segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

domingo, 25 de dezembro de 2011

Um ano para ser esquecido - Marco Antônio Villa



The Walkmen - Woe Is Me

Neste ano, se eu usasse chapéu eu o tiraria para quatro ilustres articulistas: Augusto Nunes, Dora Kramer, Reinaldo Azevedo e Marco Antônio Villa. Durante todas as semanas de 2011 eu procurei acompanhar os textos de cada um destes feras, com suas análises lúcidas e opiniões claras sobre assuntos do arco da velha. Quando a verdadeira história desses tristes tempos for escrita, esses serão os artigos de referência.

Também tiraria o chapéu para o blogueiro Selva Brasilis, um sujeito atento ao que acontece no país e no mundo pensante, capaz de sintetizar textos enormes em manchetes acachapantes e duas ou três linhas de comentários ácidos.

Vale a pena ler o artigo reproduzido abaixo, do professor Marco Antônio Villa, disponível aqui.

Um ano para ser esquecido
25 de dezembro de 2011
Marco Antônio Villa - O Estado de S.Paulo

O governo Dilma Rousseff é absolutamente previsível. Não passa um mês sem uma crise no ministério. Dilma obteve um triste feito: é a administração que mais colecionou denúncias de corrupção no seu primeiro ano de gestão. Passou semanas e semanas escondendo os "malfeitos" dos seus ministros. Perdeu um tempo precioso tentado a todo custo sustentar no governo os acusados de corrupção. Nunca tomou a iniciativa de apurar um escândalo - e foram tantos. Muito menos de demitir imediatamente um ministro corrupto. Pelo contrário, defendeu o quanto pôde os acusados e só demitiu quando não era mais possível mantê-los nos cargos.


A história - até o momento - não deve reservar à presidente Dilma um bom lugar. É um governo anódino, sem identidade própria, que sempre anuncia que vai, finalmente, iniciar, para logo esquecer a promessa. Não há registro de nenhuma realização administrativa de monta. Desde d. Pedro I, é possível afirmar, sem medo de errar, que formou um dos piores ministérios da história. O leitor teria coragem de discutir algum assunto de energia com o ministro Lobão?

É um governo sem agenda. Administra o varejo. Vê o futuro do Brasil, no máximo, até o mês seguinte. Não consegue planejar nada, mesmo tendo um Ministério do Planejamento e uma Secretaria de Assuntos Estratégicos. Inexiste uma política industrial. Ignora que o agronegócio dá demostrações evidentes de que o modelo montado nos últimos 20 anos precisa ser remodelado. Proclama que a crise internacional não atingirá o Brasil. Em suma: é um governo sem ideias, irresponsável e que não pensa. Ou melhor, tem um só pensamento: manter-se, a qualquer custo, indefinidamente no poder.

Até agora, o crescimento econômico, mesmo com taxas muito inferiores às nossas possibilidades, deu ao governo apoio popular. Contudo, esse ciclo está terminando. Basta ver os péssimos resultados do último trimestre. Na inexistência de um projeto para o País, a solução foi a adoção de medidas pontuais que só devem agravar, no futuro, os problemas econômicos. Em outras palavras: o governo (entenda-se, as presidências Lula-Dilma) não soube aproveitar os ventos favoráveis da economia internacional e realizar as reformas e os investimentos necessários para uma nova etapa de crescimento.

Se a economia não vai bem, a política vai ainda pior. Excetuando o esforço solitário de alguns deputados e senadores - não mais que uma dúzia -, o governo age como se o Congresso fosse uma extensão do Palácio do Planalto. Aprova o que quer. Desde projetos de pouca relevância, até questões importantes, como a Desvinculação de Receitas da União (DRU). A maioria congressual age como no regime militar. A base governamental é uma versão moderna da Arena. Não é acidental que, hoje, a figura mais expressiva é o senador José Sarney, o mesmo que presidiu o partido do regime militar.

Nenhuma discussão relevante prospera no Parlamento. As grandes questões nacionais, a crise econômica internacional, o papel do Brasil no mundo. Nada. Silêncio absoluto no plenário e nas comissões. A desmoralização do Congresso chegou ao ponto de não podermos sequer confiar nas atas das suas reuniões. Daqui a meio século, um historiador, ao consultar a documentação sobre a sessão do último dia 6, lá não encontrará a altercação entre os senadores José Sarney e Demóstenes Torres. Tudo porque Sarney determinou, sem consultar nenhum dos seus pares, que a expressão "torpe" fosse retirada dos anais. Ou seja, alterou a ata como mudou o seu próprio nome, sem nenhum pudor. Desta forma, naquela Casa, até as atas são falsas.

Para demonstrar o alheamento do Congresso dos temas nacionais, basta recordar as recentes reportagens do Estadão sobre a paralisação das obras da transposição das águas do Rio São Francisco. O Nordeste tem 27 senadores e mais de uma centena de deputados federais. Nenhum deles, antes das reportagens, tinha denunciado o abandono e o desperdício de milhões de reais. Inclusive o presidente do PSDB, deputado Sérgio Guerra, que representa o Estado de Pernambuco. Guerra, presumo, deve estar preocupado com questões mais importantes. Quais?

Falando em oposição, vale destacar o PSDB. Governou o Brasil por oito anos vencendo por duas vezes a eleição presidencial no primeiro turno. Nas últimas três eleições chegou ao segundo turno. Hoje governa importantes Estados. Porém, o partido inexiste. Inexiste como partido, no sentido moderno. O PSDB é um agrupamento, quase um ajuntamento. Não se sabe o que pensa sobre absolutamente nada. Um ou outro líder emite uma opinião crítica - mas não é secundado pelos companheiros. Bem, chamar de companheiros é um tremendo exagero. Mas, deixando de lado a pequena política, o que interessa é que o partido passou o ano inteiro sem ter uma oposição firme, clara, propositiva sobre os rumos do Brasil. E não pode ser dito que o governo Dilma tenha obtido tal êxito, que não deixou espaço para a ação oposicionista. Muito pelo contrário. A paralisia do PSDB é de tal ordem que o Conselho Político - que deveria pautar o partido no debate nacional - simplesmente sumiu. Ninguém sabe onde está. Fez uma reunião e ponto final. Morreu. Alguém reclamou? A grande realização da direção nacional foi organizar um seminário sobre economia num hotel cinco estrelas do Rio de Janeiro, algo bem popular, diga-se. E de um dia. Afinal, discutir as alternativas para o nosso país deve ser algo muito cansativo.

Para o Brasil, 2011 é um ano para ser esquecido. Foi marcado pela irrelevância no debate dos grandes temas, pela desmoralização das instituições republicanas e por uma absoluta incapacidade governamental para gerir o presente, pensar e construir o futuro do País.

Marco Antônio Villa
Historiador, é professor da Universidade Federal de São Carlos (Ufscar)

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Feliz Natal com ou sem rúcula



Mr Bean -Merry Christmas


Essa minha amiga vai fazer a ceia de natal em casa, pela primeira vez. Isso implica em receber a sogra e o sogro e mais os cunhados. Ela é corajosa.

_Tem dois dias que estou limpando a casa. Estou me sentindo um pouco tensa - disse a minha amiga.

_O que vocês vão servir? - eu disse.

_Um prato muito chique - ela disse.

_Faisões e caviar? - eu disse.

_Aham, claro, caviar com ouro - ela disse.

_Puxa, é um jantar com troco? - eu disse.

_Não, nós vamos servir bacalhau - ela disse.

_Hum, vai ser bom demais.

_Não sei, os convidados são muito exigentes.

_Então é preciso um plano B.

_Você quis dizer um prato B. Vai ter salada - ela disse.

_Perfeito - eu disse.

_Mas e se alguém for alérgico a bacalhau? - ela disse.

_Sempre pode apelar para a rúcula. Nunca ouvi falar de alguém alérgico a rúcula - eu disse.

_Rúcula não precisa de alérgicos, ela já é ruim sozinha.

Desejei boa sorte. Eu e a minha mulher ainda não estamos preparados para a ceia em casa. Ainda estamos ensaiando churrascos, na verdade. Ceia de Natal é uma responsabilidade muito grande, com ou sem rúcula.

Será você?



Smith - Baby It's You - Top 5 hit in 1969 - cover of the song "Baby It's You"(a 1961hit by The Shirelles that won a Beatles version), with the lead vocals sung by Gayle McCormick.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Oração de fim de ano 1



The London Souls - She's so Mad - Dica do Gravetos e Berlotas.

Todo mundo com sorte tem pelo menos uma pessoa especial, uma espécie de catalisador vivo, que é altamente inspirador e provocador de boas idéias e sentimentos. Talvez seja pecado acreditar em sorte, não sei, mas eu agradeço pela minha boa sorte, por estar vivo, com saúde e bem disposto para encarar o próximo ano, e por estar cercado por pessoas maravilhosas, que também estão ótimas e que me inspiram e despertam o melhor de mim. Durante a minha vida sempre procurei estar cercado de pessoas assim, então peço que me ajude a encontrar aquelas outras pessoas maravilhosas que sumiram, se escafederam e não dão mais notícias, pode até ser pelo facebook, valeu.

Livrai-me das pessoas broxantes, negativas e podadoras. Livrai-me numa boa, nem preciso dizer. Dai um branco na mente dessas pessoas para que elas esqueçam que eu existo e não me façam mal e nem aos que amo. Façai com que eu também suma até das fotos que porventura tenham comigo.

Neste ano, logo no início, tive a sorte de ser desligado imediatamente da empresa em que eu trabalhei por três anos. Com isso, fiquei privado do contato com várias pessoas inspiradoras e totalmente de bem com a vida. Lamento muito. Desejo tudo de bom para essas pessoas legais, etc. Também fiquei com uma carência salarial esvaziadora de poupança que persiste até hoje, mas grana é um tema tabu em oração e mero detalhe tosco da nossa existência, não é mesmo? Agradeço também pela carência, que me ensina a ser mais cuidadoso e menos perdulário.

Entretanto, e muito felizmente, o desligamento também me privou do contato e convívio com pessoas altamente destrutivas, pernósticas e canalhas. Delas não guardo um pingo de saudade e só não desejo que ardam rapidamente no fogo do inferno porque fui educado para cultivar a bondade e a compaixão. Então, esqueça essa parte, por favor, por favor, só peço que entregue a cada uma dessas pessoas o dobro redobrado do que fizeram aos outros. Aqui se faz, aqui se paga, amém.

Eu paro por aqui, porque oração longa é um saco. Amém de novo.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Do tempo das cavernas



Joni Mitchell - River

Meu vizinho de trás colocou luzes coloridas piscantes numa árvore. À noite fica bonito. Mas da primeira vez que vi, pensei que estava revivendo um pedaço apagado de Contatos Imediatos do Terceiro Grau. Corri para a cerca já preparado para repetir trechos musicais. Contatos Imediatos. Caramba, como sou antigo.

Desde que falei que a Internet não existia quando eu era menino, meu filho finge que sou do tempo das cavernas.

_Pai, no seu tempo como vocês faziam fogo? - ele provoca.

_Ih, era difícil. Nunca consegui fazer fogo com arco e graveto. Tínhamos que procurar pedras especiais para fazer faíscas, além de catar grama seca e papel. Se chovesse, era um horror - eu disse.

_Nossa, e vocês comiam carne crua?

_Você está brincando?! Eu como carne crua até hoje, sua mãe é que gosta de bife bem passado - eu disse.

_Não, pai, fala sério. Vocês caçavam o quê? - ele disse.

_Eu não caçava nada. Criança só pescava e ajudava a fazer roupas com o couro da caça.

_E televisão, vocês tinham?

_Lá na caverna do vovô tinha uma, mas a antena era bem ruim...

Às vezes eu acho que o sarcasmo é uma coisa hereditária.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Está tudo bem



Elvis Presley - Thats Alright Mama

Está tudo bem, está tudo bem, juro.
Só parece que não está.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Subiram no telhado



ZAZ - "Dans ma rue" acoustique

Terminei a mesa que comecei a construir na semana passada. Fiz de ripas, com sobras de um ex-telhado. Envernizei com cuidado, mas terei que passar pelo menos mais uma demão. Choveu o dia inteiro, tive que improvisar um ladrão para a piscina com duas mangueiras. O cara do telhado veio ver a goteira. Pensei que ia precisar de um rufo, mas ele disse que o problema era provocado por apenas uma telha quebrada. Ele subiu no telhado, com chuva e tudo, e trocou a telha. Não quis cobrar nada e eu fiquei me achando muito estúpido. Como não vi que era apenas uma telha? Depois pensei que se eu tivesse subido no telhado durante a chuva também teria identificado o problema.

