terça-feira, 8 de outubro de 2013

Três para um



Velours - I'm Gonna Change


Eu e a minha mulher estivemos nessa reunião, na casa de um grande amigo, conversando com pessoas que não conversávamos há muito tempo. É agradável sair um pouco. Nossa vida social é de uma austeridade franciscana, motivada não somente pela dificuldade de deslocamento com as crianças, dinheiro curto e cansaço, mas principalmente pela minha crônica falta de vontade de sair de casa.

Estávamos ali em atenção a um convite para uma happy-hour , ou seja, uma reunião para começar por volta das seis e com uma duração de umas duas horas, no máximo. Mas às seis horas ainda estávamos enrolados com outras atividades e muito longe de sair de casa. Por isso, achei melhor ligar para o anfitrião e sondar os horários. Ele foi muito compreensivo e disse que as reuniões em sua casa, mesmo as que começavam às seis da tarde como aquela, quase sempre chegavam à meia-noite, com folga. Assim, de uma maneira muito elegante, ele deixou claro que era tolerante até mesmo com os atrasos ultrajantes de pessoas como eu.

Quando liguei, confesso, achei que encontraria um pretexto qualquer enquanto conversávamos para, mais uma vez, ficar em casa com minha mulher e as crianças. Mas não teve jeito. Não poderíamos faltar.

Os anos de namoro e casamento me ensinaram que não se deve apressar ninguém a se arrumar. Em geral, eu me apronto e vou para o computador jogar paciência ou xadrez até a minha mulher me chamar e dizer que está pronta. Em geral isso acontece quando estou na minha melhor partida e desta vez não foi diferente.

_E aí? Estou bem? – ela disse.

_Fantástica – eu disse. E é a mais pura verdade, embora eu também tenha aprendido que qualquer observação menor que uma efusiva e total felicitação sobre a roupa e os acessórios escolhidos significam apenas um aumento do tempo de espera.

Minha filha estava com duas amigas da escola e a mãe de uma delas chegou no horário combinado para buscar a menina. Para evitar um atraso ainda maior, resolvemos levar a outra menina até a casa dela. Tocamos a campainha mas não havia ninguém. A solução foi deixar a menina junto com a menina que também estivera em casa, depois de avisarmos os pais. Toda essa operação durou quase uma hora.

Em seguida, saímos em direção à casa da minha cunhada, onde as crianças passariam a noite com os tios e primos. As crianças adoram quando saímos de casa porque isso significa que também passarão a noite na casa dos avós ou dos primos.

Depois de um trânsito infernal, finalmente nos pusemos a caminho da happy hour. Nem olhei para o relógio para não desanimar.

_Caramba! – eu disse.

_O que foi? O que foi? – disse a minha mulher.

_Nós somos muito enrolados. Precisamos ir a três lugares diferentes para chegar a um outro lugar – eu disse.

Apesar do atraso, foi uma ótima noite na companhia dos amigos.

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