quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Poemas prediletos



The Cat Empire - Nothing

Dizem que todo mundo tem um. O meu poema predileto de Drummond é Conclusão.

CONCLUSÃO

Os impactos de amor não são poesia
(tentaram ser: aspiração noturna).
A memória infantil e o outono pobre
vazam no verso de nossa urna diurna.

Que é poesia, o belo? Não é poesia,
e o que não é poesia não tem fala.
Nem o mistério em si nem velhos nomes
poesia são: coxa, fúria, cabala.

Então, desanimamos. Adeus, tudo!
A mala pronta, o corpo desprendido,
resta a alegria de estar só, e mudo.

De que se formam nossos poemas? Onde?
Que sonho envenenado lhes responde,
se o poeta é um ressentido, e o mais são nuvens?

Carlos Drummond de Andrade in Fazendeiro do Ar.
Reunião: 10 Livros de Poesia. RJ: José Olympio, 1969


O meu poema predileto de Fernando Pessoa às vezes é chamado de Poema em Linha Reta.

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado,
Para fora da possibilidade do soco;
Eu que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu que verifico que não tenho par nisto neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo,
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu um enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana,
Quem confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Quem contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde há gente no mundo?

Então só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos — mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.


Álvaro de Campos, in "Poemas"
Heterônimo de Fernando Pessoa


terça-feira, 30 de outubro de 2012

IPAD no feriado



THE FEARLESS VAMPIRE KILLERS - LOADED GUN

Retomei somente hoje o trabalho com a mesa de apoio. Foi necessário lixar muita madeira, então passei a manhã usando máscara e avental. O calor estava horrendo, só foi chover no início da noite. Eu e meu irmão ficamos admirados com a cor da lua, estava vermelha como eu nunca havia visto. Mas num instante, logo depois da chuva rápida, o calor voltou com força total. Agora é como se vivesse a minha vida em banho-maria.

Amanhã, depois de um mês e um furo na mão esquerda, devo concluir esse projeto. É bem verdade que também fiz um pequeno armário sobre rodas, que revesti de estacas de massaranduba. Essa madeira havia sobrado da mesa que fiz para minha mãe. O quintal voltou a ser verde, a jabuticabeira está florida, mas estou sentindo falta das abelhas. No ano passado, elas enxameavam em volta da jabuticabeira. Sem elas, não teremos muitos frutos.

As crianças economizaram bastante e conseguiram comprar um IPAD 2G, com 64 GB, que chegou hoje dos EUA. Estamos decidindo como faremos a entrega do aparelho. É um equipamento poderoso, que custou aos dois um ano inteiro de pequenos sacrifícios de passeios, doces, brinquedos e cinema, além do dinheiro que ganharam dos tios e avós nos aniversários. Decidimos entregar o IPAD no feriado, até lá vamos ter que bolar uma disciplina para evitar disputas. Montei uma pequena rede em casa, para os laptops e games, talvez incremente a interação entre aparelhos e PCs com o uso do IPAD.

Lembro de ver na casa de um amigo uma rede bem interessante, com celular, TV e som integrados ao IPAD e ao ITunes. Fiquei deslumbrado com o cardápio audiovisual que era possível manipular e exibir rapidamente em um aparelho ou outro. Estou longe de ser capaz de montar uma rede tão interativa, mas é sempre possível tentar. Ainda não me adaptei ao horário de verão, às onze da noite os olhos começam a lacrimejar de sono.

Entre os novos projetos, acho que está na hora de começar a grande estante do escritório. A melhor pedida é fazer por módulos, utilizando pranchas de eucalipto mais grossas. Na parede ao lado do computador que uso, existe um pequeno beiral de 15 cm de largura que servirá de apoio para a primeira fila de módulos, cada um com oitenta centímetros de comprimento. Mas o essencial é fazer o primeiro, usando primeiro um verniz cor de mel e depois um mais escuro se for o caso.



segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Encontraram meu IPOD



HARRY - MY BORING LIFE

Depois de me assistir a revirar metade da casa atrás do meu IPOD, minha mulher ficou com pena e também tratou de procurar. Hoje de manhã, quando já havia desistido e lançava o IPOD na lista de Perdidos Para Semperê, ela surgiu triunfante com o IPOD na mão.

_Nossa! Nossa! Que bom, que bom, que bom. Eu já tinha entregado os pontos, reconhecido minha derrota depois de revirar a casa inteira duas vezes. Que bom que você encontrou! Só por curiosidade, onde é que estava?

_Não vou dizer.

_Ah, deixa disso. Desde a viagem a Uberlândia eu tenho revirado a casa inteira. Procurei dentro do carro, olhei atrás das estantes e dos armários, tirei até os colchões das camas das crianças para olhar por baixo. Pra você ter uma idéia, eu olhei até o armário da bagunça.

_Não acredito. Eu nem abro aquele armário que pode cair alguma coisa na minha cabeça.

_Caiu na minha, acredite. Quase fui soterrado por uma sacola cheia de contas velhas e antigas declarações de renda.

_Machucou?

_Agora está tudo bem. Mas me diga, onde você encontrou o IPOD?

_Não posso.

_Eu olhei até no fundo do armário do banheiro, acho que não deixei nenhum lugar de lado.

_Deixa pra lá, o importante é que agora você está com o IPOD.

_O único lugar que não olhei foi na sua bolsa. Mas não precisava, pois eu te perguntei duas ou três vezes se você tinha olhado a bolsa. Você até ficou chateada com a minha insistência. Me desculpe. Eu ainda insisti mais uma vez, mas você foi categórica, não es-tá co-mi-go, você disse. Desculpe, desculpe. Eu não deveria ter duvidado de você e insistido à tôa. Você tinha toda razão em ficar irritada quando perguntei pela quarta vez e você me garantiu que já havia olhado a bolsa TRO-CENT-TAS e que o IPOD não estava com você. Eu sou muito insistente, eu sei, do tipo insistente chato. O importante é que o IPOD está de volta. Mas diga lá, por favor, onde é que estava?

_Na minha ojjsa.

_Desculpe, não entendi.

_Na BOLSA! ESTAVA NA MINHA BOLSA! ESTÁ FELIZ, AGORA?



Às vezes eu acho que a minha vida é uma novela com um enredo bem fraquinho.

domingo, 28 de outubro de 2012

sábado, 27 de outubro de 2012

Das coisas que eu já cansei



Clarice Falcão - Uma canção sobre amor, ah o amor...

Já me cansei de um monte de coisas, inclusive de algumas que ainda não fiz. Bungee Jump, por exemplo. Cansei de bumgee-jump. Não consigo mais me imaginar prendendo os tornozelos numa corda elástica e pulando de uma ponte a 400 metros de altura. Fico cansado só de imaginar as fivelas nos tornozelos, hoje em dia não passo daí. Mas antigamente eu pensava até bem mais longe. Eu me via respirando bem fundo debaixo do capacete. Eu até mesmo olhava para baixo, na beirada daquela ponte imaginária e via o riacho passar bem fininho lá no fundo. Podia fechar os olhos e me concentrar na batida do coração, depois respirar bem fundo e deixar o corpo cair. Nessa hora, na minha mente, eu ficava em dúvida sobre abrir os braços ou não. Tem gente que pula com os braços cruzados, as mãos praticamente segurando os ombros. Outras pessoas abrem os braços como se fossem asas e inclinam as mãos, como se fosse possível alterar a direção do vôo com apenas uma pequena mudança de posição da ponta dos dedos. Seja como for, parece haver uma preferência em mergulhar de cabeça no bungee-jump, mas hoje em dia não consigo mais pensar nisso, cansei.

Também estou cansado de pensar em asa delta. É muito demorado e é preciso chegar bem cedo aos lugares onde se pratica asa delta. Houve uma época em que para mim não parecia loucura ficar preso ao um triângulo de alumínio e lona e flutuar a 500 metros de altura, mas hoje isso também me cansa. Uma vez quase saltei, preso a um instrutor. Na hora h, olhando para o precipício, amarelei total e não consegui dar um só passo. O sujeito fingiu que entendeu, as outras pessoas na área também simularam e houve até alguém que disse que era comum aquilo acontecer. Seja como for, cansei de asa delta.

