segunda-feira, 20 de julho de 2015

Tim Maia

Durante muito tempo ouvi dizer que só é possível escrever se você possui um bom motivo. Existem, é claro, bilhões de bons motivos por aí, e você só precisa de um deles - um bonzinho, nem precisa ser excelente - para por mãos à obra. Poderia ser por vaidade. Pelo desejo de ser amado. Pela vontade de ser lembrado. Por dinheiro. Pelo desafio. Uma aposta. Para impressionar uma pessoa. Para passar o tempo. Agradar ou desagradar alguém. Um presente. Uma piada. Uma chacota. Qualquer coisa.

Sim, descobri que não basta ter um motivo na cabeça. É preciso tê-lo pulsando no coração, é lógico. Também é preciso por mãos-à-obra, ter disciplina e um mínimo de dedicação diária. Mas o principal é o motivo. Por isso, confesso que fiquei um pouco surpreso quando percebi, logo após o início deste ano, que eu não conseguia mais encontrar nenhum motivo para escrever. As coisas que eu escrevia acabava apagando porque estavam carregadas de pessimismo e amargura, coisas que eu não queria e não quero deixar estampados no Caminho do Careca.

Poxa, tanta coisa acontecendo. O país em frangalhos. Os políticos aprontando. A turma de sempre e a turma mais nova roubando pra dedéu, e eu aqui, perdido num tremendo drama, sem encontrar nenhum motivo para sentar e escrever uma poucas linhas no blog, diariamente, como fiz durante tantos anos para mim e para minha querida kombi de leitores.

Tentei, com muito esforço, voltar a falar com entusiasmo e bom humor sobre as pequenas coisas que acontecem na minha vida e da minha família. Afinal, este blog sempre celebrou o impacto do que é irrelevante, o valor do que é perfeitamente descartável, a memória do que é efêmero. Mas a verdade é que um clima de sombreamento e melancolia acabou por me envolver e passei a considerar tudo, até mesmo o que é desimportante e pouco digno de nota, como algo que deveria ficar mesmo sem registro algum.

Sei que estou completamente errado, que é exatamente sobre as miseráveis e mínimas desventuras do cotidiano que devo me debruçar e escarafunchar até encontrar uma centelha de sentido, uma faísca cintilante de vida, mas, confesso, tenho sido burro demais para procurar nos lugares certos, só tenho achado coisas desesperadas e com um baixo astral da porra.

Por isso, depois de muito pensar e enrolar pacas, resolvi que vou escrever apenas quando der na veneta, ainda que não tenha nenhum motivo. O que me levou àquela música do Tim Maia. Que, por sua vez, me levou a uma rápida pesquisa na Internet que me fez descobrir que os 10 primeiros álbuns do Tim Maia se chamam "Tim Maia".

quinta-feira, 4 de junho de 2015

Uma nova mesa

A seca chegou e finalmente comecei a construir uma nova mesa com a madeira doada pelo meu irmão. Ele possuía em casa um eucalipto que teve que ser cortado. A velha árvore de mais de 10 metros de altura foi atingida por um raio há muito tempo e depois se transformou num imenso espantalho com galhos enormes secos. Para piorar, as raízes passaram a abrigar um enorme cupinzeiro. De toda a madeira, restaram aproveitáveis algumas grandes pranchas de três metrosX50cm cada. Ganhei três delas, que ficaram curtindo na minha garagem durante os últimos dois anos. Agora estão bem secas e, teoricamente, mais fáceis de trabalhar.

O único problema é que não possuo ferramentas elétricas adequadas para fazer o trabalho rapidamente. Cada prancha possui de 8 a 13 cm de espessura o que impossibilita o uso de uma serra circular. Seria preciso usar uma serra de sabre ou mesmo uma motoserra para desbastar a casca e acertar as laterais para uniformizar as medidas. Descartei a aquisição de novas ferramentas porque não teria outro uso para uma serra sabre e existe uma longa burocracia para aquisição de motoserra. Para quem não sabe, é preciso uma autorização do IBAMA para se possuir uma motoserra. Sem ela, o cidadão está sujeito a multa e apreensão do equipamento, sem falar na possibilidade de ser enquadrado num crime ambiental qualquer a gosto do fiscal de plantão.

