Fui almoçar hoje com dois colegas de trabalho. Sujeitos legais. Nenhum de nós conseguiu se livrar do trabalho nas proximidades da hora do almoço e acabamos almoçando juntos no shopping. Às vezes, é uma boa.
Hoje nós encaramos um self-service razoável, dentro de uma livraria. Conversa vai. Conversa vem. Um dos caras viu um enorme telescópio em exposição na livraria.
_Pô Careca, acho que eu vou comprar um telescópio.
_É uma boa - eu disse. Dizem que é muito bom observar as estrelas.
Mas, por dentro, eu pensei: "Cara, com esse seu jeitão de astrônomo, o vendedor vai sacar no ato que você vai bisbilhotar a vizinhança inteira."
_Esse telescópio é muito bom. Eu tenho um desses. Fico observando os anéis de saturno - disse o outro colega.
_Demais, os anéis de saturno - eu disse, balançando a cabeça em concordância. O lugar onde eu trabalho está cheio de intelectuais e pensadores. São tipos abstratos.
Mas, por dentro, eu pensei:"Bicho, com esse seu jeitão de TED, está na cara que você só está a fim de olhar os anéis das satúrnias que saem do banho."
_E você, Careca? Não curte astronomia? - me perguntou o TED.
_Curto, curto de montão. Mas não sei distinguir uma Três Marias de um Cruzeiro do Sul, Escorpião de Capricórnio, Libra de Câncer. E ainda por cima acho que sou daltônico. Para mim a Estrela D´álva é da mesma cor que o planeta Vênus e o planeta Marte - eu falei, esperando os comentários.
Ninguém protestou. Em seguida, os caras falaram de política. Depois falaram de economia. Depois falaram de férias. Em seguida, falaram de futebol. E depois voltaram a falar do telescópio. Ambos duvidavam que Amstrong tivesse pisado na lua.
_Foi armação. Vi na Internet. É tudo mentira - eles disseram.
_O que você acha? - perguntou o TED.
_Acho que foram de verdade - eu disse.
E, por dentro, eu pensei:"Eles foram. E voltaram. E foram de novo, uma porção de vezes. E voltaram em todas. Não esqueceram ninguém."
Mas daqui a uns vinte anos, acho que o mito da armação estará mais forte que a verdade.
terça-feira, 11 de agosto de 2009
Os anéis de saturno
segunda-feira, 10 de agosto de 2009
Certezas curtas
Das certezas
Tenho convicções abaladas. Isso não foi provocado por uma só coisa, um fato único. É mais uma derivação de tudo o que acontece, um efeito lento e inevitável de uma maré interna. Uma escavação de longos anos nas pedras que eu tenho no peito. Certezas, tenho poucas. Curtas.
domingo, 9 de agosto de 2009
Uma grande dica de Hemingway
"Indo aonde se deve ir, fazendo o que se tem que fazer, observando o que há para se observar, qualquer um encontra e identifica material e instrumental para escrever uma história. Quanto a mim, prefiro trabalhá-la e poli-las bastante, prefiro ter de colocá-las, por assim dizer, numa espécie de bigorna, martelá-las até forjá-las a contento, ou mesmo apenas moldá-las numa pedra já formatada, e asim saber que tenho algo sobre o que escrever: prefiro isso a ter aquele material claro e brilhante, já pronto, e não ter nada a dizer, ou então tê-lo limpo e bem lubrificado, guardado no armário, mas fora de uso.
Então faz-se sempre necessário utilizar a bigorna. Gostariade viver o bastante para escrever mais três romances e mais vinte e cinco contos. Conheço alguns casos muito interessantes."
Ernest Hemingway (1938)
Esse pedaço de texto está na orelha do segundo volume de contos organizados pelo próprio Hemingway e publicado no Brasil pela Editora BB-Bertrand Brasil, em 2001. São 21 contos. Na maioria deles, um dos personagens morre. Num dos que mais gosto, Nick, o alter ego de Hemingway, testemunha a chegada de dois assassinos numa lanchonete.
É extraordinário como Ernest consegue colocar você ao lado do protagonista.
É extraordinário como, numa orelha de livro, ele parece falar do que aconteceria somente em julho de 1961, com sua espingarda de caça, na sua residência em Idaho.
sábado, 8 de agosto de 2009
Uma armadilha para o meu pai

Uma vez meu irmão leu o Manual do Escoteiro-Mirim, da Disney. Ficou cheio de idéias mirabolantes para travessuras e diabruras. Uma delas consistia em pregar uma peça numa pessoa. A brincadeira exigia um balde de plástico, uma corda, água e uma porta. O balde cheio d´água era equilibrado sobre a porta entreaberta. A corda amarrada a um prego na parede e ao balde impediria a queda sobre a cabeça da pessoa. Sopa no mel. Água com açúcar. Mole, mole.
A vítima foi o nosso pai. Alguma coisa parece ter dado errado com a armadilha, pois o balde se encaixou sobre a cabeça do meu pai. Ele estava vestido de terno, gravata, processos nas mãos, papelada de trabalho, livros de direito. Ficou ensopado. Não lembro qual foi a punição que meu irmão recebeu. Mas deve ter sido justa, razoável.
Meu pai sempre foi justo e razoável. E ao contrário de mim, que não escondo cara feia e parto para uma discussão aos berros, meu pai é discreto. Queria ter puxado a ele num monte de coisas boas, mas as virtudes e qualidades não costumam ser transmitidas geneticamente, azar o meu.
Uma das qualidades que mais admiro no meu pai é a sua disciplina. Ele tem uma força de vontade fantástica e consegue se impor sacrifícios e restrições com grande rigor, para alcançar seus objetivos. Isso vai da dieta rigorosa para diminuir a taxa de colesterol ao estudo diário para aprender a tocar um instrumento musical, para saber uma coisa nova, para aprimorar o conhecimento sobre algum detalhe das coisas que lhe interessam. Com ele, aprendi desde cedo que, na maioria das vezes, "querer é poder".
Mas também não adianta dar "murro em ponta de faca". Aprendi também que "a cavalo dado não se olha os dentes". E que é muito importante ser fiel "no pouco e no muito". E também que é muito importante agradecer. Obrigado. Thank you. Merci beaucoup. Muchas gracias. E é bem verdade que às vezes eu não agradeço o tanto que deveria agradecer, fico devendo e me esqueço. Não deveria, mas acontece, o ser humano é mesmo um poço de falhas e sucumbências.
