesmo é nos vídeos do tipo faça você mesmo.

Adoro os videos de marcenaria. Fico admirado com a simplicidade e alta capacidade de comunicação que alguns legítimos artesãos exibem na Internet. Falo de amadores brazucas e estrangeiros. São pessoas simples, humildes mesmo, que possuem grande habilidade e capacidade de improviso. Os brasileiros conseguem passar seus recados vencendo todas as adversidades possíveis, da ausência de equipamentos adequados, à total falta de infra-estrutura. Lógico, há sempre um grupo de pessoas super-produzidas, mas a maioria é de abnegados que estão realmente felizes por compartilhar o que sabem fazer.

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Alô, Snoopy!



Pixar's Presto

Eu gosto de cachorros. Já tive pastores, boxers, vira-latas, filas e agora temos um shi-tzu. Uma das irmãs da minha mulher tem uma cadela beagle, chamada Princesa, que está um bocado acima do peso e bem velhinha. O beagle, dizem, tem um dos relógios caninos mais acelerados, não costuma passar de 10 anos. De acordo com os donos, se fosse humana, Princesa teria uma idade aproximada de 80 anos. Não sei se isso é verdade, mas ela parece mesmo envelhecida e tem aquele ar tristonho ressaltado pelas orelhas de abano murchas, tocando o chão de leve, de vez em quando. Princesa manca um pouco e desperta em quem a vê um misto de piedade e solidariedade. E ainda tem o porte altivo, de princesa nobre que fugiu da revolução. Se ela for atravessar a rua você para o carro e vai ajudar, com certeza.

Mesmo sabendo a profusão de bons sentimentos que um beagle é capaz de despertar no ser humano, não consegui entender a invasão ao Instituto Royal ocorrida na semana passada. Para mim, a invasão, os estragos e os furtos de animais(a pretexto de resgate) foram crimes brutais praticados contra o Instituto, os pesquisadores e o bom senso. Também acredito que os criminosos causaram terríveis danos e sofrimentos aos animais surrupiados, por desconhecimento do histórico de cada bicho, por ignorância dos testes e experimentos realizados e em realização em cada um dos beagles roubados. Um dos animais furtados, li em algum lugar, foi oferecido à venda na internet.

Cientistas e pessoas do mundo acadêmico brasileiro têm obrigação de se manifestar para dizer o óbvio: os animais são imprescindíveis para a realização de testes, experimentos e pesquisas. Pessoas comuns como eu também têm obrigação de dizer que não querem que pretensos defensores de bichos pratiquem crimes e permaneçam impunes. Os ladrões e vândalos que invadiram o Instituto, quebraram as coisas e surrupiaram os cachorrinhos devem ser responder por seus crimes.

O episódio me lembrou duas coisas. A primeira foi o Snoopy, aquele cachorro pianista e filósofo inventado por Charles Schulz para a Turma do Charlie Brown, o menino amendoim existencialista adorado até por Benito de Paula. Charlie é o eterno perdedor, o menino esperançoso, determinado e simpático que não ganha nenhuma, especialmente de Lucy, a menina dominadora e manipuladora que nunca deixará Charlie acertar o chute na bola de futebol americano. Ela sempre irá tirar a bola no último milésimo de segundo. Snoopy dormia sobre a casinha porque gostava de olhar para as nuvens e sonhava em ser um grande e combativo aviador, uma espécie de barão vermelho das casinhas de cachorro com asas. Críticos perspicazes diziam que Schulz só colocava Snoopy sobre a casa porque não sabia desenhar direito. Anos depois Schulz confirmou essa teoria. E também admitiu que a sua mulher era um bocado dominadora e uma vívida inspiração para Lucy. Eu adorava o Snoopy e uma vez, quando o boneco foi dado como brinde no McDonald´s, em várias partes, eu me empanturrei de mclanches só para completar a coisa.

O roubo dos beagles também me lembrou uma história ocorrida nos EUA sobre a garota que se recusou a dissecar um sapo na escola. A história pode ser lida aqui.

O calor que vem fazendo, o horário de verão que detesto, as coisas que eu lembrei e a própria invasão para roubar beagles me trouxeram à cabeça, além daquela música do Benito de Paula, uma forma de raciocínio similar à do Gilberto Gil, refazendo tudo, guariroba. Assim que estivermos prontos para chutar de trivela mais este factóide, outra Lucy surgirá para nos fazer chutar o vazio, como estamos fazendo semana após semana, sem que nada pareça ao menos nos dar a leve impressão de que vamos melhorar, de que existe bom senso e que nada se resolve com porrada e quebra-quebra. Está faltando tolerância, boa vontade e cooperação, sem isto não há mágica que resolva.








domingo, 27 de outubro de 2013

Faz um calor brabo



Walk on the Wild Side - Lou Reed

Meu vizinho de frente colocou a casa à venda. Primeiro ele tratou de embelezar a residência. Mandou o caseiro lavar as telhas e a fachada. O rapaz usou uma daquelas máquinas lava-jato, de alta pressão. Demorou uma semana para lavar todo o telhado. Na sequência, outra semana para lavar todas as pedras pirinópolis da entrada e garagem. As pedras tinham uma cor amarelada, suja, e ficaram brancas, quase brilhantes. Depois o caseiro refez o jardim, enquanto uma equipe de serralheiros apareceu para cuidar da cerca de metal. Foi tudo refeito, e o portão ganhou um motor elétrico com trilhos novos e uma cremalheira bem ajustada e silenciosa. O rapaz gastou uma semana para repintar a cerca renovada. É uma bela casa, de dois andares. Com tudo pronto, a casa começou a receber visitas de interessados. Isso já tem uns seis meses. Acho que o mercado imobiliário anda em baixa, não aparece muita gente.