Assim, minha única alternativa é usar bons serrotes manuais com o apoio da minha modesta plaina elétrica de 450W para uniformizar a espessura. Nesta semana iniciei os trabalhos com um serrote de 20 polegadas. Com uma hora de trabalho e apenas 20 centímetros de progresso percebi que ainda vou penar um bocado para conseguir transformar as pranchas em tábuas de mesa. Para disfarçar a minha preguiça, decidi aproveitar as bordas naturais de duas pranchas. Desse modo, ao invés de 6 bordas retas, vou precisar serrar "apenas" 4. A vinte centímetros por hora , terminarei a serragem, se tiver sorte, no final deste mês. Em seguida passarei para a plaina. A coisa fica mais complicada porque a capacidade da plaina é bem reduzida e não consegui grande progresso depois de uma hora de trabalho. Cada passagem alcança meio milímetro de uma faixa de apenas oito centímetros de largura, com muito ruído.

Além do protetor contra ruídos, o trabalho com a plaina exige o uso de máscara e a interrupção de tudo a intervalos de 10 minutos. A máquina aquece muito e gera muita serragem e pó. Para resumir, não estou conseguindo avançar como gostaria e às vezes acho que estou com um projeto literalmente acima das minhas forças: cada prancha pesa cerca de 60 quilos. Como tive que mover tudo sozinho, sem ajuda, foi preciso fazer malabarismos com cordas, rodas e apoios diversos apenas para colocar a prancha em local que possibilitasse o uso do serrote. Escolhi a área que fica sob a pérgula, já que é ventilado e não incomoda muito nenhum dos vizinhos. Entretanto, a pérgula não é coberta, e o medo das chuvas isoladas e intermitentes desta época do ano já me fez parar tudo para cobrir as pranchas rapidamente, da maneira mais protegida possível. Seja como for, estou animado e acho que vou conseguir terminar a mesa(90X300)até setembro. Torçam por mim.


sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Duas palavrinhas

Em casa somos todos muito bem educados. Mas na casa dos outros somos muito mais. Digo isto porque reparei que nós costumamos usar com muito mais frequência as expressões cotidianas de gentileza e boa educação, inclusive à mesa, quando estamos fora do lar. O garçom se aproxima e dizemos "por favor", agradecemos com um polidíssimo "muito obrigado". O flanelinha chega para vigiar o carro, cheio de doutor isso e doutor aquilo, e eu digo "pode vigiar, sim, senhor". No supermercado, dizemos para a senhora no caixa que é a crédito "sim, senhora, parcelado em três vezes, por favor". Na padaria, também, até nas filas dizemos por obséquio, por gentileza, senhor isso, senhora aquilo, e outras frases bem formais e elegantes, como se quiséssemos deixar bem claro o tempo todo que somos pessoas de bem e não representamos perigo para a pessoa que nos cerca.

Mas em casa, apesar da boa educação, não queremos perder tempo com firulas e frescuragens, então dizemos "passa aí as batatas". Ou então não dizemos nada e só apontamos para as batatas, ou pior ainda, só olhamos fixamente para a vasilha e o familiar que está mais próximo trata logo de passar as fritas. Essa maravilhosa adivinhação de desejos, aliás, é a forma mais comum de telepatia familiar.

_Não, senhor. A partir de hoje, acabou-se. Não custa nada ser gentil, amigável e bem-educado. Para qualquer coisa agora, se eu não escutar as duas palavrinhas mágicas, nada de batatas - disse a minha mulher.

_Passa o suco, please - disse o meu filho.

_Não vale inglês, francês e espanhol. Tem que dizer as duas palavrinhas mágicas em português. Estou falando sério - ela disse.

_Por favor? - disse o meu filho.

_Viu? Não doeu nada.