Muitos anos depois, numa aula de catecismo aprendi o o quarto mandamento, "honrarás teu pai e tua mãe". Por algum estranho mecanismo cerebral, sempre liguei esse mandamento ao dia em que meu pai caiu na armadilha do meu irmão. É lógico que não me lembro de ver meu pai com um balde sobre a cabeça, ou com as roupas molhadas. Não me lembro sequer de ter visto um processo ou um livro empapado com água. Não me recordo de nada disso. Mas tenho forte na lembrança o assombro e a vergonha que se instalaram no rosto do meu irmão. De algum modo tenho certeza de que, na verdade, a armadilha era para mim. E não ter caído nela, ensinou muito a nós dois. Embora eu às vezes ainda seja teimoso e continue a querer colocar em prática uma idéias mirabolantes que eu tenho.
sexta-feira, 7 de agosto de 2009
Um dedo sujo

_Vossa Excelência é um caso de psiquiatria.
_Repita!
_Vossa Excelência é um caso de psiquiatria.
_Não aponte esse seu dedo sujo para mim.
_Coronel de...!
_Repita!
_Coronel de nada!
_Repita!
_Não aponte esse sujo dedo sujo para mim.
_Minoria com complexo de maioria!
_Dedo sujo com o dinheiro de jatinho!
_Cangaceiro!
_Dedo sujo é o seu!
_Repita!
_E o jatinho é meu! Não é de empreiteiro!
(E no final da semana, tudo acaba ao som de “Father and Son”, de Cat Stevens. Salvador Dali não iria conseguir pintar um quadro tão obsceno e maluco. O surrealismo pornográfico é a realidade da América do Sul. Eu prefiro Fábio Júnior!)
O paradeiro de Humberto Okafa
Eu estava voltando para casa outro dia. Liguei o rádio e lá estava a voz dele, inconfundível. Humberto, também conhecido como Okafa. Acho que já falei dele, aqui no blog. Humberto, o bom e velho canalha, o cafajeste mais simpático que conheci na vida. Apresentador de TV, voz bonita e grave das melhores emissoras AM e FM.
Como definir Humberto? Um mulherengo convicto. Um cara que não tolera sobrancelha levantada. Um sujeito que sabe qual é o seu lugar neste mundo, sentado, coçando. Por isso, ele não larga a cadeira. Humberto. Um gênio. Nunca emprestou dinheiro para ninguém. E também nunca pagou uma dívida. Um temendo mão-aberta. Com a grana dos outros. Um brincalhão incorrigível. Desde que a piada não fosse com ele. Um cara que nunca se contentou em ouvir um “não” como resposta. Tinha que ouvir vários. Muitos mesmo. Um cara que vencia pelo cansaço. Um cara sem medo de ser chato. Mas o melhor cara do mundo para fazer você rir de si mesmo.
quinta-feira, 6 de agosto de 2009
quarta-feira, 5 de agosto de 2009
Poema sobre a volta dos que não foram

Aconteceu, foi só isso.
Durante muito tempo me disseram
que nada disso era realmente meu e seu
Até que as cores se mudaram para outro hemisfério
As alegrias se extinguiram em brasa morna
As melodias se foram
As danças secaram
Sobraram as cinzas das florestas
Tocos de velas acesas
Jantares distantes
Festas remotas
E nem eram nossas, as cinzas
Se nada do que aqui havia
era realmente teu e vosso
só se perdeu o que não se tinha
o resto de uma carência
Mas nem por isso, abandona-se o ar triste
Ainda que a minha ausência não conte
Não importa
Quando eu era mais moço
Sentia falta de tudo o que eu queria
Emobra restasse reconhecer
que do nada também se sente falta
Agora, eu sei,
Mas não há consolo
em se saber estúpido
(O aquarelista desenha bombas)
terça-feira, 4 de agosto de 2009
Adeus para a cafeteira daqui de casa
Faleceu no sábado a cafeteira daqui de casa. Durante dez anos, essa cafeteira serviu a todos nós, fielmente. Era simples, muito simples, essa cafeteira. No máximo, conseguia fazer 12 xícaras de uma passada. E cumpria sua missão com algum ruído, inconfundível. Era o barulho dos últimos vapores de uma coada. O som era acompanhado de um aroma também inconfundível, delicioso, de bem-estar. E ao som e ao aroma se somava a água na boca.
Lembro de quando ela chegou, ainda embrulhada de presente de casamento, uma beleza. Nós, eu e minha mulher, colocamos ela para trabalhar na primeira noite, quando nos instalamos no primeiro apê. Era um super-apê. E nós nos instalamos com apenas duas cadeiras de praia e um colchão. Nossa primeira “mesa” no apê de recém-casados foi um improviso com caixas de papelão, embalagens, isopor. Nosso primeiro jantar nessa mesa era pra ter sido um especial de queijos e vinhos. Mas não deu. O panaca que vos fala vacilou no supermercado. Os queijos para o fondue não vieram. Só o vinho. Minha mulher fez omelete. E depois do jantar, nosso primeiro café de máquina. Foi nota dez.
Desde então, essa cafeteira se tornou inseparável das coisas boas daqui de casa. Minha mulher tentou outras mais bonitas e incrementadas. Mas elas quebraram antes, eram reservadas para visitas chiques. Essas frescuras. A cafeteira de sempre era essa simples, a falecida.
E ela faleceu num dia bonito, essa cafeteira. Acendeu a luzinha vermelha, como sempre. Fiz o leite com chocolate que o menino gosta. Fiz o leite com o coisa de morango que a menina gosta. Mas nada da água esquentar. Esperei mais um pouco. Não esquentou mesmo. Aí bateu uma tristeza de perder a cafeteira. Eu gostava dela. Ela nunca havia me desapontado. Uma vez até a minha mãe elogiou o meu café, que ela fez, essa cafeteira. Fiquei triste.
E achei que os meninos também iam ficar tristes. Mas eles nem perceberam.
Comentei com a minha mulher e ela também não ligou muito. Acho que só eu é que sou meio apegado a essas coisas bestas, sem o menor sentido. Eu guardo um monte de coisa velha. Até coisa velha e quebrada eu guardo. E eu até pensei em guardar a cafeteira, para mandar para o conserto, algum dia.
Mas depois eu pensei bem. Eu nunca iria levar a cafeteira para o conserto. Não valeria a pena. Nessas coisas, o conserto fica quase tão caro quanto um aparelho novo. E depois que uma coisa dessas se quebra, nunca fica igual. Com certeza, essa cafeteira consertada não seria a mesma.
Por isso, no dia seguinte, no domingo, comprei uma cafeteira substituta. É bacana ela. É bem simples. Também faz 12 cafés com uma passada. Mas não faz barulho nenhum. É silenciosa.
