quarta-feira, 25 de junho de 2014

Universo paralelo

_Nesse universo paralelo, eu digo para a minha filha, as feias é que eram bonitas. Todo mundo era lindão, corpo sarado, ninguém tinha celulite, ruga, nariz torto, orelhão de abano. Só os feios. Eles é que apareciam nas capas de revistas, nos comerciais de televisão, nos out-doors, nas filipetas e nos banners dos anúncios na internet. Elas, as feiosas horrorosas, venciam os concursos de feiúra e viravam estrelas de cinema, lançavam penteados, roupas e perfumes da moda. As mulheres mais feias do mundo faziam muito sucesso, os homens se matavam por causa delas, guerras heróicas eram travadas. E as mulheres lindas e belas de todo o planeta queriam ser como elas, as feiosas mais feias do mundo. Pagavam fortunas para os cirurgiões plásticos enfeiarem elas um pouquinho, entortar um nariz, aumentar uma orelha, faziam dietas incríveis para ganhar peso e conquistar algum tipo de flacidez, ficavam meses sem fazer exercícios, na maior preguiça e sedentarismo do mundo. Era incrível. Mas todo mundo queria ser feio desde pequeno. E não era fácil ser feio. Primeiro porque ninguém perdoava a feiúra alheia.

_Fulana nasceu com o bumbum virado pra lua! Ela é feia, rica e feliz - diziam as invejosas.

_E o marido também é horroroso! - dizia a invejosa mais invejosa de todas.



_Pai, paiê! - disse a minha filha, interrompendo a minha história da feiúra.

_Pode falar - eu disse.

_Pai, eu estou com sono. E já sou grande. Não precisa mais de história para dormir.

_Nesse universo paralelo, os filhos é que contavam histórias para os pais...

terça-feira, 10 de junho de 2014

Sem alarde

O fim-de-semana foi agitado. As escolas anteciparam as festas juninas por causa da Copa das Copas e assim ficamos com duas festas no mesmo sábado. Desde que o crime de quadrilha foi praticamente abolido pelo Supremo Tribunal Federal, tenho achado esse costume junino de dançar vestido de caipira meio chato. Mas na primeira escola em que paramos, ainda no período da manhã, um grupo profissional me fez mudar de idéia. Tudo por causa do gordinho. A quadrilha foi anunciada sobre o palco elevado e os dançarinos se posicionaram para a dança. As moças de vestido rodado de chita e tranças, os homens de camisas quadriculadas, calças com remendos falsos e chapéus de palha, alguns com barbas de verdade e um ou outro imberbe com cavanhaque pintado. Era uma quadrilha super-agitada. Os jecas juninos eram todos atléticos e ágeis. Menos o gordinho, é claro. Ele estava numa empolgação danada atrás da barriga, mas já na introdução dava para perceber que ele não daria conta de manter o pique.

_Aposto uma pamonha que o gordinho vai pedir tempo e sair no meio da quadrilha - eu disse para a minha mulher.

_A pamonha não está com uma cara muito boa - disse ela.

_Então vale um yakisoba - eu disse, apontando para o letreiro de uma barraca.

_Fechado.

As coisas estão tão mudadas que a gente nem estranha yakisoba em festa junina. A quadrilha continuou em velocidade. Eu não estava acreditando. O gordinho estava no ritmo da galera, de onde eu estava dava para ver o sujeito suando, mas ele não perdia o embalo e parecia acompanhar a parceira com desenvoltura. Putz, eu pensei. Não é que o gordinho manda bem?! Pula a fogueira iaiá, pula a fogueira iôiô, e o gordinho firme. Eu estava pronto a reconhecer a derrota e bancar o yakisoba quando mudei um pouco de lugar. Tive uma surpresa.

_O gordinho está trapaceando! - eu disse bem alto para a minha mulher. Do meu novo lugar, dava para ver que o sujeito só acompanhava a dança com os braços, as pernas ficavam paradas enquanto o resto da turma pulava e sapateava.

Na sequência da festa junina, levamos um dos filhos para uma festa de aniversário e seguimos para casa. Eu deveria ter aproveitado para tirar um cochilo, mas estava com algumas pendências no escritório para resolver. No meio da tarde escuto um grande estrondo, parecido com a batida de uma porta de vidro que tenho em casa. Corri assustado para lá, mas estava tudo normal, sem problemas. Na minha paranóia, verifiquei as janelas e todo o perímetro da casa e já estava dando tudo por encerrado quando observei uma estranha mancha no janelão da varanda. Era grande e redonda, parecia uma marca deixada por uma bola de futebol. A Copa quase me custou uma vidraça, eu pensei. Decidi procurar a bola, mas ao invés disso encontrei um pombo enorme caído no chão. Era grande mesmo, dos butelos, e por isso mentalmente eu já estava chamando a criatura de Chester.

