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sexta-feira, 7 de março de 2008

This is a man’s man’s world




Pode parecer, mas não é provocação. Essa é a música que eu mandei tocar hoje no rádio, em homenagem ao Dia Internacional da Mulher. Eu avisei para a Patroa que às 10 em ponto ligasse o rádio e ouvisse a surpresa. A moça do rádio perguntou qual era a minha mensagem. Eu disse:
_O Careca dedica essa canção para a esposa, para a filha e todas as mulheres e meninas do mundo.
_Careca? Escreve com K? – perguntou ela.
_Cá? Não, é com C, de casa – respondi, educado.
_Ah, Careca. Bonita a sua mensagem, viu. Original, né? - irônica, irônica.
_Pensei muito para fazer essa dedicatória. Gastei uma resma só de rascunhos. Mas ficou boa, né? Singela, mas profunda, né? – eu concordei. Havia alguma coisa me escapando.
_Vai entrar no ar a partir das dez – disse a moça.
Aí me deu o estalo.
_E como é o seu nome, heim?
_Matilda – ela disse, agora com uma voz mais simpática.
_Matilda é um belo nome. Olha Matilda, eu queria que a minha mensagem fosse assim:
“O Careca dedica essa canção para a esposa, para a filha, para a Matilda e todas as mulheres e meninas do mundo.” Que tal?
_Ficou bem melhor.

As mulheres vão ouvir milhares de músicas no Dia Internacional da Mulher, mas acho que só essa, do James Brown, fala das mulheres e das meninas.

A versão de This is a man’s man’s world de 19 de agosto de 1974 do disco homônimo de Renée Geyer (http://www.youtube.com/watch?v=N10B1cy-V7g ) é a preferida dessa semana da minha filha de três anos. Essa música foi a número 1 do ano de 1966 e se tornou um emblema dos shows de James Brown desde aquela época.
É considerada a número 123 entre as 500 melhores de todos os tempos no ranking da revista Rolling Stone. A número um da lista (http://www.rollingstone.com/news/coverstory/500songs ) é Like a Rolling Stone de Bob Dylan. Mas dessa minha filha não gosta.
Do Bob Dylan, como eu, ela prefere Slow Train Coming (é a música de 6 minutos que toca ao fundo desse excelente slide show em http://www.youtube.com/watch?v=6WODPuUo7sw ). O Bob Dylan, você sabe, nunca cantou uma música do mesmo jeito. Compare com http://www.youtube.com/watch?v=qgSnczPPfaQ , de 4 minutos, e entenda o que estou falando.
Você pode querer conhecer também a versão This is a man’s man’s world da Christina Aguillera(http://www.youtube.com/watch?v=rh2Yxp6q2h0 ) que é muito legal. A Aguillera tem um vozeirão danado de bom. Mas, para mim, a versão dela, apesar da sua força de intérprete e da belíssima voz, perde em emoção para a da Natacha Atlas (http://www.youtube.com/watch?v=dh7GTClKBQo ). Só achei essa no UTube, mas a gravação do disco Something Dangerous é um arraso. Aliás, sou fã da Natacha desde que tomei uma vodka homônima e escutei a voz dela saindo de um walkman. É lógico que a versão do James Brown (http://www.youtube.com/watch?v=PgVLCzt81dw) é legal. Mas ele também fez as suas besteiras em James Brown e Pavarotti (http://www.youtube.com/watch?v=VCIyzNISw1Q ). Há quem prefira uma versão gravada pela Cher, mas eu me recusei a procurar essa.

A letra é super simples:
This is a man's world, this is a man's world
But it wouldn't be nothing, nothing without a woman OR A GIRL
You see, man made the cars to take us over the road
Man made the trains, to carry heavy loads
Man made electric light, to take us out of the dark
Man made the boat for the water, like Noah made the ark
This is a man's, a man's, a man's world
But it wouldn't be nothing, nothing without a woman or a girl
Man thinks about a little baby girls and a baby boys
Man makes then happy, 'cause man makes them toys
And after man has made everything, everything he can
You know that man makes money to buy from other man
This is a man's world
But it wouldn't be nothing, nothing without a woman or a girl
He's lost in the wilderness
He's lost in bitterness


E na wikipedia tem mais informação em http://en.wikipedia.org/wiki/It's_a_Man's_Man's_Man's_World_(song) .


