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sexta-feira, 11 de julho de 2008

Leitor de banheiro



Estou sempre com dois livros no banheiro. De vez em quando, a Rose, que é a cozinheira-passadeira-arrumadeira-governanta-faxineira daqui de casa, tira os livros do banheiro e põe em algum outro lugar.

Eu achava que era Saci, mas o último Saci morreu aprisionado pelo Pedrinho, do Lobato. Além disso, eu demoro uns dez meses para voltar a encontrar os livros. E o único Saci bom de esconder coisas aqui em casa é a Rose. Como ela acumula uma série de postos-chave, eu não posso nem pensar em fazer uma pequena observação em voz calma, pausada, ponderada e sensata para a Rose.

Ao invés disso, eu alterei levemente o meu bom hábito de ter dois livros no banheiro. Continuo a ter dois livros, mas finos. Assim, como a Rose só esconde os livros depois de uma semana, dá tempo de ler os dois livros, se eu me esforçar um pouco. E eu me esforço.

Essa semana, por exemplo, ao invés de dois livros eu deixei apenas um, Recordação da Casa dos Mortos, do grande, único, tranqüilo e infalível como Bruce Lee, ele mesmo, o Dostoievski.

É extraordinário o desapreço pelos clássicos que algumas pessoas tentam passar para nós, enquanto somos apenas estudantes. Dostoievski é um desses casos. Machado de Assis é outro. Li esses dois cedo demais, aos quinze anos, achei sem graça e chato. Só começou a ficar legal depois que eu entrei na universidade. Mas ainda assim era meio pesado.

Aí, um dia, li Crime e Castigo e aquilo não saía da minha cabeça. Depois li Esaú e Jacó e aquele era música para os meus ouvidos. Depois li Os Irmãos Karamazov e eu descobri um mundo inteiro de coisas novas e magníficas. Aí li Dom Casmurro e curti de montão. E depois fui ler os caras que adoravam esses caras, Machado e Dostoievski.

Eu, se fosse professor, um dia ia gostar de falar sobre os clássicos para os alunos, e falaria assim: ó, esses aí não são livros para criancinhas, isso é livro para gente apaixonada por livros, para gente que ama o que os outros escrevem, para quem se deslumbra com castelos, reinos, subterrâneos e esgotos construídos com palavras. Quem quiser ler esses livros clássicos, tem que abandonar preconceitos e mergulhar de cabeça. Tem que ficar pronto para ficar pendurado, de ponta-cabeça, na beirada de um precipício, olhando lá embaixo os jacarés e crocodilos prontos para devorar a sua alma.

Sim, meus amigos, minha Kombi de leitores atentos, meu Fiat 147 de leitores assíduos. Sim. Essa semana, apesar dos meus esforços, não consegui terminar o “Recordações”. E a Rose guardou o “Recordações”. E eu não encontro o livro em lugar nenhum. Neste sábado, portanto, vou contrariar um pouco a regra número um. Vou negociar com a Rose um prazo mais elástico para esconder os livros. Acho que duas semanas está de bom tamanho.

Frase do dia