Jorge Ben - Brother
Ontem, eu e a minha mulher ficamos assistindo as manifestações e protestos na televisão. As crianças ficaram curiosas e se sentaram com a gente. Daí a pouco começaram as perguntas.
_Pai, o que essa gente está fazendo?
_As multidões estão protestando, filho. Elas estão contra o aumento da passagem de ônibus em São Paulo, no Rio de Janeiro e em Belo Horizonte, além de outras cidades. Aqui em Brasília, por exemplo, a multidão protesta porque está apoiando os protestos contra o preço das passagens de outras cidades - eu disse.
_Explica direito. Não é só isso. As pessoas estão insatisfeitas com os gastos feitos em estádios de futebol e com a situação ruim dos hospitais, das escolas e com a falta de segurança pública. Elas estão contra tudo o que está errado no país - disse a minha mulher.
_Eu ia chegar lá. O problema é que é muita coisa errada, falta até fôlego. Numa democracia, as pessoas têm o direito de se manifestar pacificamente, ou seja, sem quebra-quebra, sem vandalismo, sem botar fogo em nada, respeitando o direito de ir e vir das outras pessoas - eu disse.
_Ou seja, se as pessoas se comportarem bem, elas podem se manifestar - disse a minha filha.
_É, pode-se dizer que sim - eu disse. E imediatamente começou a soar aquela campainha de alarme interno, que todo mundo tem.
_Quer dizer que se eu me comportar bem, eu posso protestar - disse o meu filho.
Minha campainha interna dobrou de volume. Quando meu filho repete uma frase da irmã é sinal de que ele percebeu uma daquelas fissuras que podem provocar um abalo sísmico no planeta.
_Também é preciso um bom motivo. Ninguém fica protestando por qualquer coisa. As pessoas protestam quando não estão aguentando mais uma situação, quando as coisas começam a ficar insuportáveis. Aí então, as autoridades se vêem obrigadas a tomar algum tipo de providência - eu disse. E agora a minha campainha interna de alarme já estava no volume máximo, era quase uma sirene.
_Então, pai, eu queria fazer um protesto - disse o meu filho.
_Eu também, eu também - disse a minha filha.
Minha mulher me olhou com aquele olhar de governador para prefeito. Tudo bem, eu pensei, eu vou ter que me virar com a guarda municipal.
_Um de cada vez - eu disse.
_Pai, eu já não suporto mais ir pra escola. Então eu protesto - disse o meu filho.
_Pai, eu também não aguento mais a escola. E também cansei de sopa. Protesto duplo - disse a minha filha.
_Muito bem, são protestos legítimos. A insatisfação com a escola e a sopa de vocês dois é visível e, além disso, vocês fizeram os protestos de uma maneira bem civilizada, parabéns - eu disse.
_E agora? - disseram os dois.
_E agora o quê?
_O que você vai fazer? Qual vai ser a providência? - disse o meu filho.
_Nenhuma.
_Mas pai, você mesmo disse que as autoridades se sentem obrigadas a tomar algum tipo de providência. E, depois da mamãe, você é a autoridade aqui em casa - disse o meu filho.
Deixei passar a ironia antes de encerrar a conversa.
_Acontece que nós estamos numa família, e as famílias não são democracias, elas são governadas pelos pais. Ia ser engraçado se você votassem num pai - eu disse.
_Se eu pudesse votar, eu votaria para deixar de ir para a escola - disse a meu filho.
_Eu votaria contra a sopa - disse a minha filha.
_Nem adianta pensar nisso. Pai é cargo vitalício - eu disse.
terça-feira, 18 de junho de 2013
Educação Moral e Cívica
segunda-feira, 17 de junho de 2013
Umbabarauma no kabuletê
Umbabarauma
Estamos de volta à tonga da mironga do kabuletê. Ninguém sabe o que está acontecendo direito. Há uma insatisfação sendo expressa nas ruas desde o início da semana passada. De uma maneira geral os protestos são pacíficos, mas excessos são cometidos do lado dos manifestantes e da polícia. Em Brasília, não existem porta-vozes, não se identificam lideranças. Ao contrário, a multidão recusa a tutela dos núcleos partidários e empunha diferentes bandeiras: passa pela solidariedade aos manifestantes de outras capitais contra os aumentos de passagens, percorre o repúdio aos gastos bilionários em estádios em detrimento de saúde e educação, e termina contra a PEC 37, que torna a investigação criminal um monopólio exclusivo da polícia civil, o que na prática tira o poder de investigação do Ministério Público, e joga no lixo os atos investigatórios da Receita Federal, do TCU, da CGU, do INSS, da Secretaria de Inspeção do Trabalho, do COAF, do CADE e da SDE, da ANP, do Banco Central, da Receita Federal, do IBAMA, e da Defensoria Pública. Claro, todas essas bandeiras são boas bandeiras e merecem, cada uma, uma bela e pacífica passeata. Mas e depois? Não tenho a menor idéia.
