Comprei hoje um hard-disk portátil de 500 GB. É do tamanho de uma carteira de cigarros. Nunca tinha pensado que um dia poderia ter tanta quantidade de informação disponível no bolso. É muito mais do que andar com a Biblioteca de Alexandria no bolso. E muito menos.
Sábado, 18 de Julho de 2009
Sexta-feira, 17 de Julho de 2009
Mendigar não é mais crime
Foi publicada hoje a Lei 11.983. Em seu artigo primeiro ela diz:
"É revogado o art. 60 do Decreto-Lei no 3.688, de 3 de outubro de 1941 - Lei de Contravenções Penais. "
O tal artigo dizia o seguinte:
Art. 60. Mendigar, por ociosidade ou cupidez:
Pena – prisão simples, de quinze dias a três meses.
Parágrafo único. Aumenta-se a pena de um sexto a um terço, se a contravenção é praticada:
a) de modo vexatório, ameaçador ou fraudulento.
b) mediante simulação de moléstia ou deformidade;
c) em companhia de alienado ou de menor de dezoito anos.
Quinta-feira, 16 de Julho de 2009
Nossos canalhas e o canibalismo
Até mesmo nossos melhores canalhas choram. Já reparou? Por isso, aqui vai um trecho de um dos melhores poemas. É o canto oitavo do I-Juca-Pirama, de Gonçalves Dias. É a parte que o velho guerreiro, pai do Tupi chorão, o amaldiçoa.
I-Juca-Pirama
VIII
"Tu choraste em presença da morte?
Na presença de estranhos choraste?
Não descende o cobarde do forte;
Pois choraste, meu filho não és!
Possas tu, descendente maldito
De uma tribo de nobres guerreiros,
Implorando cruéis forasteiros,
Seres presa de vis Aimorés.
"Possas tu, isolado na terra,
Sem arrimo e sem pátria vagando,
Rejeitado da morte na guerra,
Rejeitado dos homens na paz,
Ser das gentes o espectro execrado;
Não encontres amor nas mulheres,
Teus amigos, se amigos tiveres,
Tenham alma inconstante e falaz!
"Não encontres doçura no dia,
Nem as cores da aurora te ameiguem,
E entre as larvas da noite sombria
Nunca possas descanso gozar:
Não encontres um tronco, uma pedra,
Posta ao sol, posta às chuvas e aos ventos,
Padecendo os maiores tormentos,
Onde possas a fronte pousar.
"Que a teus passos a relva se torre;
Murchem prados, a flor desfaleça,
E o regato que límpido corre,
Mais te acenda o vesano furor;
Suas águas depressa se tornem,
Ao contacto dos lábios sedentos,
Lago impuro de vermes nojentos,
Donde fujas com asco e terror!
"Sempre o céu, como um teto incendido,
Creste e punja teus membros malditos
E oceano de pó denegrido
Seja a terra ao ignavo tupi!
Miserável, faminto, sedento,
Manitôs lhe não falem nos sonhos,
E do horror os espectros medonhos
Traga sempre o cobarde após si.
"Um amigo não tenhas piedoso
Que o teu corpo na terra embalsame,
Pondo em vaso d’argila cuidoso
Arco e frecha e tacape a teus pés!
Sê maldito, e sozinho na terra;
Pois que a tanta vileza chegaste,
Que em presença da morte choraste,
Tu, cobarde, meu filho não és."
Depois, no final do poema, o Tupi chorão acaba provando que possui valentia.
Mas não sei, não. Sempre achei o final meio remendão. Acho que os Aimorés piscaram o olho e cruzaram os dedos. E decidiram comer uns pedaços assados do guerreiro chorão, só de piedade e em respeito ao pai Tupi, que teve a decência de levar o filho para ser devorado, como se devia. Vai ver, sobrou um tantão de cozido daquele Tupi canalha. Não valia um canapé.
Hoje em dia, na terra tupiniquim, os Aimorés deixariam passar pais, filhos, netos e apaniguados de um monte de gente. Diriam assim:
"— Mentiste, que um Tupi não chora nunca,
E tu choraste!... parte; não queremos
Com carne vil enfraquecer os fortes. "
Mas acho que nossos melhores guerreiros canibais já se aposentaram ou então aderiram ao vegetarianismo mais verde, covarde e pusilânime.
Quarta-feira, 15 de Julho de 2009
No meio do caminho havia um Careca
Acho que tenho cara de "passagem".
Isso sempre acontece comigo. Já reparei. Em geral é mega-sena acumulada. Lá estou eu na fila, junto com trezentos outros esperançosos. A fila é longa, daquelas de fazer curvas. Como sempre acontece, estou na fila quando o boy daquela repartição leva um bolo de jogos dos colegas do trabalho. Também estou na fila quando alguém resolve pagar adiantado as contribuições sociais, pagar as contas do mês.