Seja como for, o embelezamento da casa do vizinho serviu como incentivo para renovar o jardim da frente da minha própria casa. A última pintura de cerca foi no ano da mudança, talvez já esteja na hora de um reforço na cor. O grande problema é a onda de calor que atravessa a cidade. Nesta semana foi difícil até pensar durante algumas horas do dia. Na última sexta-feira tivemos que sair para comprar um ventilador novo e mais potente, que está ligado ao máximo enquanto estou no computador. Mesmo assim, parece insuficiente.





sábado, 26 de outubro de 2013

Killer



Etta James - The Blues Is My Business

Algumas pessoas são aquinhoadas com o dom da frase matadora, aquela que desmonta qualquer argumento e deixa a gente sem graça ou com vontade de ir pra casa e entrar debaixo das cobertas. Tenho vários amigos com essa capacidade demolidora. Esses caras dizem frases brilhantes como quem faz um comentário qualquer, singelo, mas sabem que depois daquelas palavras organizadas numa sentença direta, será difícil retomar o mesmo tema sem aquela sensação de quem repete o ônibus errado. Um desses campeões é o Cabeça, meu amigo de infância e de todos os tempos, que é mais conhecido pelo pessoal de Catalão como Dr. Cabeça. Não foram poucas as vezes em que o Dr. Cabeça encerrou discussões enormes e bizantinas com uma tirada curta e grossa, entremeada por algumas palavras de baixo calão.

_É couro de cu de índio! - ele disse uma vez para um chato que insistia em saber de que eram feito seus sapatos. Obviamente, a frase foi extrapolada para todo e qualquer contexto onde alguém insistisse em fazer perguntas sobre coisas insípidas e irrelevantes.

_Quero língua de colibri com leite de virgem sueca! - ele disse, de bate-pronto, em resposta a um desafio lançado por um gourmet. Frase excelente, que virou a melhor forma de expressar um desejo utópico.

_Isso não é pimenta, é uma hemorróidas couve-flor! - ele encerrou uma discussão sobre a qualidade da pimenta bahiana, num restaurante bahiano, depois de azucrinar garçons por conta de pimentas fraquinhas que serviam aos turistas, mas que ele, não, ele não era frouxo de achar aquelas pimentinhas de nada ardidas, aquilo nem coçava a língua...

Pois hoje estávamos lá na feira de antiguidades da hora, no Gilberto Salomão, quando nossas mulheres desapareceram em meio a um monte de tranqueiras e velharias expostas em bancadas pelo shopping. Fomos encontrá-las admirando uma cama antiga, feita de madeira maciça e trabalhada, cheia de adereços e curvas, bonita como um leque de renda. A mulher do Dr. Cabeça, ficou entusiasmada. Perguntou as medidas, preço e formas de pagamento. Eu assobiava baixinho quando ouvia o número de dígitos do preço. O Cabeça lembrou a mulher que eles estavam em obras, com uma reforma com o prazo estourado e o limite da conta bancária parelho ao déficit previdenciário. A esposa continuava entusiasmada. Tecemos comentários sobre móveis de época, da mobília datada de antigamente, das vantagens e desvantagens de se ter um móvel velho, das vantagens e vantagens de se possuir mobília nova, etc, mas nada.

_Parece o catre de um moribundo - disse o Cabeça, quando a mulher pediu uma opinião definitiva antes de fazer uma oferta ao vendedor.

_O quê?

_É a cama do morto.

´Fomos embora dali em cinco minutos e sem gastar nenhum tostão.




sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Ralouím



Lady Gaga - Empire of The Sun - Applause


_Paiê, o que você acha da minha fantasia de ralouím?

_Ótima, você está lindíssima! Vai arrasar Paris em chamas!

_Não, pai. É uma fantasia de bruxa. E qualquer um sabe que as bruxas são feias, horrorosas.

_As bruxas barangas são do mal. As bruxas do bem são bonitas.

_Mas eu vou fazer uma maquiagem e ficar bem feia, com cicatriz e verrugas!

_Acho que você está bem assim.

_Posso levar uma vassoura?

_Não. Seu irmão desmontou quase todas para brincar de lança. Só tem uma vassoura boa.

_Posso levar só um cabo?

_O problema é esse. Ele está juntando as "lanças" em algum lugar secreto.

_Ah, paiê, depois você arruma a vassoura! Eu vou trazer de volta.

_Claro. Você sempre traz tudo de volta.

_É sério, pai. Eu vou trazer a vassoura de volta.

_Palavra de bruxa?

_Sim.

_Sim, o quê?

_Palavra de bruxa.

_De bruxa do bem ou de bruxa do mal?

_Ah, pai, esquece. Agora eu também não quero levar a vassoura.

_Por mim, tudo bem.

_Posso levar uma maçã?

_Claro.

_Ótimo, eu vou de bruxa da Branca de Neve.

Não foi nada. Foi de bruxa do bem, linda e sorridente.

