
Essas coisas ainda são novidade. Mas daqui a algum tempo nós estaremos recebendo os chamados de luto dos amigos blogueiros de quem gostávamos. Os blogs estarão de tarja preta, com ícones a meio pau. Flores eletrônicas despencarão do topo das telas de cristal líquido. Trompetes tocarão acordes fúnebres quando fizermos scroll down. Quando alguém quiser mandar um e-mail, receberá mensagem de destino não encontrado. Triste. Triste.
Portanto, tema mais do que adequado para ser tratado aqui, em plena quinta-feira da Semana Santa.
Depois de algum tempo, vamos acabar nos esquecendo e voltando para os blogs de que gostávamos. Serão páginas frias, desatualizadas. No máximo, terão comentários congelados no tempo, lembranças de dias mais animados, quando ainda acreditávamos numa ciber-sinergia. Um mito bobo que entusiasmou as crianças da era do PC. Quando ainda tínhamos uma esperança obscura em relação aos contatos na rede. Como se fosse possível fazer amigos sem comida, copos, discos e livros por perto. Quando ainda sonhávamos com coisas boas nascendo da troca de mensagens, de impressões rápidas em posts sinceros. E depois de algum tempo, os bloggers da vida nos mandarão convites para participarmos, on-line, do enterro de um blog. E vai ser aquele blog simplérrimo que no início, quando ainda éramos jovens e comunistas, achávamos o máximo. Mas que depois vimos que não tinha um mínimo de sofisticação e nem era tão atualizado assim. E, de longe, nós enviaremos sinais de pontuação para uma rápida cremação em tempo real. Diante de nossos olhos, pixels irão se esfarelar e crepitarão em algoritmos de 64 e 128 bits.
Pensando bem, vai ser um barato.
Quando eu era menino, ninguém podia rir na Semana Santa. Quem risse, tinha de ir confessar. Eu sempre acabava tendo de ir confessar. Eu lembro que eu procurava me concentrar para não rir. E ficava pensando nisso, muito concentrado. Mas aí o feitiço virava contra o feiticeiro. Eu terminava rindo à toa, com risadas prolongadas, feito um possesso. Minha mãe ficava muito irritada. E me mandava ir confessar.
Hoje penso que isso devia ser até divertido para aquele padre. Ver um menino confessar que havia pecado porque havia soltado umas risadas. E aí recontar a piada para o padre. Ele sempre pedia. Coisas bobas. O que é que o vendedor mais preguiçoso do mundo vende na porta da Igreja? Amendoim. Porque ele espera o povo lá dentro falar amém para ele falar doim. Outra? Cristo resolve voltar para a Terra vestido de médico. Entra de jaleco no hospital e já começa atendendo um aleijado na cadeira de rodas. O cara começa a contar o que está sentindo e Cristo o interrompe. LEVANTA E ANDA. O aleijado levanta e sai do consultório empurrando a cadeira de rodas. O próximo da fila pergunta e aí como foi com o doutor novo? Igualzim aos outros... nem examina a gente e já vai mandando embora.
Mais uma? Um sujeito entra num restaurante com um avestruz e pede uma salada, fritas e guaraná. O avestruz diz que quer a mesma coisa. Depois da refeição, o garçom pergunta como foi que ele arrumou aquele avestruz.. E o cara: um dia eu encontrei uma lâmpada com um gênio, e eu pedi para ter sempre ao meu lado alguém com bunda grande e pernas compridas, que sempre concordasse comigo...
Coisas bestas, eu sei, mas que me enchiam de remorso.
Por trás da treliça, tenho certeza, um dia escutei o padre, Frei Domingos, prender o riso. Depois disso, nunca mais me confessei.