Mergulhar também me cansa. Nunca mergulhei, é verdade, a desculpa de ser míope sempre falou mais alto. Pô, eu só conseguiria enxergar os peixes e os corais que encostassem no meu nariz. Também sempre me aterrorizou a idéia de subir rápido demais e ficar doente, sem falar nas moréias. Tenho pavor de moréias. Pode ser das pequenas. Na última vez em que estivemos na Bahia, as crianças encontraram uma pequena moréia presa nos recifes. Todo mundo se aproximou, viu de perto, teve até alguém que encostou o dedo na moréia. Eu mantive uma distância prudente de dez metros. Então, esse negócio de mergulhar me dá uma canseira danada, não é comigo.

Mas hoje fiquei olhando um tempão uns caras tentando aprender ski aquático. Pareceu bem interessante como o calor que vem fazendo. E simples. Os caras na lancha puxam você por uma corda. Você só precisa segurar firme e manter os dois pés presos num pranchão. Caso você erre, cai dentro dágua. Pô, me pareceu bom demais.

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Na torcida para Serra



Jeff Beck w. Sting - People Get Ready

O voto é de cada um, vote como você quiser, isso aqui é só um blog pessoal e independente, em que expresso minhas opiniões livremente. Não voto em São Paulo. Mas torço para que José Serra vença, porque tem um histórico de experiente administrador, com bons resultados alcançados, que não está e jamais esteve envolvido em tramóias e com gente corrupta e, para mim, se conduz de maneira digna e correta na sua vida pública. Não tenho bola de cristal para saber, com certeza, que se José Serra vier a perder a eleição do próximo domingo isso será ruim para os moradores da capital paulista. Só acho que sim, tenho esta impressão.

Se a derrota de José Serra ocorrer, acho que será muito ruim, porque significará a vitória de um modo de fazer política que considero deplorável: a política do vale-tudo. A vitória a qualquer preço significa, obviamente, a derrota de quem se pauta por valores e princípios éticos, de quem não se utiliza de mentiras, subterfúgios e alianças espúrias com gente procurada pela polícia. Significa também a derrota de quem respeita as regras da disputa democrática e não procura, a todo instante, distorcê-las em benefício próprio.

O outro candidato tem o apoio escancarado de políticos condenados pelo Supremo Tribunal Federal, de políticos procurados pela Interpol, de políticos que queriam disputar o cargo e desistiram porque ganharam ministérios, de ministros que deveriam ser servidores públicos, de um ex-presidente fanfarrão e bravateiro e ainda de uma política que foi eleita e jurou ser a presidente de todos os brasileiros, mas que não perde a chance de mostrar o quanto é parcial e grosseira nos palanques em que sobe. Isso, para mim, fere o decoro do cargo e ridiculariza o seu exercício. Tenho a maior vergonha alheia quando vejo os vídeos. Essas companhias, por piores que sejam, é claro que não fazem do ex-ministro um mau candidato. Mas seguramente não fazem dele um candidato melhor aos meus olhos.

O ex-ministro também não tem a seu favor uma história de realizações. Ao contrário, pesam sobre ele resultados duvidosos e falhas ostentosas na condução de programas que anteriormente funcionavam. Também foi sob a sua gestão que nasceram e tiveram morte anunciada os polêmicos kit gays, que ao invés de incentivar a boa convivência, tolerância e respeito à privacidade e às diferenças entre os indivíduos, parece fazer propaganda de algumas práticas sexuais. Sim, isso também não faz dele um mau candidato, mas o contrário também é verdadeiro.

Sua história de vida política e pessoal é cheia de sucessos, com uma rápida escalada de cargos públicos. É simpático, é considerado bonitão pelo mulherio, é articulado e não parece estar contaminado pelas práticas delubianas que envolvem o seu partido e já condenadas pelo Supremo Tribunal Federal. Mas, como a presidente que o apóia de maneira tão despudorada, não é candidato movido por ambição e vontade própria, foi escolhido a dedo e imposto pelo ex-presidente bravateiro na disputa. Se vitorioso, o ex-ministro deverá a prefeitura ao padrinho, que também poderá se fazer dono do seu destino em 2014. Novamente, isso não faz dele um mau candidato, mas também não o melhora.

Curiosamente, somente Serra é continuamente cobrado por ter deixado a prefeitura para se candidatar à presidência. Não ouvi, até hoje, nenhum comentário sobre a possibilidade mais do que tangível para o caso do seu adversário. O que acontecerá? Serra, com altíssima rejeição, possui seguramente um problema de imagem. Os jornalistas parecem detestá-lo e o espinafram diariamente. Seus companheiros de partido também parecem detestá-lo. Também é continuamente exibido em flagrantes ridículos, com mulheres horrorosas tentando beijá-lo(hoje foi a Mulher Berinjela), sapatos voando ao chutar a bola, olheiras fantásticas. O marqueteiro deveria ter chamado alguém para ensiná-lo a bater pênalti, convocado uma beldade para beijá-lo na bochecha. Mas que sei eu? Sou um tolo, acredito e gosto das pessoas que falam a verdade, com o coração aberto, e que têm uma trajetória de luta e respeito ao trabalho dos outros. Se eu votasse em São Paulo, votaria no Serra.

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Um possível início



Nicole Atkins and the Black Sea "My Baby Don't Lie"

Caiu uma chuva forte e curta no meio da tarde. Rafa, o cãozinho shi-tzu da minha filha, havia aproveitado o portão aberto pelo jardineiro e escapado para a casa que fica em frente à minha. Meus vizinhos deixam o portão aberto o dia inteiro e o Rafa, quando tem uma chance, corre para lá por causa da cachorrinha deles. Nem sei qual é o tipo, mas acho que o Rafa é como todos lá de casa, mistureba total.

Na minha família tem de tudo, tem bisavó índia, avô negro, primo japonês, tio judeu, tio muçulmano, uns dois ou três turcos que curtem orixás, pelo menos um polaco e um nanico que se diz afro-indo-palestino mas que é louro e tem olhos azuis. Minha mulher tem sangue japonês, português, angolano e um tio budista que era milionário mas perdeu tudo o que tinha jogando dados. Sim, os conceitos também são todos misturados com as cores, religiões e ritmos na minha família. É uma zona.

Pois bagunça maior fez o Rafa quando correu para namorar a cachorra do vizinho e a chuvarada o pegou no meio do caminho. Num instante uma enxurrada forte se formou e Rafa, que é super-valente e só tem medo de raio, trovão, baixinhos de bigode e luz de lanterna piscando, ficou desesperado do outro lado da rua, latindo feito doido, a enxurrada grossa e forte descendo a rua.

O jardineiro correu para ajudar, mas o Rafa não queria saber de ajuda de quem não é da família. Latiu, rosnou e até ensaiou umas mordidas no jardineiro. Lá da garagem dava pra ver os olhos do Rafa, ele não queria ajuda de mais ninguém, tinha que ser a minha, eu vi. Então eu corri debaixo da chuva e pulei a enxurrada, porque de onde eu estava tive medo de que o Rafa caísse e fosse engolido por uma boca-de-lobo. As pernas do Rafa são curtinhas de dar dó, ele nunca conseguiria pular uma enxurrada daquele tamanho. Na verdade, no meu delírio apavorado, eu já tinha visto um cavalo, duas onças, uma cabra e dois tatus sendo levados pelo furor aquático da enxurrada.

Voltei com o Rafa nos braços e fui recebido como herói pelos meus filhos aos prantos, Rose( a governanta-cozinheira-babá-graduanda-trancada-de-assistência-social-bolsa-suspensa-coitada) e pelo jardineiro, que disfarçaram as lágrimas. É bem verdade que os festejos duraram pouco porque o Rafa deu uma daquelas chacoalhadas que os cachorros dão para se secar e molhou todo mundo. Eu não me importei porque já estava todo molhado, ou melhor, completamente encharcado e com um dos pés fazendo chap-chap-chap, a meia furada no calcanhar direito. Só faltava uma rã saltar da manga da minha camisa. Ali estava eu, o Careca no brejo. Feliz da vida.

