segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Polias blindadas para o cortador de grama



Charlie Chaplin, o gênio.


Quase consegui terminar de pintar a cerca da casa na manhã de hoje. Mas começou a chover e tive que parar tudo. Eu já havia conseguido pintar metade da cerca até meados de setembro, mas uma série de coisas urgentes provocou a postergação do trabalho. Hoje resolvi encarar. Mas acabou não dando tempo. O principal motivo foi a chuva, mas também tive que sair para encontrar uma peça da máquina de cortar grama.

Descobri que a substituição de peças de máquinas é uma das atividades mais corriqueiras de quem mora em uma casa. Na minha época de apartamento, era raro ter que sair para consertar uma máquina. Em casa, rara é a semana que não quebra alguma coisa. Torneira, máquina de cortar grama, roçadeira, lavadora, geladeira, motor do portão, filtro da piscina, máquina de lavar louça, máquina de lavar roupa, bomba da caixa dágua, bomba do filtro da piscina, filtro da piscina, foram algumas das coisas que tive que trocar ou mandar trocar recentemente.

Meu gramado não é grande, agora, por causa das chuvas, uma vez por semana o jardineiro faz a manutenção com uma cortadora elétrica, daquelas de empurrar, e uma roçadeira a gasolina. Descobri que não vale a pena ter uma roçadeira a gasolina, é preciso muito cuidado no uso. Não basta instruir o jardineiro. Se a sua máquina quebrar ele vai dar de ombros e deixar o serviço para a semana seguinte. O melhor é ter uma roçadeira elétrica média, de 700w. É leve, fácil de controlar, permite acertos mais acurados sem problemas. A máquina a gasolina é mais potente e o jardineiro imagina que pode podar qualquer coisa com aquilo. Além disso, o recipiente de combustível deve ser totalmente gasto, não se pode deixar restos. É um cuidado simples, mas se você não vigiar o jardineiro, ele vai se esquecer desse detalhe e na próxima vez, sua máquina estará mais próxima da pane.

Os equipamentos também não são muito robustos. Mesmo as máquinas que ostentam PROFISSIONAL em letras maiúsculas, deixam muito a desejar em qualidade. A substituição de peças custa um absurdo, em geral não fica menos de um quarto do valor da máquina. Se houver danos no motor elétrico da coisa, então não fica por menos da metade. Mas tudo fica para a próxima, porque estou em Contenção de Despesas Nível Cinco, não comprarei máquinas novas tão cedo.

Então saí para ver se arrumava um rolamento para a polia da correia da cortadora de grama. Na loja de rolamentos o sujeito me explicou que a polia que eu levei é blindada e que a mera substituição do rolamento seria um paliativo de pouca duração. As polias blindadas blá, blá, blá e me indicou uma outra oficina de máquinas, um quarteirão adiante. Fui. Entrei na loja, o outro sujeito me repetiu a aula sobre as polias blindadas. Recomendou outra loja. Agradeci. Fui na outra loja, a terceira. Lá chegando, com a minha polia na mão, suja, as bilhas saindo, fui olhado com comiseração. Só não me chamaram de coitado.

_Ih, aqui não tem polia blindada desse tamanho. De que máquina é essa? É do cortador de grama, não é? Já te explicaram que não vale a pena trocar o rolamento? Mas se você quiser, a gente troca o rolamento. Vai querer? Não faça isso. Não vale a pena. Mas se você quiser, a gente troca. Quer?

_Não, muito obrigado. Não quero, estou de saída, tchau - eu disse.

Fui na outra loja que o sujeito da segunda loja também havia indicado. As oficinas do lugar são todas bem parecidas. As lojas possuem balcões simples, com prateleiras onde estão as peças novas. Na parte de trás das prateleiras funcionam as oficinas. Em todas as que entrei, o chão é quase preto de graxa, óleo, gasolina e sujeira. Sujeitos de macacão falam de futebol sem parar. Os mecânicos procuram identificar a peça na sua mão com uma única olhadela. Depois do diagnóstico, sempre feito em voz alta, eles voltam ao que estavam falando.

Nessa não foi diferente. O mecânico identificou a polia blindada e recitou a ladainha do manual.

_Olha, essa é uma peça blindada, não vale a pena trocar o rolamento...

_Sei, sei, vocês têm uma nova? - eu disse.

_Xii, vou verificar, mas acho que não tem. Zé, vem ver se tem dessa polia, faz favor - disse o sujeito.

E veio o Zé. Era corcunda, esse Zé. Magro, magro, e corcunda, corcunda. Não sei porque sempre associei corcunda a excesso de peso e cabeça grande. O Zé era magro, baixo e não tinha a cabeça grande. Ele também confirmou que não tinha daquela polia. Devo ter feito cara de desânimo nessa hora.

_Mas eu acho que devo ter uma usada - disse o Zé.

_Legal, pode verificar, por favor? - eu disse.

_Num instante.

Esperei dez minutos e o Zé voltou com uma polia igual à que eu tinha, mas com rolamento perfeito.

Ele não me cobrou nada.

Depois, quando já havia voltado e estava novamente pintando a cerca, eu fiquei pensando naquele orgulho dos mecânicos. No fundo, todos nós temos a mesma mania.


PS: O BLOG ULTRAPASSOU HOJE A MARCA DOS 100 MIL PAGEVIEWS. OBRIGADO A TODOS.

domingo, 30 de outubro de 2011

Artigo do Professor Marco Antônio Villa

República em frangalhos
Postado por Villa em 30/10/2011
Saiu hoje no Estadão:


República destroçada
30 de outubro de 2011 | 3h 06


Marco Antonio Villa - O Estado de S.Paulo
Em 1899 um velho militante, desiludido com os rumos do regime, escreveu que a República não tinha sido proclamada naquele mesmo ano, mas somente anunciada. Dez anos depois continuava aguardando a materialização do seu sonho. Era um otimista. Mais de cem anos depois, o que temos é uma República em frangalhos, destroçada.

Constituições, códigos, leis, decretos, um emaranhado legal caótico. Mas nada consegue regular o bom funcionamento da democracia brasileira. Ética, moralidade, competência, eficiência, compromisso público simplesmente desapareceram. Temos um amontoado de políticos vorazes, saqueadores do erário. A impunidade acabou transformando alguns deles em referências morais, por mais estranho que pareça. Um conhecido político, símbolo da corrupção, do roubo de dinheiro público, do desvio de milhões e milhões de reais, chegou a comemorar recentemente, com muita pompa, o seu aniversário cercado pelas mais altas autoridades da República.

Vivemos uma época do vale-tudo. Desapareceram os homens públicos. Foram substituídos pelos políticos profissionais. Todos querem enriquecer a qualquer preço. E rapidamente. Não importam os meios. Garantidos pela impunidade, sabem que se forem apanhados têm sempre uma banca de advogados, regiamente pagos, para livrá-los de alguma condenação.

São anos marcados pela hipocrisia. Não há mais ideologia. Longe disso. A disputa política é pelo poder, que tudo pode e no qual nada é proibido. Pois os poderosos exercem o controle do Estado - controle no sentido mais amplo e autocrático possível. Feio não é violar a lei, mas perder uma eleição, estar distante do governo.

O Brasil de hoje é uma sociedade invertebrada. Amorfa, passiva, sem capacidade de reação, por mínima que seja. Não há mais distinção. O panorama político foi ficando cinzento, dificultando identificar as diferenças. Partidos, ações administrativas, programas partidários são meras fantasias, sem significados e facilmente substituíveis. O prazo de validade de uma aliança política, de um projeto de governo, é sempre muito curto. O aliado de hoje é facilmente transformado no adversário de amanhã, tudo porque o que os unia era meramente o espólio do poder.

Neste universo sombrio, somente os áulicos - e são tantos - é que podem estar satisfeitos. São os modernos bobos da corte. Devem sempre alegrar e divertir os poderosos, ser servis, educados e gentis. E não é de bom tom dizer que o rei está nu. Sobrevivem sempre elogiando e encontrando qualidades onde só há o vazio.

Mas a realidade acaba se impondo. Nenhum dos três Poderes consegue funcionar com um mínimo de eficiência. E republicanismo. Todos estão marcados pelo filhotismo, pela corrupção e incompetência. E nas três esferas: municipal, estadual e federal. O País conseguiu desmoralizar até novidades como as formas alternativas de trabalho social, as organizações não governamentais (ONGs). E mais: os Tribunais de Contas, que deveriam vigiar a aplicação do dinheiro público, são instrumentos de corrupção. E não faltam exemplos nos Estados, até mesmo nos mais importantes. A lista dos desmazelos é enorme e faltariam linhas e mais linhas para descrevê-los.

A política nacional tem a seriedade das chanchadas da Atlântida. Com a diferença de que ninguém tem o talento de um Oscarito ou de um Grande Otelo. Os nossos políticos, em sua maioria, são canastrões, representam mal, muito mal, o papel de estadistas. Seriam, no máximo, meros figurantes em Nem Sansão nem Dalila. Grande parte deles não tem ideias próprias. Porém se acham em alta conta.

Um deles anunciou, com muita antecedência, que faria um importante pronunciamento no Senado. Seria o seu primeiro discurso. Pelo apresentado, é bom que seja o último. Deu a entender que era uma espécie de Winston Churchill das montanhas. Não era, nunca foi. Estava mais para ator de comédia pastelão. Agora prometeu ficar em silêncio. Fez bem, é mais prudente. Como diziam os antigos, quem não tem nada a dizer deve ficar calado.

Resta rir. Quem acompanha pela televisão as sessões do Congresso Nacional, do Supremo Tribunal Federal (STF) e as entrevistas dos membros do Poder Executivo sabe o que estou dizendo. O quadro é desolador. Alguns mal sabem falar. É difícil - muito difícil mesmo, sem exagero - entender do que estão tratando. Em certos momentos parecem fazer parte de alguma sociedade secreta, pois nós - pobres cidadãos - temos dificuldade de compreender algumas decisões. Mas não se esquecem do ritualismo. Se não há seriedade no trato dos assuntos públicos, eles tentam manter as aparências, mesmo que nada republicanas. O STF tem funcionários somente para colocar as capas nos ministros (são chamados de "capinhas") e outros para puxar a cadeira, nas sessões públicas, quando alguma excelência tem de se sentar para trabalhar.

Vivemos numa República bufa. A constatação não é feita com satisfação, muito pelo contrário. Basta ler o Estadão todo santo dia. As notícias são desesperadoras. A falta de compostura virou grife. Com o perdão da expressão, mas parece que quanto mais canalha, melhor. Os corruptos já não ficam envergonhados. Buscam até justificativa histórica para privilégios. O leitor deve se lembrar do símbolo maior da oligarquia nacional - e que exerce o domínio absoluto do seu Estado, uma verdadeira capitania familiar - proclamando aos quatro ventos seu "direito" de se deslocar em veículos aéreos mesmo em atividade privada.