E a minha mulher se desfez da outra cafeteira. Eu não tive coragem.
segunda-feira, 3 de agosto de 2009
domingo, 2 de agosto de 2009
Domingo, pé de cachimbo


Hoje é domingo pé de cachimbo,
o cachimbo é de barro
bate no jarro,
o jarro é fino
bate no sino,
o sino é de ouro
bate no touro ,
o touro é valente ,
bate na gente
a gente é fraco
cai no buraco ,
o buraco é fundo,
acabou-se o mundo….
Hoje é domingo
Pé de cachimbo
Cachimbo é de barro
Bate no jarro
O jarro é de ouro
Bate no touro
O touro é valente
Chifra a gente
A gente é fraco
Cai no buraco
Buraco é fundo
Acabou o mundo
sexta-feira, 31 de julho de 2009
Abraço de pai
Eu me considero um pai amador. Tenho dois filhos, um casal. E pai profissional tem, no mínimo, três. Eu conheço uns caras que têm três filhos. E um ou outro que têm quatro. Admiro muito. Se usasse chapéu, eu tiraria para esses caras. É preciso muita coordenação. Também é preciso ter uma certa disciplina, que reconheço faltar em mim. É muita responsabilidade.
Também é preciso ter auto-controle, coisa que às vezes me escapa. Sou meio explosivo. Criança observa tudo e com dois filhos já é difícil, é difícil. Principalmente manter a pose de durão e sabichão. Até os dez anos de idade, é muito importante manter essa pose, dizem os especialistas em paternidade. Os pais profissionais que eu conheço assinam embaixo. Eles também explicam que o bom exemplo de dureza e sabidice só dura até essa idade, depois os meninos desandam a desafiar a autoridade, viram comunistas rebeldes revolucionários e colam poster do Che Guevara na parede. Sem falar que exigem aumento de mesada.
Por tudo isso, eu sei que eu sou um pai amador. Especialmente se vamos todos ao cinema. Manter a pose de durão e sabichão é fogo. Porque aí eu preciso tomar cuidados redobrados, ler a sinopse do filme. É que eu não posso ver abraço de pai e filho em filme de Hollywood. É uma fraqueza minha, tenho de admitir. É bem verdade que os americanos capricham demais nessas cenas. A música fica exultante, no melhor estilo "Jesus-alegria-dos-homens". Os olhos dos atores brilham, a fotografia fica mais tenra que alface recém-tirada da horta. É uma beleza. Nessa hora eu procuro disfarçar com uns espirros, mas a minha mulher já me conhece e sempre aperta a minha mão no cinema, numa espécie de afago de consolo. Não adianta nada, é claro. Mas no escuro do cinema, os meninos não vêm e tudo passa despercebido, graças. Daí a pouco eu tiro os óculos e fico esfregando os olhos.
_Esses meus óculos não valem nada - eu digo para minha mulher.
_É, eles sempre te fazem lacrimejar no cinema - ela diz, como se me avisasse que é melhor eu ficar por aí, senão o gato sobe no telhado.
E eu fico. Cena de abraço de pai e filho no cinema é demais. É demais.
(Feliz Dia dos Pais a todos os pais e ao Meu Pai e ao Meu Irmão, profissionais com mais de três)
quinta-feira, 30 de julho de 2009
O meu sentido-de-aranha
Às vezes eu acho que estou me repetindo nesse blog. Mas talvez não. Talvez ainda não tenha falado do meu sentido-de-aranha. Naturalmente, percebi com a tenra idade de oito anos que o meu destino e o de Peter Parker, o Homem-Aranha dos quadrinhos, estavam unidos por uma singularidade.
Lembro de passar manhãs e tardes de alguns dias das férias mergulhado no mar de gibis que havia dentro de um cofre. A parte de cima do cofre era inacessível em altura e tranca de segredo. Mas ali, por trás da portinhola de aço, na parte de baixo, protegida por uma fechadura simples, havia uma porção de revistas em quadrinhos do Peter Parker. Naquela parte do cofre meu primo escondia ,de mim e dos outros primos, a sua preciosa coleção de revistas em quadrinhos.
Eu era um menino franzino e míope. Catarrento. Asmático. Pés chatos. E perebento. Comparado com a bailarina da música do Chico, eu tinha tudo o que ela não tinha, mais as frieiras, chulé, caspas e verrugas, montes de verrugas. O cofre ficava no laboratório do consultório do meu tio e padrinho Izaías. Ele era dentista prático. Na época, dentista formado morava na capital. E meu tio morava numa cidadezinha, lá no interior da caixa prego. E um dia, um belo dia, meu tio me deu uma cópia da chavinha do cofre.
Mergulhado nas aventuras de Peter Parker descobri em mim o fantástico sentido-de-aranha. Nos quadrinhos, o sentido era uma espécie de vibra-call que alertava o Peter sobre os vilões. Era um aviso dos perigos que se aproximavam.
Só que em mim, o sentido-de-aranha nunca foi um vibra-call. Sempre foi mais um frio na barriga, um zumbido nos ouvidos, uma coceira macabra. Era como um calafrio que me dizia para ficar calado, de vez em quando. Era ele que me recomendava cautela e caldo de galinha quando tinha vontade de mandar alguém implodir. Era físico-mental, uma eletricidade que me congelava o coração. Me ajudou muitas vezes. Me salvou a pele. Sobrevivi a diversos desastres graças ao meu sentido-de-aranha. Mas às vezes, ele falhava, esse sexto sentido.
As falhas começaram na mesma época em que descobri o meu sentido-de-aranha. Ele falhou quando eu ainda era menino, no dia em que um cachorro entrou na frente da minha bicicleta. Quebrei dois dentes. Falhou quando não percebi que Sidão, o professor de Educação Física da sétima série, estava olhando enquanto eu o imitava. Duzentas flexões de braço e quase uma semana sem nem conseguir escovar os dentes, os braços doíam muito. Falhou quando tive que brigar na saída da escola. Uma cicatriz no rosto, sete pontos na cabeça.
Falhou miseravelmente durante a adolescência, quando levei a pior em muitas situações. Falhou quando eu entrei para a universidade e quebraram o meu nariz. Falhou depois que eu me formei e quebrei a cara. Depois disso, aliás, falhou várias e várias vezes.
E é engraçado como é mais fácil lembrar mais dos fracassos do que dos sucessos.
Até que eu achei que tinha perdido o meu sentido-de-aranha.