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Auto-ajuda



Arctic Monkeys - No.1 Party Anthem

Eu penso sempre que vou conseguir. Vou sim. É só no que eu penso. Vou dar conta. Vou fazer. Vou acontecer. Se a gente mesmo não se ajuda, quem irá nos ajudar? E olha que eu tenho mesmo muita sorte. Então eu penso positivo. Penso pra frente. Amanhã. Depois. Mais tarde. Vai dar certo. Não adianta olhar para trás. Vamos que vamos. Siga. Levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima. Se segura, malandro.

Mas não tem jeito. O horário de verão acaba comigo.

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Parabéns, Careca!



Elis Regina - Folhas Secas

Sim, é hoje, já ganhei parabéns, beijos e tudo. E requisitei a Elis para cantar essa inteirinha só para mim.

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Aos domingos almoçamos com a família dos nossos pais. Isso foi acordado ainda antes do casamento, quando nos visitávamos nos finais de semana, buscando(sem admitir, é claro) aprovação e incentivo dos familiares para a futura união. A família da minha mulher possui a mesma tradição de almoços barulhentos com a mesa transbordando de comida e bebida. Para não deixar nenhum lado magoado, nós revezamos. Um domingo é na casa dos meus pais, e o outro é na casa dos pais dela. Se houver algum outro compromisso, a alternância continua de onde parou. A regra é simples, mas sempre surge algum tipo de evento para complicar a lógica. Aniversários de sobrinhos, por exemplo. Só contam como domingo da sogra se forem mesmo comemorados no domingo. Isso significa que se houver festa de sobrinho durante a semana pode ser que encontremos todo mundo novamente no domingo seguinte. Houve uma época em que eu quis mudar essa coisa, argumentando que o objetivo da reunião de domingo era permitir o encontro com um dos lados da família e que, portanto, não fazia sentido repetir o encontro se ele já havia acontecido durante a semana.

_Ah, é, bebé! E se o aniversário for na segunda? Hein? - disse a minha mulher.

_Mas e se for na sexta? Ou no sábado? - eu disse.

_Você não entendeu nada.

_Pô, detesto quando você fala como o antigo Caetano Veloso - eu disse.

_A sua premissa não é verdadeira.

_Odeio quando você fala como se estivesse fazendo uma dissertação de mestrado - eu disse.

_Estou imitando Olavo de Carvalho.

_Tudo bem, está me chamando de idiota.

_Não estou, juro. Bom talvez eu esteja, mas de um jeito carinhoso.

_

Aniversários de primos não contam para a regra da alternância e almoço com amigos aos domingos conta como falta dupla nas duas casas de avós. A rigor, é impossível satisfazer a demanda dos avós pela presença dos netos. Eles sempre se queixam da ausência das crianças, mesmo quando estão presentes. Acho isso admirável porque o barulho que fazem às vezes é insuportável, além da bagunça que deixam pra trás.

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Videogame



Subway Club - Showing Up Late

As crianças estão felizes. Não somente porque se divertiram com o feriado prolongado, mas também porque os primos estão aqui. Os pais aproveitaram uma pechincha na internet e conseguiram viajar para Paris onde passam a semana. Fica muito mais barato que uma semana na beira de uma praia qualquer. E além disso, é Paris. Todo mundo enche a boca quando fala da viagem que fez a Paris. E quem não foi ainda, suspira sem esconder um pouquinho de inveja.

Enquanto estão aqui, eu, meu filho e meu sobrinho jogamos videogame. Foi um presente do dia das crianças. Achei que era um jogo pacífico, só de labirintos e enigmas para escapar de uma ilha misteriosa. Mas Tomb Raider é pauleira. Lara Croft morre tantas vezes e tão rapidamente que ficamos craques no revezamento dos controles. Sob meu controle, a moça sucumbe ainda mais rapidamente em quedas constrangedoras de alturas sublimes, golpeada por lobos famintos ou atingida sem piedade por inimigos que surgem de repente, enquanto se ouve uma musica sinistra. A aventura é infindável e os cenários da ilha são realmente muito bonitos. Minha mulher não queria conversa, ela achou o jogo muito sangrento e quase proibiu a jogatina. Nessas horas é que a gente descobre que nada é novidade para as crianças, todos os jogos proibidos já foram jogados nas casas dos primos mais velhos ou dos amigos. Sob a tutela do pai e tio, os jogos retornaram. Com dez minutos de jogo, os meninos já dominam todos os truques. Mas Lara Croft continua sucumbindo rapidamente enquanto me atrapalho com os controles.

_Pra quê serve esse botão azul? - eu pergunto.

_Serve para uma porção de coisas. Aperta ele pra escalar essa parede aí - diz o meu filho.

_Qual parede?

_Cuidado com o lobo!

_Onde? Onde? Aaaahhhh, nãããoooo!

_Você foi bem, pai, mas precisa se concentrar mais um pouco.

_É, tio, agora é a minha vez.

_Pôxa, não durei nem vinte segundos.

_Foram 15, pai. Eu cronometrei.

Como tenho que esperar muito tempo até que o controle volte às minhas mãos, fico torcendo com as crianças. Elas escapam de obstáculos rapidamente, escalam montanhas verticais, pulam de cordas estendidas sobre penhascos, descem em cachoeiras caudalosas, saltam em helicópteros durante tempestades, combatem em moinhos em chamas e eu fico feito bobo olhando aquilo tudo. Há também uma coleção de armas, um rigoroso programa de aprimoramento de habilidades e dezenas de detalhes impressionantes. Eles não se preocupam com a avalanche de informações, o que importa é suplantar rapidamente as fases em ritmo alucinante e vertiginoso. E eles avançam, capítulo sobre capítulo.

