sábado, 16 de agosto de 2014

Caminhando para a escola

Não teve jeito, na última quarta-feira fomos a pé para a escola. Quero dizer, eu fui a pé. Minha filha foi de bicicleta. Na última hora, eu me toquei que não teria a menor disposição para colocar uma bicicleta no bagageiro do carro por volta da uma da tarde, na hora da saída da escola. Também fiquei com preguiça de instalar o suporte para bicicleta, um emaranhado de ganchos, armação de metal e faixas reforçadas. Para simplificar, decidi seguir a minha filha a pé, com a condição de que ela me esperasse a cada vez que fosse atravessar uma rua. Fizemos o trajeto em 20 minutos.

Durante a caminhada eu não me cansava de pensar que tudo é metáfora, tudo é metáfora. Minha filha seguia à frente a uma velocidade pequena, sem fazer muita força. Ela se distanciava rapidamente na calçada. De vez em quando um pedestre desconhecido surgia no trajeto e eu apertava o passo, ansioso para estar ao lado dela, temeroso de que o pedestre se revelasse um perigoso zumbi devorador de menininhas felizes que adoram andar de bicicleta. Todo mundo anda tão sério, quase não se vê um sorriso de manhã. Ninguém respondeu ao Bom-Dia que eu e minha filha íamos distribuindo. Ela estava radiante e quando ela está assim, eu também me sinto radiante. As pessoas que passavam obviamente não tinham o menor interesse naquela banal aventura de um pai e uma filha. Um ou outro abanava a cabeça, uma empregada esbaforida riu dos meus esforços para alcançar a minha filha, num trechos mais perigosos do trajeto. Tropecei duas vezes, quase caí. Vi um passarinho morto no canto de uma calçada. Uns trezentos e cinquenta e nove cachorros latiram atrás das cercas-vivas das casas do bairro. Algum conhecido que não reconheci buzinou de dentro de um carro enorme, com vidro fumê. O céu azul pálido de Brasília e o amarelo forte do início da manhã no planalto central encheram os meus olhos.

_Cansou, paiê?

_Não, claro que não - eu disse.

Mas é mentira, é claro. Suei um bocado, inclusive na sola dos pés enfiados na bota nova e confortável que ganhei de presente no Dia dos Pais. Depois que a minha filha entrou na escola, voltar sozinho para casa montado na bicicleta com cestinho branco não teve a menor graça.

quarta-feira, 30 de julho de 2014

De bicicleta para a escola

Minha filha e minha mulher agora vão de bicicleta para a escola, que fica a três quadras de distância. As duas estão bem animadas com a façanha. O percurso é cheio de subidas e descidas, mas o tempo está mais frio e a umidade não parece tão baixa no início da manhã. Elas estão nessa desde a semana passada, orgulhosas de se exercitarem. Eu fico com uma ponta de inveja, mas não muita. Saio mais cedo para levar o meu filho na outra escola, meia hora distante a 80 km por hora, com vista para a gigantesca bandeira nacional e o lago Paranoá. Hoje seria o meu primeiro dia de bicicleta para a escola, já que na quarta-feira invertemos as posições e é a minha mulher quem leva o menino para a escola distante. Confesso que fiquei grilado com a perspectiva de pedalar durante a manhã, mas deixei tudo pronto. Calibrei os pneus das duas bicicletas. Acertei trancas, chaves e cadeados. Preparei sucos para o trajeto, só para o caso de ter um ataque de sede. Coloquei uns biscoitos e bolachas na minha mochila, para o caso de um ataque de fome. Preparei o kit conserto(chave de roda, remendos, cola), deixei tudo à mão. Ia me esquecendo do capacete, até pensei em desistir por falta de equipamento de segurança essencial, mas bastou uma olhada para minha filha para desistir da opção de desistir.

Hoje de manhã minha mulher e meu filho saíram correndo para o automóvel e eu fiquei esperando a menina para o café da manhã. Conferi a lista de equipamentos, os itens de segurança(acrescentei uma joelheira e luvas), a matula e os cadeados e correntes. Tudo certo.

_Cadê o coala? - disse a minha filha, assim que chegou para o café.

_O quê? Esse aí na sua mão não é um coala? - eu disse apontando para um bichinho de pelúcia cinza que a menina segurava com carinho.

_Esse é o filhote. Preciso do coala-pai, o coala grande, paiê! Eu preciso levar. Hoje tem gincana de matemática e o coala é o mascote da minha equipe. Eu prometi levar, você não sabia?

_Na verdade, não. O coala-pai é aquele que tem um colete preto, de chapéu marrom?