Certa vez, Gregório de Matos Guerra iniciou um poema com o conhecido "Triste Bahia". Bem, como ninguém lê mais o Boca do Inferno, posso escrever (como se fosse meu): triste Brasil. Pouco depois, o grande poeta baiano continuou: "Pobre te vejo a ti". É a melhor síntese do nosso país.

HISTORIADOR, É PROFESSOR DA UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO CARLOS(UFSCAR)

sábado, 29 de outubro de 2011

O mal vence várias vezes

Em frente ao Parque da Água Mineral, em Brasília, inventaram um bairro novo chamado Setor Noroeste. Era uma região coberta de cerrado. Hoje é uma área de várias construções aceleradas, com vários esqueletos levantados. Quando foi lançado, o metro quadrado construído no local chegou a mais de dez mil reais. Houve um imbroglio legal, a criação do bairro foi questionada por ferir o Plano de Desenvolvimento e Ordenamento Territorial do DF. Com isso o preço baixou um pouco. Hoje está por volta de oito mil reais, o que é super-exorbitante.

Passei hoje em frente ao Setor Noroeste. As vias de ligação estão sendo asfaltadas, parece que o embargo judicial para a continuidade da obras foi suspenso. Ou então está sendo simplesmente desrespeitado. Isso não é raro por essas bandas. Mas as notícias sobre o novo setor são escassas, não sei o que acontece, procuro nos jornais e nada.

As ruas do Distrito Federal estão esburacadas e muito remendadas.

A Terracap, estatal que cuida da comercialização das terras no DF, anunciou que vai tocar as obras do estádio de 700 milhões de reais para a Copa sem financiamento do BNDES. Empréstimos do BNDES devem, obrigatoriamente, passar por auditoria externa de tempos em tempos. Se vai utilizar recursos próprios, isso significa que não haverá auditoria externa sobre a utilização dos recursos.

O mal vence várias vezes por aqui. VEnce principalmente quando a gente pensa que perdeu.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Manga Rosa, o Teórico da Conspiração

Quase todas as turmas possuem um sujeito dedicado a elaborar uma boa teoria da conspiração. A minha não é diferente. Nós o chamamos de Manga Rosa, ou simplesmente Manga. Ele está sempre antenado com os acontecimentos. Lê uns dez jornais por dia, fora a Internet. Manga nunca fez um comentário nos blogs e sites dos conhecidos e desconhecidos. Como qualquer teórico da conspiração, Manga é paranóico assumido e convicto, além de supersticioso. Somos amigos há muito tempo e por isso não poderia jamais dar qualquer pista da aparência do Manga. Isso, para ele, seria o mesmo que entregar o seu questionário do IBGE. Aliás, o Manga não participou do último censo.

Eu respeito o Manga. Ele possui teorias do balacobaco, mas eu respeito. As teorias versam sobre uma infinidade de assuntos. Uma delas diz que existem programas de transferência de recursos públicos para ONGs que ministram cursos de qualificação em turismo em lugares que não recebem visitantes. Para Manga, está em curso a operação anti-sabugosa, que consiste em autosabotar os exames de avaliação do ensino. Funciona assim: as provas de avaliação são vazadas para alunos escolhidos a dedo. Os piores entre os piores são transformados em dirigentes do MEC. E se forem muito, muito ruins, podem ser indicados para as eleições em São Paulo.

Em outra teoria mirabolante, Manga dizia que o governo estava pagando fortunas para que ONGs amigas do alheio distribuíssem lanche estragado para criancinhas indefesas. Mas antes, as crianças tinham que fazer polichinelos e flexões. Ele também foi o primeiro a dizer que tecnicamente o mensalão não existiu, uma vez que os pagamentos eram semanais e até diários.

Mas a principal teoria do Manga é que para cada um dos 389 ministérios, existe uma operação específica, onde o que importa é fugir do lugar comum, para um paraíso fiscal, sem esquecer sacolas de dinheiro em quartos de hotel, por favor.

Outro dia encontrei o Manga. Ou melhor, o Manga me encontrou. De outro modo, a paranóia dele entra em ação, ele finge que não é o Manga, é super-chato. Eu o vi no shopping, fui até ele e o cara simplesmente passou direto pela minha mão estendida. Dias depois ele me ligou de um lugar barulhento, devia ser telefone público, e pediu desculpas, mas tinha que ter certeza de que o encontro não havia sido planejado por mim, que ele precisava tomar cuidado, com certeza estava sendo seguido, o telefone estava grampeado, aquelas coisas. Eu disse que tudo bem, sem problemas e ele desligou. Isso foi há mais de um mês, eu até já havia esquecido do Manga, cada louco com sua mania, e ontem ele apareceu. O Manga veio me visitar.

Ele estava no portão, não tocou o interfone. Eu agora tenho interfone e estou muito orgulhoso dele, tem até câmera de vídeo. Foi um presente, é claro, estou em contenção de despesas nível cinco. Para você ter uma idéia do que é isso, basta dizer que no nível três eu só gasto com pão e água. No nível quatro eu respiro fundo. Pois o Manga também é super-econômico.

_Manga, que surpresa boa, vamos entrar? - eu convidei.

_Tudo bem, tudo bem, vamos lá para o quintal - ele disse, e foi entrando rapidinho, subiu as escadas correndo e foi para o jardim dos fundos da casa, debaixo do pé de jabuticaba. Carreguei duas cadeiras de plástico até lá e sentamos.

_Aceita uma água? - eu disse.

_Tem outra coisa? - ele disse.

_Bom, tem água gelada - eu disse.

_Aceito - ele disse.

Então eu levantei e fui buscar uma jarra de água gelada. Olhei para trás e vi o Manga examinando o pé de jabuticaba, atentamente. Será que procurava microfones? Quando voltei com a água ele já estava mais calmo. Só queria um ouvido para escutar suas histórias, quase todas impublicáveis, é claro. Segredos fantásticos e sacações incríveis que só aquele teórico da conspiração poderia ter sacado.

Reforma ministerial

Sneaky Sound System - Where Do I Begin



Sneaky Sound System - Where Do I Begin

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Mais do mesmo todos os dias

Qualquer pessoa que saiba fazer uma conta simples sabe que a Copa do Mundo custará um preço alto demais para todos nós, nossos filhos e nossos netos. Mas nenhum representante do povo, nenhuma entidade da sociedade civil(onde andam todas elas?) veio a público dizer em voz alta e clara que, do jeito que foi conduzido, esse é um projeto ruim, que deveríamos ter o bom senso de não apoiar. Teremos vários elefantes brancos cercados de favelas penduradas em encostas deslizantes, sem esgoto, com estradas, escolas e hospitais em frangalhos. É tão idiota quanto construir uma ponte de um bilhão de dólares no meio da selva. Mas nenhum político se rende ao evidente, porque acha que vai desagradar ao povo. Só irá desagradar ao povo se não conseguir mostrar o óbvio, que o dinheiro a ser gasto em estádios e aeroportos é o mesmo que não será aplicado em escolas, hospitais, segurança, estradas e coisas que estamos precisando.

Sei que essa é uma tarefa ingrata, porque a maioria já se acostumou a conviver com a falta de escolas e ensino decente, com a penúria e o péssimo atendimento nos hospitais, com a insegurança e a insalubridade das ruas das cidades, com a péssima situação das estradas. Das coisas que estamos precisando, então, ninguém nem se lembra. Isso é Brasil, todo mundo fala, a gente escuta a toda hora. A verdade é que a sétima ou oitava economia do mundo também é a número um em taxa de juros, impostos, barreiras burocráticas e péssimos representantes. É lugar comum, ninguém se impacienta mais com nada, é sempre aquele ôô, vida de gado. E nada melhora, só piora.

E piora mesmo, não tem nem comparação com o tempo em que você podia falar mal do que não funcionava em voz alta, em crítica sincera e sentida, sem ter medo de patrulha ou de malucos fanáticos e vingativos, que são da mesma corja. Sejamos sinceros, só não está na mesma, ou pior, quem aderiu ao coro dos contentes.(E você, o desafinado que só finge que aderiu, não se sente um bosta?) Agora, voltamos ao período dos cochichos, mesmo nas festas com os amigos, onde as panelinhas dos alinhados ficam separadas dos não-alinhados.

Eu fico de fora das panelinhas, como sempre. Sempre foi uma questão de personalidade. Mas hoje em dia, também é de caráter. Quem anda na linha é trem. Quem segue palavra de ordem, sem pensar, tem parafuso a menos. Quem apóia corrupto, quem torce para corrupto dar certo, é corrupto, é corrupto, é corrupto. Não tem meio termo.

Ou tem? Acho que não, não mesmo. Quem se preocupa com a ética quando mentirosos e corruptos contumazes são vistos todos os dias, livres, impunes e faceiros, dando conselhos velhacos a aprendizes de vilão? Será que só eu estou levantando a mão?

Quando estava na universidade eu sonhava com um país mais justo, com menos desigualdades e mais oportunidades. Mas hoje as distâncias começam a ganhar contornos indianos, ficam abissais. O salário de um dia de um parlamentar equivale ao que dois ou mais trabalhadores ganham em um mês. Desde, é claro, que não se coloque as mordomias na conta. As diferenças estão se aprofundando. Estamos criando nossas castas de uma maneira perversa, tolhendo oportunidades com regras cada vez mais absurdas, diminuindo a qualidade de tudo graças ao olhar complacente dos poderosos para a incompetência dos apaniguados. Só se salvarão aqueles que tiverem o próprio helicóptero. O sonho da maioria é trabalhar para o governo, executivo, legislativo ou judiciário. É lá que estão os bons salários. É lá que estão as férias bem remuneradas. É lá que estão os bons planos de saúde e a aposentadoria tranquila. Não lhes tiro a razão, cada um deve fazer o que lhe apetece. Seguro morreu de velho. A velhacaria encontra refúgio em qualquer ditado popular com a maior facilidade. E eu? Eu ando descrente, descrente.

Nos tempos de estudante, todos nós éramos contra as obras faraônicas, contra o desperdício e o mau uso dos recursos públicos. A Transamazõnica era o grande exemplo do que não deveria ser feito. Uma estrada perdida no meio do mato, ligando nada a canto nenhum. E o que são 12 estádios de futebol, cada um custando um bilhão, em cidades de pessoas amontoadas, violentas, doentes, ignorantes e tristes? Só depois de passada a euforia da Copa é que os questionamentos virão? E se a poderosa seleção do "Errar é o Mano" fracassar no início?