Então estamos todos os quatro à mesa, colocando a conversa em dia dos primeiros dias da volta às aulas. Os assuntos vão se sucedendo rapidamente, especialmente o longo debate sobre o melhor lugar para ficar na hora de sair da escola e as vantagens econômicas e recreativas de se levar o lanche de casa.

_Você gasta menos e não perde tempo do recreio na fila da lanchonete. Além disso, você se livra dos bicões de fila, que sempre pedem um taco ou ficam secando o lanche alheio. E o olho gordo de bicão de fila ninguém merece. Pode reparar que tem um bicão por perto toda vez que um salgadinho, um refri, ou mesmo um copo de suco escorregar da mão de alguém. Passa aí, as batatas.

_Duas palavrinhas - disse a minha mulher.

_Passa, agora - eu disse.

_Engraçadinho.

_A regra vale para todo mundo, paiê.

_Eu sei, eu sei.

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Ventiladores

Não há como não falar do calor. Se não fossem umas brisas ocasionais e os ventiladores ligados na potência máxima aqui em casa já teríamos derretido e grudado no colchão. Sim, durante o dia sempre é possível procurar um lugar mais arejado, uma esquina de vento, manter a hidratação na medida certa com bebidas geladas e leques, ou curtir um ventinho balançando nas redes. O problema é durante a noite. O calor espanta o sono e aumenta a insônia. Não temos ar condicionado nos quartos. Na época da reforma optamos pelos ventiladores de teto, uma decisão econômica e burra, e hoje disputamos os melhores ventiladores da casa.

Nem sempre foi assim, pois houve um tempo em que os ventiladores de teto funcionavam. Infelizmente, isso não durou muito. O eletricista que trabalhou na reforma , se dependesse de mim, seria jogado no meio do caminho dos quatro cavaleiros do Apocalipse para ser pisoteado na ida e na volta pela fome, guerra, peste e morte. Pensando bem, eu também entraria na fila. Mas não importa mais. Os ventiladores pifaram há uns quatro anos, eu mesmo troquei dois e um terceiro nunca funcionou direito. Os dois que eu troquei eram bem pebas e foram prejudicados pela instalação deficiente e pelos frequentes saltos de energia da minha rua no bairro. Aliás, foi durante a troca que fui perceber o péssimo trabalho do eletricista, que usou uma sequência de cores diferente do padrão. Por causa disso, no quarto do meu filho o ventilador só funciona se uma das lâmpadas do ventilador estiver um pouquinho acesa, o que só é possível se a potência do ventilador estiver no máximo, o dimmer estiver pela metade e o clic da lâmpada estiver desligado. Lembro de ter tentado várias combinações de fios e cores para corrigir a coisa, mas essa foi a minha melhor sequência então resolvi deixar como está até chamar um novo eletricista.

O grande problema dos eletricistas é que eles são careiros. Por isso, resolvi pegar umas indicações de eletricistas com o meu irmão. Como qualquer pessoa do mundo sabe, meu irmão não é o tipo de cara que joga dinheiro fora. Não me lembro de ninguém que o tenha chamado de mão-aberta, muito embora seja generoso de coração e alma. Por outro lado, uma das minhas irmãs costuma dizer que ele seria capaz de atravessar uma piscina olímpica com um Sonrisal em cada mão. Mas acho exagero.

_Tem o Benones e o Pecêzinho - disse o meu irmão.

_O Benones é aquele das lâmpadas do jardim? - eu disse.

_Isso, isso. Pô, você sempre lembra dessas lâmpadas. Foi um pequeno engano e ele corrigiu - disse ele.

_Corrigiu só a metade. Caramba, para ligar as lâmpadas eu ainda tenho que acionar três interruptores em três lugares diferentes, um na churrasqueira, outro na varanda e o terceiro na cozinha!

_Você precisa superar isso. O Benones é ótimo, você só precisa ficar junto dele para que o trabalho saia direitinho - disse meu irmão.

_Estou com preguiça de vigiar gente. E o Pecêzinho? Ele é bom? - eu disse.

_Bom, o cara é bom. Religioso. Ele é bem direito. Nunca foi preso. Não que eu saiba.

