Antes que eu me esqueça, corro para anotar a conversa com a minha filha na manhã de hoje, indo para a escola:
_Paiê, olha lá aquela nuvem!
_Não posso, filha, tenho que prestar atenção no trânsito.
_Mas é uma nuvem Ursinhos Carinhosos, paiê!
_Caramba, é o meu tipo de nuvem predileto, filhota. Mas não dá para olhar agora, tenho que prestar atenção na pista. Olha só aquele ônibus ali. O motorista deveria ser algemado a um gorila no cio, que horror!
_Paiê, agora a nuvem virou Ursinhos Carinhosos Bêibis. Está muito mais bonita.
Nuvem bêibi é sempre mais bonita mesmo, mas não posso tirar os olhos da pista. Um motoqueiro vem fazendo zigue-zague nos espelhos retrovisores, o que me deixa um pouco confuso.
_Cadê aquela moto?
_Puxa, paiê, você não presta atenção em mim – reclama a minha filha.
_Presto, filhota, mas não quando estou dirigindo.
_Você nem viu a nuvem. Nem a bêibi nuvem.
_Quando a gente parar eu vejo, filha.
_Aí ela não vai ser mais Ursinhos Carinhosos.
_É só fingir um pouco.
_Não. Não funciona. As nuvens Ursinhos Carinhosos não são fingíveis. Nem as bêibis.
E o resto do caminho ela ficou calada e séria. Acho que nem olhou mais pela janela.
Quando paramos eu sabia que já não havia mais nenhuma nuvem no céu.
terça-feira, 9 de fevereiro de 2010
Uma nuvem Ursinhos Carinhosos
segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010
Alegria, alegria
Os dois dias do final de semana passaram voando. E no trabalho existe uma grande expectativa em relação ao carnaval. As pessoas fazem planos complexos e constroem estratégias peripatéticas para viajar. Como o dólar não dá em abacateiro, eu, minha mulher e filhos vamos ficar por aqui mesmo. E aqui faz sol e depois chove forte. Ninguém entende o clima. Mas eu me lembro de ter passado muitos carnavais nessa cidade. E sempre chove. Às vezes chove muito, outras vezes chove pouco, mas chove.E também não tem muita coisa pra se fazer, como em todos os lugares.
A verdade é que o carnaval não me empolga muito. Sempre fui um folião muito incompreendido, sambando num pé só o samba de uma nota apenas. Nunca fui de me fantasiar, de sair em bloco. Nada. Nem de decorar samba-enredo. Cantar samba não é comigo. Aliás, cantar qualquer ritmo não é comigo. Sou péssimo com a cuíca. Aliás de novo, não reconheceria uma cuíca nem se pisasse em cima e ela gemesse. É, só sei que cuíca geme. Pandeiro eu sei como é e até aprendi a tocar. Batucava nas laterais, no melhor estilo malandro da Vila. Mas já esqueci como é. Hoje em dia eu usaria para colocar salgadinho, vendo desfile pela TV. Aliás, desse carnaval que aprendi a tocar pandeiro, lembro de pouca coisa. Faz uns dez anos eu tive um flash-back dessa folia enquanto dirigia. É incrível o fato de ter sobrevivido. Ao flash-back e àquele carnaval.
Fico sabendo que no trabalho vai ter concurso de fantasia. O primeiro prêmio é bem legal. E alguns colegas me perguntam se eu vou participar do concurso.
_Claro, vou me fantasiar de meia, depois ainda saio no Pacotão - eu digo.
Ninguém acredita.
_Depois vou para a porta do Palácio do Buriti pra ganhar panetone - eu digo.
Mas ninguém acha graça.
_Então vou me fantasiar de Sombra - eu digo.
Mas os caras estão falando sério. Planejam fantasias tradicionais. Palhaço, pierrô, colombina, índio, pirata, o escambau.
_Caras, vocês estão mesmo falando sério?
_Mas é claro, o prêmio é muito bom, uma estadia com direito a acompanhante naquele hotel super-legal...
_Gente, vir fantasiado para o trabalho?
_Bom, se todo mundo vier, não tem o menor problema.
_É, o chato é pagar o mico sozinho. Mas se todo mundo vier...
_Então eu venho de Batimão - eu digo.
_Batman?
_Não, de bombachas com a camisa do Corínthians, Bah - Timão...
Mas os caras não acham graça.
