quarta-feira, 24 de julho de 2013

Será que vai chover?



Julie London - Cry Me A River

A rua onde eu moro é um bocado monótona, o que eu acho ótimo. Não acontece nada, então eu fico imaginando o que eu quiser. Às vezes, por causa da minha imaginação, fico pensando que a minha rua é um dos lugares mais movimentados do mundo. E não é nada disso, é claro. A primeira casa da rua, por exemplo, é uma das mais tranquilas do lugar. Lá nunca acontece nada, a não ser o estouro do transformador, que fica no alto de um poste, na quina da cerca da primeira casa. Como o transformador é visivelmente inadequado, está sempre estourando. Na época das chuvas, o transformador estoura pelo uma vez por semana, é possível escutar o barulho lá da minha casa, quase no fim da rua. Quando a energia cai, eu e outros vizinhos vamos para o portão. Às vezes os vizinhos perguntam sobre futebol, falam da volta da inflação, falam sobre os políticos que deviam ser mandados para a cadeia. Eu faço meio que sim, balançando com a cabeça, mas não muito. Não é bom discordar dos vizinhos. Também não é bom concordar com os vizinhos, tem muito vizinho que joga um verde, só para ver se você está do lado deles e depois fica falando mal pelas costas. Ou então isso é imaginação minha, tem muita gente boa nesse mundo. Mas também tem muita gente má, isso é bem sabido, o melhor é ter cuidado. Por isso eu prefiro fazer como os ingleses, fico falando do tempo. Amanhã vai chover. Não vai. Amanhã vai fazer sol, essas coisas. Isso não compromete ninguém e ninguém acerta mesmo, então vale qualquer coisa. Outro dia mesmo caiu um chuvisco numa época em que nunca chove por essas bandas. Vai saber, como? Mas o estranho foi mesmo hoje, porque começou a ventar igual acontece antes de chuva. Ventou e chegou a ficar meio nublado de tanta poeira no céu, mas não havia nenhuma nuvem. Foi esquisito. E logo em seguida o transformador estourou e a rua inteira ficou sem luz. Fui para o portão, é claro. E daí a pouco a minha vizinha, uma senhora dos seus 60 e muitos, se aproximou.

_Agora nem precisa chover e o transformador estoura, né? - disse a vizinha.

_É. Parecia mesmo que ia chover, enganou até o transformador - eu disse.

_Para mim, isso é coisa lá da casa 1 - ela disse, observando a minha reação.

_Será? - eu disse, fingindo que meus óculos precisavam de uma limpeza naquele instante.

_Acho que ele usa uma máquina que sobrecarrega o transformador e provoca o estouro. O que você acha?

_Eu acho que isso pode fazer sentido. Mas eu posso estar enganado - eu disse.

_Você é de Minas? - ela disse.

_Sou de bem perto. Será que vão consertar logo? - eu disse. E a conversa continuou por mais alguns minutos, mas tenho certeza de que não disse nada comprometedor. Todo cuidado é pouco. Para mim, a vizinha está certa. O vizinho da casa 1 tem um jeitão meio suspeito. Na minha imaginação, acho que ele está fabricando alguma coisa.

_Será que chover? - diz a vizinha.

_Acho que não. Agora só vamos ver chuva depois de setembro - eu disse.

_Mas posso estar enganado - completei. Minha rua é um bocado monótona.

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