Com o quê sonham os jovens de hoje? Com entrada franca em ônibus e meia entrada para o cinema? Com um estádio terminado a tempo para a Copa do Mundo? Duvido. Acho que querem o mesmo que eu e você já quisemos um dia: paz, liberdade, justiça e prosperidade. Não acredito que todo mundo nasça bonzinho ou com bons propósitos. Nascemos sem nada, ou só com muito pouco, pelados, chorando de fome e frio. A duras penas, aprendemos o que é bom e o que é errado. Alguns não aprendem nunca. Outros mais ou menos. E sempre existirão os cínicos com a resposta adequada para o momento na ponta da língua.

Liberdade é poder passar a mão na bunda do guarda, dizia a camiseta do Pasquim, que eu comprei por reembolso postal. Nunca passei a mão na bunda de guarda nenhum, e nem quero, a frase vale pelo espírito libertário. O chato do politicamente correto é ter que explicar o que antes era óbvia liberdade de expressão. Era evidente exercício de liberdade, uma provocaçãozinha estampada no peito. Mesmo assim não tive coragem de usar, bunda era uma palavra pouco usada, minha mãe achava ofensiva, minhas irmãs nem se fala. Deixei a camiseta anos dentro da caixa de papelão. Quando abri, as traças tinham feito furinhos, estava arruinada.

Quando vejo os protestos nas ruas, as pessoas indignadas contra a corrupção, jovens, velhos, crianças, adolescentes, gente feia e gente linda, seres humanos, eu digo que na próxima eu vou, na próxima estarei lá, sem falta. Minha mãe, minhas irmãs, meu irmão, meu pai, minha mulher, meus amigos do peito, todo mundo acha que a corrupção está demais, ninguém aguenta. Mas eu acabo adiando, mais uma vez. Ao mesmo tempo eu fico pensando que talvez eu esteja de novo guardando a camiseta dentro da caixa de papelão. Só que agora, nem desculpa eu tenho.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Viagem espacial



Primeiro nós respiramos com força, puxando o ar pelo nariz e soltando pela boca. Contamos dez respiradas bem profundas. Estamos de olhos fechados, é claro, porque já passou da hora de dormir. Hoje jogamos Monopólio, que é ótimo para ensinar matemática. Mas agora eu e a minha filha estamos deitados. Meu filho e a minha mulher estão no quarto ao lado. Cada um tem sua estratégia para fazer as crianças dormir. A minha começa com respiração profunda e barulhos de filmes espaciais.

_Zóoimmmmmmm, tupacodududududududutupacoduudududududu - eu digo.

_O que é isso, paiê?

_São os computadores do foguete. Computador de foguete sempre faz o maior barulho e pisca um zilhão relógios e de luzinhas, é o maior barato. Agora nós fazemos contagem regressiva a partir de trinta. Depois a nave espacial decola rumo ao espaço sideral.

_Mas paiê, não era foguete?

_É, mas basta apertar o botão azul que ele se transforma em nave espacial altamente cibernética, que é muito mais rápida, tem efeito warp e tudo.

_E nós vamos para onde?

_Depende da concentração. A nave é dirigida pela força do pensamento. Temos que pensar num planeta com bastante força, lembrando de todas as coisas que existem por lá. Temos que pensar nas plantas, nos animais, nos oceanos, nas praias...

_Barbies.

_O quê?

_Temos que pensar nas Barbies, paiê. Nós vamos para o planeta das Barbies.

_Claro, o planeta das Barbies - eu digo. Caramba, porque eu não pensei nisso antes.

_Lá tem a Barbie Sereia, a Barbie do Castelo Diamante, a Barbie Mosqueteira...

_É, tem todas as Barbies e também tem a Máquina de Virar Barbie. Toda menina de outro planeta que entra na Máquina é transformada numa Barbie. Ela pode entrar com o cabelo pretinho, que não tem importância, fica loira de cabelão armado e com os olhões arregalados, as pernas fininhas, fininhas, as costelas aparecendo, ô dó. E tem que pensar muito antes de virar Barbie porque depois de passar pela máquina não há como voltar a ser menina de novo. E...

_Pode parar, paiê, pode parar que eu vou ter pesadelo.

_Desculpa, filha, não queria te assustar.

_Tem que contar outra história, paiê, senão eu vou sonhar com essa máquina horrível.

_Não precisa, filha, hoje é terça-feira, e todo mundo sabe que a máquina só funciona na quarta-feira, tem fila grande, o ingresso é caro, sabe como é. Dá tempo de mudar de idéia e desvirar Barbie durante a transformação.

_Ainda bem, paiê.

_E se a gente fosse para o Planeta da Polly?

_Paiê.

_Tudo bem, viagem espacial demora muito tempo. E se a gente fizesse só a contagem regressiva? Hein?

_Paiêê. Pôxa.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Não há pediatra



Logo na entrada do hospital, que é privado, um pequeno cartaz impresso em folha A4 dá o recado. Não há pediatra. O cartaz está ali há tanto tempo que poderiam ter providenciado uma moldura. Eu estou com o meu pai, não estou com as crianças, ainda bem. Ele está com uma sinusite braba, meu pai, e já veio ao hospital duas vezes. O médico receitou um antibiótico, um descongestionante e repouso. Ele cumpriu à risca as instruções, como sempre faz, e melhorou um bocado. Mas continua com uma tosse seca. O convênio de saúde do meu pai é excelente, um dos melhores, custa uma fortuna para ele, mas isso não alivia o tempo de espera. Esperar é a regra número um da saúde, seja pública ou privada. É muito triste isso. E não há pediatra. Enquanto esperamos, desenho pássaros e lembro das coisas.

Quando eu era um menino, eu e a minha mãe íamos muito a um hospital público, que hoje é o hospital escola da Universidade. Esperávamos horas. As consultas eram obtidas à custa de madrugadas da minha mãe em filas. Os períodos de marcação de consultas eram curtos e conhecidos apenas pelas mães e donas de casa. Aos cochichos com outras mães, lembro da minha conseguir saber quando a pediatria estaria atendendo, quando seria a vez do ginecologista, etc. Quem tinha doença grave na família, coitado, penava um bocado. A coisa ainda não mudou de figura, eu acho. Não há pediatra, informa o cartaz.

Acho que piorou e muito, mas as propagandas do governo atual e do anterior dizem que nunca tivemos um sistema de saúde tão bom quanto o de agora. Eu acredito na propaganda, ou pelo menos tento, mas não existem pediatras que atendem por convênio na rede privada. Simples assim. Não há pediatra. E no sistema público, não existem mais hospitais com alas pediátricas. Crianças só são atendidas na emergência. Com sorte.

Numa revista, enquanto esperamos o resultado de um raio-x, vejo numa revista as fotos da presidente com um bebê e fico preocupado. Caramba! E se a criança adoecer, Deus a proteja, e não conseguir ser atendida na emergência? Terá que ir para São Paulo? Terá que ir para o exterior? Ai, que tristeza, ser avó de uma criança em um país em que não há pediatra, eu penso. E ao mesmo tempo rezo, porque tenho dois filhos e a coisa mais triste do mundo é esperar na emergência de um hospital em que existe um cartaz de "não há pediatra". Mas estou generalizando, eu sei. Talvez isso seja um problema só daqui, da capital brasileira e campeã da renda per capita nacional.

E por falar em propaganda, acho que tenho memória seletiva porque só me lembro de ver propaganda de lançamento de programas do governo. Na hora de lançar é uma beleza. A toda hora lançam um novo, é fantástico, mas não me lembro de ver resultado de programa nenhum. Não. Não há pediatra. Minto. Já vi. E era exatamente de um programa de saúde. Lembro de ter assistido à propaganda e perguntado a mim mesmo de que país estavam falando. Acho que até coincidiu com uma greve de médicos.

Eles cruzam os braços por melhores salários e condições de trabalho. Eu concordo. Acho que têm razão. Por falta de condições, muitas vezes os médicos são xingados e até agredidos por pacientes em muitos hospitais. Eu não acho que os pacientes têm razão, mas é difícil culpar alguém que perde a cabeça quando vê um filho ou a mãe agonizar sem atendimento médico. Aqui no DF, a maior parte dos médicos aprovados em concurso público não assumem os cargos por causa das péssimas condições de trabalho. Mas acho que isso só acontece aqui, na capital brasileira, em outros lugares deve ser bem melhor, é claro. Alguns médicos valentes e altruístas resistem e continuam atendendo nesses hospitais. Para quase todos os que ficam, no entanto, é preciso fechar os olhos para a carga horária não cumprida. É que os médicos, altruístas ou não, precisam ter vários empregos por aqui, tudo está inflacionado por causa dos salários diretos e indiretos dos parlamentares. E mesmo com toda inflação, não há pediatra.

O que me consola é que teremos um estádio de setecentos milhões de reais na capital brasileira. Talvez menos. 650 milhões. Naturalmente temos dinheiro de sobra, porque vamos torrar essa grana para ter o privilégio de sediar umas duas ou três partidas de futebol na Copa do Mundo. Claro, milhares de turistas virão à cidade para ver os jogos. O coliseu brasiliense se pagará em quatrocentos ou quinhentos anos. Mas temo que longe do estádio, hospitais continuarão com os cartazes de "Não há pediatra".

Aos turistas que vierem, recomendo que tragam o kit Niemeyer: banco desmontável(porque não existe lugar para se sentar), sombrinha(porque não existem árvores nas piscinas de concreto do mestre arquiteto), lanterna(porque a iluminação das belas criações de Oscar são quase sempre penumbrosas), lanche(em nenhum lugar turístico de Brasília existe a possibilidade de se tomar um café de modo confortável), pinico e saco higiênico(esvazie a bexiga antes de sair do hotel)e guia eletrônico(criou-se um desprezo tão grande pela capital que ninguém quer conhecer nada da história deste lugar). E farei também um apelo aos visitantes para que não tragam crianças, porque não há pediatras. E muito cuidado na rua...

domingo, 23 de outubro de 2011

Eu acho que vi um gatinho



Nós brincávamos muito com as palavras. Era divertido. E muito, muito repetitivo. Uma das brincadeiras prediletas era assim:

_Eu tinha dois cachorrinhos. Um se chamava Grapete, o outro Repete. Grapete morreu, qual cachorrinho sobrou?

_Repete - dizia alguém.

E você repetia.

Outra boa era com a onça.

_Você está passeando na floresta e precisa atravessar um rio, muito, muito perigoso. Mas antes da ponte existe uma onça pintada em cima de uma pedra. O que você faz?

_Atravesso o rio pela ponte - alguém dizia, muito esperto.

_E a onça?

_Ela é só pintada na pedra, não é de verdade, seu bobo - explicava o esperto.