Do mesmo jeito que veio, a chuva sumiu num instante, foi quase num estalar de dedos. Tlec. Só precisei trocar de camisa, um par de tênis secos, meias limpas e saímos para as atividades do dia. As crianças fazem natação e judô aqui perto de casa, mas não tem jeito de ir à pé. Era isso ou ficar uma hora para levar e outra hora para buscar dentro do carro. Preferi acompanhá-los. Essa coisa tão prosaica de levar as crianças para as atividades físicas me constrangia demais, eu me sentia super mal. Eu era o único homem a fazer isso, e na minha testa parecia estar escrito mané desempregado, era um horror. Mas no início eram avós, mães, tias e dodós, todas olhando para o papai aqui com o ar de alívio porque os maridos estavam em outro canto, trabalhando e ganhando dinheiro, não era como o mané aqui, careca, míope e com uma bolsa a tiracolo ridícula pendurada no ombro. Precisei erguer uma barreira de defesa mental muito alta, enchi um caderno de desenhos e estudei um pouco durante as aulas para superar aquele olhar altaneiro. Fiquei muito tempo dizendo para mim mesmo, você não é um mané, você não é um mané. Quase acreditei.

Mas talvez eu estivesse enganado quanto aos olhares do mulherio. Agora um monte de caras, alguns com muito mais cabelo do que eu, também estão aparecendo por lá, levando as crianças. Talvez as vovós, titias, mamães e dodós tenham me visto e exigido com os seus respectivos barrigudos que deixassem o campeonato europeu de lado e também mexessem os bumbuns e tratassem de acompanhar a molecada na natação e no judô. É, porque o número de homens à espera está quase igual ao de mulheres, todos nós muito circunspectos e sérios, folheando apostilas de concursos públicos, lendo artigos de jornal, livros, essas coisas. Ainda não desfrutamos daquela camaradagem íntima que só as mulheres conseguem estabelecer de primeira, no primeiro contato, discutindo capítulos da novela, falando de roupas e rindo das coisas bestas da vida com naturalidade e sentido prático. Mas quem sabe um dia não chegamos lá? Sim, alguns sujeitos já estão mais descontraídos, puxam conversa sobre política, falam sobre o julgamento do mensalão e ensaiam perguntas sobre futebol. Coisa pouca, insipiente ainda, mas é um início. As coisas têm que começar de alguma maneira, não é mesmo?

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Deitando o cabelo para Uberlândia



Moby - Go

O velocímetro marcava cento e dez.

_No interior é assim. Ninguém diz fulano saiu em disparada. Não se fala pisaram na tábua. Não se diz a todo vapor. Mas todo mundo entende quando se diz que alguém deitou o cabelo para algum lugar.

_O que significa?

_O óbvio. Significa que correu muito, que foi a toda pressa, que acelerou ao máximo.

_Ah, velocidade! Por quê os homens gostam tanto de velocidade?

_Não, não, por favor, não transforma essa conversa despretensiosa num diálogo sobre a diversidade de gênero.

As crianças dormiam no banco de trás. Dormiam como só conseguem dormir as crianças, totalmente relaxadas, as cabeças quase soltas e os maxilares caindo de vez em quando.

_Mas é verdade, as mulheres não falam tanto de velocidade.

_Tem razão, tem razão. E muitas mulheres não gostam de velocidade. Eu tinha um amigo na universidade que as meninas chamavam de Rapidinho.

_Lá vem você com gracinha.

_Eu? Quêisso, estou levando um papo sério. Estamos na estrada pra Uberlândia, faltam só quatro horas de viagem. Do que eu estava falando?

_Do seu problema de memória.

_Lembrei. Eu falava do Rapidinho. Você sabe a piada do casal de coelhinhos? Vai ser bom, não foi? Rá!Rá!Rá! Pois de acordo com as meninas, o Rapidinho era pior. O sujeito era o Airton Senna das garotas da universidade. Plunct, plact, zuumm, pode sair sem problema algum.

_É melhor você contar depois. As crianças podem ouvir.

_Nada. Elas estão dormindo. E é bem rapidinho, sem querer fazer trocadilho.

_Na verdade, eu não quero saber.

_Tudo bem, tudo bem, não falo mais nada.

A estrada parecia ter ficado bem reta, de repente, e tudo ficou monótono também. Era possível ver enormes plantações de soja e cana. Em algumas, grandes estruturas de irrigação estavam em funcionamento. Era a terceira vez que tocava um CD dos Beatles. Nuvens gordas, parecendo com chumaços fofos de algodão, se comprimiam no céu. Uma placa com um grande veado saltando passou num flash, à direita.

_Desculpe. Mas já conversamos assim, antes. Quando você tira umas pessoas do bolso, fala de umas coisas que nunca falou antes, eu já desconfio. Não existe nenhum Rapidinho, não é? Nunca existiu. Às vezes eu acho que você fica testando diálogos comigo.

_Não, é sério. O Rapidinho era legal, super gente boa. E acho que eu já tinha falado dele antes. Olha o táxi, ploft, o quê, ploft, hã?, ploft.

_Não, nunca falou. Tenho certeza.

_Seja como for, eu não fico testando diálogos. Que coisa mais estranha para se dizer!

_Mais estranho que falar de deitar o cabelo?

Algumas dezenas de quilômetros mais tarde, o ritmo de plantações havia aumentado e depois diminuído um pouco. As nuvens agora estavam mais esparsas e manchadas de cor-de-rosa. Fazia calor mesmo a cento e dez por hora. O CD dos Beatles estava guardado. Ela não agüentava mais. Depois de uma breve parada para ir ao banheiro e lanches rápidos, a viagem continuou.

_Já reparou que a gente conversa em círculos?

_ A gente, não. Vo-cê conversa em círculos.

_Não, é sério. Plunct, plact, zuuum...Daqui a pouco vamos falar de novo em deitar o cabelo e velocidade, você vai ver.

_Se depender de mim, não vamos, não.

_E se eu dissesse que sim?

_Sim, o quê?

_Os diálogos.

_Você vai admitir que testa diálogos comigo?

Mas antes que ele dissesse alguma coisa, um motoqueiro ultrapassou o carro a toda velocidade.

_Você viu o louco? Sem capacete!

_Deitou o cabelo, né?

E com um ar de triunfo, ele colocou o disco do Balão Mágico. As crianças acordaram e cantaram em coro o refrão de Plunct, Plact, Zum.


segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Feliz aniversário, Careca!



BANANA !

Soprei o bolinho hoje, obrigado a todos! Ainda estou me adaptando ao horrível horário de verão, não vou escrever hoje.

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Eu não matei Max



Adele - I'll Be Waiting

Soube hoje que todo mundo no Brasil parou pra ver a novela e descobrir quem matou Max. Foi matéria de capa em jornais, assunto quente no rádio e nas redes. Eu fiquei calado, na minha, é claro. Afinal, quem seria Max? E quando dei por mim, me flagrei lembrando do saudoso Rolando Lero.

_Mataram Max!! Oh, não! Oh, não! - exclamaria Rolando Lero, agitando seu lenço colorido. O Prof. Raimundo daria aquela olhadinha sarcástica para o espectador.

_E quem teria sido o criminoso, o fascínora, o vilão sanguinário que matou Max, amado mestre?

_Mas foi isso que acabei de lhe perguntar, seu Rolando Lero! Eu não devia, mas vou lbe dar uma dica. Quem matou Max foi a Car...a Car...

_Captei a vossa augusta mensagem, amado mestre! Quem matou Max foi a cara de pau do desgraçado, vai ser canastrão assim na casa do chapéu...

O Prof. Raimundo chamaria aquele janotinha para dizer quem matou Max e eu veria Rolando Lero fazendo uma coleção de caretas sensacionais.

Num instante o devaneio sumiu. Em seguida fiquei pensando que se o julgamento de Carminha chegasse ao Supremo depois de sete anos, Lerrevisandóviski e Tílburi a absolveriam por falta de provas e ainda esculhambariam o MP por aceitar a confissão da ré. Gilmar, Celso de Mello e Marco Aurélio ficariam estupefatos mas iriam demorar umas duas horas cada um para expressar veemente repúdio. O restante seguiria o voto do relator.

