sexta-feira, 2 de março de 2012

Coisinhas bobas que consomem um tempão



Red Hot Chili Peppers - Snow

Quase toda a minha vida eu quis mais de tudo. Vida, saúde, amor, felicidade, prazer, livros, desenho, música, comida, bebida, tempo e um bom lugar para relaxar e ficar sem fazer nada. De tudo, já tenho muito, mas não consigo relaxar e ficar sem fazer nada. Então passei a querer menos. Comecei com os livros, depois viriam músicas, comida e bebida.

Tenho muitos livros enfileirados para ler, eu pensei, então vou parar de procurar livros como quem procura respostas para perguntas que não consegue fazer. Tentei colocar a estante em ordem, mas todas as vezes que começo a fazer isso acabo interrompendo o trabalho para ler um livro. Então nunca consigo arrumar a estante, embora ela não seja muito grande. Também tenho outras estantes desarrumadas, na casa dos meus pais, isso é um fenômeno que acontece há tempos.

Sempre adio a mudança dos livros para a minha casa, me desculpo alegando motivos variados. Quando eu morava no velho apê eu dizia que não tinha espaço, que ficaria apertado, mas era mentira. Se eu tivesse feito questão, havia um espaço bacana debaixo da cama. Cheguei a projetar uma estante subcama. Era um estrado sobre rodas. Ficaria um pouco estreito, mas toda a minha coleção de paperbacks poderia ficar ao alcance dos calcanhares. Felizmente minha mulher vetou a possibilidade de abrigar uma estante debaixo da cama, me explicando que os livros ficariam empoeirados e se tornariam viveiros de ácaros e fungos.

Em abril vamos completar um ano de casa nova. Aqui a desculpa de falta de espaço para livros não cola. Então eu inventei que é a falta de estantes que impede a mudança dos livros. Como estou praticando trabalhos em madeira praticamente todos os dias, essa desculpa também está se tornando bem esfarrapada.

O que me salva a cara é que a casa sempre exige trabalhos de manutenção. E existem coisas que apesar de serem bem simples, pela minha falta de experiência no assunto, demoro um tempão para fazer. Nesta semana, por exemplo, coisinhas bobas como arrumar as tomadas, trocar umas lâmpadas fluorescentes e trocar um ventilador de teto me encheram os dias. As coisas apresentaram problemas específicos, difíceis de resolver quando não se quer gastar dinheiro. Cada tomada da casa tinha um padrão diferente e já esgotado no mercado. Como harmonizar o visual tomadístico da casa e, ao mesmo tempo, dotar a residência do novo padrão de três furos?

Simples. Admiti para mim mesmo que essa é uma questão meramente retórica e que eu faria o melhor possível de acordo com o que eu já possuía em casa. Na prática isso significou a catalogação das tomadas, plugs e interruptores da casa para um remanejamento estudado e calculado, aproximando os iguais e deixando bem longe os desiguais.

Rose, a cozinheira-babá-lavadeira-cozinheira-universitária daqui de casa, achou que eu tinha enlouquecido. Andei alguns dias com chaves de fenda e philips nas mãos, desatarrachando e trocando tudo de lugar. Terminei tudo no maior capricho e fui ao banheiro tomar um banho de missão cumprida. Na hora em que entrei, um plafon do banheiro despencou do teto de gesso. Por pouco não me acertou a cabeça. Então, ó minha querida kombi de leitores, permaneci sujo e suado e tratei de providenciar uma solução para aquela quizumba.

Mas antes, é claro, eu teria que consultar minha professora doutora universitária e mulher, porque eu não sou idiota de trocar uma lâmpada nessa casa sem ter primeiro a concordância da senhora que paga o supermercado. Obviamente, ela concordou com alguma coisa bem complicada, que seria uma substituição em série de várias luminárias em diversos cômodos diferentes, até a colocação de uma nova luminária embutida no teto de gesso do banheiro. Putz.

Por isso, achei melhor contratar um eletricista, mas o imbecil furou comigo e hoje, ó minha kombi, eu tratei de mexer eu mesmo com essa coiserada. E consegui. Troquei luminárias e candelabros de lugar até que tudo ficasse do jeito que a mulher gosta e então me dediquei a colocar a luminária embutida no teto de gesso. No início, serrei com timidez, morrendo de medo de partir a placa de gesso e aumentar o prejuízo. Mas passadas as três primeiras horas, me emputeci e tratei de serrar o gesso sem medo de gastar dinheiro. Nesse embalo, terminei a instalação em dez minutos.

E só agora, fazendo o balanço da semana, é que percebi o óbvio ululante. Faltou, é lógico, colocar o ventilador de teto. Com sorte, na próxima semana estarei pronto para iniciar a estante para o sonhado translado dos meus livros na outra casa. Torçam.

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