Certamente alguém já havia feito a brincadeira antes com o sabido.

A presidente está brincando de Grapete e Repete com os ministros lambuzados da República. Aquela conversa dela virar onça e usar vassourão contra a corrupa não engana mais ninguém.

sábado, 22 de outubro de 2011

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

A envelhescente meia idade



The Wallflowers - One Headlight

Daqui onde estou posso ver a meia idade se aproximando acelerada. Foi o Mário Prata que escreveu aquela história das espinhas e inventou o termo "envelhescente". Você sabe, as pessoas com mais de 45 e menos de 60. De acordo com o Prata, pessoas nessa faixa de idade têm muita coisa em comum com os adolescentes, que não são crianças e nem são adultos. Espinhas, por exemplo. Os adolescentes têm espinhas na cara. Os envelhescentes têm na bunda, disse o Mário Prata. Na célebre crônica, ele também diz que compartilhamos com os garotos o gosto pelas moças de vinte anos. Eu concordo. Eu concordo com a crônica inteira, googla ela .

Mas saber-me um envelhescente não ajuda em nada. Eu olho pra frente e vejo a meia idade chutar a porta da frente. Eu abro a porta. Pode entrar, é aqui mesmo. Sou eu que você veio encontrar.

Minha meia idade é meio sem graça para quem já viveu metade da sua vida. Ela usa daquelas camisas de correr, um casaco de três listras brancas com capuz de amarrar, moleton, tênis e meia soquete branca. Pelo jeito, é muda. Ou então está sem fôlego. Ela está com pressa, faz sinal para que eu a siga.

_Nem pensar. Não vou sair correndo nem que a vaca tussa - eu digo.

Detesto essa expressão. Sempre uso expressões que eu detesto quando não quero fazer uma coisa. A meia idade coloca a mão na cintura. Ela ameaça chutar a minha barriga. Eu não gosto de violência. E não gosto que chutem a minha barriga. Então eu digo que vou correr.

_Só preciso encontrar o meu tênis - eu digo.

Enquanto eu subo as escadas, tento bolar um plano para fugir da meia idade. Mas a minha escada é curta e num instante já estou calçando o tênis. Se eu tivesse pelo menos uns trinta degraus, teria bolado alguma coisa, tenho certeza. Ou talvez não. Afinal basta estar vivo para que a meia idade nos alcance. Mas agora já não dá mais tempo de pensar em nada, a meia idade trota à minha frente. Corre de costas, a danada. Ela não precisa olhar o caminho. E desse modo não tira os olhos de mim.

Não tenho como fugir. Por outro lado, percebo que a meia idade também não está lá com essa pressa toda. Olhando assim, é até simpática essa meia idade. Não está em grande forma, a gente percebe que já teve dias melhores, assim como eu. Mas não é um caso perdido.

_Vem cá, meia idade, depois dessa corrida, que tal uma gelada? - eu pergunto.

Ela responde com um grande sorriso.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Porque voltei a usar lápis



Passei dois dias seguidos desenhando os pássaros de Eckhout, o célebre pintor holandês. Usei principalmente dois lápis KOH-I-NOOR HARDTMUTH 1500. Um 3B e outro 4B. Nos outros lápis não conseguia afinar a ponta como desejava. Quero dizer, eu até conseguia fazer a ponta se tivesse bastante cuidado, mas o problema é que bastava encostar no papel para que o grafite se esfarelasse um pouco.

Às vezes eu acho que desenho com muita força e marco as folhas seguintes do caderno que uso. Para diminuir o problema eu me obrigo a usar um mata-borrão com uma folha branca 220g. Mas minha filha adora desenhar no mata-borrão, então acabo desenhando sem ele. Então agora estou buscando suavizar o traço, desenhando no papel 120g sem marcar o papel seguinte. Ainda estou longe de ser suave.

Durante muito tempo desenhei somente com caneta gel. Em geral usava uma Signo 0.7mm. Foi muito importante usar somente a caneta durante vários anos para conquistar confiança no meu próprio traço. Quando se desenha direto à caneta gel, não há conserto no traço errado. Ou se faz certo, ou o desenho ficará muito ruim, cheio de retoques e rasuras. Durante muito tempo também decidi usar o traço claro, linha pura, sem sombras e hachuras. E decidi usar um método radical para não jogar papel fora. Passei a comprar os sketchbooks da Moleskine, que custam uma fortuna cada um. Assim me obriguei a pensar mais sobre o quê desenhar e também a fazer o melhor de uma única vez. Melhorei bastante o traço usando esses dois estratagemas e hoje já me sinto mais satisfeito com os meus rabiscos.

Isso não quer dizer que me considero um bom desenhista. Não. Não mesmo. Também acho que o importante é o processo e não as coisas que conseguimos no meio do caminho. Não guardo troféu de nada. E espero que este seja um longo caminho. Da mesma maneira que o ato de escrever, desenhar é um pretexto para o reexame atento das coisas que me acontecem ou, de alguma maneira, me atingem. Muitas vezes não sei porque tanto reexame, mesmo assim escrevo e desenho.

Decidi voltar a experimentar um lápis porque outro dia visitei o blog da Renée French, uma desenhista que sempre me impressionou muito. Ela possui o traço fino. Ela possui uma sensibilidade fantástica. E tudo é transmitido com suavidade, ainda que a mensagem seja intrincada.

Uma vez, no trabalho, um colega viu um dos meus desenhos a gel e disse que parecia uma tatuagem. Era um peixe. Houve uma época em que eu vivia desenhando peixes. Lembro de olhar para o desenho e concordar com o colega. Parecia mesmo uma tatuagem, a linha do desenho muito larga. Será que ficaria bem no braço de alguém? Eu seria capaz de fazer uma menor, bem pequena, para tatuar a nuca de uma pessoa? Quem é capaz de se deixar tatuar debaixo da língua? Se todo mundo fosse obrigado a usar tatuagem, qual seria o desenho que você levaria estampado? Ou qual seria a palavra? Seria um nome? E onde?

Claro, nada disso importa. Talvez eu tenha voltado a usar lápis por causa da frase que ouvi de um violonista, que a soube de André Segovia. Metade da vida é afinar o violão e a outra metade é desafinar. O interessante é que o violonista ganha a vida a desafinar o violão. Talvez eu já tenha passado da fase de afinação e seja hora de desafinar. Talvez isso seja apenas um adágio bacaninha. Não sei. Mas voltei a usar lápis. De preferência, 3B.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Segunda-feira, dia 17 de outubro

Uma chuva bem fininha e constante se prolongou durante todo o dia. Fiquei cansado de olhar o horizonte e senti vontade de desenhar. Agora fico atento a essas vontades e aproveito bastante. Copiei a lápis os pássaros à óleo do Albert Eckhout, o pintor holandês que desenhou o Brasil dos anos 1600. Desenhei até cansar de desenhar e foi bem divertido. Primeiro por saber que ainda posso, que ainda sei traçar a linha fina com o lápis e com a lapiseira grafite 0.5 mm. Depois por ainda me sentir inebriado por rabiscar o papel. Com um lápis na mão, acelero todos os relógios do mundo e nem percebo.

As crianças não foram para a escola porque estão resfriadas e cansadas de toda a agitação da semana da criança. Meu filho tinha prova de inglês e estudou um pouco comigo. Ele é esperto e faz tudo rapidamente. Tão rápido que se esquece de algumas letras. A manhã acabou em um segundo e almoçamos bem.

À tarde, mais pássaros de Eckhout, resolvi encher um caderno com eles. Decidi atualizar o blog de desenhos, mas estou sem paciência para scanear os cadernos. Amanhã farei isso, sem falta, minto para mim mesmo. Segunda-feira de idéias. Muitas idéias. E a lembrança de um conto da Patricia Highsmith sobre o sujeito que escrevia romances enormes na cabeça. Não me lembro como acaba, mas é uma história triste.

Lembro de novo daquele velho conto do Norman Mailer, que li dentro do volume "A maior coisa do mundo", da editora Nova Fronteira, sobre o escritor que briga com a namorada. O conto se chama "O Caderno de Notas" e na verdade não é sobre a briga do casal, mas sobre o fato das brigas entre os dois serem inevitáveis. A namorada passa metade do conto se queixando do escritor, que aceita tudo com suavidade e gentileza, ele não quer saber de confusão. Não, a única coisa que ele não consegue controlar é a vontade de anotar no caderno de notas aquela idéia que surge durante a briga com a namorada. Sim, ela fica furiosa quando percebe que ele está escrevendo, porque todas as suas queixas têm relação com o fato dele precisar se desligar dela para escrever. E no final o escritor sai correndo atrás da mulher, para explicar tudo a ela, feliz por ter conseguido anotar tudo direitinho no seu fiel caderno de notas.

Evito me aproximar dos livros da estante, porque senão mergulho em um livro e adeus dia. Corro de volta para o meu caderno de desenhos e fico ali, imaginando histórias do tempo do Brasil dos holandeses. Caio em devaneios, eu me deslumbro com a beleza dos pássaros. Sempre gostei de desenhar pássaros. Houve um tempo em que sonhava muito que voava. Hoje não sonho mais. Lembro que nos sonhos eu tinha um truque para levitar e flutuar e só depois, com a força do pensamento eu me movimentava no ar. Era tão estranho, porque não havia velocidade nesse voar, era o vento que me levava. Eu apenas condensava e descondensava. Às vezes fico um dia inteiro assim, a cabeça nas nuvens imaginando histórias enormes que se desintegram assim que me aproximo do teclado.

Para evitar atrasos, mantenho o computador ligado o dia inteiro. Às vezes, vou correndo para o teclado para capturar um pensamento depressa, depressa, mas é tarde demais. Hoje, serão só os desenhos. E só quando paro é que vejo que são muitos e que é por isso que estou cansado.

O trem das 7 - Raul Seixas



O trem das 7 - Raul Seixas

Gente, não é má vontade com música brasileira. A baixa definição dos vídeos brazucas e o áudio chinfrim dos uploads impedem a colocação de um link. É super sem-graça colocar só a capa do disco.

domingo, 16 de outubro de 2011

Mais ministro a menos

Já tivemos dinheiro não contabilizado de campanha, sobra de caixa dois, dólar na cueca, bufunfa na meia, bolada enfiada na bolsa e até dinheiro na mala que ninguém nunca descobriu de onde veio. Agora é grana em caixa de papelão na garagem.

Sua Excelência se considera um injustiçado. Abotelado há quase nove anos no MinEsportes, OS é um sucesso. O esporte está disseminado por todo o país. Temos cracks aos montes por aí. Estamos preparados para a copa e também para a Olimpíada. Falta apenas construir alguns estádios e melhorar uns doze aeroportos.