_Pai, é sua vez.

_Caramba! Esse jogo é demais, demais! Pra que serve o botão amarelo?

_Cuidado com a granada!

_Onde? Onde?

_Não inteirou nem 10 segundos, pai.

Ele tem razão. Mas foram eletrizantes.


terça-feira, 15 de outubro de 2013

Tudo ao mesmo tempo agora




Arctic Monkeys - Do I Wanna Know?

Leio um artigo onde o autor afirma que seus filhos já não assistem televisão. Eles surfam entre os diferentes aparelhos(TV, smartphone, tablet, gamepad, musicplayer, videogame, etc) tudo ao mesmo tempo agora. Os meus também são assim. Não conseguem ficar parados diante da tela como eu ficava, quando ainda assistia TV. Mudam de canal dinamicamente, não assistem a comerciais que não queiram assistir. Eles se entediam rapidamente, mas mergulham e atingem um estágio de imersão profunda com o que os interessa. No início, essas coisas me incomodavam. Eu gritava ordens para que se afastassem, dizia para que não ficassem tanto tempo quase sem piscar e que não se deixassem ficar absortos e bobos diante da tela. Mas as admoestações, os avisos e conselhos para resistir às coisas tão fantásticas que viam eram solenemente ignorados. A competição entre canais fez o trabalho de saturação por mim. Eles sabem escolher e escolhem sozinhos o que querem. Exatamente como eu fazia, quando era menino, mas com muito, muito mais opções. Mas não há nada disso na escola. Não há ninguém que os oriente a utilizar com mais proveito as máquinas em que se concentram e se dispersam. E parece não haver interesse nenhum nisso. Não sei avaliar direito se isso é bom ou ruim. Mas parece uma carência, o que é quase sempre ruim.

Vejo minhas crianças serem cultivadas como consumidores fiéis de videogames e jogos especiais, de músicas, imagens, vídeos e cantos de outros lugares e outras línguas. Não há nada de mal nisso, a não ser a postura passiva, de platéia que apenas ouve e se satisfaz no acompanhamento do coro, sem criar nada de novo. Sei que em outros lugares, há uma preocupação em incentivar as crianças a utilizar as facilidades tecnológicas para ampliar suas capacidades e talentos. Cato os aparelhos, aprendo o que posso e consigo, também jogo os seus videogames e escuto as músicas que eles escutam. Tenho que eu também aprender a transitar entre a miríade de aparelhos e códigos, a remexer nas linguagens e nas entranhas enigmáticas da produção de conteúdo para essa celeuma de telas e teclados. A chave de tudo, eu sei, é produzir conteúdo, deixar de lado a passividade da espera, tratar de fazer sozinho com o que se aprendeu sozinho.

Tive professores generosos na infância e adolescência. Uns poucos mestres bacanas na universidade. Dois grandes colegas de trabalho, ambos mortos, que me ensinaram a não tropeçar nos meus próprios pés. Em qualquer atividade, a excelência é uma conquista que se renova diariamente, quando aliamos conhecimento, habilidade e força de vontade. Mas sem a humildade para reconhecer erros próprios e méritos alheios não é possível seguir adiante, a excelência torna-se inatingível. Durante muito tempo estive envolvido em olhar para o meu próprio umbigo, para melhor me conhecer. Talvez tenha demorado tempo demais para perceber que o auto-conhecimento é um poço sem fundo e também que o fato de nos conhecermos um pouco mais não nos torna automaticamente melhores. Nem tampouco piores, diga-se de passagem. Apenas nos dão maior clareza para perceber que o nosso papel individual na história geral é mesmo bem reduzido, mas nem mesmo isso nos absolve. Uma andorinha não faz o verão. Mas e se ninguém puxar a fila? E se nenhuma delas mergulhar no espaço decidida a anunciar que o verão já chegou? Besteira, não sou pioneiro de nada. Mas sinto que, de alguma forma, isso tem a ver com não querer ser apenas espectador e consumidor do que outras pessoas decidiram fazer.

De tempos em tempos, tenho feito aqui alguma reflexão sobre a minha vida. Tenho dúvidas, muitas dúvidas. Quase sempre acho que as pequenas desventuras do meu cotidiano não interessam a ninguém. Não foram poucas as vezes em que escrevi um texto durante algumas horas e depois joguei tudo fora porque achava que havia me exposto demais. Em outras, a persona do Careca fala alto demais e eu fico apenas parecendo um mentiroso. Entretanto, de repente sinto uma compulsão para escrever sobre as picuinhas ridículas e sem noção que vivi numa fila do supermercado ou enquanto espero no consultório do dentista. Nas melhores vezes, consigo fazer um relato sem firulas e com sinceridade. Quando isso acontece eu tenho a pretensão de sentir que fui capaz de escrever um troço que me deixou conectado a um monte de pessoas e isso faz eu me sentir bem à beça.

Outro dia, por exemplo, na hora de passar as compras eu olhei para o crachá da caixa e lá estava escrito Hertânia.

_Já sei, seu pai se chama Heraldo e sua mãe se chama Tânia - eu disse, com a mão na cabeça, como se estivesse lendo pensamentos.

_Nossa, como foi que você adivinhou? - disse a moça.

_Foi chute - eu disse.