Estou cansado e com sono. Acordei de madrugada para buscar minha mãe na rodoviária. Meu tio louco está muito doente numa cidade do interior. Ele não reconhece as pessoas e só fica de fraldão. Ele recusa alimentos sólidos, toda a comida tem que ser batida no liquidificador. Perdeu muitos quilos.

Há um mês tudo era diferente. Tudo ia muito bem para o meu tio até o dia em que resolveu implantar um dente. Ele ignorou a medicação e entrou em crise. Destruiu a casa onde morava e ficou agressivo. Os vizinhos chamaram os bombeiros. Mas não há onde internar uma pessoa com doença mental na região. Medicado, ele foi morar com uma outra tia enquanto sua casa é reconstruída. Para ajudar, foi necessário contratar duas enfermeiras. Uma terceira pessoa será necessária para um revezamento mais adequado nos finais de semana. Ou seja, um paciente mobiliza três ou mais pessoas para que tenha uma vida com um mínimo de dignidade. Os custos serão rateados entre todos os familiares.

Fico imaginando quantos loucos à solta não existirão por aí, inofensivos abandonados à própria sorte ou potenciais riscos para a vida das outras pessoas.

domingo, 18 de dezembro de 2011

Os dois leitores imaginários do Careca



Parov Stelar - The Mojo Radio Gang

Aprendo devagar. Algumas coisas demoram a entrar na minha cabeça. E aprendo melhor se eu posso usar as mãos para ajudar. Depois de vinte anos tentando, acho que consegui aprender a escrever. Faço isso com segurança, ainda que a minha escolha de temas seja quase sempre uma bobagem.

Os escritores que gosto também já me deram dicas preciosas. Uma delas é escrever sobre o que ou quem já se conhece. Mas é preciso que esse conhecimento também fuja um pouco da banalidade e do senso comum. A forma não é tão importante quanto o que se tem a dizer, a não ser que você não tenha nada a dizer. Demorei a internalizar essas duas coisas simples. Outra dica importante é pensar no seu leitor, na pessoa que lê o que você rabisca. Lembre-se, você não escreve para qualquer um e não é qualquer pessoa que irá se dar ao trabalho de ler você, é preciso escolher para quem se escreve.

Sim, é verdade, se você escrever pensando em quem irá ler, fica mais fácil. Então eu procuro pensar em leitores imaginários quando escrevo. Mas não sou muito bom nisso. Um dos meus leitores imaginários mais recorrentes é o João Alfredo. Era meu amigo imaginário dos tempos da adolescência, quando todos os nossos monstros despertam. Sumiu por um longo período. Um dia me lembrei do João Alfredo e achei que ele deveria ser promovido a leitor imaginário.

João Alfredo é um sujeito muito enigmático. Tem o estopim curto e é inteligente, mas na maioria das vezes tem o estopim curto. É meio careca, fuma escondido, bebe além da conta e deve no cartão de crédito. É dominado pela mulher, mas acha que manda. Tem um filho no interior, fruto de um namoro de carnaval, a quem vê de vez em quando. Ele lê como quem procura respostas para a sua vida.

Também cultivo uma leitora imaginária. O nome dela é Flávia Tatiana. Sim, é o mesmo nome daquela Flávia Tatiana, a menina da terceira série do primeiro grau por quem fui apaixonado até o segundo grau. Flávia Tatiana é separada e não teve filhos. É gerente de uma empresa que presta serviços de limpeza. Flávia lê para passar o tempo e também para se divertir.

Meus dois leitores imaginários não se conhecem. Sim, uma vez quase deixei que os dois se encontrassem num café, no meio da tarde de domingo, mas fiquei com medo do que poderia acontecer. Achei que seria uma injustiça com a mulher do João, embora nem tenha me dado ao trabalho de imaginá-la. Também, confesso, fiquei com uma ponta de ciúmes da Flávia Tatiana, acho que ainda é cedo para que ela tenha um novo relacionamento, ainda que imaginário.

Sim, tenho medo de abandonar a minha zona de conforto. Talvez meus leitores imaginários acabem me obrigando a isso.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Reconstruindo o Careca



Bob Dylan - Shelter From The Storm

Ainda não comecei os preparativos para o próximo ano. Em outros anos, esvaziei gavetas e armários, fiz promessas de evitar o acúmulo de coisas desnecessárias. Neste ano está sendo um pouco diferente. Antes da mudança, já havíamos feito uma geral nos guarda-roupas. Nos livramos de muita coisa à tôa. Sempre sobra alguma coisa, mas de fato, acumulamos menos. E sempre é possível organizar melhor e de uma maneira mais inteligente o que sobrou.

No escritório, onde passo boa parte da noite, dois armários continuam à espera de muita arrumação. Deixarei para a próxima semana, é claro. Dos trabalhos prometidos de marcenaria, ainda falta fazer um carrinho de apoio para churrasco. Toda a madeira está cortada e lixada, talvez consiga montar tudo neste final de semana. Fiz dois banquinhos e terminei hoje a montagem de uma mesa de apoio. Os banquinhos serão pintados de branco. A mesa receberá um verniz transparene, à base de água, que seca em menos de duas horas. Esse verniz é menos durável, deve ser repetido todos os anos, mas não tem cheiro e não embrulha o estômago.

Está sendo um ano de reconstrução. Estou reaproveitando madeira, lixando, pintando e renovando as partes velhas da casa onde moro.

A verdade é que existe muita coisa para reconstruir. No escritório também existe uma prateleira cheia de plastimodelos quebrados. É a minha coleção de aviões. Quase todos se quebraram na mudança. Coloquei todos na mesma estante, incluindo os biplanos e triplanos, que eram tão bonitos. Ainda não tive ânimo de reconstruí-los, têm surgido outras coisas mais urgentes para fazer.

Nessa estante também está a antiga aparelhagem de som, que inclui o toca-discos com luz estroboscópica. Falta o cabeamento, as caixas de som e paciência, muita paciência, para colocar tudo em ordem e em perfeito funcionamento. Por enquanto, para escutar música uso o ipod acoplado ao uma caixa que parece um porquinho ou então fones de ouvido.

Entre as coisas para reconstruir incluo a minha vida e o meu caminho. Essa minha trajetória, tão curvilínea, tão cheia de altos e baixos, só não é monótona. Tenho uma vida boa, embora o meu tom de voz pareça tão depressivo e soturno de vez em quando. Talvez eu tenha simplesmente mudado. Já fui mais eufórico e expansivo. Hoje estou mais contido, me sinto melhor desse jeito. Talvez mude de novo, quem sabe não volto a dar risada de tudo?

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Noves fora zero



The Staple Singers - A Hard Rain's Gonna Fall

Uma vez levei um tombo de skate numa descida na Asa Norte. Eu tentava seguir o André Damasceno, também chamado de Damassa. Ele era um louco de treze anos de idade. Gostava de se arriscar. Pegava carona segurando no parachoque dos carros que passavam perto. Eu não tinha coragem. Da única vez que fiz isso levei esse tombo no meio da descida. Me esfolei todo e tive sorte de não quebrar nenhum osso. Meus óculos se foram, é claro. Meu braço esquerdo ficou muito machucado, todo esfolado de um lado. O impacto com o asfalto praticamente arrancou a pele desse braço. Também bati o quadril, machuquei muito as duas palmas das mãos e esfolei a coxa e o joelho esquerdo. Devia estar a 40 por hora.

O Damassa veio correndo, preocupado. Quando viu que eu não tinha quebrado nada, começou a rir. Ele me estendeu os óculos amassados. Uma lente se fora, a outra estava partida ao meio.

_Você é louco! Não pode segurar tanto tempo no parachoque. É só um pouco, só até o início da descida - ele disse.

_Prendi a minha mão no parachoque, não conseguia soltar. O carro quase me arrastou - eu disse, segurando as lágrimas e controlando a voz por causa da dor.

_E esse skate? Você nem apertou os eixos!! De longe eu vi você vibrando em cima do shape. Olha só isso aqui, você teve sorte de não quebrar o pescoço - ele disse.

Tive mesmo. Não me lembro de como voltei para casa. Sei que tomei um banho muito dolorido. Fiquei cuidando das feridas mais de um mês. Vivia com pó antiséptico no bolso, tomava cuidado para não apoiar o braço em qualquer lugar. Não conseguia segurar um garfo sem sentir dor. Levei esse tombo no início das férias do meio do ano e quando elas acabaram eu ainda estava cheio de não-me-toques.

Nessa época eu tinha um "esquente" preto com três listras, um conjunto de moleton para ginástica que todo mundo queria ter. Tinha sido presente de aniversário, esperado com ansiedade, eu tomava o maior cuidado com aquela roupa. O tombo do skate inutilizou o moleton. Minhas férias também foram muito afetadas, fiquei praticamente em casa, porque era onde doía menos. Escutava Rita Lee no rádio(Meu bem você me dá, água na boca...) e treinava partidas com os livros de xadrez do meu pai.

Depois fiquei um pouco receioso com o skate, mas voltei a andar normalmente. Nunca mais tentei imitar o Damassa. No ano passado, comprei skates para as crianças e também para mim. Hoje meu filho levou um tombo e ralou o braço, bem forte. Eu estava no oficina quando ele se machucou. Correu para mostrar a ferida.

_Olha, pai, doeu muito mas eu não chorei - ele disse.

_Puxa, vai ser preciso lavar com água e sabão - eu disse.

_Mas assim vai doer mais - ele disse.

_É melhor lavar e sarar depressa do que ficar doente - eu disse.

_Não tem outro jeito? - ele disse.

_Tem, mas aí tem que tomar injeção de anestesia. Não sente dor na hora, mas depois a dor é pior - eu disse.

_Vou pensar - ele disse.

Aí fiquei pensando também e me lembrei desse meu tombo. Pensei em contar para o meu filho, mas não é uma história educativa, fiquei com medo dele querer me imitar, pegando carona em parachoques. Pensei em dizer que éramos puxados por bicicletas, mas isso também é perigoso. Talvez o melhor seja mesmo ficar na minha, guardar essa história para depois. Nunca se sabe o que fica das histórias que a gente conta.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Só vale o que está escrito



Hackney Colliery Band - No Diggity

Meus filhos acreditam em Papai Noel. O mais velho, de oito anos, tem lá suas dúvidas, anda conversando com os primos, está desconfiado. A menina, não. Com sete anos, minha menina escreve bilhetes para o bom velhinho e depois dá um jeito de amarrá-los na árvore de Natal.

_E como o Papai Noel vai encontrar o bilhete? - eu disse.

_Mágica, paiê. Ele faz tudo com mágica - ela me disse.

E eu tenho que ajudar, é claro.

Tenho dó de jogar as cartinhas fora e nunca me lembro de comprar envelopes para enviar as cartas de verdade, pelo Correio. Voluntários respondem as cartas por todo o país. Eu mesmo já respondi cartas ao Papai Noel. Uma resposta eu lembro até hoje. Era de um menino de onze anos, que dizia que tinha sido um bom menino e pedia um playstation para o velhinho.

_Querido menino, que bom que você tem onze anos e ainda acredita em mim. Os duendes não fabricam playstation para evitar processos contra a pirataria por parte da fábrica japonesa. Fico feliz por você ser um bom menino, mas está na hora de cair na real. Peça um presente mais em conta para o seu pai porque a crise não está de brincadeira. Um abraço do Papai Noel.

No ano passado, achei que estava inventando e chamei os meninos para mandar um e-mail para o Papai Noel. É claro que já havia uma porção de twitters, blogs, sites e e-mails oficiais para o Papai Noel e até para duendes e renas do Pólo Norte. Por isso decidimos manter a comunicação tradicional com a turma do ártico: só vale coisa escrita no papel.

Na segunda-feira encontrei uma porção de bilhetinhos com pedidos de outros natais. Num deles, meu filho pede a paz no mundo. Em outro, pede um dinossauro do Jurassic Park. Bom, eu ajudei um pouco e consegui entregar o dinossauro.

