segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Dengue, o último refúgio do Careca

Demoro uma semana de exames e umas trocentas e noventa mil horas de dores e incômodos para descobrir que sim, estou com dengue.

_Dengue? - perguntam meu vizinhos. Aos olhos deles, sou um sujeito que fica em casa fazendo barulho e gerando insetos para provocar doenças na vizinhança. Ou então um gerador de despesas extras, um sujeito que está sempre ocupado aparando a grama e cuidando do jardim para que eles saiam da letargia e também deixem suas casas mais bonitas.

_Não é hemorrágica. Ou pode ser, não sei. - eu disse, revirando os olhos para a vizinha da direita. Ela não gosta das minhas lixadeiras. Ela não gosta das serras elétricas. Ela reclama do barulho ensurdecedor do aspirador de pó. Ela uma vez disse que meu cachorro latia muito. Pô, Rafa, o Shit-tzu de estimação da minha filha é tão silencioso quanto um monge samurai gafanhoto. Secretamente, eu sei que essa vizinha torce para uma reviravolta do quadro-geral e eu sufoque em grave quadro de ebola. Por isso, alimento logo as falsas esperanças dela, que é para que não se transformem em desejos piores e mais sufocantes.

_Só vou ter certeza de que não é hemorrágica depois do teste do laço - eu digo, fazendo pose de sabichão wikipedia.

_Teste do laço?

_É um procedimento complexo de garroteamento do braço durante um grande período de tempo para a verificação da ocorrência de petéquias e outras formas de micro-manifestações hemorrágicas.

_Putz! - diz a vizinha. Eu jamais obteria esse efeito se dissesse que a enfermeira amarra seu braço por cinco minutos e verifica se fica alguma marca roxa. Não senhor, graças a Deus.

Então aqui estou eu, explicando para a vizinha passeando com o netinho porque estou nessa cadeira de plástico branco na frente de casa, observando os meninos descerem a rua de skate.

_Estou seguindo instruções médicas. Tenho que fazer repouso semi-absoluto. Só posso movimentar os olhos de um lado para outro, com velocidade relativa.

_E quando vai ficar bom? - pergunta a vizinha. Eu sei, eu sei. Lá no fundo ela deseja que apenas a franja da minha capa de Batman se recupere durante o meu último e mísero suspiro.

_O médico falou para que eu não me apressasse. Existem aspectos salutares pouco comentados sobre a dengue, um deles é a insônia com enxaqueca, com a qual, pelo que li nas bulas dos remédios prescritos pelo bom doutor, é possível usufruir de horas intensas de leitura e escrita.

_Ler e escrever? Eu pensei que dengue levava a pessoa a um estado geral de fadiga.

_Só quem não gosta de ler.

_E você gosta?

_Tento não gostar, mas é mais forte do que eu.

_Melhoras, então - ela disse. E eu percebo no fundo do olho o lampejo de uma praga arredondada vindo em minha direção. Mas,zás. Com um golpe de vista eu destrambelho aquela arenga e entro para tomar o genérico do voltaren. Sem voltaren não dá.

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