Até ontem, quando acordei de madrugada, suando frio. Fui até a janela e olhei para todos os lados. Não consegui perceber nada de diferente no horizonte. Mas poucos minutos antes, o meu universo havia se desintegrado enquanto eu estava sob as cobertas. Tomara que tenha sido só um sonho ruim. Tomara que não seja o sentido-de-aranha. Tomara que esse sentido esteja falhando. Tomara que tenha sido apenas um ataque de pânico. Essas coisas acontecem. Ou então estou com uma alergia qualquer, a dipirona sódica, igual ao Bono.
quarta-feira, 29 de julho de 2009
A volta às aulas e o Careca
A volta às aulas de anteontem não valeu. Minha pequena princesa ficou em casa. Foi porque ela esteve doente, com febre, da quinta-feira passada até o sábado. A dor de ouvido exigiu até antibiótico.
Minha valente guerreira comeu iscas, feito um passarinho, nesses dias de dor de ouvido. E só no domingo voltou a ficar elétrica, como sempre. Agora já passou tudo, passou tudo. Mas o apetite ainda demora. Aí, na segunda-feira, por precaução, nós resolvemos deixar ela de molho no dia da volta às aulas. Assim, no dia da volta às aulas foi só o menino. Ele achou legal, mas sentiu falta da irmã.
Eu não saí de férias, então para mim não fez diferença. Acordei só um pouco mais cedo, para alguns minutos de leitura matinal no banheiro. Encontrei os conhecidos de sempre da escola nem tão alternativa, que é cara pra dedéu. Para mim e as torcidas reunidas, a volta às aulas foi só uma volta à rotina. Mas só até o final da tarde.
Parece que o bicho pegou lá em casa, na hora do jantar, lá pelas seis e meia. Rose, a governanta-cozinheira-babá-estudante-universitária-serviço-social, se disse ultrajada, quase aos prantos, num telefonema.
_As crianças se rebelaram. Elas nem comeram direito –reclamou a Rose para a minha mulher.
A Primeira Dama e Esposa Predileta, imediatamente acionou os serviços da irmã, a Tia Dê, que foi substituir a babá-faxineira-graduanda em dificuldades.
A volta às aulas afeta todo mundo. O trânsito piora. As pessoas voltam a olhar para o relógio o tempo todo. E a tensão aumenta.
As crianças sentem essas coisas no ar e ficam mais ariscas e sensíveis. Os adultos também. Além disso, a educação superior começa a afetar a segurança metodológica da Rose. Ela agora hesita entre as possíveis abordagens a adotar quando as crianças começam a berrar que não querem feijão às seis e meia da tarde.
_Oh! – diz a Rose. Quando antes ela driblava as crianças numa boa.
Quando cheguei em casa, tudo já estava tranqüilo. Agradeci a Tia Dê e depois que ela saiu tentei esclarecer a crise, mas tenho convicção de que jamais alcançarei a verdade. Até porque, não importa.
Mesmo assim, perguntei ao meu filho o que havia acontecido.
_Nada, eu só fiquei contanto piadas – ele me disse, lampeiro e fagueiro.
_É paiê, só piadas. Piu! – disse a menina, toda sabida.
Por via das dúvidas, o vídeo-game está suspenso até comprovação de bom comportamento.
terça-feira, 28 de julho de 2009
Igual a Ahab

Runaway Train, um filme dos anos 80 estrelado por Jon Voight, tem uma cena que não sai da minha cabeça. Voight faz um presidiário que foge da prisão e vai parar num trem, junto com um estuprador(Eric Roberts) e uma improvável mocinha clandestina fugindo de alguma coisa(Rebecca DeMornay). Não lembro direito o que ela faz no filme, mas não tem importância. A cena inesquecível não inclui a Rebecca.
Para mim, o trem de Runaway Train é uma espécie de Moby Dick de metal retorcido, gelado e congelado, que não vai parar até levar você para o abismo infernal. Moby Dick, convenhamos, é das melhores coisas da literatura ocidental. Eu soube de literatos que se ajoelham e recorrem ao silício quando mencionam Moby Dick. Soube que em alguns círculos, o culto a Moby Dick de Melville já extrapolou a auto-flajelação, os incensos e tílbures, e exige rituais mais elaborados, com virgens e eunucos entoando canções à capela, ao fundo. Alguns fissurados usam trajes especiais e só abrem as páginas do livro ao som de línguas mortas acompanhadas por cítaras com “Don´t kill the whale”, do Yes, numa versão em minimug.
Ou seja, para falar dessa cena, eu tenho que dar uma volta por Moby Dick, de Herman Melville e também pela versão cinematográfica de John Houston, de 1956, com roteiro do mestre da ficção científica Ray Bradbury. Richard Basehart, que na TV mais tarde faria o Almirante Nelson de “Viagem ao Fundo do Mar”, está no papel do jovem marujo narrador de Melville. Quequeg, o índio fatalista, é sensacional(todo livro genial tem um índio fatalista). No filme, Gregory Peck faz o melhor e mais terrível Ahab de todos os tempos. O blasfemo, o praguejador, o homem obcecado com uma grande baleia branca.
Mas é aí que está o engano. Os não iniciados lêem o romance de Melville como se fosse apenas a história de uma vingança contra um monstro da natureza. Não é apenas isso, ó minha Kombi de leitores. Depois que eu li pela quinta vez esse maravilhoso livro e vi, pela terceira vez, esse fantástico filme, percebi os motivos que levam tantos homens e mulheres de bem aos limites do culto profano a esta obra. Lá pelo final, Gregory Peck/Ahab irrompe em impropérios contra a baleia e pragueja contra os céus ao arremessar o arpão, furioso, contra o gigantesco cachalote branco. O monstro o arrasta, com o olho maligno aberto, para as profundezas. Preso às cordas no lombo da baleia, com apenas um braço solto, Ahab parece convidar a todos para segui-lo. O único que escapa é o jovem marujo. Mas ali, antes de arremessar o arpão, eu percebi um sorriso no rosto de Ahab. Seria mesmo um sorriso, ou uma careta, um esgar?
Pois na minha cabeça, essa imagem do Ahab também se mistura com a cena inesquecível de Runaway Train. Jon Voight está sobre o trem, a grande velocidade. Neve e gelo por todos os lados. Um oceano de brancura. Faz um frio horroroso. E você vê Voight, o fugitivo, retesar todos os músculos do rosto marcado de cicatrizes. Caramba! É mesmo uma careta e um sorriso, ao mesmo tempo. É a expressão de um homem que segue em frente com uma disposição tão inexorável quanto o seu próprio destino. Ele perdeu. Mas venceu. E o sorriso careta é porque ele sabe que só vencerá se perder. Mas é ele que decide ir até o fim. Só ele. Igual ao Ahab.
segunda-feira, 27 de julho de 2009
Não ponha aspartame no meu café
Em outras plagas se toma chá. Aqui é café. Preto. Forte. E eu prefiro com açúcar. Aliás, eu e todo mundo preferimos com açúcar. Mas alguns não podem. Eu ainda acho que posso. Mas estou começando a duvidar, porque de uns tempos pra cá sempre me perguntam:
_Açúcar ou adoçante?