Fico imaginando como será o bilhete de despedida desse daí. Terá mais de três linhas? (O bilhete de chute no Palóffi, se não me engano, tinha sete linhas. E o sujeito era uma unanimidade)

Será que vão demorar para que lhe pendurem as chuteiras? Será que vão lhe entregar alguma medalha? Eu, se jogasse vôlei, lhe aplicaria uma com prazer.

Mas o cara sai ou não cai? A quem caberá o apito final? Será que as prometidas gravações do PM acusador mudarão a rotina de fingir que o sujeito pediu demissão? O quinto pontapé ministerial deste ano poderá, enfim, se assumir pontapé?

Por outro lado, seria cruel demais deixar a presidente improvisar palavras de despedida. Ninguém merece, pobres de nós. Além disso, os riscos de traumas agudos na última flor do lácio e no carpete debaixo do qual se esconde o butim e a base aliada são imensos. A presidente pode matar duas cajadadas com um só coelho. O melhor é caprichar na frase curta, sem deixar margem para dúvidas. Deixo abaixo a minha sugestão, caso o redator do planalto passe por aqui.

Tchau, OS. Não ligue para nós.

sábado, 15 de outubro de 2011

O livro dentro do livro dentro do livro dentro do livro



Rod Stewart & Jeff Beck - People Get Ready

Existe um livro dentro do Don Quixote que Cervantes finge imaginar estar escrevendo. Cervantes diz que não é o autor de Don Quixote e inventa que o texto original tinha sido escrito por um árabe. Com esse faz-de-conta Cervantes pode alegar que a história do Quixote é real e que foi narrada por uma testemunha. O nome do autor árabe, de acordo com Cervantes, é Cid Hamete Benengeli.

Mas Cervantes não domina o árabe. Ele teria dado um olho para aprender árabe, mas foi enganado. E Cid Hamete Benengeli jamais apareceu na história do Quixote. Daí que o Sancho Pança é a testemunha narradora de Cervantes. Uma testemunha analfabeta, mas com o dom da linguagem. Foi Sancho que ditou a história do Quixote ao barbeiro e ao padre. O manuscrito dos dois é que foi traduzido para o árabe.

Isso fica mais complicado, porque a idéia do barbeiro e do padre é usar o livro como uma espécie de espelho para a loucura de Don Quixote. Desse modo, quando o próprio Don Quixote lesse o livro, ele seria confrontado com sua loucura e fantasia e se recuperaria.

Mas há quem diga que Don Quixote não era louco, apenas fingia ser maluco. De algum modo engenhoso, Don Quixote arquitetou essa coisa complicada de ditar para Sancho, que falava ao barbeiro e ao padre, que escreviam em espanhol. Depois, Don Quixote deu um jeito de esconder o livro perto do árabe Benengeli, que o traduziu para o árabe. E mais tarde, o mesmo Quixote encontra em Cervantes o hábil escritor para a recondução do livro em espanhol.

Existe também quem prefira que Cervantes tenha contratado Don Quixote, que se fingia de louco, para traduzir a própria história. O objetivo do ardiloso Don, em conluio com Cervantes, era saber até que ponto as pessoas podem tolerar blasfêmias, mentiras, vilanias e até coisas sem sentido se estiverem se divertindo. E a resposta é que isso não tem fim.

De algum modo, Ken Kesey conseguiu capturar a essência quixotesca em “O estranho no ninho”. Antes dele, Fernando Pessoa também conseguiu. E Umberto Eco, principalmente ele, com o extraordinário “O Nome da Rosa”. E John Irving. E Tibor Fischer. E também outros milhares de escritores em centenas de milhares de livros.

Mas todo mundo fala com estranha seriedade sobre essas façanhas. Da mesma maneira como a maioria das pessoas fala com estranha seriedade sobre a escrita. Que é tão simples e ordinária quanto qualquer outra arte. A verdade é que Don Quixote foi escrito para nossa diversão.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Um engano mútuo




Meu celular recebeu uma chamada estranha durante a madrugada. Pelo serviço de mensageria, fico sabendo, horas depois, que recebi essa chamada de um número desconhecido. A ligação durou dois segundos e aconteceu às duas horas da manhã. Depois apareceu outra mensagem, dizendo que esse número que não conheço tentou me ligar três vezes. Quem será? Bom, se for alguma coisa importante certamente a pessoa ligará novamente. E enquanto ainda estou com isso na cabeça, o telefone tocou. Olhei o visor e era o tal número.

_Alô? - eu disse.

_Quem é? - disse a outra pessoa. Voz de homem.

_Eu é que pergunto. Quer falar com quem? - eu disse.

_Com o dono desse telefone, é você? - diz o rapaz. Parece voz de gente jovem.

_Sou eu. Mas quem é você? - eu disse.

_Por quê você me ligou de madrugada? - disse o rapaz.

_Eu não liguei para você de madrugada - eu disse.

_Alguém desse número ligou para mim hoje de madrugada - disse o sujeito.

_Bom, o telefone é meu, eu não te conheço e não liguei pra você hora nenhuma. Deve ser um engano mútuo - eu disse. E desliguei.

Sim, eu sei, o sujeito deve ter pensado que eu sou esquisito, porque ele viu o meu número registrado no seu celular. Eu também vi o número dele no registrado no meu celular, mas não caio mais nessa. Eu sei que não liguei para ninguém de madrugada. E não adianta nenhum sistema telefônico querer me fazer acreditar no contrário.

Então o meu telefone tocou novamente. Era o numero do desconhecido novamente.

_Alô? - eu disse.

_O que você disse a ele? - disse uma voz de mulher.

_Você quer falar com quem? - eu disse.

_Não existe esse negócio de engano mútuo - ela disse. Parecia ser uma jovem mulher. Mas voz de mulher engana, é difícil atribuir uma idade. Amy Winehouse parecia ter dez mil anos. E essa voz não era bonita. E parecia assustada.

_Talvez não. Talvez seja só a companhia telefônica fazendo com que as pessoas liguem umas para as outras - eu disse.

_Querido, não ligue mais para mim, por favor. Meu namorado é ciumento - ela disse.

_Tudo bem - eu disse.

_Por favor, prometa que não vai mais ligar - ela disse.

_Eu prometo - eu disse.

_Adeus - ela disse. E eu poderia jurar que ouvi o som de uma pancada e um gemido de dor. Parece uma cena de Blue Velvet, eu pensei.

Duas horas depois o celular tocou novamente. Era o tal número. Desliguei o telefone. Se fosse um filme, o mocinho ficaria preocupado com a mulher. Mas eu estou velho para ser o mocinho. E nem conheço a mulher para ficar preocupado. Quem sabe o que se passa na casa do outro lado da rua? Quem conhece o drama vivido pelo vizinho de porta? Quem se arrisca a parar o carro à noite, na rua movimentada, para socorrer um cão atropelado? Para ajudar a criança que cheira cola? Quem ainda não recebeu o telefonema do falso sequestro?

Outro dia, no estacionamento do supermercado, um sujeito me pediu para usar o celular rapidamente. Ele estava com o pneu furado e falou depressa pelo telefone. Foi muito educado. Queria pagar pela ligação. Se apresentou. Puxou conversa. Foi simpático. Parecia legítimo. Mas sou paranóico. Não falei quase nada. E se ele não estivesse com o pneu furado? E se ele telefonou para uma comparsa, para meu telefone ficar gravado na memória do celular? E se tudo não passasse de uma encenação para um futuro golpe? E que golpe seria esse? Por quê alguém iria me dar um golpe? A voz da primeira ligação parecia com a daquele sujeito. Ou não?

Não. Foi só um engano mútuo.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Niver nos olhos dos outros

Meu aniversário está chegando e a verdade é que eu gostaria de adiar um pouco a ocasião. Talvez uns dois ou três anos. Só o adiamento necessário para eu me recompor e me sentir melhor comigo mesmo. Agora, definitivamente, não estou pronto.

Em geral eu gosto muito de aniversários. Bolo. Parabéns. Com quem será. É pic. Balão em forma de coração. Curto mesmo. Eu entro no coro, bato palmas, ajudo a soprar vela e até língua de sogra, se precisar. Isso no aniversário dos outros. Nos das crianças e dos adultos.

Mas nos meus próprios aniversários a coisa é diferente.

Isso é recente. Deve ter menos de um lustro. Desde então, a tendência pró-adiamento de aniversário vem crescendo. No ano passado eu já não queria nenhuma comemoração, nada, mas fizemos um jantar para a família no velho apê. Neste ano já avisei que não quero nada, que vai ser ótimo ficar quieto. Minha mulher concordou. Mas vai saber. No ano passado ela também tinha concordado em não fazer nada e organizou aquele jantar fabuloso.

Na conversa do almoço de domingo, onde todo mundo dá palpite sobre qualquer coisa, alguém consultou a tabela de aniversários da minha mãe, que é super completa, e o meu aniversário acabou virando assunto.

Minha irmã falou assim:

_Tem mais é que curtir, fazer um festão. Aniversário é pra se comemorar! É a celebração da vida, da alegria de se estar vivo! Se fosse o meu aniversário eu faria uma megafesta para umas cem pessoas, com música ao vivo e tudo.

Mas no seu aniversário você não fez nada, ficou trabalhando até tarde, eu só consegui falar contigo por telefone - tive vontade de dizer. Mas não disse. Porque de repente me veio que aniversário nos olhos dos outros é sempre refresco. É só no da gente que dá apreensão, essa vontade de fugir correndo de um bolo com velinhas.

_Eu também acho que você deveria comemorar - disse a minha mãe.

_Não sei, mãe, acho que vou estar gripado - eu disse.

_Deixe disso, anime-se - disse ela.

_Estou me sentindo esquisito, mãe. Eu já tive catapora? - eu disse.

_Não fuja da raia - eles disseram.

_É sério, galera, acho que vou ficar com soluços. É um perigo - eu disse.

_Festa!Festa!Festa! - gritaram em coro.

_Talvez eu faça uma viagem - eu disse.

_Festa!Festa!Festa! - gritaram.

Minha família é muito festeira.

The Gramophone Allstars - I'll Be Around



The Gramophone Allstars - I'll Be Around

Uma versão legal do clássico do The Spinners.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Valeu mesmo




As coisas que não têm a menor importância ficam grudadas na minha mente. Guardo diálogos inteiros de filmes de Jerry Lewis. Sei cantar velhas canções que já saíram de moda, tenho na memória cenas de filmes B que vi de relance na TV. Lembro do nome do cavalo branco do Fantasma, Herói. O nome do cachorro era Capeto. Sei que o cabo Rusty era o nome do dono do Rin-Tin-Tin. Lembro que Mussum fazia parte do grupo “Originais do Samba” e fez um mega-sucesso cantando “Assassinaram o camarão, e assim começou a tragédia no fundo do mar...”