É por isso que estou determinado a continuar a escrever neste blog por mais algum tempo. De vez em quando, com um pouco de sorte, eu acerto.

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Simpsons



Isaac Hayes - Shaft

Assisto "Os Simpsons" há vários anos. Deixe-me ver. A série tem 25 anos, então eu vejo o desenho animado há 20 anos, sem exagero. Outro dia descobri que meus filhos também assistem e vibram com as desventuras de Bart, Lisa e Homer. Meu filho se identifica com Bart. Minha filha se identifica com Lisa. Eu sou uma mistura de Moe(o dono do bar) e Homer.

Paulo Francis dizia que Os Simpsons eram indubitavelmente negros. Ele alegava que o cabelo de Marjorie "Marge" Bouvier Simpson, a esposa suburbana de Homer, era a principal indicação disso. Talvez estivesse enganado. Hoje se sabe que Matt Groening, o criador da série, desenhou o penteado de Marge inspirado nos cabelos azuis da atriz principal do filme " A Noiva de Frankenstein'. A mãe de Matt também se chama Marge e ambos são branquinhos, branquinhos, mas Paulo Francis talvez não soubesse disso. Ou talvez soubesse e achasse que era tudo para disfarçar. Seja como for, em algum momento dos anos 90 Marge Simpson foi a capa da revista Playboy.

A série é uma das mais longevas da TV. O roteiro de cada episódio surge de reuniões com uma equipe de 16 escritores realizada tradicionalmente no mês de dezembro, em algum lugar que não consegui localizar nos artigos da internet. Rick Gervais, o comediante de The Office, já foi o responsável por vários episódios da série. Bart Simpson já foi o meu preferido. Nos primeiros anos da série, Bart dizia em um dos episódios que tinha orgulho de tirar notas baixas. As escolas tiveram que proibir as crianças de usar camisetas com o ídolo em várias cidades dos EUA.

Os Simpsons foi o primeiro desenho animado para adultos que eu assisti já adulto.

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Pirâmides



The Animals - Shake

Tinha esse cara, que trabalhava comigo, era só um garoto. Ele acreditava em pirâmides. Não aquelas pirâmides dos faraós do Egito. As outras. Aquelas tramóias que vigaristas sem escrúpulos inventam para arrancar o dinheiro dos otários. As primeiras pessoas que entram devem recrutar novas pessoas e assim por diante. No final, há um grande calote nos envolvidos e quem mais sofre são as pessoas na parte de baixo da pirâmide. Esse cara acreditava que poderia ser mais rápido e pular fora da pirâmide antes de perder. Ele passava um bocado de tempo ao telefone, tentando atrair mais pessoas para a pirâmide e subir na hierarquia da pilantragem.

_Isso não está certo, garoto - eu dizia.

_Não tem nenhum problema.

_Isso aí é uma pirâmide. Isso é golpe.

_Pode ser. Mas por enquanto estou ganhando dinheiro.

_No final, a conta não fecha, vai acabar no prejuízo.

_Vou nada. Vou sair antes que se acabe.

_E as pessoas que você chamou para entrar na pirâmide, como vão ficar? Você não se importa?

_Quanto mais rápido elas conseguirem recrutar pessoas, melhor para elas. É uma questão de trabalhar duro.

_Enganar os outros não é trabalho, é tapeação.

_Eu não estou enganando ninguém. Todo mundo sabe que é preciso cumprir metas. Só progride quem cumpre as metas.

O que aconteceu é que a quantidade de pessoas que ele precisava recrutar aumentou rapidamente e os prazos para alcance das metas de recrutamento diminuíram. Para completar, ele havia recrutado praticamente todos os conhecidos, que também recrutaram as pessoas das proximidades e vizinhança. Pessoas desconhecidas eram muito menos permeáveis ao recrutamento. As metas e prazos foram para o espaço. O garoto estagnou num degrau da pirâmide e logo deixado para trás. No final perdeu muito e ainda foi agredido por uma das pessoas que ajudou a lesar.

Seis meses depois ele estava de volta ao telefone. Embarcara em outra pirâmide.

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Três para um



Velours - I'm Gonna Change


Eu e a minha mulher estivemos nessa reunião, na casa de um grande amigo, conversando com pessoas que não conversávamos há muito tempo. É agradável sair um pouco. Nossa vida social é de uma austeridade franciscana, motivada não somente pela dificuldade de deslocamento com as crianças, dinheiro curto e cansaço, mas principalmente pela minha crônica falta de vontade de sair de casa.

Estávamos ali em atenção a um convite para uma happy-hour , ou seja, uma reunião para começar por volta das seis e com uma duração de umas duas horas, no máximo. Mas às seis horas ainda estávamos enrolados com outras atividades e muito longe de sair de casa. Por isso, achei melhor ligar para o anfitrião e sondar os horários. Ele foi muito compreensivo e disse que as reuniões em sua casa, mesmo as que começavam às seis da tarde como aquela, quase sempre chegavam à meia-noite, com folga. Assim, de uma maneira muito elegante, ele deixou claro que era tolerante até mesmo com os atrasos ultrajantes de pessoas como eu.

Quando liguei, confesso, achei que encontraria um pretexto qualquer enquanto conversávamos para, mais uma vez, ficar em casa com minha mulher e as crianças. Mas não teve jeito. Não poderíamos faltar.

