quinta-feira, 3 de abril de 2014

O nebulímico estupor bajulatório

De acordo com um velho ditado, reunião de mais de três é comício. Isso é uma grande verdade. Só que agora não existe reunião de mais de três sem que haja pelo menos um ativista. Falta um tempão para a eleição, mas está difícil até conversar potoca na frente da escola sem que apareça um ou mais militantes prontos para ensaiar uma argumentação pró-governista, uma esculhambação da imprensa, ou uma ironia com a nossa combalida oposição, que de tão pequena e frágil, a gente, com dó, chama de oposicinha.

Desta vez eu estava numa boa ouvindo outros pais a reclamar da infra-estrutura, do transporte público, da falta de segurança, dos hospitais, da inflação, da roubalheira e da corrupção, que está demais - ninguém merece, quando chegou a pessoa ativista. Reconhecer uma pessoa dessas é mole. Ela entra no meio da conversa já pautada, com os argumentos recém-adquiridos na ponta da língua, em geral já devidamente redigidos por uma das milhares de penas de aluguel do babaovismo que impera nesta e em outras cidades. Em Brasília, o nível do puxa-saquismo é bem mais elevado do que em outras cidades, o que atrapalha um pouco as percepções. Aqui as tendências são mais complicadas e, como em qualquer corte e centro de poder, o alto teor de cinismo dos interlocutores prejudica uma interlocução franca. No popular, aqui todo mundo está acostumado a encostar o bumbum na parede e tirar da reta. Numa cidade administrativa, onde a maior parte das pessoas trabalha para o governo federal ou para o governo local, dizer amém para as autoridades é muitas vezes condição de sobrevivência. Seja como for, a ativista militante chegou para arrebentar.

_Vocês viram aquela avaliação sobre o aprendizado de matemática? - disse a militante. E passou a defender com unhas e dentes as nossas crianças. De acordo com ela, nossos querubins foram extremamente mal avaliadas no último match internacional de raciocínio lógico e matemático.

_As perguntas falam de MP3, de bilhete de metrô, de ticket de trens, de horários de ônibus. Ora, as nossas crianças não vivem essa realidade, não sabem lidar com isso. Foi por isso que não souberam responder as perguntas.

Eu e os outros pais não-alinhados apenas nos olhamos. O não-alinhamento, como todo mundo sabe, consiste em não ficar ao lado do que é repulsivo e ofensivo ao bom-senso e aos bons costumes nos dias de hoje. Há também quem seja mais tolerante e flexível, aceitando como não-alinhado todo aquele que não concorde em ficar de quatro e babar a cada bobagem dita pela infinidade de bacanas que ocupam posições de poder espalhadas na gigantesca máquina inoperante e sanguessuga da nossa burocracia. Mas eu não sou desses. O não-alinhado é qualquer pessoa que desconfie que está sendo enganado ou que pode vir a ser enganado pelos bacanas poderosos e também pelos coitados presumidos, que são tão enganadores quanto os poderosos. Ou seja, o nível de paranóia entre os não-alinhados é bem elevado, mas é bem melhor do que o nebulímico estupor bajulatório em que se encontra uma porção de gente.

Nós nos olhamos e deixamos o ativista militante falar. Eles são incansáveis e irredutíveis quando encontram alguma resistência, mas se calam rapidinho quando ninguém abre o bico. Provavelmente iríamos ficar em silêncio mais tempo, mas felizmente o ônibus chegou com as crianças e toda aquela coisa sem sentido foi esquecida rapidamente.

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