_Açúcar - eu digo. E aí a pessoa faz cara de surpresa e diz “oh”!
_Açúcar ou adoçante?- a pessoa insiste, mais alto, com a convicção de que eu não escuto bem.
_Açúcar – eu repito. E a pessoa faz aquela cara de “o-surdo-quer-morrer-o-problema-é-dele” e libera um envelopinho de açúcar. Um só. Dos pequenos.
Antes não era assim. Não, senhor.
As pessoas nem perguntavam. Olhavam para mim e a minha careca ainda nascente e traziam o café e os envelopinhos com açúcar. Havia inclusive algumas ocasiões em que eu dava bronca.
_Garçom, que coisa marrom é essa aqui?
_É açúcar mascavo, doutor!
_Ah, bom! Mas parecia rapadura ralada.
Agora querem me empurrar o aspartame. Às vezes me distraio e misturo esse adoçante diaraque. O arrependimento é instantâneo. É uma droga esse aspartame. Sempre deixa um gosto azedo no final, bem no fundo da boca. E o gosto ruim não passa fácil. Então, prefiro açúcar. Mesmo que as minhas veias já não sejam mais as mesmas.
_Você está ficando barrigudo, Careca! – diz a minha consciência.
_Quiéisso! Estou em forma! – eu falo para mim mesmo.
_De pêra! Está em forma de pêra! Ou então de barril! – ela insiste.
_Eu vou voltar a malhar! – eu digo para a minha consciência.
_Voltar? Você não malha nem o Judas, Careca!
_Malho. Malho. Malho muito.
_Nem governo, Careca! Ultimamente, nem governo você tem malhado – reclama a minha consciência.
E é verdade. Tenho que dar o braço a torcer. Ando meio com preguiça de malhar. Até governo. Para se ter uma idéia, nem senador eu tenho malhado. Mas desde que não coloquem aspartame no meu café!
domingo, 26 de julho de 2009
Uma longa tira de desenhos
Numa dessas andanças pela Internet, aprendi a fazer uma longa tira de papel a partir de uma folha A4 qualquer. É uma tira sanfonada. Com esse papel e minha imaginação limitada, desenhei uma girafa com um longo pescoço sanfonado. Depois desenhei uma cobra com muitas curvas. Também fiz um coqueiro muito comprido. E um prédio muito, muito cheio de andares e janelas. Depois fiz uma escada. Bem comprida.
E com essa sanfoninha minha filha passa uma hora a desenhar. E eu vou conferir.
_O que é que você tanto desenha?
_Gelatinas! - ela responde.
Ela fez uma longa tira de gelatinas, muito coloridas.
sábado, 25 de julho de 2009
O aniversário da minha irmã
É aniversário da minha irmã mais velha, neste domingo. Naturalmente, não me lembrei de comprar presente. Eu nunca lembro. Quer dizer, eu sempre lembro com grande antecedência e depois vou adiando, adiando, até que me esqueço e só me lembro na véspera ou no próprio dia do aniversário. O que não é a mesma coisa que esquecer. Uma vez cunhei um termo técnico para isso. Como é mesmo o nome desse fenômeno? É mesmo muito comum. Chega a acontecer muitas vezes comigo e até no mesmo dia.
Sim, eu sei, o resultado é igual. Todo mundo leva uma lembrança e eu, o Mano Mané, chego de mãos abanando. Mas, veja bem. Eu realmente me lembro de todos os aniversários da família. Tenho isso anotado em algum lugar. É uma lista bem feita, manuscrita. Preferi escrever a mão, que a minha memória é bem visual, até hoje lembro de uma revista que tinha a Matilde Mastrangi na capa. Também não sei mais quem é ela, mas lembro das fotos dela numa revista. Os cabelos curtos. Fevereiro de 1984.
Encontrei. A minha lista. Estava bem aqui, na gaveta da mesinha do computador. Tenho todos os aniversários da família e de alguns amigos anotados nessa folha de papel. Caprichei na letra. Usei uma caneta gel, preta, Uniball Vision Elite. Tenho certeza absoluta. Até porque costumo usar essa caneta para anotações a mão e é ela que fica de plantão na mesinha do computador. Está aqui agora. Confirmei na lista. É neste domingo.
Penso num monte de desculpas. Penso num monte de flores. Mas aqui nessa cidade as floriculturas não costumam abrir aos domingos. Seres humanos desesperados muitas vezes são obrigados a ir até ao Campo da Esperança, o cemitério da cidade, para comprar umas flores de última hora. Prefiro não fazer mais isso. Levar flores com cheiro de “Descanse em paz” para aniversário não é legal. E depois do episódio com os jornais do meu vizinho, é melhor não correr riscos desnecessários. Afinal, toda família tem seus melindres.
O melhor é dizer a verdade. Pois é. Não foi esquecimento. Eu chamo esse fenômeno de procastinação relativizada. Isso não diminui, nem um pouco, o mico de chegar no aniversário de mãos abanando. Mas para que serve um vocabulário de mais de 4 mil palavras se você não usa os poucos verbos e substantivos que você sabe?
sexta-feira, 24 de julho de 2009
As coisas funcionam
Carta para a Mag-lite
Prezados Senhores,
Gostaria de congratulá-los pela fabricação desse excelente produto. Possuo duas MagLites (uma pequena Solitaire e uma grande) e sempre estive satisfeito com o que elas me oferecem, especialmente a Solitaire, que me acompanha há 10 anos. Não sou um tolo para achar que uma lanterna serve apenas para iluminar um ambiente. As Mag-Lites fazem mais do que isso, como vocês devem saber muito bem. Além de prover uma iluminação portátil e eficiente, com uma luz de intensa clareza e beleza, as Mags que possuo sempre me transmitiram a sensação de estar iluminando um ambiente com grande segurança, intensidade, conforto e estilo. Mas, hoje, a pequena Solitaire também participa freqüentemente da minha vida familiar.
Tenho dois filhos (uma menina de 4 e um menino de 6 anos) e a principal brincadeira depois de ler uma história antes de dormir consiste em desligar a luz e brincar de sombras nas paredes do quarto. A iluminação, não preciso dizer, vem da Mag-Lite Solitaire. O sistema de ajuste do facho de luz, que permite regular a intensidade do belo jato luminiscente da lanterna é especialmente divertido nessa hora.