Os anos de namoro e casamento me ensinaram que não se deve apressar ninguém a se arrumar. Em geral, eu me apronto e vou para o computador jogar paciência ou xadrez até a minha mulher me chamar e dizer que está pronta. Em geral isso acontece quando estou na minha melhor partida e desta vez não foi diferente.

_E aí? Estou bem? – ela disse.

_Fantástica – eu disse. E é a mais pura verdade, embora eu também tenha aprendido que qualquer observação menor que uma efusiva e total felicitação sobre a roupa e os acessórios escolhidos significam apenas um aumento do tempo de espera.

Minha filha estava com duas amigas da escola e a mãe de uma delas chegou no horário combinado para buscar a menina. Para evitar um atraso ainda maior, resolvemos levar a outra menina até a casa dela. Tocamos a campainha mas não havia ninguém. A solução foi deixar a menina junto com a menina que também estivera em casa, depois de avisarmos os pais. Toda essa operação durou quase uma hora.

Em seguida, saímos em direção à casa da minha cunhada, onde as crianças passariam a noite com os tios e primos. As crianças adoram quando saímos de casa porque isso significa que também passarão a noite na casa dos avós ou dos primos.

Depois de um trânsito infernal, finalmente nos pusemos a caminho da happy hour. Nem olhei para o relógio para não desanimar.

_Caramba! – eu disse.

_O que foi? O que foi? – disse a minha mulher.

_Nós somos muito enrolados. Precisamos ir a três lugares diferentes para chegar a um outro lugar – eu disse.

Apesar do atraso, foi uma ótima noite na companhia dos amigos.

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

O jiló daqui de casa



The Soul Survivors - Mama Soul



Acho que isso acontece em todas as famílias. Em algumas, é com o brócolis. Em outras é com o pimentão. O alho, o cará. Há sempre uma raiz, um vegetal, um peixe, um tubérculo que provoca engulhos no nosso paladar infantil mas que são idolatrados pelos nossos pais. Na minha época, o vilão era o jiló. Meus pais também apostavam suas fichas no óleo de fígado de bacalhau, na Emulsão Scott, na Hypogloss, nos sucos de cenoura e beterraba e numas drágeas de vitamina de ferro. Todas essas coisas, não sei se estão na ordem certa, me garantiriam ossos fortes, um fígado de ferro, uma excelente visão, o coração de um touro e o perfeito funcionamento dos intestinos.

Como eu sou um cara moderno, com uma visão de mundo própria e desprovido de preconceitos e idéias pré-concebidas, nunca me preocupei com a presença de alimentos específicos nas refeições das crianças. Com exceção das abóboras, é claro. Aqui em casa comemos abobrinha, abóbora japonesa, abóbora bahiana, abóbora comum e moranga. As crianças não reconhecem as virtudes da abóbora e, portanto, em todas as refeições é preciso um certo trabalho de convencimento.

Nas primeiras vezes, eu ainda tentava argumentar a respeito da rica diversidade de sabores das abóboras, mas as crianças torciam o nariz.

_Pai, não adianta, eu não gosto de abóbora – dizia o meu filho.

_É, paiê, não tem gosto de nada – dizia a minha filha.

_Peraí, não pode ser as duas coisas. Se não tem gosto de nada, então é impossível não gostar.

_Então eu também não gosto – dizia a minha filha.

Resolvi incrementar as abordagens.

_Os cientistas descobriram uma vitamina na abóbora que deixa as pessoas mais inteligentes.

_Mas eu já sou inteligente, paiê – dizia a minha filha.

_Eu também. Estou satisfeito com o meu QI – dizia o meu filho.

_Mas essa vitamina deixa a gente ainda mais inteligente.

_Nós preferimos passar, paiê.

_E se descobrirem que os nutrientes da abóbora é que fazem a gente correr depressa? – eu tentei.

_Assim eu vou correr é dessa mesa, pai.
_E se daqui a vinte anos os alienígenas chegarem e só as crianças que comeram abóboras forem capazes de resistir à dominação?

_Os aliens vão vencer de qualquer jeito, paiê.

_E se as abóboras fizessem a gente jogar videogame muito bem?

_Não, pai, você já me pegou com essa, nem vem.

_Ele te pegou com essa? Jura?

_Eu só tinha quatro anos.

_Tudo bem, então vamos seguir a regra do colorido. Todos os pratos devem estar com alimentos coloridos. Verde da alface, branco do arroz, feijão, carne, batata e ahá, está faltando a cor laranja! Como vocês pretendem resolver isso?

_Cenoura, paiê.

_É, pai, nós já colocamos cenoura, viu? Eu já comi tudo.

Bom, talvez eu convença a Rose a fazer uns sucos com abóbora.

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Ponto



The Cactus Channel - Wooden Boy

Fui comprar açúcar no supermercado. Nosso consumo de açúcar é imenso. Algum dia ainda vão fazer uma auditoria e descobrir que fomos nós, eu, minha mulher e meus filhos, que fizemos os usineiros desistirem de produzir álcool combustível. É tão grande o nosso consumo que uma vez fiquei de tocaia na despensa para verificar se alguém estava comendo açúcar na calada da noite. Não descobri nada porque acabei dormindo, mas reforcei fortes suspeitas. Foi uma campanha memorável.

_Onde você estava? - disse a minha mulher.

_Dormindo na despensa - eu disse.

_Fala sério. São quatro horas da manhã e você está deitando só agora? Ficou conversando na internet, não foi?

_Não, benhê. Caí no sono dentro da despensa. Estava vigiando o açúcar.