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Pneus

Uma das coisas mais difíceis do mundo quando se está em contenção de despesas nível cinco alerta vermelho, como eu, é comprar pneu para o carro. Sim, é equipamento de segurança, peça fundamental, etc, e custa uma nota preta. Fiz pesquisa e descobri uma quase inacreditável variação de 1 por cento nos preços praticados. Ou seja, como em todo o setor de máquinas, ferramentas e equipamentos, os preços são quase homogêneos. Onde você consegue um preço melhor, o sujeito diz que está cortando na margem de lucro pra valer, faz cara de choro, reclama da mensalidade da escola e ainda dá tapinha nas suas costas. Somos todos irmãos quando se trata de espoliação.

Só por curiosidade, criei o hábito de sempre olhar o preço dos mesmos produtos no exterior. A comparação sempre me deixa com a sensação de estar sendo roubado, então não faço isso com frequência. No exterior, pneus não custam tão caro. Aliás, praticamente nenhum produto industrializado custa tão caro quanto aqui. Nosso mercado também é ridículo em termos de oferta e variedade. Mas chega de falar disso.

O ministro Apelandówiski fez hoje o que se esperava dele: voltou atrás, mudou o voto e absolveu dois quadrilheiros já previamente condenados como tais no julgamento do mensalão. Com o troca-troca, Aleviandówiski escreveu em definitivo sua alcunha na tampa do mais profundo bueiro da história da justiça brasileira. Ele será para sempre lembrado como Livranduiski, o grande defensor de larápios e corruptos do mensalão.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Jogos



The Amazing Jimi Hendrix

Um jogo de Super Trunfo possui 32 cartas. Cada uma traz uma foto do tema do baralho e uma pequena lista de características como tamanho, peso, velocidade, profundidade máxima ou qualquer outra coisa. Os jogadores disputam quem vence escolhendo uma das características. O número maior sempre vence. Eu e meu filho passamos algumas horas jogando Super Trunfo dos Tubarões. Eu nem sabia que existiam tantos tipos diferentes, mas dei sorte no início e acumulei muitas cartas. Meu filho ficou na zona de perigo, com apenas duas ou até uma carta na mão. Mesmo assim acabou vencendo o jogo porque sabia exatamente qual era o ponto forte de cada um dos tubarões. Ele sabe de cor qual é a característica vencedora de cada uma das espécies de tubarão do jogo.

Minha filha adora jogo da memória. Ela é a melhor da família e quase sempre vence, mas fica completamente arrasada quando perde. E também apela. É capaz de derrubar o tabuleiro de xadrez, de virar a mesa do dominó ou de desmanchar toda a arrumação do Banco Imobiliário se estiver perdendo por uma diferença muito grande. Depois que apela, minha filha fica irreconciliável e se fecha em copas, sentada num canto abraçando os joelhos.

Minha mulher não gosta de video-games, mas de vez em quando vai brincar de kinect com as crianças. Eu gosto de ver os três se mexendo e pulando na frente da TV.

Eu deixei de jogar na mega sena.







terça-feira, 16 de outubro de 2012

Resgatando o Sortudo

No domingo meu irmão me ligou e pediu para ir a Vicente Pires ver um cachorro de cinco meses. O bairro fica entre a Estrada Parque Taguatinga e a Avenida Estrutural, bem em frente a Águas Claras. Eu estava no Guará, bem pertinho. Fui com um dos cunhados, que a área tem fama de ser barra pesada. Meu irmão passou umas indicações legais, mas depois de dez minutos rodando em Vicente Pires meu cunhado chegou à conclusão de que estávamos perdidos e que seria melhor ver se encontrávamos um Chapa ou perguntássemos para alguém.

_Não, está tudo bem. Acho que estamos quase lá - eu disse.

_Qualé, Careca? Vai me dizer que está com vergonha de perguntar pra alguém? - disse o meu cunhado.

_Não é isso. É que estou com a sensação de que vamos achar a Rua 8 logo, logo.

_Está de sacanagem? Tem vinte minutos que estamos rodando nessa área. Já atravessamos Vicente Pires, não percebeu? Ali é a Es-tru-tu-ral.

_Rapaz, não é que é mesmo! Bom, vamos voltar.

_Não, senhor. Não, senhor. Vamos pedir informação.

_Então pergunta praquele brother ali, ó, aquele da cor do ministro fodão que está botando pra quebrar no mensalão. Ê, cabra bom, aquele ministro!

Meu cunhado perguntou o endereço para o brasileiro, que não só sabia onde era como estava indo para lá pertinho naquele instante e será que vocês poderiam me dar uma carona?
Diante de nossas caras de paisagem, o cidadão levantou a camisa, girou um giro de 360 graus em câmara lenta e disse que era de paz, honesto, pai de família e trabalhador. Pra falar a verdade, eu já havia engatado a primeira e estava preparado para uma superarrancada no melhor estilo frita pneus de filme de gangster, mas a demonstração de que não havia porte de arma branca e nem de fogo foi convincente, relaxei mesmo, a polícia civil continua em greve há mais de setenta dias, então todo cuidado é pouco. Pedi para o cunhado ir para o banco de trás e o brother ficou no banco de passageiro, ao meu lado. O meu cunhado é quase uma moça de gentil, mas é grandalhão e vi que o brother demonstrou o adequado respeito ao tamanho dos outros. Em cinco minutos, achamos a Rua 8. O brother se despediu, agradeceu e apontou para a direção a seguir. Em dois minutos estávamos na frente do condomínio.

_Esse cachorro é de qual raça? - disse o cunhado.

_Boxer - eu disse.

_Mas você não tem um shi-tzu?

_Tenho. É da minha filha. O boxer é para o meu pai.

_Mas seu pai já não tem um boxer?

_Tinha dois, mas morreram de leishmaniose. Agora ele tem um dobberman.

_Vice!

_Pois é, o boxer vai fazer companhia para o doberman.

_E o seu pai?

_Que que tem o meu pai?

_Ele quer ter dois cachorros?

_Para ele, dois é melhor do que um - eu disse.

_E pra você?

_Mesma coisa, mas já temos dois bichos. Tem o Rafa e a Beta.

_Uma cadelinha?

_Não, é um peixe beta, cor-de-rosa. Não temos nem certeza se é fêmea.

_O nome Beta é abreviação de Bethânia?

_Não, é corruptela de analfabeta, porque ela não sabe ler nem escrever.

_Engraçadinho.

_Olha lá, deve ser o dono do boxer, vai abrir o portão, finalmente.

O dono do boxer trouxe o animal pendurado num dos braços. Era bem miúdo e estava bem assustado. Fiquei com dó do bicho. O dono disse alguma coisa sobre uma pessoa que havia desistido do boxer, no final de semana anterior.

_O elemento me fez perder o dia inteiro e, no final, nem quis levar o cachorro. Espero que vocês não me façam desfeita. Eu deveria estar descansando porque amanhã cedo tenho que estar de prontidão.

_A gene pode ver os pais do boxer? - eu disse.

_Claro, claro. Olha aqui o cartão de vacinas, ele tomou todas, só tem duas atrasadas. Mas é um cachorro muito bom, come de tudo, não tem frescura.

O bicho continuava bem assustado. Os pais também eram miúdos e desajeitados. Havia também um casal de poodles, um fox paulistinha, um vira e um lhasa gigantesco com laços cor-de-rosa.

_É coisa da minha mulher - disse o dono do boxer.

Eu ia aproveitar a deixa para inventar uma desculpa e sair sem levar o cachorro. Eu diria que a minha mulher certamente desaprovaria a compra, uma coisa assim, mas olhei de novo para o boxer e fiquei mesmo com muita pena do animal. Ele tremia encostado a uma grade, todos os outros cães latindo alto, sem parar.