_E aí, Chester? Vamos, rapaz, levanta daí e bata as asonas. O Rafa vai te pegar! Sai daí, depressa!

Tive que bancar o herói do pombo, pulando na frente do Rafa e salvando a ave no último segundo. O Rafa é perito em finalizar aves que trombam no janelão. Deixei o pombo numa caixa de papelão, apoiado em papel jornal e isopor. Ele estava grogue, mas não parecia muito comprometido, sustentava a cabeça e de vez em quando ensaiava uma tentativa de bater as asas. Eu havia trancado o Rafa dentro de casa e, portanto, todo o quintal estava livre para o pombo.

_Chester, my boy, fique à vontade. Voe quando quiser - eu disse, com grandes esperanças de que o bicho realmente se recuperasse do pancadão e fugisse.

Houve um tempo em que eu achava que era importante chamar a atenção das crianças para essas coisas. Lagarta esquisita. Planta brotando. Passarinho ferido. Galho quebrado. Pombo se recuperando. Eu achava que era meu papel de pai estar presente e procurar transformar qualquer coisa prosaica numa lição positiva, num alento esperançoso, numa epifania educativa sobre a importância de estar atento a tudo o que nos acontece, de celebrar o encanto de viver. Mas isso passou. Agora prefiro viver sem alarde.

No domingo, fui verificar e encontrei o pombo numa posição esquisita, com os olhos brancos e virados, petrificado. Chester não aguentou, coitado. Eu fechei a caixa de sapatos e coloquei no saco preto de plástico. Fiquei contente por não ter chamado as crianças para ver o Chester e criar falsas esperanças.



sexta-feira, 6 de junho de 2014

Vazamento

Vazamento sob a pia do lavabo, na segunda-feira.

_É o rabicho - disse o meu lado bombeiro hidráulico.

Eu mesmo troquei o rabicho, é claro. Por 13 pratas. Testei e tudo funcionou maravilhosamente. Nenhuma gota após 12 horas.

_É campeão, é campeão - eu pensei.

Na terça-feira, novo vazamento sob a pia. Revejo o conserto.

_É o joelho do encanamento - disse o meu lado bombeiro hidráulico.

Quase o mandei plantar batatas. Apliquei silicone (10 pratas + ou -), aguardei 24 horas para secagem e vulcanização. Quarta-feira com o lavabo a pleno funcionamento e perfeitamente seco.

_É campeão, é campeão - eu comemorava.

Na quinta-feira, a parede oposta à pia do lavabo amanheceu molhada. Vazamento interno.

_Vou ter que quebrar a parede e trocar o cano, provavelmente é uma fissura atrás do joelho do encanamento - eu ouvi o idiota do meu lado bombeiro gaguejar. Resolvi ignorá-lo e procurar ajuda profissional.

Esperei até o início da tarde a chegada do bombeiro hidráulico para orçamento. A minha torcida, felizmente, também aguardou a facada em silêncio.

Os caras do socorro bombeiro chegaram às três horas. Estavam sujos pacas.

_A gente estava bem perto daqui - disse o que parecia ser o líder.

_Perto daqui - disse o que parecia ser o liderado.

Hesitei em deixar a dupla entrar em casa com aquelas roupas e calçados imundos. Mas segui a recomendação de amigos, não banquei o importante que abre as portas do castelo. Ao contrário, fiz a minha cara de humilde, chamei de senhor, conforme me ensinaram. Eu saco muito dessas técnicas de apresentação de orçamento hidráulico. Os caras, em geral, usam a velha tática de "good cop, bad cop". Um salga o preço, o outro sopra descontos. No final, mesmo que você ganhe muitos descontos, estará pagando um preço pra lá de salgado. Por isso eu gosto de usar a minha velha tática de "dividir para conquistar".

Olhei para o sujeito mais velho e disse que era coisa rápida, talvez fosse melhor que o ajudante esperasse do lado de fora.

_Ajudante? - disse o bombeiro mais velho.

_É. Seu auxiliar pode ficar no carro, não precisa de dois para fazer um orçamento, certo?

_É o meu sócio.