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Memória de imaginação



Ocote Soul Sounds - La Reja

Terminei o grande aparador para a sala. Foi feito com ripas e os últimos grandes pedaços de madeira de um ex-telhado. Fiquei com medo de ter feito um aparador grande demais, mas ele não deixou o sofá da sala constrangido. Pedi ajuda da minha filha para escolher o melhor lugar. Foi ela que encontrou o lugar certo. Meu filho não fez nenhum comentário e minha mulher deu a palavra final, dizendo que ficou bom. Rafa, o cãozinho shi-tsu já havia demonstrado ciúmes antes do aparador ser colocado dentro de casa. Tive que lavar o móvel e passar um desinfetante.

Estamos perto do Natal, as crianças estão de férias e a minha rotina mudou pouco. De manhã, depois do café, passo uma vassoura rápida na varanda e recolho as folhas e flores da pérgula. Depois passo a rede na piscina e recolho as folhas, flores e insetos que caíram durante a noite. Depois sigo para a oficina para dar conta dos projetos que ainda faltam para este ano: uma grande mesa de ripas, duas banquetas brancas e um novo carrinho de apoio para a churrasqueira. Todos serão presentes, então é preciso agir depressa.

Além da oficina, também procuro fazer os pequenos trabalhos de conservação da casa. Existem dois pequenos problemas no telhado, ainda é preciso uma mão de pintura na cerca de metal e um poste de iluminação do quintal terá de ser consertado. Esses trabalhos são simples mas exigem tempo bom. E parece até perseguição, basta eu pegar na tinta para que o tempo feche. Os especialistas que tenho convocado por telefone também estão me deixando na mão. Nenhum dos caras que chamei para consertar o telhado apareceram. E a chuva frequente, transforma em risco subir no telhado. As telhas ficam muito frágeis e o estrago com a subida acaba ficando maior. As telhas devem estar secas. Aprendi isso do pior jeito, é claro.

Tenho escrito pouco. Aqui também. Tenho um monte de desculpas. A principal é que estou lendo pouco. Ainda não terminei o Don Corleone, estou encompridando a leitura ao máximo. Há um enorme capítulo do livro sobre o cantor Jhonny Fontanne e sua relação com a Família Corleone. Eu havia me esquecido completamente disso. Mas quando comecei a leitura me lembrei de um artigo do Paulo Francis que falava exatamente dessa lacuna no filme. Ou talvez minha memória tenha inventado essa parte. Alguém já disse, acho que foi o Feijó, que a minha memória é cheia de imaginação.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Pergunte que o Careca responde



Mountain Mocha Kilimanjaro



_Por que será que as propagandas de telefone falam tanto em namoro? - disse a minha mulher.

_Essa é fácil: namorada fala à beça pelo telefone. E além de ligar para o bacana, ainda liga para todas as amigas para contar como anda a coisa - eu disse.

_Paiê, posso jogar videogame? - disse o meu filho.

_Não, vá brincar no quintal - eu disse.

_Paiê, você viu a minha roupa de Cinderela? - disse a minha filha.

_Vi - eu disse.

_Ué, e onde está? - disse a minha filha.

_Eu vi mas não me lembro onde - eu disse.

_Amor, já terminamos as compras de Natal? - disse a minha mulher.

_Ainda não, faltam três presentes - eu disse.

_Paiê, posso entrar na piscina? - disse o meu filho.

_Claro, mas de cueca não, vá colocar um calção de banho - eu disse.

_...

Hoje foi o primeiro dia de férias das crianças. Terminaram os meus dias de mutismo e solilóquios. Respondi perguntas o dia inteiro, eu estava melhor do que o Fábio Júnior nos tempos de Qual É a Música. As crianças estavam precisando de férias. Eu estava precisando ficar mais com as crianças. Mas acabei ficando viciado em responder perguntas. Deixe a sua na área de comentários que eu respondo.

domingo, 11 de dezembro de 2011

No canto do assoalho



Mr President - The Best Is Yet to Come

Às vezes, não é sempre, tenho a impressão de que perdi todas as minhas fichas e chances, cheguei ao fundo do poço. E como estou lá embaixo, trato de olhar para cima e começar a me erguer lentamente. Faço um grande esforço, mas nada vem à minha mente, tudo me escapa, meus sentidos falham, meu instinto fraqueja. Nessas horas procuro escutar uma música, ver alguma coisa bonita, uma foto, um quadro, uma pintura. Recupero uma lembrança, busco um sonho numa gaveta. Procuro um livro na estante, folheio um deles ao acaso. Faço dessas coisas companhia. Ficar sozinho é uma questão de escolha, e eu mesmo fiz todas as minhas escolhas, ninguém me obrigou a isso. É assim que me acalmo, quando percebo que o caminho que eu faço, sou eu mesmo que traço todos os dias, sou o único responsável. Depois de me encarar no espelho, é que procuro vencer meus medos. Nem sempre consigo.

Noutras vezes, acredito em milagres, que as coisas vão se resolver sozinhas e que não existem motivos óbvios para os exageros do meu bruxismo. É lógico que nada se resolve por si mesmo.

Logo que nos mudamos, montei dois grandes armários no escritório. Eles pareciam absolutamente necessários para acomodar um sem número de objetos e documentos. Mesmo assim ficaram praticamente vazios por algum tempo. Nesse período, eu os abria todos os dias à procura de papéis e objetos que me eram muito úteis e imprescindíveis. Depois, a pretexto de organizar as coisas, comecei a enchê-los de coisas que não poderiam ficar em outros lugares. Rapidamente os dois armários ficaram lotados de bugigangas. Hoje percebi que não abro esses armários há pelo menos dois meses.

Ás vezes temo que este blog tenha se tornado algo parecido com aqueles armários, uma espécie de depósito de frivolidades e coisinhas sem importância e insignificantes. Outras vezes temo que a minha vida esteja se tornando também muito frívola e insignificante. É nessas horas que me vejo no fundo do poço e procuro olhar para cima. Talvez seja tudo verdade, todas essas coisas desimportantes jamais me levarão a lugar algum. São apenas murmúrios e lamentos sobre os meus fracassos. Mas quando só uma coisa nos resta, será que é possível prescindir justamente dessa coisa? Para mim, não.

Já estive em diversas encruzilhadas e talvez essa seja a pior. Acabaram as cartas na manga, a esperança de uma reviravolta, a confiança em um resgate, coisas que me salvaram em outras ocasiões. Estou como aquele sujeito que enverniza o assoalho da casa e se vê espremido no canto, sem ter como sair do corner. Tenho que esperar o verniz secar.

sábado, 10 de dezembro de 2011

Prontos para o Natal



You're Sensational - High Society - Classe os dois tinham de sobra.

As crianças ajudaram e hoje conseguimos montar a árvore de Natal. Finalmente. Também montamos o trenzinho da Fisher Price, que meu filho ganhou no seu primeiro Natal. O vagão elétrico pifou e não consegui consertar. Fomos almoçar com os amigos e na saída do restaurante uma velha gritava por ajuda. Ela esmolava com raiva, xingava quem não olhasse para ela. No início não entendi, fui ajudá-la a atravessar a rua.

_Não, não quero atravessar a rua. Eu tenho elefantíase, não está vendo? Eu preciso de uma condução para casa. Preciso de ajuda para ir para casa - ela disse, com raiva, muita raiva.

Só então olhei para a perna que ela apontava. Estava toda enfaixada e com talas, alguns poucos trechos visíveis revelavam uma perna inchada e porosa, sem cor e meio cinzenta como a pele do elefante.

Tirei um trocado do bolso para ela. Ela agarrou a nota com raiva.

_Já trabalhei nessa rua, sou cozinheira, muito boa cozinheira, hoje ninguém olha mais para a minha cara só porque fiquei doente. Obrigado, Deus te guie - ela disse, antes de se virar e berrar por ajuda para mais uma pessoa que passava pela calçada.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Máquina de lavar roupa



The Mamas And The Papas - Words Of Love

Os eletrodomésticos daqui de casa estão esgotando o tempo de vida. As velharias começam a pifar e às vezes não há o que fazer. Foi assim com a minha saudosa cafeteira, com o fogão e agora, ao que parece, com a máquina de lavar roupa. A coitada estava fazendo mais zoada que um caminhão descendo a ladeira na banguela. Na terça-feira fez tanto barulho que eu pensei em correr para me abrigar daquele ataque aéreo. Nem as crianças aguentaram. Então eu chamei um técnico. Antes a minha mulher me fez recomendações expressas para não deixar os caras levarem a máquina para fazer o conserto.

_Lembre-se, não deixe o técnico levar a máquina. Eles sempre descobrem mais defeitos na oficina e o orçamento triplica. Sem falar na troca de peças novas por peças velhas - disse a minha mulher.

_Claro, lóviofmailaife, a máquina só sairá desta casa se passarem sobre o meu cadáver - eu disse, batendo no peito.

_Putzgrila - disse a minha mulher.


-Xácomigo - eu disse e dei tchauzinho para a minha mulher, que foi trabalhar na faculdade. Alguém tem que pagar as contas. A máquina de lavar é só uma delas.

Então eu liguei e marquei com um técnico que já tinha passado por aqui, no início do ano, logo que mudamos. Na ocasião, eu fiz tudo errado. Deixei o técnico levar a máquina e o orçamento triplicou. Mas isso é justificável, porque o vazamento era grande e eu estava com medo da Rose morrer eletrocutada. Para quem não sabe, Rose é a lavadeira-governanta-babá-cozinheira e universitária daqui de casa. Ela estuda Assistência Social à noite e deve se formar no próximo ano. Pois eu fiquei com medo da máquina de lavar, que esguichava água por baixo, bem perto do motor elétrico. Mas dessa vez, não, eu não iria vacilar.

O técnico chegou quase na hora do almoço. Examinou a máquina e decretou que o problema era sério e grande, e que ele só poderia dizer com certeza qual era a solução depois de abrir o motor na oficina.

-Jamé - eu disse.

_Como? -ele disse.

_Nunquinha. Nunca que você vai sair daqui com a máquina de lavar da minha mulher - eu disse.

_Doutor, só posso consertar na oficina. Aqui eu não tenho as peças - ele disse.

_Meu hum, Amigo, recebi instruções específicas e claras para não permitir a retirada deste aparelho dessa residência. Se eu aprovar o seu orçamento, o conserto terá que ser feito aqui - eu disse.

_Doutor, o conserto vai ficar em XXX real.

_Nossa! Mas isso é um terço do valor de uma máquina nova 2.0, ultra-mega-super-moderna que tem até ligação com a internet - eu disse.

_Mas não tem jeito de consertar aqui. Tenho que levar a máquina e desmontar tudo lá na oficina - ele disse.

_Never - eu disse. E dispensei o técnico.

Aí eu conversei com a minha mãe e ela me indicou um sujeito que sempre conserta as máquinas da casa dela. O sujeito veio, olhou tudo rapidinho, fez um orçamento super enxuto.

_Tudo bem, eu disse, pode consertar - eu disse.

_Mas vou precisar levar a máquina - ele disse.

_Alto lá. A máquina não sai daqui de casa. A última vez que fizeram isso, o técnico ligou dois dias depois de ter levado a máquina e quadruplicou a solucionática e o orçamento. Nem pensar - eu disse.

_Mas eu não preciso levar a máquina toda. Só o motor. Pode ser? - ele disse.

Examinei a questão com cuidado e percebi que ele não feria o meu juramento solene. Autorizei a manobra e o técnico se foi, carregando o motor da lavadora.

Funcionou. O técnico consertou a máquina. De quebra, e de brinde, ainda colocou uma tampa nova.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

As chuteiras do campeão



Trombone Shorty - Do To Me

Leio que mais um ministro está mais enrolado que linha de carretel por causa do seu estrondoso sucesso como consultor de empresas. Falam que, tal qual o Palóffi, esse ministro também não consultava por escrito, só por fora. O negócio dele era no fio do bigode, palestra sem powerpoint e projetor, no gogó.

Eu sinceramente admiro o desprendimento desses ministros que abrem mãos e cofres de milhões de reais, grana certa a ser angariada à custa de saliva e expertise de bons conselhos ao pé do ouvido ou em palestras exclusivas.

Tudo bem, ministro tem status, motorista, reunião, mordomia, etc, mas nada se compara a um ou dois milhões por um cochicho bem cochichado, não é mesmo? Pensa bem, se o sujeito for aplicado, bom cochichador, em um mês ele tira bem uns dez salários anuais de ministro. É ou não é querer muito servir à cota da presidente ou à cota do condomínio partidário? Sim, porque eu acredito na honestidade desses caras.

