Frase do dia


terça-feira, 6 de março de 2012

Thin Lizzy - The Boys Are Back in Town



Thin Lizzy - The Boys Are Back in Town

Ultimamente tenho escutado um monte de músicas que eu escutava no início dos anos80. Naquela época, tínhamos muitas fitas cassetes em casa. Meu irmão gravava um monte e eu aprendi as técnicas rapidinho. Havia alguns programas legais e o importante era estar preparado para a música certa, na hora certa. Eu deixava o gravador engatilhado no recorder, o dedo na tecla "pause". Aos primeiros acordes do sucesso que eu queria, bastava apertar suavemente a tecla para que o registro começasse. Eu gravava tudo. MPB, rock, música clássica, jazz. Começou ali também a minha mania de desenhar bem pequeno na capa das fitas. Eu reproduzia os mesmos desenhos de Saint Exupery em "O pequeno príncipe".

Ainda possuo um monte de fitas cassete guardadas numa gaveta, na casa dos meus pais. Tenho medo de colocar essas fitas para tocar e elas simplesmente se esfarelarem. Algumas estão sem capa, mas sei a sequência das músicas só de olhar para o desenho que fiz. Naqueles dias, as rádios inseriam vinhetas no meio da música, bem alto, para que a sua gravação ficasse marcada. Eu detestava isso. E apagava as músicas que vinham com o prefixo de uma rádio qualquer. Minhas fitas eram limpas e eu tinha o maior orgulho delas.

Mas às vezes, era impossível esperar mais por alguma música que você queria muito escutar de novo, na sua própria fita. Minha fita da Steve Miller Band era desse jeito. Todas as faixas estavam com a vinheta da rádio, que fez um programa especial dedicado à banda em algum momento dos anos 80. Para eternizar aquele momento, eu comprei uma fita cassete especial de ferro-cromo, 90 minutos. Beleza. Tinha espaço de sobra. Por isso, lá no final havia essa música, The boys are back in town, , a única do Thin Lizzy que consegui gravar naqueles dias malucos da adolescência.

segunda-feira, 5 de março de 2012

Sobre chutes no traseiro



AC/DC - Thunderstruck

As discussões sobre a copa quase sempre descambam em ataques gratuitos entre quem defende e quem é contra a realização da competição no Brasil. Acho ataques gratuitos um desperdício. Agora mesmo fiquei surpreso com a sugestão de chute no traseiro do país feita pelo secretário-geral da FI-FÁ-FUM. Achei desrespeitosa e grosseira. Mas fiquei mais surpreso ainda com a reação do Alho Cabelo, que já solicitou o corte do gringo dos papos oficiais sobre a Copa. Taí uma coisa que não surpreende, tem um monte de gente conversando altos diálogos sobre a Copa, mas pouca coisa tem sido feita. Acho que o país não merece chute nenhum. Mas as coisas precisam ser feitas e bem feitas.

Acho que poderiam começar com maior transparência sobre o que tem sido conversado e sobre a utilização dos recursos. Em geral, estamos recebendo pílulas de informações sobre o certame, com muito ruído e acusações mútuas de quem defende ou de quem é contra a realização da copa no país.

Sabemos que alguns estádios estão pela metade, que os aeroportos estão pela metade, que as estradas estão pela metade, e que o Caldo Ramelo já está de saco cheio de levar boladas nas costas da turma da Fa-Fe-Fi e do Ricardo Peixeira. Aliás, o Ricardo Telheira era dado como saído da CêBêÉfe, mas mexeu os seus dadinhos e anunciou ao bravo povo que o odeia que todos terão que engolir sua proeminência até ele cansar.

Mas ninguém sabe se é verdade mesmo que os dois quilômetros em torno da área de jogo serão considerados área da Fifa, com exigência de documentação, ingresso e autorização controlada pelos meganhas da Fifa durante o certame. Ninguém sabe também se é verdade que nessa área o que valerá será a lei da Fifa e não as nossas leizinhas mixurucas. E ninguém sabe também qual é o número de leitos de hospitais que será reservado antecipadamente no período dos jogos para a turma do futebol, políticos e cartolas.

Essas coisinhas me preocupam porque já ouvi falar que alguns governos federais, estaduais e municipais pretendem decretar feriado no período da copa. Feriado geral por período prolongado é pior do que carnaval, a bandidagem rola solta porque os policiais vão curtir as férias como devem ser curtidas, longe do perigo.