A coisa não para por aí. Sou um prodígio para frivolidades e pródigo em conhecimento inútil e na maioria das vezes irrelevante. Coca-cola com pastilha menthos provoca um efeito efervescente perigoso. Vinagre corta a dor provocada pelo ácido da água-viva. Xixi também. E se você for comprar melancia inteira, eu sei reconhecer pelo som a melhor melancia que houver na bancada.

Isso não é nem um milionésimo das bobagens de almanaque coladas na minha memória.
Sou especialista em coisa nenhuma. Desenho a Mona Lisa de memória. Quando eu era menino, eu achava que era a imagem de uma santa. Sei que Elvis Presley tinha um irmão gêmeo que morreu precocemente. Consigo amolar uma faca usando um seixo. Um quadro não pode tocar na moldura de vidro. Posso consertar uma chave tetra, caso ela solte do cabo. Anotei num papel a medida perfeita para a solução de água e detergente para fazer bolhas de sabão.

E ainda quero mais.

Queria saber se Marilyn Monroe tinha um bicho de estimação, por exemplo. Quem era Vira Lynn e por quê perguntam sobre ela naquele álbum do Pink Floyd? E também coisas mais pessoais. Será que alguém mais furou a mão esquerda com um compasso porque estava escarafunchando a carteira da escola? Quem mais engoliu chiclete enquanto tentava aprender a fazer bola? Alguém de vocês também se lembra do nome da professorinha que lhe ensinou o bê-a-bá? Por onde andará Flávia Tatiana, a menina mais bonita da quarta série primária?

Sou precoce para algumas coisas. Aprendi a jogar xadrez com quatro anos de idade. Nessa idade também já sabia ler e escrever. E também já tinha a letra ruim que me acompanha até hoje.

Entrei na crise dos quarenta antes dos trinta e cinco e ainda não saí dela.

Ou seja, para outras coisas, sou um retardado. Eu sei que causo uma péssima primeira impressão. Minha segunda impressão também não é das melhores. Melhoro um pouco quando se trata da oitava ou nona impressão, mas quem é que tem paciência para isso?

Durante muito tempo fui um ingrato contumaz. Um dia percebi que é um milagre que eu tenha sobrevivido, entre tantos outros milagres. Hoje sou um ingrato menos assíduo, de vez em quando, em dia santo, eu olho para cima e digo muito obrigado, valeu mesmo.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Novos insetos no pedaço




Hoje à noite a casa parece ter sido invadida por formigas com asas. E besouros. Fazia anos que não via tantos insetos. Tinha alguns tão esquisitos que comecei a inventar nomes para eles, só para impressionar as crianças.

_Esse aí é um Ferrão de Gaveta - eu disse para a minha filha.

_Parece um besouro - ela disse.

_Eles se disfarçam de besouro. Mas na verdade são Ferrões de Gaveta. Eles são chamados assim porque guardam o ferrão nas costas, numa cavidade que parece uma gaveta. Quando a gente menos espera eles abrem a capa nas costas e tuf!, espetam o ferrão. Uma vez conheci um menino que foi parar no hospital por causa de um Ferrão de Gaveta - eu disse.

_E dói? - perguntou a minha filha.

_Não sei. Mas também não quero experimentar.

_Ué, e porque o menino foi para o hospital?

_Gripe. O Ferrão de Gaveta deixa todo mundo gripado, é um horror.

_E aquela formiga com asa ali? - ela disse.

_Ah, aquela é uma Mordedora Terrível - eu disse.

_Ela tem dentes?

_Não, ela morde com uma espécie de serrinha. Essa eu sei que dói. Uma vez levei uma mordida de um bicho desse e fiquei chorando um dia inteiro. Chorei tanto, mas tanto, que as minhas lágrimas começaram a fazer uma correnteza forte e ...

_Ah, paiê, pensei que você estava falando a verdade.

_E estou. Tudo bem, posso estar exagerando um pouco com a história da correnteza.

_E aquele ali, paiê, é centopéia?

_É, quero dizer, é mais que uma centopéia. Aquela é uma ducentopéia. Ao invés de cem, essa tem duzentos pés.

_Não acredito, paiê.

_É só contar. Quer que eu te ajude?

_Não, tenho nojo de centopéia.

_Ah, então não pegue, senão você vai sentir nojo dobrado.

_E aquele besouro ali, paiê, como chama?

_Aquele é o famoso Besouro Chinfrim. Ele chama assim porque ninguém liga pra ele. É só um besourinho inofensivo, não fede nem cheira. Também é chamado de Besouro do Oscar, porque é muito fingido. Quando a gente encosta, ele se encolhe e finge de morto, quer ver?

_Nossa, é mesmo!

_São uns artistas.

_Pai, você está inventando essas coisas?

_Só um pouquinho.

A foto de reconhecimento tardio





Sergio Mendes & Brasil 77 - This Masquerade


Nesta escola nem tão alternativa assim onde os meus filhos estudam existe um passeio para uma chácara. É sempre na semana da criança. Os meninos e meninas vão para essa fazendinha, onde podem ver e tocar os bichos domesticados: vaca, bezerro, galinha, cabra, bode, carneiro, coelho, etc. Também passeiam na beirada de um córrego, atiram pedras numa lagoa, colhem frutos e vegetais de uma grande horta, vêem galinhas chocando ovos, dão de mamar a bezerros, etc, etc.

Na primeira vez em que foi a esse lugar, meu filho quase não dormiu na véspera, de tanta ansiedade. O sítio era descrito pelos colegas como a terceira maravilha do universo, atrás apenas da disneylândia(first) e do parque da mônica(segundão). A propaganda era tão sensacional que achei que o menino poderia se decepcionar um pouco quando chegasse lá.

_E aí, filhote? Gostou do sítio? - eu disse, quando ele voltou.

_É, gostei - ele disse, encerrando o assunto.

_Mas filhão, conta como é que foi? Qual foi a coisa que você mais gostou? - eu insisti, burramente.

_Dos girinos - ele disse.

E me mostrou uma série de fotos que ele mesmo tirou de um monte de girinos num cantinho da tal lagoa do sítio. Bom, eu pensei, quando a gente tem oito anos, as maravilhas da natureza nos deixam realmente empolgados. Mas, girinos? Olhei as outras fotos que ele havia tirado de outros bichos e plantas e algumas eram realmente muito boas. Eu pessoalmente achei bem interessante uma foto de um galinho magro bancando o valente no meio do terreiro.

Hoje, depois de um ano, voltei para a foto daí de cima. Um girino. A minha câmara é bem peba, não dá para focar direito coisas pequenas. Mas o meu filho conseguiu! Esse girino é menor do que a lasca de uma unha. E está bem centralizado na trama da rede. Acho que vou imprimir para esperar por ele, que está chegando agora à tarde de uma outra visita ao sítio. Esse é o típico caso da foto de reconhecimento tardio. Ou de um ataque de paitonite, não sei.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Em chamas

Hindi Zahra - Beautiful Tango


Uma coisa que Steve Jobs não inventou, mas com certeza chegaria lá, é uma espécie de aviso Albert Camus para os usuários da Internet. Seria um botão de emergência, super-vermelho, que a gente usaria quando estivesse pensando em coisas tristes demais ou muito desanimado. O botão estaria bem ao alcance do mouse, de preferência no canto direito da tela, mas também poderia ser acionado à distância, pelo tocador de mp3, twitter ou pela mais chinfrim das engenhocas disponíveis. O sujeito apertaria o botão e imediatamente todas as parafernálias eletrônicas que o cercam iriam disparar as mensagens gravadas pelos amigos, as fotos, os filmes, e as lembranças das coisas bacanas que todo mundo adora compartilhar pela rede. O botão também avisaria a algumas pessoas especiais que você, de alguma forma, estava começando a subir no telhado.

Talvez fosse necessário ter vários tipos de botões escadinha, para deixar bem claro o nível de subida do telhado. Um vermelho dois degraus, um vermelho sangue nível cinco, e a escada totalmente cheia, em vermelho vivo, quase violeta. Para cada número de degraus, Para esses, sim, haveria uma convergência eletrônica remota das maravilhas da modernidade que culminaria com o carro de bombeiros parando na frente da residência.

_O que foi, o que foi?

_O senhor apertou o botão vermelho vivo?

_Não, não fui eu, deve ser um engano, um trote.

_Peguem ele, podem aplicar o sossega-leão.

_Mas o que é isso? Socorro!

E é lógico que os bombeiros seriam super-profissionais e salvariam vidas e mais vidas dos seres que subissem no telhado. Não é?

Pensando bem, não funcionaria. Se uma coisa dessas existisse eu tenho certeza que quebraria depois de uma semana de funcionamento ininterrupto na minha casa. Eu sou um cara super-saudosista e piegas, vivo pegando foto velha para olhar, escuto música antiga, tenho coleção de cartão-postal, etc. Para se ter uma idéia, eu guardo até cartão de natal que recebo de oficina de automóvel. Também tenho um de uma empresa que vende gás, toca até Jingle Bells. Acho bonito.

Mas todo mundo sabe que essas coisas de deixar a gente saudoso e rememorativo não fazem nada bem para a saúde. Além disso, conhecendo a qualidade dos serviços públicos e privados oferecidos por estas bandas, acho que só mobilizaria um carro de bombeiros se a escada em que eu subisse estivesse em chamas, ou se o botão vermelho violeta acionasse um cassetete eletrônico.

domingo, 9 de outubro de 2011

Bons conselhos para o papai aqui



Stealers Wheel - I Get By
youtube.com



Ultimamente todo mundo tem bons conselhos para o papai aqui, este escriba que vos escreve. E eu escuto todos numa boa. Não tenho mais a pretensão de saber mais ou melhor do que um monte de outras pessoas sobre alguma coisa. Já tive, e muita. Hoje é mais comum duvidar de coisas que eu, um dia, tive certeza de que sabia. De concreto mesmo tenho a minha experiência, intransferível como toda experiência, como qualquer habilidade. Alguns trabalhos legais que fiz e que deram certo, mas são poucos, banais.

A maioria das pessoas que me dão bons conselhos torce de verdade por mim. Outras, nem tanto. Em poucas, poucas mesmo, tenho a impressão de ver, embutidos no conselho, a desaprovação e o desgosto para tudo o que fiz e faço. Entretanto, é exatamente para essas pessoas que gostaria de dedicar um livro, um desenho ou um versinho de rima pobre.