Por outro lado, acho que é esse idealismo exagerado desses ministros honestos que põe tudo a perder. Pensa bem. Esses caras não ligam pra dinheiro, gente. Não ligam. E aí eles se descuidam e danam a fazer convênio com ONG do mal. Sim, porque existem trocentas ONGs do bem e só umas pouquinhazinhas que são do mal. É complicado identificar. As do bem são não-governamentais e não fazem convênio com governo. As do mal são neo-governamentais e só existem para fazer convênio com governo. É difícil demais. As do bem conquistaram uma boa reputação depois de longos anos de bons serviços prestados. As do mal foram criadas pouco antes da celebração do convênio por um PM amigo. É muitcho.

E o que tem chuteiras a ver com tudo isso? Nada. Mas você reparou na foto oficial do campeão e do vice-campeão do campeonato? Não aparecem as chuteiras. Elas foram tapadas por um painel com a logo da CBF. Acho que alguém não pagou o patrocínio, né?

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Nada aconteceu



The Cactus Channel ~ The Colour of Don Don


Faltam só 18 dias para o Natal e ainda não terminamos de fazer as compras de presentes. No ano passado, as coisas já estavam perfeitamente definidas por essa época. Também deixei passar mais um dia sem montar a árvore de Natal. Fica para amanhã. Hoje tentei arrumar outro poste do quintal, mas não consegui fazê-lo funcionar. Levei alguns choques no chuveiro quando era menino e desde então não gosto muito de mexer com fios e instalações elétricas. Quando me animo, faço o que tem que ser feito bem lentamente para não ser eletrocutado.

De fato, demorei uma hora para trocar o soquete do poste e uma lâmpada. Testei a luz e nada aconteceu. Depois de outra hora, consegui trocar toda a fiação e nada aconteceu. Só então me ocorreu que o problema pode estar no interruptor, que fica no quadro de luz do chuveiro da área externa. Aí fiquei com preguiça de trocar o interruptor(ou o faraday). Nada aconteceu.

Tive que ir ao supermercado porque já tinha acabado tudo, do arroz ao detergente. À tarde não quis saber mais de eletricidade. Fiquei tão cheio que esqueci completamente da árvore de Natal.

Vi um vídeo no Selva Brasilis e tive a idéia para uma história sobre um taxidermista. Sim, sempre detestei aquela coisa de se fazer uma distinção entre história e estória. A verdade é que as duas sempre se confundem em algum ponto. Em geral, prefiro as estórias, embora algumas histórias sejam do arco da velha.

Mas voltando à minha idéia, esse sujeito trabalha duro para empalhar animais e mantê-los bem conservados e com boa aparência. Ele começou seu ofício com pequenos animais, ratos, peixes, lagartos e cobras. Por necessidade e para atender ao grande mercado, os gatos e cães de estimação se tornaram sua especialidade. De vez em quando, um cliente quebrava a rotina e Bonasera(vamos chamá-lo assim?) empalhava uma ovelha, um mastim ou um exótico guepardo. Seu recorde foi um elefante, é claro. Mas isso só até o dia em que aquela mulher entrou na sua oficina de taxidermista e perguntou se ele poderia embalsamar seu falecido marido.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Solda, Rafa e mudança de faixa



White Cowbell Oklahoma - Packin' My Bags - Outra dica excelente do Gravetos e Berlotas.


Aqui em casa ainda não arrumamos a árvore de Natal. Falha minha, é claro. A minha desculpa é que apareceram coisas mais urgentes. Hoje, por exemplo, banquei o ajudante de serralheiro com o conserto do basculante do portão e a solda de um poste do jardim, que simplesmente desabou na última quinta-feira. O basculante foi corroído pela ferrugem e o poste, suspeito, ruiu devido a xixi de cachorro.

Todo mundo sabe que xixi de cachorro é altamente corrosivo, isso já foi documentado pela ciência. Além disso, Rafa, o cachorrinho shi-tsu da minha filha, acompanhou o trabalho com o maior interesse e preocupação. Montou guarda o tempo inteiro ao lado do poste enquanto trabalhávamos e só depois, quando tudo já estava terminado, é que saiu de perto. E quando eu e o serralheiro nos afastamos foi a vez do Rafa se aproximar e avaliar o serviço. Satisfeito, tratou logo de inaugurar a peça.

Na parte da tarde, eu havia me esquecido, eu e a minha mulher fomos assistir ao exame para mudança de faixa das crianças na aula de judô. Os dois foram muito bem. O sensei foi rigoroso e ao mesmo tempo simpático e amigável. Ao final de uma longa série de exercícios e demonstrações de golpes, as crianças passavam por uma sabatina de perguntas sobre a história do judô e vocabulário da luta, em japonês. Depois cada criança fazia sua auto-avaliação.

_Nove. Não, sete - disse a minha filha.

_Nove ou sete? Escolha - disse o sensei.

_Sete e meio - disse a minha filha, com modéstia genuína.

E o sensei anotou a nota com cuidado. Acredito que passará para a faixa azul.

_E você? Qual é a nota que você merece? - perguntou o sensei.

_Nove vírgula nove - disse o meu filho, sem titubear.

-Você é uma figuraça - disse o sensei.

E também anotou com cuidado. Acho que ganhará um novo dan na mesma faixa azul, apesar de ter feito todos os exercícios e demonstrações com rapidez e segurança. Na minha opinião de não-iniciado ainda precisa de mais força e peso para subir de faixa. Mas talvez eu mesmo seja surpreendido.

Os dois estavam orgulhosos e felizes por estarmos ali, o único casal, vendo o exame de faixa. Havia um outro pai e três mães, mas casal completo, só eu e minha mulher. Fomos comemorar com jantar e sorvete, mas todos nós comemos tanto que não conseguimos pedir a sobremesa. Com isso, o sorvete ficou para a próxima vez. E foi exatamente quando voltávamos é que surgiu a pergunta sobre a montagem da árvore de Natal.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

O meu distanciamento de futebol e Sócrates



Sócrates morreu e o Corínthians é campeão. Em 1982 eu torci muito por Sócrates e companhia. Mas Toninho Cerezzo, com o sinal secreto de entregar o jogo abaixando o meião e facilitando tudo para os italianos, partiu o meu coração e o de todos os brasileiros que queriam muito aquela Copa do Mundo. Depois daquele jogo contra a Itália nunca mais torci do mesmo jeito, como se não houvesse nada mais importante, como se não houvesse amanhã. Eu era o próprio Pacheco Camisa 12 e virei um torcedor comedido, chinfrim, jogo era só um pretexto para tomar muita cerveja. Hoje, nem isso. Nem sei explicar a tabela do campeonato, preciso ver ideográfico para entender.

Creio que com o passar do tempo, mesmo depois da conquista de duas copas do mundo, esse distanciamento das coisas do futebol tenha se ampliado um pouco. Já faz anos que não sei escalar meu time de futebol. Quero dizer, o time para o qual digo que torço. Sei o nome do técnico e do goleiro, um zagueiro, um atacante. Só. É um time estagnado, que não faz nenhum adversário tremer dentro das chuteiras. A falta de sucessos desse meu time também contribuiu para o meu distanciamento do futebol.

Mas eu sei bem que futebol é uma coisa de gênero. Sei que é importante saber coisas de futebol para ter o que conversar nas rodas de conhecidos ou das pessoas com as quais não temos assunto. É uma necessidade social. É sabido que futebol gera bem mais diálogo do que temas como o clima, café, vinho, os males do tabagismo, educação das crianças, novela, cinema, política, economia e lugares para passar as férias. Particularmente, eu curto bastante esse último tema, sempre surgem boas dicas de onde menos se espera. Uma vez descolei o endereço de uma pousada sensacional no Rio Grande do Norte depois de um papo desses. Mas tergiverso.

Eu suporto bem uma conversa mole sobre futebol. Na maioria das vezes acho chato, mas não corto. É um assunto. Mas algumas pessoas, é fácil notar, sabem bem do que estão falando quando falam sobre futebol. É uma paixão. Essas eu gosto de escutar. Mas às vezes um apaixonado pelo futebol vira enciclopedista, e a coisa começa a se complicar. Existem pessoas que adoram futebol e gostam de rememorar lances fantásticos que guardam na memória, cinematograficamente. Pessoas assim lembram não só a escalação do seu time, mas também das equipes rivais. Se brincar, sabem dizer se o gramado estava em boas condições ou se a chuva atrapalhou um pouco. Para esses, tenho pouca paciência e procuro mudar de assunto.

Minha memória de futebol é uma droga. Sempre foi. É lógico que existem algumas poucas exceções. Tem aqueles episódios que todos sabem, já viram o vídeo, o gol que Pelé não fez do meio do campo, la mano de Dios, o pênalti perdido pelo Zico, gols do Ronaldo, Taffarel defendendo aquele pênalti, mas nada excepcional. Às vezes até me sinto estrangeiro por causa disso.

A verdade é que existem milhões de sumidades em futebol na Terra Brasilis. Perto desses caras, sou um alienígena analfabeto. Ponho a culpa, é claro, em Sócrates e na seleção canarinho, aquela, de 82, que o Júnior do Flamengo cantou em versos assim: Voa canarinho, voa... . Sim, eles voaram de volta para casa sem o caneco e eu enterrei ali a minha proximidade com o futebol.

Mas uma coisa eu lembro bem do Sócrates, do jeito como ele comemorava o gol, o punho direito fechado e o pulso à mostra, reto. O braço esquerdo dobrado nas costas, também com o punho fechado. Era o gesto dos Panteras Negras, dos negros norte-americanos. Sócrates, não sei bem porquê, inventou a comemoração e o gol protesto e, dizem, foi o ideólogo da famosa democracia corinthiana. Felizmente, gostava de cerveja. Descanse em paz.

domingo, 4 de dezembro de 2011

O prêmio anti-gíria

As crianças estavam falando gíria a dar com pau. Então os avós resolveram instituir o primeiro campeonato de quem não fala gíria entre os netos. A premiação seria feita em espécie para a criança que deixasse a gíria de lado durante os três meses de competição.

_Adulto pode entrar nesse torneio? - eu disse.

_Não, a competição é restrita aos nove netos. Os pais vão ter que ajudar é claro, porque o campeonato é de não falar gíria na escola, em casa, aqui e em qualquer lugar - disse a minha mãe.

_Putz, caramba, mãe, que competição legal, véi. Vai ser massa ver esses meninos sem falar gíria o tempo todo. E o prêmio é muitcho bom, caraca! - eu disse.

Minha mãe me olhou com aquele ar de bronca.

_Fica fria, santa. Nem rola de estressar por causa de umas giriazinhas. Só estou fazendo isso para passar a vontade, véi. Achei dez essa idéia do jabá - eu disse.

E durante três meses os meninos e meninas se empenharam em mudar o vocabulário, com ótimos resultados. Hoje, depois de uma avaliação geral, todos passaram para a próxima fase. A cerimônia de premiação final terá lugar no ano que vem.

J'attendrai Swing



Django Reinhardt e Stephane Grappelli - J'attendrai Swing (1939)

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Miriam Makeba-The Click Song



Miriam Makeba-The Click Song


Os estalos fazem parte da língua de Míriam, sul-africana e militante histórica anti-apartheid. As canções mais bonitas são também muito tristes.

Hoje não vou postar, tem festa de formatura do meu afilhado. Amanhã vou postar sobre faixas e cartazes que ando vendo. Até.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Baixaria em alta



The Clash - Police on my back

A presidente que não quer saber de faxina se encontrou hoje com o ministro que disse que a amava. Havia grandes expectativas de que o tal ministro fosse enxotado do palácio e do ministério a vassouradas. Afinal de contas, por unanimidade, a comissão de estética pública havia recomendado com todos os pingos nos is a exoneração imediata do ministro lupino.

Mas para surpresa de todos os que ainda acreditam que esse governo será implacável contra a corrupção no ano que vem ou talvez depois, a presidente achou a recomendação malfeita e solicitou o envio dos “elementos que embasaram a decisão e a sugestão encaminhada”. Uó.
_Queru vê asprova, cadê? – disse a presidente em seu dialeto.