Acima de tudo, além das questões de infra-estrutura e operacionais, ainda não escolhemos um nome para a bola oficial, eu não sei o nome do mascote nacional e achei aquele símbolo horroroso. Para complicar ainda mais, temos uma seleção pereba de tudo, não empolga nem em amistoso com timeco. Pensando bem, talvez aquele cara da Fifa não estivesse de todo errado.

domingo, 4 de março de 2012

Ataque de paúra



AC/DC - Ride On

Outro dia fiquei com medo de morrer de repente, assim, do nada. A gente vive ouvindo essas histórias e sempre acha que é algo impossível de acontecer, mas convenhamos, acontece o tempo todo e pode acontecer com todo mundo. Tive esse ataque de paúra enquanto fazia compras no supermercado, exatamente quando passava na sessão de peixes. Sempre compro peixe congelado, mas gosto de praticar as dicas que ouvi num programa de rádio para a compra de peixe fresco. Fiquei olhando os olhos dos peixes para ver se estavam brilhantes, conferi se as escamas estavam firmes e aí tive o ataque. Bum. Paralisei total. Só saí do transe quando um outro carrinho bateu, de leve, no meu. Devolvi o pescado para a montanha de gelo e continuei a fazer compras, normalmente. Durante o ataque pensei em milhões de coisas e não consigo lembrar de muita coisa. Mas lembro de pensar que eu quero viver.

Putz, vou ter que planejar essa contingência.

sábado, 3 de março de 2012

Calúnias



Death Proof- Car crash scene - Tarantino

Resisto bravamente à oferta de dvds piratas. Já fui diferente, comprava sem o menor peso na consciência. Andava uptodate com os últimos lançamentos do cinema. Um dia meu filho me viu chegar com um dvd pirata e disse que aquilo era um crime. E me olhou com visível decepção. Era um princípio arraigado. De alguma maneira eu intuí que se eu argumentasse e desse uma desculpa qualquer estaria abalando a estrutura moral do menino para sempre.

_Você tem razão - eu disse. E botei a culpa no Tio Cabeça, é claro.

_O Tio Cabeça que me deu. Acho que ele não percebeu que era pirata - eu disse.

_Pai, é lógico que percebeu. Esse disco tem só uma capinha de plástico. O verdadeiro tem muito mais coisas. Até o papel é melhor e mais bonito - disse o menino.

A conversa me obrigou a uma ginástica arrumacional em casa. Peguei todos os filmes que acumulei durante esses anos e fiz um pente fino, só mantive os originais e legais. As minhas toneladas de pirataria foram sendo eliminadas aos poucos, devidamente destruídas, para não dar muito na vista e chamar a atenção das ôtoridades. Como todo mundo sabe, as ôtoridades daqui adoram ferrar com a vida de manés como eu, mas ficam cheias de dedos e não-me-toques quando se trata de enquadrar tubarões e larápios contumazes, até mesmo os que aparecem em vídeos embolsando propinas. De resto, o que me motivou mesmo foi o olhar do menino, não quero nunca ficar longe do seu coração.

Os anos se passaram e tinha me esquecido de que havia colocado o meu amigo Cabeça numa situação difícil imerecidamente. Ele estava com a moral abalada frente ao meu primogênito sem que soubesse e sem ter a menor culpa no cartório. Só me lembrei da história no dia de hoje, em pleno restaurante, quando entrou ali o vendedor de filmes piratas. Nesta cidade, um mané como eu corre o risco de ser eletrocutado numa blitz de Detran, mas um manezinho vendedor de pirataria circula com a maior desenvoltura e oferece sua muamba sem o menor pudor em qualquer lugar. Confesso que me senti tentado a resolver ali mesmo a minha defasagem cinematográfica em relação aos concorrentes ao Oscar. Mas não esqueço o olhar do menino e não gosto de esconder coisas.

Então fiquei ali, só observando a reação do Cabeça. O vendedor deu uma circulada pelo restaurante e depois de algum tempo chegou à mesa. Eu suspeitava que o Cabeça manifestaria uma verdadeira ojeriza à pirataria e temia que ele saísse no tapa com o ambulante das maracutaias. Puxa vida, eu tinha que arrumar uma maneira de pedir desculpas ao Cabeça, afinal de contas, lá em casa ele estava queimado com as crianças. Para elas, ele era o rei do dvd pirata, exatamente o oposto da vida real. Na minha cachola, eu já via tudo:

_Mas que absurdo! Isso é crime! Isso alimenta o crime organizado! Isso sustenta a rede de violência e bandidagem! Essa é a base do tráfico de drogas leves, pesadas e marijuana! Você contribui para o comércio de escravas! Leve essas coisas para longe daqui, xô! - diria o Cabeça, na minha antecipação das coisas.