_Esse mesmo, você sabe onde ele está? - ela disse.

_Vou procurar.

Subi as escadas até o quartinho onde ficam os brinquedos e os bichos de pelúcia. Há uma grande quantidade deles aqui em casa. Temos espécies ameaçadas de extinção, personagens de quadrinhos, super-heróis, insetos gigantes, madeleines, emílias, anjos e seres de todas as cores e formas. Procurei por todo canto, mas nada do coala. Minha filha chegou para me ajudar na procura e terminamos de revirar tudo.

_Nada de coala. E não podemos demorar mais ou vou chegar atrasada - disse a minha filha.

_Filha, vamos ter que ir de carro, acho que não vai dar tempo de ir de bicicleta - eu disse.

_Tudo bem, vamos de carro - ela disse.

E exatamente nesse instante, encontramos o coala no único lugar onde ainda não havíamos procurado.

_Acho que esse bicho não queria ir de bicicleta para a escola - eu disse.

_Tudo bem, paiê. Todo mundo sabe que os pais dos coalas são preguiçosos - disse minha filha.

No caminho, descobri que a gincana termina nesta sexta-feira. Vou ter que pensar em outra coisa até a próxima semana.





quarta-feira, 25 de junho de 2014

Universo paralelo

_Nesse universo paralelo, eu digo para a minha filha, as feias é que eram bonitas. Todo mundo era lindão, corpo sarado, ninguém tinha celulite, ruga, nariz torto, orelhão de abano. Só os feios. Eles é que apareciam nas capas de revistas, nos comerciais de televisão, nos out-doors, nas filipetas e nos banners dos anúncios na internet. Elas, as feiosas horrorosas, venciam os concursos de feiúra e viravam estrelas de cinema, lançavam penteados, roupas e perfumes da moda. As mulheres mais feias do mundo faziam muito sucesso, os homens se matavam por causa delas, guerras heróicas eram travadas. E as mulheres lindas e belas de todo o planeta queriam ser como elas, as feiosas mais feias do mundo. Pagavam fortunas para os cirurgiões plásticos enfeiarem elas um pouquinho, entortar um nariz, aumentar uma orelha, faziam dietas incríveis para ganhar peso e conquistar algum tipo de flacidez, ficavam meses sem fazer exercícios, na maior preguiça e sedentarismo do mundo. Era incrível. Mas todo mundo queria ser feio desde pequeno. E não era fácil ser feio. Primeiro porque ninguém perdoava a feiúra alheia.

_Fulana nasceu com o bumbum virado pra lua! Ela é feia, rica e feliz - diziam as invejosas.

_E o marido também é horroroso! - dizia a invejosa mais invejosa de todas.



_Pai, paiê! - disse a minha filha, interrompendo a minha história da feiúra.

_Pode falar - eu disse.

_Pai, eu estou com sono. E já sou grande. Não precisa mais de história para dormir.

_Nesse universo paralelo, os filhos é que contavam histórias para os pais...

terça-feira, 10 de junho de 2014

Sem alarde

O fim-de-semana foi agitado. As escolas anteciparam as festas juninas por causa da Copa das Copas e assim ficamos com duas festas no mesmo sábado. Desde que o crime de quadrilha foi praticamente abolido pelo Supremo Tribunal Federal, tenho achado esse costume junino de dançar vestido de caipira meio chato. Mas na primeira escola em que paramos, ainda no período da manhã, um grupo profissional me fez mudar de idéia. Tudo por causa do gordinho. A quadrilha foi anunciada sobre o palco elevado e os dançarinos se posicionaram para a dança. As moças de vestido rodado de chita e tranças, os homens de camisas quadriculadas, calças com remendos falsos e chapéus de palha, alguns com barbas de verdade e um ou outro imberbe com cavanhaque pintado. Era uma quadrilha super-agitada. Os jecas juninos eram todos atléticos e ágeis. Menos o gordinho, é claro. Ele estava numa empolgação danada atrás da barriga, mas já na introdução dava para perceber que ele não daria conta de manter o pique.

_Aposto uma pamonha que o gordinho vai pedir tempo e sair no meio da quadrilha - eu disse para a minha mulher.

_A pamonha não está com uma cara muito boa - disse ela.

_Então vale um yakisoba - eu disse, apontando para o letreiro de uma barraca.

_Fechado.