O ex-ministro das Supremes e presidente da comissão de etiqueta e boas maneiras não ficou com vergonha na cara e continuou no cargo que lhe garante a maior mamata. Seupulha, uma vez por mês, descola um jeton maneiro para participar de um churrasco regado a chivas numa reunião com outros sete juristas achados na rua.

Só neste ano, a comissão não se pronunciou outras cinco vezes pedindo a exoneração de larápios e gatunos alojados no governo. E na primeira vez que resolveu mostrar serviço, sujou na saída, lambrecou tudo.

_ Mas ele acumulou cargos públicos remunerados inúmeras vezes - disse Seu Pulha.

O ministro lupino deve estar rindo às pampas. Em menos de um mês, foi dado como cozido, frito e despachado umas cinco vezes. Escapou de todas. A cada escapada, uma declaração debochada. Nessa última, dizem que chutou a porta do palácio e só faltou limpar na cortina.

_Larga desse corpo que ele não te pertence! – disse o ministro.

A bordo do Vassourão 1, com quase 110% de aprovação de acordo com pesquisas fidedignas (só perde para o Apedeuta, que tinha 171% fora a comissão), a presidente viajou para a Venezuela, onde discutirá com outros líderes latinos a melhor forma de se pentear uma peruca.

Sim, tudo isso é uma baixaria. Mas, meu amigo, acredite, a despeito do malfeito, nunca antes neste país a baixaria esteve tão alto.

E falando sério, quem terá a bala de prata?

Onde estou no livro?



Godfather - Paulie Gatto execution

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Não passamos sem coletar lixo



Sinkin Soon - Norah Jones & J Walter Hawkes - A melhor apresentação de trombone que eu me lembro de ter visto. Barra até o Trombone Jones.

Andei o dia inteiro com o meu pré-molar no bolso da calça. Assim que ele foi retirado da minha boca, por volta das nove e trinta da manhã de hoje, sinalizei para a ajudante do dentista para guardar o dente para mim. O dentista estava suturando a minha boca por isso grunhi o recado e completei a frase com gestos.

_Acho que ele quer que você guarde o dente - disse o dentista.

_Ele quer isso? - disse a ajudante.

_Enrola numa gaze para ele levar - disse o dentista.

E quando ele terminou com os pontos eu expliquei que era a primeira vez que perdia um dente. Queria levar para mostrar para as crianças. Quem sabe não teria um efeito profilático?

_Vai por mim, não mostre para as crianças - disse o dentista.

_Por que não? - eu disse.

_É um exemplo negativo - ele disse.

E é verdade. Pais não devem dar exemplo negativo. Pega super-mal e é contra a lógica da paternidade. Agradeci pelo dente e voltei para casa.

Minhas semanas passam silenciosas. As terças-feiras são particularmente mudas. As crianças e a minha mulher ficam o dia inteiro fora, só voltam à noitinha. Fico o dia todo sem conversar com ninguém. Quando todos estão em casa, estou tão acostumado a ficar calado que minhas primeiras frases saem truncadas quando abro a boca. Na quarta e na quinta-feira, também passo praticamente o dia inteiro em silêncio. Às vezes escuto uma música para quebrar o muro. Mas é raro. Não gosto de ficar com o Ipod no ouvido quando estou trabalhando com madeira. Só consigo escutar rádio atrás do volante. Estou ficando cada vez mais cheio de manias.

No ano passado fui várias vezes ao dentista para cuidar do pré-molar que está no meu bolso. Investi nele um bocado de tempo e cobertura de seguro. Ele se foi rapidinho e sem cobertura. Nenhum lugar aceita o seguro dental que eu tenho. O seguro saúde também. Não é só o meu seguro. Os consultórios recusam praticamente todos os seguros. E é impressão minha ou já faz tempo que não vejo comercial de seguro saúde? Outro dia parei para ver telejornais e só tinha comercial de faculdade fajuta e banco oficial.

Hoje teve apagão na Esplanada, onze ministérios ficaram às escuras desde as quatro da tarde. A companhia de eletricidade confirmou que teve problemas em 3 de 4 ligações de energia. Estamos bem na capital federal. Bem às escuras. Ontem teve desfile de moda na Câmara Legislativa. Ninguém achou estranho. Ontem a Asa Norte ficou alagada. Ninguém achou estranho. Nada funciona direito, a polícia está em greve há mais de trinta dias. Ninguém acha estranho.

Olho na caixa de correio e vejo que os lixeiros investiram na arrecadação de Natal. Fizeram um cartão impresso em cores, caprichado, transcrevo a mensagem:

"Os nossos cordiais votos de Feliz Natal e de um Ano Novo repleto de realizações numa vida melhor, mais autêntica, mais cristã, vida de paz. Senhores Moradores já está chegando mais um Natal e nós coletores de lixo aqui da sua rua, estamos pedindo sua contribuição para nossa caixinha de Natal. Só entregue aos Garis no Caminhão. Atenção. Pergunte pelo nome: Arione - Fábio - Bambam - Manoel. NÃO PASSAMOS SEM COLETAR O LIXO. NÃO PEDIMOS CONTRIBUIÇÕES NA PARTE DA MANHÃ. O CAMINHÃO SEMPRE PASSA JUNTO COM OS COLETORES. NÃO TRABALHAMOS AOS DOMINGOS."

É assunto demais. É assunto demais. E a falta do meu dente dói.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Saudades do meu pré-molar



The Cactus Channel - Under the Birdcage

Voltou a chover o dia inteiro e isso parece acelerar o relógio. Amanhã farei a "remoção" de um pré-molar, vários dentistas disseram que é melhor desistir desse que de vez em quando dói. Fiquei triste quando me deram a notícia, mas parece que ficar banguela é a única solução. Depois tentarei um implante, mas só no ano que vem. Até lá vou falar com mais espaço, o que é bom.

Durante o dia fico na oficina improvisada. Estou fazendo duas mesas. Uma menor, com 90X50cm e 80 de altura. Se ficar legal, poderá servir de mini-bar. Caso fique ruim, usarei para deixar a lenha da lareira, que está lá fora, encharcando. A mesa maior, de 180 cm de comprimento por 90 cm de largura com 40 cm de altura, será usada como mesa de centro para a área externa. Isso, se ficar boa, é claro. Se ficar ruim, desmonto.

Por enquanto, a maior parte do trabalho é preparar as tábuas e ripas. Estou usando madeira do que já foi um telhado. É preciso limpar, tirar todos os pregos, cortar e depois lixar cada pedaço com cuidado. Nessa operação, fico imerso em uma nuvem de pó de madeira e verniz velho. Felizmente, uso um casaco grande, com gorro, e também uma máscara de pano. A chuva ajuda a diminuir a poeira, mas a água dificulta a limpeza da área depois do trabalho. Madeira não gosta muito de água.

Pequenos problemas também estão surgindo. Descobri nova infiltração num dos banheiros e surgiu uma goteira numa parede da sala. A infiltração foi provocada por uma telha quebrada. O problema é que é impossível subir no telhado com as telhas todas molhadas e frágeis. Tentarei tapar a goteira via sótão, mas só amanhã. Para consertar a goteira, será necessário pintar o teto e uma parede. As coisas se complicam. Muitas e muitas coisas para fazer. Do jeito que a coisa vai, só na metade do ano que vem será possível cuidar da parte de dentro da casa. Os cômodos só não são mais vazios porque têm eco. Mas a causa da goteira terá de ser consertada rapidamente. Será necessário colocar pelo menos uma nova calha num trecho do telhado.

Hoje encontrei mais um pássaro caído perto da piscina. Corri para pegá-lo antes que Rafa, o cãozinho shi-tsu da minha filha, o abocanhasse. Peguei o pássaro na mão com facilidade, parecia estar tonto. Deve ter batido na vidraça. Deixei ele se aquecer um pouco nas minhas mãos em concha. Depois soltei o bicho. Ele demorou um pouco, mas voou. Outro dia, um pássaro não teve tanta sorte. Deve ter quebrado uma asa. Rafa o atacou antes que eu pudesse intervir.

Dizem que é a rápida alteração na iluminação que deixa os pássaros confusos. Mesmo assim, estou pensando em comprar um adesivo com a foto de um gato para colocar na vidraça onde os pássaros sempre batem. Ganhei uma capa amarela, de chuva. Um rapaz que entrega brindes tocou a campainha e me perguntou se eu trabalhava aqui quando fui atender. Eu disse que trabalhava, é claro. Às vezes acho que estou involuindo, tem dias que me sinto um protozoário chafurdando em líquido primordial. Mas não há de ser nada.

Às vezes me pego pensando no assunto. Já sinto saudades do meu pré-molar.

domingo, 27 de novembro de 2011

O Rei da Ilha

Naquelas férias nós não iríamos viajar, como sempre fazíamos. Naquele ano, era preciso economizar. Por isso, nós nos concentramos na piscina do clube. Eu achei que as férias iam ser muito chatas, mas logo descobri que naquele ano a crise tinha sido forte para todos e que uma porção de meninos e meninas da quadra e da escola ficaria em Brasília. E o melhor: o clube era praticamente a única opção de diversão. Estavam quase todos lá, no clube.

A piscina infantil do Clube Unidade de Vizinhança Número 1, na entrequadra da 108/9 sul, tinha uma pequena plataforma retangular de azulejos. Era vazada. Uma das melhores brincadeiras era mergulhar e passar por debaixo da plataforma. Era difícil porque a passagem não era muito larga, era preciso passar de lado, de olhos abertos. E havia muito cloro naquela piscina. Em pouquíssimo tempo, todos nós ficávamos de olhos muito vermelhos. Mesmo assim, ficávamos horas na piscina, mergulhando e descansando sobre a plataforma.

Mas a principal e melhor brincadeira, era de Rei da Ilha. Os meninos e até algumas meninas brincavam horas de Rei da Ilha naquela plataforma. Eu era franzino e baixinho, mas também participava da guerra pela ilha. Em geral, meu reinado sobre a plataforma durava apenas alguns segundos. Quando triunfava, eu era rapidamente derrubado por alguém mais forte e pesado.

Havia um menino, no entanto, que ninguém conseguia derrubar. Era negro, grande, forte e pesado, muito pesado. Não consigo recordar seu nome. Bastava esse menino conseguir subir na plataforma para que ninguém mais conseguisse tirá-lo de lá. Ainda antes do final da primeira semana, nós desistimos de tentar derrubá-lo. Era impossível. O melhor que poderíamos fazer era tentar interceptá-lo antes que subisse na plataforma. Mas logo descobrimos, depois de muitos goles de água, que isso também era impossível. Era muito forte, aquele menino negro.

Então alguém teve a ideía de escolhermos um menino para ser o Rei da Ilha, com uma porção de outros meninos dentro dágua, protegendo a ilha das investidas do menino negro. Isso funcionou um pouco melhor, porque o menino na plataforma conseguia repelir com mais eficácia as tentativas de subida do menino negro. Mas isso não adiantava por muito tempo, porque o menino da plataforma acabava se cansando, e o menino negro conseguia subir e derrubá-lo com facilidade. E o que é pior, ele mantinha o infeliz ex-rei da plataforma sob a água por alguns segundos, o suficiente para se beber um bocado de água.

Era uma prática dissuasiva muito eficaz. Em breve, ninguém mais queria ser o rei provisório e o Rei da Ilha tomou conta da plataforma. E então ninguém mais queria brincar de Rei da Ilha. Mas para esse menino, não fazia mais diferença. Quando ele estava na plataforma, ela era dele e somente dele. Ninguém mais poderia se deitar ali. Não adiantava você gritar que não estava brincando, que só queria descansar um pouco. O Rei da Ilha era ele, e pronto.

Ninguém mais se arriscava a mergulhar e passar debaixo da plataforma. Um de nós foi pego fazendo isso pelo Rei da Ilha e obrigado a engolir um monte de goles de água com cloro.

_Vocês não me enganam, fingindo que só querem passar debaixo da plataforma. Ninguém vai me tirar daqui - ele disse.

Uma das crianças chamou os pais e isso piorou a situação. Primeiro porque era contra as regras chamar os pais para resolver encrencas de crianças, isso todo mundo sabia, não precisava falar. E segundo, porque o Rei da Ilha disse aos pais do menino que tinha o direito de estar ali. Ele havia topado a brincadeira e não havia machucado ninguém. E também disse que se os pais do menino quisessem, era só entrar na piscina e tentar derrubá-lo da plataforma. Juntou gente à beça para assistir o embate. O pai desse menino cagueta entrou na piscina e nadou até a plataforma. Subiu e foi derrubado em dois segundos pelo Rei da Ilha.

