terça-feira, 13 de novembro de 2007

Eu não sei como traçar uma supermodelo II



_Preciso ir ao banheiro – eu disse.

A Patroa juntava umas coisas que tinham escapulido da bolsa. Eu saí de fininho e fui até o banheiro. Meu supercílio esquerdo deixaria Robert de Niro (O Touro Indomável, Táxi Driver, Frankenstein, Cassino e Os Bons Companheiros) com inveja. Estanquei a sangueira com um pedaço de papel. Felizmente estava com a minha jaqueta de couro. Foi só puxar o zíper para esconder a camisa suja.

O que estava acontecendo comigo? Como era possível sair do ar durante 15 minutos só por ter visto uma supermodelo? Como eu faria para me desculpar com a Patroa? Coitada. Ela estava ali, chegando de uma viagem difícil. Tinha ido trabalhar duro para ganhar dinheiro para gastar comigo e as crianças. Tinha viajado numa poltrona desconfortável, na primeira classe, até o Rio de Janeiro. A Patroa, a trabalho, tinha ido a três shows e duas peças de teatro naquela semana. Tinha, por obrigação, freqüentado os cinco melhores restaurantes da cidade maravilhosa naqueles dias sofridos. E, além de tudo, tinha acordado tarde todos os dias.

Eu, por outro lado, tinha ficado no bem-bom daqui de casa, à toa feito um desempregado. E ainda por cima, acordando cedo, às seis e meia, para preparar a mamadeira das crianças. Como choveu uma semana, direto, com pequenas enchentes sendo registradas nessa cidade, tive que ficar sete dias enfurnado no apartamento. E você sabe a delícia que é pajear crianças em sete dias de chuva? Só posso dizer uma única coisa: Noé deve ter enlouquecido.

O fato é que a Patroa estava esgotada. Eu estava cansado de não fazer nada. E ainda por cima não tinha visto, ouvido ou reconhecido a Patroa no momento em que ela me acertava bolsadas. Todo mundo sabe que a bolsada é uma legítima demonstração de apreço e carinho de uma mulher para o homem que a ama. Não, senhor. Não, senhora. Eu teria que me desculpar do melhor jeito que pudesse. Por isso, me ajeitei mais um pouco e saí do banheiro com um plano bem definido. Tudo seria resolvido. A Patroa iria me perdoar.


Encontrei a Patroa no saguão principal. Chamei por ela, com um pedido de desculpas bem ensaiado na cabeça. Mas ela parecia estar em outro pedaço do planeta. Olhava fixamente, de boca aberta, para uma pequena aglomeração de fotógrafos esvoaçando em torno de uma figura alta e atlética. Parecia com o Gianechini.

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