O ponto luminoso pode ser a pupila do olho de um dinossauro. O largo círculo de luz, com suas franjas esbranquiçadas, parece a íris gigantesca de um ogro que nos olha do teto. A seguir, as sombras dos bichos que conseguimos fazer com a ajuda da Solitaire nos levam da África para a Ásia, e depois nos trazem de volta para casa. A pequena Solitaire e seu cordão de chaveiro nos ajudam a voltar em segurança, pendurados no bico do pássaro Roca.
As duas lanternas já nos auxiliaram em diversas situações, sendo a mais corriqueira a falta de luz no bairro em que vivo. Mas, efetivamente, a lembrança da brincadeira de luz e sombra com as crianças será sempre a mais forte ligação entre a marca Mag-Lite e a minha família. Por gostar tanto da pequena Solitaire e pelo que ela representa para mim e meus filhos, gostaria perguntar a vocês se é possível comprar somente a lâmpada dessa lanterna. A lâmpada original se queimou e a lâmpada-estepe embutida na rosca da Solitaire está sendo utilizada há dois anos.
Agradeço a atenção.
Continuem com o ótimo trabalho de vocês.
CARECA
No mesmo dia, recebi a resposta da matriz americana da Mag-lite, indicando o endereço eletrônico e o físico para correspondência com um representante nacional.
Vinte e quatro horas depois eu recebi uma resposta muito atenciosa do representante nacional das Lanternas Mag-lite, a Victorinox.
Pô, eu queria que as coisas do meu país também funcionassem assim, de bate-pronto.
quinta-feira, 23 de julho de 2009
O Careca e a pílula dourada do Patolino
Muita gente faz um esforço extraordinário para que uma coisa simples pareça extremamente difícil e complicada.
Eu também.
Eu procuro dourar a minha pílula ao máximo. Se eu não fizer isso, ninguém fará por mim. É lógico que me sinto um chato, dourando a minha própria pílula. Enchendo a minha própria bola. Inflando a minha linguiça. Puxando a brasa para a minha sardinha. Fazendo a minha marola. Pegando a castanha com a mão do gato.
Na minha cabeça, fico parecendo o Patolino. Sabe aquele pato preto, que tem inveja do Pernalonga? Pois então. Às vezes eu me sinto como o Patolino, sapateando e depois pulando do trampolim dentro de um copo dágua. Dali de dentro vejo os Pernalongas, sorridentes e tranquilos, mais valorizados e levando a melhor.
Muitas vezes eu torço contra o Pernalonga e o Bip-bip(aquele avestruz psicodélico super-veloz que enlouquece um lobo no deserto). Mas eles sempre vencem. Os dois são criações de roteiristas velhacos.
Sim, senhor. Às vezes eu acho que o gigantesco complô anti-Careca realmente existe e que só falta um minuto para que ele aconteça. Às vezes eu olho para o lado e imagino que daí a pouco dezenas de paraquedistas descerão dos helicópteros e me cercarão, as metralhadoras automáticas apontadas para a minha barriga. Sou um alvo fácil demais, eu penso. As forças ocultas e misteriosas que já vitimaram figuras históricas também agem contra mim.
Mas passa depressa.
quarta-feira, 22 de julho de 2009
Os belos lustres daqui de casa
Minha mulher escolheu belos lustres aqui pra casa. E também já instalamos os rodapés. Eles não são de madeira. Parecem à beça com os de madeira, mas não são. São de uma espécie de plástico. Uma máquina enorme e barulhenta instalou todos os rodapés numa tarde dessas. A máquina parecia daquelas máquinas que fazem rosca em PVC. Era verde. Fez um barulho infernal, mas eu não estava em casa.
Com essas duas coisas, terminou a reforma. Quando começou, parecia que não ia ter mais fim. Mas acabou bem antes do meu pessimismo admitir.
E agora eu estou na varanda, onde montei uma nova mesa de trabalho, super bonita. E eu olho para os lustres, que são lindos. Quer dizer, não são lustres. São luminárias. Têm o formato de uma mesa de dois pés, de cabeça para baixo. E iluminam bem. Mas não são lustres, eu acho.
Aí eu reparo na mesinha. Tem uma mesinha aqui em casa que, na verdade, é uma espécie de um mistura de um revisteiro com um carrinho de bebidas. Tem rodinhas, essa coisa. E embaixo dela tinha um monte de jornais. Eu só compro jornal na quinta-feira. Então presumi que os jornais eram do vizinho de frente, que está viajando.
_Mulher, você pegou os jornais do vizinho? - eu pergunto, só para puxar conversa.
_Ele está viajando. E a pilha estava tão grande que não dava para abrir a porta do elevador.
_Hum, hum. Sei. Mas os jornais são dele.
_Depois a gente devolve.
_Mas ele vai achar que eu peguei para ler.
_Então não devolve.
_Aí, é pior. Ele vai achar que eu roubei mesmo.
_Deixa disso. É só devolver.
_Não senhora. Vai parecer que eu fico roubando jornal o vizinho.
_Não seja bobo. Não é você que vive dizendo que jornal velho só serve para embrulhar peixe.
_Eu digo isso a você e não ao vizinho. Vai ver, ele nem conhece esse dito.
_Até parece!
_Já posso ver ele conversando com o porteiro. Comentando com os outros vizinhos, com as empregadas e babás. Falando que eu sou um "careca e ladrão de jornais".
_Ai, Careca, não complica. Os jornais estavam entulhando o corredor. Não dava para abrir a porta do elevador. Eu peguei e coloquei aqui em casa, em segurança. Ninguém mexeu nos jornais.
_ Ah, mas vai parecer que isso tudo é desculpa. E das mais furadas. É melhor prevenir do que remediar. Vou lá devolver tudo, agora mesmo.
E é lógico que assim que abri a porta, com o monte de jornais nas mãos, o elevador chegou com o vizinho de volta das férias.
terça-feira, 21 de julho de 2009
O plano
Meu filho e minha filha, seis e quatro anos respectivamente, estavam me esperando na porta do apartamento. É sinal de que estão tramando alguma coisa.
_Qual é o plano? - eu pergunto aos dois.
_Vamos esperar a mamãe chegar para dormir - eles dizem, juntos. Ensaiados. Planejaram cuidadosamente todos os passos. O plano é não fazer nada até a mãe chegar da universidade, onde leciona.
-Ótimo! É uma idéia excelente. Mas primeiro vamos jantar - eu digo.
_Mas paiê, vamos esperar a mamãe.
_Claro que vamos. Mas primeiro vamos jantar, que senão a barriga dói.