Já se passaram dois dias, mas Lucky, o pequeno boxer, continua com muito medo da gente. Ele só estica o corpo e fica saltitando como todo filhote quando não existe ninguém por perto e ele não percebe que estamos olhando.









domingo, 14 de outubro de 2012

sábado, 13 de outubro de 2012

O tatu Fu



Pluto e o Tatu

A Pata Fup, uma história curta de Jim Dodge, foi uma das mais gratas leituras dos tempos da universidade. Li a primeira versão da editora Brasiliense, mas não tenho muita certeza porque o livro original desapareceu misteriosamente. Não encontro em estante nenhuma. O gozado é que o Cabeça jura que eu peguei o livro dele, o que não é absolutamente verdade. Lembro como se fosse hoje do dia em que entrei no Sebo Antiquarius, que havia ali, logo abaixo da extinta livraria Eldorado, na Rua da Igrejinha, e me deparei com o meu exemplar original de Fup. Comprei por uma merreca, como ainda diz o meu amigo Velho Tom, com quem furei o almoço de hoje.

Fup. É uma historinha maluca, a do livro. Fala de um avô beberrão que se julga imortal e de sua vida junto ao neto Miúdo, um rapaz obcecado em construir cercas na fazenda onde moram. Fup é a pata que auxilia Miúdo a enfrentar o maior e mais perigoso porco-do-mato da região. O livrinho não dura mais que um dia, se você começar bem cedo. E sua justa interpretação e sentido até hoje constitui um desafio significativo. Nunca consegui chegar a uma interpretação de consenso entre dois leitores. Também ainda não conheci quem não tenha gostado do livrinho. Na última vez que li Fup, havia uma introdução do Marçal Aquino, que foi quem traduziu o livro para o português. Não lembro de ter lido esse texto nos tempos da universidade, por isso acho que é coisa de edição mais recente. Mas posso estar enganado. Bom, isso aqui não é resenha de livro, quem quiser que google aí.

O caso é que lembrei de Fup hoje ao ler mais uma notícia sobre o furo de mais um boneco mascote da copa do mundo no Brasil. Parece que o destino desse boneco tatu-bola é ser furado, aonde quer que vá. É o próprio Tatu Fú.



sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Dia das crianças



Muppet Show Swedish Chef Pressed Duck

Hoje meus filhos quiseram café da manhã na cama. E à noite, eles quiseram hamburguer. Então o meu dia foi meio de cozinha. Foi por isso que eu me lembrei do chef sueco, um dos melhores quadros do inesquecível Muppet Show. Sem ele, minha infância teria tido menos risadas.

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Alegria cívica



Trombone Shorty: NPR Music Tiny Desk Concert


Tenho que dar a mão à palmatória, não esperava nenhuma condenação de políticos corruptos no processo do mensalão. Talvez eu tenha sido excessivamente cético, mas mesmo agora não me sinto eufórico e nem mais esperançoso ao ver que os criminosos serão punidos. No fundo ainda receio que alguém se lembre de uma brecha qualquer e os peixes graúdos escapem, ou não fiquem muito tempo atrás das grades. Alguém disse que não se comemora condenação, mas eu me lembro de comemorar quando impicharam aquele presidente. E não fui só eu. Na época, isso era considerado normal, era como uma espécie de “alegria cívica”.

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Meu pé de jabuticaba II


Moldura



Five Alarm Funk - dica do Gravetos e Berlotas

Minha filha foi escolhida uma das melhores leitoras da sala. Ela tem oito anos e trouxe orgulhosa para casa o certificado da escola. Está grudado ao lado do computador. O certificado está assinado pela diretora e pela coordenadora do segundo ano matutino. É candidato certo para as molduras que pretendo fazer ainda neste mês, assim que a minha mão estiver menos inchada. O ferimento foi num local muito complicado, bem na base do L formado pelo polegar com o resto da mão. Ao que parece, haveria necessidade de mais um ponto. Minha mulher acha que um pedaço da ferida está infeccionado. Eu não sei. Há inchaço, sem dúvida, amanhã irei ao médico para conferir novamente e, quem sabe, tirar os pontos.

Choveu um pouco no final da tarde, mas não foi o suficiente. A verdade é que vacilei, confiei na chuva e relaxei com a regada diária das plantas. Terei que refazer a horta. A produção é ínfima e muito inferior ao gasto com água, mas não se trata disso. É uma série de outras coisas. Admito que uma delas é o prazer de falar que eu tenho uma pequena horta no quintal. Não é uma mercedez na garagem. Nem um rolex no braço. É só uma hortinha pequena lá no fundo do quintal, mas é um luxo danado. A horta também tem a ver com as crianças, elas gostam de acompanhar o crescimento das plantas. Já tivemos tomates, cenouras, alfaces, pimenta, morangos, salsa, cebolinha, manjericão e couve. Os dois últimos ainda temos. Dizem que o manjericão perde o sabor depois de florir, mas é mentira. Já temos um verdadeiro arbusto de manjericão, mas as folhas continuam cheirosas e saborosas. Os pés de couve estão com um metro de altura e ainda produzem. O problema é que os pássaros adoram os brotos das folhas e as que conseguem escapar estão sendo atacadas por lagartas. Como andei descuidado, deixei de fazer a ronda diária nas folhas. O estrago foi grande.


No início da noite, um pequeno drama. Rafa abocanhou um dos brinquedos da menina. Por coincidência ou não, foi um minúsculo cachorrinho de massa plástica, que ficou sem uma das patas dianteiras. Está na fila de consertos. Se eu conseguisse desenhar, um dia faria a fila de brinquedos para consertar que existem em cima da minha mesa. Bonecas, lanternas, peças de tabuleiro e agora um pequeno cachorrinho de massa plástica. Observando melhor, a outra pata dianteira está por um fio. Vou tentar um durepoxi ou uma cola de pvc. Mas só amanhã.





Queijim difícil



O queijo e a lei - J. R. GUZZO
VEJA


Estaria a presidente Dilma Rousseff violando a lei se comesse uma fatia de queijo de minas? É perfeitamente possível que sim, pois ela tem de obedecer ao que o governo permite ou proíbe que os brasileiros ponham na boca ao fazer uma refeição. Pelo bom-senso mais elementar, a presidente da República deveria ter o direito de comer em paz o seu queijo — sem precisar, antes, consultar o advogado-geral da União para saber se isso está ou não dentro da legalidade. Mas o Brasil é o Brasil. Aqui, entre outros prodígios da lei, um papagaio tem de ser submetido a autópsia quando morre, para esclarecer suspeitas de alguma infração sanitária — e num país onde se exige um negócio desses, e as autoridades entendem que só existem dois tipos de coisas na vida, as obrigatórias e as proibidas, sempre é bom perguntar tudo. No caso do queijo mineiro, por exemplo, nada é tão simples como parece. A rigor, ele praticamente não pode ser comido fora do território de Minas Gerais, pois tem de respeitar o Regulamento da Inspeção Industrial e Sanitária de Produtos de Origem Animal — e cumprir as exigências feitas ali, ao longo de 900 artigos, é mais do que promete a força humana.

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

É jabuticaba da casa



Adele - I'll be Waiting

A jabuticaba está coberta de flores, prenúncio de uma grande safra também neste ano. No ano passado colhi pelo menos uns 15 quilos, fora o que caiu no chão. Congelamos uns dois quilos e minha mulher fez geléias. Também fez uma calda de jabuticabas para tomar com sorvete que ficou deliciosa. Presenteei vários amigos e parentes com os frutos e também distribuí alguns para dois vizinhos. Nem assim um deles se tornou mais simpático. Talvez não goste de jabuticabas, vai saber. Desconfio de quem não gosta de jabuticabas. E entendo perfeitamente quem tem loucura pela fruta.

No ano passado, duas tias vieram nos visitar na época das jabuticabas. Uma delas experimentou umas duas ou três, fez careta e logo parou de comer. A outra tratou de comer o mais rapidamente possível todas as jabuticabas da vasilha, lambendo os beiços, como faria Tia Anastácia.

_Gostaram da jabuticaba? - eu disse.

_Estão excelentes - disse a tia que comeu quase tudo.

_Achei elas meio pequenas. As jabuticabas lá de casa são bem maiores - disse a primeira tia, que quase não comeu.

_Maior do que essa, só macaúba, tia - eu disse.

_As lá de casa são bem grandes, essas aqui são bem pitoquinhas perto das minhas - disse a tia.

_Pitoquinhas?! Eu quase chamei a televisão para filmar o pé daqui de casa. Só não chamei porque acabaria tendo que oferecer jabuticabas para o repórter e o camera - eu disse.