Ninguém me dá maus conselhos. O que acontece é que eu me esqueço de seguir os bons conselhos e faço as coisas do meu jeito. E aí dana tudo. Eu também devo fazer o “mea culpa”: nunca pedi desculpas pelos maus conselhos que me meti a dar para uma porção de gente. Mas faço o pedido com uma ressalva, eu achava sinceramente que era bom conselho o que era mau.

Desde que comecei o blog, tenho para mim que o mais importante é escrever da maneira mais sincera e honesta possível. E essa honestidade consiste em falar com o coração, em ser direto e despojado. Aprendi a desconfiar das minhas frases rebuscadas e sofisticadas. Elas muitas vezes só servem para esconder o que não sei dizer. Ou o que não consigo.

Para mim, quase sempre foi assim. Eu via um parágrafo meio gordinho, parecendo uma moita, toda cheia de rebuscamentos, rococós e mão-francesa e já ficava desconfiado de que ali o que não faltava era recheio de lingüiça. Lia. Porque tinha que ler, porque estava escrito. Mas na hora de escrever, não. O bom, não, o melhor conselho que me deram é o de frear a mão, valorizar a palavra, pesar as coisas que serão ditas, medir as distâncias dos perdigotos. Em boca fechada não entra mosquito. O silêncio é de ouro. Pouca farinha no leite.

No entanto, tenho feito poucos progressos com essa economia da palavra, sou o primeiro a reconhecer. Não é culpa de ninguém. Só minha. O conselho é bom mesmo, é isso aí. O pressuposto é o de que você freie a mão e aperte o passo, andando com a cachola de pensamentos, filtrando tudo na ponta do lápis. Amigo, isso cansa. Mas não tem outro jeito.

Outro bom conselho que me deram é o de sorrir pra dentro. Na verdade foi um conselho que o Fernando Sabino deu para a Clarice Lispector e eu li em “Cartas perto do coração”, o livro que traz a correspondência entre os dois. "Porque você por dentro não vai bem não, Clarice Lispector, você por três vezes já se esqueceu de sorrir quando era preciso", escreveu o Sabino. Isso foi importante pra mim porque eu tenho um sorriso tipo mão-boba, que aparece sem mais nem menos no meio da minha cara, nas horas mais absurdas. Então eu comecei a guardar esse sorriso tolo e a usar um sorriso melhor, menos sacana, três vezes ao dia como recomenda Sabino, ou até mais, quando for preciso.

Isso é o mais perto que consigo chegar do que muitos chamam de humildade. Sou um narcisista inveterado e duro, porque tenho uma preguiça danada de dobrar os joelhos. Arrependimento e humildade dão muito trabalho, a verdade é essa. Seja como for, ultimamente devo estar com uma cara de mais precisado, porque tenho recebido uma verdadeira avalanche de bons conselhos. Acontece em qualquer lugar, penso que existe alguma relação entre as minhas orelhas de abano e a percepção das pessoas de que eu sou um cara que precisa ouvir um bom conselho. Eu ouço, eu ouço. O único problema é me lembrar dele.

Outro dia, por exemplo, me falaram que eu estava muito superficial. Não com essas palavras, é claro. As pessoas que dão bons conselhos costumam valorizar o material e não entregam o sentido da coisa assim, de imediato. Mas avisam antes de dar o conselho:

_Olha, preste atenção, vou lhe dar um conselho...

E nessa hora eu arregalo os olhos, deixo bem abertos mesmo, que é para a pessoa ver que estou prestando atenção. Nem pisco. Eu devo ter tido déficit de atenção quando era criança, hoje em dia estou velho para ter doença que não seja sigla, então só me considero um pouco distraído.

_...você me entendeu?

Claro, claro. Entendi. Isso é super-importante não é mesmo? E é, sempre é super-importante para a pessoa que lhe dá o bom conselho. Eu sei. Eu já fiz a mesma coisa. Mas não faço mais, juro. Talvez venda. É que tem uns conselhos que são tão bons que é uma dó entregar de graça.

sábado, 8 de outubro de 2011

Israelites - Desmond Dekker and the Aces



Israelites - Desmond Dekker and the Aces
youtube.com

Ela tem razão em tudo




Ela tem razão em tudo, é claro. Eu desperdiçei todas as chances que eu tive. E não foram poucas. E estou fazendo menos do que poderia estar fazendo. Eu sei disso, eu sei. Na verdade estou levando um vidão, sem quase nenhuma obrigação, e usando o meu tempo da maneira que bem entendo. E isso não é muito justo, tendo em vista que a maioria das pessoas leva uma vida chata de ruim, com tanto incêndio para apagar e mais isso e aquilo. Além disso, eu não pareço estar levando a sério tudo o que eu preciso levar a sério.

Ela diz também que eu preciso de um emprego. Não é só pelo dinheiro, que sempre faz falta. É para me manter ocupado de verdade, com coisas que todo mundo é obrigado a fazer para viver com dignidade(E nessa hora eu embarco numa digressão interior sobre as coisas indignas que precisamos fazer para viver com dignidade e quase perco o fio da meada). Entendeu?

Sim, eu finjo que entendi mas não concordo. Concordamos em pouca coisa a vida inteira, sempre foi assim, não vai ser agora que vai mudar. Eu começo a falar que na verdade ninguém precisa levar uma vida de cachorro, chegar estressado e só falar de trabalho. Mas nem eu mesmo acredito nisso, porque sempre foi assim, levantar cedo e ralar até tarde. Ainda é assim para ela, para todo mundo que a gente conhece, para todo mundo do mundo real. Mesmo assim eu não concordo, é uma questão de princípios, a vida da gente só muda se a gente quiser que mude. E só muda se a gente mudar de vida. Eu ainda quero tentar. Acho que ainda dá tempo.

E então chegamos ao cerne da questão, porque ela acredita que do jeito que eu estou fazendo não chegarei a lugar nenhum. E eu digo que talvez ela tenha razão. Mas talvez não tenha. Eu estou cheio de incertezas e dúvidas. Mais agora do que nunca. E do jeito que ela coloca as coisas, ela me faz ver que eu não estou nem um pouco mais próximo dos meus próprios objetivos. Estou só perdendo tempo, fazendo as coisas rapidinho, nas coxas. Não estou mergulhando fundo. Não estou me empenhando do fundo do meu coração. E com isso, não estou arriscando nada, a não ser a paciência de quem me apóia e suporta.

Foram como ganchos de direita, golpes fortes mas dentro da lei, acima da linha do ventre. E para finalizar, um direto de baixo para cima na ponta do queixo: honrarás teu pai e tua mãe, as crianças merecem ter mais orgulho das coisas que nós fazemos. E hoje em dia, bem, não existem motivos para que se orgulhem de mim. Ela tem razão em tudo, é claro. Meu amor. É como a luz no meu caminho. Sem ela, eu perco o meu rumo, eu perco o meu chão.

Direto ao Ponto - Augusto Nunes

07/10/2011
às 22:09 \ Direto ao Ponto
Brasil e Turquia repetem a parceria para garantir o triunfo no campeonato do ridículo



(Trecho)

O Brasil é uma procissão de primitivismos. Há mais de 12 milhões de analfabetos, o sistema educacional não educa, a rede de saneamento básico atende a metade das moradias, cicatrizes apavorantes percorrem o sistema de saúde, favelas miseráveis seguem penduradas em morros sem lei, milhares de quilômetros de fronteira estão fora do alcance do Estado, zonas de exclusão encolheram o mapa oficial em milhões de quilômetros quadrados, a violência é epidêmica, a corrupção endêmica e impune sangra os cofres públicos, a infraestrutura é de terceiro mundo, há uma demasia de carências a eliminar.

É muito, e não é tudo. O mundo vai descobrindo que a potência de araque não sabe sequer organizar uma Copa do Mundo. Faltam aeroportos modernos, a rede ferroviária em frangalhos é um problema secundária para quem vive brincando de trem-bala, os farsantes celebram proezas inexistentes e inauguram pedras fundamentais. Como Lula durante oito anos, há nove meses Dilma faz de conta que isso é conversa de inimigo da pátria, traidor da nação, gente que torce para que tudo dê errado.

Depois que Lula se promoveu sem concurso a conselheiro político do universo, só faltava a doutora em nada nomear-se consultora econômica do planeta. Depois da performance na Turquia, já não falta mais nada.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

À deriva no bote

Esses sonhos, ou melhor, pesadelos, sempre têm água. Mesmo dormindo eu sei que devo tomar cuidado quando aparece água no meio do sono. E no último começou com a minha chegada perto de um bote. Sim, é mais um sonho em que eu sou o personagem principal. Muito embora eu sinceramente prefira aqueles sonhos em que eu não sou eu, sou outra pessoa mais esperta, bem sucedida e feliz da vida. Então eu me aproximo do bote e é lógico que eu empurro essa canoa para dentro dágua. Posso sentir o barro, meus pés meio atolados no barro da margem desse lugar. Acho que é uma lagoa e é dia, o sol está bem forte. A água está esverdeada, não se vê o fundo e eu entro no bote e me sento. Bem devagar, eu me afasto da margem.

Ótimo, ótimo. Estou agora bem longe da margem, se quiser voltar terei que nadar um bocado, mas o sol sumiu como some nos sonhos, de repente. Está escuro agora e eu não tenho mais coragem de entrar na água. Não sei em que direção está a margem e mesmo se quisesse nadar jamais conseguiria encontrá-la. Estou à deriva no bote e olho para cima. Nada. Nem mesmo um único brilho no céu. A escuridão é tão profunda que começo a imaginar que não estou sobre a água, que o bote flutua pelo espaço, uma espaçonave de madeira. Como será que me deixaram entrar nessa nave com as botas sujas de barro? Faz frio no espaço sideral.

Ave Maria, eu rezo. E parece funcionar, porque estou de volta ao bote, onde é natural que minhas botas estejam sujas de barro. Mas não estou sozinho. Logo ali, a dois passos, brilham os olhos de um animal. Putz, sonhei um plágio, eu penso, isto é Max e os Felinos, de Moacyr Scliar. Não, é "A Vida de Pi" de Yann Martel. Bolas, nenhum dos dois. Quem está comigo no bote é um sujeito parecido com o meu ex-vizinho, o Seu Emílio. Mas é só parecido. O cara é muito mal-encarado e estranho. O rosto parece mudar. Estou com medo. Parece que vi o brilho de uma faca. E essa é a última coisa que eu vejo porque o bote virou.

Eu mergulho e volto para a superfície. Bato a cabeça num teto. Estou debaixo do bote virado. Estou com muito medo pois não preciso enxergar nada para saber que aquele sujeito de rosto estranho também está ali, em algum lugar. Quando me viro, vejo apenas o rápido brilho antes que a faca me atinja em cheio o coração.