E depois do jantar, eu digo:
_Agora vamos escovar os dentes.
_Mas pai, nós vamos esperar a mamãe.
_Sim, isso mesmo. Vamos esperar de dentes limpos. É muito melhor.
_Ah, pai.
_E depois vamos colocar o pijama.
_Mas paiê, vamos...
_Sim, vamos esperar. Mas já vamos esperar de pijama, que fica mais fácil para dormir, depois.
E foi assim.
Eu os convenci a esperar já deitados. E depois, no meio da leitura de uma das histórias, eles dormiram.
Esta é a última semana de férias das crianças. Caramba, como passa rápido!
segunda-feira, 20 de julho de 2009
O Careca também queria ir à lua
O Careca é um lunático, tal como descrito por Cyrano de Bergerac, numa de suas maravilhosas declamações. O Careca é um pirado. Mas não é tão maluco quanto os caras que dizem que aquele "grande passo para a humanidade" nunca foi dado, que tudo não passou de invenção dos gringos.
Os caras foram lá, meu irmão. Hastearam a bandeira. Acamparam. Dizem até que fizeram xixi numa cratera, só para marcar território. E eu também queria ter ido. Simplesmente porque eu achava que nos dias de hoje isso já seria possível. Mas eu não era o único. Só pra citar alguém, Stanley Kubrick, com 2001, também achava que isso seria uma banalidade.
Viajar pelo espaço não tem o mesmo glamour, para dizer o mínimo. Para as mulheres, não tem a liberação afrodisíaca de Barbarella, elas já se liberaram. Para os homens, acabou-se a fantasia de descobertas mirabolantes , à Marco Polo. Para homens e mulheres, a mística espacial se dissipou no cipoal de informações das sondas espaciais, dos telescópios longínquos e nos estilingues keplerianos. O espaço é árido demais. É infinito demais em sua infinitude. Com extrema sorte, quem sabe, esbarramos numa bactéria inteligente, antes que a Terra esquente demais.
Aliás, acho que esse planeta já se cansou da humanidade. É por isso que está cada vez mais tórrido.
Sim, eu queria ter ido à lua se isso fosse possível. Nesse caso, certamente, eu iria à lua de classe econômica, numa excursão de muita gente, aproveitando uma queda no dólar. Dividiriaem dez vezes, no cartão, aproveitando umas milhagens e pontos.
Embarcaria, provavelmente, numa nave russa ou chinesa, que esquentaria muito na reentrada. O serviço de bordo deixaria a desejar e os americanos e alemães já teriam ficado com os melhores quartos, nos melhores hotéis, nas melhores crateras. Mas eu iria, sim. E lá, eu iria procurar pelos manos brazucas, que estariam reunidos e dando pulinhos, com os atabaques e pandeiros espaciais. É, minha gente, lá fora, no estrangeiro lunar, eu levaria minha caixinha de fósforo, só para fazer, bem de leve, a minha participação na percussão.
E quando ninguém estivesse olhando, com muito cuidado, também deixaria na areia da lua a marca da minha mão.
domingo, 19 de julho de 2009
O clima global

Não sei vocês, mas eu, de vez em quando, me dá uma descrença de tudo e a coisa baixa o astral. É só começar a ver aqueles programas de TV sobre o derretimento da calota polar, do aquecimento global, que começa a me dar uma leseira. E aí eu olho as noticias da gripe suína, também me dá uma paúra danada. Então eu procuro um livro na estante, é para isso que eu tenho uma estante. E aí eu encontro aquele livro que e queria tanto ter encontrado há duas semanas. Mas nem tenho mais vontade de ler.
sábado, 18 de julho de 2009
Quinhentos gigabites
Comprei hoje um hard-disk portátil de 500 GB. É do tamanho de uma carteira de cigarros. Nunca tinha pensado que um dia poderia ter tanta quantidade de informação disponível no bolso. É muito mais do que andar com a Biblioteca de Alexandria no bolso. E muito menos.
sexta-feira, 17 de julho de 2009
Mendigar não é mais crime
Foi publicada hoje a Lei 11.983. Em seu artigo primeiro ela diz:
"É revogado o art. 60 do Decreto-Lei no 3.688, de 3 de outubro de 1941 - Lei de Contravenções Penais. "
O tal artigo dizia o seguinte:
Art. 60. Mendigar, por ociosidade ou cupidez:
Pena – prisão simples, de quinze dias a três meses.
Parágrafo único. Aumenta-se a pena de um sexto a um terço, se a contravenção é praticada:
a) de modo vexatório, ameaçador ou fraudulento.
b) mediante simulação de moléstia ou deformidade;
c) em companhia de alienado ou de menor de dezoito anos.
quinta-feira, 16 de julho de 2009
Nossos canalhas e o canibalismo
Até mesmo nossos melhores canalhas choram. Já reparou? Por isso, aqui vai um trecho de um dos melhores poemas. É o canto oitavo do I-Juca-Pirama, de Gonçalves Dias. É a parte que o velho guerreiro, pai do Tupi chorão, o amaldiçoa.
I-Juca-Pirama
VIII
"Tu choraste em presença da morte?
Na presença de estranhos choraste?
Não descende o cobarde do forte;
Pois choraste, meu filho não és!
Possas tu, descendente maldito
De uma tribo de nobres guerreiros,
Implorando cruéis forasteiros,
Seres presa de vis Aimorés.
"Possas tu, isolado na terra,
Sem arrimo e sem pátria vagando,
Rejeitado da morte na guerra,
Rejeitado dos homens na paz,
Ser das gentes o espectro execrado;
Não encontres amor nas mulheres,
Teus amigos, se amigos tiveres,
Tenham alma inconstante e falaz!
"Não encontres doçura no dia,
Nem as cores da aurora te ameiguem,
E entre as larvas da noite sombria
Nunca possas descanso gozar:
Não encontres um tronco, uma pedra,
Posta ao sol, posta às chuvas e aos ventos,
Padecendo os maiores tormentos,
Onde possas a fronte pousar.
"Que a teus passos a relva se torre;
Murchem prados, a flor desfaleça,
E o regato que límpido corre,
Mais te acenda o vesano furor;
Suas águas depressa se tornem,
Ao contacto dos lábios sedentos,
Lago impuro de vermes nojentos,
Donde fujas com asco e terror!
"Sempre o céu, como um teto incendido,
Creste e punja teus membros malditos
E oceano de pó denegrido
Seja a terra ao ignavo tupi!
Miserável, faminto, sedento,
Manitôs lhe não falem nos sonhos,
E do horror os espectros medonhos
Traga sempre o cobarde após si.
