sábado, 26 de outubro de 2013

Killer



Etta James - The Blues Is My Business

Algumas pessoas são aquinhoadas com o dom da frase matadora, aquela que desmonta qualquer argumento e deixa a gente sem graça ou com vontade de ir pra casa e entrar debaixo das cobertas. Tenho vários amigos com essa capacidade demolidora. Esses caras dizem frases brilhantes como quem faz um comentário qualquer, singelo, mas sabem que depois daquelas palavras organizadas numa sentença direta, será difícil retomar o mesmo tema sem aquela sensação de quem repete o ônibus errado. Um desses campeões é o Cabeça, meu amigo de infância e de todos os tempos, que é mais conhecido pelo pessoal de Catalão como Dr. Cabeça. Não foram poucas as vezes em que o Dr. Cabeça encerrou discussões enormes e bizantinas com uma tirada curta e grossa, entremeada por algumas palavras de baixo calão.

_É couro de cu de índio! - ele disse uma vez para um chato que insistia em saber de que eram feito seus sapatos. Obviamente, a frase foi extrapolada para todo e qualquer contexto onde alguém insistisse em fazer perguntas sobre coisas insípidas e irrelevantes.

_Quero língua de colibri com leite de virgem sueca! - ele disse, de bate-pronto, em resposta a um desafio lançado por um gourmet. Frase excelente, que virou a melhor forma de expressar um desejo utópico.

_Isso não é pimenta, é uma hemorróidas couve-flor! - ele encerrou uma discussão sobre a qualidade da pimenta bahiana, num restaurante bahiano, depois de azucrinar garçons por conta de pimentas fraquinhas que serviam aos turistas, mas que ele, não, ele não era frouxo de achar aquelas pimentinhas de nada ardidas, aquilo nem coçava a língua...

Pois hoje estávamos lá na feira de antiguidades da hora, no Gilberto Salomão, quando nossas mulheres desapareceram em meio a um monte de tranqueiras e velharias expostas em bancadas pelo shopping. Fomos encontrá-las admirando uma cama antiga, feita de madeira maciça e trabalhada, cheia de adereços e curvas, bonita como um leque de renda. A mulher do Dr. Cabeça, ficou entusiasmada. Perguntou as medidas, preço e formas de pagamento. Eu assobiava baixinho quando ouvia o número de dígitos do preço. O Cabeça lembrou a mulher que eles estavam em obras, com uma reforma com o prazo estourado e o limite da conta bancária parelho ao déficit previdenciário. A esposa continuava entusiasmada. Tecemos comentários sobre móveis de época, da mobília datada de antigamente, das vantagens e desvantagens de se ter um móvel velho, das vantagens e vantagens de se possuir mobília nova, etc, mas nada.

_Parece o catre de um moribundo - disse o Cabeça, quando a mulher pediu uma opinião definitiva antes de fazer uma oferta ao vendedor.

_O quê?

_É a cama do morto.

´Fomos embora dali em cinco minutos e sem gastar nenhum tostão.




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