Essas coisas embolam a fila. Que acaba entrando no meio do caminho das pessoas. Então eu fico ali, na perpendicular de um caminho, no cruzamento de uma linha horizontal imaginária. Ali estou eu, no centro do xis. E é na minha frente que todo mundo vem passar.
Não é sacanagem. A fila anda alguns centímetros e mesmo assim continuo no xis do eixo imaginário dos passantes. Está devagar pra caramba. E eu sou a passagem. Penso então que é porque estou fazendo contato visual. As pessoas quando querem passar por um local procuram fazer contato visual, para se sentir seguras. Faço cara de paisagem. Olho sem foco para o infinito.
Não adianta. Todo mundo só passa por mim. Ando um metro e a coisa não se modifica. Coloco as mãos nos bolso. Assobio. Nada. Eu sou uma espécie de porta humana. Uma brecha na fila. Podem ser ferormônios. Sei lá. Olho para baixo. Fico pensando em luta de jiu-jitsu. Faço cara de mau. Nada funciona.
Será a minha careca? Será que ela é uma referência segura de passagem? Tento pensar como um transeunte qualquer. Eu evitaria cruzar uma fila no careca de terno e gravata. Carecas são muito enfezados. Faço cara de bad boy. Cruzo os braços. Não funciona. Eu sou uma espécie de guardião da vereda maneira. Se eu dissesse "passe por aqui" era bem capaz de obter o efeito inverso. Mas um guarda do shopping, pois estou no shopping, parece que adivinha o meu pensamento e se aproxima da fila.
_Xii - eu penso.
A proximidade do guarda aumenta a sensação de segurança dos transeuntes, só pode ser. O fluxo de pessoas que passam pela fila, exatamente onde estou, aumenta vertiginosamente. Felizmente, o guarda se afasta. O fluxo de pessoas diminui um pouco. A fila é uma enguia que se move muito lentamente. Ando mais um pouco. Em dez minutos mais meio metro. E mais meio. E mesmo assim, só passam por mim. Estou na boca do caixa e vem um sujeito querendo atravessar. É a minha vez e um sujeito se esgueira à minha frente e fala para a caixa:
_Moça, como é que eu faço? Paguei uma conta aqui, mas continua constando que não paguei.
_Leva o comprovante para uma agência que fica ok.
_Tem certeza?
_Claro.
Finalmente, é a minha vez. Consigo fazer a minha aposta. Olho para a fila e ali está ela, incólume. Ninguém atravessa a fila. Os passantes, todos eles, desviam da fila.
_Caramba! - eu penso. Caramba!
E quando estou quase chegando à escada rolante, onde já existe um pequena fila, uma manada de gente apressada cruza a minha frente. E só então eu entendo aquele poema do Drummond.
Terça-feira, 14 de Julho de 2009
Ninguém merece
Existem coisas que eu abomino. Uma delas é menosprezo. Prefiro a desconsideração total ao tratamento condescendente. Em geral, quando sou menosprezado, reajo com fúria e destempero. Com exagero.
Demorei a perceber que reagia dessa maneira. Era uma coisa tão natural e automática que eu nem mensurava. Nem percebia. Era uma reação desmedida.
Isso me trouxe fama de esquentado. Mas também me trouxe algum respeito.
Aí, veja só, comecei a achar que era orgulho besta. Que não precisava ser assim.
_Deixa de onda, Careca. Não vai criar caso só porque alguém insinuou que você hesitou - eu pensava.
_Não liga para isso, não. Você está acima de picuinhas - eu pensava.
-O quê? Perder tempo com besteira? Discutir por causa de migalhas é coisa de otário - eu pensava.
-Isso? Mas isso é tão pequeno! Mantenha o foco na floresta e não nas árvores. - eu pensava.
Mas pensava errado.
Quem insinua que você hesita, firma a convicção de que você não passa de um bunda-mole.
Quem vê você deixar passar as picuinhas, também acha que você deixará passar qualquer coisa.
E se você não discutir as migalhas da vida, corre o risco de só ter grandes filósofos com quem conversar, no hospício.
Por último, e não menos importante, com o foco na floresta, você vai topar numa árvore, com certeza.
Não espere respeito de quem não te trata com o devido respeito. Em geral,o desrespeito parte da pessoa que deseja que só você, o otário, seja condescendente, sem o ser nem um pouquinho.
Mas também não aporrinha. Se você vacilou, levante o braço e assuma a culpa, foi você, mesmo, pô, foi mal, prometa que vai melhorar, vai consertar e coisa e tal. Mas jamais, nunca, em tempo algum, permita, sem protesto, que alguém insinue falhas e omissões da sua parte. Porque esse alguém só espera a sua condescendência, o seu dar de ombros, para justificar, ainda que irrefletidamente, o péssimo tratamento que já lhe concede. E se você deixar passar, da próxima vez, a ofensa será maior.