Eu sei, eu sei. A Patroa vai chegar em casa e vai querer explicações sobre essa tal de Matilda. Mas eu tenho outra surpresa preparada.

terça-feira, 20 de novembro de 2007

Adesão involuntária


Existem poucas coisas mais desagradáveis do que ouvir a professora na escola dizer que sua filha de 3 anos está com piolhos. A primeira reação é negar completamente.
_Minha filha? É impossível. Eu mesmo dou banho nela todos os dias e ela nem sequer está coçando a cabeça. Impossível.
E aí você olha para a menina e ela está levando a mão até a cabeça. E coça a cabeça. E faz careta enquanto coça.
_Minha Santa Genoveva!
Aí você admite, com ressalvas.
_Deve ter sido nesse final de semana!
_Achei um monte de lêndeas – diz a professora.
E por mais estúpido que você seja em matéria de piolhos e parasitas em geral, você sabe que demora um pouco para um bicho começar a ter filhotes na cabeça dos outros.
_Amanhã ela não vem – você admite a derrota, envergonhado.
Cheguei em casa arrasado. Minha filha com piolhos. O que é que eu estou fazendo de errado? Dou três banhos por dia. Uso shampoo dia sim, dia não. Penteio com cuidado a cabeleira. Que vergonha. Que vergonha. Espero a Patroa chegar, conto a novidade rapidamente e corro para a farmácia.
_Tem remédio para piolho? – eu pergunto ao balconista assim que aterrissei na farmácia. O balconista me olha com um misto de riso, superioridade, nojo e pena. Afinal, eu sou um careca com um tufo de cabelo na nuca. Mas talvez eu tenha me enganado, e o olhar só tivesse superioridade e nojo.
_Neocid? Tem neocid? – eu insisto, lembrando o nome do mata-piolhos que minha mãe usava na gente, quando éramos crianças e inocentes.
_Neocid? Não sei se tem. Mas tem vários outros – o balconista se digna a responder, evitando a proximidade com a minha careca e meu tufo de cabelos.
Fiquei ali, esperando uns 5 minutos. O balconista, agora sério e sem demonstrar desprezo, voltou com uma touca transparente na cabeça e trouxe uma porção de remédios para piolhos. Como qualquer coisa hoje em dia, existem remédios de todas as marcas, tamanhos, cores e preços. Escolhi uma embalagem com um design ajeitado, que prometia acabar com toda a praga de piolhos em apenas dez minutos. De lambuja, o remédio me dava um pente fino. Comprei um pra cada um lá de casa, dois para a Patroa, e várias toucas descartáveis. Na fila do caixa, as pessoas se afastavam ao perceber o que eu tinha nas mãos. Na minha hora de pagar, cocei o tufo na cabeça com força, para desespero do caixa e da velhota que estava atrás de mim, na fila interminável. Caramba, como tem fila nessa cidade!
Voltei pra casa triunfante.
_Eu tenho a cura – gritei para a Patroa, assim que ela abriu a porta.
Fomos todos lavar as cabeças para passar o remédio. Eu não tenho muito cabelo para lavar, mas disfarcei bastante. Depois ficamos muitos minutos catando piolhos, um na cabeça do outro, usando os pentes finos para pegar os bichinhos. Parecíamos um bando de macacos. E tive que ralhar com o mais velho, de quatro anos, que toda hora fazia menção de levar um piolho capturado até a boca.
_Está envenenado. Não pode – eu dizia.
No final, só encontramos piolhos nas crianças. Aí fizemos uma lista de quem tínhamos encontrado nas últimas duas semanas. Passamos uma hora ao telefone avisando a todos sobre a possibilidade de haver piolhos em suas cabeças. Duas pessoas haviam suspeitado da existência do parasita naquele mesmo dia. Pediram dicas de remédios. Expliquei tudo direitinho. E ainda recomendei altivez e bravura na hora de pedir o remédio no balcão da farmácia.
_Chegue bem perto, mas bem perto do balconista, como se fosse contar um segredo. Aí diga bem alto que está com piolho – falei.
Depois de seguir as minhas recomendações, uma das pessoas(vou preservar o nome da criatura) me ligou de volta. Da delegacia.
_O balconista tinha aquelas tranças de rastafari, as dreadlocks – ele me explicou. Achou que era um atentado racista no dia da consciência negra.
_E era?
_Claro que não. Mas o delegado é irmão da mulher dele e não quer nem saber. Só saio daqui se raspar a cabeça.
_Bem-vindo ao meu mundo, colega. Quer que eu vá te buscar?

Frase do dia