Mas ao invés disso, ele me apontou com o dedo para o vendedor e disse:

_Não, quem gosta de pirataria é aquele cara ali, ó!

sexta-feira, 2 de março de 2012

Coisinhas bobas que consomem um tempão



Red Hot Chili Peppers - Snow

Quase toda a minha vida eu quis mais de tudo. Vida, saúde, amor, felicidade, prazer, livros, desenho, música, comida, bebida, tempo e um bom lugar para relaxar e ficar sem fazer nada. De tudo, já tenho muito, mas não consigo relaxar e ficar sem fazer nada. Então passei a querer menos. Comecei com os livros, depois viriam músicas, comida e bebida.

Tenho muitos livros enfileirados para ler, eu pensei, então vou parar de procurar livros como quem procura respostas para perguntas que não consegue fazer. Tentei colocar a estante em ordem, mas todas as vezes que começo a fazer isso acabo interrompendo o trabalho para ler um livro. Então nunca consigo arrumar a estante, embora ela não seja muito grande. Também tenho outras estantes desarrumadas, na casa dos meus pais, isso é um fenômeno que acontece há tempos.

Sempre adio a mudança dos livros para a minha casa, me desculpo alegando motivos variados. Quando eu morava no velho apê eu dizia que não tinha espaço, que ficaria apertado, mas era mentira. Se eu tivesse feito questão, havia um espaço bacana debaixo da cama. Cheguei a projetar uma estante subcama. Era um estrado sobre rodas. Ficaria um pouco estreito, mas toda a minha coleção de paperbacks poderia ficar ao alcance dos calcanhares. Felizmente minha mulher vetou a possibilidade de abrigar uma estante debaixo da cama, me explicando que os livros ficariam empoeirados e se tornariam viveiros de ácaros e fungos.

Em abril vamos completar um ano de casa nova. Aqui a desculpa de falta de espaço para livros não cola. Então eu inventei que é a falta de estantes que impede a mudança dos livros. Como estou praticando trabalhos em madeira praticamente todos os dias, essa desculpa também está se tornando bem esfarrapada.

O que me salva a cara é que a casa sempre exige trabalhos de manutenção. E existem coisas que apesar de serem bem simples, pela minha falta de experiência no assunto, demoro um tempão para fazer. Nesta semana, por exemplo, coisinhas bobas como arrumar as tomadas, trocar umas lâmpadas fluorescentes e trocar um ventilador de teto me encheram os dias. As coisas apresentaram problemas específicos, difíceis de resolver quando não se quer gastar dinheiro. Cada tomada da casa tinha um padrão diferente e já esgotado no mercado. Como harmonizar o visual tomadístico da casa e, ao mesmo tempo, dotar a residência do novo padrão de três furos?

Simples. Admiti para mim mesmo que essa é uma questão meramente retórica e que eu faria o melhor possível de acordo com o que eu já possuía em casa. Na prática isso significou a catalogação das tomadas, plugs e interruptores da casa para um remanejamento estudado e calculado, aproximando os iguais e deixando bem longe os desiguais.

Rose, a cozinheira-babá-lavadeira-cozinheira-universitária daqui de casa, achou que eu tinha enlouquecido. Andei alguns dias com chaves de fenda e philips nas mãos, desatarrachando e trocando tudo de lugar. Terminei tudo no maior capricho e fui ao banheiro tomar um banho de missão cumprida. Na hora em que entrei, um plafon do banheiro despencou do teto de gesso. Por pouco não me acertou a cabeça. Então, ó minha querida kombi de leitores, permaneci sujo e suado e tratei de providenciar uma solução para aquela quizumba.

Mas antes, é claro, eu teria que consultar minha professora doutora universitária e mulher, porque eu não sou idiota de trocar uma lâmpada nessa casa sem ter primeiro a concordância da senhora que paga o supermercado. Obviamente, ela concordou com alguma coisa bem complicada, que seria uma substituição em série de várias luminárias em diversos cômodos diferentes, até a colocação de uma nova luminária embutida no teto de gesso do banheiro. Putz.