"Um amigo não tenhas piedoso
Que o teu corpo na terra embalsame,
Pondo em vaso d’argila cuidoso
Arco e frecha e tacape a teus pés!
Sê maldito, e sozinho na terra;
Pois que a tanta vileza chegaste,
Que em presença da morte choraste,
Tu, cobarde, meu filho não és."
Depois, no final do poema, o Tupi chorão acaba provando que possui valentia.
Mas não sei, não. Sempre achei o final meio remendão. Acho que os Aimorés piscaram o olho e cruzaram os dedos. E decidiram comer uns pedaços assados do guerreiro chorão, só de piedade e em respeito ao pai Tupi, que teve a decência de levar o filho para ser devorado, como se devia. Vai ver, sobrou um tantão de cozido daquele Tupi canalha. Não valia um canapé.
Hoje em dia, na terra tupiniquim, os Aimorés deixariam passar pais, filhos, netos e apaniguados de um monte de gente. Diriam assim:
"— Mentiste, que um Tupi não chora nunca,
E tu choraste!... parte; não queremos
Com carne vil enfraquecer os fortes. "
Mas acho que nossos melhores guerreiros canibais já se aposentaram ou então aderiram ao vegetarianismo mais verde, covarde e pusilânime.
quarta-feira, 15 de julho de 2009
No meio do caminho havia um Careca
Acho que tenho cara de "passagem".
Isso sempre acontece comigo. Já reparei. Em geral é mega-sena acumulada. Lá estou eu na fila, junto com trezentos outros esperançosos. A fila é longa, daquelas de fazer curvas. Como sempre acontece, estou na fila quando o boy daquela repartição leva um bolo de jogos dos colegas do trabalho. Também estou na fila quando alguém resolve pagar adiantado as contribuições sociais, pagar as contas do mês.
Essas coisas embolam a fila. Que acaba entrando no meio do caminho das pessoas. Então eu fico ali, na perpendicular de um caminho, no cruzamento de uma linha horizontal imaginária. Ali estou eu, no centro do xis. E é na minha frente que todo mundo vem passar.
Não é sacanagem. A fila anda alguns centímetros e mesmo assim continuo no xis do eixo imaginário dos passantes. Está devagar pra caramba. E eu sou a passagem. Penso então que é porque estou fazendo contato visual. As pessoas quando querem passar por um local procuram fazer contato visual, para se sentir seguras. Faço cara de paisagem. Olho sem foco para o infinito.
Não adianta. Todo mundo só passa por mim. Ando um metro e a coisa não se modifica. Coloco as mãos nos bolso. Assobio. Nada. Eu sou uma espécie de porta humana. Uma brecha na fila. Podem ser ferormônios. Sei lá. Olho para baixo. Fico pensando em luta de jiu-jitsu. Faço cara de mau. Nada funciona.
Será a minha careca? Será que ela é uma referência segura de passagem? Tento pensar como um transeunte qualquer. Eu evitaria cruzar uma fila no careca de terno e gravata. Carecas são muito enfezados. Faço cara de bad boy. Cruzo os braços. Não funciona. Eu sou uma espécie de guardião da vereda maneira. Se eu dissesse "passe por aqui" era bem capaz de obter o efeito inverso. Mas um guarda do shopping, pois estou no shopping, parece que adivinha o meu pensamento e se aproxima da fila.
_Xii - eu penso.
A proximidade do guarda aumenta a sensação de segurança dos transeuntes, só pode ser. O fluxo de pessoas que passam pela fila, exatamente onde estou, aumenta vertiginosamente. Felizmente, o guarda se afasta. O fluxo de pessoas diminui um pouco. A fila é uma enguia que se move muito lentamente. Ando mais um pouco. Em dez minutos mais meio metro. E mais meio. E mesmo assim, só passam por mim. Estou na boca do caixa e vem um sujeito querendo atravessar. É a minha vez e um sujeito se esgueira à minha frente e fala para a caixa:
_Moça, como é que eu faço? Paguei uma conta aqui, mas continua constando que não paguei.
_Leva o comprovante para uma agência que fica ok.
_Tem certeza?
_Claro.
Finalmente, é a minha vez. Consigo fazer a minha aposta. Olho para a fila e ali está ela, incólume. Ninguém atravessa a fila. Os passantes, todos eles, desviam da fila.
_Caramba! - eu penso. Caramba!
E quando estou quase chegando à escada rolante, onde já existe um pequena fila, uma manada de gente apressada cruza a minha frente. E só então eu entendo aquele poema do Drummond.
terça-feira, 14 de julho de 2009
Ninguém merece
Existem coisas que eu abomino. Uma delas é menosprezo. Prefiro a desconsideração total ao tratamento condescendente. Em geral, quando sou menosprezado, reajo com fúria e destempero. Com exagero.
Demorei a perceber que reagia dessa maneira. Era uma coisa tão natural e automática que eu nem mensurava. Nem percebia. Era uma reação desmedida.
Isso me trouxe fama de esquentado. Mas também me trouxe algum respeito.
Aí, veja só, comecei a achar que era orgulho besta. Que não precisava ser assim.
_Deixa de onda, Careca. Não vai criar caso só porque alguém insinuou que você hesitou - eu pensava.
_Não liga para isso, não. Você está acima de picuinhas - eu pensava.
-O quê? Perder tempo com besteira? Discutir por causa de migalhas é coisa de otário - eu pensava.
-Isso? Mas isso é tão pequeno! Mantenha o foco na floresta e não nas árvores. - eu pensava.
Mas pensava errado.
Quem insinua que você hesita, firma a convicção de que você não passa de um bunda-mole.
Quem vê você deixar passar as picuinhas, também acha que você deixará passar qualquer coisa.
E se você não discutir as migalhas da vida, corre o risco de só ter grandes filósofos com quem conversar, no hospício.
Por último, e não menos importante, com o foco na floresta, você vai topar numa árvore, com certeza.
Não espere respeito de quem não te trata com o devido respeito. Em geral,o desrespeito parte da pessoa que deseja que só você, o otário, seja condescendente, sem o ser nem um pouquinho.
Mas também não aporrinha. Se você vacilou, levante o braço e assuma a culpa, foi você, mesmo, pô, foi mal, prometa que vai melhorar, vai consertar e coisa e tal. Mas jamais, nunca, em tempo algum, permita, sem protesto, que alguém insinue falhas e omissões da sua parte. Porque esse alguém só espera a sua condescendência, o seu dar de ombros, para justificar, ainda que irrefletidamente, o péssimo tratamento que já lhe concede. E se você deixar passar, da próxima vez, a ofensa será maior.