Depois disso, não houve mais desafios. Todos os dias, o Rei da Ilha nadava até a plataforma e tomava conta do lugar. Acabamos enjoando da piscina. Aquele menino havia tirado toda a graça das duas brincadeiras. De longe, nós olhávamos e ele estava lá, estirado na plataforma, a piscina vazia de gente ao seu redor.

Um dia, fora do clube, eu o vi no supermercado. Estava com o pai, um gigante negro, muito forte e também muito, muito pesado. Eu acompanhava minha mãe empurrando o carrinho, sempre fazia isso. Durante as compras, prestei muita atenção por onde andava para não encontrarmos o Rei da Ilha. Isso deixou a minha mãe irritada, porque eu às vezes mudava o trajeto repentinamente para não encontrar a dupla. Apesar dos meus esforços, acabamos nos encontrando nos caixas. Um de frente para o outro. Para minha surpresa, o Rei da Ilha acenou para mim. Eu não respondi. Minha mãe viu aquilo e ficou irritada.

_Não seja mal-educado. Cumprimente o seu amigo - ela disse.

_Não é meu amigo, mãe. É só um cara do clube - eu disse.

Então eu fiz um aceno contido com a mão esquerda e trinquei os dentes. O Rei da Ilha também trincou os dentes. Seu pai olhou para nós e fez um cumprimento de cabeça, com sorriso.

Depois disso, todas as vezes em que eu me aproximava da piscina, o Rei da Ilha acenava para mim. Eu me sentia na obrigação de responder. Os outros meninos notaram e começaram a falar que eu deveria convencer o meu amigo a abandonar a plataforma. As férias estavam acabando e não era justo que a piscina ficasse só para ele. Eu dizia que não era amigo do Rei da Ilha, mas os meninos não acreditavam. Um dia me envolvi numa briga com outro menino porque me irritei com aquela história de ser amigo do Rei. As férias terminaram pouco depois e nunca mais ouvimos falar no Rei da Ilha. Por algum motivo, a história daquele menino teimoso, que venceu todos os garotos unidos e até um dos pais, permaneceu na minha memória.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

O manequim daqui de casa



Iggy Pop - Beside You

Sobre a minha mesa, no escritório, eu tenho o monitor, o modem, um apontador grande, um grampeador velho, que eu afanei de um antigo trabalho, um monte de revistas que os meninos largaram e o manequim daqui de casa. É daqueles de madeira, para desenho. Veio de brinde no primeiro fascículo de uma coleção que prometia me ensinar a desenhar. Eu não acreditei, é claro. Eu sou burro e velho demais para aprender coisas que uma criança consegue fazer de olhos fechados. Comprei o primeiro fascículo porque vinha o manequim de brinde.

Desde que cheguei em casa com o manequim os meninos cismam com ele. Minha filha quer desenhar um rosto no boneco. Eu não deixo, é claro. Por vingança, ela coloca o manequim em posições de balé. Os braços em arco, os pés em pliê, a cabeça levemente inclinada como se estivesse fazendo par com outra bailarina em O Lago dos Cisnes. Finjo que não noto.

Meu filho também implica com o manequim. Quer que eu tire o suporte, para que ele seja mais um entre os bonecos que possui e lute contra Max Still, dinossauros e outros bichos.

_Filho, eu não tenho contra uma luta, mas nada de tirar o manequim do suporte - eu digo.

E é lógico que, por vingança, meu filho vive colocando o manequim em posições de luta. A predileta é aquela pose do karatê kid, com o manequim se equilibrando na ponta do pé, a outra perna em suspenso, dolorida, mas pronto para desferir o golpe certeiro no queixo do adversário, igualzinho ao Anderson Silva ou o Steven Seagall, ou os dois, sei lá.

Às vezes as crianças mexem no manequim ao mesmo tempo, dá para perceber, porque as poses de luta ficam meio esquizofrênicas, como se o manequim fosse um Bruce Lee que usasse tutu.

Agora à noite, por exemplo, o manequim está com um braço levantado e o outro caído, a perna direita esticada parece dar um chute de trivela e a outra perna está dobrada de um jeito impossível, com o joelho totalmente voltado para baixo e o pé apontando para cima.

Logo que comprei o manequim, eu gostava de deixá-lo reto, de pé, quando o encontrava nas poses esquisitas, elaboradas pelas crianças. Agora eu fico examinando as poses esquisitas e tentando adivinhar quem fez o quê. É lógico que não consigo.

O estranho é que nunca usei o manequim para fazer um desenho. Ficou mais como enfeite de mesa. Uma vez achei que havia alguma simbologia misteriosa envolvendo este boneco, como se ele fosse um Rosebud ou alguma coisa. Mas depois desencanei. As coisas só podem ser o que acreditamos que são.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

O Careca sente a dor que deveras dente

Hoje eu corri pelo meu dente. Começou ainda pela manhã. Uma dorzinha aqui e ali, mal consegui terminar o café da manhã. Levei as crianças na escola e lembrei que era dia de reunião de apresentação da próxima série do meu filho. Putz! Eu não poderia faltar. Também lembrei que era o penúltimo dia do prazo para renovação de matrícula com desconto na mensalidade. Gente, eu preciso de todos os descontos que eu puder arrumar, então preparei a papelada com dor de dente e tudo.

É lógico que estava de mau-humor. Se existissem apenas três coisas que deixassem o ser humano de mau-humor, uma seria dor-de-dente, a outra seria dor-de-dente e a terceira seria uma puta dor-de-dente. E essa doía. Nem fiz festa de 3 minutos de rock´n´roll com as crianças dentro do carro. Botei notícia, que elas detestam. Quando você tem dor de dente, há um momento em que você sente o desejo de compartilhar dor ou inflingir dor em outro ser, não precisa ser humano. É muito importante manter a calma nessa hora e respirar fundo. Por isso, liguei o rádio para desanuviar.

_Pô, paiê, coloca música - disse a minha princesa de sete anos de idade.

_Não, hoje eu quero saber se mais um ministro vai rodar - eu disse.

E no mesmo instante eu descobri que tem mais um perigando. A dor de dente aumentava e eu imaginava corruptos e corruptores sentados na cadeira de um dentista sádico e debochado. Eu mesmo.

_Rá, toma esse motorzinho aqui, seu corrupto!! E olha o jato de ar água gelada nesse pré-molar furado, seu corruptor de uma figa!! - eu delirava no volante.

_Pai, já chegamos, tem reunião na minha sala, não se esqueça - disse o meu filho.

E eu desci correndo pois enquanto eu fantasiava flagelos dentais para os subtraidores dos cofres públicos o tempo voou. Cheguei na reunião e já estavam passando slides. Reunião de escola, gente, tem sempre um monte de slides. E é tudo muito bacana e bonito, tem vezes que até colocam música durante a projeção. Eu gosto, de verdade, mas não quando estou com dor de dente. Minha vontade era de infligir dor, provocar dor, causar dor, qualquer coisa, menos sentir dor. Ao mesmo tempo, eu me sentia humilde, muito humilde, porque a dor de dente tem isso, faz a gente se sentir bem coitado, ai, ai, ai, olhando pro céu à espera de aspirina e tylenol.

Durou uma hora. Eu já estava quase subindo pelas paredes e saí da sala feito louco para aplacar a fúria da dor do meu dente. Consegui fazer isso por acaso, no bebedouro, enchendo a boca de água. Milagre! Bastava um pouco de água fria para fazer a dor ir embora. Uau! Era o primeiro momento sem dor do dia e conseguira isso com apenas um pouco de água. Ai! Mas bastava engolir a água que a dor lancinante voltava. Enchi a boca de água e fui fazer a matrícula com desconto. Tem coisas que é melhor a gente não deixar para o dia de amanhã.

Deixei um borrachudo na escola e já ia saindo quando a moça da secretaria disse:

_Por obséquio, será que o senhor não se incomodaria de passar um pouquinho, se não for muito incômodo, é claro, no departamento financeiro?

_Oglub - eu disse, tentando evitar engolir a água, mas não teve jeito.

Eu agora me dirigia ao departamento financeiro, a dor de dente já começava a avançar para o meu ouvido. Infligir dor. Alicatão. Urutau. A outra moça do departamento financeiro começou a falar em débitos antigos. Minha dor-de-dente começou a sussurrar em sânscrito pré-cambriano no meu ouvido. Eu pensava naqueles instrumentos utilizados pelos inquisidores da Idade Média. Será que vendem essas coisas pela Internet? A moça girou a tela do computador e me mostrou o débito.

_Aham, mas moça, a pendência é a mensalidade de dezembro. Ainda estamos em novembro - eu disse.

Ela ficou vermelha. Disse que o sistema era novo. Ela mesma era nova na atividade. Ela é professora, tinha sido remanejada para a atividade, que era muito difícil, e que o sistema também tinha muitos problemas e que eu já era a vigésima pessoa que encontrava erros no sistema.

_Moça, não está errado. O sistema está correto - eu disse.

_Mas o senhor mesmo disse que não está pendente - ela disse.

_Sim, meu dente, digo, não, não estou pendente - eu disse.

_Sim ou não, o senhor se decida - ela disse.

_...

Bom, isso se prolongou por mais alguns minutos. Saí da escola com as matrículas renovadas às nove e meia. Pra encurtar a história, fui atendido na emergência às quatro e meia da tarde. O Instituto em que fui atendido não aceitava o meu convênio. Por 119 reais e 12 centavos, o sujeito que me atendeu disse que um dos meus dentes será demitido. Ele também me receitou um monte de antibióticos e analgésicos. Fiquei legal, mas agora estou morto de sono. Bye.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

The Godfather e Bonasera



Nesses dias estou acordando mais cedo. Pensei que era outro sintoma de depressão, mas depois percebi que era o livro. Agora acordo todos os dias meia hora mais cedo para ler "O Poderoso Chefão", de Mário Puzo, em inglês. A diferença é enorme, não fica só no título. Toda tradução é uma traição, já diziam os sábios e o lugar-comum. Mas convenhamos, quem sairia de casa para ver um filme chamado "O Padrinho". Eu também não acordaria mais cedo para isso. Mas o faço para "The Godfather". Soa bem mais imponente em inglês, claro, colocam o nome do Todo-Poderoso na capa e lá dentro, Mário Puzo ensina qualquer contador de histórias a rezar a missa. Que livro!

Sim, vi os filmes várias vezes, e acreditava que o filme derivava do talento de Coppola, do grande cineasta e dos grandes atores do elenco. Papo furado. O livro é puro filme. Está tudo ali, escrito de uma maneira tão simples e genial que Coppola só precisava gritar Ação. Ainda estou no início, mas já me arrependi por anos e anos terem se passado sem que eu tivesse aberto esse livro no original.

Vivo lendo sobre comparações bizarras, pessoas que dizem detestar um livro e adorar o filme, ou o contrário, dizem que adoram o livro e detestam o filme. Mas pouco se ouve falar dos filmes que são muito bons e dos livros que também são muito bons. Cada coisa é uma coisa, é lógico, quem quiser que compare maçã com banana, eu não entro nessa. O que importa é que a minha lista de filmes excelentes e livros idem está aumentando, veja só:

LISTA DE LIVROS BONSPRACARAI E FILMES IDEM

1 - Moby Dick

2 - Laranja Mecânica

3 - A Fogueira das Vaidades

4 - O Nome da Rosa

5 - O Estranho no Ninho

6 - À Espera de um milagre (The Green Mile)

7 - Carrie, a Estranha

8 - O Senhor das Moscas (Lord of The Flies)

9 - Relíquia Macabra (O Falcão Maltês)

10 - O Talentoso Ripley

11 - O Amigo Americano

12 - A Ilha do Tesouro

13 - Os Cães de Baskerville

14 - Os 3 Mosqueteiros

15 - O Poderoso Chefão


É uma lista pequena, por enquanto, porque a minha memória abandonou a F1 muito antes do Barrichello e hoje só faz exibições breves, em curto-circuitos pequenos. Também não coloquei aí os filmes que vieram de grandes Graphic Novels e nem as que surgiram de excelentes contos/short stories. Sim, ainda falta muita coisa, mas quem tem tempo para pensar quando você está no início de "The Godfather", justo na hora em que Don Corleone chama o filho Santino para observá-lo numa conversa com Amerigo Bonasera, o agente funerário? É só agora que irei ler no livro, o diálogo daí de cima.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Cantar de galo é mania nacional

No Recife, como bem disse o Samarone Lima(dica do Paulo Bono), tem rei para tudo quanto é lado. Na Bahia, nem se fala.

