quinta-feira, 22 de novembro de 2007

Preferências


Não conte comigo para um bocado de coisas. Passeatas, por exemplo. Detesto passeatas. Aqui nessa cidade, toda semana tem passeata e nenhuma adianta coisa alguma. Os caras que participam aparecem em flashes de alguns segundos nos telejornais e pronto. Não se fala mais no assunto. Até porque no dia seguinte tem outra passeata e os telejornais e jornais darão destaque à manifestação do dia. Os 15 minutos de que falava o Warhol viraram 15 segundos e pronto. Ninguém da cidade perde tempo com isso.

Lavar carro no final de semana. Ta bom. Isso é da idade. Fazia sentido quando eu tinha 17 anos, não tinha carteira e essa era a única forma de ficar com as mãos nas chaves do carro. Mas ainda hoje, com crise de água, ecochatos e “clima change” você dá uma volta pela cidade e ainda encontra um monte de caras gastando um dilúvio de água e lustrando o carro mil com aquele sorriso de luxúria no rosto. Dá uma pena danada.

Também não conte comigo para jogar baralho. Pôquer, truco, tuíste, canastra, qualquer dessas coisas me enchem de tédio. Aliás, não me chame para qualquer jogo. Um estádio, de vez em quando, pode ser. Mas o resto, estou fora.

Não me chame para shows de chorinho. Aquele povo do violão, viola, cavaco, cavaquinho, reco-reco, flauta e pandeiro são instrumentistas de mão-cheia, são artistas magníficos, mas têm uma conversa para boi dormir que me irrita o fígado. Não é à toa que são tão apreciados no exterior. Lá fora ninguém entende as piadas e as historinhas babacas que eles gostam de contar.

Esqueça o meu nome quando o programa for passear de bicicleta, correr ou andar no parque da cidade. Eu adoro fazer tudo isso, especialmente no parque da cidade, mas gosto de fazer sozinho. Em academia, ou estou na piscina ou malhando com fones de ouvidos. Se quiser conversar comigo, me espere do lado de fora.

Não me peça dinheiro emprestado. Eu não tenho dinheiro. E se tivesse, cobraria mais juros do que um banco.

Não me peça conselhos. Não me dê conselhos.

Não conte em me vencer por insistência. Só me ofereça o que tiver de oferecer uma única vez. Se eu aceitar, legal. Se eu não aceitar, não insista.

Não diga que eu estou nervoso. Existem poucas coisas que deixam o ser humano nervoso imediatamente. Essa é a principal.

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