As coisas estão tão mudadas que a gente nem estranha yakisoba em festa junina. A quadrilha continuou em velocidade. Eu não estava acreditando. O gordinho estava no ritmo da galera, de onde eu estava dava para ver o sujeito suando, mas ele não perdia o embalo e parecia acompanhar a parceira com desenvoltura. Putz, eu pensei. Não é que o gordinho manda bem?! Pula a fogueira iaiá, pula a fogueira iôiô, e o gordinho firme. Eu estava pronto a reconhecer a derrota e bancar o yakisoba quando mudei um pouco de lugar. Tive uma surpresa.

_O gordinho está trapaceando! - eu disse bem alto para a minha mulher. Do meu novo lugar, dava para ver que o sujeito só acompanhava a dança com os braços, as pernas ficavam paradas enquanto o resto da turma pulava e sapateava.

Na sequência da festa junina, levamos um dos filhos para uma festa de aniversário e seguimos para casa. Eu deveria ter aproveitado para tirar um cochilo, mas estava com algumas pendências no escritório para resolver. No meio da tarde escuto um grande estrondo, parecido com a batida de uma porta de vidro que tenho em casa. Corri assustado para lá, mas estava tudo normal, sem problemas. Na minha paranóia, verifiquei as janelas e todo o perímetro da casa e já estava dando tudo por encerrado quando observei uma estranha mancha no janelão da varanda. Era grande e redonda, parecia uma marca deixada por uma bola de futebol. A Copa quase me custou uma vidraça, eu pensei. Decidi procurar a bola, mas ao invés disso encontrei um pombo enorme caído no chão. Era grande mesmo, dos butelos, e por isso mentalmente eu já estava chamando a criatura de Chester.

_E aí, Chester? Vamos, rapaz, levanta daí e bata as asonas. O Rafa vai te pegar! Sai daí, depressa!

Tive que bancar o herói do pombo, pulando na frente do Rafa e salvando a ave no último segundo. O Rafa é perito em finalizar aves que trombam no janelão. Deixei o pombo numa caixa de papelão, apoiado em papel jornal e isopor. Ele estava grogue, mas não parecia muito comprometido, sustentava a cabeça e de vez em quando ensaiava uma tentativa de bater as asas. Eu havia trancado o Rafa dentro de casa e, portanto, todo o quintal estava livre para o pombo.

_Chester, my boy, fique à vontade. Voe quando quiser - eu disse, com grandes esperanças de que o bicho realmente se recuperasse do pancadão e fugisse.

Houve um tempo em que eu achava que era importante chamar a atenção das crianças para essas coisas. Lagarta esquisita. Planta brotando. Passarinho ferido. Galho quebrado. Pombo se recuperando. Eu achava que era meu papel de pai estar presente e procurar transformar qualquer coisa prosaica numa lição positiva, num alento esperançoso, numa epifania educativa sobre a importância de estar atento a tudo o que nos acontece, de celebrar o encanto de viver. Mas isso passou. Agora prefiro viver sem alarde.

No domingo, fui verificar e encontrei o pombo numa posição esquisita, com os olhos brancos e virados, petrificado. Chester não aguentou, coitado. Eu fechei a caixa de sapatos e coloquei no saco preto de plástico. Fiquei contente por não ter chamado as crianças para ver o Chester e criar falsas esperanças.



sexta-feira, 6 de junho de 2014

Vazamento

Vazamento sob a pia do lavabo, na segunda-feira.

_É o rabicho - disse o meu lado bombeiro hidráulico.

Eu mesmo troquei o rabicho, é claro. Por 13 pratas. Testei e tudo funcionou maravilhosamente. Nenhuma gota após 12 horas.

_É campeão, é campeão - eu pensei.

Na terça-feira, novo vazamento sob a pia. Revejo o conserto.

_É o joelho do encanamento - disse o meu lado bombeiro hidráulico.

Quase o mandei plantar batatas. Apliquei silicone (10 pratas + ou -), aguardei 24 horas para secagem e vulcanização. Quarta-feira com o lavabo a pleno funcionamento e perfeitamente seco.

_É campeão, é campeão - eu comemorava.

Na quinta-feira, a parede oposta à pia do lavabo amanheceu molhada. Vazamento interno.

_Vou ter que quebrar a parede e trocar o cano, provavelmente é uma fissura atrás do joelho do encanamento - eu ouvi o idiota do meu lado bombeiro gaguejar. Resolvi ignorá-lo e procurar ajuda profissional.

Esperei até o início da tarde a chegada do bombeiro hidráulico para orçamento. A minha torcida, felizmente, também aguardou a facada em silêncio.

Os caras do socorro bombeiro chegaram às três horas. Estavam sujos pacas.

_A gente estava bem perto daqui - disse o que parecia ser o líder.