No Goiás, tem o "Não-sei-o-quê de Ouro", que é uma variação de Rei da Cocada Preta, ouro é coisa de realeza, você sabe. Basta uma pequena volta por uma cidade goiana para encontrar o Garfo de Ouro, o Frango de Ouro, a Oficina de Ouro, a Costureira de Ouro, a Linha de Ouro, o Martelinho de Ouro e a Bezerra de Ouro do Joaquim Roriz. É ouro que não acaba mais.

Aqui, no Distrito Federal, o povo é mais comedido na realeza ou a falsidade impera e a onda é o "Não-sei-o-quê Dourado". Já vi placa de Faisão Dourado, Dragão Dourado, Tesoura Dourada, Padaria Pão Dourado, Academia Dourada, Funilaria Dourada, Buteco Dourado e a Lanchonete do Dourado, que fica no Cruzeiro e que, mesmo com preposição, também vou considerar.

Em Minas, tudo é Estrada Real. O Hotel Real, a Viola Real, o Bagual Real, a Perua Real, o Pão-de-Queijo Real, a Cachaça Real, a Vagaba Real, o Queijo Real, o Pastel Real, a Rapadura Real, o Caldo de Cana Real e o Bicho de Pé Real. É uma realeza sem fim. Só o Aécio não cai na real e não percebe que nunca conseguirá ser presidente.

Em outras partes do país, o adjetivo varia, mas a intenção é a mesma. Nós, brasileiros, temos um orgulho danado do nosso modesto terreiro e nos achamos o ó-do-borogodó, o pingo no í do pinguím, o mafagafo dos mafagafinhos. Eu também, eu também, preciso me apressar logo em dizer, antes que você pense que eu sou um renegador do berço esplêndido.

Não senhor, não senhor. Também faço coro na hora do hino, canto de pé, mão no coração, pago meus impostos em parcelas, aquelas coisas. Mas convenhamos, há exageros e senões na nossa mania de cantar de galo. E ela é mais explícita na forma de contar vantagem a toda hora, quando enchemos o peito e dizemos com a maior cara dura que uma coisa daqui, do Brasil, é a melhor do mundo.

Sim, nunca antes neste país nós nos jactamos tanto de coisas à tôa ou para as quais não existem termos de comparação. Não faz muito tempo, li em algum lugar que uma pesquisa mostrou que somos o povo mais feliz do mundo. Não tenho a menor idéia de como foi feita essa pesquisa, mas lembro de ter discutido o tema num buteco com um argentino que queria me provar que o resultado tinha favorecido, na verdade, os nossos hermanos.

_Que dices? Estás loco, abreu? - eu disse, em perfeito portunhol - basta ponhar la língua en la puenta dos dentes.

_Nosotros somos los felices! - disse o gringo, batizado de Diego em homenagem a outro pretenso mejor del mundo.

_Dieguito, o país do tango no puede ser o mas feliz, o riso não combina com as milongas - eu disse.

Não lembro mais dos argumentos de Diego, porque o primeiro começava com "hijo de" o que me obrigou a desperdiçar o meu chopp antes que o garçom entrasse para desapartar a porradaria e ficasse do meu lado, é claro.

_Sai fuera, gringo, nosotros é que suemos los mejores del mundo - disse o garçom, num portunhol bem melhor que o meu.

_Boludos, boludos - gritou Dieguito, a hacer gestos obscenos com la mano de Dios.

Sim, para nós, brasileiros, tudo é questão de ser ou não ser o melhor e o maior do mundo. E não apenas no futebol. Nós somos os melhores do mundo em matéria de Gisele Bundchen, por exemplo. É um espectro bem amplo. Isso vai da produção de soja até a exploração de petróleo em águas profundas.

De cabeça dá para dizer que nós temos a melhor música bossa nova, o samba mais bonito, o carnaval de escola de samba mais caro do planeta, a jabuticaba maior e mais doce, a jaca(que dispensa outros adjetivos), o jabuti em cima da árvore e os jabutis do Chico, a maior usina hidrelétrica, o governador mais ongnelo, o sexto e mais cara-de-pau dos ministros, estamos lá em cima no ranking dos mais corruptos(a gente chega lá), os juros mais altos do mundo, a presidente mais presidenta, as ongs mais fajutas do mundo e a maior e mais completa bandalheira de que qualquer um já tenha tido notícia. Não, você não tem noção, é coisa de doido. E ainda assim, na maior cara dura, cantamos de galo. Dieguito tem razão, somos uns boludos.

domingo, 20 de novembro de 2011

O Careca desanima um pouco



Johnny Cash - God's Gonna Cut You Down

Não sou nenhum presidente, longe disso, mas ando chorando com facilidade. Minha mulher, nas vezes que ficou, sabia que o choro fácil era um sinal de gravidez. Naqueles tempos, até os comerciais de pasta de dente faziam com que ela desatasse um choro de soluços, parecido com caminhão velho freando ladeira abaixo. Era de dar dó.

Ando do mesmo jeito, torço para não estar grávido. Tudo me emociona, é patético. Olho para a janela, o verde da rua, a chuva forte que deixou tudo limpo e mais bonito me emocionam. É um horror. Só pode ser sintoma de alguma coisa grave.

Corro para a Internet e procuro doenças relacionadas ao choro fácil. Existem muitas. Vão da bipolar até esclerose múltipla, passando logicamente por depressão e demência. Céus! Estou perdido, eu penso. Como não sou nenhuma celebridade, não posso ser bipolar. A esclerose múltípla é uma possibilidade, mas a doença pseudobulbar se caracteriza por episódios de riso e choro descontrolados e a verdade é que não tenho o riso frouxo. Minha última gargalhada deve ter acontecido há um mês. Risco essa. Aí vem depressão na sequência, mas não estou a fim de pensar nisso e passo logo para demência. Olha os 10 principais sintomas aí abaixo:

Déficit de memória
Dificuldades de executar tarefas domésticas
Problema com o vocabulário
Desorientação no tempo e espaço
Incapacidade de julgar situações
Problemas com o raciocínio abstrato
Colocar objetos em lugares equivocados
Alterações de humor de comportamento
Alterações de personalidade
Perda da iniciativa – passividade

Deu positivo para todos, menos para "dificuldades de executar tarefas domésticas". Não acho difícil. Só tenho um pouco de preguiça. Também não tenho muitos problemas com o vocabulário, mas às vezes consulto o dicionário. Acho legal. Agora desorientação no tempo e espaço é comigo mesmo, tenho tido muita sensação de deja vu, especialmente quando abro os jornais ou vejo as notícias da política. O que me leva ao outro sintoma, o que fala da incapacidade de julgar situações. Acho que estou com isso porque julgava a situação gravíssima, mas devo estar enganado porque o ministro tal continua ministro e coisa e tal. Não ando colocando nada fora do lugar, mas acho que algumas pessoas deveriam estar atrás das grades. Essas decepções acumuladas têm provocado alterações no meu humor de comportamento. Antes eu acreditava que providências seriam tomadas, hoje já não acredito mais. Também mudei um pouco a minha personalidade, passando de pouco cético para muito cético quanto à possibilidade de alguma melhora no curto, no médio e no longo prazo. Estamos ferrados e vai durar um tempão, é o que penso. Tudo isso, é lógico, é de desanimar qualquer cristão, ainda mais eu, que sempre gostei de ficar na minha. Então desanimo. Um pouco.

AIN'T NO GRAVE




AIN'T NO GRAVE (Can Hold My Body Down) Johnny Cash

sábado, 19 de novembro de 2011

Últimas jabuticabas



30 Seconds to Mars - Bad Romance

Fez um calor danado durante o dia e à noite choveu. Ainda chuvisca enquanto escrevo. Houve um picote na energia por volta das oito horas da noite, que desligou todos os aparelhos elétricos da casa. Fiquei com medo de uma nova queda de energia e demorei a vir para a frente do computador. Ler aquele livro de conversas entre Sábato e Borges não foi uma boa idéia, meu complexo de vira-latas tomou conta do pedaço. O calor também desanima, acho.

Rafa, o cãozinho shi-tsu da minha filha, está deitado aos meus pés. Os trovões e relâmpagos o deixam muito assustado. Quando não tenho nenhuma idéia, faço a memória dos dias, você já sabe.

Estou para concluir uma mesinha de apoio para a área da cozinha. Trabalhei durante a semana no corte e preparação da estrutura em madeira. Usei uns pilarzinhos quadrados de um telhado que havia na casa dos meus pais. Ficou bem sólida e firme. Mas ao invés de usar um tampo em MDF, um retalho que comprei por dez reais, resolvi usar uns caibros do tal telhado. Com isso, tive que voltar para a serra para cortar mais madeira e depois lixar tudo.

Ontem fiquei o dia quase todo aprontando essa mesinha, mas na última hora, lembrei que precisava colher as jabuticabas antes que todas fossem ao chão. Fiquei quase duas horas colhendo frutas e me empanturrando. Foram cinco litros de jabuticabas, escolhidas a dedo. Hoje, não quis mais saber de jabuticabas e nem de mesinha.

Mas ainda precisava proteger os decks de madeira que construí antes do feriado. Usei uma tinta/verniz sparlack à base de água. Para não sujar o chão, forrei tudo com jornal. Em um deles, a manchete destacava a não demissão de mais um ministro flagrado em mentiras e malfeitos. Caramba, só agora estou me lembrando que a chuva deve ter encharcado os jornais e os decks, que só tinham sido pintados de um lado. Com certeza o chuvaréu derrubou as últimas jabuticabas do pé.

Amanhã terei um domingo de bastante trabalho de limpeza. Tenho que concluir os decks e também a mesinha. Se ficar bonita, quem sabe não tiro uma foto e coloco no blog?

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Culpado



Queens Of The Stone Age - Make It Wit Chu

Há dois anos tive um problema com os olhos. Os microcanais das glândulas que lubrificam meus olhos ficaram entupidos e por causa disso fiquei sem enxergar direito por uma semana. Agora o fenômeno se repete. Meu olho direito está inchado e vejo tudo embaçado com ele. O olho esquerdo está ok, por enquanto, mas está coçando. O outro olho começou a ficar ruim depois de coçar. Da última vez, usei uma pomada, mas lembro que o melhor a fazer era lavar os olhos com água morna.

Fico pensando se as jabuticabas não teriam potencializado o problema. Ou terá sido o Borges? Tenho mania de achar culpado para tudo.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Jabuticabas só até sexta, no máximo



Cochemea Gastelum - Arrows Theme

Descendo aquela ladeira enorme que passa em frente ao Parque da Água Mineral, eu vejo os cartazes das pessoas vendendo piquis, jabuticabas, mangas, abacaxis e morangos. Resolvo parar no sujeito que vende jabuticabas, porque estou com um problema de logística em casa: as jabuticabas do meu quintal estão caindo e se estragando mais depressa do que eu consigo colher e consumir. E olha que estamos comendo jabuticabas a rodo. E também já distribuímos para os parentes e amigos que, coitados, não têm pés de jabuticabas em casa.

Eu paro quase em frente ao sujeito que vende jabuticabas. Tem uma cara comum, se veste de um jeito comum, o cara é bem comum. Tudo bem, isso não é descrição que se faça, mas realmente não há nada para ser dito desse sujeito que vende jabuticabas. A não ser que eu mencione a camiseta, onde se lê "alguém que me ama trouxe essa camisa do Ceará". Eu não fiz nenhum comentário, é claro.

_Ô do Ceará, será que você poderia me ajudar?

_Pode falar, chefia.

_Eu tenho um pé de jabuticaba em casa e está carregado, é uma beleza. Mas o problema é que as jabuticabas estão todas amadurecendo ao mesmo tempo. Todos os dias o chão amanhece coberto de jabuticabas. E cai jabuticaba o dia inteiro. Eu queria saber como é que vocês fazem para colher a jabuticaba dos galhos mais altos, sem derrubar as jabuticabas que ainda estão verdes dos galhos mais baixos.

