segunda-feira, 29 de outubro de 2007

O desconhecimento


De tudo o que não sei, o que mais desconheço é o que mais falta me faz.
Ainda recordo os dias em que soube de cor as músicas que me cortavam o coração.
E também o seu. E o de todos nós.
Já não sei mais os cortes que já me cortei.
Já não sei mais cantar música.
Já não sei mais acompanhar o vento com os meus cabelos. Aliás, já nem os tenho.
Já nem tento ver se tento ver arrefecer em tão pouco tempo o pouco de ódio que vi no seu olhar desatento.
E o tédio de louco que me provoca o meu próprio sustento.
Não existe acalanto que espante esses gritos distorcidos que me entopem a garganta.
Não existe mais música para meu desalento.
E vai chover.
O que diz a previsão do tempo?
Não sabem de nada os que desconhecem que o tempo se faz com calma, sem destempero, com a alma, sem desespero, com a chama, com a água, com o sopro e com um gosto de areia do mar no fundo do canto da boca.
Eu que já penei um lustro, dois lustros, três lustros, nem eram tigres, também já não sei, perdi o brilho de um início promissor.
A minha memória é feita de miçangas que parecem pequenos pedaços de espelhos.
Agora patino na lama dessa sarjeta pequena e escura.
Então desconheço o que não vejo mais em você, nem em mim.
Porque se é de ausências que se faz uma solidão, estou cheio de falhas completas.
Guardo multidões prestes a arrebentar o meu peito.
Falta só uma agulha para costurar um nervo exposto logo abaixo do meu coração.
Ali voltarei para mergulhar de novo na insanidade de mais dias e anos perdidos.
Depois disso, posso prosseguir sem descanso para meu precipício.
De lá, bem distante, vou contemplar achados que não valerão nada, nem mesmo os tesouros que perdi em resgate de um perdão.
Só eu sei que serão preciosos como o sorriso que eu vi escondido atrás do castanho dos seus olhos.

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