Uma das coisas que chama a atenção é que no início da semana passada as autoridades condenavam ou ignoravam os protestos. Hoje, na hora dos telejornais as autoridades disseram que os protestos eram legítimos, até mesmo Ré-não Calheiros.
Mas em pouco tempo, a coisa degringolou. Às dez e meia leio a notícia de que 200 manifestantes invadiram a chapelaria do Congresso Nacional e estapearam algumas autoridades, entre elas o diretor-geral da Câmara. Às onze, a Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro e a sede do governo estadual de São Paulo também haviam sido cercadas. À meia-noite, pelo menos em Brasília, a manifestação tinha acabado e não se via mais nenhum manifestante em frente ao Congresso. Será que foi fogo de palha?
domingo, 16 de junho de 2013
Os suspeitos de sempre
The Walkmen - We Can't Be Beat
Vi as imagens diversas vezes na manhã deste domingo. Foram divulgadas pela TV, momentos antes da festa de abertura da Copa das Confederações. O vídeo está na internet, não dura mais que um minuto e meio. O manifestante corre em ziguezague pelo gramado e um policial surge do lado oposto, montado numa moto. O manifestante tenta fugir da moto, mas é atropelado pelo policial. Ele se levanta e o policial prossegue em seu encalço até jogar a moto outra vez sobre o manifestante. Ele desaba no chão e é cercado por vários policiais e imobilizado. Em seguida as imagens mostram outro manifestante sendo perseguido por vários policiais. A câmera acompanha a nova fuga. O manifestante diminui a velocidade ao se aproximar de torcedores e é contido por vários policiais e imobilizado. Um simpatizante tenta chamar a atenção dos policiais, estourando o que parece uma garrafa dágua. Uma penca de policiais também o cerca, e uma nova moto surge para derrubá-lo. As duas pessoas são levadas para o camburão. Uma dupla agita os braços em protesto ao lado do camburão, mas recua. Pedestres perambulam pela cena. Uma mulher parece confusa andando por ali, de mão dada com uma criança.
Acho um tremendo programa de índio sair de casa para protestar, mas toda e qualquer pessoa tem o direito de se manifestar de forma livre e civilizada. Excessos e abusos devem ser investigados e punidos. Os manifestantes que foram detidos devem passar pelo devido processo legal e, caso seja provada sua culpa, sofrerem as penalidades cabíveis. Do mesmo modo, os policiais que cometeram excessos, devem passar pelo devido processo legal e, caso seja provada sua culpa, sofrer as penalidades cabíveis. Liberdade não é passar a mão na cabeça nem de manifestante maluco e nem muito menos de policial aloprado. Atropelamento de manifestante não é procedimento policial adequado. Nem mesmo Dirty Harry utilizava essa abordagem junto a criminosos condenados. O que chama a atenção é que o episódio foi filmado e existem provas concretas para a abertura de processo judicial contra indivíduos da corporação da PM. As pessoas atropeladas têm esse direito. Se levado adiante, o processo poderá resultar em pagamento de indenização do Estado aos manifestantes. É assim que funciona o Estado de Direito. Existem etapas e processos a serem percorridos. É chato e pode ser moroso. As tiranias é que têm solução imediata para tudo. Entretanto, caso os processos ocorram, eu, cidadão, terei sido triplamente vilipendiado: uma vez pela administração pública que resolveu gastar uma fortuna num estádio que custou 1,8 bilhão de reais e que neste ano não será usado em nenhuma outra competição; uma segunda vez pelo despreparo de uma polícia que quase sempre abusa da força e violência em qualquer situação, seja ela um ajuntamento de manés ou uma revolta na prisão; e por último, mas não menos importante, pelo pagamento de indenizações que não deveriam ser necessárias se os antecedentes mencionados não tivessem sido cometidos.
Quem se arrisca a sair de casa para ser atingido por uma bala de borracha? Quem se arrisca a sair de casa para cheirar gás lacrimogêneo? A levar spray de pimenta nos olhos? São as pessoas que não têm nada a perder ou as pessoas que acham que já basta, não podem perder mais nada? Talvez sejam as mesmas pessoas. Seres humanos. Ninguém pode ser atropelado por um policial por gritar que o dinheiro dos impostos deveria ser gasto em saúde e educação. E o extraordinário é que isso não nos escandalize. Onde estão aquelas figuras sempre prontas a defender os direitos humanos? Onde estão as tradicionais entidades que sempre posaram de defensoras do cidadão contra os abusos e excessos das autoridades? Onde estão os representantes eleitos?
sábado, 15 de junho de 2013
Ônibus errado
Larry David - Bald with Waitress
_ De graça, até ônibus errado - dizia o meu amigo Mauro, nos meus tempos de estudante do segundo grau.