_Isso não está acontecendo. Isso é um pesadelo.

_Pesadelo vai ser quando eu descobrir quem está comendo açúcar escondido - eu disse.

Desconfio principalmente da ex-babá-universitária-cozinheira-faxineira-governanta-daqui-de-casa, a Rose. É que ela não pode comer açúcar e todo mundo sabe que o proibido é mais gostoso. Como a Rose não dorme em casa, logicamente não poderia ter atacado a despensa à noite e por isso mesmo não foi pega em flagrante delito açucarado. Aos cinquenta e poucos, com peso crescente e a ameaça de diabetes, Rose está naquela fase de interdições preventivas que se tornarão permanentes. Eu entendo a Rose. É muita pressão. Desde que adotamos a folha-de-ponto-do-lar-do-Careca aqui em casa o consumo de açúcar aumentou consideravelmente. Sim, a lei nos obriga a manter uma folha de ponto e acho que uma outra lei nos obriga a seguir a lei, embora muita gente deixe isso para lá. Mas aqui em casa não. Seguimos à risca todas as disposições, até as transitórias. Logo, se a lei exige uma folha de ponto, nós mantemos uma folha de ponto, que a Rose assina todos os dias na hora em que entra e na hora em que sai.

No início, confesso, o maior problema com a folha-de-ponto foi a própria folha. Alguém sempre usava a danada para anotar recados nos verso ou ficar rabiscando garatujas e bichinhos enquanto estava ao telefone. Eu mesmo desenhei uns cubos, esferas e cones, só pra praticar o sombreado. Outro problema era com a própria folha. Ela quase sempre sumia, coisa mais difícil de achar no meio dos desenhos das crianças. E elas desenham muito. Até o dia em que encontrei um imã de geladeira sensacional para pendurar folhas de ponto. Isso ajudou a diminuir as perdas de folha e também a rabisqueira, já que o telefone fixo fica longe da geladeira e do imã.

O único problema é que o imã não ajudou a diminuir o stress da Rose. Ela deve ter os seus motivos, embora eu desconfie que isso tenha alguma coisa a ver com o horário de entrada no trabalho. É que os ônibus estão sempre quebrando, há sempre um problema na pista, os carros de passeio são uma bosta, acidentes acontecem, é uma bagunça o transporte coletivo. Sei que não é culpa dela, mas também não é minha, e a lei manda estabelecer o controle de ponto. Então eu controlo. Todos os dias fico de olho no relógio para mandá-la embora pra casa.

_Rose, são cinco horas, está na hora de você ir embora. Eu já acionei a sirene de ir embora duas vezes - eu digo.

_Mas hoje eu cheguei às dez e pouco, Seu Careca - ela diz.

_É, mas você não parou no horário de almoço. Lei é lei, Rose. Se passar das cinco, tenho que colocar no banco de horas, fazer uma equação biquadrada para o cálculo das férias. Sem falar da hora extra. E tem que assinar a folha antes de ir embora - eu digo.

_Eu assino amanhã - ela diz.

_Não, senhora. Ponto é ponto, não é parágrafo - eu digo.

E quando a Rose finalmente vai embora, a folha assinada, eu vou conferir o vidro de açúcar. Eu tinha feito uma marca discreta com o lápis que fica ao lado do telefone. Vou checar e o açúcar está na mesma marca. Ou então fizeram uma nova marca e apagaram a antiga.







terça-feira, 1 de outubro de 2013

Lavei a égua!



Bloc Party - Ratchet

Não me lembro mais quem gostava de usar essa expressão. Aliás, nem me lembrava mais da própria expressão quando ela, de súbito, me assaltou a memória. Lavei a égua! O significado era algo como ir à forra, dar o troco merecido em alguém, ou simplesmente se dar muito bem. Naquele velho programa de rádio certamente alguém inventaria uma historinha besta para ilustrar o surgimento da expressão. Eu adorava o Café com Bobagens, então, sem querer eu acabo pensando numa historinha do tipo.

Logo após o final da segunda guerra mundial, Paris tinha voltado a ser uma festa, principalmente para os recém-casados. A cidade tinha centenas de atrações, e uma das mais famosas era, sem sombra de dúvida, o grande espetáculo do cubano El Kabong, o cara com o maior kabong daqueles dias, maior até mesmo que o famosíssimo dominicano Porfírio Rubirosa, também conhecido como "Moedor de Pimenta".

O espetáculo de El Kabong era feito para mostrar ao público que o cubano tinha comprimento, largura e profundidade, além de manter a firmeza por uma hora de show business, de terça a domingo, fizesse sol ou chuva, granizo ou neve. El Kabong era mesmo um prodígio e encantou esse casal de brasileiros em lua-de-mel em Paris. Os noivos ficaram especialmente empolgados com o número de encerramento, quando El Kabong segurou o kabong com as duas mãos e pá-pá-pá, partiu três nozes ao meio e levou o público ao delírio. Uau! Os brasileiros nunca tinham visto nada igual. No auge da empolgação, o casal jurou voltar a Paris dali a dez anos para renovar os votos e, se possível, assistir ao espetáculo do magnífico El Kabong.

Dez anos se passaram e lá estava o casalzinho de brazucas, assistindo ao espetáculo de El Kabong. Ele havia mudado muito pouco e para o número de encerramento, pá-pá-pá-pá, El Kabong quebrou quatro nozes. Empolgados, o casal de brasileiros decidiu ir aos camarins para cumprimentar o grande El Kabong, mas a fila estava muito
grande.