_Vou mandar umas fotos das minhas jabuticabas para vocês. Vocês vão ficar de queixo caído - disse a tia que quase não comeu.

_Não sei, não. Dizem que quando as jabuticabas são muito grandes também são muito sem-graça, não têm gosto de nada - eu disse.

_As minhas são grandes e muito saborosas. E lá eu tenho jabuticabas umas cinco vezes por ano - disse a titia.

_Cinco?! - eu disse.

_Tá bom, umas quatro, às vezes três - ela disse.

_Jabuticabazinha exagerada - eu disse.

_Como é?

_A senhora tem que levar essas jabuticabas butelonas para o livro dos recordes - eu disse.

_É uma boa idéia, vou fazer isso - ela disse.


Mas não fez, é claro. É que demorei a descobrir o óbvio. Só quem tem um pé de jabuticabas em casa sabe o quanto é doce a fruta do próprio quintal. Nenhuma se compara a ela. É prata da casa. Aliás, eu acho que ao invés de prata a gente deveria dizer "é jabuticaba da casa".

Informar e tutelar - Denis Rosenfield

Achei esse artigo do Denis Rosenfield muito bom e por isso o reproduzo.

Informar e tutelar - Denis Rosenfield


O Globo - 08/10/2012



Há hoje no Brasil e inclusive no mundo um excesso regulatório postulado pelo Estado, que está interferindo fortemente no cotidiano dos cidadãos e reduzindo sensivelmente a sua liberdade de escolha. Medidas administrativas e outras propriamente legais estão criando um emaranhado de regras que faz com que as pessoas sejam, progressivamente, tuteladas pela instância estatal.

O problema maior reside em que essa tutela estatal se exerce insidiosamente, sendo, mesmo, apoiada por uma maioria da população que vê, nela, algo benéfico. São formas do politicamente correto, apresentadas como se o "bem" do cidadão estivesse sendo protegido. Por exemplo, a "saúde" é exibida como um bem maior que seria, desta maneira, imposto ao indivíduo como se fosse o seu próprio bem, algo oriundo de sua própria iniciativa.

A questão se torna ainda mais complexa - e, poder-se-ia dizer, perigosa - pelo fato de essa imposição de regras dizer respeito à vida cotidiana das pessoas, destituindo-as, na verdade, da sua capacidade de decidir por si mesmas. A tutela estatal é, sem dúvida, uma coerção à liberdade.

O Estado, assim, se coloca como uma espécie de instância moral que teria a função de formular normas que ditariam aquilo que o cidadão deve ou não fazer. A ação dos indivíduos estaria, então, submetida a um dever ser político que controlaria totalmente as pessoas. Tais medidas seriam implementadas a partir da noção aparente de que o bem dos cidadãos estaria sendo realizado, quando, de fato, o bem maior, a liberdade de escolha, estaria saindo progressivamente de cena. A tutela entra por uma porta, a liberdade sai pela outra.

Convém aqui assinalar que um bem maior, na verdade, um princípio dos Estados democráticos, consiste na liberdade de escolha, que, essa sim, não pode ser objeto de cerceamento sob pena de que não se possa mais falar de sociedade livre. Uma coisa é o ato livre, bem maior, outra, os objetos sobre os quais incide a escolha.

O grande problema consiste em que, quando a regulamentação dos objetos da escolha é de tal ordem, ela repercute sobre o próprio princípio. Um excesso de regulação sobre os objetos pode produzir efeitos adversos sobre o bem maior do livre arbítrio.
Há uma grande confusão entre o Estado informar e tutelar. Cabe ao Estado, por exemplo, informar amplamente a população sobre malefícios, eventuais ou provados, que o consumo de determinados produtos tem sobre a vida das pessoas. Diria mesmo que é sua função própria mostrar aos cidadãos como, por exemplo, determinados objetos de sua escolha podem afetar a sua própria vida.

Nesse sentido, deveria informar amplamente, mesmo através de campanhas publicitárias, sobre efeitos de consumo excessivo de determinados produtos sobre a vida e a saúde das pessoas. Nesse rol, poderiam entrar, por exemplo, álcool, gorduras, fumo, açúcar e sódio, entre outros objetos de consumo e/ou prazer.

Agora, se o cidadão informado quiser, no exercício de sua liberdade de escolha, continuar consumindo esses produtos, trata-se de uma escolha pessoal, sobre a qual é inteiramente responsável, mesmo ao preço de sua saúde. O Estado informa, o cidadão escolhe.

Dois fatos recentes ocorridos nos EUA são exemplares do ponto de vista da discussão em curso sobre a esfera de atuação estatal. Um, a decisão da Suprema Corte americana, amparada na Primeira Emenda, que trata da liberdade de expressão, relativa à colocação de imagens - de doença - nas carteiras de cigarro. O outro, a decisão da cidade de Nova York, capitaneada por seu prefeito, um ícone do politicamente correto, de banir o consumo, em bares, cafés e restaurantes, de garrafas de refrigerante com açúcar com conteúdo superior a meio litro.

A decisão da Suprema Corte americana reafirma a liberdade de expressão e, desta maneira, a liberdade de escolha como um princípio dos Estados democráticos. Ela não versa sobre o objeto em questão, no caso o fumo, mas sobre um princípio que estaria sendo infringido pela agência de saúde americana. Essa teria, portanto, exorbitado de sua função, interferindo diretamente sobre um princípio constitucional. A Constituição não pode ficar à mercê de medidas tomadas por uma agência estatal que se arroga o direito de relativizar os próprios princípios sobre os quais se assenta a liberdade.
Quando o Estado começa a interferir dessa maneira na vida dos cidadãos, ele não somente cerceia a liberdade de escolha - o que já seria enorme -, como termina criando distorções no que diz respeito à economia de mercado. Aumenta o mercado ilegal de produtos proibidos e os empresários e produtores rurais observam a sua livre iniciativa, assegurada constitucionalmente, ser amplamente restringida. As proibições só tendem, então, a crescer.

A decisão da cidade de Nova York foi, por sua vez, baseada numa comissão de saúde que se arrogou a função de tomar medidas tutelares de redução da obesidade e de problemas de saúde a ela correlatos. No caso, a obesidade é apresentada como um grande problema nacional que seria, assim, enfrentado. Iniciativas desse tipo podem parecer boas para uma grande parcela da população, tornada, porém, cativa do Estado.

O motivo é aparentemente nobre, reduzir a obesidade, que é um mal para a saúde, a sua consequência, tornar o cidadão um servo do Estado, seguindo as suas diretrizes e afetando fortemente a sua capacidade de escolha. Não caberia, por exemplo, o município, no caso, informar amplamente sobre os efeitos do consumo excessivo de açúcar em vez de estabelecer proibições?

O problema consiste em que, quando as intervenções tutelares do Estado começam, o seu escopo de atuação torna-se literalmente indeterminado. E essa ampliação tutelar ilimitada é a grande causa do enfraquecimento da liberdade de escolha e, de modo geral, da democracia.

domingo, 7 de outubro de 2012

Ming mostra que o governo chutou o tripé da barraca



Mick Jagger - God Gave Me Everything

Tripé capenga - CELSO MING


O Estado de S.Paulo - 07/10


Não é somente uma vaga impressão. Agora é certeza. O tripé em que se assentava a política econômica do Brasil durante os governos Fernando Henrique e Lula está se desmanchando pouco a pouco.

É possível argumentar que, diante de tanta crise e mudança no mundo, seja natural que o tripé vencedor possa ou mesmo deva sofrer ajustes importantes. O governo Dilma não reconhece que está derrubando paredes e redesenhando a planta da casa. Prefere dizer que são ajustes apenas circunstanciais e que está só trocando os móveis de lugar. Isso mostra a falta de clareza do governo federal. Não consegue mostrar até onde vão as mexidas nem propor, como definitiva, nova modelagem.

O efeito é um grau progressivo de incerteza, cujo reflexo tende a ser a retração do investimento privado.