Por isso, achei melhor contratar um eletricista, mas o imbecil furou comigo e hoje, ó minha kombi, eu tratei de mexer eu mesmo com essa coiserada. E consegui. Troquei luminárias e candelabros de lugar até que tudo ficasse do jeito que a mulher gosta e então me dediquei a colocar a luminária embutida no teto de gesso. No início, serrei com timidez, morrendo de medo de partir a placa de gesso e aumentar o prejuízo. Mas passadas as três primeiras horas, me emputeci e tratei de serrar o gesso sem medo de gastar dinheiro. Nesse embalo, terminei a instalação em dez minutos.

E só agora, fazendo o balanço da semana, é que percebi o óbvio ululante. Faltou, é lógico, colocar o ventilador de teto. Com sorte, na próxima semana estarei pronto para iniciar a estante para o sonhado translado dos meus livros na outra casa. Torçam.

quinta-feira, 1 de março de 2012

Variações sobre o mesmo tema



Wolfmother - California Queen

Às vezes nós repetimos conversas. Mas só até um certo ponto, os dois são como eu, gostam de variar um pouco. Damos voltas e voltas, mas o final é sempre o mesmo.

_Qual é o bicho que você acha mais esquisito? - diz o meu filho.

_O narval. É uma espécie de baleia com um chifre de unicórnio. Vive no mar da Groenlândia. É bem esquisito, o narval - eu disse.

_Uma vez você falou que era galinha - ele disse.

_O quê que tem, galinha?

_Você disse que achava galinha um bicho bem esquisito - disse o meu filho.

_Mas galinha também é esquisito. Passa o dia ciscando, comendo coisas que a gente nem vê. Bota ovo. Canta - eu disse.

_Não, quem canta é o galo. A galinha cacareja.

_Cacarejar é uma palavra esquisita - eu disse.

_Piolho de cobra, paiê - disse a minha filha, que também queria entrar na conversa.

_Minhoca - disse o meu filho.

_Vagalume - disse a minha filha.

_Joaninha - disse o menino.

_Também acho esquisito. Mas o campeão dos campeões dos bichos esquisitos é o coelho - eu disse.

_Coelho? Mas o coelho não é esquisito.

_Ele é fofinho - disse a menina.

_Mas pensa bem. Na floresta, cheio de bicho feioso, lobo, onça, jacaré, e os coelhinhos lindinhos, fofinhos, comendo alface e cenoura, mexendo o narizinho, balançando as orelhonas. É ou não é esquisito?

_Pai, você é tão estranho! - disse o meu filho.

_É, paiê, você é esquisito!- disse a minha filha.

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

O décimo terceiro trabalho de Hércules



Rival Sons - Pressure And Time

_E hoje, como foi a escola? Aprendeu muita coisa nova? - eu disse para o meu filho.

_Foi legal. A professora levou a gente para a biblioteca. Eu comecei a ler um livro sobre os trabalhos de Hércules.

_Os 12 trabalhos de Hércules, do Monteiro Lobato?

_Esse mesmo. Li até o terceiro trabalho - disse o meu filho.

_Caramba, eu adorava esse livro. O primeiro trabalho é matar o leão de Neméia, não é?

_É. O segundo é a Hidra de Lerna e o terceiro é o da Corça de alguma coisa, ela tem os pés de bronze.

_Os cascos - eu disse.

_É. Os cascos. Mas o que mais gostei até agora foi a Hidra de Lerna. É uma serpente de nove cabeças venenosas, sendo uma imortal. Cada vez que Hércules cortava uma cabeça, nascia outra no lugar. Então ele teve a idéia de ir queimando os pescoços para que não nascesse nada de volta.

_E serpente tem pescoço? - eu disse.

_Bom, ter, não tem. Hércules queimava o lugar onde nascia cabeça - ele disse.

_Mas e a cabeça imortal? - eu disse.

_Ele cobriu a cabeça imortal com uma pedra gigante. Aí tanto faz ela estar viva ou não. Quer dizer, não adianta nada ser imortal debaixo de uma pedra gigante.

_Não sei. E se algum dia alguém encontra essa cabeça venenosa imortal por acaso e ela consiga sair debaixo da pedra? Já pensou?

_Era só chamar o Hércules de novo, ué.

_Mas com o Hércules não dá para chamar assim e dizer que é um trabalhinho extra.

_Pai, vai por mim, tinha que ser o Hércules.

_Acho que você tem razão. Não dá para chamar o Batman numa história dessas.