Outros dez anos se passaram e lá estava o nosso casal, em Paris, renovando os votos com declarações ao pe´da Torre Eiffel. Toda aquela estrutura metálica lembrou aos brasileiros que uma visita a Paris não era nada sem uma passada no show do grande, do único e inigualável El Kabong. Desta vez, era possível ver algumas pequenas mexas de cabelos brancos no cubano, mas o resto continuava firme e forte. El Kabong encerrou a noite com kabongadas rítmicas sobre nozes. Eles teriam aguentado mais tempo na fila, mas ficaram com medo de perder o vôo de volta e resolveram deixar para a seguinte.

Mais dez anos se passaram e o nosso casal de brasileiros considerou esta a melhor de todas as viagens a Paris, porque não visitaram museus e nem fizeram nenhum dos tradicionais programas turísticos. Aproveitaram os cafés sem pressa, beberam muito vinho e só quando estavam quase de saída para o aeroporto se lembraram do espetáculo do cubano El Kabong. Não faz mal, disse a mulher. Na próxima vez nós iremos novamente.

Eles não contavam com os problemas econômicos do país. Dez anos se passaram rapidamente, mas uma tungada na poupança impediu que o casal voltasse para Paris. Outros dez anos precisaram passar para que o casal se recuperasse um pouco. Para marcar a ocasião, resolveram ir mais uma vez a Paris.

Dessa vez assistiram ao espetáculo na primeira noite após a chegada. El Kabong estava com os cabelos irremediavelmente brancos e usava uns óculos enormes, que distorciam os olhos. Mas o sujeito continuava com a mesma determinação e segurança de sempre. Fez isso e aquilo, e também fez assim e depois assado e por fim, chegou ao grande número de encerramento. El Kabong, para surpresa do casal brasileiro, havia retornado à simplicidade do pa-pá-pá. Com firmeza ele kabongou três cocos-da-bahia. O casal de brasileiros foi à loucura, junto com a platéia ensandecida. Eles correram para o camarim e aguentaram duas horas na fila de autógrafos. O brasileiro, é claro, fez a pergunta que todos faziam ao cubano.

_Há 50 anos que acompanhamos o espetáculo. O senhor começou com nozes e agora, para nosso assombro, quebra cocos-da-bahia com o kabong no final do espetáculo. Como isso é possível?

El Kabong suspira, coça discretamente o kabong, e tosse um pouco antes de responder pela milionésima vez a mesma pergunta.

_Pois é, os anos foram passando. A vista foi ficando fraca, a mira diminuiu. Tive que me adaptar - ele disse, enquanto balançava os óculos grossos como se fosse o kabong.

E também tinha aquela outra, do sujeito que encontra um velhíssimo professor de educação física no supermercado acompanhado de uma moça lindíssima. Se alguém a comparasse com um avião ficaria devendo em turbinas e equilíbrio aerodinâmico. O cara fica sem-graça de abordar o antigo professor e sua presumível filha e netos no corredor de iogurtes, apesar de uma rápida troca de olhares e um lampejo de reconhecimento mútuo. Afinal, os dois se encontram novamente na fila do caixa, mas desta vez o professor está sozinho. Os dois se cumprimentam e atualizam as informações mútuas e recíprocas rapidamente. Casaram, mudaram, separaram, casaram, mudaram e separaram. A diferença é que o professor está no terceiro casamento, com 2 filhos de cada união, inclusive do atual. Ele está mais feliz que um cachorrinho com osso, casado com uma mulher 60 anos mais nova.

Enquanto a fila não anda, os dois acabam se abrindo. O sujeito deixa o velho professor presumir que seu primeiro casamento foi um fracasso porque ele não conseguia ir muito longe debaixo dos lençóis. Ele também deixa o professor entender que o segundo casamento foi um fracasso porque a mulher estava sempre insatisfeita. O professor então conta ao ex-aluno que sua primeira mulher resolveu se separar porque achava que ele se excedia nas obrigações conjugais. Com a segunda mulher também não foi muito diferente, ela se cansou da energia perseverante e rotineira dos exercícios diários, noturnos, matutinos e vespertinos e a qualquer hora que fosse. Mas agora ele estava se sentindo muito bem, porque havia encontrado uma companheira com o mesmo fôlego e ímpeto conjugatório.

_Noossa, professor! Mas o senhor, com esta idade! São 80 anos, não é mesmo? Qual é o seu segredo?

_É simples. Coma pão. Mas sem manteiga. Comer pão todos os dias mantém o Rubirosa e o apetite como devem ser - disse o velho professor.

_Mas quantos, professor?

_Isso varia de pessoa para pessoa. Eu só preciso de dois pães por dia - ele disse, se despedindo do ex-aluno e se afastando com as compras, a mulher e os filhos.

Nosso amigo sai da fila rapidamente e corre para comprar pães.

_Quantos? - perguntou a moça bonita atrás do balcão.

_Vinte - disse o ex-aluno do professor de educação física.

_É uma família grande, hein?

_Não, é só para uma pessoa.

_Vixe!

_O que foi?

_Nada, é pão para uma só pessoa...

_E o que é que tem?

_O pão. Vai ficar meio duro, né?

_Você acha?

_Pela minha experiência, tenho certeza.

_Então me vê 40!









Frase do dia


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