sexta-feira, 6 de junho de 2014

Vazamento

Vazamento sob a pia do lavabo, na segunda-feira.

_É o rabicho - disse o meu lado bombeiro hidráulico.

Eu mesmo troquei o rabicho, é claro. Por 13 pratas. Testei e tudo funcionou maravilhosamente. Nenhuma gota após 12 horas.

_É campeão, é campeão - eu pensei.

Na terça-feira, novo vazamento sob a pia. Revejo o conserto.

_É o joelho do encanamento - disse o meu lado bombeiro hidráulico.

Quase o mandei plantar batatas. Apliquei silicone (10 pratas + ou -), aguardei 24 horas para secagem e vulcanização. Quarta-feira com o lavabo a pleno funcionamento e perfeitamente seco.

_É campeão, é campeão - eu comemorava.

Na quinta-feira, a parede oposta à pia do lavabo amanheceu molhada. Vazamento interno.

_Vou ter que quebrar a parede e trocar o cano, provavelmente é uma fissura atrás do joelho do encanamento - eu ouvi o idiota do meu lado bombeiro gaguejar. Resolvi ignorá-lo e procurar ajuda profissional.

Esperei até o início da tarde a chegada do bombeiro hidráulico para orçamento. A minha torcida, felizmente, também aguardou a facada em silêncio.

Os caras do socorro bombeiro chegaram às três horas. Estavam sujos pacas.

_A gente estava bem perto daqui - disse o que parecia ser o líder.

_Perto daqui - disse o que parecia ser o liderado.

Hesitei em deixar a dupla entrar em casa com aquelas roupas e calçados imundos. Mas segui a recomendação de amigos, não banquei o importante que abre as portas do castelo. Ao contrário, fiz a minha cara de humilde, chamei de senhor, conforme me ensinaram. Eu saco muito dessas técnicas de apresentação de orçamento hidráulico. Os caras, em geral, usam a velha tática de "good cop, bad cop". Um salga o preço, o outro sopra descontos. No final, mesmo que você ganhe muitos descontos, estará pagando um preço pra lá de salgado. Por isso eu gosto de usar a minha velha tática de "dividir para conquistar".

Olhei para o sujeito mais velho e disse que era coisa rápida, talvez fosse melhor que o ajudante esperasse do lado de fora.

_Ajudante? - disse o bombeiro mais velho.

_É. Seu auxiliar pode ficar no carro, não precisa de dois para fazer um orçamento, certo?

_É o meu sócio.

_É uma sociedade 50/50?

_Bem, na verdade...

_Quem é que manda, afinal?

_Bom, pra falar a verdade...

_Aqui em casa manda a minha mulher, rá,rá. Um entra, o outro espera do lado de fora. Quem vai entrar?

_Nesse caso, eu vou - disse o sujeito mais velho.

Eu me apresentei, estendi a mão. Ele esfregou a mão na roupa suja antes de apertar a minha.

_Tomaz.

_Seu Tomaz, o vazamento é no lavabo...

O bombeiro hidráulico olhou de relance para o lavabo enquanto eu descrevia o problema. Depois entrou, examinou o rabicho, o silicone, balançou a cabeça, fez tsc-tsc-tsc e balançou a cabeça de novo. Eu podia sentir o meu rosto vermelho. Acho que se eu não estivesse ali o bombeiro teria cuspido de lado. Levantou-se sem dizer nada e foi se dirigindo para a porta de casa. Parecia muito concentrado calculando o custo do material, deduzindo os IOFs, o IRPJ, o IRPF, o Simples, o Complexo, o ICMS, o imposto sobre os combustíveis, a taxa extra da luz, a TJLP e o monte de juros do cheque especial.

_E aí, Seu Tomaz? - eu disse, visualizando cifrões voando da minha conta bancária.

_Vou ter que falar com o Geraldo - ele disse.

_E quem é o Geraldo? - eu disse.

_O Geraldo está lá fora - ele disse. Putz, lembrei de Arquivo X, na hora.

Acompanhei o Seu Tomaz até o carro. Os dois confabularam em voz baixinha, não deu pra ouvir patavina. De repente olharam os dois para mim, com risinhos no canto da boca. Acho que foi na parte do silicone. Então o Seu Tomaz tomou o lugar no carro e Geraldo veio até a porta.

_E aí, Seu Geraldo?

_Vou ter que entrar pra ver - disse o outro bombeiro hidráulico.

Apertamos as mãos depois que as esfregamos na camisa. A cena foi bem parecida. Descrevi o problema, Geraldo fez hum-hum, entrou no lavabo, olhou o rabicho, balançou a cabeça, fez tsc-tsc-tsc e perguntou quem tinha feito aquilo.

_Foi um bombeiro amador daqui perto - eu disse.

_E você pagou por isso? - disse o Seu Geraldo.

Eu não disse nada. Decidi que era hora de recuperar a ofensiva.

_E aí, e o serviço? Qual é o orçamento?

_Preciso ver com o Tomaz.

Até o Rafa estava achando aquela história comprida demais. O cachorro de estimação da minha filha não nos seguiu pelas escadas, desta vez. Ficou deitado como um tapete ao lado da porta do lavabo.

Lá fora, Tomaz e Geraldo cochicharam e riram mais um pouco da minha tentativa de remendo. Balançaram a cabeça em sintonia e concordância. Tomaz se aproximou, solenemente.

_Fica em trezentos.

_Como?

_Trezentos. Mas isso é só a mão-de-obra, sem o material e sem o serviço de alvenaria. Só mexemos com a parte hidráulica - disse Tomaz.

_Trezentos - eu disse, me lembrando do filme, os espartanos rachando os persas na porrada.

_Podemos indicar um excelente pedreiro - disse Geraldo.

_Muito obrigado, então - eu disse, fechando o portão.

_Podemos agendar pra quando? - disse Tomaz.

_Eu ligo pra vocês - eu disse. Mas tenho certeza de que não vou ligar.








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