terça-feira, 20 de novembro de 2007

Adesão involuntária


Existem poucas coisas mais desagradáveis do que ouvir a professora na escola dizer que sua filha de 3 anos está com piolhos. A primeira reação é negar completamente.
_Minha filha? É impossível. Eu mesmo dou banho nela todos os dias e ela nem sequer está coçando a cabeça. Impossível.
E aí você olha para a menina e ela está levando a mão até a cabeça. E coça a cabeça. E faz careta enquanto coça.
_Minha Santa Genoveva!
Aí você admite, com ressalvas.
_Deve ter sido nesse final de semana!
_Achei um monte de lêndeas – diz a professora.
E por mais estúpido que você seja em matéria de piolhos e parasitas em geral, você sabe que demora um pouco para um bicho começar a ter filhotes na cabeça dos outros.
_Amanhã ela não vem – você admite a derrota, envergonhado.
Cheguei em casa arrasado. Minha filha com piolhos. O que é que eu estou fazendo de errado? Dou três banhos por dia. Uso shampoo dia sim, dia não. Penteio com cuidado a cabeleira. Que vergonha. Que vergonha. Espero a Patroa chegar, conto a novidade rapidamente e corro para a farmácia.
_Tem remédio para piolho? – eu pergunto ao balconista assim que aterrissei na farmácia. O balconista me olha com um misto de riso, superioridade, nojo e pena. Afinal, eu sou um careca com um tufo de cabelo na nuca. Mas talvez eu tenha me enganado, e o olhar só tivesse superioridade e nojo.
_Neocid? Tem neocid? – eu insisto, lembrando o nome do mata-piolhos que minha mãe usava na gente, quando éramos crianças e inocentes.
_Neocid? Não sei se tem. Mas tem vários outros – o balconista se digna a responder, evitando a proximidade com a minha careca e meu tufo de cabelos.
Fiquei ali, esperando uns 5 minutos. O balconista, agora sério e sem demonstrar desprezo, voltou com uma touca transparente na cabeça e trouxe uma porção de remédios para piolhos. Como qualquer coisa hoje em dia, existem remédios de todas as marcas, tamanhos, cores e preços. Escolhi uma embalagem com um design ajeitado, que prometia acabar com toda a praga de piolhos em apenas dez minutos. De lambuja, o remédio me dava um pente fino. Comprei um pra cada um lá de casa, dois para a Patroa, e várias toucas descartáveis. Na fila do caixa, as pessoas se afastavam ao perceber o que eu tinha nas mãos. Na minha hora de pagar, cocei o tufo na cabeça com força, para desespero do caixa e da velhota que estava atrás de mim, na fila interminável. Caramba, como tem fila nessa cidade!
Voltei pra casa triunfante.
_Eu tenho a cura – gritei para a Patroa, assim que ela abriu a porta.
Fomos todos lavar as cabeças para passar o remédio. Eu não tenho muito cabelo para lavar, mas disfarcei bastante. Depois ficamos muitos minutos catando piolhos, um na cabeça do outro, usando os pentes finos para pegar os bichinhos. Parecíamos um bando de macacos. E tive que ralhar com o mais velho, de quatro anos, que toda hora fazia menção de levar um piolho capturado até a boca.
_Está envenenado. Não pode – eu dizia.
No final, só encontramos piolhos nas crianças. Aí fizemos uma lista de quem tínhamos encontrado nas últimas duas semanas. Passamos uma hora ao telefone avisando a todos sobre a possibilidade de haver piolhos em suas cabeças. Duas pessoas haviam suspeitado da existência do parasita naquele mesmo dia. Pediram dicas de remédios. Expliquei tudo direitinho. E ainda recomendei altivez e bravura na hora de pedir o remédio no balcão da farmácia.
_Chegue bem perto, mas bem perto do balconista, como se fosse contar um segredo. Aí diga bem alto que está com piolho – falei.
Depois de seguir as minhas recomendações, uma das pessoas(vou preservar o nome da criatura) me ligou de volta. Da delegacia.
_O balconista tinha aquelas tranças de rastafari, as dreadlocks – ele me explicou. Achou que era um atentado racista no dia da consciência negra.
_E era?
_Claro que não. Mas o delegado é irmão da mulher dele e não quer nem saber. Só saio daqui se raspar a cabeça.
_Bem-vindo ao meu mundo, colega. Quer que eu vá te buscar?

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