Segunda-feira é fogo.
domingo, 7 de fevereiro de 2010
Corcundobol
Meu pai inventou esse jogo para brincar com os filhos. Já faz muito tempo que eu e meus três irmãos brincamos com o nosso pai, então acho que misturei algumas regras na memória. Mas acho que o jogo consiste basicamente em ficar curvado sobre uma bola e fazer gols. É preciso usar uma bola grande, de plástico, senão fica muito difícil empurrar uma bola até o gol. Não é permitido ficar de quatro. Só existe um gol. E todo mundo sem bola é adversário. Você pode quicar a bola só umas cinco vezes e não vale segurar o braço do adversário. É possível segurar o pé e a perna. Cabelo não pode. Cotovelo é falta.
Eu devia ter uns oito ou nove anos de idade quando meu pai me chamou para brincar de corcundobol pela primeira vez. Fomos todos os cinco para debaixo do prédio de apartamentos, onde havia um círculo gramado pequeno. Com dois gravetos espetados na grama fizemos o gol. Meu pai, que havia inventado o jogo e as regras, achou que tudo estava muito adequado para o jogo.
Logo que começamos a jogar, outros meninos e meninas do prédio apareceram para ver a brincadeira. Era extraordinário um adulto como o meu pai brincar com as crianças. Era mais extraordinário ainda que o adulto inventasse a brincadeira e se empenhasse tanto quanto o meu pai na brincadeira. Ao mesmo tempo em que era empolgante, as outras crianças percebiam de imediato que aquela era uma brincadeira familiar a que não teriam acesso. Era um jogo inventado pelo meu pai, com regras obscuras que ele moldava para exercer autoridade e também para transmitir algum ensinamento estranho, que ninguém de fora conseguia captar.
sábado, 6 de fevereiro de 2010
Madeira, madeira, madeira
Demorei três dias para baixar um vídeo que ensina a calibrar a sua mesa de corte. é um vídeo fascinante que realmente ensina você a trabalhar com uma das ferramentas fundamentais para a marcenaria.
Devo estar ficando maluco.
sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010
O Careca medalhão
Eu fico calado. Depois de um treinamento de mutismo agudo, longo e muito difícil, começo a deixar pergunta em branco. Ainda acontece, de vez em quando, aquela explosão de solicitude, de tentar oferecer uma resposta rápida e certeira. Mas em geral, consigo conter essa proatividade com a respiração pausada e um olhar de sol de primavera. Engulo em seco. Penso numa música baiana. Assovio.
Mas esse esforço ainda é visível. Admiro os caras que não demonstram que sabem a resposta para a pergunta cretina. Eles tendem a prosperar e sobreviver, embora percam a dignidade. Eu ainda esfrego os pés. Meu pomo de Adão sobe e desce. Disfarço muito mal. E isso é muito importante nessa época. Não refletir embaraços. Não conjecturar demais. Refletir em silêncio. E até escrever pouco. Cautela.
_Careca, o que você acha?
_Sobre o quê?
_Sobre o que estamos conversando, é claro.
_Ainda não tenho uma opinião formada. Precisarei de mais tempo para analisar esse tema com a profundidade necessária. Seria leviano da minha parte estabelecer um juízo sem considerar todas as alternativas. Mas já posso dizer que nem todos os impactos estão sendo considerados.
_...?
Vivemos tempos de casca-de-banana por todos os lados. Quem vacilar, escorrega. E o tombo pode custar o lombo. Por isso, fico calado. Fechar a boca também me deu a idéia de emagrecer. Estou com pelo menos 4 quilos a mais. E toda vez que perco um quilo eu acho um outro, na sequência. Aquela velha coisa de adiar o programa de exercícios começa a me dar remorsos. Não existe alternativa. Se não malhar, restará somente a flacidez incurável.
quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010
Mcbess é ótimo
Em dias improdutivos, recorro à Internet. Aí me sinto um nativo, vendo os espelhos e bugigangas dos gringos. Eu estou na minha canoa, feita de um único tronco de árvore. Eu me encanto com as bugigangas e sofisticadas tranqueiras espalhadas pelo espaço cibernético.
McBess é um link perpétuo no vímeo. Não consigo entender nenhuma palavra do que os caras cantam. Mas acho a animação de ótima qualidade.
get the Dead Pirates track here : music.dirtymelody.com/
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a music video by simon & mcbess , music by mcbess and the dead pirates