Ônibus de graça parece ter sido o pretexto para manifestações enormes em São Paulo no decorrer da última semana. Mas não acredito nisso. Alguém tem sempre que pagar a conta, nada sai de graça, aprendemos desde cedo. Os manifestantes também sabem. A verdade, em geral, é mais simples. É a disputa política. A conversa fiada da juventude que sonha, do revival da insatisfação social nos moldes de 68, é tudo balela. Prefiro acreditar que as pessoas começaram a se dar conta de que muito dinheiro já foi gasto no que é acessório e não no que é importante. Que finalmente as pessoas perceberam que os investimentos foram feitos em coisas erradas e na hora errada, que mais uma janela de oportunidades se fechou, sem que conseguíssemos sair da periferia do mundo. Que os governos gastaram os tubos em estádios, que as obras de mobilidade urbana ficaram para depois ou foram esquecidas e que o legado dos mega-eventos esportivos é uma esperança apenas entre muito crédulos. Mas não é possível ser muito otimista. A maioria ainda se ufana ou não consegue ligar lé-com-cré, como querem fazer crer os resultados das pesquisas de opinião.
Antes do jogo da seleção brasileira neste sábado, algumas dezenas de pessoas foram reprimidas com violência, com o uso de tropas de choque, cavalaria e bombas de gás lacrimogênio. Helicópteros sobrevoavam a área onde os manifestantes estavam concentrados. A fumaça das bombas chegou a incomodar os torcedores que já haviam entrado no Mané Garrincha. Locutores recomendaram aos presentes que evitassem esfregar os olhos. Ao ver algumas fotos e imagens do ocorrido na internet fiquei pensando se um dia terei coragem de levar meus filhos a um jogo de futebol num estádio, sem me preocupar com segurança, bala perdida, spray de pimenta e bombas de gás. Mas a cada ano adio o projeto, e não apenas pelos preços proibitivos já praticados, mas simplesmente pelo receio de ser ferido ou simplesmente desrespeitado. Não deveria ser assim no país do futebol. Mas é.
sexta-feira, 14 de junho de 2013
Tecnicalidades
Curb your enthusiasm - Naturally a magician
Meu filho é alérgico a alguma coisa que o deixa com os olhos coçando e o nariz entupido e escorrendo. Já fizemos uma coleção de consultas médicas, com suspensão de produtos variados, do leite à lã. A medicina progrediu uma barbaridade, mas no que se refere a alergia, os mistérios ainda são muitos. O lado bom é que ele não apresentou sintomas muito graves e que acredita-se que as alergias dele desaparecerão com o tempo, naturalmente. De qualquer forma, estamos sempre procurando o que provoca reações alérgicas no meu filho. Exercemos um controle rigoroso contra poeira, mofo, pó, e produtos que tenham algum aromatizante. Nos últimos tempos, acho que ele acabou desenvolvendo uma alergia aos pelos do Rafa, o cachorrinho shi-tsu. Rafa é preguiçoso e passa horas deitado no sofá, onde as crianças também gostam de passar horas vendo TV, que fica na parte da casa que é mais escura e úmida. Mas os sintomas dos últimos dias podem ter sido desencadeados pela piora do tempo, os dias estão mais frios, especialmente as madrugadas, e meu filho tem o sono agitado, vive espalhando os cobertores pelo chão. Também suspeitamos que o fato de andar quase sempre descalço e com pouco agasalho também contribua para o nariz entupido. Repito então, as mesmas recomendações que minha mãe me fazia.
_Não fique com os pés no chão frio. Fique calçado! - eu digo, várias vezes a intervalos regulares de meia hora.
_Sim, está certo - ele responde. Com dez anos de idade, ele sabe que a melhor maneira de se livrar de um incômodo é concordar rapidamente com a pessoa que está incomodando sem fazer nada do que ela esteja dizendo. É batata. De longe posso ouví-lo fungando e chupando o nariz.
_Você está calçado? - eu pergunto, ainda de longe.
_Não.
_Se eu chegar aí e você estiver descalço, o video-game estará suspenso por um mês. Tem certeza de que está calçado?
_Só um instante, pai.
E como eu não quero deixá-lo de castigo, só vou vê-lo depois que já dei tempo mais do que suficiente para que ele encontre um par de chinelos.
_Mas você continua descalço - eu digo, logo que o vejo.
_Não, pai, estou de meias. Tecnicamente não estou com os pés no chão frio.
_Tecnicamente?
_É, pai. Existe uma camada de tecido entre os meus pés e o chão. Tecnicamente não estou descalço.
_Mas está com os pés gelados e o nariz escorrendo.
_Não, pai, o meu nariz não está escorrendo, está só entupido. É diferente.
_Tem razão, é diferente.
_Então eu não estou um mês de castigo, certo?
_Não, tecnicamente, não. Só está com acesso proibido às telas de vídeo durante quatro semanas.
Depois fiquei pensando que ele pode ser alérgico a telas de vídeo.

