segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Ainda "Sobre a verdade"



Selah Sue - Explanations

Harry G. Frankfurt, no seu livrinho sensacional “Sobre a verdade”, diz uma coisa que eu gosto muito de repetir: “sem a verdade, simplesmente não temos uma opinião sobre as coisas, ou nossa opinião está errada".(pág. 68) As razões são constituídas de fatos. O que é verdadeiro não pode, ao mesmo tempo, ser percebido como falso. Quando isso acontece, ocorre a confusão e a loucura. A verdade não varia de indivíduo para indivíduo, de acordo com a percepção de A ou B. Isso seria absurdo. Assim, só é possível ter um único tipo de relação com a verdade, o verdadeiro. Qualquer outro tipo é falso.

Mais ou menos na metade do livro, a parte que mais gosto começa pela repulsa de Kant e Montaigne pela mentira. Para Kant, a mentira prejudica a humanidade em geral. Para Montaigne, os mentirosos deveriam ser consumidos pelas chamas. Frankfurt, por sua vez, afirma que "o fato de que muitas pessoas se entregam a mentiras, e a outros tipos de comportamento fraudulento, dificilmente impossibilita um convívio proveitoso com elas ou impede qualquer conversa. Apenas significa que temos que ser mais cautelosos. Podemos nos sair muito bem num ambiente de fraude e de falsidade, desde que possamos contar razoavelmente com nossa própria capacidade de discernir confiavelmente entre casos em que as pessoas estão deturpando as coisas para nós e casos em que estão nos tratando com sinceridade."

Humberto, meu amigo canalha, se dizia apaixonado demais pelas mulheres para amar apenas uma. Ao pretender amar muitas, não amava nenhuma, embora estivesse apaixonado por todas. Uma vez Humberto foi a um restaurante com a amante, depois de ter pensado que havia despistado a esposa. A mulher invadiu o restaurante aos berros e ameaçava agredir Humberto e amante ali mesmo, depois dos palavrões. Humberto fez um gesto discreto para o garçom e quando o moço se aproximou, desviando com cuidado da mulher furiosa, Humberto cochichou que jamais havia visto aquela maluca em toda a sua vida. Foi o suficiente para a ultrajada fosse expulsa com energia do restaurante.

Há quem acredite(eu também, muitas vezes) que o mundo é binário, 0 ou 1, V ou F. As zonas cinzentas só existem até tomarmos uma decisão. Essa decisão, por sua vez, poderá se revelar acertada ou equivocada. Durmo melhor quando acredito estar tomando a decisão certa. Já acordei de madrugada com o coração batendo acelerado, o estômago na boca, só então descobrindo que não deveria ter feito o que fiz.


O livrinho que citei é “Sobre a Verdade’, Companhia das Letras, escrito por Harry G. Frankfurt, professor emérito de filosofia da Princeton University. Em 2005 Frankfurt virou best-seller com outro livrinho chamado “On Bullshit”, também traduzido e publicado pela Cia das Letras, que ainda não li.

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