quinta-feira, 28 de junho de 2012

Eu, meu personagem



Harvey K-Tel - Boops Apocalypse - Marlena Shawn - Woman of the guetho

Ainda consigo escrever uma história, de vez em quando. Não é muito frequente, admito, mas acontece. Tudo por causa do processo de escrever que, pelo menos para mim, é complicado e tortuoso. Sempre que penso no esforço que eu preciso fazer para escrever me dá um desânimo danado, fico até com sono.

Esse personagem é um sujeito como eu, meio careca, barriga de chopp, míope e com uma risada esquisita. Esse personagem é metido a escritor, como eu, mas nunca publicou um mísero livro. Esse personagem talvez seja eu mesmo, ou uma boa parte de mim, mas prefiro que não seja. Prefiro que não seja. Assim como eu, ele escreve na primeira pessoa. Alguém lhe disse que é um erro escrever na primeira pessoa, isso sempre tolhe todos os pensamentos e movimentos. O melhor é escrever na terceira pessoa, virar "ele", tornar-se um outro, fica mais fácil olhar para dentro da gente mesmo. Fica mais fácil dizer a verdade sobre as coisas estúpidas e malucas que fazemos o tempo todo.

Mas o personagem não consegue escrever na terceira pessoa. Ele sabe contar histórias inventadas, com coisas assustadoras e reviravoltas encantadoras, as crianças às vezes gostam, mas em geral, não, ele prefere ficar calado. Ou talvez ficar calado seja parte do processo de escrever. É como se ficar mudo alguns dias fizesse uma espécie de represa de palavras que, de uma hora para outra, romperiam o dique e jorrariam sobre o papel. Não, não é assim que acontece.

Para começar, o processo não parece ser passível de reprodução. Ele, ou melhor, eu já passei algumas semanas calado e nem por isso escrevi páginas e páginas sobre alguma coisa. Na verdade, na maior parte das vezes, meu mutismo nada gerou além do silêncio. Então não é porque fico calado que consigo escrever. Entretanto, as poucas vezes que consegui escrever aconteceram depois de longos períodos de mutismo.

Também consegui estabelecer uma relação entre ler e escrever, o que é bem óbvio, mas tem muita gente que desdenha. Só consigo escrever depois de longos períodos de muita leitura. Mas, como acontece quando fico calado, não adianta me atirar aos livros para que eu escreva furiosa e freneticamente. Ao contrário, a leitura aumenta de tal ordem a minha autocrítica que muitas vezes fico semanas sem escrever um único parágrafo curto.

O mesmo acontece quando estou me alimentando bem, praticando exercícios físicos e interagindo com as outras pessoas. As vezes que consigo escrever tudo isso está acontecendo. Mas mesmo quando tudo isso acontece, fico semanas sem conseguir escrever algo inteligível.

Esse personagem, diferente de mim, acredita que algumas coisas conseguem despertar nele a capacidade de escrever. São quase sempre coisas diferentes, mas algumas vezes as coisas puderam ser repetidas. Houve aquele período, por exemplo, das meias brancas Lupo. Durante três semanas ele repetiu o par de meias e conseguiu escrever todos os dias, embora o que escreveu não fizesse muito sentido.

Houve também o período do cotonete. Mas o personagem não sente orgulho disso, é um período a ser esquecido. Ele não precisava usar o cotonete. Bastava apenas segurar o cotonete alguns segundos e prender atrás da orelha como muitas pessoas faziam com o lápis, no tempo em que se usava lápis.

O personagem faz uma pausa e tenta se lembrar do último texto que adorou escrever. Não consegue.

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