O primeiro pé do tripé, a meta de inflação, vai sendo sistematicamente "flexibilizado". O Banco Central já não persegue a inflação no centro da meta - neste ano, de 4,5%. Tolera índices bem mais elevados, sugerindo que, mais adiante, retomará o controle. Nas justificativas, é claro, não admite ter desistido. Dá a entender que se trata de descolamento temporário. Nos recados para os agentes econômicos, opta por declarar que "a inflação tende a se deslocar para a meta de forma não linear".

O segundo pé, o câmbio flutuante, foi substituído por um câmbio administrado relativamente fixo, de R$ 2 por dólar. Seu principal problema é a falta de molejo na absorção de choques externos - caso, por exemplo, da alta dos alimentos causada pela seca nos Estados Unidos ou do maior afluxo de moeda estrangeira subsequente às emissões promovidas pelos grandes bancos centrais.

Explicando melhor: a um câmbio fixo, o encarecimento dos alimentos lá fora é transmitido diretamente para o mercado interno, à proporção de R$ 2 por dólar. E a perspectiva de entrada de mais dólares obriga o Banco Central a comprar maiores volumes de moeda estrangeira - o que, por sua vez, exige mais emissão de títulos públicos (mais endividamento bruto).

O terceiro apoio do tripé é a responsabilidade fiscal. Uma de suas disposições é o cumprimento do superávit primário que, em 2012, deveria alcançar R$ 139,8 bilhões, o equivalente a 3,1% do PIB. (Superávit primário é sobra de arrecadação destinada ao pagamento da dívida pública.) Como o PIB encolheu, o governo Dilma desistiu da meta nominal do superávit, medida em reais. Mas, ainda assim, vinha garantindo o cumprimento da meta dos 3,1% do PIB, qualquer que viessem a ser o crescimento econômico e o tamanho do PIB.

A novidade é que o governo federal agora vai abrindo mão também desse objetivo, sob a alegação de que as despesas públicas subiram mais do que a arrecadação e que é preciso fechar as contas. Não está claro qual serão as novas proporções do superávit primário. Mas, já se sabe, além de encolher, vai ser contabilizado com truques já conhecidos, como o de travestir certas despesas de investimento.

Como se viu, por motivos diferentes, o tripé que deu certo antes está sendo preterido por uma mistura de metas flácidas que tornam toda a política econômica mais rígida e o resultado geral bem mais instável.

Apesar de todos os apelos da presidente Dilma para que mobilize o tal espírito animal, o empresário brasileiro se mantém relutante a desengavetar seus projetos de investimento - como mostram tanto os números da Formação Bruta do Capital Fixo das Contas Nacionais quanto o baixo apetite das empresas para compras de máquinas e equipamentos.

Até recentemente, o principal fator que explicava essa resistência do empresário em investir era o alto custo Brasil. Alguns custos têm baixado, é preciso reconhecer. É o caso dos juros e dos encargos sociais cobrados na folha de pagamentos. Mas essa derrubada não tem sido suficientemente vigorosa a ponto de descolar os necessários investimentos.

Agora, a esse entrave, tende a se somar outro: o aumento das incertezas. É um climão geral de desconfiança, não captado em câmeras fotográficas nem em telas de radar, que vai se instalando na economia, a princípio como uma neblina tênue que aos poucos toma corpo.

Nem o governo Dilma sabe ao certo o que fazer com as mudanças. Não sabe se deve voltar ao modelo antigo ou se tem de buscar nova formatação macroeconômica. O risco é que fique mais difícil administrar toda a economia.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

O futuro já começou



Skank - Mandrake e os cubanos

Fez um calor punk. As crianças aproveitaram para se esbaldar na piscina. Eu fui arrumar os CDs e DVDs daqui de casa. Já faz tempo que decidi colocar todos os arquivos em HDs portáteis. Mas antes de fazer a migração, é preciso organizar e catalogar tudo. Fiz a separação dos CDs e DVDs em quatro grandes categorias: discos com músicas e vídeos MP4, filmes e séries de TV, discos com arquivos relacionados ao trabalho com madeira e Arquivos Diversos. É lógico que um dia terei que detalhar os arquivos diversos, mas por enquanto está bom. Se tudo correr bem, até meados do ano que vem terei um fichário eletrônico com cada disco mapeado e copiado num HD portátil. A idéia é deixar todo o material disponível na rede de casa, com a possibilidade de serem acessados pela smart TV, PSP, DS, e outros aparelhos. Depois de tudo pronto, o passo seguinte será o upload para uma nuvem para deixar os arquivos disponíveis a qualquer tempo e lugar. Não sei como as coisas serão no futuro, mas acho que a tendência é se organizar para deixar as coisas organizadas em algum lugar para acesso remoto usando alguma coisa como um smart phone com capacidade para projetar ou interagir com uma tela grande. Imagino que dentro de pouco tempo as pessoas antes de fazerem qualquer coisa verão um vídeo ou terão acesso a um arquivo que lhes fornecerão respostas rápidas. Basta ver que o acesso a mapas digitalizados e interativos já mudou completamente a nossa forma de viajar. Hoje, qualquer pessoa consulta um google map antes de pegar a estrada ou até mesmo para ir ao trabalho. Acredito que esse tipo de comportamento começará a se repetir sempre que tivermos que tomar uma decisão, até que nos cansemos dessa parafernália tecnológica. No meu lado "B", a coisa é diferente. Adoro livro em papel. Tenho paixão por coisas impressas e vivo tentando desenhar.

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Crime e Castigo



Arctic Monkeys - A Certain Romance

Os nomes russos sempre me impressionaram muito, desde o tempo em que li o primeiro romance de Dostoievski. Príncipe Mishkin, Sofia Marmeládova, Aliosha Karamazov, Svidrigáilov, Smerdiakov, Stavroguin, Maslobóiev, Fiódor Karamazov, Prince Valkorskii, e é claro, Rodion Românovitch Raskólnikov. Até hoje não sei se fiz bem, mas comecei a ler Fiódor Dostoievski a partir de Crime e Castigo e o nome do protagonista grudou inteiro na minha cabeça, para sempre. Talvez tivesse sido melhor ter começado pelos Irmãos Karamazov, O jogador, O idiota ou mesmo Recordações da Casa dos Mortos. Ou talvez não tivesse feito diferença. Raskólnikov é mesmo um nome inesquecível.

Para quem não se lembra, Ródia é um estudante pobre que se acha um gênio. Ele mata uma velhinha a machadadas como uma espécie de teste para sua própria teoria sobre os indivíduos. Para Raskolnikov, os homens se dividem em ordinários e extraordinários. Os ordinários estão condenados a viver na obediência e respeito às leis. Os extraordinários, por sua vez, poderiam cometer crimes e transgressões desde que fossem necessários para o alcance de suas excelentes intenções em benefício da humanidade. É. Lixo. E Rodka acredita ser da turma dos extraordinários. Ele mata e rouba a mulher para o que acha que é fazer um bem maior, mas acaba quase enlouquecendo de remorso. Aconselhado pela prostituta Sófia Siemionovna Marmiéladova, Rodka confessa o crime e é condenado ao exílio na Sibéria. A prostituta o acompanha na expiação de suas culpas.

O ministro Levianodóvski tem um nome com jeitão de russo ou polonês e parece comungar das idéias tortas de Raskolnikov. Ao absolver um Genuíno culpado, o Zé-que-saiu-de-lá-porque-o-Jefferson-mandou e, ao mesmo tempo, condenar o Tesoureiro Dilúvio, Levanudóvski também está dividindo os homens em ordinários e extraordinários. Os ordinários cometeram todos os crimes do mensalão, mas os extraordinários estavam distraídos, olhando pela janela e não podem ser condenados porque juram pela mãe que são inocentes.