_É uma sociedade 50/50?

_Bem, na verdade...

_Quem é que manda, afinal?

_Bom, pra falar a verdade...

_Aqui em casa manda a minha mulher, rá,rá. Um entra, o outro espera do lado de fora. Quem vai entrar?

_Nesse caso, eu vou - disse o sujeito mais velho.

Eu me apresentei, estendi a mão. Ele esfregou a mão na roupa suja antes de apertar a minha.

_Tomaz.

_Seu Tomaz, o vazamento é no lavabo...

O bombeiro hidráulico olhou de relance para o lavabo enquanto eu descrevia o problema. Depois entrou, examinou o rabicho, o silicone, balançou a cabeça, fez tsc-tsc-tsc e balançou a cabeça de novo. Eu podia sentir o meu rosto vermelho. Acho que se eu não estivesse ali o bombeiro teria cuspido de lado. Levantou-se sem dizer nada e foi se dirigindo para a porta de casa. Parecia muito concentrado calculando o custo do material, deduzindo os IOFs, o IRPJ, o IRPF, o Simples, o Complexo, o ICMS, o imposto sobre os combustíveis, a taxa extra da luz, a TJLP e o monte de juros do cheque especial.

_E aí, Seu Tomaz? - eu disse, visualizando cifrões voando da minha conta bancária.

_Vou ter que falar com o Geraldo - ele disse.

_E quem é o Geraldo? - eu disse.

_O Geraldo está lá fora - ele disse. Putz, lembrei de Arquivo X, na hora.

Acompanhei o Seu Tomaz até o carro. Os dois confabularam em voz baixinha, não deu pra ouvir patavina. De repente olharam os dois para mim, com risinhos no canto da boca. Acho que foi na parte do silicone. Então o Seu Tomaz tomou o lugar no carro e Geraldo veio até a porta.

_E aí, Seu Geraldo?

_Vou ter que entrar pra ver - disse o outro bombeiro hidráulico.

Apertamos as mãos depois que as esfregamos na camisa. A cena foi bem parecida. Descrevi o problema, Geraldo fez hum-hum, entrou no lavabo, olhou o rabicho, balançou a cabeça, fez tsc-tsc-tsc e perguntou quem tinha feito aquilo.

_Foi um bombeiro amador daqui perto - eu disse.

_E você pagou por isso? - disse o Seu Geraldo.

Eu não disse nada. Decidi que era hora de recuperar a ofensiva.

_E aí, e o serviço? Qual é o orçamento?

_Preciso ver com o Tomaz.

Até o Rafa estava achando aquela história comprida demais. O cachorro de estimação da minha filha não nos seguiu pelas escadas, desta vez. Ficou deitado como um tapete ao lado da porta do lavabo.

Lá fora, Tomaz e Geraldo cochicharam e riram mais um pouco da minha tentativa de remendo. Balançaram a cabeça em sintonia e concordância. Tomaz se aproximou, solenemente.

_Fica em trezentos.

_Como?

_Trezentos. Mas isso é só a mão-de-obra, sem o material e sem o serviço de alvenaria. Só mexemos com a parte hidráulica - disse Tomaz.

_Trezentos - eu disse, me lembrando do filme, os espartanos rachando os persas na porrada.

_Podemos indicar um excelente pedreiro - disse Geraldo.

_Muito obrigado, então - eu disse, fechando o portão.

_Podemos agendar pra quando? - disse Tomaz.

_Eu ligo pra vocês - eu disse. Mas tenho certeza de que não vou ligar.








quarta-feira, 4 de junho de 2014

Copa do Mundo

Existem os caras que sabem todas as escalações das seleções brasileiras. Titulares e reservas. Alguns sabem os placares das partidas. O nome do roupeiro e do massagista. Sabem o nome das namoradas dos craques de cada período. Sabem o que fizeram antes dos jogos. E também comentam as escapadelas noturnas das concentrações. Lembram o que os técnicos diziam para os poderosos de então, contam as brigas que aconteceram, as mandingas e espertezas dos nossos melhores jogadores.

Esses caras têm na memória, com a riqueza dos detalhes ditados pela mais profunda paixão, todos os lances decisivos, os chutes na trave, as defesas magníficas que implicaram em trágicas derrotas ou em estupendas vitórias. Essas pessoas sabem o saldo de gols, o número de faltas, as substituições, a ordem em que os pênaltis foram cobrados. Também têm na ponta-da-língua a lista dos lances que deveriam ter sido anulados, os erros crassos cometidos por árbitros e bandeirinhas, as traições amaldiçoadas das seleções que venderam os resultados, que entregaram os pontos, e que foram brutalmente agredidas por seus patrícios.