_Não, ele é bom eletricista?

_É. Quer dizer, ele é bom, mas o forte do Pecêzinho é a parte hidráulica.

_O Pecêzinho é bombeiro, então?

_É. Mas ele manja de elétrica. Se o Benones não puder, vai de Pecêzinho que ele dá conta do recado.

_Peraí, mas lá na sua casa não teve aquele problema de vazamento e infiltração?

_Teve, mas já está tudo resolvido. O Pecêzinho mesmo foi lá e arrumou tudo.

_Que bom, que bom. Então me dá os telefones dos caras...

E depois eu agradeci ao meu irmão e guardei os telefones na carteira. O calor está grande, mas hoje estava até bem nublado. Então vou esperar mais um pouco. Não custa nada, não é? E aqui em casa tem ventilador portátil pra todo mundo.


segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

A terrível Voz de Boneca

Não havia outras crianças na minha rua. Mas agora tem uma porção. Meus filhos acharam ótimo, é óbvio. E nestas férias estão se esbaldando. Eles descem a rua de patins. Descem a rua de skate. Andam de bicicleta. Jogam bola. Brincam de esconder e pega-pega. E ficam trançando de uma casa para outra aproveitando o sol forte e as piscinas. Por algum motivo qualquer, a meninada fica mais tempo na piscina daqui de casa. O sol esquenta a rua rapidinho, então eles vão para a piscina de manhã, saem para o almoço e voltam uma hora depois, ficando dentro d´água até o final da tarde. Depois fazem uma pausa para o lanche, brincam na rede(eu finalmente coloquei os ganchos de rede!) e caem na piscina. Os dias parecem estar especialmente longos, outro dia saíram da piscina às oito da noite e estava apenas começando a anoitecer.

Eu gosto de ficar por perto, sem interferir muito. Só não gosto que falem palavrão e gritem muito. Gíria e palavrão viram maus hábitos, minha mãe me ensinou, e depois de grande não há como corrigir a boca suja.

_O próximo a falar palavrão vai ficar cinco minutos fora da piscina - eu digo. E funciona. Durante uns dez minutos.

_Quem falar palavrão vai ser o "pego" do Marco Pólo! - eu digo. E isso tem mais funcionado por mais tempo.

Já o preconceito com a gritaria é por conta da velha história de Pedro e o Lobo. Gritando toda hora, não há como acudir na hora da necessidade, além de ser cansativo. Em geral fico dentro da oficina, fazendo uma tábua de cortar carne, envernizando uma bandeja ou afiando uma ferramenta. Somando com os meus dois filhos, quase todos os dias tenho de seis a oito crianças na piscina, o que gera uma algazarra bem barulhenta mesmo se ninguém gritasse.

Ah, também não gosto que façam xixi na piscina. Por isso desenvolvi o estratagema do perigo químico.

_Meninos e meninas, prestem atenção. Estou usando um cloro especial. Quem fizer xixi na piscina corre o risco de ficar cercado por uma mancha azul, que é muito difícil de sair da pele e da roupa de banho. O melhor é usar o banheiro que fica ali atrás, combinado? - eu digo todas as vezes. Mas acho que já descobriram que é balela porque estou usando cloro como nunca.

Então têm sido dias maravilhosos. A única coisa que me chateia é a terrível Voz de Boneca de uma das crianças. Não é a voz dela de verdade. Aliás, ela tem até uma voz bonita. É uma voz que ela "faz", que fica parecendo uma boneca de desenho animado mal-dublada. É insuportável, essa voz. Tenho vontade de sair correndo, é uma coisa que me transtorna. E o pior é que já tentei de tudo para acabar com a bonequice.

_Quem não fizer Voz de Boneca vai ganhar biscoito de chocolate - eu disse e dancei no pacote de biscoitos para cinco crianças que não fizeram Voz de Boneca. Só a menina que faz a Voz é que não ganhou.

_Eu nem gosto de chocolate - ela disse, com aquela vozinha terrível.

Frase do dia


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