_Perto daqui - disse o que parecia ser o liderado.

Hesitei em deixar a dupla entrar em casa com aquelas roupas e calçados imundos. Mas segui a recomendação de amigos, não banquei o importante que abre as portas do castelo. Ao contrário, fiz a minha cara de humilde, chamei de senhor, conforme me ensinaram. Eu saco muito dessas técnicas de apresentação de orçamento hidráulico. Os caras, em geral, usam a velha tática de "good cop, bad cop". Um salga o preço, o outro sopra descontos. No final, mesmo que você ganhe muitos descontos, estará pagando um preço pra lá de salgado. Por isso eu gosto de usar a minha velha tática de "dividir para conquistar".

Olhei para o sujeito mais velho e disse que era coisa rápida, talvez fosse melhor que o ajudante esperasse do lado de fora.

_Ajudante? - disse o bombeiro mais velho.

_É. Seu auxiliar pode ficar no carro, não precisa de dois para fazer um orçamento, certo?

_É o meu sócio.

_É uma sociedade 50/50?

_Bem, na verdade...

_Quem é que manda, afinal?

_Bom, pra falar a verdade...

_Aqui em casa manda a minha mulher, rá,rá. Um entra, o outro espera do lado de fora. Quem vai entrar?

_Nesse caso, eu vou - disse o sujeito mais velho.

Eu me apresentei, estendi a mão. Ele esfregou a mão na roupa suja antes de apertar a minha.

_Tomaz.

_Seu Tomaz, o vazamento é no lavabo...

O bombeiro hidráulico olhou de relance para o lavabo enquanto eu descrevia o problema. Depois entrou, examinou o rabicho, o silicone, balançou a cabeça, fez tsc-tsc-tsc e balançou a cabeça de novo. Eu podia sentir o meu rosto vermelho. Acho que se eu não estivesse ali o bombeiro teria cuspido de lado. Levantou-se sem dizer nada e foi se dirigindo para a porta de casa. Parecia muito concentrado calculando o custo do material, deduzindo os IOFs, o IRPJ, o IRPF, o Simples, o Complexo, o ICMS, o imposto sobre os combustíveis, a taxa extra da luz, a TJLP e o monte de juros do cheque especial.

_E aí, Seu Tomaz? - eu disse, visualizando cifrões voando da minha conta bancária.

_Vou ter que falar com o Geraldo - ele disse.

_E quem é o Geraldo? - eu disse.

_O Geraldo está lá fora - ele disse. Putz, lembrei de Arquivo X, na hora.

Acompanhei o Seu Tomaz até o carro. Os dois confabularam em voz baixinha, não deu pra ouvir patavina. De repente olharam os dois para mim, com risinhos no canto da boca. Acho que foi na parte do silicone. Então o Seu Tomaz tomou o lugar no carro e Geraldo veio até a porta.

_E aí, Seu Geraldo?

_Vou ter que entrar pra ver - disse o outro bombeiro hidráulico.

Apertamos as mãos depois que as esfregamos na camisa. A cena foi bem parecida. Descrevi o problema, Geraldo fez hum-hum, entrou no lavabo, olhou o rabicho, balançou a cabeça, fez tsc-tsc-tsc e perguntou quem tinha feito aquilo.

_Foi um bombeiro amador daqui perto - eu disse.

_E você pagou por isso? - disse o Seu Geraldo.

Eu não disse nada. Decidi que era hora de recuperar a ofensiva.

_E aí, e o serviço? Qual é o orçamento?

_Preciso ver com o Tomaz.

Até o Rafa estava achando aquela história comprida demais. O cachorro de estimação da minha filha não nos seguiu pelas escadas, desta vez. Ficou deitado como um tapete ao lado da porta do lavabo.

Lá fora, Tomaz e Geraldo cochicharam e riram mais um pouco da minha tentativa de remendo. Balançaram a cabeça em sintonia e concordância. Tomaz se aproximou, solenemente.

_Fica em trezentos.

_Como?

_Trezentos. Mas isso é só a mão-de-obra, sem o material e sem o serviço de alvenaria. Só mexemos com a parte hidráulica - disse Tomaz.

_Trezentos - eu disse, me lembrando do filme, os espartanos rachando os persas na porrada.

_Podemos indicar um excelente pedreiro - disse Geraldo.

_Muito obrigado, então - eu disse, fechando o portão.

_Podemos agendar pra quando? - disse Tomaz.

_Eu ligo pra vocês - eu disse. Mas tenho certeza de que não vou ligar.








Frase do dia


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