Muitos e muitos têm conhecimento enciclopédico sobre os países que participam do mundial. Os caras sabem os hinos, reconhecem as bandeiras, os uniformes, as comidas típicas, os trajes, e os craques das seleções adversárias. Sabem escalar as equipes. Recitam com rapidez os nomes dos times de cada atleta, exibem um vasto conhecimento geopolítico e futebolístico.

Para muitos dos meus amigos, o futebol é a nossa mais extraordinária peça de resistência cultural. É por meio dele que conseguimos preservar o nosso sentimento de identidade. É a alegria nacional. Nada nos irmana com tanto fervor quanto o delírio de assistir a uma partida de futebol da seleção brasileira, de ver um gol impossível, feito por um herói que driblou não somente os adversários em campo, mas a miséria, a ignorância, a opressão e os danados dos gringos.

Talvez seja verdade.

Mas comigo talvez não funcione mais. Meu conhecimento de futebol da seleção anda meio esmorecido, eu sei, confesso que não sei escalar a equipe sem a ajuda do google. Minha ignorância é tanta que nem consigo entrar naquela conversa sobre a convocação do Henrique. Quem diabos é Henrique? E por quê aquele outro, sei-lá-quem, não foi convocado? Onde jogam? O Ramirez é titular? Não sei. Sei que o técnico é o Filipão, que eu acho chato e mandão por gostar de bancar o paizão e de ficar na beirada do gramado, berrando. Sinto vergonha alheia de ver o cara berrando, fazer o quê? Tem gente que gosta, acha que aquilo estimula, sei lá. Eu acho um porre. Além disso, em pleno século XXI, poderiam usar alguma coisa mais tecnológica para mandar os recados, uma placa eletrônica, uma palmilha com mensagens em braile para os artelhos, uma caneleira inteligente.

Mesmo assim, seja como for, eu sinceramente espero ainda não estar imune e que a febre coletiva também me contagie. Se isso acontecer, com certeza saberei dizer o nome dos atletas sem recorrer à Internet.

segunda-feira, 19 de maio de 2014

O terreno pantanoso dos nefelibatas

É uma coisa meio cíclica. Tenho me sentido sem-graça pra caramba e, ao mesmo tempo, tenho achado tudo um bocado chato. O mundo não mudou de repente, então cheguei à conclusão de que o problema é comigo e por isso resolvi algumas coisas. A principal é ficar o máximo de tempo possível distante de uma tela de vídeo.

Aproveitei a estiagem de vídeo e chuva para remodelar a oficina de carpintaria, reorganizando absolutamente tudo. Agora estou usando o quarto de hóspedes como serraria, o que exigiu a reconstrução de mesas para a serra de esquadria e a nova serra de bancada de 10 polegadas. A antiga oficina agora é área de montagem, ainda um pouco atravancada por três enormes pranchas de eucalipto, que ganhei de um grande amigo, que pretendo transformar numa mesa rústica. Ainda não tenho ideia de como fazer para unir as três pranchas. Talvez tenha que usar pinos ou fazer uns chanfros mais elaborados. Vou ter que pesquisar.

Antes de liberar espaço no quarto de hóspedes, tive que preparar o sótão para receber a imensa quantidade de tranqueira que já havíamos acumulado nos armários. As soluções foram simples, mas tomaram bastante tempo.

Os projetos também são fáceis e pequenos. O princípio básico é começar e terminar no mesmo dia. Parece banal, mas a rotina diária, o mero transporte das crianças, uma pane no meu velho telefone peba e uma série de consultas médicas andaram complicando as coisas. Para aumentar os tropeços, tive algumas despesas extras com a recuperação de aparelhos avariados em função do último apagão. Nada sufocante, mas atrapalhou a contenção de despesas.

A frase título vem de uma brincadeira que eu costumava fazer com Humberto, meu amigo canalha. Trabalhamos juntos durante anos na mesma emissora. Para passar o tempo, todos os dias inventávamos uma frase para ser encaixada durante o resto do período de trabalho, nas pausas para o cigarro e o café. A brincadeira terminou com a frase sugerida pelo Humberto: o terreno pantanoso dos nefelibatas. Nunca consegui encaixar isso em conversa alguma.

Frase do dia


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