O sujeito me olhou como se eu fosse o sexto ministro de estado flagrado na mentira.

_Ué, é pra isso que tem menino, vice. Os meus meninos é que apanham as jabuticabas para mim. Vai querer levar a jabuticaba?

_Não, muito obrigado.

As coisas mais óbvias do mundo às vezes me escapam. Mas hoje as crianças não passaram a tarde em casa, então eu mesmo tive que colher as jabuticabas com a ajuda de uma escada. Colhi três baldes de cinco litros em duas horas de trabalho. Só parei para o jantar. Também fiz uma nova limpeza em torno da árvore, recolhendo os frutos que caíram. Acho que as frutas duram no máximo até sexta-feira.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Epifania



King Charles - Bam Bam

Houve uma época em que sonhava que escrevia livros. Lembro de ver páginas e páginas datilografadas, quando ainda datilografava. Para os meus olhos dentro do sonho, eram coisas do balacobaco. Eu nunca conseguia me lembrar do estava escrito exatamente, apenas guardava a sensação de estar desvendando mistérios profundos e de suma importância para a minha vida. Ao despertar, por vezes podia jurar que ainda sentia o sabor desse conhecimento, mas quando achava papel e lápis, tudo já se fora. Então corria para o chuveiro e procurava resgatar pedaços de páginas, mas nada surgia.

Por algum tempo, quando ainda acreditava nos olhos do sonho, eu mantive um caderno de notas e caneta ao lado da cama, prontos para uma anotação rápida. Mas o estratagema nunca funcionou. Estando devidamente preparado para anotações, ou não sonhava com as páginas ou tudo desaparecia ao abrir os olhos. Uma vez despertei durante a noite e anotei frases febrilmente, com as luzes apagadas, certo de que desta vez havia triunfado. Mas no dia seguinte, os garranchos eram incompreensíveis e o pouco que consegui entender não fazia o menor sentido ou era insignificante.

Então parei de acreditar nesses sonhos de escrever o livro dos sonhos. Misteriosamente, os sonhos se intensificaram. Eu agora escrevia o dobro ou o triplo de páginas enquanto dormia. Minha produção sonhadora era tão magnífica que às vezes, na velocidade estupefaciante e maluca do tempo dos sonhos, eu escrevia livros inteiros e suas continuações. Sim, eram dezenas e dezenas de páginas, histórias e estórias encadeadas, com revelações a rodo, metáforas estupendas, parágrafos inspirados, uma beleza. Quando acordava, nesse tempo, eu corria para ler os livros de verdade que eu guardava no banheiro e aquelas páginas reais ajudavam a me manter no clima de sonho e revelação. Eu me sentia o máximo. E às vezes, até acreditava que tinha escrito alguma coisa de verdade, que estava em alguma gaveta, em pastas azuis cuidadosamente protegidas.

Tão misteriosamente quanto surgiram, meus sonhos de escrever páginas e páginas de livros desapareceram. Não achei estranho porque agora também sonho menos sobre qualquer coisa. Os raros sonhos que aparecem trato a pão-de-ló, com o melhor dos meus instintos preservacionistas, mas nem isso faz com que me lembre deles. Mesmo assim, às vezes acordo e olho para o criado mudo e vejo se por acaso não anotei alguma coisa numa folha qualquer. É uma esperança boba, eu sei, mas é inevitável.

Outras vezes, não é sempre, é só de vez em quando, eu me pego a procurar as misteriosas pastas azuis em algum armário. Isso é menos frequente, mas por outro lado é mais sério. Estão por aqui, em algum lugar.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Marcha contra a corrupa



Marlena Shaw - California Soul

Amanhã tem marcha contra a corrupa. Começa às dez horas, em frente ao Museu Nacional.

domingo, 13 de novembro de 2011

Eu me enrolo



Arctic Monkeys - Love Is A Laserquest

Ainda estou lendo o livro de conversas entre Sábato e Borges. Em determinado momento, Sábato diz a Borges que existem escritores para escritores, e que Borges é um deles. Borges fica surpreso.

Jorge Luis Borges nunca esteve entre meus escritores prediletos. Sempre o achei rebuscado e empolado demais, super literário. Mas lendo esses diálogos fiquei surpreso de encontrar crítica idêntica feita por Borges e Sábato a outros escritores. Os dois rejeitam os escritos cheio de aforismos e rebuscamentos, e ambos falam que existe um limite para o "literário", o estilo, ou o esnobismo da arte de escrever.

Borges, em outro trecho, também diz que não gosta das obras super-explicativas, de trechos de livros de Wells, por exemplo, que procura descrever mecanismos de geringonças das suas fantasias. Acham que existe um limite e que os diversos autores criticados muitas vezes escorregaram e o ultrapassaram. E então, os dois falam do Quixote e da grandiosidade da obra de Cervantes.

-.-

É extraordinário como os dias estão passando de forma tão rápida e acelerada. Basta encontrar um livro que me desperta algum interesse e as horas voam. Ao mesmo tempo, o tempo de reflexão rareia, faço coisas às pressas. Tenho de fazer um esforço enorme para me focar em poucas atividades.

Preciso manter as coisas como são: com início, meio e fim. A próxima semana promete.

sábado, 12 de novembro de 2011

O Inspetor de Galinhas e a lógica irrefutável



Amy Winehouse - Love is a Losing Game


Em 1946, Jorge Luis Borges(1899-1986) foi destituído pelos peronistas do cargo que ocupava na Biblioteca de Almagro, em Buenos Aires, e "promovido" a Inspetor de Galinhas e Ovos em feiras públicas. Obviamente, recusou a humilhação. Nos anos seguintes, os peronistas colocaram sua mãe e também sua irmã na cadeia. Eram seus olhos que aprisionavam.

As biografias de Borges dizem que ele era classe média. Mas viveu até os 70 anos num apartamento pequenino com a mãe. Dormia na sala. Só foi ter um quarto próprio após a morte da mãe. Em 1981, Mario Vargas Llosa foi visitá-lo e ficou emocionado com a modéstia dos aposentos do colega, descrevendo-o como uma cela estreita, com uma cama tão frágil "que parece de criança".

Reencontrei na minha estante um livro de conversas entre Jorge Luís Borges e Ernesto Sábato, organizado por Orlando Barone e publicado pela ed. Globo. É o registro gravado dos encontros dos escritores em 1974, depois de mais de vinte anos que os dois não se falavam. Por divergências políticas. Foi o diálogo que me chamou a atenção para esses detalhes biográficos. O trecho principal é este:

BORGES: Veja que me deram esse posto para me humilhar e eu renunciei no mesmo dia. Lembro que perguntei a um amigo meu por que, havendo 40 empregados na biblioteca, mandavam embora a mim, que era escritor. Ele me perguntou se eu não estivera com os aliados durante a guerra. Respondi que sim. "E então o que o senhor quer?", ele me disse. Percebi que essa lógica era irrefutável.

Sim, vivemos tempos de lógica irrefutável.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Jabuticabas no quintal

Na terça-feira eu passei debaixo do pé de jabuticabas no meu quintal e todas estavam absolutamente verdes. Cheguei a imaginar que as frutas só ficariam boas no final deste mês ou no início de dezembro. Mas hoje uma grande quantidade de frutas estava no chão. Quem percebeu que já era hora de apanhar as jabuticabas foi a minha mulher. De longe ela notou que debaixo da árvore já estava preto de tanta jabuticaba.

Então decidimos inventar uma estratégia de colheita, para aproveitar o máximo possível de frutas. Primeiro, catamos as jabuticabas que pudemos do chão. Selecionamos as frutas pelo tamanho e também pelo brilho. Gastei quase uma hora apanhando as pretinhas que estavam no chão. Enchi duas bacias, das médias. Em seguida, tratei de usar o rastelo para deixar o círculo debaixo da árvore o mais limpo possível. Nesse processo, foi inevitável pisar em dezenas de jabuticabas que ainda estavam no chão e não aproveitei. Era uma sensação curiosa, parecia com andar sobre uma espécie de plástico bolha silencioso.

A limpeza durou ainda mais tempo, porque fui atirado para o tempo da minha infância, quando em todos os quintais havia pés de jabuticabas. Enquanto passava o rastelo meticulosamente no círculo abaixo da copa da fruteira, eu me lembrava das frutas de antigamente, todas enormes e suculentas. Atacávamos as árvores em bandos de meninos, primos e amigos, todos gulosos e vorazes adoradores de jabuticabas. Não havia ninguém que não gostava. Bom, tinha uma prima que não participava daquela festança debaixo das jabuticabeiras, mas ela explicava que tinha medo de vespa. E jabuticaba sempre atraía muita vespa. Aqui não achei nenhuma, ainda bem. Devorei um monte de jabuticabas. Tem gente que engole o caroço, mas eu não faço isso. Tem gente que não come a casca, e eu adoro a casca.

Depois da limpeza, minha mulher teve a idéia de estender vários panos no chão, bem próximo do tronco da árvore. Na metade da tarde, sol e chuva, casamento de viúva no quintal. Colhi mais uma bacia de jabuticabas só com as frutas que caíram com o chuvisco. Depois fiz mais uma limpeza e aumentamos a área coberta com folhas de jornal abertas, presas com pedras ao chão. O ideal seria estender uma rede sob a toda a copa da árvore para colher mais frutos. Quem sabe não faço uma coisa assim?

Agora, estou com uma grande quantidade de jabuticabas lavadas e prontas para comer. Talvez eu separe um monte e coloque no congelador. Lembro que as jabuticabas congeladas são ótimas para dias quentes e também que o gelo não altera muito o sabor.

Sim, é muito bom ter um pé de jabuticabas no quintal.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Recibo de propina não vale

Vamos ver se eu entendi.

O Sujeito é diretor da agência que libera os alvarás de funcionamento de laboratórios.

Um dia esse Sujeito recebe um depósito de cinco mil reais de um Fulano, funcionário de laboratório, que era seu Amigão.

Por coincidência, naquele mesmo dia, o alvará é assinado e liberado.

O Fulano depositou a grana em 2008 e, por gostar loucamente de colecionar recibos de depósitos, guardou aquele com carinho.

Fulano e Sujeito eram super-amigos, assim ó, de um pedir emprestado para o outro sem papel nem nada. Podia ser cinco ou cinquenta mil. Não fazia diferença. Mas Brasília é uma cidade fria, e cada um foi cuidar da sua vida.

Um dia desses, Fulano estava olhando a sua coleção de recibos de depósitos bancários quando viu aquele, de 2008, quando seu ex-amigo ainda era diretor de assinar alvará.

Um súbito acesso de memória o fez se lembrar de que os cinco mil eram propina, bola, ganja, jabá, bufunfa, ou mônei não contabilizado, cash direto para o Sujeito. E também que além dos cinco mil, pagou outros 45 mil para que o tal alvará fosse assinado, rubricado, selado e publicado.

Por causa do recibo, o Sujeito não tem como negar que recebeu o dinheiro.

Então, o Sujeito que recebeu o depósito de cinco mil confirma que recebeu mesmo aquela grana, mas que era apenas a quitação de uma dívida dos tempos em que o Fulano era seu Amigão.

O Fulano, que era um Amigão mas hoje não é mais, diz em seguida que foi procurado por parlamentares obtusos que lhe ofereceram rios de dinheiro para contar aquela história.

O Sujeito solta foguetes e faz um mega-festão numa churrascaria e diz que tudo não passa de uma armação da oposiçãozinha.

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Pois é, a criatividade dos achacados é impressionante, mas nem mesmo recibo de propina é aceito como evidência pela Câmara do Detrito Federal.

Nossos dirigentes são incomparáveis. Um deles quer que a felicidade seja um direito constitucional. Tem fama de gostar de educação, mas sob sua gestão as escolas ficaram 169 dias paradas num único ano letivo. Um outro caiu por causa de uma bezerra que valia o peso em ouro, desde que financiado pelo banco estatal. Um terceiro chegou a ser preso e perdeu o mandato depois de ter sido filmado pegando um pacotão de dinheiro de propina.

O atual por enquanto nega tudo. Só admite que é mão aberta e empresta dinheiro às pencas para os amigos, sem papel, sem documento, por favor, é tudo no fio da barba e do bigode. Do jeito que está, se aparecer um filme dele recebendo sacolas de dinheiro numa garagem, não há motivo para alarme. Será algum outro amigão quitando uma dívida, é claro.

Frase do dia


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