terça-feira, 1 de abril de 2014

Não existe fada dos dentes

Estávamos conversando como sempre fazemos durante o jantar. Todo mundo falando ao mesmo tempo e com pressa para contar a história primeiro. De alguma maneira, alguém sempre consegue prevalecer e em geral todos protagonizam uma fala pelo menos uma vez, mas é sempre uma algazarra. Já tentei impor alguma ordem na balbúrdia, mas isso foi interpretado como abuso da autoridade paterna, então não me meto a besta de querer ordenar a coisa. Trato de esperar um pouco para encaixar a minha voz numa das pausas para respiração de alguém e também eu contar a minha história. O que eu sei é que já haviam sido repassados pelo menos três assuntos, sendo o principal deles a queixa do meu filho quanto à acusação infundada, feita por mim, de que estaria trancado no banheiro fingindo tomar banho enquanto jogava video-game com o Ipad.

_Não é verdade! - ele disse. Eu estava fazendo o número dois e aproveitei o tempo livre para jogar um pouquinho.

_Por quê você sempre arruma um jeito de falar de número dois na hora da refeição? - disse a minha mulher.

_E por quê o chuveiro estava ligado? - eu disse.

_Eu tinha acabado de terminar de jogar e ligado o chuveiro - ele disse.

_Não colou - eu disse.

_É preciso acreditar no que ele está dizendo - disse a minha mulher.

_É, paiê, é preciso acreditar - disse a minha filha.

_Viu? - disse o meu filho.

_Por quê eu estou sempre em minoria total e absoluta? - eu disse, mas ninguém ouviu.

Eles agora falavam sobre o que tinha acontecido na escola e fora de casa. E meu filho contava que outro dente-de-leite tinha finalmente caído. Foi o pretexto para uma nova balbúrdia com uma disputa de assuntos e temas correlatos, com todo mundo aumentando o tom de voz e querendo falar mais do que o vizinho. Mas bem no meio, de repente, exatamente quando o alarido tinha chegado ao ápice, veio o silêncio.

_O quê? - disse a minha filha.

_Não existe Fada dos Dentes, filha - disse a minha mulher.

_Como assim? - disse a menina.

_Não existe Papai-Noel, não existe Coelhinho da Páscoa e não existe Fada dos Dentes, filha. Você sabe disso. Já conversamos. E você tem nove anos - disse a minha mulher.

Subitamente eu tive certeza absoluta de que se eu tivesse dito a mesma coisa trinta segundos antes eu teria levado pelo menos uns cinco chutes na canela e um beliscão. No mínimo. Mas agora minha mulher olhava para mim como quem busca solidariedade, eu não poderia deixá-la na mão. Mas confesso que curti durante alguns segundos ver aquele ar de "putz, dei mancada" no rosto de outra pessoa. Em geral, as mancadas são todas minhas.

_Fantasma, assombração, mula sem-cabeça, saci, nada disso existe, filha. Papai Noel não existe, mas existe o Espírito de Natal, que é acreditar e ter esperança de que as coisas boas aconteçam. Quando acontecem, as coisas boas são transformadoras e maravilhosas, deixam as ruins no chinelo - eu disse.

Ela parou de choramingar por um instante e depois voltou.

_O Coelhinho também não existe, mas o Espírito da Páscoa está aí, está bem próximo. Eu aprendi que Páscoa significa passagem. A origem da palavra está ligada à história da fuga dos judeus escravizados do Egito, que passaram pelo meio do Mar Vermelho nessa época do ano. Então, para os judeus, a Páscoa significa a passagem para a liberdade, para um tempo de felicidade. Para os cristãos, a Páscoa é a ressurreição de Cristo, é o renascimento da esperança de uma vida melhor...

_E onde entra o chocolate? - disse o meu filho.


_Os judeus faziam chocolate no Egito? - disse a minha filha.


_Não, sua boba, os judeus comiam coelhos, eu vi na TV - disse o meu filho.


_Eles comiam coelhos de chocolate? - disse a menina.

Em alguns segundos eu levaria mais um chute na canela.

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