Eu coração Ipod



quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Minha voz interior



Durante muito tempo eu me recusei a ouvir a minha voz anterior. Não é a que a tenha amordaçado, eu simplesmente não prestava atenção nela. Ela se sentia excluída e desprezada, mas mesmo assim não desistia.

_Não faça isso - dizia a minha voz interior.

Mas eu ia lá e fazia. Na verdade, eu achava a minha voz interior muito caipira, cheia de escrúpulos demais. Tinha um sotaque goiano, essa vozinha. Era bem tradicional, quase familiar, me acompanhava desde que me entendia por gente. Essa voz foi ficando baixinha, baixinha, até que eu pensei que tinha sumido. Um dia dei por falta dela quando fazia compras no supermercado.

_Caramba, cadê aquela voz interior para me dizer para não comprar um quilo dessa nectarina? Não compre, seu bobo, só você é que irá comer e algumas vão acabar se estragando, ela diria. Vai jogar dinheiro fora, não faça isso.

Então eu fiz, é claro. Eu adoro nectarinas e isso é sempre um bom motivo para fazer calar a voz interior. Ainda que ela não estivesse presente. Ou fingisse não estar presente. E aconteceu aquilo mesmo, eu comprei as nectarinas e só eu comi, muitas se estragaram. Foi só quando eu estava me livrando de umas nectarinas perdidas, coitadas, é que me lembrei da minha voz interior novamente. Quando tinha sido a última vez que eu a tinha visto? Eu nem me lembrava. De qualquer forma, não era importante.

_Cadê você? - eu perguntei.

Mas não ouvi resposta nenhuma. Então achei que tinha me livrado definitivamente daquela vozinha mixuruca que vivia me regulando e dizendo não pode isso, não pode aquilo, deixa disso e deixa daquilo. Fiquei livre, leve e solto. Eu me esbaldei durante um bom tempo, achando que tinha razão em tudo. Mas ninguém tem razão em tudo. E na maior parte das vezes, ninguém tem razão em coisa alguma. E que diferença isso faz? De qualquer modo, fiquei sem notícias da minha voz interior, aquela caipirazinha.

Isso foi até ontem à noite, quando fui tomar um copo dágua na cozinha.

_Cansei de você - eu ouvi a voz dizer.

_Rá, voltou hein, não resistiu de saudades - eu disse, baixinho. Já era tarde e minha mulher e as crianças já estavam dormindo.

_Estou indo embora - ela disse.

_Sim, vá, cheguei a pensar que você já tinha ido embora há muito tempo - eu disse, baixinho, baixinho.

_Desta vez é pra valer, não tem volta - ela disse.

_Claro, claro, vá andando - eu disse.

_Não pense você que eu irei te perdoar - disse a minha voz interior.

E eu escuto ela sair batendo as portas da minha mente, o sapato de salto baixo fazendo toc,toc,toc no assoalho da minha cabeça. Enquanto ainda estou bebendo água, escuto o barulho do salto, ela voltou correndo.

_Esqueci a minha bolsa - ela disse.

Mas todo mundo sabe que voz interior não gosta de usar bolsa. Se eu prestar atenção, posso vê-la sorrir encabulada, fingindo que procura alguma coisa atrás dos meus olhos. Eu sou um caso perdido, e gosto de pensar que ela não consegue viver sem mim. Acho que ela não vai me abandonar, não senhor, espero que não. Eu tenho que reconhecer que preciso muito dela.

_E tem mais, você é que é caipira - disse a minha voz interior.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

O que mais precisavam

No último sábado resolvemos ir olhar uma "venda de garagem" perto de onde moramos. Ultimamente parece que esse tipo de comércio tem aumentado muito por aqui. Resolvemos conferir dois endereços estampados em faixas coloridas. No primeiro lugar, vi um banco de ferro bem bonito, mas tinha tanto zero na etiqueta de preço que nem quis ver o primeiro número. Dentro da casa sombria outras coisas velhas e estragadas também estavam sendo vendidas a preço de antiquário. Eu e a minha mulher fomos embora depressa.

A segunda casa era bem ventilada e todas as tranqueiras velhas e estragadas que as pessoas estavam vendendo tinham sido colocadas em volta da piscina. Vi uma bancada forte e bonita de madeira, mas não estava à venda. Minha mulher viu uma mesa elegante, parecia uma bandeja grande com pernas finas e torneadas, mas achou caro demais.

Eu vi um amplificador pequeno, que me pareceu muito barato, mas não entendo nada de amplificadores. Pensei em comprar para o meu sobrinho, que agora está tocando guitarra muito bem. Depois pensei melhor. O rapaz já deve ter um amplificador para a guitarra, o que faria com outro? Então continuei a olhar as coisas.

Uma coisa inevitável em "garage sale", pelo menos para mim, é imaginar os motivos que levam as pessoas a realizar essas vendas. Não falo da necessidade de dinheiro, mas da fatalidade associada à falta de grana. Na primeira casa (aquela sombria) que visitamos, por exemplo, eu senti cheiro de separação no ar. As coisas que estavam à venda, o que incluía um monte de roupas e apetrechos femininos, me levaram a pensar que era a mulher que tinha saído de casa. Em retaliação fogosa, o marido resolveu vender até as suas calcinhas. Sim, havia um pequeno monte de roupa íntima sendo vendido. O clima na casa era de vingança. E talvez isso explicasse os preços absurdos das etiquetas: o ex-marido avaliou os itens pela preferência da ex-mulher. Queria lucrar muito com a dor que lhe causava.

Na outra casa, o jeitão era de mudança de endereço. As pessoas donas daquilo tudo pareciam estar jogando peso e volume para fora do barco. Elas queriam chegar no novo lar com apenas o que mais precisavam. Talvez por isso tenha dado sorte. Encontrei duas (2) cadeiras de cana da índia, trançadas, precisando de uma reforma. A etiqueta em uma delas marcava 40 mangos.

_Quarenta?! - eu disse.

_Mas pra você, eu faço por trinta, cada uma - disse a moça que estava coordenando as vendas.

_Feito - eu disse.

E foi assim que conseguimos duas velhas/novas cadeiras para a varanda. Já providenciei alguns pequenos consertos. Mas ainda falta arrumar novas capas para as almofadas e recuperar toda a estrutura da cadeira com betume.

Jeff Beck - Sleep Walk



Jeff Beck - Sleep Walk

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

The Beatles - Because (Take 16)



Bacana.

Um ou dois leões por dia



Tarzan/John Buscema/Ebal/ago/set/1978



Minha filha não estava muito bem e corri para ir pegá-la na escola.

_Ah, paiê, é você? Minha mãe é que vinha me buscar.

_Ela viria, mas ela está cheia de reuniões nesta semana, filhota.

_Mas eu estou doente, paiê, ela é que devia me pegar na escola.

_Na próxima ela virá, com certeza. Mas hoje não deu. Sua mãe está caçando um leão por dia, nos últimos tempos.

_Um leão?

_Às vezes, dois.

_Mas a mãe é psicóloga, paiê.

_Os psicólogos são muito bons caçadores de leões.

_E os jornalistas, paiê? - ela provocou, porque sabe que eu sou jornalista.

_Tem alguns que são muito bons com leões - eu disse.

-Você era dos bons, paiê?

_Não. É preciso muito entusiasmo para caçar leões todos os dias.

_É por isso que você ainda não arrumou outro emprego, paiê?

_Talvez seja por isso, filha.

Talvez seja mesmo por isso, eu preciso admitir. Ou talvez eu tenha sido melhor engolidor de sapos do que caçador e agora simplesmente não consigo mais.

domingo, 2 de outubro de 2011

A lógica da Caderneta

Uma das maravilhas analógicas que jamais poderão ser substituídas pela parafernália eletrônica é a Caderneta da Minha Mãe. Assim mesmo, com tudo em maiúscula. Essa agenda segue uma lógica em 3D, 4D e 5D que deixaria um Steve Jobs de queixo caído, coisa irreprodutível pelos gênios dos algoritmos e da computação moderna. A Caderneta tem de tudo um pouco e sobretudo, só minha Mãe consegue encontrar uma coisa ali.

À primeira vista, a Caderneta segue a ordem alfabética. Mas isso só vale para os nomes de parentes, para as pessoas da família. Minha Mãe anota o primeiro nome da pessoa e às vezes coloca o apelido entre parênteses, porque tem muito nome repetido na minha família. Tem muito telefone que mudou, mas na hora de anotar, todo mundo sabe, nunca tem lápis e borracha por perto, então existem números riscados e anotações feitas com qualquer coisa que estivesse à mão. Isso vale para lápis de maquiagem a carvão de palito de fósforo.

Além de conter as datas dos aniversários de todos os parentes, a Cardeneta é a minha única e melhor fonte de telefones de prestadores de serviços. A lista dos aniversários ficava na contra-capa da Caderneta, mas minha Mãe pensou melhor e resolver copiar a lista para a página da letra Q.

_Ué, Mãe, não entendi.

_Eu ia copiar na letra P, de Parabéns, mas a página já estava quase cheia, não ia caber. Então eu usei a página seguinte, não é ótimo?

_Ô, ficou uma beleza. E Mãe, mudando completamente de assunto, você pode me indicar um dentista?

_Tem a Doutora Regina, procura ela aí na Caderneta.

_Está em R? - eu disse.

_Não.

_Está em D, de doutora ou dentista?

_Não, está em C - disse a minha mãe.

Fiz cara de dúvida.

_É, C de Canal. Eu só comecei a tratar com ela por causa de um canal - ela explicou.

_É, está aqui. Nossa, Manhê, nessa Caderneta tem de tudo, hem? Mas por quê Benones está na letra E.

_Ele é eletricista, ué.

_Ah, está por profissão. Mas eu estou procurando o Adailton, que é eletricista também e ele não está aqui. Tenho certeza de ter dado o telefone dele para a senhora.

_Você me disse sim. Mas você também falou que não gostou do serviço dele e aí eu anotei em outro lugar.

_R de ruim.

_N de negativo. Tem um sinalzinho de menos em cada nome.

_É mesmo. E puxa vida, tem um monte de gente no N com negativo.

_É uma lista Ne-gra.

_É bem lógico. E Mãe, onde eu encontro o telefone daquele marceneiro que fez a sua estante?

_Olha em E - disse a minha Mãe.

_Ele também é eletricista?

_Não, ele é um sujeito Enrolado.

_Claro, claro.

É de fazer Steve Jobs babar.

sábado, 1 de outubro de 2011

King Crimson Matte Kudasai



King Crimson Matte Kudasai
Album:DISCIPLINE,1981
- Adrian Belew / guitar, vocals
- Bill Bruford / drums
- Robert Fripp / guitar, devices
- Tony Levin / Stick, basses, backing vocals

Frase do dia


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