sexta-feira, 9 de novembro de 2007

Encontrei um dos melhores do mundo



Parece que só quando estou muito desempregado que começo a reparar na minha própria aparência. Como agora, por exemplo. Estou desempregado há algum tempo, mas só agora estou me sentindo muito desempregado. Esse sentimento aparece geralmente quando estouro o cheque especial. Ou então é alguma outra coincidência. Estouro o especial, me sinto muito desempregado, olho no espelho, arrebento o cinto, subo na balança. Parece uma seqüência lógica, mas acontece em qualquer ordem.

Vamos aos fatos. Eu fui ao shopping. Coisa besta e trivial, não é? Não, tudo é diferente quando você está desempregado. Para começar, com um emprego, você não precisa de desculpa para ir ao shopping. Você vai porque está a fim e ponto. Mas eu, pô, estou noutra. Tinha que ficar me dizendo que não ia comprar nada, era só para bater perna. “Você também é um ser humano”, eu pensava, quase em voz alta. “É só para distrair um pouco. Vai só curtir o ar condicionado. Não custa nada. Anda. Permita-se. É de graça” – e por aí afora.

Aí cheguei ao shopping. Quando você tem emprego, não encontra ninguém no shopping. Nem mesmo as pessoas com quem você combina de se encontrar. Mas quando você está desempregado, encontra todo mundo. Especialmente as pessoas que você não queria encontrar. O ex-chefe, por exemplo.
_Olá, você por aqui?
_E você? Por aqui? Aliás, por aqui, você?
A ex-mulher, com “cara- de-cadê-a-minha-pensão”.
_Vou mandar te prender...
_Querida, nada de algemas. Comigo é sexo careta, você sabe.
Aquele cara para quem você deve uma grana.
_Vou te quebrar um joelho.
_ Se tu me quebrar, não vai receber. Eu vou vender os meniscos, cara.
Uma antiga ex-namorada, que finge que nunca viu você em toda a vida dela.
_...
_ Lembra de mim? Namoramos muito no sofá da sua casa. Você continua a mesma. Você engasgava, lembra? Tossia. Corria pro banheiro. Um horror.
O síndico. Como você sabe, síndico é um morador do prédio que resolve infernizar a vida dos outros e ainda fazer cara de coitado.
_O senhor está com o condomínio atrasado.
_E o senhor é o atraso do condomínio – retruquei, à la Carlos Lacerda.
Encontrei também o Tavares, um intelectual.
_Como vai?
_É uma pergunta retórica? – retruquei.
_Como assim?
_Assim, como?
Para encurtar, encontrei uns dez conhecidos, todos eles com sacolas nas mãos, inclusive a minha ex-mulher. Eu carrego panfletos de promoções para momentos como esse. Panfletos, folhetos e filipetas são essenciais nessas horas. Se alguém levantar as sobrancelhas, com ar superior, como a me dizer “que diabos você está fazendo aqui sem comprar nada?”, pronto, eu mostro uma promoção. Gesticulo com o panfleto. Ou sacudo a filipeta. Agito o folheto. Com isso tento fazer crer que estou ali fazendo alguma coisa útil e fundamental, como gastar dinheiro, ao invés de estar à toa, inútil e fútil, sem gastar nada, com o crédito zerado e uma dívida de 5 dígitos. Como já dizia o meu amigo e guru Velho Tom, é sempre melhor parecer um pechincheiro do que um desempregado vagabundo, bebum, doente, endividado, piolhento e fedido. Ainda mais no shopping.
Mas no penúltimo encontro com um dos conhecidos, eu estava desprotegido. Não havia nem mesmo uma filipeta por perto para proteger minhas mãos do clássico “abanando”. E tinha que ser justo o Siri, do grupo Os Melhores do Mundo. Gente boa, boa pinta, alegre, simpático e gentil. O Siri foi atencioso e levamos aquele bate-papo imortalizado pela música “Sinal de Trânsito”.
_ Olá, como vai?
_Tudo bem. E você? Eu vou indo...
E foi mais ou menos a mesma coisa. A diferença é que o Siri tem bom humor e alegria de viver de sobra. Deve ser por isso que ele ganha um troco com ela. Algumas pessoas começaram a rir dele, é claro. O Siri é arquiteto. E é comediante. E é dos bons numa dessas duas coisas. E já trabalhou na televisão, na maior delas. Na de mais de 49 polegadas. E quando ele me desejou boa sorte, com um tapinha na barriga, é que eu tive certeza de que o meu cheque especial tinha estourado. Tive certeza absoluta que estava 11 quilos acima do meu peso ideal. Tive plena consciência de que os pneus da minha cintura poderiam ser usados como estepes para dois grandes veículos. E também que eu, ao invés de Careca, definitivamente tinha de ser chamado de Calvo, o Balofo.
_ Até logo, até logo, não esqueça, não esqueça, não esqueça.... – brincou o Siri, se afastando junto com a voz. Ele realmente ficou feliz por me encontrar, embora não se lembrasse do meu nome e nem de onde diabos me conhecia. Bom, eu também não. Então fiquei grato por ele ter sido, no final das contas, um cara que me tratou de igual para igual, embora o terno Armani, o Rolex e outras coisinhas que ele usava evidenciassem algumas pequenas diferenças. De estilo, é lógico. Falando sério, o Siri não me olhou como se eu fosse pedir dinheiro emprestado. Por isso, eu quase toquei nesse assunto. Na última hora, uma coisa me impediu. Orgulho? Amor próprio? Não. Acho que era um segurança da loja, pedindo para eu devolver alguma coisa. Quando virei de volta, o Siri já tinha se mandado.
Procurei um espelho. E no shopping existem espelhos à beça, espalhados por um sem número de pilastras, para que você se veja o tempo inteiro. De acordo com o Velho Tom, os espelhos dos shoppings são “lembranças perenes e brilhantes de que você vai precisar desembolsar uma baba se quiser ficar com uma aparência melhor”.
Dei uma olhada num dos maiores e melhores espelhos do shopping. E comecei a me sentir miserável e infeliz, ou infeliz e miserável, não sei mais a ordem certa. Mas de repente, como que pairando sobre a parva multidão de consumidores, levitando sobre suas sandálias de couro velho, vi uma figura irônica, descabelada, barriguda, evidentemente sem grana e ainda mais aturdida do que eu.
Era o Velho Tom.
E, de repente, me lembrei que no tempo em que eu era só um menino, os garotos do vizinho me invejavam porque lá em casa tinha TV preto e branco. É que na casa deles só tinha rádio.
Entendeu? Entendeu?

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