Daqui a alguns anos não lembrarei de Livrandurróvski. Terei lembrança de que existiu sim, um ministro que fez de tudo para postergar ainda mais o processo do mensalão e depois, como não conseguiu, fez de tudo para livrar a cara de criminosos e corruptos. Liberuóvski? Levandonuóvski? Não lembrarei do nome, tenho certeza. Mas reservo a ele o lugar da memória dedicada aos piores assassinos de velhinhas. Para mim, só ontem e hoje Alivianduóvski acertou pelo menos duas machadadas na Justiça, coitada.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Mais máquinas e lagartas



Sky Hi - Love is Real - Testify - GED Soul Records

Depois de um mês de espera, a máquina de lavar roupas voltou hoje da oficina autorizada. Eu e a minha mulher fomos recepcioná-la. Chegou toda, toda, protegida em plástico, solenemente carregada por técnicos credenciados. Os caras desencaparam a lavadora, conectaram as mangueiras e fizeram um teste rápido de dez minutos de duração. A centrifugação funcionou direitinho, então eu assinei os papéis e os caras se mandaram. Em seguida, minha mulher começou a encher a máquina de toalhas. É uma máquina grande, de 13 kg. A anterior, que encrencou no primeiro semestre deste ano, em maio, nos serviu fielmente por 12 anos e tinha capacidade para 8 kg. A substituta pifou depois de apenas três meses. Para nossa chateação, a novela do conserto foi demorada e cheia de idas e vindas. Mas hoje, finalmente, lá estava a máquina funcionando a toda velocidade. Eu podia ouvir do quarto externo, onde eu examinava um dos armários de tranqueiras que pretendia esvaziar. Aí minha mulher me chamou.

_Vem ver! Vem ver!

Corri e vi toda a água escorrendo por baixo da máquina de lavar roupa, a área de serviço coberta de água ensaboada. O defeito continuava. Enquanto minha mulher ligava para a empresa para reclamar novo conserto, eu tratei de secar a área de serviço. Afinal, Rose, a babá-cozinheira-lavadeira-assistente-social-matrícula-trancada-minha-casa-minha-dívida estava de folga. A empresa autorizada disse que pegariam a máquina à tarde.

À tarde, tive sorte e consegui arrumar o laptop, que já havia dado como perdido. Consegui reformatar e demorei um tempão atualizando arquivos. Fiquei contente também porque os caras da máquina de lavar chegaram e conseguiram consertar a máquina de lavar roupas aqui em casa mesmo. Era só a mangueira de escoamento que havia se soltado. Veio do conserto bamba e deve ter ficado ainda mais solta no transporte e depois do teste. Depois de arrumada, testamos, retestamos e só liberamos os dois técnicos com a máquina cheia de roupas, em pleno funcionamento.

Aí voltei para o laptop e ele pifou de novo. Creio que é algum problema de ventilação. O laptop está esquentando muito e o pequeno ventilador começou a fazer um barulhão. Tentarei novamente amanhã, ou talvez já leve para o conserto e faço um upgrade, não sei.

Volta a fazer um calor infernal. Rafa, o cãozinho shi-tzu da minha filha, dorme todo esticado sobre o granito do escritório. Ele cola a barriga na pedra. Passei o dia todo praticamente descalço. Agora mesmo fui conferir as portas e janelas, como faço todos os dias antes de deitar, e lá estavam elas, as lagartas mandruvás. Em fila indiana, fazendo uma linha reta perfeita em direção ao outro coqueiro. Dessa vez coloquei todas num saco plástico. Contei 22.









terça-feira, 2 de outubro de 2012

As coisas obsoletas



Alabama Shakes - I Ain't the Same

Desde o acidente com a miniretífica, no final da tarde de sexta-feira, tenho entrado pouco na oficina. Fiz os acertos necessários na estrutura do carrinho de apoio, mas estou em dúvida sobre o que fazer em seguida. A idéia inicial era construir um carrinho sem parafusos, na base do encaixe. Consegui uma estrutura firme, mas terei que usar cola e reforços em algumas junções. A verdade é que estou sem madeira para continuar a montar o carrinho. Ou melhor, a madeira que ainda possuo é pesada demais para ser usada neste projeto e exigiria um esforço muito grande com as power tools para serem adequadas. É sempre possível comprar madeira, mas isso significaria abrir mão de um princípio que vem norteando todos os projetos: reaproveitar ao máximo o material que já possuo.

Como tenho ficado muito pouco na oficina, aumentei o tempo de leituras no escritório. Mas infelizmente acabo mexendo nas coisas velhas e obsoletas que existem por lá. Hoje, por exemplo, o laptop que comprei em 2003, um toshiba satellite, veio a falecer no início da tarde depois de um lento processo de obsoletização. Tentei reformatá-lo mas a coisa enguiçou de vez. Minha pilha de lixo eletrônico tem aumentado rapidamente nos últimos meses. As máquinas e equipamentos parecem programadas para durar dez anos, no máximo. Depois disso, falham e entram em processo falimentar ruidoso. Uma pena. Adorava aquele laptop.

Outra coisa que pifou foi a máquina de lavar pratos. É pequena, de quando éramos só eu e a minha mulher. Nos últimos anos, só a usava aos domingos, quando estava com preguiça de lavar talheres e copos. Parece que há um problema de entupimento no cano de escoamento, o que embaralha as funções da máquina e provoca o desligamento automático. Ou então, não é nada disso e a coisa travou de vez.

Também me deparei com uma lanterna de leds, recarregável na tomada. A coisa funcionou muito bem por uns dois anos, mas agora o pino soltou. Desmontei a lanterna e vi que será necessário um pingo de solda para que ela funcione novamente. Demorei meia hora para encontrar o ferro de solda e mais dez ou quinze minutos para admitir que já não tenho mais estanho para soldar. Então é mais uma coisa encostada no canto do fundo do armário. Parece cena do toy story, esse fundo de armário. Quando fecho as portas, quase posso ver as quinquilharias choramingando de medo de que eu as jogue fora. Mas sou um acumulador de badulaques e tranqueiras, não descarto nem garrafa de gatorade. Um dia, quem sabe, arrumo tudo.



segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Mandruvá de camadas



Monophonics - "Thinking Black"

Em casa, minha mãe gostava de usar a expressão "mandruvá de camada". Mandruvá é uma lagarta de mariposa. É grande e marrom, com a cabeça e listas escuras. A mariposa tem a cabeça grande, as asas têm manchas que parecem olhos de coruja. O mandruvá costuma atacar as folhas de coqueiros. Eles se juntam às dezenas, uns sobre os outros, formando grossas camadas de lagartas. Os bichos comem sem parar e fazem uma sujeira danada com seus dejetos. É uma coisa impressionante de se ver, mas o sentido exato da expressão sempre me escapou. Entendo como uma coisa que não deveria estar acontecendo, mas devido à própria natureza da coisa, acaba por inevitavelmente acontecer. O jeito é se conformar, mas sem reserva moral, o fato de você deixar que aconteça continua sendo vergonhoso. É algo como permitir a um porco chafurdar na lama. Ou estimular um alcoólatra a beber. Bom, pelo menos é assim que eu entendo.

Já vi muito mandruvá de camada. No interior, nas pequenas cidades, nas fazendas dos parentes e amigos, era comum dar de cara com um coqueiro coberto de lagartas. Às vezes, à noite, o barulho dos bichos comendo podia ficar alto, bem parecido com um periquito comendo sementes. Mas na cidade, até já havia me esquecido dos mandruvás. Tinha mesmo, até hoje à noite, quando vi uma grande fila de lagartas descendo pela parede da pérgula. Naturalmente chamei as crianças e a minha mulher para testemunharem a cena, porque sei que esse é o tipo de coisa que um casal amigo, lá da Bahia, gosta de dizer que é exagero meu, quando não diz que é mentira mesmo, na lata.

Pois todos daqui de casa viram os mandruvás descendo a parede igual a uma fila de elefantes indianos, uma lagarta com a cabeça no bumbum da lagarta da frente. As lagartas se esticavam pela parede inteira, aparentemente abandonando um dos coqueiros para seguir até o outro.

_Nossa, que horror! - disse a minha mulher.

_Uau, paiê, podemos ficar com elas? - disse a minha filha.

_Ninguém toca nas lagartas, elas podem ser venenosas - disse o meu filho.

_Au - disse o Rafa.

Depois de uma votação simbólica, decidimos pelo extermínio dos mandruvás, apesar do protesto veemente das crianças.

_Elas estão acabando com o coqueiro. O que vocês preferem? Lagartas ou coqueiros?

_Lagartas! Lagartas! Lar-gatas!

_Lar-gatas!

Varri as lagartas da parede e as crianças desistiram de protestar. Contei trinta e oito lagartas. RIP.



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